[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

[1707.] ALFREDO CALDEIRA [I]

* ALFREDO CALDEIRA (1908 - 1938) || MORTO NO TARRAFAL *

Alfredo Caldeira, importante dirigente do Partido Comunista na década de 30, foi um dos 32 presos políticos que perderam a vida no Campo de Concentração do Tarrafal.

Passou pelas principais prisões fascistas, esteve deportado em Angra do Heroísmo e quando integrou a primeira leva de presos enviada para a Ilha de Santiago já tinha cumprido a pena a que fora condenado. 

Morreu de uma biliosa, por falta de assistência médica, ao fim de vários dias de sofrimento. Tinha 30 anos de idade.

[Alfredo Caldeira || ANTT || RGP 1]

Filho de Sara de Castro e de Paulo Caldeira, Alfredo Caldeira nasceu em Lisboa, em 11 de Julho de 1908. 

Alfredo Caldeira cedo conheceu a repressão da Ditadura Militar através da detenção do seu pai no Forte de S. Julião da Barra, e do irmão, Heliodoro Caldeira, um ano mais novo, preso e deportado na transição da década de 20 para a de 30. 

Pintor decorador, tornou-se militante do Partido Comunista em 1931, na sequência da reorganização encetada por Bento Gonçalves em 1929 e cedo se destacou, ascendendo aos mais importantes cargos: em 1932, integrava já a direcção do Comité Regional de Lisboa, o Comité Central e o seu Secretariado, tendo responsabilidades na Organização Revolucionária da Armada (ORA) [Avante! N.º 1829, de 18/12/2008]. 

Em 1933, no seu último ano em liberdade, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado já tinha detectado a sua relevância política e partidária, conhecendo ser "membro responsável da Comissão Central da Organização do Partido Comunista Português, onde usa o pseudónimo de «Areias»" [ANTT, Cadastro Político 5276].

Em 27 ou 28 de Outubro foi detido em Faro, na sequência de uma deslocação ao Sul para organizar os Grupos de Defesa Sindical e reorganizar  o Partido e as Juventudes Comunistas junto do operariado.

Levado para a Penitenciária de Lisboa, foi transferido para Peniche e daí embarcou, em 19 ou 20 de Novembro, para a Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo. 

Nos Açores, o Tribunal Militar Especial, reunido em 20 de Agosto de 1934, condenou-o a 690 dias (23 meses) de prisão e à perda de direitos políticos por cinco anos, a contar dessa data.

[ANTT || RGP 1]

Nos Açores, participou "na luta dos presos contra as péssimas condições prisionais da Fortaleza" [Avante!], de onde regressou em 8 de Dezembro de 1935 e transferido para a 1.ª Esquadra da PSP a fim de ser libertado por ter terminado a pena imposta pelo TME.

No entanto, libertado em 10 de Dezembro, foi imediatamente preso pela Secção Política e Social da PVDE, "como medida preventiva" [ANTT, Cadastro 5276], e transferido, em 7 de Janeiro de 1936, para a Fortaleza Militar de Peniche.

Dois dias depois, por Ofício confidencial, o Comando Militar Especial de Peniche sugeriu que Alfredo Caldeira fosse "transferido daquela Fortaleza e, até, se possível for, para fora do Continente" [Cadastro].

Levado para o Aljube em 21 de Abril, integrou, em Outubro de 1936, o grupo de 152 presos que,  a bordo do navio Luanda, seguiu para inaugurar o Campo de Concentração do Tarrafal. 

Integrou, em 1937 e 1938, o Secretariado da Organização Comunista Prisional do Tarrafal [Avante!].

Em 17 de Novembro de 1938, contraiu a segunda biliosa, e faleceu em 1 de Dezembro, estando inscrito no Diário de um dos presos a seguinte passagem: "Morreu Alfredo Caldeira. Após longos dias de sofrimento finou-se hoje, mantendo até bem pouco antes da sua morte uma extraordinária lucidez de espírito e uma coragem moral invulgar. Mais uma vítima deste regime desumano de prisão. É a 10.ª morte" [Dossier Tarrafal, Edições Avante!, 2006, p. 158].

[Campa de Alfredo Caldeira || Fotografia tirada aquando da visita ao Tarrafal de Luís e Herculana de Carvalho (1949?) || Fundação Mário Soares]


Membro do Comité Central do Partido Comunista, quando Alfredo Caldeira faleceu já terminara, há quase três anos, a pena a que fora condenado. 

O irmão, o advogado Heliodoro Caldeira (15/12/1909 - 17/11/1966), que também conheceu a prisão e a deportação, soube do desenlace quando estava a cumprir, mais uma vez, pena em Peniche.

Fontes: ANTT, Cadastro Político 5276 e RGP 1; Avante! N.º 1829, 18/12/2008.

[João Esteves]

domingo, 30 de outubro de 2016

[1535.] OS QUE MORRERAM NO TARRAFAL [I]

* Abílio Augusto Belchior * 
[1897 - 29/10/1937]

Motorista.

Filho de Maria Joaquina e de Manuel dos Santos Belchior.

Vivia no Porto, na Rua Nova de S. Crispim, 220, quando foi preso em 2 de Janeiro de 1932 por fazer parte da Confederação Geral do Trabalho.

Acusado de participar em atentados com dinamite, foi condenado pelo TME a 14 anos de degredo.

Em 19 de Março de 1935, foi transferido da Cadeia da Relação do Porto para o Aljube de Lisboa, seguindo para Angra do Heroísmo em 23 de Março.

Enviado para o Tarrafal em 23 de Outubro de 1936, ali faleceu um ano depois, com cerca de 40 anos. 


[Albino António de Oliveira de Carvalho (1884-1941) || Comerciante]

[Albino Coelho Júnior (1897-1940) || Motorista]

[Alfredo Caldeira (1908-1938) || Pintor decorador]

[António de Jesus Branco (1906-1942) || Descarregador]

[António Guedes de Oliveira e Silva (1901-1941) || Motorista]

[António Guerra (1913-1948) || Empregado de comércio]

segunda-feira, 23 de junho de 2014

[0687.] MARGARIDA TAVARES FERNANDES ERVEDOSO [I]


[in Edmundo Pedro, Memórias. Um combate pela liberdade, Âncora Editora, 2007]
Nasceu em 1903, em Alcochete. 

Iniciou muito nova a sua vida afetiva e política: aos 14 anos ligou-se a Gabriel Pedro [22/04/1898-1972], com quem casou aos 15, já mãe de Edmundo Pedro [n. 08/11/1918], nascendo, dois anos depois, João (1920-1935) e, por fim, Germano Tavares Pedro. 

Margarida Ervedoso manteve, nos anos 30, intensa actividade política no Partido Comunista Português e chegou a ser um dos seus primeiros funcionários permanentes. 

Acompanhou o marido, deportado para Timor, em 1925, e depois, em 1928, para a Guiné.

Em 1931, radicou-se com o marido e o filho João em Sevilha. Aderiram ao Partido Comunista Espanhol e participaram ativamente os três no IV Congresso realizado naquela cidade.

Margarida Tavares, “então com 28 anos, também usou da palavra em nome da organização comunista das mulheres portuguesas”, por sinal inexistente [Edmundo Pedro, pp. 27 e 68]. 

Na sequência deste episódio, marido e mulher foram convidados pela direcção do PCP a ingressar nele “e regressarem clandestinamente a Portugal para se dedicarem, a tempo inteiro, à actividade partidária” [EP, p. 69], tornando-se funcionários políticos em 1932. 

Segundo as Memórias de Edmundo Pedro, a mãe aderiu totalmente às novas ideias e actividades e a família instalou-se em Lisboa, “com nomes fictícios, numa casa alugada pelo Partido, na Rua S. Sebastião da Pedreira” [EP, p. 69], transformada em sede central do PCP. Aí se reuniam os principais dirigentes, nomeadamente Alfredo Caldeira, Bento Gonçalves, Francisco Paula de Oliveira (Pável) e José de Sousa, e editava-se a imprensa clandestina, como o Avante! e o Militante

Pável refugiou-se nessa casa aquando da fuga do sanatório da Ajuda, em 1933. 

No Verão desse ano, enquanto funcionária do partido, Margarida Tavares deslocou-se a Sevilha e foi detida no regresso, na fronteira. 

Em 21 de setembro de 1933 deu entrada na Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado

Submetida a interrogatórios, negou tudo, foi enviada para a Cadeia das Mónicas e o processo seguiu, em 12 de outubro de 1933, para julgamento no Tribunal Militar Especial. Em janeiro de 1934, a mãe e Edmundo Pedro, ambos detidos, encontraram-se na prisão do Governo Civil, a que se juntaria pouco tempo depois o pai. 

Pedro Baptista da Rocha, activista da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas na década de 30 conta, no livro Escrito Com Paixão, como se cruzou com Margarida na sede da Polícia de Informações, estando ambos então presos [Pedro Rocha, p. 83], evocando “que em Espanha havia conhecido La Pasionaria no início da sua carreira revolucionária” e “era militante da secção feminina do Partido Comunista Português” [p. 84]. 

Margarida Tavares não chegou a ser julgada, ao contrário do marido e filho, voltou a ser transferida para a Cadeia das Mónicas e libertada alguns meses após a sua detenção, em maio. 

Passou a visitar o filho e marido no Aljube, onde, durante as conversas através do parlatório, acordou-se no divórcio perante a perspectiva da condenação daquele por muito tempo e na sequência da deportação para Angra do Heroísmo, para onde seguiu em 8 de setembro de 1934. 

Retomou a actividade política no Partido Comunista, funcionando quase como secretária de Bento Gonçalves, que a encarregava “do desempenho de tarefas semilegais inerentes à sua actividade de secretário-geral do Partido” [EP, p. 235, nota 38], e refez a sua vida com Afonso Silva, guarda-livros, deportado nos Açores que regressara havia meses: conheceu-o “no âmbito da actividade partidária” e “essa ligação manteve-se enquanto ambos foram vivos” [EP, p. 257]. 

Em maio de 1935, morreu, com 14 anos, o filho do meio, em consequência de violenta agressão após uma acção política realizada na Escola Fonseca Benevides, e nesse mesmo ano, com a detenção de Bento Gonçalves, “separou-se definitivamente do PCP” [EP, p. 349]. 

No primeiro volume das Memórias de Edmundo Pedro é inserida uma fotografia de Margarida Tavares Fernandes Ervedoso com cerca de 60 anos [EP, p. 130].

Foi inserida uma biografia mais desenvolvida em Feminae. Dicionário Contemporâneo [CIG, 2013]

[João Esteves]