[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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quinta-feira, 19 de julho de 2018

[1842.] CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO [I]

* CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO (1908 - 1959) || ALJUBE || CAXIAS || PENICHE || CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL *

Carlos Matoso foi um relevante militante do Partido Comunista na década de 30, tendo sido deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal em 1939, onde foi vítima de inenarrável violência e assistiu ao falecimento do seu camarada Bento Gonçalves. 

Regressou em 10 de Janeiro de 1946, “acabrunhado, tristonho, perdida a sua magnífica exuberância antiga" [Armindo Rodrigues], e exilou-se no Brasil, onde constituiu família e se suicidou em 3 de Março de 1959.

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Elisa Correia Dias Matoso e de José Matoso, nasceu em 15 de Julho de 1908, em Vila do Bispo – Algarve.

Estudante de Agronomia, aderiu à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, onde foi um importante quadro, juntamente com Carolina Loff da Fonseca, Edmundo Pedro, Francisco Paula de Oliveira (Pável), Fernando Quirino, Francisco Ferreira, Gilberto Florindo de Oliveira, Grácio Ribeiro, Manuel Rodrigues de Oliveira, Pedro Baptista da Rocha e Victor Hugo Velez Grilo.

Desempenhou, durante a década de 1930, actividade muito relevante no seio do Partido Comunista Português, tendo trabalhado, entre outros, com Bento Gonçalves, seu Secretário-Geral.

Fez parte do grupo que preparava acções para o 1.º de Maio e 1932, com recurso ao uso das bombas.

Terá sido preso em 24 de Abril, quando as experimentavam na Serra de Monsanto, juntamente com Abel Augusto Gomes de Abreu (gráfico da Casa da Moeda), António Franco Trindade, Álvaro Augusto Ferreira, Eduardo Valente Neto (marítimo), João Lopes Dinis (canteiro, faleceu no Tarrafal em 12/12/1941), Manuel Francisco da Silva (pedreiro) e Silvino Fernandes Costa (ajudante de farmácia).

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Em 1933 ou 1934, nasceu-lhe a filha Helena, fruto da sua relação com Carolina Loff. Esta e a filha recém-nascida partiram para a União Soviética, onde chegaram em Abril de1935, tendo Helena sido recolhida na escola internacional de Ivanovo.

Julgado à revelia pelo Tribunal Militar Especial em 20 de Outubro de 1934, foi condenado a dez anos de prisão no degredo e multa de vinte mil escudos, ficando, depois, à disposição do Governo.

Depois de andar anos na clandestinidade e procurado, foi preso pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) em 11 de Maio de 1938, aquando do assalto nocturno a uma tipografia clandestina, no Rego [Processo 562/938, enviado ao TME em 01/09/1938].

Levado para uma Esquadra incomunicável, entrou no Aljube em 3 de Agosto. Transferido, no dia 10, para uma Esquadra, tendo regressado ao Aljube em 23 e enviado para Caxias em 26 do mesmo mês.

Em 27 de Setembro, novamente transferido para uma Esquadra (a 1.ª) e, dois dias depois, seguiu para o Reduto Norte de Caxias, tendo sido enviado para Peniche em 1 de Novembro.

Voltou ao Aljube em 22 de Março de 1939.

Julgado pelo Tribunal Militar Especial em 10 de Maio de 1939, viu a pena de 20 de Outubro de 1934 ser agravada para doze anos e perda dos direitos políticos por cinco anos.

Em 20 de Junho de 1939, integrou a 6.ª leva de presos políticos enviada para o Campo de Concentração do Tarrafal, juntamente com Alberto Araújo e Augusto Valdez, de onde só foi libertado em 20 de Dezembro de 1945.

No Tarrafal, foi, como muitos outros presos, vítima de inenarrável violência, tendo assistido ao falecimento de Bento Gonçalves, que há muito conhecia e com quem militara no Partido Comunista: “Carlos Matoso ao notar aquela imobilidade, aquela qualquer coisa que logo nos fazia distinguir a vida da morte; pegou num pequeno espelho e aproximou-o à boca de Bento Gonçalves. Já não havia sopro de vida, e Carlos Matoso não pode conter toda a sua mágoa e toda a sua revolta. // - Assassinos! // O capitão Olegário fitou-o demoradamente e não tardou que o chamasse à secretaria para o esbofetear” [Tarrafal – Testemunhos, 1978].

Regressou em 10 de Janeiro de 1946: “Vinha acabrunhado, tristonho, perdida a sua magnífica exuberância antiga” [Armindo Rodrigues, Um poeta recorda-se, p. 223].

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

No Campo de Concentração, integrou o núcleo dirigente Organização Comunista Prisional do Tarrafal, juntamente com outros membros do Comité Central, alguns dos quais haviam tinham pertencido ao seu Secretariado, como Alberto Araújo, Francisco Miguel, Júlio Fogaça, Manuel Alpedrinha, Miguel Wager Russell e Militão Ribeiro.

No seu livro Um poeta recorda-se – Memórias de uma vida, o médico e poeta Armindo Rodrigues, amigo de convívio diário de Carlos Matoso durante a década de 30, tece-lhe os maiores elogios políticos, partidários e humanos:

Do Carlos Matoso nunca me adveio o menor perigo. Pelo contrário, quando o prenderam pela última vez, no assalto nocturno a uma tipografia clandestina, no Rego […] não disse uma palavra que pudesse comprometer-me” [p. 16].

“[…] homem honrado e inflexível” [p. 150].

 “Dos regressados da deportação, um era o meu amigo Carlos Matoso, a quem devo a mudez leal que a meu respeito manteve. Vinha acabrunhado, tristonho, perdida a sua magnífica exuberância antiga. E a breve trecho, por diligência do irmão rico, oficial da Aviação Marítima e genro único do banqueiro Soto Maior, emigraria para o Brasil” [pp. 223-224].

Exilado no Brasil, Carlos Matoso procurou reconstruir a sua vida e constituiu família: casou com 
Raimunda Mirtes Soares e do enlace nasceu Maria Tereza Matoso Sampaio. 

Em próximos postes, publicar-se-á o testemunho inédito, detalhado e comovente disponibilizado por Rodney de Castro Rodrigues, casado com a sua neta Rafaela.
  

[João Esteves]

sexta-feira, 15 de junho de 2018

[1834.] ARMANDO DOS SANTOS CALET [I]

* ARMANDO DOS SANTOS CALET || GREVE GERAL REVOLUCIONÁRIA DE 18 DE JANEIRO DE 1934 || ALJUBE || PENICHE || FORTALEZA DE S. JOÃO BAPTISTA (1935 - 1936) || CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL (1936 - 1945) *

Armando dos Santos Calet foi um dos muitos intervenientes da Greve Geral de 18 de Janeiro de 1934, tendo participado na sabotagem do Cabo Submarino entre a Trafaria e Porto Brandão. 

Preso em Agosto de 1934, foi deportado para a Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, e para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde sobreviveu dez longos anos.

[Armando dos Santos Calet || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Mariana Borges e de José dos Santos Calet, um dos militantes do Partido Comunista Português durante a 1.ª República, Armando dos Santos Calet terá nascido por volta de 1908, em Lisboa - Santa Justa.

Serralheiro da Fábrica de Material de Guerra, em Braço de Prata, e Secretário Administrativo do Sindicato do Pessoal do Arsenal do Exército, foi acusado de estar envolvido nos acontecimentos de 18 de Janeiro de 1934 e ter participado na sabotagem do Cabo Submarino, entre Porto Brandão e Trafaria [Processo 1227/SPS], e naquela efectuada na Fábrica onde trabalhava [Processo 1031/SPS].

O caso da Fábrica de Braço de Prata foi entregue a um Oficial da Polícia Judiciária Militar que, em 19 de Fevereiro de 1934, enviou o processo para a Repartição de Justiça do Governo Militar de Lisboa, a fim de ser enviado ao Tribunal Militar Especial.

Este, reunido em 5 de Maio de 1934, absolveu Armando dos Santos Calet.

[Armando dos Santos Calet || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Quanto ao outro acto de sabotagem, colaborou com Bartolomeu José da Costa, empregado da Companhia dos Telefones, Eurico Pinto Mateus [RGP/6244] e Silvino Augusto Ferreira [RGP/12592], Secretário-Geral do Sindicato do Arsenal do Exército, tendo como missão o corte de diversas redes telefónicas antes da eclosão da Greve Geral, bem como do Cabo Submarino da Companhia Portuguesa Rádio Marconi, cujas cabines se situavam no Portinho (entre Porto Brandão e Trafaria).

Na noite de 17 de Dezembro, seguiu do Cais do Sodré para Cacilhas, com Silvino Augusto Ferreira, onde os esperava Filipe José da Costa [RGP/1165], entre outros homens.

No Portinho, Armando dos Santos Calet participou directamente no corte de fios de duas das cabines do Cabo Submarino. 

[Armando dos Santos Calet || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Cumprida a sabotagem, andou fugido, só foi preso em 2 de Agosto de 1934, depois de ter regressado de Espanha, onde se refugiara, e prestou declarações em 18 de Agosto.

Enviado para o Aljube em 22 de Novembro de 1934, foi transferido para Peniche em 20 de Março de 1935, onde ficou até 8 de Junho.

Armando Calle foi deportado para Angra do Heroísmo em 8 de Junho de 1935, tendo o Avante! de Novembro desse mesmo ano chamado a atenção para o facto de se encontrar preso há 14 meses sem culpa formada.

Em 23 de Outubro de 1936, integrou a primeira leva de presos políticos enviada para o Campo de Concentração do Tarrafal [ANTT, Cadastro Político 5045]. Aí, integrou a Organização Comunista Prisional do Tarrafal (OCPT).

Permaneceu no Tarrafal dez anos, até 11 de Novembro de 1945, data em que foi libertado por ter sido abrangido pela amnistia de 18 de Outubro, embora só regressasse no navio "Guiné" em 1 de Fevereiro de 1946.


[CLNSRF || Presos Políticos no Regime Fascista (1932 - 1935) || 1981]

Em Lisboa, voltou a residir na Travessa do Maldonado, 3 - 2.º Esquerdo - Lisboa.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

O nome aparece grafado como Callet ou Calet.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5045 [Armando dos Santos Callet / PT-TT-PIDE-E-001-CX07_m0332, m0332a, m0332b, m0332c].
ANTT, Registo Geral de Presos / 302 [Armando dos Santos Calet / PT-TT-PIDE-E-10-2-302_c0220].
ANTT, Fotografia 2457 [Armando dos Santos Callet / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0008].

[João Esteves]

quarta-feira, 13 de junho de 2018

[1833.] FRANCISCO DA GLÓRIA PERROLAS [I]

* FRANCISCO DA GLÓRIA PERROLAS || PORTIMÃO || PRESO NO ALJUBE E EM PENICHE (1934 - 1935) *

Carpinteiro Naval, Francisco da Glória Perrolas foi preso em 1934 por integrar a organização comunista de Portimão e ser o reorganizador local do Socorro Vermelho Internacional.

A sua ficha do Registo Geral de Presos não contém fotografia que, no entanto, consta dos Livros de Cadastrados políticos da Torre do Tombo. Olhando-a com atenção, tudo indica ter sido torturado.

[Francisco da Glória Perrolas || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Maria João e de José da Glória Perrolas, Francisco da Glória Perrolas terá nascido em 1906, em Portimão, residindo na Rua do Craveiro - 12 quando foi detido.

Preso "por fazer parte da facção comunista de Portimão", ser "o reorganizador do Socorro Vermelho", "assistir a reuniões de carácter revolucionário" e estar envolvido num "plano de ataque à Força Pública, tendo recebido uma pistola e munições" [ANTT, Cadastro 5282], foi entregue, em 2 de Março de 1934, pelo Comando da PSP de Faro à Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado.

Organizado pelas autoridades do Distrito de Faro, o respectivo processo foi remetido para o Tribunal Militar Especial em 17 de Março de 1934 [Processo 1055-G], tendo Francisco da Glória Perrolas permanecido no Aljube entre 19 de Abril e 22 de Novembro.

[Francisco da Glória Perrolas || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Julgado pelo TME em 27 de Outubro e condenado a 12 meses de prisão correccional, "acusado de fazer propaganda de ideias contrárias ao actual estado da sociedade" [Processo 135/934, do TME], ficou encarcerado na Fortaleza Militar de Peniche entre 22 de Novembro e 18 de Fevereiro de 1935, data em que foi libertado.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5282 [Francisco da Glória Perrolas / PT-TT-PIDE-E-001-CX09_m0490, m0490a].
ANTT, Registo Geral de Presos / 229 [Francisco da Glória Perrolas / PT-TT-PIDE-E-10-2-229_c0066].
ANTT, Fotografia 2435 [Francisco da Glória Perrolas / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0012].

[João Esteves]

terça-feira, 12 de junho de 2018

[1832.] FRANCISCO DO NASCIMENTO ESTEVES [I]

* FRANCISCO DO NASCIMENTO ESTEVES  (1914 - 1938) || A MORTE, AOS 23 ANOS, NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL *

Francisco do Nascimento Esteves integra a lista dos 32 presos políticos portugueses falecidos no Campo de Concentração do Tarrafal.

Operário torneiro de metais com militância comunista, esteve preso no Aljube, em Peniche e, por fim, aquando da segunda prisão, foi enviado para o Tarrafal, onde faleceu em 21 de Janeiro de 1938, com apenas 23 anos de idade.

A sua ficha do Registo Geral de Presos não contém fotografia que, no entanto, consta dos Livros de Cadastrados políticos da Torre do Tombo.

[Francisco do Nascimento Esteves || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Júlia do Nascimento Esteves e de Luís Sérgio Esteves, Francisco do Nascimento Esteves nasceu em 1914, em Lisboa - Arroios.

Operário torneiro mecânico, foi preso em 27 de Junho de 1934, juntamente com Álvaro Martins e Manuel Venusto dos Santos Júnior [RGP/272], quando participava numa reunião de uma célula do Partido Comunista realizada na Quinta dos Apóstolos - Alto de São João [Processo 1190].

Aquela célula seria controlada por Manuel Venusto dos Santos Júnior e alguns dos presentes na reunião conseguiram fugir à polícia.

Transferido para a Fortaleza Militar de Peniche em 17 de Agosto de 1934, aí permaneceu até 18 de Janeiro de 1935, quando deu entrada no Aljube.

[Francisco do Nascimento Esteves || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Julgado pelo Tribunal Militar Especial em 19 de Janeiro, foi condenado a seiscentos dias de prisão correccional e perda dos direitos políticos por cinco anos [Processo 198/934, do TME].

Transferido, de novo, para Peniche, terá saído em liberdade em 22 de Fevereiro de 1935, quando completou os 600 dias a que fora condenado e, assim, "haver terminado a pena imposta pelo Tribunal", ou em 22 de Fevereiro do ano seguinte [ANTT, Cadastro Político 5682; RGP/232].

Em Março de 1936, foi alistado como soldado recruta no Batalhão de Aerosteiros, com o Nº 109, tendo, nesse mesmo mês, sido "mandado apresentar em Peniche, onde ficou detido" [ANTT, Cadastro 5682; AHM, PT/AHM/FO/011/1/4/358], tendo a Repartição do Gabinete do Ministério da Guerra solicitado à PVDE informações acerca de Francisco do Nascimento Esteves.

Em 2 de Maio de 1937, foi novamente preso pela Secção Política e Social da PVDE, recolheu incomunicável a uma esquadra, transitou, em 11 de Maio, para a 1.ª Esquadra e, no dia seguinte, entrou no Aljube. 

[Francisco do Nascimento Esteves || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Em Junho de 1937, integrou a segunda leva de presos políticos que chegou ao Campo de Concentração do Tarrafal, onde faleceu em 21 de Janeiro de 1938. Teria, apenas, 23 anos!

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5682 [Francisco do Nascimento Esteves / PT-TT-PIDE-E-001-CX09_m0582, m0582a].
ANTT, Registo Geral de Presos / 232 [Francisco do Nascimento Esteves / PT-TT-PIDE-E-10-2-232_c0072].
ANTT, Fotografia 2435 [Francisco do Nascimento Esteves / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0007].
AHM, PT/AHM/FO/011/1/4/358.

[João Esteves]

segunda-feira, 11 de junho de 2018

[1831.] ANTÓNIO SOARES MONTEIRO FERRO [I]

* ANTÓNIO SOARES MONTEIRO FERRO (n. 1894) || PRESO 11 ANOS E 7 MESES (1932 - 1943) || ALJUBE || PENICHE || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO (1935 - 1943) *

Comunista, António Soares Monteiro Ferro integrou o grupo envolvido nos preparativos da jornada de luta a ocorrer no dia 29 de Fevereiro de 1932, que implicava o recurso a bombas, e foi preso no âmbito dos preparativos do 1.º de Maio, estando presente nas experiências realizadas com aquelas na Serra de Monsanto, em 17 de Abril. 

Preso em 25 de Abril de 1932 e condenado a 10 anos de degredo, com prisão.

[António Soares Monteiro Ferro || ANTT || RGP/186]

Filho de Maria Francisca Soares e de José Soares Monteiro Ferro, António Soares Monteiro Ferro terá nascido em 1894, em Oliveira do Douro - Vila Nova de Gaia.

Soldado durante a 1.ª Grande Guerra, integrou a Companhia de Projectores de Campanha do Corpo Expedicionário Português, tendo embarcado em 2 de Julho de 1917 e desembarcado, em Lisboa, em 13 de Setembro de 1918 [AHM/PT AHM-DIV-1-35A-2-73-69033] 

No início da década de 1930 era carpinteiro em Lisboa, com morada no Pátio do Machado, porta 100 - Palma de Cima, integrava a Célula 21 do Comité de Zona Nº 4 do Partido Comunista e "organizou um núcleo de simpatizantes em Telheiras, que agregou àquela célula" [ANTT, Cadastro Político 5300]. 

Em Fevereiro de 1932, António Soares Monteiro Ferro esteve envolvido nos preparativos da jornada de luta a ocorrer no dia 29, juntamente com, entre outros, Dionísio Moreira de Paiva ("O Russo") [RGP/214], Francisco de Campos [RGP/63], João Facadinha, José Duarte 1.º [RGP/244] e Manuel Francisco da Silva ("O Manuel Pedreiro" que faleceu em 24 de Agosto de 1941, quando detido na Fortaleza de Angra do Heroísmo) [RGP/138]. Essa jornada implicava o recurso a bombas e acabou por não se realizar devido à prisão dalguns dos implicados. 

Falhada a jornada de 29 de Fevereiro, interveio nos preparativos do 1.º de Maio e, por isso, presenciou as experiências com bombas realizadas na Serra de Monsanto em 17 de Abril, juntamente com Álvaro Augusto Ferreira [RGP/535], Dionísio Moreira de Paiva, Francisco de Campos, João Facadinha e Manuel Francisco da Silva, entre outros [Processo 452/SPS]. 

[António Soares Monteiro Ferro || ANTT || RGP/186]

Terá conseguido escapar aquando das detenções feitas na Serra de Monsanto em 24 de Abril de 1932, mas foi detido no dia seguinte, sendo considerado "elemento perigosíssimo e activo na Organização" [ANTT, Processo 5300].

O seu processo foi enviado para o Tribunal Militar Especial em 24 de Fevereiro de 1933, mas o julgamento só no ano seguinte, em 20 de Outubro de 1934.

Acusado de, "em 1932 e por diversas vezes, ter tomado parte no fabrico, transporte, detenção e uso, para experiência, de bombas explosivas", sofreu a pena de dez anos de degredo, com prisão, e na multa de vinte mil escudos.

[António Soares Monteiro Ferro || ANTT || RGP/186]

António Soares Monteiro Ferro interpôs recurso, tendo a sentença sido confirmada pelo mesmo Tribunal em 3 de Novembro [Processo 16/933, do TME].

Enviado para o Aljube em 4 de Dezembro, foi transferido para Peniche em 19 do mesmo mês e reenviado para o Aljube em 20 de Março de 1935, a fim de seguir para a Fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo (23/03/1935).

Regressou de Angra do Heroísmo em 1 de Julho de 1943 e levado para Peniche, de onde saiu em liberdade em 26 de Novembro do mesmo ano.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

Fontes:
AHM [António Soares Monteiro Ferro / PT AHM-DIV-1-35A-2-73-69033_m0001, m0002].
ANTT, Cadastro Político 5300 [António Soares Monteiro Ferro / PT-TT-PIDE-E-001-CX07_m0151, m0151a, m0151b].
ANTT, Registo Geral de Presos / 186 [António Soares Monteiro Ferro / PT-TT-PIDE-E-10-1-186_c0404].
ANTT, Fotografia 2652 [António Soares Monteiro Ferro / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0020].


[João Esteves]

sexta-feira, 8 de junho de 2018

[1830.] ANTÓNIO AUGUSTO QUARESMA [I]

* ANTÓNIO AUGUSTO QUARESMA (1905 - 1987) || GREVE DE 18 DE JANEIRO DE 1934 - SETÚBAL || ALJUBE || PENICHE || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO (1935 - 1938) *

Operário conserveiro, sendo soldador de latas de conserva em Setúbal, António Augusto Quaresma foi um dos activistas que esteve envolvido na preparação da Greve Geral Revolucionária a eclodir naquela cidade em 18 de Janeiro de 1934. 

Conotado com o ideário anarquista, foi preso e deportado para Angra do Heroísmo, onde ficou cativo três anos na Fortaleza de São João Baptista. 

[António Augusto Quaresma || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho Edwiges da Conceição e de Francisco Maria Quaresma, António Augusto Quaresma terá nascido por volta de 1905, em Setúbal - S. Julião.

Preso pelo Comando da PSP de Setúbal e entregue, em 2 de Fevereiro de 1934, à Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, "acusado de fazer parte de uma organização revolucionária que tinha em preparação um movimento de carácter comunista naquela cidade" [ANTT, Cadastro Político 6982; Processo 963/A].

[António Augusto Quaresma || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Julgado no Tribunal Militar Especial em 10 de Outubro de 1934 e condenado a três anos de desterro, multa de seis mil escudos e perda dos direitos políticos por dez anos [Processo 20/934, do TME], "acusado de, nos meses de Dezembro do ano findo e Janeiro do corrente ano, fazer parte do Comité Grevista Revolucionário de Setúbal, tendo efectuado várias reuniões nos arredores daquela cidade, preparatórios de um movimento grevista, contra o Governo constituído, movimento que chegou a eclodir em algumas localidades do País, no dia 18 de Janeiro do corrente ano" [ANTT, Cadastro 6982]. 

[António Augusto Quaresma || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Levado para o Aljube em 29 de Setembro, seguiu para Peniche em 19 de Dezembro e embarcou, em 23 de Agosto de  1935, para Angra do Heroísmo, de onde foi libertado em 24 de Outubro de 1938.

Depois de libertado, António Augusto Quaresma terá trabalhado na construção civil e faleceu em 1987.

A sua fotografia não consta do Registo Geral de Presos, mas encontra-se no Livro de Cadastrados - 4.

[António Augusto Quaresma || ANTT || RGP/192 || 

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 6982 [António Augusto Quaresma / PT-TT-PIDE-E-001-CX06_m0178, m0178a].
ANTT, Registo Geral de Presos / 192 [António Augusto Quaresma / PT-TT-PIDE-E-10-1-192_c0416].
ANTT, Fotografia 2554 [António Augusto Quaresma / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0014].

[João Esteves]

segunda-feira, 4 de junho de 2018

[1827.] ARMINDO FAUSTO CARDOSO DE FIGUEIREDO [I]

* ARMINDO FAUSTO DE FIGUEIREDO || PRESO EM 1932, CONDENADO A DOIS ANOS, FOI MANTIDO SUCESSIVAMENTE PRESO ATÉ 1944, QUANDO FOI LIBERTADO DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL || ALJUBE, PENICHE, ANGRA DO HEROÍSMO, TARRAFAL *

[Armindo Fausto de Figueiredo || ANTT || RGP/187]

Estudar a Ditadura Militar e o Fascismo português implica estar atento a cada um daqueles que se lhes opuseram e reconstruir o percurso possível tantos anos depois. 

Embora cada nome comporte vivências diferentes, há matrizes comuns de luta, resistência, perseguições, violências policiais e prisionais, sofrimentos individuais e familiares. Vidas que mal tinham despontado e logo eram interrompidas. Por vezes, para sempre, mesmo quando sobreviviam. Vidas que o tempo foi devorando e silenciando.

O caso de Armindo Fausto Cardoso de Figueiredo é emblemático das arbitrariedades da justiça, dos governantes e do poderio das polícias políticas, quer da Ditadura Militar transmutada em Ditadura Nacional, quer do fascizante Estado Novo: condenado, inicialmente, a dois anos de degredo, acabou por cumprir doze anos de cativeiro, sendo que os oito últimos foram passados no Campo de Concentração do Tarrafal.

Filho de Rosalina de Matos Figueiredo e de Eduardo de Figueiredo, Armindo Fausto Cardoso de Figueiredo (ou Armindo Fausto de Figueiredo), terá nascido em 1910, no Porto.

Terá estado envolvido na jornada de luta preparada pelo Partido Comunista para o dia 29 de Fevereiro de 1932, que implicava o recurso a bombas, a qual acabou por não se realizar devido à prisão dalguns dos implicados. Nesse âmbito, colaborou com Carlos Duarte, Manuel Moor [RGP/8793] e Nobre Guerreiro, tendo guardado, em sua casa, seis daquelas bombas a serem utilizadas no Rego [Processo 460].

No entanto, só foi preso em 9 de Junho de 1932 à ordem da Secção de Vigilância Política e Social da Polícia Internacional, quando já era o soldado 309/32373 da 3.ª Companhia de Trem Hipomóvel, acusado de integrar a organização comunista da sua Unidade, tendo sido indicado a Manuel Augusto da Rosa Alpedrinha [RGP/137] por Jaime Tiago [RGP/76].

Em 11 de Agosto, por parecer do Director-Geral da Segurança Pública e concordância do Ministro do Interior, foi-lhe "fixada residência obrigatória em Timor ou em Cabo Verde" [ANTT, Cadastro Político 4610].

[Armindo Fausto de Figueiredo || ANTT || RGP/187]

Julgado pelo Tribunal Militar Especial de Lisboa em 15 de Julho de 1933, foi condenado a dois anos de degredo, "ficando depois à disposição do Governo" [Processo 32/933, TME de Lisboa].

Enviado para o Aljube em 22 de Novembro de 1934, foi transferido para Peniche em 19 de Dezembro e aí permaneceu até 20 de Março de 1935. 

Regressou ao Aljube e, em 22/23 de Março de 1935, embarcou a bordo do vapor Carvalho de Araújo com destino à Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo.

Em Julho de 1935, Armindo Fausto de Figueiredo requereu ao Ministro do Interior a sua libertação, "em virtude de haver terminado a pena a que havia sido condenado" [ANTT, Cadastro 4610].

Em 12 de Agosto de 1935, entrou na Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, "vindo do Comando Militar dos Açores, um requerimento do epigrafado, em que este continua a insistir pela sua libertação", tendo sido respondido "que o epigrafado, por sentença do Tribunal, deve ser entregue ao Governo depois de cumprida a pena, não havendo qualquer vantagem para o Estado no seu regresso" [ANTT, Cadastro 4610].

Por despacho do Ministro do Interior, de 16 de Agosto, foi indeferida a libertação de Armindo Fausto de  Figueiredo, continuando este em Angra do Heroísmo.

Mesmo quando o Tribunal Militar Especial de Lisboa pediu que Armindo Fausto de Figueiredo fosse transferido para a capital, a fim de ser submetido a novo julgamento, a PVDE continuou a dar "parecer desfavorável" quanto a essa pretensão. 

Em 31 de Julho de 1936, foi julgado pelo Tribunal Militar Especial reunido em Angra do Heroísmo.  Acusado dos acontecimentos reportados a 1932, seria condenado "na pena de seis meses de prisão correccional, dada por expiada com a prisão sofrida, e na perda dos direitos políticos por cinco anos" [Processo 14/933, do TME].

Nem desta vez o jovem Armindo Fausto de Figueiredo será libertado, apesar do telegrama de 4 de Agosto de 1936 enviado dos Açores pelo Presidente do Tribunal à PVDE, mandando "por o epigrafado em liberdade, em virtude de haver terminado a pena". A resposta da SPS da PVDE foi que "no caso de ser determinado o regresso, no que não há qualquer vantagem, fica à ordem do Governo em cumprimento da sentença do TME de 1933" [ANTT, Cadastro 4610].

Uma semana depois, em 11 de Agosto, a PVDE recebe o mandado de soltura datado de 1 de Agosto e emanado pelo TME em Angra do Heroísmo, "ao qual não foi dado cumprimento em virtude de o epigrafado estar à ordem do Governo conforme determina a sentença lavrada pelo Tribunal em sua sessão de 15-7-933".

Em 23 de Outubro de 1936, Armindo Fausto de Figueiredo integrou a primeira leva de presos políticos enviada para o Campo de Concentração do Tarrafal, de onde só regressou em 1 de Outubro de 1944 e libertado no dia 9 do mesmo mês.

Condenado, primeiro, a dois anos e, depois, a mais seis meses, Armindo Fausto de Figueiredo esteve mais de doze anos preso, sendo que cerca de dez foi por intervenção directa da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado - PVDE, sobrepondo-se ao TME.

[Armindo Fausto de Figueiredo || ANTT || RGP/187]

Preso enquanto Soldado, havendo três fotografias suas fardado, nesta Ficha do Registo Geral de Presos aparece identificado como empregado no comércio, provavelmente a profissão que exerceria anteriormente.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 4610 [Armindo Fausto Cardoso de Figueiredo / PT-TT-PIDE-E-001-CX07_m0352, m0352a, m0352b, m0352c].
ANTT, Registo Geral de Presos / 187 [Armindo Fausto de Figueiredo / PT-TT-PIDE-E-10-1-187_c0406].
ANTT, Fotografia 1946 [Armindo Fausto Cardoso Figueiredo / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903_m0026].
ANTT, Fotografia 2653 [Armindo Fausto Cardoso de Figueiredo / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0020].

[João Esteves]

quarta-feira, 30 de maio de 2018

[1823.] RAFAEL TOBIAS PINTO DA SILVA [I]

* RAFAEL TOBIAS PINTO DA SILVA (1910 - 1937) || A MORTE AOS 26 ANOS NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL *

Pouco se conhece de Rafael Tobias Pinto da Silva para além de ser um dos 32 jovens presos políticos que morreu no Campo de Concentração do Tarrafal.

No entanto, quando estudante, integrou os Grupos de Defesa Académica, tendo, nesse âmbito, sido preso, pela primeira vez, em 1934 e enviado para Peniche. No ano seguinte, referenciado como relojoeiro, foi novamente detido, enviado para Peniche, passou pelo Aljube e, embora absolvido pelo Tribunal Militar Especial de 3 de Abril de 1936, integrou a primeira leva de presos enviada para o Tarrafal, onde faleceu ao fim de um ano.

[Rafael Tobias || 1934 || ANTT || -ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Elisa da Silva e de Júlio Cândido da Silva, Rafael Tobias Pinto da Silva terá nascido em 14 de Dezembro de 1910, em Lisboa.

Membro dos Grupos de Defesa Académica desde 1932, com ligações ao Partido Comunista, foi preso em 9 de Março de 1934, por integrar um grupo de manifestantes que percorria "a Rua da Escola Politécnica dando gritos subversivos", empunhava "cartazes com palavras ofensivas para a actual Situação Política do País" e distribuía "manifestos clandestinos" [ANTT, Cadastro Político, 5531].

[Rafael Tobias || 1934 || ANTT || -ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Aquando da sua captura, foi-lhe apreendida uma pistola com o respectivo carregador e seis cartuchos, para além de selos destinados a financiar os Grupos de Defesa Académica.

[Rafael Tobias || ANTT || -ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Fazia, então, parte do Secretariado daqueles Grupos, assegurava a sua ligação com o Comité Local de Lisboa do Partido Comunista, tinha organizado o Comité de Zona N.º 2 e, com Helder David Dias de Meneses, era responsável pela impressão de manifestos clandestinos [Processo 1073/SPS].

Transferido, em 19 de Maio de 1934, para a Fortaleza Militar de Peniche, Rafael Tobias foi libertado em 23 de Agosto.

[Rafael Tobias || ANTT || -ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Novamente preso no ano seguinte, em 7 de Novembro, deu entrada numa esquadra e enviado, em 27 de Dezembro de 1935, para Peniche.

Transferido para o Aljube em 24 de Março de 1936, foi julgado pelo Tribunal Militar Especial em 3 de Abril e, apesar de absolvido [Processo 55/36], continuou preso à ordem da Polícia de Defesa e Vigilância dos Estado.

[Rafael Tobias || ANTT || -ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Rafael Tobias Pinto da Silva requereu, em 4 de Junho de 1936, para ser amnistiado tendo, no entanto, sido enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde chegou em 29 de Outubro.

Menos de um ano depois, em 22 de Setembro de 1937, faleceu, integrando o grupo de seis presos políticos que perdeu a vida entre 20 e 24 do mesmo mês.

O seu envio para o Tarrafal não foi um acaso, mas antes uma decisão pensada, já que dos arquivos da Polícia Política constam, num curto espaço de tempo, três registos fotográficos diferentes.

[Rafael Tobias Pinto da Silva || RGP/2045]

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5531 [Rafael Tobias Pinto da Silva / PT-TT-PIDE-E-001-CX15_m0062, m0063].
ANTT, Registo Geral de Presos/2045 [Rafael Tobias Pinto da Silva - Livro 14/2045].
ANTT, Fotografia 2037 [Rafael Pinto da Silva ou Rafael Tobias Pinto da Silva / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903_m0032].
ANTT, Fotografia 2059 [Rafael Tobias Pinto da Silva / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903_m0033].
ANTT, Fotografia 2997 [Rafael Tobias Pinto da Silva / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0042].

[João Esteves]

quinta-feira, 24 de maio de 2018

[1816.] MÁRIO JOSÉ DE BARROS [I]

* MÁRIO JOSÉ DE BARROS || A CONVIVÊNCIA COM MILITÃO RIBEIRO EM MURÇA || PRESO NO ALJUBE DO PORTO E DE LISBOA E EM PENICHE *

Quando alfaiate em Murça, de onde era natural, Mário José de Barros conviveu na década de 30 com Militão Bessa Ribeiro [13/08/1896 - 02/01/1950], nascido na mesma terra e que, quando expulso do Brasil e enviado sob prisão para Portugal, aí se refugiu, desenvolvendo actividade política no âmbito do Partido Comunista. 

Influenciado pelas ideias de Militão Ribeiro, Mário José de Barros foi preso em 1935 por propaganda contra a Ditadura Fascista e reencontrou-o no Aljube e em Peniche.

Desse duplo convívio com Militão Ribeiro, Mário José de Barros terá recebido vários livros que fez circular clandestinamente naquela localidade durante as décadas de 30 e de 40, sendo provavelmente através deste que o historiador António Borges Coelho, expulso do Seminário em Maio de 1945 e de regresso a Murça, de onde também era natural, terá tomado contacto com Carlos Marx, de Max Beer, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed, ou O Estado e a Revolução, de Lenine. 

[Mário José de Barros || ANTT || Fotografia 3001 || -ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Maria da Conceição e de Domingos Barros, Mário José de Barros nasceu em 24 de Março de 1910, em Murça, distrito de Vila Real.

Identificado como alfaiate, foi preso por, no dia 31 de Janeiro de 1935, "ter escrito nas paredes dos prédios da vila de Murça dísticos de carácter subversivo, e de ter arrancado, sujando-os com excrementos, os cartazes de propaganda para a reeleição de Sua Ex.ª o Senhor Presidente da República" [ANTT, Cadastro Político 5978; Processo 1401].

Entregue à Delegação do Porto da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado em 23 de Abril de 1935. Envido para o Aljube local, foi julgado pelo Tribunal Militar Especial daquela cidade em 25 de Abril e condenado a dezoito meses de prisão e perda dos direitos políticos por cinco anos [Processo 49/935 do TME].

Transferido, em 9 de Maio, do  Porto para a Fortaleza Militar de Peniche, tendo, em 8 de Julho sido enviado para Lisboa e hospitalizado, no dia seguinte, no Hospital de São José.

[Mário José de Barros || ANTT || Fotografia 3001 || -ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Recebeu alta hospitalar em 7 de Agosto, seguiu para os calabouços da 1.º Esquadra e, em 31 do mesmo mês, foi novamente internado no Hospital de São José, onde permaneceu sob prisão até 2 de Outubro de 1935 [ANTT, Cadastro Político]. 

Segundo a Biografia Prisional que consta do Registo Geral de Presos, voltou à 1.ª Esquadra em 6 de Novembro e entrou no Aljube em 19 de Dezembro.

Novamente enviado para Peniche em 8 de Fevereiro de 1936, de onde só foi libertado em 17 de Janeiro de 1937, totalizando cerca de dois anos de cativeiro em prisões do fascismo.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

[Mário José de Barros || ANTT || Fotografia 3001 || -ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

NOTA: Atenção ao uso indevido destas imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5978 [Mário José de Barros / PT-TT-PIDE-E-001-CX14_m0368, m0368a].
ANTT, RGP/909 [Mário José de Barros / PT-TT-PIDE-E-10-5-909_c0239].
ANTT, Fotografia 3001 [Mário José de Barros / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0042].

[João Esteves]

quinta-feira, 10 de maio de 2018

[1808.] EURICO PINTO MATEUS [I]

* EURICO PINTO MATEUS || ANARCO-SINDICALISTA || PARTICIPAÇÃO NO 18 DE JANEIRO DE 1934 || EXILADO EM ESPANHA || DEPORTADO PARA O TARRAFAL (1937-1945) *

Estucador, Eurico Pinto Mateus desenvolveu, no início da década de 1930, intensa actividade sindical no âmbito do Sindicato da Construção Civil, chegando a integrar a Comissão Inter-sindical (CIS), militou no Partido Comunista e, por volta de 1932, já era um defensor das ideias anarquistas, aproximando-se do anarco-sindicalismo.

Preso uma primeira vez em 1932, foi absolvido. Por ter participado nos preparativos da Greve Geral de 18 de Janeiro de 1934, refugiou-se em Espanha, onde integrou a Federação dos Anarquistas Portugueses Exilados (FAPE). Expulso daquele país, foi preso em 1937 e enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde permaneceu cerca de sete anos.

[Eurico Pinto Mateus || 1932 ? || ANTT || PVDE, Polícias Anteriores 3 NT 8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Carolina Maria Pereira e de Simão Mateus, Eurico Pinto Mateus nasceu em Lisboa, em 24 de Novembro de 1908.

No início dos anos 30, quando militava no Partido Comunista, fez parte da Comissão Inter-Sindical (CIS), trabalhando politica e partidariamente com Francisco Roque Júnior, detido no Aljube, Grácio Ribeiro, estudante deportado para Timor, e Manuel Moor [RGP/8793], fugido à polícia e só preso em 1937.

Entretanto, abraçou o anarco-sindicalismo, por estar "mais de acordo com os princípios estabelecidos pelo proletariado, pois é contra a força armada, contra o Estado Organizado e contra as classes privilegiadas", proferindo "conferências e preleções aos operários da Construção Civil, nas quais lhe explica as razões do aparecimento do anarco-sindicalismo e seus fins, bem como aconselha a massa operária a desprezar as ideias expostas pelos partidos que se servem dela, para os seus fins, com falsas promessas". Era ainda "contra todas as ditaduras, inclusive a proletária, à maneira russa" [ANTT, Cadastro Político 4559].

No âmbito da intervenção junto da classe dos estucadores, Eurico Pinto Mateus era seu delegado ao Conselho Administrativo do Sindicato da Construção Civil [Processo 587/SPS].

Preso, pela primeira vez, em 21 de Outubro de 1932, "por ter entregue manifestos anarquistas a Alfredo Crispim Duarte", tendo-os recebido de Francisco Cardoso Pires [RGP/7499], libertado do Aljube havia pouco tempo [ANTT, Cadastro Político].

Considerado pela Polícia de Defesa Política e Social como tendo "uma relativa cultura e facilidade em falar e escrever", desenvolvendo, "apesar de bastante novo", "uma enorme actividade de ideias social-revolucionárias", Eurico Pinto Mateus foi julgado pelo Tribunal Militar Especial em 17 de Junho de 1933 e absolvido, pelo que foi libertado.

No ano seguinte, pertenceu ao Comité de Acção do 18 de Janeiro, não tendo concretizado a distribuição das armas prevista aquando do desencadear da Greve Geral. Cooperou, entre outros, com Armando dos Santos Calet [RGP/302], Bartolomeu José da Costa, Custódio da Costa [RGP/54], João Sarmento Dias [RGP/334], João Serra,  José Severino de Melo Bandeira [RGP/331], Manuel Henriques Rijo [RGP/349], Silvino Augusto Ferreira [RGP/12592] [Processos 1011, 1227 e 1237/SPS].

Após essa data, exilou-se em Espanha onde integrou o Secretariado da Federação dos Anarquistas Portugueses Exilados, após uma reunião promovida por Marques da Costa e onde estiveram presentes Alberto Dias, de Lisboa, Custódio Bresce de Lima, do Porto, e José Rodrigues Reboredo, de Viana do Castelo [RGP/12947] [ANTT, Cadastro 4559; Cristina Clímaco, "Os anarquistas no exílio (1930-1936)"].


[CLNSRF || Presos Políticos No Regime Fascista II (1936-1939) || 1982]

Expulso de Espanha, Eurico Pinto Mateus foi novamente preso em 4 de Março de 1937 e levado para o Aljube, onde recolheu à enfermaria. 

Passou, de seguida, por uma esquadra, regressou ao Aljube e seguiu para o Campo de Concentração do Tarrafal em 6 de Novembro, integrando a 3.ª leva de presos políticos. Aí permanece até 20 de Fevereiro de 1945.

Regressado a Portugal, Eurico Pinto Mateus voltou a residir na Rua da Saudade, 3, Cave - Lisboa.

[Eurico Pinto Mateus || 1932 ? || ANTT || PVDE, Polícias Anteriores 3 NT 8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

NOTA: Atenção ao uso indevido desta imagem sem a devida autorização dos serviços do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 4559 [Eurico Pinto Mateus / PT-TT-PIDE-E-001-CX09_m0044, m0044a, m0044b, m0044c].
ANTT, Fotografia 2011 [Eurico Pinto Mateus / C-4559 / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903_m0030].
ANTT, Fotografia 2049 [Eurico Pinto Mateus / C-4559 / [ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903_m0033].
ANTT, Registo Geral de presos/6244.

[João Esteves]