- AMÉRICO DE SOUSA -
[1918-1993]
[Dezembro de 1961]
Militante e dirigente do Partido Comunista, tendo integrado o seu Comité Central, Américo de Sousa, “O russo”, iniciou muito novo a atividade política, esteve várias vezes preso e conheceu as principais prisões (Aljube, Peniche, Caxias, Tarrafal), sendo enviado, com apenas 18 anos, para o Campo de Concentração do Tarrafal.
Fundidor de profissão, era filho de Maria Gonçalves e de Joaquim Mário de Sousa e nasceu em Lisboa, na freguesia de Santo Estêvão, em 1918 (a 18 de julho ou 3 de agosto, constando esta imprecisão da data na Biografia Prisional da autoria da polícia política).
A sua militância política iniciou-se na Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, quando trabalhava no Arsenal da Marinha, e prolongou-se por décadas, tendo sofrido a violência da ditadura mal completara os dezassete anos.
Preso pela primeira vez a 7 de setembro de 1937, por atividades comunistas, percorreu, em escassos meses, o Aljube, Peniche e de novo o Aljube, de onde partiu para o Tarrafal: detido inicialmente numa esquadra, foi transferido para a Cadeia do Aljube a 30 de dezembro e, a 28 de abril de 1936, para a Fortaleza de Peniche, regressando ao Aljube a 6 de maio, data em que foi julgado e condenado pelo Tribunal Militar Especial a 18 meses de prisão correcional.
Apesar de “só” faltarem cumprir 301 dias, foi enviado a 17 de outubro para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, integrando o grupo de presos que o foi inaugurar.
Cumprida a pena a que fora condenado, continuou preso no Tarrafal, de onde só saiu em 15 de julho de 1940, sendo então restituído à liberdade.
Voltou à luta política e escassos meses, ainda em 1940, integrou, com Joaquim Pires Jorge [28/11/1907-06/06/1984], José Gregório [m. 1961], Júlio Fogaça [1907-1980], Manuel Guedes [14/12/1909-08/03/1983], Militão Bessa Ribeiro [13/08/1896-02/01/1950] e Sérgio Vilarigues [1914-08/02/2007], o primeiro grupo que procurava a reorganização do Partido Comunista [JPP, Álvaro Cunhal – Uma biografia política, vol. 2, 1941-1949]. No ano seguinte, era funcionário, tal como todos aqueles, usando o pseudónimo de “Abel”.
Em julho de 1946, participou no II Congresso Ilegal do Partido Comunista realizado numa casa da Lousã com a ajuda do casal António e Natividade Correia [esta também desenvolvera atividade importante no seio das seções de Coimbra/Figueira da Foz da AFPP e CNMP] e teve importantes funções no Comité Local de Lisboa (anos 40/50).
Porque há ainda muito que relacionar, Américo Guerreiro de Sousa chegou a controlar o historiador Jorge Borges de Macedo, cuja esposa, Branca Braga de Macedo, militou na década de 40 na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, desempenhando cargos nas direções de 1947 e 1948.
A 29 de setembro de 1955, quinze anos depois de sair do Tarrafal e quando era dirigente do Comité Local de Lisboa e destacado membro do Comité Central, foi preso em Lisboa e levado para o Aljube. A 22 de novembro passou para o Forte de Caxias, onde foi sujeito a continuados castigos.
A 3 de fevereiro de 1957 regressou ao Aljube, cadeia de onde se evadiu na madrugada de 26 de maio do mesmo ano com Carlos Brito e Rolando Verdial [a mãe deste, Emília Dionísia Ferreira dos Santos Silva Verdial, morreu a 7 de outubro de 1960, no regresso de uma visita ao filho, então preso em Caxias. Segundo o jornal Avante!, de novembro, o seu desaparecimento foi acelerado pela forma desumana e humilhante como a PIDE a tratou, não atendendo sequer à idade avançada da progenitora: começou por impedir a visita do dia 6 pelo facto de Emília e Mem Verdial, vindos do Porto, terem chegado minutos depois da hora regulamentar; no dia seguinte concederam-na, mas não foi permitida aos pais que se aproximassem do preso, o beijassem e abraçassem; e o desenlace fatal deu-se no regresso a casa, chegando já sem vida à sua residência] através da janela de uma enfermaria desativada situada no último andar e para onde tinham sido enviados os presos mais perigosos: cortaram parte das grades e, após passarem por vários prédios, apanharam um táxi no Largo da Graça.
E porque não é possível haver resistência(s) sem mulheres, aquela fuga contou, entre outros, com o apoio da militante comunista Deolinda Franco.
Mais uma vez, regressou ao trabalho clandestino do Partido Comunista, continuando a integrar o Comité Central eleito no V Congresso realizado entre 8 e 15 de dezembro de 1957. Então, entre as pessoas que controlaria estava o advogado Manuel João da Palma Carlos, ambos com papel de relevo na preparação das eleições presidenciais de 1958 [JPP, Álvaro Cunhal, vol. 3]. No âmbito do trabalho partidário no terreno, e segundo Pacheco Pereira, Américo de Sousa defendeu a partir de certa altura a desistência de Arlindo Vicente enquanto candidato presidencial e o apoio a Humberto Delgado.
No ano seguinte, em abril, integrou com Alexandre Castanheira [n. 1928] e Octávio Pato [01/04/1925-19/02/1999] a delegação do Partido Comunista que se reuniu em Itália com o Partido Comunista Italiano.
Américo de Sousa voltou a ser preso a 15 de dezembro de 1961, juntamente com Carlos Costa, quase cinco anos depois de andar fugido e ter regressado à clandestinidade, constando da sua ficha prisional a indicação que tinha na cara marcas de varíola para, assim, ser mais facilmente identificado.
Nesta sua terceira prisão, voltou a fazer o percurso Caxias-Aljube-Peniche, prisão para onde foi transferido a 18 de abril do ano seguinte por ter sido condenado, por cúmulo jurídico, a 4 anos.
O vaivém entre as prisões não para, já que a 1 de junho de 1964 entrou, mais uma vez, em Caxias de onde foi transferido, a 25 de setembro, para Peniche.
No ano seguinte, a 23 de fevereiro de 1965, foi condenado na pesada pena de oito anos e meio, supressão de direitos políticos por quinze e medidas de segurança de internamento de seis meses a três anos, prorrogável, as quais iniciou em dezembro de 1968.
Quase toda a década de 1960 foi passada em prisões, já que Américo de Sousa só seria libertado a 20 de outubro de 1971, depois de ter estado preso consecutivamente quase dez anos.
Em 53 anos de idade, totalizou cerca de 16 anos nas prisões salazaristas e 19 de intensa e continuada luta clandestina.
[João Esteves]
