[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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domingo, 5 de abril de 2020

[2353.] ALBINO ANTÓNIO DE OLIVEIRA DE CARVALHO [I] || A MORTE NO TARRAFAL

* ALBINO ANTÓNIO DE OLIVEIRA DE CARVALHO *
[10/12/1884 - 22/10/1941]

Albino António de Oliveira de Carvalho passou mais de 40 anos a caminho da cadeia, sendo várias vezes preso durante a Monarquia, 1.ª República, Ditadura Militar e Estado Novo. Começou em 1898, quando teria 13 anos, e só acabou em 1941, aos 56 anos de idade. Conheceu esquadras, a Penitenciária de Lisboa, o Aljube, Peniche e Caxias. Esteve deportado em Angola e faleceu no Campo de Concentração do Tarrafal, para onde fora enviado em 1939. 

Uma vida assim, inimaginável quanto ao sofrimento e às lutas travadas, não cabe nas linhas que se seguem. 

[Albino António de Oliveira de Carvalho || 25/05/1927 || -ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Maria Joaquina de Oliveira e de Luís António de Carvalho, Albino António de Oliveira de Carvalho nasceu em 10 de Dezembro de 1884, em Póvoa de Lanhoso. 

Conhecido por "O Carvalho das Batatas", a viver em Lisboa, na Estrada da Luz - Chalet Rosmaninho, cedo conheceu a prisão, sendo, por três vezes, detido durante a Monarquia: em 16 de Março de 1898, quando teria treze anos, em 21 de Dezembro de 1908 e em 14 de Fevereiro de 1909, sempre por desobediência.

As detenções continuaram com a implantação da República: em 20 de Maio de 1917, por porte de arma proibida; em 6 de Março de 198, por desobediência; em 13 de Março de 1920, por transgressão da Lei 922, de 30/12/1919; e em 6 de Dezembro de 1920, por agressão.

Instituída a Ditadura Militar, foi preso em 19 de Maio de 1927, em Tomar, «por ter tomado parte activa no movimento revolucionário de Fevereiro deste ano, sendo especialmente acusado de ter assassinado uma praça da Guarda Nacional Republicana», e enviado, em 14 de Junho, para a Penitenciária de Lisboa (Processo 3105) [Cadastro Político 1184].

Passou, entre 1927 e 1929, por diferentes estabelecimentos prisionais, entre os quais o Aljube, «onde se encontrava por motivos políticos, condenado em vinte anos de degredo».

Em 29 de Junho de 1929, Albino António de Oliveira de Carvalho «foi entregue para África», regressando de Angola em 5 de Novembro de 1934, data em que embarcou no vapor Quanza. Regressou à cadeia, por motivos políticos, em 26 de Novembro.

[Albino António de Oliveira de Carvalho || 25/05/1927 || -ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Libertado, a viver  em Alvito - Tomar, foi preso ela Secção Política e Social da PVDE em 26 de Fevereiro de 1937. Recolheu à 1.ª Esquadra, sendo transferido para o Aljube em 23 de Março e, em 8 de Agosto para Peniche, onde ficou vinte e um meses.

[Albino António de Oliveira de Carvalho || ANTT || RGP/6206 || PT/TT/PIDE/E/010/32/6206]

Voltou ao Aljube em em 7 de Maio de 1939, passou para Caxias em 12 de Maio e daí embarcou, em 20 de Junho, para o Campo de Concentração do Tarrafal, integrando a sexta leva de presos políticos, juntamente com Alberto de Araújo, Augusto da Costa Valdez e Carlos Matoso, entre outros.

[Albino António de Oliveira de Carvalho || ANTT || RGP/6206 || PT/TT/PIDE/E/010/32/6206]

Albino António de Oliveira de Carvalho sobreviveu no Tarrafal pouco mais de dois anos e aí faleceu em 22 de Outubro de 1941, com 56 anos de idade e mais de 40 a percorrer prisões.

Fontes:

ANTT, Livro de Cadastrados 3 [Albino António de Oliveira de Carvalho / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903].

ANTT, Cadastro Político 1184 [Albino António de Oliveira Carvalho / PT-TT-PIDE-E-001-CX05_m0498, m0487].

ANTT, Registo Geral de Presos 6206 [Albino António de Oliveira de Carvalho / PT/TT/PIDE/E/010/32/6206].

[João Esteves]

domingo, 18 de novembro de 2018

[1921.] CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO [IV] || 1946

* CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO *
[1908 - 1959]

 
[Carlos Luís Correia Matoso || 1946]




NOTA: O meu muito obrigado ao Historiador Brasileiro Paulo Valadares pelo envio desta preciosa documentação referente à emigração, em 1946, de Carlos Luís Correia Matoso para o Brasil.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

[1844.] CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO [III] || O EXÍLIO NO BRASIL

* CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO || O EXÍLIO NO BRASIL [PARTE II] *

[Carlos Luís Correia Matoso e Raimunda Mirtes || Maio de 1949 || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"A PARTIDA"

"Esse é um capítulo a parte. Na época sua filha estava com 7 anos, e no dia 3 de março de 1959, Carlos Luis saiu de casa como um dia comum de trabalho, só que o destino seria outro. Hotel Quitandinha, Petrópolis. Alguns detalhes não são bem claros, como por exemplo, se ele deu entrada como hospede ou simplesmente se dirigiu a alguma galeria e praticou seu desfecho. Na época, no seu auge, o Quitandinha chegou a empregar 1.500 pessoas. Foi neste cenário que durante um curto período de esplendor, o hotel teve grandes personalidades brasileiras e internacionais desfilando por suas dependências... Políticos como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart... Entre os Artistas contratados para os shows em sua Boate, estiveram ali: Carmen Miranda, Grande Otelo, Oscarito, Emilinha Borba, Marlene, a vedete Virgínia Lane e outros ídolos do rádio como Orlando Silva, Carlos Galhardo, Cauby Peixoto, Mário Reis e Nelson Gonçalves. O elenco da Atlântida, produtora que realizou ali várias filmagens, também costumava aparecer: Oscarito, Cyl Farney, Anselmo Duarte, Dick Farney, Eliana Macedo, Adelaide Chiozzo, José Lewgoy, Ankito e Zezé Macedo estavam entre eles."

[Hotel Quitandinha, local onde Carlos Matoso teve seus últimos momentos em vida]

"A VIDA CONTINUA"

"Raimunda Mirtes e sua filha ainda moraram no Rio de Janeiro até o meio do ano, quando então regressaram para Fortaleza para Maria Tereza terminar seus estudos perto da família de sua mãe. Carlos Luís foi sepultado em Petrópolis mesmo.

Para Maria Tereza, sobrou um rascunho de umas vidas que poderiam ter sido preenchidas páginas com muitos momentos inesquecíveis ao lado de seu pai. Pouco ela sabia sobre sua vida passada. Aos 18 anos ela tomou conhecimento de que ele havia tirado a própria vida, onde até aquele momento, achava que seu pai havia tido um ataque fulminante e não teria resistido. Uma carta foi deixada por ele e nela continha seu desejo de nunca revelar para a filha seu real desfecho. Mas Maria Teresa aos poucos foi percebendo que ali havia muito mais do que um ataque cardíaco."

[Maria Tereza ao lado de sua mãe Raimunda Mirtes em visita ao túmulo de seu pai, em Petrópolis || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"RELATOS DE UMA VIDA"

[Carlos Matoso, Agosto de 1932 || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues] 

"Alguns relatos de sua vida passada foram contados por sua mãe, repetindo as palavras de Carlos Luís, como por exemplo, a existência de uma irmã chamada Helena. A única notícia que se tinha dela era que a mesma vivia na Rússia, mas nada além disso. Maria Tereza não sabia nem o nome da mãe de Helena, até o dia que mantive contato com você. Carolina Loff só foi mencionada poucas vezes para Raimunda Mirtes, mas sem nunca ser pronunciado seu nome. [...] Sabe-se que Carlos Luís tinha conhecimento da filha, a qual a procurou por incansáveis 15 anos pós sua saída da cadeia, mas só o que lhe era revelado seria que a mesma havia morrido. Mesmo assim continuou a procura-la com a ajuda do seu irmão, o qual aproveitando sua influência da época, por seu prestígio de ser casado com uma Pinto Souto Maior e abertura na marinha Portuguesa. Mesmo com todos esses benefícios, não foi conseguido pista alguma da filha. Hoje, sabendo um pouco mais sobre Carolina Loff, podemos deduzir as dificuldades de uma época de guerra e as constantes mudanças de locais de Carolina e as tentativas de proteger inclusive a filha dos perigos em que se mantinha com suas ações, era praticamente impossível saber qualquer coisa sobre ambas, inclusive pelas constantes mudanças de nomes da própria Carolina. Tudo que Carlos queria era a filha, a qual inclusive foi registrada como Matoso.

"LEMBRANÇAS"

"Após esse tempo, já no Brasil e o nascimento de Maria Tereza, Carlos Luís recebeu uma carta com a foto da filha Helena e um pedido para que ele ficasse com a garota, que na época tinha 15 anos. Carlos Luís surpreso e com muita mágoa, pois para ele lhe foi escondida todos esses anos, não deu importância à carta e que ali seguiria sua vida.

[Modelo Mercury semelhante ao que tinha Carlos Luís na época]

"Helena veio a aparecer após a morte do pai, através de procuração, reivindicando sua parte em herança. Por conta disso e da burocracia da época, o inventário de Carlos Luís Matoso só veio a sair 9 anos depois. Pouca coisa ele tinha em vida. Um carro importado "Mercury"e algumas ações. O imóvel em Ipanema na época era alugado. Nada mais além disso. As duas irmãs nunca se viram. Ela acha que a diferença de idade entre as duas é de 15 anos, mas não com toda certeza. Mas um fato curioso: ambas já estiveram na rua da Vila do Bispo, a qual foi nomeada de Rua Carlos Luís Correia Matoso. Mesmo lugar em momentos diferentes."

[Rua Carlos Luís Correia Matoso - Vila do Bispo]

"Bom, o certo é que Carlos Luís tinha muito para lamentar. Ele sempre demonstrou uma mágoa tremenda com seus pais nativos. Lutava por um Portugal mais justo e igualitário, mas trouxe muitas cicatrizes no corpo e na alma. Mas agora, depois dos relatos que me enviaste, sentimos um pouco de sua dor. O fato que mostrou quando no regresso de Carlos Luís a Portugal, ele foi preso pela policia federal assim que desembarcou, sua filha Maria Teresa estava com ele. No momento com 5 anos e iria completar 6 anos, e que, por incrível que pareça, ela se lembra com detalhes do momento. Aquela cena marcou para sempre. Foi também na frente de sua mãe Lia (Elisa). Essa responsável pelas inúmeras transferências de cadeia que Carlos Luís teve em sua vida carcerária. Como ele era preso incomunicável, a mãe não parava de procurá-lo e todas as vezes que o achava o transferiam, até à ida para o Tarrafal. Não tem como a pessoa sair a mesma depois de passar por tudo isso. Isso é certo."

[Foto com a família de seu irmão José Francisco em visita a Portugal com esposa e filha || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues] 

[Momento em que foi festejada sua chegada a Portugal ao lado de sua mãe e esposa, horas após ser solto de uma prisão logo que desembarcou || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"HERANÇA"

[Roberto Haroldo Sampaio e Maria Teresa || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"Maria Tereza se casou com Roberto Haroldo Sampaio, médico anestesista, homem muito bom e íntegro, o qual tenho certeza que Carlos Luís teria orgulho em conhecer. Tiveram três filhos: Juliano, Carlos Eugênio e Rafaela Matoso. Hoje todos casados e com filhos. Juliano é o que mais se parece fisicamente com Carlos Luís. Bisnetos de Carlos Luís são 5: luri (18 anos) e Ian (14 anos), filhos de Carlos Eugênio; Maria Júlia (6 anos), filha de Juliano; Benjamin (6 anos) e Maria Tereza ( 1 ano e 7 meses), filhos de Rafaela Matoso, essa minha esposa. Eu me chamo Rodney de Castro e estou na família há 18 anos (9 de casado) e sempre me interessei pela história de Carlos Luís. Em Portugal, mesmo na família de José Francisco, irmão de Carlos, a qual temos contato, não se fala muito sobre a história."

[Eu, minha esposa Rafaela e nossos filhos Benjamin e Maria Teresa || Fotografia de Rodney de Castro Rodrigues]

"Me restou procurar em fontes e saber um pouco mais através da internet. Não posso dizer que sua vida no Brasil foi feita com grandes êxitos. Acredito que ele deveria ter se dado uma chance a mais, mas não sabemos o quanto eram fundas suas feridas. O certo é que ele deixou uma filha maravilhosa e que construiu uma família incrível e que tenho orgulho de fazer parte. Tenho certeza que Carlos Luís estaria feliz em ver o caminho que cada um deles trilhou, carregando no sangue a integridade, inteligência e honra no qual sabemos que ele foi."

Rodney de Castro Rodrigues, 14 de julho de 2018

"MEMÓRIAS"

 [Carlos Luís Matoso]

[Sr. José Matoso, pai de Carlos Luís]

 [Carlos Luís, Raimunda Mirtes e M. Tereza]

 [Carlos Luís, Raimunda Mirtes e M. Tereza]

[Batisado de Maria Tereza]

[Carlos Luís com M. Tereza no colo]

[Sr. José Matoso]

 [Sra. Elisa Correia]

[Sr. José Matoso e Sra. Elisa Correia]

[Fotografias da Família, cedidas por Rodney de Castro Rodrigues e enviadas em 14 de Julho de 2018]

NOTA: O meu reiterado obrigado a Maria Tereza Matoso Sampaio, a Rafaela Matoso e a Rodney de Castro Rodrigues por este comovente Tributo à Memória de Carlos Luís Correia Matoso.

[João Esteves]

[1843.] CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO [II]

* CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO || O EXÍLIO NO BRASIL [PARTE I] *

Carlos Matoso foi um importante militante comunista na década de 30. Preso em 11 de Maio de 1938, foi deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde sofreu inenarráveis violências.

Regressado a Portugal em Janeiro de 1946, exilou-se no Brasil, onde constituiu família e acabaria por se suicidar em 3 de Março de 1959.

[Carlos Matoso || Fotografia do Passaporte cedida por Rodney de Castro Rodrigues] 

Os tempos de exílio deste "homem honrado" [Armindo Rodrigues] são aqui evocados através de sua filha Maria Tereza Matoso Sampaio, mediante recolha do genro Rodney de Castro Rodrigues, a quem muito se agradece o generoso empenho na disponibilização de informações, documentos e fotografias de Carlos Luís Correia Matoso para que a sua Memória seja preservada. Pelos seus, que não o esquecem, e pelo País que tarda em reconhecer aqueles que combateram a Ditadura e viram, em muitos casos, as suas vidas aniquiladas para sempre.

 
[Carlos Matoso aos 4 e sete anos de idade || Fotografias da Família, cedidas por Rodney de Castro Rodrigues] 

"Quem narra todos os fatos para mim é a filha Maria Tereza Matoso Sampaio, filha a qual Carlos Luis teve com Raimunda Mirtes Soares aqui no Brasil quando veio em exílio. As memórias são de uma garota que viveu com seu pai até seus 7 (hoje com 66 anos) antes de sua partida inesperada (suicídio) e dos poucos relatos de sua mãe, a qual pouco comentava para não trazer à tona mais tristeza" [Rodney de Castro Rodrigues, 14 de Julho de 2018].

"VINDA AO BRASIL"

"Acredita-se que Sr. Carlos Luís Matoso veio ao Brasil logo após sua saída do Campo de Concentração do Tarrafal, a mando de seu irmão [...] o Sr. Comandante José Francisco. Casado com única herdeira do banco Pinto Souto Maior, ele estava à frente de todas as empresas: Homem com muitas posses, [...] tinha negócios no Brasil e o Sr. Carlos Luís veio como caixeiro viajante, comercializando produtos da empresa do irmão por todo o Brasil."

[Carteira de trabalho do comércio do Rio de Janeiro || 1954 || Documentos da Família, cedidas por Rodney de Castro Rodrigues]

"FORTALEZA"

"Em Fortaleza, onde tinha muitos amigos portugueses e comerciantes, e sempre estava a vender mercadoria para eles. Certa vez estava ele passeando pelo parque das crianças à noite, não se sabe ao certo a época, mas pouco tempo que aqui havia chegado, conheceu Raimunda Mirtes. O local era ponto de encontros e passeios, inaugurado em 1810, antes conhecido como Parque da Liberdade. O destino dos dois estava traçado e pouco depois de três meses foi a casa da já então namorada, pedir a sua mão em casamento para a mãe de Raimunda. Casaram-se e moraram por um ano em Fortaleza. Após isso moraram por um tempo em Salvador, Bahia, e após esse período, seu irmão José Francisco o levou para São Paulo já com um cargo de maior destaque dentro da empresa Casas Souto Maior."

[Carlos Luís, Raimunda Mirtes e esposa de José Francisco, Elsa Souto Maior || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"MARIA TERESA"

"Alguns meses depois, Raimunda Mirtes já gravida de 8 meses da pequena Tereza, seu cunhado José Francisco chamou-a e perguntou: Mirtes, você prefere que sua filha venha a nascer carioca ou paulista? Ela prontamente respondeu: Onde é que você quer que a gente vá? Diga e iremos. José Francisco explicou os planos e em comum acordo partiram para o Rio de Janeiro, mais precisamente em Ipanema, até hoje um dos melhores e mais valorizados bairros da cidade. Ali nasceu Maria Tereza Soares Matoso."

 [Carlos Luís e a filha Maria Tereza]

 
[Carlos Luís, Raimunda Mirtes e a filha Maria Tereza || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"GAROTA DE IPANEMA"





[Carlos Luís e a filha Maria Tereza || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

[Continua...]

NOTA: O autor deste Blogue agradece, muito sensibilizado, a Maria Tereza Matoso Sampaio, filha de Carlos Luís Correia Matoso), à neta Rafaela Matoso e a Rodney de Castro Rodrigues, marido de Rafaela, a confiança de poder disponibilizar esta Homenagem a um Homem de respeito e cuja história de vida merece ser (re)conhecida.

[1842.] CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO [I] || DO ALJUBE AO TARRAFAL

* CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO (1908 - 1959) || ALJUBE || CAXIAS || PENICHE || CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL *

Carlos Matoso foi um relevante militante do Partido Comunista na década de 30, tendo sido deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal em 1939, onde foi vítima de inenarrável violência e assistiu ao falecimento do seu camarada Bento Gonçalves. 

Regressou em 10 de Janeiro de 1946, “acabrunhado, tristonho, perdida a sua magnífica exuberância antiga" [Armindo Rodrigues], e exilou-se no Brasil, onde constituiu família e se suicidou em 3 de Março de 1959.

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Elisa Correia Dias Matoso e de José Matoso, nasceu em 15 de Julho de 1908, em Vila do Bispo – Algarve.

Estudante de Agronomia, aderiu à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, onde foi um importante quadro, juntamente com Carolina Loff da Fonseca, Edmundo Pedro, Francisco Paula de Oliveira (Pável), Fernando Quirino, Francisco Ferreira, Gilberto Florindo de Oliveira, Grácio Ribeiro, Manuel Rodrigues de Oliveira, Pedro Baptista da Rocha e Victor Hugo Velez Grilo.

Desempenhou, durante a década de 1930, actividade muito relevante no seio do Partido Comunista Português, tendo trabalhado, entre outros, com Bento Gonçalves, seu Secretário-Geral.

Fez parte do grupo que preparava acções para o 1.º de Maio de 1932, com recurso ao uso das bombas.

Terá sido preso em 24 de Abril, quando as experimentavam na Serra de Monsanto, juntamente com Abel Augusto Gomes de Abreu (gráfico da Casa da Moeda), António Franco Trindade, Álvaro Augusto Ferreira, Eduardo Valente Neto (marítimo), João Lopes Dinis (canteiro, faleceu no Tarrafal em 12/12/1941), Manuel Francisco da Silva (pedreiro) e Silvino Fernandes Costa (ajudante de farmácia).

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Em 1933 ou 1934, nasceu-lhe a filha Helena, fruto da sua relação com Carolina Loff. Esta e a filha recém-nascida partiram para a União Soviética, onde chegaram em Abril de1935, tendo Helena sido recolhida na escola internacional de Ivanovo.

Julgado à revelia pelo Tribunal Militar Especial em 20 de Outubro de 1934, foi condenado a dez anos de prisão no degredo e multa de vinte mil escudos, ficando, depois, à disposição do Governo.

Depois de andar anos na clandestinidade e procurado, foi preso pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) em 11 de Maio de 1938, aquando do assalto nocturno a uma tipografia clandestina, no Rego [Processo 562/938, enviado ao TME em 01/09/1938].

Levado para uma Esquadra incomunicável, entrou no Aljube em 3 de Agosto. Transferido, no dia 10, para uma Esquadra, tendo regressado ao Aljube em 23 e enviado para Caxias em 26 do mesmo mês.

Em 27 de Setembro, novamente transferido para uma Esquadra (a 1.ª) e, dois dias depois, seguiu para o Reduto Norte de Caxias, tendo sido enviado para Peniche em 1 de Novembro.

Voltou ao Aljube em 22 de Março de 1939.

Julgado pelo Tribunal Militar Especial em 10 de Maio de 1939, viu a pena de 20 de Outubro de 1934 ser agravada para doze anos e perda dos direitos políticos por cinco anos.

Em 20 de Junho de 1939, integrou a 6.ª leva de presos políticos enviada para o Campo de Concentração do Tarrafal, juntamente com Alberto Araújo e Augusto Valdez, de onde só foi libertado em 20 de Dezembro de 1945.

No Tarrafal, foi, como muitos outros presos, vítima de inenarrável violência, tendo assistido ao falecimento de Bento Gonçalves, que há muito conhecia e com quem militara no Partido Comunista: “Carlos Matoso ao notar aquela imobilidade, aquela qualquer coisa que logo nos fazia distinguir a vida da morte; pegou num pequeno espelho e aproximou-o à boca de Bento Gonçalves. Já não havia sopro de vida, e Carlos Matoso não pode conter toda a sua mágoa e toda a sua revolta. // - Assassinos! // O capitão Olegário fitou-o demoradamente e não tardou que o chamasse à secretaria para o esbofetear” [Tarrafal – Testemunhos, 1978].

Regressou em 10 de Janeiro de 1946: “Vinha acabrunhado, tristonho, perdida a sua magnífica exuberância antiga” [Armindo Rodrigues, Um poeta recorda-se, p. 223].

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

No Campo de Concentração, integrou o núcleo dirigente Organização Comunista Prisional do Tarrafal, juntamente com outros membros do Comité Central, alguns dos quais haviam tinham pertencido ao seu Secretariado, como Alberto Araújo, Francisco Miguel, Júlio Fogaça, Manuel Alpedrinha, Miguel Wager Russell e Militão Ribeiro.

No seu livro Um poeta recorda-se – Memórias de uma vida, o médico e poeta Armindo Rodrigues, amigo de convívio diário de Carlos Matoso durante a década de 30, tece-lhe os maiores elogios políticos, partidários e humanos:

Do Carlos Matoso nunca me adveio o menor perigo. Pelo contrário, quando o prenderam pela última vez, no assalto nocturno a uma tipografia clandestina, no Rego […] não disse uma palavra que pudesse comprometer-me” [p. 16].

“[…] homem honrado e inflexível” [p. 150].

 “Dos regressados da deportação, um era o meu amigo Carlos Matoso, a quem devo a mudez leal que a meu respeito manteve. Vinha acabrunhado, tristonho, perdida a sua magnífica exuberância antiga. E a breve trecho, por diligência do irmão rico, oficial da Aviação Marítima e genro único do banqueiro Soto Maior, emigraria para o Brasil” [pp. 223-224].

Exilado no Brasil, Carlos Matoso procurou reconstruir a sua vida e constituiu família: casou com 
Raimunda Mirtes Soares e do enlace nasceu Maria Tereza Matoso Sampaio. 

Em próximos postes, publicar-se-á o testemunho inédito, detalhado e comovente disponibilizado por Rodney de Castro Rodrigues, casado com a sua neta Rafaela.
  

[João Esteves]

terça-feira, 19 de junho de 2018

[1836.] CAROLINA LOFF DA FONSECA [I] || 1911 - 1999

* CAROLINA LOFF DA FONSECA (1911 - 1999) || IMPORTANTE DIRIGENTE COMUNISTA NA DÉCADA DE 1930 || EXPULSA DO PARTIDO COMUNISTA POR ENVOLVIMENTO EMOCIONAL COM O INSPECTOR DA PVDE JÚLIO DE ALMEIDA *

O percurso político de Carolina Loff é um dos mais polémicos e intrigantes, já que destacada militante e dirigente comunista, comunista na década de 30, com passagens pela União Soviética e missões da Internacional Comunista na Espanha Republicana durante a Guerra Civil, envolveu-se emocionalmente, depois de ter sido presa pela segunda vez, em 1940, com o inspector da PVDE responsável pelo seu processo. 

Apesar de expulsa do Partido Comunista, está por apurar o seu real envolvimento com os serviços de espionagem soviética, já que se revelara um quadro ao serviço da Internacional Comunista com tarefas atribuídas em Espanha e Portugal e que continuou, depois disso, a entrar e sair da URSS com enorme facilidade. 

[Carolina Loff || 01/061940 || ANTT || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 63, registo n e 12405 || PT/TT/PlDE/E/010/63/12405 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filha de Ida Loff Fonseca, "jovem destemida e moderna, de uma família abastada" [Anabela Natário, "Carolina Loff", Portuguesas com História - Século XX, Temas e Debates, 2008] nasceu em Cabo Verde (Praia, Santiago) em 12 de Novembro de 1911 e faleceu em 6 de Março de 1999, com 87 anos. 

O pai, Carlos Eugénio de Vasconcelos [1883 - 1928], seria natural da Madeira e os bisavós, "um ucraniano de apelido Loff e a belga Lídia Léger", emigraram para Cabo Verde em meados do século XIX, dando "início a um futuro próspero" [A. Natário].

Aos 15 anos partiu, com a mãe, para Lisboa e estudou no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, a funcionar no Largo do Carmo, onde concluiu o Curso Geral dos Liceus. 

Prima dos activistas comunistas Álvaro [1910 - 1975] e Dalila Duque da Fonseca [15/01/1911 - 1992], era, tal como aqueles, originária de Cabo Verde e dirigente da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas nos primórdios da década de 30, depois de ter aderido por intermédio de José Grácio Ribeiro, estudante de Direito mais tarde afastado e que enfileirou na União Nacional. 

Integrou a primeira célula feminina comunista, organizada por Wilma Freund, cedo se notabilizou pela dedicada militância e enquanto autora de parte dos artigos da imprensa da FJCP. 

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Presa pela primeira vez em 6 de Setembro de 1932, quando estava grávida do seu companheiro Carlos Matoso e andava a colar propaganda. 

Passou pela Cadeia das Mónicas e, embora detida e sob vigilância da Polícia e Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), o parto ocorreu na Maternidade Bensaúde, onde a filha Helena nasceu em 1933. 

O companheiro Carlos Luís Correia Matoso [n. 15/07/1908], dirigente do Partido Comunista, não terá chegado a conhecer a filha Helena: julgado à revelia em 20 de Outubro de 1934 e condenado a 10 anos de degredo, foi preso em 11 de maio de 1938, passou sucessivamente por diversas esquadras, Cadeia do Aljube, Forte de Caxias e de Peniche, até ser enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde entrou em 20 de Junho de 1939. Solto em 20 de Dezembro de 1945, regressou em 10 de Janeiro de 1946 e emigrou para o Brasil, onde se suicidou “passado pouco tempo, em condições misteriosas” [Edmundo Pedro, Memórias. Um Combate pela Liberdade, I Volume, Âncora Editores, 2007]. 

Em Março de 1935, Carolina Loff partiu para a União Soviética com a bebé, a convite de Francisco Paula de Oliveira, frequentou a Escola Leninista, da Internacional Comunista, com o pseudónimo Ana Marta, e quando Bento Gonçalves e Álvaro Cunhal foram a Moscovo, nesse mesmo ano, reencontraram-na a trabalhar “como intérprete e tradutora nas edições em língua estrangeira” [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política, Vol. 1 – “Daniel”, O Jovem Revolucionário (1913-1941), Lisboa, Temas e Debates, 1999], destinadas sobretudo ao Brasil. 

[Carolina Loff || 01/06/1940 || ANTT || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 63, registo n 12405 || PT/TT/PlDE/E/010/63/12405 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Aí, lidou com alguns dos nomes importantes da Internacional Comunista que, em 1937, a enviaram para Espanha com a finalidade de montar uma emissora clandestina do Comintern para Portugal (mais conhecida por rádio do PCP) que passasse por funcionar em Lisboa e denunciasse o apoio do governo aos revoltosos espanhóis, o que sucedeu: a emissão “era feita a partir do próprio edifício da sede do PCE em Valência e transmitida pela Telefónica para Madrid”, fazendo quase tudo sozinha – “era a locutora e redigia grande parte do material que era transmitido”. Além disso, “lidava directamente com os mais altos responsáveis do PCE” e intervém "junto da comunidade portuguesa exilada em Espanha, informando sobre o seu comportamento político quer o PCE, quer os serviços de informação associados ao secretariado de Togliatti /«Alfredo»” [JPP, vol. 1], usando um passaporte belga em nome de Berthe Mouchet. 

Nesse ano de 1937, o seu nome surgiu como possibilidade para substituir Armando Magalhães em Paris, o quadro mais influente naquela cidade e em rota de colisão com as orientações de Francisco de Paula Oliveira, então o principal dirigente do PCP, numa tentativa de solucionar conflitos internos que se arrastavam sem solução a contento deste. 

Em 1938, fez parte da direcção da União Antifascista dos Portugueses Resistentes em Espanha, sediada em Madrid, trabalhou no Comité da Frente Popular em Barcelona e manteve-se naquele país até ao fim da Guerra Civil, tendo sido presa e torturada pelos franquistas, afirmando-se então como jornalista belga. 

As autoridades espanholas entregaram-na na fronteira portuguesa em Outubro de 1939, “acompanha-da por um personagem misterioso [Nikolas Gargoff], suposto delegado da IC, e que vai ter um papel igualmente obscuro no processo da «reorganização»” [JPP, vol. 1] do Partido Comunista Português em 1940-1941.

Ao não ser, estranhamente, detida, regressou à luta política dentro do núcleo dirigente daquele. 

Até ser presa em Maio de 1940, viveu clandestina, usou o nome de Maria Luísa, manteve estreita colaboração com Álvaro Cunhal no Secretariado, contribuiu para a redacção de documentos políticos e de textos sobre a política internacional do movimento comunista, bem como interveio na sua distribuição. 

Devido ao comportamento na prisão, chegando a ser acareada com Álvaro Cunhal e Francisco Miguel, e ao facto de se ter ligado ao subinspector da PIDE Júlio de Almeida, com quem viveu cerca de dez anos e que, depois, partiu para Angola, viria a ser expulsa do Partido na década de 40, estando por apurar o real envolvimento com os serviços de espionagem soviética, já que se revelara um quadro ao serviço da Internacional Comunista com tarefas atribuídas em Espanha e Portugal e que continuou sempre a entrar e sair da URSS com enorme facilidade. 

[Carolina Loff || 01/061940 || ANTT || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 63, registo n 12405 || PT/TT/PlDE/E/010/63/12405 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

O seu nome, a par do de Helena [Vieira] Faria, constou como exemplo nefasto nas primeiras edições do importante manual político de conduta em caso de detenção pela polícia política Se Fores Preso, Camarada..., bem como no Lutemos contra os espiões e provocadores – Breve história de alguns casos de provocação no PCP,  da autoria do Secretariado do CC do PCP e saído em 1952. 

Usou ainda os pseudónimos “Berta”, “Marta da Costa” e “Sylvie”. 

Edmundo Pedro manteve relações de amizade com Carolina Loff, que lhe apresentou a filha, então já sexagenária e mãe de um casal de gémeos, criada e educada na União Soviética, sendo uma dos muitos estrangeiros, incluindo filhos de portugueses, que passaram pela escola internacional de Ivanovo. 

O percurso intrigante e enigmático de Carolina Loff saiu reforçado por se ter recusado sempre, apesar da sua longevidade, a esclarecer episódios dessa vivência, originando, entre outras, as obra de ficção O Enigma de Zulmira, de Vasco Graça Moura, e Cartas Vermelhas, de Ana Cristina Silva. 

Segundo Anabela Natário, "Carolina afastou-se da política activa, mas nunca deixou de contribuir para as causas antifascistas, inclusive para o Partido Comunista".

Feminae - Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013] incluiu uma nota biográfica de Carolina Loff da Fonseca.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Registo Geral de Presos / 12405 [Carolina Loff Fonseca / PT-TT-PIDE-E-010-63-12405_m0001].

[João Esteves]