[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

[2289.] ARTUR RODRIGUES PAQUETE [I] || BRIGADAS INTERNACIONAIS/GCE - TARRAFAL

* ARTUR RODRIGUES PAQUETE *
[28/05/1906 - ?]

Artur Rodrigues Paquete militou no Partido Comunista Francês, país de onde partiu para Espanha para integrar, como voluntário, as Brigadas Internacionais. Esteve internado, entre 1939 e 1941, em campos criados em França para os refugiados da Guerra Civil e, de regresso a Portugal, foi preso, conheceu as prisões do Aljube, de Peniche e de Caxias, até ser enviado para o Tarrafal, onde permaneceu entre 1942 e 1945.

[Artur Rodrigues Paquete || 07/05/1941 || ANTT || RGP/13268 || PT-TT-PIDE-E-010-67-13268]

Filho de Ercília da Rosa e de António Rodrigues Paquete, Artur Rodrigues Paquete nasceu em Almancil, em 28 de Maio de 1906.

Em 1927, cumpriu como soldado, durante seis meses, o serviço militar em Lagos, no Batalhão de Infantaria 33, e Faro, em Caçadores 4, tendo emigrado para Espanha nesse mesmo ano. Aí permaneceu até 1930, ano em que seguiu para França, onde viveu até 1938.

Em Puy-de-Dôme, na região de Clermont-Ferrand, aderiu à CGT e filiou-se no Partido Comunista Francês em 1935, tendo frequentado um curso político de três meses e escrito, segundo o próprio, alguns artigos no periódico Montanha. Por fim, trabalhou como mineiro em Saint-Etienne e residia, com a mulher e filhos em Villars. Mantinha, ainda, contactos com a Federação dos Emigrados Portugueses, sediada em Paris, através de António Ferreira.

Por intermédio do Partido Comunista Francês, chegou a Espanha em 31 de Maio de 1938 «para lutar contra o fascismo», integrando a 14.ª Brigada, 2.º Batalhão, 1.ª Companhia. 

Terá participado, como soldado, na Batalhas do Ebro, permanecendo cerca de três meses na frente: 2 meses em Tortosa e 18 dias na Serra de Pàndols. A sua conduta foi considerada boa e pediu a admissão ao Partido Comunista Espanhol

Aquando do repatriamento para França, o Comité dirigente do Partido da XII Brigada Internacional, onde predominavam os italianos, assinalou-o como «disciplinado, sério, corajoso» e «simpatizante comunista, muito activo, inteligente», com «nível político elevado».   

Desempenhou as funções de comissário do "Centro de Desmobilização dos Camaradas Portugueses" em Torelló, na Província de Barcelona. Em Dezembro de 1938, recebeu ordens para se deslocar com os portugueses das Brigadas Internacionais que com ele estavam para Puig-Alt de Ter, onde se havia estabelecido um campo para aqueles e cujo comandante era o Major Inácio Augusto Anta [05/04/1906 - 1945]. Este, viria a ser morto numa câmara de gás, no Campo de Concentração de Sachsenhausen, no norte da Alemanha, em Fevereiro de 1945.

No campo de desmobilização de tropas estrangeiras N.º 3, em Puig-Alt de Ter, foi nomeado, por unanimidade, por soldados e oficiais, comissário político, tendo como uma das preocupações a formação cultural dos soldados ali reunidos. Terá, então, entrado em conflito com Inácio Augusto Anta por este pretender, de forma aventureira, formar uma unidade militar de voluntários para fazer a revolução em Portugal.

Atravessou os Pirenéus em direcção a França no início de 1939, juntamente com centenas de portugueses, ficando no campo de internamento de Argelès-sur-Mer, onde manteve algum papel de destaque. 

Por já ter vivido em França, foi-lhe permitido abandonar aquele mas, em Janeiro de 1940, voltou a ser internado, desta vez no Campo Vernet d'Ariège onde, com o início da Segunda Guerra, foram mantidos os estrangeiros considerados perigosos à ordem pública francesa, antifascistas e brigadistas.

[Artur Rodrigues Paquete || 07/05/1941 || ANTT || RGP/13268 || PT-TT-PIDE-E-010-67-13268]

Provavelmente por ter sido repatriado, Artur Rodrigues Paquete foi preso em 6 de Maio de 1941 e transferido para o Aljube em 3 de Junho [Processo 885/941]. Em 8 de Julho passou para Caxias e, no mês seguinte, 6 de Agosto, foi enviado para Peniche, onde permaneceu dez meses.

Regressou a Caxias em 19 de Junho de 1942 para embarcar, no dia seguinte, para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde ficou três anos e quatro meses.

Abrangido pela amnistia de 18 de Outubro de 1945, regressou a Lisboa no paquete "Guiné", tendo desembarcado em 1 de Fevereiro de 1946. 

Libertado, declarou que iria viver para Almancil. 

Desconhece-se o seu percurso posterior, não sendo de excluir o regresso a França, onde tinha família.

Fonte:
ANTT, Registo Geral de Presos 13268 [Artur Rodrigues Paquete / PT-TT-PIDE-E-010-67-13268].

[João Esteves]

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

[2266.] ADOLFO TEIXEIRA PAIS [I] || PRESO EM 1933, 1935, 1936, 1952 E DEPORTADO PARA O TARRAFAL (1936-1945)

* ADOLFO TEIXEIRA PAIS *
[07/07/1912 - ?]

Militante das Juventudes Comunistas, Adolfo Pais, referenciado como "O Cantador de Fado" ou "O Diabo", foi preso por quatro vezes e passou nove anos no Tarrafal.

[Adolfo Teixeira Pais || ANTT || RGP/896 || PT-TT-PIDE-E-010-5-896_m0197]

Filho de Ana Joaquina Teixeira e de Germano Pais, Adolfo Teixeira Pais nasceu em 7 de Julho de 1912, em Lisboa.

Empregado no comércio, militava nas Juventudes Comunistas e integrava a Célula N.° 47 do Comité de Zona N.° 4, tendo, anteriormente, pertencido à Célula N.° 46.

Este Comité reunir-se-ia às terças-feiras, pelas 21 horas, no Jardim da Parada, em Campo de Ourique e Adolfo Teixeira Pais desempenharia as funções de Secretário da Comissão de Organização, composta, entre outros, por Manuel dos Santos, "O Manuel da Fonte Santa", e Virgínio de Jesus Luís.

Segundo o seu Cadastro Político [ANTT, Cadastro Político 5210], também assistiria às reuniões que se efectuavam às segundas-feiras, à esquina do Café Itália ou à porta do Coliseu, com a Comissão Regional e onde estavam presentes os delegados das outras Zonas: Cintra, pela Zona N.° 1, Luna pela número 3, ele, pela N.° 4, e um tal Liberto ou Ferreira, da Comissão Regional.

Integrou o grupo que, em 20 de Janeiro de 1933, distribuiu manifestos clandestinos à porta das Oficinas Gerais da CML, na Rua 24 de Julho - Alcântara, entregues por Virgínio de Jesus Luís, enquanto Manuel dos Santos discursava no comício relâmpago então efectuado.

Finda a reunião do Comité de Zona N.° 4 realizada em 24 de Janeiro de 1933, os intervenientes  foram abordados na rua por dois guardas da PSP, tendo, na sequência de um tiro e do ferimento de um dos agentes, Adolfo Teixeira Pais fugido com Manuel dos Santos.

[Adolfo Teixeira Pais || ANTT || RGP/896 || PT-TT-PIDE-E-010-5-896_m0197]

Em 26/02/1933, Adolfo Pais seria preso em casa pela PSP, levado para o Governo Civil e, depois, entregue à Polícia de Defesa Política e Social [Processo 626]. Considerado «elemento bastante activo e perigoso», foi julgado pelo Tribunal Militar Especial em 2 de Março de 1934 e condenado a 600 dias de prisão [Processo 31/933 do TME].

Subscreveu a Carta Aberta impressa, datada de 30 de Março de 1933, em resposta a uma visita do Ministro do Interior [Albino Soares Pinto dos Reis Júnior (30/09/1888 - 14/05/1983)] ao Aljube e à respectiva nota oficiosa publicada nos jornais, em que 56 dos 75 presos no Aljube de Lisboa esclarecem e denunciam as torturas sofridas, sendo que «foram espancados 49, e alguns duma  maneira bastante selvagem».

Libertado em 21 de Dezembro de 1934, voltou a ser preso no ano seguinte, em Abril de 1935, quando era soldado. A ordem do Ministro da Guerra indicava que devia ser entregue à PVDE, tendo, em 24 de Abril de 1935, o Regimento de Artilharia de Costa N.° 1 - Trafaria confiado o soldado recruta Adolfo Teixeira Pais [Processo 1455].

Levado para a 1.ª Esquadra, foi transferido para Peniche em 16 de Maio, «em virtude de ter sido um dos principais autores duma insubordinação levada a efeito no calabouço N.° 6 do Governo Civil». Licenciado da tropa em 21 de Junho, voltou para os calabouços do Governo Civil em 12 de Julho, sendo libertado em 22 do mesmo mês.

[Adolfo Teixeira Pais || ANTT || RGP/896 || PT-TT-PIDE-E-010-5-896_m0197]

No ano seguinte, em 19 de Fevereiro de 1936, voltaria a ser preso, «enquanto comunista», pela Secção Política e Social da PVDE. Permaneceu numa esquadra até ser levado, em 15 de Abril, para Peniche e, em 14 de Outubro, já estava em Caxias, antecâmara da deportação para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde integraria a primeira leva de presos políticos e ficaria por 9 anos [Processo 625/36].

Abrangido pela amnistia de 18 de Outubro de 1945, regressou a Lisboa em 1 de Fevereiro de 1946, saindo em liberdade e ido viver para a Rua Convento da Encarnação 43 - 3.°.

Referenciado como electricista, Adolfo Teixeira Pais foi preso pela última vez em 18 de Agosto de 1952, «por emigração clandestina». Recolheu à Cadeia de Castelo de Vide, sendo julgado pelo Tribunal daquela Comarca [Processo 840/952].

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5210 [Adolfo Teixeira Pais / PT-TT-PIDE-E-001-CX05_, m0205, m0205a, m0205b, m0205c].

ANTT, Registo Geral de Presos 896 [Adolfo Teixeira Pais / PT-TT-PIDE-E-010-5-896].

[João Esteves]

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

[2264.] FLORIANO GABRIEL SOARES SAMPAIO LUZ [I] MILITANTE DAS JUVENTUDES COMUNISTAS - PRESO EM 1933, 1934, 1936, 1947

* FLORIANO GABRIEL SOARES SAMPAIO LUZ *
[11/10/1915 - ?]

Militante das Juventudes Comunistas, Floriano Sampaio Luz foi preso em 1933, 1934, 1936 e 1947. Conheceu os calabouços do Governo Civil, a Casa de Reclusão da Torre de São Julião da Barra, o Aljube, Caxias e esteve quase três anos deportado em Angra do Heroísmo. 

[Floriano Sampaio Luz || 1933 ou 1934 || ANTT || RGP/2729 || PT-TT-PIDE-E-010-14-2729_P2_m0014]

Filho de Palmira da Conceição Soares Luz e de Adolfo Jaime Sampaio Luz, Floriano Gabriel Soares Sampaio Luz nasceu em 11 de Outubro de 1915, em Lisboa.

Estudante, integraria, a Célula N.° 49 do Comité de Zona N.° 4 das Juventudes Comunistas, sendo o seu Secretário. Tinha, também, a cargo a Comissão Feminina.

Em 20 de Janeiro de 1933, foi um dos participantes na distribuição de manifestos clandestinos à porta das Oficinas Gerais da CML, em Alcântara.

Foi preso pela primeira vez em 24 ou 26 de Janeiro de 1933, quando participava numa reunião clandestina juntamente com Adolfo Teixeira Pais, "O Diabo", António da Piedade Cipriano, João Ferreira de Abreu e Manuel dos Santos, "O Manuel da Fonte Santa". Tratava-se de uma reunião do Comité de Zona N.° 4 realizada na Rua 1.° de Maio, no fim da qual foram surpreendidos por dois agentes da PSP.

Na sequência da recusa de os acompanharem à esquadra, um dos guardas foi ferido com um tiro. Enquanto Adolfo Teixeira Pais e Manuel dos Santos fugiram, os outros três foram logo presos, levados para os calabouços do Governo Civil e entregues à Polícia de Defesa Política e Social [Processo 626]. Segundo o Cadastro Político de Floriano Sampaio Luz, este era considerado «um elemento bastante activo e muito perigoso» [ANTT, Cadastro Político 4878].

Subscreveu a Carta Aberta impressa, datada de 30 de Março de 1933, em resposta a uma visita do Ministro do Interior [Albino Soares Pinto dos Reis Júnior (30/09/1888 - 14/05/1983)] ao Aljube e à respectiva nota oficiosa publicada nos jornais, em que 56 dos 75 presos no Aljube de Lisboa esclarecem e denunciam as torturas sofridas, sendo que «foram espancados 49, e alguns duma  maneira bastante selvagem».

Em 15 de Março de 1933, seria transferido para a Casa de Reclusão da Torre de São Julião da Barra, de onde se evadiu em 27 de Dezembro.

[Floriano Sampaio Luz || 1933 ou 1934 || ANTT || RGP/2729 || PT-TT-PIDE-E-010-14-2729_P2_m0014]

Julgado em 2 de Março de 1934, foi condenado a 10 meses de prisão correccional a contar da data de captura [Processo 31/934 do TME].

Voltou a ser detido em 6 de Abril de 1934, por se ter evadido anteriormente [Processo 626-A], e libertado no dia 1 de Maio.

Continuou com a sua militância e, em 10 de Março de 1936, voltou a ser preso por fazer parte da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas e ter participado, juntamente com António Gomes Pereira, Edmundo Pedro, Helder David Dias de Meneses, Júlio Agostinho Marques da Silva, Manuel José Ferreira e outros, nos comícios relâmpago realizados na Escola Industrial Machado de Castro e Escola Comercial Rodrigues Sampaio.

Uma semana depois, quando era conduzido da Secção Política e Social da PVDE à esquadra onde se encontrava incomunicável, conseguiu fugir [Processo 1813], permanecendo em Espanha entre 29 de Maio e 2 de Agosto de 1936, dia em que se entregou no Posto da Secção Internacional da PVDE em Vilar Formoso.

A fuga para Espanha fora feita na companhia de José Cabral de Jesus, que também tinha escapado à PVDE.

Levado incomunicável para uma esquadra, foi transferido para a 1.ª em 6 de Agosto e entrou no Aljube em 19 do mesmo mês. Em 17 de Outubro, embarcou para Angra do Heroísmo e aí foi julgado pelo TME em 29 de Maio de 1937, condenando-o em 4 anos de prisão e perda dos direitos políticos [Processo 165/936 do TME].

Três anos depois, em 7 de Junho de 1939, foi transferido de Angra para a prisão de Caxias, onde entrou a 8, depois de ter passado um dia no Aljube. Por ter sido indultado, foi libertado em 24 de Dezembro de 1939.

[Floriano Sampaio Luz || 01/04/1947 || ANTT || RGP/2729 || PT-TT-PIDE-E-010-14-2729_P2_m0013]

Voltou a ser detido, para averiguações, em 1 de Abril de 1947, levado para o Aljube e libertado em 6 de Maio.

[Floriano Sampaio Luz || 01/04/1947 || ANTT || RGP/2729 || PT-TT-PIDE-E-010-14-2729]

Paula Godinho, na Dissertação de Doutoramento em Antropologia "Memórias da Resistência Rural no Sul - Couço (1958 - 1962)" [UNL - FCSH, 1998], evoca a memória de Floriano Sampaio Luz, «velho lutador com quem convivi ao longo de mais de 20 anos, que me ensinou a perceber "por dentro" instituições com a marca do segredo e a perscrutar, de forma participante, a matéria de que se fazem os revolucionários e as revoluções».

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 4878 [Floriano Gabriel Soares Sampaio Luz / PT-TT-PIDE-E-001-CX09_m0324, m0324a, m0324b, m0324c].

ANTT, Registo Geral de Presos 2729 [Floriano Gabriel Soares Sampaio Luz / PT-TT-PIDE-E-010-14-2729_m0271].

[João Esteves]

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

[2236.] JOSÉ ARTUR DOS SANTOS CARDOSO [I] || ASSALTO AO QUARTEL DE BEJA - 1962

* JOSÉ ARTUR DOS SANTOS CARDOSO *
[10/12/1932 - 19/07/1982]

[José Artur dos Santos Cardoso || 03/08/1965 || ANTT || RGP/25049 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

O esboço biográfico de José Artur dos Santos Cardoso, preso por ter participado, na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, no Assalto ao Quartel de Beja, só foi possível a partir do rigoroso livro José António Cabrita A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça [Câmara Municipal de Palmela, 2017], sendo que as informações apresentadas e documentação referida têm por suporte aquela obra.

[José António Cabrita || 2017 || Câmara Municipal de Palmela]

Filho de Jesuína dos Santos e de Artur dos Santos Cardoso, José Artur dos Santos Cardoso nasceu na Moita em 10 de Dezembro de 1932.

Pintor, integrava os quadros do Barreiro da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses - CP.

A viver em Pinhal Novo aquando do Golpe de Beja, integrou o «comando Serra» [p. 95], teve «lugar de certo destaque nas acções de planeamento e de recrutamento» e foi em sua casa que ocorreram reuniões conspirativas, tendo aí pernoitado algumas vezes o amigo Manuel Serra.

[José Artur dos Santos Cardoso || 03/08/1965 || ANTT || RGP/25049 || in José António CabritaA PIDE em Pinhal Novo]

Implicado nas três tentativas de assalto ao quartel de Beja, seria preso pela PIDE em 30 de Março de 1962 e, pelo menos, interrogado em 3 e 7 de Abril. Permaneceu no Aljube cerca de uma semana e, em 6 de Abril, seguiu para Caxias, só sendo julgado em 29 de Julho de 1964. Condenado a 2 anos anos e um mês, passou para o Forte de Peniche em 25 de Setembro. 

[José Artur dos Santos Cardoso || 03/08/1965 || ANTT || RGP/25049 || in José António CabritaA PIDE em Pinhal Novo]

José Artur dos Santos Cardoso só saiu em liberdade vigiada em 31 de Julho de 1965, obtendo liberdade definitiva em 28 de Janeiro de 1971.

Faleceu em 19 de Julho de 1982, com 49 anos.

Fonte:
José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça, Câmara Municipal de Palmela, 2017, pp. 95-108.

[João Esteves]

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

[2219.] ARQUIMEDES DA SILVA SANTOS [IV] || PRISÃO - 1949-1952

* ARQUIMEDES DA SILVA SANTOS *
[1921 - 2019]

ALJUBE - CAXIAS - ALJUBE

[Arquimedes da Silva Santos || 25/07/1949 || ANTT || RGP/19311 || PT-TT-PIDE-E-010-97-19311]

[Arquimedes da Silva Santos || 25/07/1949 || ANTT || RGP/19311 || PT-TT-PIDE-E-010-97-19311]


[Arquimedes da Silva Santos || 25/07/1949 || ANTT || RGP/19311 || PT-TT-PIDE-E-010-97-19311]

[João Esteves]

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

[2194.] ARTUR PEREIRA DAS NEVES [I] || PRESO POLÍTICO (1967 - 1970)

* ARTUR PEREIRA DAS NEVES *
[n. 27/12/1929]

Este esboço biográfico de Artur Pereira Neves só se tornou possível a partir do livro de José António Cabrita A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça [Câmara Municipal de Palmela, 2017], sendo que todos os dados apresentados e documentação referida têm por suporte aquela obra.

[Artur Pereira das Neves || 24/05/1967 || ANTT || RGP/27769 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

Filho de Cláudia da Piedade Varino e de José das Neves Barateiro, Artur Pereira das Neves nasceu na Batalha em 27 de Dezembro de 1929.

Serralheiro mecânico e exímio jogador de xadrez, vivia em Pinhal Novo com a operária têxtil Maria da Graça Sousa Neves, ambos militantes do Partido Comunista: "tinham uma actividade política muito intensa", organizando, por exemplo, piqueniques nos pinhais próximos que "mais não eram do que reuniões com um cunho marcadamente político" [p. 120].

Com 37 anos, em 24 de Maio de 1967, pelas oito horas da manhã, foi preso na Cometna, em Palmela, quando estava a iniciar o trabalho, ao mesmo tempo que outra brigada da PIDE entrava na sua residência em Pinhal Novo, onde se encontrava a mulher que, por mera coincidência, fazia anos, levando "um volumoso escrito que Artur vinha laboriosamente compondo sobre a situação política em Portugal" [p. 121] e nunca recuperado, apesar das diligências efectuadas após 1974.

Encaminhado, primeiro, para Setúbal, seguiu, depois, para Caxias, aonde o iam buscar para os interrogatórios e torturas na António Maria Cardoso. 

[Câmara Municipal de Palmela || 2017]

Dias depois da prisão, a sua mulher organizou um documento em abono do companheiro e reclamando a sua libertação, contendo o abaixo-assinado um total de 86 assinaturas, entre as quais as de 24 mulheres. Nessa recolha, participou activamente o filho, então com doze anos e estudante da Escola Comercial e Industrial de Setúbal, onde era aluno de excelência, assim continuando apesar da situação criada quanto às dificuldades económicas e emocionais. Em 6 de Junho, treze dias decorridos sobre a detenção do marido, endereçou-o ao director da PIDE por correio. 

Maria da Graça Sousa Neves não se ficou por aquela missiva e enviou uma carta ao director da PIDE protestando contra a prisão do marido que "há dois meses me foi levado do lar" sem que "ninguém lhe tivesse explicado as razões", expressando "a sua grande preocupação pelo aspecto cadavérico que Artur mostrava, em consequência dos maus-tratos que lhe estavam a ser infligidos, assim como se insurgia contra o corte de visitas que a PIDE tinha imposto". Por fim, solicitava "uma audiência ao director da PIDE, para, de viva voz, lhe poder expressar o seu descontentamento" [p. 124].

[Câmara Municipal de Palmela || 2017]

Preso em Caxias, foi duramente torturado, física e psicologicamente, na António Maria Cardoso: socos, pontapés, agressões com objectos vários, pistolas encostadas à cabeça e submetido, numa das vezes, à  tortura da estátua durante treze dias e treze noites, recusando, quase sempre, a responder a perguntas ou a assinar qualquer auto [p. 125].

Já quando tinha sido preso recusara olhar a objectiva da máquina fotográfica dos carcereiros, aparecendo de olhos cerrados aquando do acto de tirar as fotografias que constam do Registo Geral de Presos, sendo visível uma mão a segurar-lhe a cabeça.

[Artur Pereira das Neves || 24/05/1967 || ANTT || RGP/27769 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

Apesar do seu mutismo, a PIDE tinha um extenso relatório sobre as suas actividades, considerando que entrara para o Partido Comunista em 1958, quando trabalhava nos estaleiros da CUF, na Rocha do Conde de Óbidos, estando ligado, inicialmente, a Firmino João Martins [n. 29/05/1925], preso em Abril de 1963 e condenado a 24 meses de prisão correccional.

Dessas informações, constava que usara o pseudónimo de Alberto, organizara uma célula naqueles estaleiros e distribuíra panfletos e outra imprensa clandestina. Em meados de 1962, fora enviado para a União Soviética, tendo saído clandestinamente do país, aí permanecendo dez meses para frequentar a Escola Central do PCUS com o apelido Torres.

Regressado em Junho de 1963, não voltou ao trabalho que tinha, passando para a Sorefame e, depois, para a Cometna, onde ingressou em 1965 e terá formado uma célula, vivendo numa semi-clandestinidade. A sua residência em Pinhal Novo teria, então, servido de ponto de apoio do Partido Comunista.

Também foi acusado de formar uma célula em Pinhal Novo, o que levaria à prisão de cinco pessoas sem qualquer outra prova além de conhecerem Artur Neves.

Julgado em 19 de Fevereiro de 1968, foi condenado a 2 anos e 10 meses de prisão maior, 15 anos de suspensão de direitos políticos e aplicação de medidas de segurança de internamento de 6 meses a três anos, prorrogável.

Perante o Tribunal Plenário, Artur Pereira das Neves afirmou que a polícia o "havia torturado com o fim de o obrigar a assinar autos por ela forjados ao que ele se opôs" e, por isso, "recorreu a outro estratagema: prender pessoas suas amigas e obrigá-las à confissão de factos, por meio de torturas, que o incriminassem a ele. Que essas pessoas em breve ali iriam responder e que para elas pedia o perdão do Tribunal visto serem falsos os seus depoimentos" [p. 136].

Entrou no Forte de Peniche em 9 de Março, de onde só saiu em liberdade condicional em 21 de Dezembro de 1970. A definitiva só chegaria em 14 de Novembro de 1972.

Artur Pereira das Neves voltou, então, à acção política, mantendo a militância enquanto pôde ser activo. Como não foi reintegrado na Cometna, conseguiu colocação na Mague, em Alverca onde, depois de algum tempo, passou a viver com a família.

Fonte:
José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça, Câmara Municipal de Palmela, 2017, pp. 119-136.

[João Esteves]

sexta-feira, 10 de maio de 2019

[2134.] ANTÓNIO DOMINGUES JUBILEU [I] || 18/01/1934 - MARINHA GRANDE

* ANTÓNIO DOMINGUES JUBILEU *
[28/10/1906 - 24/09/2004] 

[António Domingues Jubileu || 1934 || ANTT || RGP/15 || PT-TT-PIDE-E-010-1-15_P2_m0035b]

Por ter tido participação activa na Greve Geral de 18 de Janeiro de 1934, juntamente com os irmãos Manuel [n. 06/12/1908] e Albino Domingos Jubileu [n. 01/06/1910], todos vidreiros da Marinha Grande, António Jubileu foi preso e deportado para a Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, de onde regressou em 23 de Julho de 1943 para seguir para Peniche, só sendo libertado em 25 de Dezembro do mesmo ano, após praticamente dez anos de cativeiro.

[António Domingues Jubileu || 10/03/1949 || ANTT || RGP/15 || PT-TT-PIDE-E-010-1-15_P2_m0035b]

Novamente preso em 6 de Março de 1949, na Marinha Grande, passou pelo Aljube, Caxias e Peniche. 

Apesar de ter sido absolvido pelo Tribunal Plenário Criminal de Lisboa de 6 de Dezembro de 1949, foi-lhe aplicada a medida de segurança e só saiu em liberdade condicional em 12 de Julho de 1951.

Retomou as actividades políticas clandestinas no âmbito do Partido Comunista e faleceu com 97 anos de idade, em 24 de Setembro de 2004.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

[João Esteves]

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

[2064.] EDMUNDO GONÇALVES [I] || PRESO POR SEIS VEZES E DEPORTADO PARA O TARRAFAL, ONDE FALECEU

* EDMUNDO GONÇALVES *
[19/02/1900 - 13/06/1944]

PRESO SEIS VEZES ENTRE 1929 E 1936 || DEPORTADO PARA CABO VERDE (1930 - 1932) || ENVIADO PARA O TARRAFAL ONDE FALECEU (1937 - 1944)

[Edmundo Gonçalves || 1935 ou 1936 || ANTT || PT-TT-PIDE-E-010-7-1214_m0033]

Ex-2.º Sargento, Edmundo Gonçalves foi um resistente que não abdicou de combater a Ditadura Militar e a Ditadura do Estado Novo a partir de, pelo menos, 1929. Apesar de deportado uma primeira vez para Cabo Verde, não desistiu de lutar contra o regime saído do 28 de Maio de 1926 e, em 1937, foi enviado para o Tarrafal, de onde não voltaria.

Filho de Francisca Júlia e de Henrique Gonçalves, Edmundo Gonçalves nasceu em 19 de Fevereiro de 1900, em Lisboa.

Preso pela primeira vez em 13 de Abril de 1929, «por estar comprometido na organização revolucionária de Infantaria 17» [ANTT, Cadastro Político 320; Processo 4322].

Ainda no mesmo ano, em 20 de Dezembro, voltou a ser detido «por ter ligações com elementos revolucionários, entre eles o Tenente Cardoso», sendo libertado em 3 de Março de 1930 [Processo 4472].

Em 30 de Abril desse ano tornou a ser preso, «por suspeita de possuir uma pistola e resistência ao agente captor», e libertado em 10 de Junho «por nada se ter provado» [Processo 4567-A].

Vigiado pelas autoridades policiais, o "Informador Bom" indicou, em 23 de Junho de 1930, que Edmundo Gonçalves «costuma parar na "Brasileira" na companhia de Zacarias José Cordeiro, do sargento Pinho [de Infantaria 17] e do Cabral». 

Em 17 de Julho de 1930, foi preso pela quarta vez «por ser considerado indesejável, sendo entregue ao Ministério da Guerra e proposto ao mesmo Ministério para que lhe seja fixada residência fora do Continente»: «Não foi organizado processo».

Foi-lhe fixada residência obrigatória em Cabo Verde, por motivos políticos, Edmundo Gonçalves foi abrangido pela amnistia de 5 de Dezembro de 1932, tendo-se apresentado na Polícia em 18 de Janeiro e continuado a viver na Travessa das Laranjeiras, 9. 

[Edmundo Gonçalves || 1935 ou 1936 || ANTT || PT-TT-PIDE-E-010-7-1214_m0033]

Dois anos e meio depois, em 9 de Junho de 1935, «foi preso por ser acusado de ter aliciado sargentos e assistido a reuniões políticas para o bom êxito do movimento revolucionário que estava para eclodir», sendo-lhe aprendido versos que cantaria [Processo 1495]. 

Encerrado no Aljube em 25 de Junho e libertado, por falta de provas, em 15 de Julho, Edmundo Gonçalves foi preso pela sexta vez em 6 de Dezembro de 1936.

[Edmundo Gonçalves || 1935 ou 1936 || ANTT || PT-TT-PIDE-E-010-7-1214_m0033]

Transferido para a 1.ª Esquadra em 2 de Janeiro de 1937, seguiu para Caxias em 22 de Março e, em 17 de Abril, entrou no Aljube.

Julgado pelo Tribunal Militar Espacial em 23 de Abril, foi condenado a quatro anos de desterro [Processo 284/937] e enviado para o Tarrafal, integrando a 2.ª leva de presos políticos. 

Apesar de ter sido condenado a quatro anos, aí permaneceu sete anos e um dia, falecendo em 13 de Junho de 1944, com 44 anos de idade.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 320 [Edmundo Gonçalves / PT-TT-PIDE-E-001-CX08_m0703, m0703a].
ANTT, Registo Geral de Presos 1214 [Edmundo Gonçalves / PT-TT-PIDE-E-010-7-1214_m0033].

[João Esteves]

domingo, 17 de fevereiro de 2019

[2061.] BOAVENTURA GONÇALVES [I] || DEPORTADO PARA TIMOR (1931) E PARA O TARRAFAL (1936)

* BOAVENTURA GONÇALVES *
[1907 - ?]

DEPORTADO PARA TIMOR (1931 - 1932) E PARA O TARRAFAL (1936 - 1944)

[Boaventura Gonçalves || 1936 || RGP/3406 || PT-TT-PIDE-E-010-18-3406_m0025]

Filho de Maria Teresa e de Joaquim Gonçalves, Boaventura Gonçalves nasceu em 5 de Janeiro de 1907, em Silves.

Operário da construção civil, com residência na Avenida 5 de Outubro - Quinta  do Ferro, participou na Revolta de 26 de Agosto de 1931 e foi preso nesse mesmo dia por uma força da PSP «numas terras próximas de Entrecampos, onde se encontrava escondido juntamente com outros civis armados que fizeram fogo sobre a mesma força» [ANTT, Cadastro Político 3308].

Levado para a Cadeia Nacional / Penitenciária de Lisboa e deportado para Timor na semana seguinte, Boaventura Gonçalves integrou a leva de 358 presos políticos (271 civis e 87 militares) que, em 2 de Setembro, embarcou no navio Pedro Gomes [Processo 324].

[Boaventura Gonçalves || 1936 || RGP/3406 || PT-TT-PIDE-E-010-18-3406_m0025]

Naquele transporte seguiam os principais chefes militares da revolta de 26 de Agosto, tendo o barco navegado pelo Mar Mediterrâneo, atravessado o Canal do Suez e chegado a Dili em 16 de Outubro, sem fazer qualquer escala nas colónias portuguesas. 

Abrangido pela amnistia de 5 de Dezembro de 1932, regressou no paquete Moçambique que atracou no Cais da Rocha do Conde de Óbidos em 9 de Junho de 1933.

Apresentou-se na Polícia Política em 12 de Junho de 1933, onde declarou ir residir para a Rua do Barão - 14.

[Boaventura Gonçalves || 1936 || RGP/3406 || PT-TT-PIDE-E-010-18-3406_m0025]

Três anos após o regresso da primeira deportação, Boaventura Gonçalves estava como empregado no comércio em Lisboa e residiria na Rua Carvalho Araújo, nº 28 - 4.º. 

Em 12 de Julho de 1936 foi preso pela Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa Social, sendo então responsável por uma tipografia do Partido Comunista. Encaminhado para uma esquadra, foi transferido, em 17 de Agosto, para a 1.ª Esquadra e, em 27 do mesmo mês, passou para o Aljube.

[Boaventura Gonçalves || 1936 || RGP/3406 || PT-TT-PIDE-E-010-18-3406_m0025]

Em 17 de Outubro de 1936 seguiu para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, incorporando o grupo de presos políticos que o inaugurou em 29 do mesmo mês. Aí, integrou a Organização Comunista Prisional do Tarrafal (OCPT) e, na sequência de divergências no seu seio, formou, com Álvaro Duque da Fonseca, Fernando Macedo, Fernando Quirino, Jaime Tiago, José de Sousa, Leonilde Felizardo e Virgílio de Sousa, o Grupo dos Comunistas Afastados, todos expulsos do Partido Comunista em 1943 [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal - Uma Biografia Política, Vol. I, 1999]. 

Cândido de Oliveira, no livro póstumo Tarrafal - O Pântano da Morte [Editorial República, 1974], refere que Boaventura Gonçalves foi um dos muitos tarrafalistas afectados pela biliosa, registada em 16 de Janeiro de 1938.

Regressou do Tarrafal em 1 de Outubro de 1944, seguiu para Caxias e só em 1 de Novembro desse ano é que foi a julgamento, tendo sido condenado pelo Tribunal Militar Especial a 24 meses de prisão correccional. Tinha estado preso preventivamente 8 anos e 112 dias!

Libertado em 8 de Novembro de 1944, desconhece-se seu o percurso posterior. 

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 3308 [Boaventura Gonçalves / PT-TT-PIDE-E-001-CX07_m0884].
ANTT, Registo Geral de Presos 3406 [Boaventura Gonçalves / PT-TT-PIDE-E-010-18-3406_m0025].

[João Esteves]

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

[2057.] AMÉRICO GONÇALVES DE SOUSA [II] || 16 ANOS NAS PRISÕES SALAZARISTAS E 19 DE CLANDESTINIDADE

* AMÉRICO GONÇALVES DE SOUSA *
[1918 - 1993]

Dirigente do Partido Comunista, totalizou cerca de 16 anos nas prisões salazaristas e 19 de intensa e continuada luta clandestina, tendo sido deportado para o Tarrafal com 18 anos.

[Américo Gonçalves de Sousa || 1935 || ANTT || RGP/1697 || PT-TT-PIDE-E-010-9-1697_P4_m0209d]

Militante e dirigente do Partido Comunista, tendo integrado o seu Comité Central, Américo Gonçalves de Sousa, “O Russo”, iniciou muito novo a actividade política, esteve várias vezes preso e conheceu as principais prisões [Aljube, Peniche, Caxias, Tarrafal], sendo enviado, com apenas 18 anos, para o Campo de Concentração do Tarrafal.

Fundidor de profissão, era filho de Maria Gonçalves e de Joaquim Mário de Sousa, nasceu em Lisboa, na freguesia de Santo Estêvão, em 18 de Julho ou 3 de Agosto de 1918, constando esta dúvida na Biografia Prisional da autoria da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) / Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE).

A sua militância política iniciou-se na Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas (FJCP), quando trabalhava no Arsenal da Marinha, e prolongou-se por décadas, tendo sofrido a violência da ditadura mal completara os dezassete anos. 

Preso pela primeira vez em 7 de Setembro de 1935, por actividades comunistas, Américo de Sousa percorreu, em escassos meses, o Aljube, Peniche e de novo o Aljube, de onde partiu para o Tarrafal: detido inicialmente numa esquadra, foi transferido para a Cadeia do Aljube em 30 de Dezembro e, em 28 de Abril de 1936, para a Fortaleza de Peniche, regressando ao Aljube em 6 de Maio, data em que foi julgado e condenado pelo Tribunal Militar Especial a 18 meses de prisão correccional. 

[Américo Gonçalves de Sousa || 1935 || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0042 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Apesar de “só” faltarem cumprir 301 dias, foi enviado em 17 de Outubro para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, integrando o grupo de presos que o inaugurou em 29 do mesmo mês.

Cumprida a pena a que fora condenado, continuou em prisão preventiva no Tarrafal, de onde só regressou em 15 de Julho de 1940, sendo então «restituído à liberdade por ter sido amnistiado» [RGP/1697].

Voltou à luta política e escassos meses, ainda em 1940, integrou, com Joaquim Pires Jorge [28/11/1907 - 06/06/1984], José Gregório [19/03/1908 - 1961], Júlio de Melo Fogaça [10/08/1907 - Janeiro de 1980], Manuel Guedes [14/12/1909 - 08/03/1983], Militão Bessa Ribeiro [13/08/1896 - 02/01/1950] e Sérgio Vilarigues [23/12/1914 - 08/02/2007], o primeiro grupo que procurava a reorganização do Partido Comunista [JPP, Álvaro Cunhal – Uma biografia política, vol. 2, 1941-1949]. No ano seguinte, era funcionário, tal como todos aqueles, usando o pseudónimo de “Abel”.

Em Julho de 1946, Américo de Sousa participou no II Congresso Ilegal do Partido Comunista realizado numa casa da Lousã com a ajuda do casal António Correia e Natividade Correia [esta também desenvolvera atividade importante no seio das secções de Coimbra/Figueira da Foz da AFPP e CNMP] e teve importantes funções no Comité Local de Lisboa (anos 40/50). 

Américo Gonçalves de Sousa chegou a controlar o historiador Jorge Borges de Macedo [03/03/1921 - 18/03/1996], cuja esposa, Branca Braga de Macedo, militou na década de 40 na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, desempenhando cargos nas direcções de 1947 e 1948. 

[Américo Gonçalves de Sousa || 12/10/1955 || ANTT || RGP/1697 || PT-TT-PIDE-E-010-9-1697_P4_m0209c]

Quinze anos depois de se libertado do Tarrafal, em 29 de Setembro de 1955, quando era dirigente do Comité Local de Lisboa e destacado membro do Comité Central, foi preso em Lisboa e levado para o Aljube. Em 22 de Novembro passou para o Forte de Caxias, onde foi sujeito a continuados castigos.

[Américo Gonçalves de Sousa || 12/10/1955 || ANTT || RGP/1697 || PT-TT-PIDE-E-010-9-1697_P4_m0209c]

Em 3 de Fevereiro de 1957 regressou ao Aljube, cadeia de onde se evadiu na madrugada de 26 de Maio do mesmo ano com Carlos Brito e Rolando Verdial [a mãe deste, Emília Dionísia Ferreira dos Santos Silva Verdial, morreu em 7 de Outubro de 1960, no regresso de uma visita ao filho, então preso em Caxias. Segundo o jornal Avante!, de Novembro, o seu desaparecimento foi acelerado pela forma desumana e humilhante como a PIDE a tratou, não atendendo sequer à idade avançada da progenitora: começou por impedir a visita do dia 6 pelo facto de Emília e Mem Verdial, vindos do Porto, terem chegado minutos depois da hora regulamentar; no dia seguinte concederam-na, mas não foi permitida aos pais que se aproximassem do preso, o beijassem e abraçassem; e o desenlace fatal deu-se no regresso a casa, chegando já sem vida à sua residência] através da janela de uma enfermaria desactivada situada no último andar e para onde tinham sido enviados os presos mais perigosos: cortaram parte das grades e, após passarem por vários prédios, apanharam um táxi no Largo da Graça.

E porque não é possível haver resistência(s) sem mulheres, aquela fuga contou, entre outros, com o apoio da militante comunista Deolinda Franco.

Mais uma vez, Américo de Sousa regressou ao trabalho clandestino do Partido Comunista, continuando a integrar o Comité Central eleito no V Congresso realizado entre 8 e 15 de Dezembro de 1957. Então, entre as pessoas que controlaria estava o advogado Manuel João da Palma Carlos [24/06/1915 - 01/11/2001], ambos com papel de relevo na preparação das eleições presidenciais de 1958 [JPP, Álvaro Cunhal, vol. 3]. No âmbito do trabalho partidário no terreno, e segundo José Pacheco Pereira, Américo de Sousa defendeu a partir de certa altura a desistência de Arlindo Vicente enquanto candidato presidencial e o apoio a Humberto Delgado.

No ano seguinte, em Abril, integrou com Alexandre Castanheira [n. 1928] e Octávio Pato [01/04/1925 - 19/02/1999] a delegação do Partido Comunista que se reuniu em Itália com o Partido Comunista Italiano.
  
[Américo Gonçalves de Sousa || 18/12/1961 || ANTT || RGP/1697 || PT-TT-PIDE-E-010-9-1697_P4_m0209a]

Américo de Sousa voltou a ser preso a 15 de Dezembro de 1961, juntamente com Carlos Costa, quase cinco anos depois de andar fugido e ter regressado à clandestinidade, constando da sua ficha prisional a indicação que tinha na cara marcas de varíola para, assim, ser mais facilmente identificado.

[Américo Gonçalves de Sousa || 18/12/1961 || ANTT || RGP/1697 || PT-TT-PIDE-E-010-9-1697_P4_m0209a]

Nesta sua terceira prisão, voltou a fazer o percurso Caxias-Aljube-Peniche, prisão para onde foi transferido em 18 de Abril do ano seguinte por ter sido condenado, por cúmulo jurídico, a 4 anos.

O vaivém entre as prisões não pára, já que em 1 de Junho de 1964 entrou, mais uma vez, em Caxias de onde foi transferido, a 25 de Setembro, para Peniche. 

No ano seguinte, em 23 de Fevereiro de 1965, foi condenado na pesada pena de oito anos e meio, supressão de direitos políticos por quinze e medidas de segurança de internamento de seis meses a três anos, prorrogável, as quais iniciou em Dezembro de 1968.


  
[Américo Gonçalves de Sousa || 18/12/1961 || ANTT || RGP/1697 || PT-TT-PIDE-E-010-9-1697_P4_m0209]

Quase toda a década de 1960 foi passada em prisões, já que Américo de Sousa só seria libertado em 20 de Outubro de 1971, depois de ter estado preso consecutivamente quase dez anos.

Em 53 anos de idade, totalizou cerca de 16 anos nas prisões salazaristas e 19 de intensa e continuada luta clandestina.

Dirigente da URAP depois do 25 de Abril de 1974, faleceu em Março de 1993. 

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

NOTA 1: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

NOTA 2: Actualização do texto publicado neste Blogue em 20 de Julho de 2014.

Obrigado a José Marcelino, também ele um resistente e ex-preso político, pela informação e documentação disponibilizadas.

Fontes:
ANTT, Registo Geral de Presos 1697 [Américo Gonçalves de Sousa / PT-TT-PIDE-E-010-9-1697_P4_m0209].
ANTT, Livro de Cadastrados - 4 / Fotografia 2994 [Américo Gonçalves de Sousa / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0042].

[João Esteves]