[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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domingo, 20 de março de 2016

[1409.] EMÍLIA PATACHO [II]

* EMÍLIA CÂNDIDA DA SILVA PATACHO *

|| TEXTO DE VIRGÍNIA  QUARESMA NO "JORNAL DA MULHER", SEÇÃO DE O MUNDO || 15/02/1907 ||

[O Mundo || 15 de Fevereiro de 1907]

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

[1175.] JORNAL DA MULHER [V] || 07/07/1906

* JORNAL DA MULHER || FEMINISMO || 07/07/1906 *

O “Jornal da Mulher” de 7 de Julho de 1906 continua a pronunciar-se sobre o “Feminismo”:
«Feminismo
I
Por uma dessas aberrações do entendimento dos homens nunca se pensou até agora em preparar as mulheres para o seu mister de mães de família. // A maior parte dos homens entendem que toda a mulher medianamente inteligente sabe, como por instinto, executar facilmente os trabalhos do lar doméstico e que portanto não é preciso ensinar-lhos. // É um grande erro. O governo da casa carece de ensino, como qualquer outra coisa. Além disso os espíritos reflectidos sabem que nada se aprende sem esforço e sem método. // Algumas pessoas, é verdade, têm por si próprias chegado a possuir uma certa habilidade nos trabalhos domésticos, mas, para conseguirem isso, quanto tempo perdido, quantas dificuldades vencidas.! // É de um grande alcance social a questão culinária. // Se é verdade que a questão social é, antes de tudo, uma questão de estômago, está claro que há dias aqui fizemos, pedindo para a mulher que trabalha um salário normal e remunerador, é unicamente um dos pólos magnéticos da questão. O outro pólo consiste na ciência e arte de utilizar o salário. // Para o homem a dificuldade de ganhar a vida deveria encontrar o seu contrapeso na habilidade da mulher em empregar os recursos com acerto, método e economia. // Seria de uma grande vantagem para a sociedade que os serviços de administração e de intendência fossem reservados à mulher, mas com a condição de lhos retribuírem. // Umas das reformas mais justas e que deveriam ser introduzidas nos costumes e nas leis, seria o princípio da remuneração dos serviços domésticos. As nossas estatísticas oficiais estabelecem hoje, em toda a parte, que um terço do mundo operário se compõe de mulheres. Ora deveriam mais que dobrar esse número. Não cometem os homens uma grande injustiça para com o sexo feminino, considerando inocupados os milhões de mulheres absorvidas pelos trabalhos domésticos? Os cuidados caseiros e a educação dos filhos são funções indispensáveis à ordem social e requerem um trabalho sério e esforços persistentes. Todo o trabalho merece salário. Quando as nossas criadas recebem um ordenado remunerador, pelo contrário, a esposa, a dona da casa, que trata o homem, cuida do lar, gera, amamenta e educa os filhos, não recebe retribuição algum em troca de todos esses inapreciáveis serviços! A solução consistiria em fundar a união conjugal, no ponto de vista dos interesses materiais, sobre as mesmas bases que as nossas sociedades comerciais e em estabelecer uma liquidação periódica do excedente disponível dos recursos. Esse excedente seria dividido entre os esposos em partes iguais, ou em quotas partes, cujo quantum respectivo seria fixado nas convenções matrimoniais. // (Continua)» 

[O Mundo || 7 de Julho de 1906]

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

[1163.] JORNAL DA MULHER [IV] || 06/07/1906

* JORNAL DA MULHER || FEMINISMO || 06/07/1906 *

Texto do “Jornal da Mulher” acerca do “Feminismo”:
«Feminismo
Porque não se haveria de dar às mulheres uma instrução geral, exactamente igual à que recebem os homens? // A mulher, como membro da humanidade, tem o direito de adquirir os conhecimentos científicos que a habilitem a cumprir os seus deveres humanos. Para que servem essas distinções vãs e arbitrárias, entre a instrução que é dada aos homens e a que tão parcamente é reservada às mulheres. Pode também ser aplicado à mulher o axioma de Terêncio: nada do que é humano pode, em virtude de velhos preconceitos, ser-lhe estranho. Mas ao lado da instrução geral, será necessário criar uma educação feminina especial com um duplo objectivo: a aprendizagem profissional em vista do ganha-pão e a aprendizagem caseira em vista da família. Trata-se de desenvolver a habilidade, os talentos das nossas filhas para que elas possam seguir uma carreira honrosa e remunerada, visto que milhões de mulheres se vêem obrigadas a trabalhar para viver. // Enfim, devemos pensar em preparar seriamente todas as mulheres para a sua missão familiar, porque nas diferentes classes da sociedade toda a mulher tem as maiores probabilidades de vir a ser esposa e mãe. // Aqui se concentra o problema feminista traduzindo-se na conciliação destes dois princípios: o reconhecimento da liberdade do trabalho para todas as mulheres e o cumprimento dos deveres domésticos que são impostos à maior parte delas. // Certa escola social pretende que, a título de beneficiar o lar doméstico se recuse à mulher o direito ao trabalho. Bonita moral que sob o pretexto de restituir as mulheres à família, poderia atirá-las à miséria e à perdição. // Não o esqueçamos nunca, a vida social e mesmo a natureza criaram uma estratificação de interesses, de necessidades e de funções. Já antes de ser esposa e mãe a mulher é um ser humano com individualidade própria. Como todo o ser físico, ela sente a necessidade da conservação, a primeira e a mais imperiosa das necessidades. // O interesse social exige que a mulher seja educada de modo que possa, pelo seu trabalho, obter os recursos necessários à vida. Na realidade é bem triste para a inteligência humana, que no estado actual da nossa civilização, haja homens que contestem um princípio de uma tão elementar justiça. // O trabalho das mulheres, longe de ser incompatível com os interesses domésticos, concilia-se pelo contrário com eles, porque é para a mulher uma fonte de dignidade, e para todos os lares um elemento de força moral e uma poderosa garantia de segurança. // Além disso, há causas múltiplas, factores de uma inevitável evolução social, que impuseram às mulheres a fatal necessidade do trabalho. O industrialismo com as suas forças motoras, suas máquinas e seus capitais absorvem as indústrias domésticas do passado. Por outro lado a educação dos filhos deixou de ser nas famílias uma ocupação absorvente. Com o alargamento e socialização do serviço de ensino diminuiu a importância e o peso das responsabilidades maternais. Enfim, a estatística prova que nas sociedades condenadas há milhões de mulheres condenadas ao celibato. // Esses milhões de mulheres excluídas da vida conjugal e privadas para todo o sempre do que se costuma chamar o apoio do homem, devem ter o direito de, pelo seu trabalho, prover às necessidades da vida. // Mostra-nos a estatística, com o rigor dos algarismos que nos países civilizados a parte da actividade feminina na produção representa um terço da mão de obra total. Donde se vê a utilidade de tornar a mulher independente e apta a obter pelo trabalho os meios de subsistência. O que não obsta a que todas as mulheres devam ser iniciadas na ciência do governo doméstico. Enquanto cursam a escola, nenhuma mulher pode prever se o futuro lhe reserva os encargos do lar ou se pelo contrário lhe virá a impor os deveres do trabalho fora de casa». 

[O Mundo || 6 de Julho de 1906]

domingo, 8 de novembro de 2015

[1159.] JORNAL DA MULHER [III] || 30/06/1906

* JORNAL DA MULHER || FEMINISMO || 30/06/1906 *


O “Jornal da Mulher” de 30 de Junho de 1906 tece novas considerações sobre o feminismo:
«Feminismo
Pelos fins do século XIX produziu-se em toda a parte um movimento prodigioso em favor da igualdade dos sexos. Falava-se com razão em alargar o campo de actividade e aumentar a esfera de influência do sexo feminino, com razão também os reformadores procuraram cultivar a inteligência e as faculdades femininas por uma educação mais séria, despida dos preconceitos e das frivolidades do passado. // Nas incertezas e arrebatamentos dessas lutas novas, alguns feministas e seus adversários deixaram-se arrastar a lastimáveis exageros. Mulheres houve que pregaram a guerra dos sexos e pretenderam a libertação plena de toda a influência masculina, sonhando não sei que aberração da natureza, em virtude da qual a mulher, independente e livre, dispensaria a sua solidariedade com o homem no complicado problema da actividade social. // Logo os homens responderam por uma formal oposição: para eles o ideal era manter a ordem de coisas estabelecidas e a actividade do sexo feminino deveria ficar reduzida à preocupação dos trabalhos caseiros. Nem uns nem outros tinham razão, porque a solução deste problema social tem de ser, como sempre, conciliatória e intermédia. // É um grande erro, com efeito, o quererem pôr em oposição os interesses da mulher e os do homem, ou mesmo procurar separá-los. Longe de estar em oposição ligam-se estreitamente esses interesses, ainda que aparentemente distintos. Sem dúvida, cada ser humano, mulher ou homem, deve ser considerado como uma entidade, com o seu valor próprio e a sua dignidade integral. A mulher que, pelo mesmo título que o homem, é um ser humano, consciente e livre, possui  por natureza os atributos da personalidade. // Mas o ser humano não é uma entidade isolada, é também e sobretudo um ser sociável. Ora a ordem natural e social tem por unidade e base o par humano, a harmonia dos sexos, condição essencial da persistência das sociedades, pela transmissão da vida individual. E assim é que a família monogâmica logrou realizar sobre a terra o mais nobre ideal dos interesses e dos afectos, na esfera da afectividade humana a família avulta como unidade e trindade social indispensável, formada pela união e solidariedade de três entes: o homem ou pai, a mulher ou mãe e a criança, o filho, que ambos têm de educar para a perpetuação da sociedade. // Daí o absurdo de querer separar os interesses das duas fracções da humanidade, em vez de mais e melhor para aproximá-los para os fundir no bem geral. Esse erro tem uma causa inicial que subsiste e se tem perpetuado no decorrer dos séculos. Os preconceitos do homem levaram-no a educar cada sexo, tendo em mira o exclusivo interesse masculino, quando a natureza e as tendências da sociedade exigem que os dois sexos, por terem na vida um fim e um ideal comuns, sejam desde a infância educados juntamente, um para o outro e um pelo o outro, visando sempre a utilidade geral e a perfectibilidade social. // A educação da mulher deve ser apropriada e adequada aos fins diversos que as condições sociais e as circunstâncias da vida lhe podem destinar. // Os educadores deveriam sempre considerar a mulher sob estes três aspectos: - ela é um ente humano; irmã e companheira do homem, na actividade social pode ser uma artista, uma operária; e na maioria dos casos está destinada a ser esposa e mãe. Todos os programas de educação feminina deveriam por conseguinte ser concebidos inspirando-se nesta trilogia».

[O Mundo || 30 de Junho de 1906]

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

[1152.] JORNAL DA MULHER [II] || 26/06/1906

* JORNAL DA MULHER || 26/06/1906 *

O “Jornal da Mulher” de 26 de Junho de 1906 continuou a tecer considerações sobre o feminismo:
«Feminismo
II
A actividade comercial, industrial e artística da mulher desenvolveu-se consideravelmente nestes últimos dez anos. // As professoras de música, de pintura, etc., aumentam de ano para ano em toda a parte. // Mas se o número das mulheres que trabalham aumenta, o seu salário não segue a mesma progressão: o salário da mulher ainda que tenha aumentado notavelmente, é muito inferior ao do homem. // Visto que a mulher tem de procurar trabalho quando é insuficiente o ganho do marido, este deveria compreender que é de seu interesse que a mulher, para um trabalho igual ao dele, tenha igual salário. Não deveria criar-lhe dificuldades. Pelo contrário. // Um degrau mais acima na sociedade, por exemplo, nos empregados do comércio e do Estado, a desigualdade é a mesma. Porquê? Por que é que o homem não defende a mulher? // Um outro ponto sobre o qual é preciso ainda insistir, é o seguinte: as mulheres raras vezes atingem posições elevadas, mas isso é sempre devido à má vontade dos homens. // São em grande número as mulheres que desenvolvem actividade comercial ou industrial; mas infelizmente só o fazem nos empregos inferiores. // Não nos parece que seja exagerada a pretensão da mulher a um salário igual ao do homem para um trabalho igual ao dele. // Visto como as mulheres são capazes de desempenhar diversos empregos conforme lhe permitirem as suas faculdades, porque motivo há-de o homem impedi-las de ocupar esses empregos? // Nobilitar a mulher admitindo-a a um trabalho maior e mais perfeito do que aquele que actualmente desempenha, deveria ser uma das grandes aspirações da actual sociedade, de que a mulher representa a parte mais numerosa, mas não a mais feliz». 


[O Mundo || 26 de Junho de 1906]


[1151.] JORNAL DA MULHER [I] || 25/06/1906

* JORNAL DA MULHER || O INÍCIO || 25/06/1906 *

Dirigida pela escritora Albertina de Sousa Paraíso [11/01/1864 - 25/02/1954], inicia-se no diário republicano O Mundo de 25 de Junho de 1906 a publicação da secção “Jornal da Mulher”, «uma publicação singela e concisa, sem artifícios de forma ou racionalismos metafísicos e que ponha o elemento feminino ao corrente de tudo o que verdadeiramente lhe pode interessar, tanto no seu viver íntimo, no seu santuário doméstico como nas suas relações com o mundo e com a sociedade». A finalidade é «prestar um grande serviço às nossas leitoras, fornecendo-lhes notícias e impressões do movimento das ciências, das letras, da arte e da política, principalmente aquelas em que possamos atribuir à mulher uma parcela de influência e um brado de triunfo» [“Jornal da Mulher”, O Mundo, p. 2, col. 2].

Esclarecem-se os objectivos da secção e o feminismo é o primeiro tema abordado:

«Jornal da Mulher
É quase absolutamente desconhecida entre nós a ideia do jornalismo feminino. Em todos os nossos jornais as secções multiplicam-se dia a dia, os alvitres de sensação tendem a tomar proporções assombrosas, toda a nossa imprensa de hoje disputa, finalmente, o direito de ocupar no espírito do público uma supremacia incontestável de interesse e de valor, e, contudo, mantém-se estranha a esse movimento para o qual convergem no estrangeiro um número incalculável de valiosos e simpáticos impulsos – o Jornal da Mulher. //  O que vem a ser o Jornal da Mulher? Não será, sem dúvida, necessária uma explicação transcendente e demorada para que os leitores do Mundo o fiquem conhecendo. O Jornal da Mulher, tal como o compreendemos e deve ser compreendido, é uma publicação singela e concisa, sem artifícios de forma ou racionalismos metafísicos e que ponha o elemento feminino ao corrente de tudo o que verdadeiramente lhe pode interessar, tanto no seu viver íntimo, no seu santuário doméstico como nas suas relações com o mundo e com a sociedade. // Pretendemos, assim, prestar um grande serviço às nossas leitoras, fornecendo-lhes notícias e impressões do movimento das ciências, das letras, da arte e da política, principalmente aquelas em que possamos atribuir à mulher uma parcela de influência e um brado de triunfo. Restrito, como é o nosso meio, sob o ponto de vista da evolução social feminina, não poderá ele também ser a maior parte das vezes, o campo deste trabalho diário. Transportar-nos-emos ao estrangeiro, em espírito e em coração, acompanhando, por meio das principais revistas de diferentes nacionalidades, tudo o que, dentro deste domínio, merecer registo. // Mas o nosso programa não se limitará a este âmbito excessivamente feminista para o nosso meio. // No empenho de a todas as mulheres portuguesas poder interessar esta secção, pomos a nossa pena ao serviço das exigências das mais caprichosas, informando-as de assuntos de modas, de regras de savoir vivre, de todos esses pequenos cambiantes, enfim, que constituem o grande tom das sociedades mundanas. // Desejando dar também à ménagère uma carinhosa prova de interesse, falaremos, neste intuito, alternadamente de economia doméstica, de higiene, inseriremos receitas úteis, colocando assim a dona de casa numa atmosfera familiar e amorável. // Na impossibilidade de darmos ao Jornal da Mulher, na sua missão diária, todo o incremento que um tão vasto programa deveria impor, restringiremos todos os assuntos que tratarmos a uma síntese breve e clara, acolhendo, porém, carinhosamente, todos os pedidos de consulta ou de informação que nos sejam dirigidos, e desenvolvendo, em números subsequentes, qualquer assunto que tenha deixado uma impressão mais grata e duradoira. Assim, também receberemos com prazer toda a colaboração feminina de valor que nos seja enviada para esta secção por senhoras; ainda nesta cláusula O Mundo vem obedecer ao amor que o liga ao feminismo português, facultando-lhe, deste modo, a sua entrada e indispensável cooperação nas lides jornalísticas. // Ao encetarmos hoje esta nova secção, esperamos que, assim orientada, não deixará de merecer os aplausos de todos os que têm até hoje dispensado a este jornal, testemunhos inequívocos de confiança e de apreço.

Feminismo
I
Entre nós, a opinião da inferioridade da mulher prevalece ainda, e bem poucas pessoas admitem que uma mulher possa ser a igual do homem. Para a grande maioria das opiniões, a mulher fica e deve ficar confinada no seu papel de dona de casa. // Felizmente existe sempre, em grande maioria, a mulher que dirige habilmente a sua casa, humilde ou rica, e que é a educadora exemplar dos seus filhos; mas muitas vezes a mulher vê-se obrigada a sair de casa para ganhar a sua subsistência. // Quando, como tantas vezes sucede nos meios operários, a mulher fica viúva, com filhos, é-lhe forçoso abandonar o lar para poder educar e sustentar os filhos queridos. Daí veio a necessidade, para a mulher, de entrar nas oficinas, nas fábricas, isto é, na vida económica propriamente dita. // Essa entrada da mulher na vida actual exterior não deixa de ter os seus inconvenientes. Os casamentos e os nascimentos diminuem em razão directa das ocupações da mulher fora de casa; as estatísticas mais duma vez evidenciaram esse desastroso facto. // Mas, por outro lado, a elevação da mulher e a instrução que recebe agora, não deixam de ser úteis ao bem geral. // Não era Platão que pedia que as mulheres fossem educadas da mesma maneira que os homens?
*
Visto que a mulher se vê tantas vezes na imperiosa necessidade de prover à sua subsistência, é preciso que trabalhe. «Case», dir-nos-ão... É fácil dizer, mas para chegar a esse resultado é preciso que o homem e a mulher estejam de acordo, quando mais não seja uma vez. // Ora a grande dificuldade do problema é encontrar marido, porque, em vista das exigências da vida actual, o homem, se tem posição social, inquire do dote, se é operário, do ganho ou do ofício da mulher. // Portanto as que não têm nem dote nem ofício estariam condenadas a morrer de fome. Além disso, não falando senão da Europa, a população feminina é muito superior à população masculina, de onde resulta que muitas mulheres se acham fatalmente na impossibilidade absoluta de criar família. Contudo é preciso viver e para o conseguir, ganhar dinheiro, ganhar a vida. 
*
Cultivado há muito menos tempo que o do homem, o cérebro da mulher é muito mais novo que o do homem. Apesar disso – ou talvez por isso mesmo – logo que a mulher receba uma instrução semelhante à do homem, é-lhe superior como compreensão. // Tomemos como exemplo as jovens americanas. // Há vinte e oito anos que certos colégios americanos dão igual instrução aos rapazes e às raparigas. // Pois em todos os exames as raparigas distinguem-se mais que os rapazes. – Sim, dizem os adversários do feminismo, mas essa preponderância não persiste depois do colégio. Até hoje as mulheres não deram nem um Shakespeare, nem um Newton, nem um Laplace, um Edison, um Mozart, um Rafael, um grande orador, nada enfim. // Em primeiro lugar este argumento não é um argumento, visto que as mulheres só agora entraram nesse caminho. // Além disso não se pode negar que um número relativamente considerável de mulheres tem brilhado em diversos géneros de superioridade. // Seria inútil citar nomes que estão em todas as bocas e esses nomes para brilharem, tiveram de vencer muito maiores dificuldades, sendo femininos, do que se fossem masculinos. // E depois é preciso não esquecer que durante todos os séculos decorridos não se tinha pedido às mulheres que brilhassem intelectualmente, mas pelo contrário que se escondessem. // Há pouco tempo que lhes é dada instrução completa; serão precisas algumas gerações sucessivas para que essa instrução possa frutificar. // No entanto a lista das mulheres dotadas de um génio superior e tendo dado provas efectivas do seu valor pessoal é já longa e tanto mais significativa quanto elas conquistaram a sua celebridade em condições muito desfavoráveis». 

[O Mundo || 25 de Junho de 1906]

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

[1147.] FEMINISMO [III] || 1906

* FEMINISMO || 1906 *

É na imprensa que, a partir de 1906, se encontra com regularidade um vasto manancial de reflexões sobre o feminismo, nomeadamente sobre o que se reivindicava para as mulheres portuguesas, pronunciando-se, entre outras, Albertina Paraíso, Ana de Castro Osório, Lucinda Tavares, Maria Veleda e Virgínia Quaresma. 

Os textos dedicados ao feminismo pelo “Jornal da Mulher”, secção do periódico O Mundo iniciada em 25 de Junho de 1906 e da responsabilidade de Albertina Paraíso, são imprescindíveis para compreender o que se passava nesse campo nos últimos anos da Monarquia. 

Os vocábulos feminista e feminismo surgiram com frequência na imprensa republicana dos anos de 1906, 1907 e 1908, quer em artigos assinados por mulheres, quer em textos e secções da responsabilidade dos redactores. 

A temática feminista passou a fazer parte do conteúdo de diários como O Mundo e Vanguarda e são mais as apreciações positivas do que os comentários depreciativos. 

Por exemplo, a Vanguarda, diário republicano independente, inclui, em 1906, a secção “Galeria feminista”, criada depois da apresentação pública da Secção Feminista da Liga Portuguesa da Paz e dedicada a mulheres que se destacavam pelo empenhamento a favor dos seus direitos. O texto, por vezes desenvolvido, era acompanhado da fotografia da homenageada, recaindo as escolhas em Carmen de Burgos y Seguí (24/5/1906), Lisa Lualdi, portuguesa a viver em Nápoles (6/6/1906), Belén Sarraga de Ferrero (7/6/1906), Avril de Sainte-Croix (27/6/1906).

A generalização do vocábulo feminismo não pode ser dissociado do que se entendia por ele, considerado genericamente como a luta justa pelos direitos da mulher. Existia a consciencialização de que a sua condição tinha de mudar e, durante algum tempo, ela envolve tanto a elite feminina, como líderes do republicanismo, com o trunfo, não desprezável, de que a sua imprensa não hostilizava essa aspiração.

[1145.] ALICE MODERNO [VI] || 01/12/1906

* ALICE AUGUSTA PEREIRA DE MELO MAULAZ MONIZ MODERNO *
[1867 - 1946]

O “Jornal da Mulher” de O Mundo de 1 de Dezembro de 1906 é dedicado a “D. Alice Moderno”, que «deve ser considerada uma das convictas e sinceras feministas da nossa terra» e, «apesar de estar longe de nós, pois reside nos Açores, em todas as cruzadas de propaganda feminista que se empreendam no nosso meio, o estímulo da sr.ª D. Alice Moderno vem sempre, generosamente animar-nos nas campanhas, as mais difíceis.» 

[O Mundo, 1 de Dezembro de 1906]

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

[1060.] ALICE MODERNO [V]

* ALICE AUGUSTA PEREIRA DE MELO MAULAZ MONIZ MODERNO *

[11/08/1867 - 20/02/1946]

Poetisa, professora particular de Português e de Francês, jornalista, editora, tradutora, mulher de negócios, republicana e feminista.

Filha de Celina Pereira de Melo Maulaz Moderno e do médico e comendador João Rodrigues Pereira Moderno, descendentes de imigrantes no Brasil onde nasceram e se casaram, Alice Moderno nasceu em Paris, a 11 de Agosto de 1867 e faleceu a 20 de Fevereiro de 1946, em Ponta Delgada, apenas oito dias após Maria Evelina de Sousa, sua companheira de 40 anos. 

Embora tenha nascido em Paris, cidade onde os pais se tinham instalado, o "casal Moderno mudou para a Terceira, ainda no ano do seu nascimento, ali permanecendo durante nove meses. Regressaram a Paris, e só em 1876 vemos de novo Alice Moderno em Angra do Heroísmo e, depois, em Ponta Delgada, onde se fixou a 31 de Agosto de 1883, ano da estreia literária com a publicação da poesia “Morreu”, a que se seguiu, três anos passados, Aspirações, o seu primeiro livro de versos. [Cristina l. Duarte].

Foi a primeira aluna a frequentar o Liceu Nacional de Ponta Delgada, onde se matriculou quando já tinha 20 anos, e cursou o magistério, sendo “muito estimada pelas suas faculdades e processo de ensino” [Inocêncio Francisco da Silva e Brito Aranha, Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Vol. XXII, p. 64]. 

Dirigiu o periódico mensal Recreio das Salas [1888] e o Diário dos Açores, fundou, em Ponta Delgada, o jornal A Folha [05/10/1902 - 15/04/1917], que veiculou as novas ideias feministas, divulgando o que se passava em Portugal e no Mundo, e manteve permuta com a imprensa do continente. 

Mulher combativa e emancipada, que vivia de forma independente devido exclusivamente aos seus trabalhos, tornou-se numa prestigiada activista, nos Açores, das organizações de mulheres da I República.

Militou na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, na Associação de Propaganda Feminista e na Associação Feminina de Propaganda Democrática

Já em 1906, o “Jornal da Mulher” de O Mundo a considerava como “uma das convictas e sinceras feministas da nossa terra” e, “apesar de estar longe de nós, [...], em todas as cruzadas de propaganda feminista que se empreendam no nosso meio, o estímulo da sr.ª D. Alice Moderno vem sempre, generosamente, animar-nos nas campanhas, as mais difíceis”. 

Colaborou em A Madrugada, órgão da LRMP, na Alma Feminina, periódico do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, e na Revista Pedagógica, dirigida pela professora, e amiga inseparável, Maria Evelina de Sousa. 

Interveio, em 1909, na campanha a favor da aprovação da Lei do Divórcio, quer através de artigos, como subscrevendo o abaixo-assinado posto a circular nesse sentido e, em Agosto de 1912, durante uma das suas frequentes passagens por Lisboa, foi homenageada, juntamente com Evelina de Sousa, companheira de causas, pela Liga. 

Para além das homenageadas, discursaram Agostinho Fortes, Carneiro de Moura, Ana Augusta de Castilho, Maria Veleda e Mariana da Assunção da Silva, tendo esta frisado que “a colectividade se devia orgulhar pela honra da sua presença, que era bem um caso esporádico visto que todas as intelectuais portuguesas, excepto D. Ana de Castro Osório, se têm afastado dela, num injusto retraimento”. Na sua intervenção, Alice Moderno considerou que “em cada membro [...] da Liga Republicana há um paladino glorioso do feminismo”. 

As mesmas duas açoreanas presenciaram iniciativas da Associação Feminina de Propaganda Democrática [1915-1916] – associaram-se à homenagem ao Presidente da República, Bernardino Machado, em Maio de 1916 – e voltaram a merecer atenção especial no Primeiro Congresso Feminista e de Educação, promovida pelo CNMP em 1924, enquanto propagandistas do feminismo e da educação das mulheres no Arquipélago. 

Mulher de negócios, “dirigindo todos os trabalhos da sua oficina tipográfica, uma exploração agrícola” [Revista do Bem, nº 113, 31/01/1912] e correspondente de importantes companhias e casas comerciais e bancárias estrangeiras nos Açores, não se pode ignorar a sua vasta e contínua colaboração em periódicos literários de todo o país: 

Bouquet Literário [1885], semanário literário e pedagógico do Porto; A Alvorada, revista mensal literária e científica de Vila Nova de Famalicão [1887, na homenagem a Camilo Castelo Branco no dia do seu 61.º aniversário]; A Apoteose [19/10/1887], número único comemorativo do sétimo centenário e inauguração da estátua de D. Afonso Henriques; Gazeta das Salas [30/01/1890], de Lisboa; A Festa das Crianças [18/10/1891], de Ponta Delgada; Nova Alvorada [1891-1903], revista mensal literária e científica de Vila Nova de Famalicão; Almanaque das Senhoras [1896, 1899, 1903, 1904, 1913 a 1919, 1923]; A Crónica [1900-1906], revista ilustrada e literária de Lisboa; O País [1901-1904], semanário independente, político, noticioso, crítico, literário e teatral do Porto; Revista de Lisboa [1901-1909]; Folha de Saudação [1902], número único dedicado a António Maria Eusébio, o Calafate; A Sociedade Futura [1902-1904]; Álbum Açoriano [1903], publicado em Lisboa; Jornal das Senhoras [1904-1905]; Alma Feminina [1907-1908], hebdomadário literário e noticioso publicado em Matosinhos; Revista Micaelense [1918-1921]; Os Açores [1922-1924, 1928]; O Despertar de Angeja [1924-1927], semanário independente, noticioso e literário; O Instituto, de Coimbra; Portugal Feminino; A Leitura [1932], publicação de Angra do Heroísmo; e Ínsula (anos 30), revista mensal ilustrada publicada em Ponta Delgada. 

Foi redactora e directora do Diário de Anúncios, periódico de Ponta Delgada do final do século XIX; participou na obra dedicada a Antero de Quental In memoriam, com “Tributo singelo” [1887]; colaborou na publicação A maior dor humana [1889], “coroa de saudades, oferecida a Teófilo Braga e sua esposa para a sepultura de seus filhos” [Inocêncio, vol. XVIII, p. 91]; e utilizou, segundo a recolha de Adriano da Guerra Andrade, os pseudónimos Da Janela do Levante, Dominó Preto, Ecila, Eurico, o Secular, Gavroche, Gil Diávolo, Gyp e Veritas. 

Poetisa consagrada e premiada, saudada por Camilo Castelo Branco, Teófilo Braga e João de Deus, com versos publicados em várias línguas (francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, norueguês), traduziu Camões para francês, pertenceu ao Instituto de Coimbra, por proposta de Bernardino Machado, à Sociedade Literária Almeida Garrett, à Sociedade de Geografia de Lisboa, à instituição italiana Luigi di Camoens, e fundou a Sociedade Protectora dos Animais Micaelenses (1911) e o Sindicato Agrícola Micaelense. 

Mulher interventiva, que não se enquadrava nos cânones femininos da sua época, até porque usava o cabelo cortado e fumava [Maria da Conceição Vilhena], a faceta enquanto jornalista está por esmiuçar, bem como o papel que desempenhou na divulgação das ideias feministas nas ilhas. 

A poetisa açoriana Mariana Belmira de Andrade dedicou-lhe, no periódico O Velense, a poesia “Desencanto: A Alice Moderno” [1886]. Tinha então apenas dezanove anos. 

Tal como sublinhou a investigadora Maria da Conceição Vilhena no 40.º aniversário da sua morte, estamos perante “uma conhecida desconhecida”. 

Como refere Cristina L. Duarte, para além de Alice Moderno ter passado a usar cabelo curto desde os dezanove anos, "mais tarde seria considerada excêntrica pelo seu gosto pela camisa branca, com colarinho e gravata preta, acompanhado por chapéu masculino e bengala. Na década de 40, era vista pela manhã nas ruas daquela cidade, fumando charuto, a passear um cãozinho pela trela." [Agenda Feminista, As Mulheres e a República - 2010

Sobre o percurso e ideário enquanto professora, consultar a entrada de Carlos Enes para o Dicionário de Educadores Portugueses [Porto, ASA, 2003]. 

O Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) incluiu a sua biografia [Lisboa, Livros Horizonte, 2005],

Cristina L. Duarte fez um breve esboço biográfico para a Agenda Feminista As Mulheres e a República - 2010.

Adriana Mello fez a entrada para Feminae. Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013].  

[João Esteves]

domingo, 5 de dezembro de 2010

[0196.] ALICE MODERNO [III] || 05/12/1906

* 05 DE DEZEMBRO DE 1906 *

O “Jornal da Mulher” publica um texto de Alice Moderno, intitulado “Pela infância”, onde alerta para a importância de se ensinar às mães e às crianças a forma correcta de alimentar e cuidar dos bebés, causa da elevada taxa de mortalidade infantil [O Mundo, p. 4,  cols. 1-3].

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

[0180.] ALICE MODERNO [I] || 01/12/1906

* 01 DE DEZEMBRO DE 1906 *

O “Jornal da Mulher” é dedicado a “D. Alice Moderno”, que «deve ser considerada uma das convictas e sinceras feministas da nossa terra» e, «apesar de estar longe de nós, pois reside nos Açores, em todas as cruzadas de propaganda feminista que se empreendam no nosso meio, o estímulo da sr.ª D. Alice Moderno vem sempre, generosamente animar-nos nas campanhas, as mais difíceis.» [O Mundo, p. 4, cols. 1-3]

[0174.] ANA DE CASTRO OSÓRIO [XV] || 30/11/1906

* 30 DE NOVEMBRO DE 1906 *

Festas Infantis

O “Jornal da Mulher” é dedicado à “Instrução e educação”, a propósito da edição do livro de Ana de Castro Osório sobre Festas infantis [O Mundo, p. 4, cols. 1-4].

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

[0143.] CARMEN DE BURGOS [I]

* A MULHER NA POLÍTICA || O SUFRÁGIO  FEMININO *

O “Jornal da Mulher” de 24 de novembro de 1906, na “Crónica feminista - A mulher na política”, informa as leitoras do debate travado em Espanha sobre o voto feminino e que foi suscitado por Carmen de Burgos [O Mundo, p. 4, cols. 1-5].

[O Mundo, 24/11/1906]

[0140.] OLGA MORAIS SARMENTO [II] || 23/11/1906


O Mundo publica em 23 de Novembro de 1906, na secção “As Mulheres Portuguesas”, a fotografia de Olga de Morais Sarmento da Silveira [p. 2, col. 2] e Virgínia Quaresma assina no “Jornal da Mulher” um texto dedicado à escritora [O Mundo, 23/11/1906, p. 4, cols. 1-3].

terça-feira, 16 de novembro de 2010

[0101.] VIRGÍNIA QUARESMA [II] || 15/11/1906

* CRÓNICA FEMINISTA *

O “Jornal da Mulher” de 15 de Novembro de 1906 insere “Crónica Feminista” de Virgínia Quaresma [O Mundo, p. 4, cols. 1-5].


[O Mundo, 15/11/1906]

terça-feira, 9 de novembro de 2010

[0081.] DOMITILA DE CARVALHO [I]

[1871-1966]

O “Jornal da Mulher” de 9 de Novembro de 1906 enaltece a figura de Domitila de Carvalho, "formada nas faculdades de matemática, de filosofia e de medicina pela Universidade de Coimbra" [O Mundo, p. 4, cols. 1-3].

sexta-feira, 2 de abril de 2010

[0060.] ANA DE CASTRO OSÓRIO [IX] || 02/04/1907

* LITERATURA INFANTIL *

O “Jornal da Mulher” de 2 de Abril de 1907 publica um texto de Ana de Castro Osório sobre “Literatura infantil” [O Mundo].

quinta-feira, 25 de março de 2010

[0029.] DIVÓRCIO [I] || 23/03/1910


O “Jornal da Mulher” pronuncia-se em 23 de Março de 1910 sobre “O clero e o divórcio” [O Mundo, p. 5, cols. 1-7].

domingo, 21 de março de 2010

[0024.] ALBERTO BRAMÃO [I] || 21/03/1909

* DIVÓRCIO *

Carta de Alberto Bramão sobre “O Divórcio” inserida na secção “Jornal da Mulher” de 21 de Março de 1909 [O Mundo, p. 6, cols. 1-5].