[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

[2206.] CARLOS ALBERTO RODRIGUES PATO [I] || A MORTE, EM CAXIAS, AOS 29 ANOS

* CARLOS PATO *
[21/12/1920 - 26/06/1950]

Muito jovem, Carlos Pato integrou o chamado Grupo de Neo-Realistas de Vila Franca de Xira, destacou-se no associativismo local e militou no Partido Comunista, participando na sua reorganização no início da década de 1940. 

Nome muito prestigiado e estimado em Vila Franca, sua terra natal onde perdura na memória de quem o conheceu, faleceu na prisão de Caxias com apenas 29 anos, vítima das violentas torturas a que fora submetido e deliberada falta de assistência médica. 

[Carlos Alberto Rodrigues Pato]

Filho mais velho de Maria Rodrigues Pato [n. 1900] e de João Floriano Baptista Pato [26/06/1895 - 14/12/1983], Carlos Alberto Rodrigues Pato nasceu em 21 de Dezembro de 1920, em S. João dos Montes - Vila Franca de Xira.

Frequentou o curso comercial nocturno no Colégio Afonso de Albuquerque onde, com Arquimedes da Silva Santos [n. 18/06/1921] e António Teodoro Garcez da Silva [1915 - 2006], esteve envolvido na criação de uma Caixa Escolar com o objectivo de promover iniciativas culturais e integrou, com aqueles dois, os corpos directivos eleitos em assembleia realizada em 16 de Outubro de 1937 [Garcez da Silva, Alves Redol e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca, Caminho, 1990]

Nesse mesmo ano de 1937, passou a integrar o chamado Grupo de Neo-Realistas de Vila Franca de Xira formado, entre outros, por Alves Redol [29/12/1911 - 29/11/1969], António Dias Lourenço [25/03/1915 - 07/08/2010], Arquimedes da Silva Santos, Gilberto Bona da Silva [1913 - 1983], Garcez da Silva e Mário Rodrigues Faria [11/01/1921 - 08/02/2004].

Carlos Pato e Mário Rodrigues Faria [Garcez da Silva] ou Silvestre Mota [Contos e Outras Prosas de Mário Rodrigues Faria, Prefácio, Organização e Notas de Luísa Duarte Santos] foram os responsáveis por dactilografarem o manuscrito Gaibéus, de Alves Redol, de forma a apressar o envio para a tipografia a fim de se proceder à sua publicação. 

Publicou a crónica "Safra", o seu primeiro trabalho, na "Página literária" do Mensageiro do Ribatejo de 11 de Junho de 1939, assinando-o como Alberto Rodrigues, os seus dois nomes do meio, texto «em que a nota paisagística e a sensibilidade à dureza do labor humano na lezíria já pronunciavam o contista de "Valados"» [Garcez da Silva, "Alves Redol, o "Mensageiro do Ribatejo" e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca", in Alves Redol, Testemunhos dos seus contemporâneos,  Caminho, 2001].

[Diário de Lisboa || 27/06/1950 || p. 2]

O seu conto "Valados", o único dos três contos publicado em vida, consta da colectânea Contos e Poemas de Vários Autores Modernos Portugueses, impressa em 22 de Abril de 1942 e organizada por Carlos Alberto Lança e Francisco José Tenreiro [20/01/1921 - 31/12/1963], incluindo, também, textos de Arquimedes da Silva Santos, Faure da Rosa [1912 - 1985], Manuel da Fonseca [1911 - 1993], Soeiro Pereira Gomes [1909 - 1949] e Sidónio Muralha [1920 - 1982].

[Contos e Poemas de Vários Autores Modernos Portugueses || 1942]

Da sua produção literária, conhecem-se apenas três contos, editados um ano após a morte - "Ao receber a jorna...", "Valados", "Graxas" - com palavras introdutórias de Alves Redol. Foram reeditados em 1974 e 2012, neste último caso com prefácio de José Casanova e ilustrações de Clara Pato, mantendo-se o texto daquele escritor.


Simultaneamente, tornou-se militante do Partido Comunista com apenas dezassete anos: participou na sua reorganização em 1940/1941, fez parte do seu Comité Local e, posteriormente, do Comité Regional do Ribatejo, sendo por seu intermédio que o irmão Octávio Pato [01/04/1925 - 19/02/1999] aderiu, primeiro, à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas e, depois, ao Partido Comunista.


[Passeio no Tejo || Maio (?) de 1941 || Carlos Pato é o segundo a contar da esquerda || Soeiro Pereira Gomes, Álvaro Cunhal e António Vitorino encontram-se ao centro]

Carlos Pato foi um dos participantes dos denominados Passeios do Tejo, organizados em 1940, 1941 e 1942; presidiu, entre 1945 e 1948, à Direcção do Ateneu Artístico Vilafranquense, destituída pelas autoridades fascistas em 13 de Maio de 1948; e foi o responsável pelo núcleo de Vila Franca do MUD (Movimento de Unidade Democrática).

[Carlos Pato || 28/04/1947 || ANTT || RGP/19199 || PT-TT-PIDE-E-010-96-19199_m0407]

Empregado bancário de uma filial do Banco Nacional Ultramarino em Vila Franca de Xira, foi preso pela primeira vez em 27 de Abril de 1947 e enviado para Caxias, saindo em liberdade condicional em 17 de Julho. 

Em 1948/49, fez parte da Comissão para a candidatura do general Norton de Matos, sendo preso na madrugada de 28 de Maio de 1949, no âmbito das suas actividades políticas e associativas. A brigada que o prendeu, chefiada pelo inspector Jorge Ferreira, invadiu a casa, entrou nos quartos e revistou-os, incluindo o berço da filha.   

[Carlos Pato || 28/04/1947 || ANTT || RGP/19199 || PT-TT-PIDE-E-010-96-19199_m0407]

Espancado e sujeito à tortura da estátua durante mais de 130 horas, sem nunca ter sido julgado, faleceu, em grande sofrimento, em 26 de Junho de 1950, apesar dos sucessivos pedidos de ajuda pelos restantes 14 companheiros: «cerca das seis e meia da manhã do dia 26 de Junho de 1950, na sala 7 do rés-do-chão do forte de Caxias, o militante comunista Carlos Pato, num sofrimento atroz, sucumbia às violentas torturas a que fora submetido pela PIDE e à recusa, por parte dessa polícia, em lhe facultar a assistência médica de que necessitava» [José Casanova, "Prefácio" ao livro Alguns Contos de Carlos Pato, Página a Página, 2012]. 

Depois do falecimento de Militão Ribeiro [1896 - 1950] na Penitenciária de Lisboa em 2 de Janeiro de 1950, dos assassinatos de José Moreira [1912 - 23/01/1950] e do jovem Alfredo Lima [04/06/1950], a morte de Carlos Pato ensombrava ainda mais aquele ano. 

Casado com Clotilde da Silva Henriques Pato, tinha apenas 29 anos e deixava dois filhos órfãos: uma menina, com 20 meses, e um rapaz com sete, nunca tendo chegado a ver este. A seu pedido, estava previsto que a mulher e os dois filhos o visitassem, o que nunca sucedeu devido aos entraves postos pela PIDE e ao desenlace fatal.

"Luísa Duarte Santos, que mais do que uma vez acompanhou a mulher de Carlos Pato, Clotilde, à prisão (onde também tinha o marido preso), relatou, mais tarde, o último encontro do casal: «Era um domingo de sol, e subíamos a custo o carreiro íngreme, até ao Forte. No final da visita – nesse dia, em comum – os presos regressariam às salas, após serem revistados. Numa porta, ao topo da recepção, onde estivéramos, reparei, enquanto esperava, que o Carlos falara com o chefe dos guardas, e pedira-lhe para dar um recado à mulher. Notei e impressionou-me – ainda hoje o recordo – a intensa palidez do seu rosto. A Clotilde saiu comigo e disse-me: “O Carlos pediu-me que trouxesse no próximo domingo os filhos, que os queria ver.” A palidez, que tanto me impressionou, seria a morte a rondá-lo. Poucas horas após essa visita, nessa noite, o Carlos falecia: o seu coração sucumbiu ao desgaste torturante da estátua»" [Avante!, 01/07/2010]. 

A mãe, manteve «sempre guardados  uns sapatos dele, todos rebentados devido a ter ficado muito inchado por causa das torturas. Foram tantas as torturas que ele até deixou de urinar e depois acabou por urinar sangue» ["A minha vida foi um pesadelo", in Gina de Freitas, A Força Ignorada das Companheiras, Plátano Editora, 1975].

[Diário de Lisboa || 27/06/1950 || p. 2]

O seu falecimento só foi imediatamente conhecido devido à informação prestada por Arquimedes da Silva Santos, então quintanista de medicina e igualmente preso em Caxias, dada a um advogado que, casualmente, visitava um outro detido. A notícia chegou a Vila Franca de Xira através de telegrama e segundo Júlio Gaudêncio, amigo de Carlos Pato, para além das ligações políticas, coube-lhe dar a notícia da sua morte a Alves Redol: «nunca vi um homem chorar como eu o vi chorar, com as mãos na cabeça, chorando com a notícia que tinha acabado de receber» ["Júlio Gaudêncio", in Alves Redol, Testemunhos dos seus contemporâneos,  Caminho, 2001].

Já não podendo esconder o sucedido, a PIDE ainda tentou condicionar as exéquias fúnebres, tendo, no entanto, o funeral constituído uma imponente manifestação de pesar, já que Carlos Pato era muito considerado e estimado pela população vilafranquense: «era um jovem extraordinário, era um rapaz maravilhoso [...] de quem toda a gente gostava» ["Júlio Gaudêncio", in Alves Redol, Testemunhos dos seus contemporâneos].

«- Devo-te muito do que há-de ser o futuro do meu filho; devemos-te todos, mesmo os que te quiseram mal, alguma coisa da felicidade que virá para os filhos de cada um... // E por isso te chorámos, e por isso te lembraremos sempre, mais ainda nas horas de alegria do que nos momentos de amargura» [Alves Redol, 1951].

Em 17 de Maio de 1975, o Largo do Cerrado passou a denominar-se Largo Carlos Pato.

[Diário de Lisboa || 17/05/2019]

Júlia Coutinho, através do seu precioso Blogue As Causas da Júlia, tem procurado que Carlos Pato não caia no esquecimento.

O livro Contos e Outras Prosas de Mário Rodrigues Faria, com Prefácio, Organização e Notas de Luísa Duarte Santos [Edições Fénix, 2016], contém duas fotografias de grupo onde consta a identificação de Carlos Pato: uma de 1939, na praia, com Francisco Roque, Mário Rodrigues Faria, José Ralha e Arquimedes da Silva Santos; a outra, de 1939/40, reporta-se a um jogo de futebol no antigo campo do Águia, em Vila Franca de Xira, com Manuel Cardoso, Carvalho, Francisco Roque, João Pato, Arquimedes da Silva Santos, Mário Rodrigues Faria, António Pedro, Canelas e Mendes.

[João Esteves]

domingo, 1 de abril de 2018

[1780.] MARGARIDA TENGARRINHA [III]

* MARGARIDA TENGARRINHA || MEMÓRIAS DE UMA FALSIFICADORA: A LUTA NA CLANDESTINIDADE PELA LIBERDADE EM PORTUGAL *

[Edições Colibri || 2018]

A luta contra o Fascismo, em Portugal, durou quarenta e oito longos anos. Houve quem se acomodasse e houve quem, em condições inimagináveis pela dureza de um quotidiano incerto, tenha resistido dia após dia, apoiado em redes solidárias – legais, semilegais, clandestinas -, apesar da forte repressão de uma polícia política eficaz, aterrorizadora e com tentáculos nos mais inesperados e recônditos lugares.

Margarida Tengarrinha, militante do Partido Comunista desde 1952, totalizou treze anos de vida clandestina (1955-1962, 1968-1974), tendo “mergulhado” em 1955, com José Dias Coelho, intercalados por seis de exílio (1962-1968), sem nunca ter sido presa! Tinha 27 anos e o companheiro 32. Para além de ser uma militante “disciplinada, dedicada e eficaz” e de contar com a “resistência indómita daqueles que, sob tortura, nunca denunciaram”, como escreve Manuel Loff, rodeou-se, também, de inúmeros homens e mulheres que, “conscientes do perigo que corriam e vencendo o medo, com coragem e generosidade, abriram as suas casas, deram guarida, serviram de refúgio aos perseguidos, transportaram nos seus carros e apoiaram de variadíssimas formas os militantes clandestinos e o seu partido, o Partido Comunista Português” [p. 171].

É destes Homens e Mulheres, “pessoas desconhecidas do grande público”, “gente modesta”, “sem esperarem reconhecimento”, “louros nem glórias” [p. 17], que Margarida Tengarrinha fala em Memórias de uma falsificadora: a luta clandestina pela liberdade em Portugal [Edições Colibri, 2018]. E se “não há futuro sem memória”, como nota o historiador Manuel Loff no Prefácio à obra, as páginas de Margarida Tengarrinha constituem um importantíssimo repositório de factos e nomes, daqueles que (ainda) não estão gravados na História, mas “cuja acção foi fundamental no derrubamento do fascismo” [p. 14].

Margarida Tengarrinha expõe a militância antifascista, as consequências no curso inacabado, o impedimento de continuar a leccionar desenho, a interrupção de uma carreira nas artes, a passagem da vida cultural e associativa intensa à adaptação às exigentes condições da clandestinidade, a vida quotidiana em cada casa, a redacção do jornal Avante!, sempre em território nacional, a ligação às tipografias, as sociabilidades políticas e familiares, nomeadamente com as cunhadas Maria Adelaide, Maria Emília e Maria Sofia Dias Coelho e o cunhado Carlos Aboim Inglez), a luta pelos direitos das mulheres e das crianças, alicerçada no convívio com Maria Lamas, ao mesmo tempo que dá a conhecer o temerário desempenho, em conjunto com o companheiro José Dias Coelho, na falsificação de documentos de identificação essenciais para a sobrevivência de qualquer clandestino, e a transformação do órgão “Três Páginas” em “A Voz das Camaradas das Casas do Partido”. Posteriormente, o casal ficará encarregue da preservação, em fotogramas, do arquivo e documentação do Partido Comunista e, a partir deste, da escrita do livro (Crónicas d’) A Resistência em Portugal (1961). 




A Autora descreve a passagem de testemunho da “oficina de falsificação”, ao fim de seis anos, para o engenheiro Júlio da Conceição Silva Martins, barbaramente torturado e um dos obreiros da Reforma Agrária, e da mulher Natália David e, depois daquela ter sido descoberta pela PIDE, o recomeçar com Américo Leal, sendo que Margarida Tengarrinha, a quem tinham acabado de assassinar o marido, era a única com conhecimentos técnicos para montar uma outra, o que fez antes de partir para um exílio de seis anos em Moscovo (1962-1964) e Bucareste (1964-1968). 

Para além de episódios vividos com dirigentes históricos comunistas, como Álvaro Cunhal, Aurélio Santos, Francisco Miguel (inesquecível a parte em que este ensina a filha Guida a “fugir” do seu parque de grades de madeira), Joaquim Pires Jorge, José Vitoriano, Júlio Martins, Manuel Rodrigues da Silva, Maria da Piedade Morgadinho ou Sérgio Vilarigues, talvez o contributo mais relevante para a historiografia da resistência seja precisamente a visibilidade que dá e a “admiração, amizade e gratidão” [p. 17] que presta a muitos dos quase anónimos que estiveram, em cada lugar e no momento certo, (sempre) ao seu lado e do colectivo partidário no combate antifascista.

Para que não sejam esquecidos, perpassam pelas Memórias de uma falsificadora, entre muitos outros, o casal de operários agrícolas do Couço Maria Gracinda e Joaquim Almas Nunes, este a trabalhar na construção civil do Porto, em cuja casa, na aldeia de Fontelos, Margarida Tengarrinha viveu e trabalhou na redacção e arquivo do Avante! entre 1968 e 1974; os tipógrafos do Porto, Maria Fernanda Silva e Carlos Pires (recentemente falecido), e os de Lisboa, Maria Júlia e Raúl Costa; os médicos, médicas e parteiras/enfermeiras que ajudaram as parturientes clandestinas (Cesina Bermudes, Ferreira Vicente, Lúcia Terlô, Maria da Purificação Araújo, Olívia Vasconcelos, Pedro Monjardino); Maria Helena Magro, companheira de Joaquim Pires Jorge, faleceu no hospital de uma gravidez de alto risco (Dezembro de 1956) e com quem mantivera troca de correspondência, apesar de não se terem conhecido pessoalmente; o casal Palmira Castro e Fernando Sampaio e Castro, cuja casa, em Leça do Balio, era um ponto de apoio seguro; o casal Leonor Oliveira e António Alfredo Paiva Nunes que a receberam quando teve de abandonar repentina a casa, na sequência do assassinato do companheiro; e os sempre pouco falados/esquecidos/ignorados/silenciados pais, mães e avós dos clandestinos e presos políticos.

Como refere Margarida Tengarrinha, aqueles “nunca estiveram presos, mas ninguém como eles conheceu todos os caminhos que levavam aos cárceres políticos, desde o Aljube e Caxias à prisão da PIDE na Rua do Heroísmo no Porto, da Fortaleza de Peniche até ao longínquo Tarrafal” [p. 161]. Não estiveram presos e não foram torturados, mas passaram pelos mesmos constrangimentos ditatoriais ao apoiarem os familiares detidos e torturados. 


A Autora identifica o casal Herculana de Carvalho, “uma verdadeira mãe dos presos do Tarrafal” [p. 162], e Luís Alves de Carvalho, autor das fotografias únicas dos presos do Tarrafal e das campos dos mortos aquando da sua deslocação ao Campo de Concentração para verem o filho, Guilherme da Costa Carvalho; de Juliana Augusta Dias Coelho e de Alfredo Coelho, pais de José Dias Coelho [que o meu pai conheceu em Castelo Branco nos tempos de estudante do Liceu, por ser colega e amigo de Alberto e de Fernando, sendo José Dias Coelho ainda “um garoto de calções”]; Flora Magro, “talvez a mulher portuguesa que durante mais tempo visitou incansavelmente as cadeias políticas” [p. 166], pois teve presos, em simultâneo ou em tempos diferentes, o filho, José Magro, a nora, Aida Magro e genro, Pires Jorge, tendo criado as netas Manuela e Clara; Maria Rodrigues Pato, que viu serem detidos e torturados três filhos (um deles, Carlos Pato, também assassinado pela PIDE), uma nora, um neto e um sobrinho; Manuel José da Costa, pai de Carlos Costa, e Avelino Costa e Maria da Conceição Gomes da Costa, seus tios. Sem esquecer a generosidade e solidariedade para com os presos e suas famílias das pintoras Maria Clementina Carneiro de Moura e Maria Keil e da médica Maria Luísa Almeida. 

Uma vida clandestina onde Margarida Tengarrinha teve de “aprender a saborear a felicidade possível” [p. 43], dilacerada pela morte da mãe, Teresa Marques do Carmo Mendes Tengarrinha; a separação da filha mais velha, “terrível para todas nós”, “pior do que a prisão, pior do que as torturas” [p. 53]; e, por fim, o brutal assassinato de José Dias Coelho pela PIDE em Dezembro de 1961, com apenas 38 anos, sabendo do desenlace quando já tinha sido enterrado.

Memórias de uma Resistente comunista e da Resistência Antifascista ilustradas por vasta documentação iconográfica, sobretudo gravuras da Autora, algumas ainda erroneamente atribuídas a José Dias Coelho, e que constitui, também, uma belíssima homenagem ao seu companheiro e às duas filhas, Teresa e Guida, procurando, assim, “fugir à corrupção da morte e ao esquecimento de si próprio e daqueles que conheceu, amou e admirou” [p. 176].



[João Esteves]

sábado, 31 de janeiro de 2015

[0905.] FLORA MAGRO [III]

* FLORA CARLOTA ALVES MAGRO *

Eis um nome que não consta dos livros da oposição ao Salazarismo e ao Marcelismo, assim como não consta o de MARIA RODRIGUES PATO. E no entanto Gina de Freitas, nas entrevistas que publicou no Diário de Lisboa, intituladas "A Força Ignorada das Companheiras Que Ficaram na Sombra", deu-lhes destaque. Estava-se, então, em 1974, quando a História parecia ser veloz. Feminae - Dicionário Contemporâneo incluiu os seus nomes. Espera-se que a vida destas duas mulheres sejam recontadas e as suas biografias desenvolvidas. Merecem! É um acto de justiça.  



quarta-feira, 30 de abril de 2014

[0614.] FEMINAE [XXXI] - Letra M [V]

- ENTRADAS -


- LETRA M [V] -


0751. Maria Lúcia Ramos Frutuoso [Namorado]
0752. Maria Lucília Estanco Louro
Maria Luísa Costa Dias - v. Maria Luísa Palhinha da Costa Dias
0753. Maria Luísa Costa Silva Bastos
0754. Maria Luísa de Melo Carneiro Zagalo
0755. Maria Luísa de Sousa e Holstein
0756. Maria Luísa Domingas de Sales e Borja de Assis de Paula de Sousa e Holstein 
0757. Maria Luísa Faria de Magalhães
0758. Maria Luísa Maire 
0759. Maria Luísa Palhinha da Costa Dias
Maria Machado - v. Maria dos Santos Machado
0760. Maria Madalena Bagão da Silva Biscaia de Azeredo Perdigão
Maria Madalena Azeredo Perdigão - v. Maria Madalena Bagão da Silva Biscaia de Azeredo Perdigão
Maria Madalena Biscaia Farinha - v. Maria Madalena Bagão da Silva Biscaia de Azeredo Perdigão
0761. Maria Madalena de Azevedo Duarte de Sousa Gerbert
Maria Madalena Martel Patrício - v. Maria Madalena Valdez Trigueiros de Martel Patrí-cio
0762. Maria Madalena Valdez Trigueiros de Martel Patrício
0763. Maria Manuela da Conceição Carvalho Margarido
0764. Maria Manuela de Brito e Castro de Figueiredo e Melo da Costa Lorena 
0765. Maria Margarida Canavarro de Meneses Fernandes Costa 
0766. Maria Margarida da Silva
0767. Maria Margarida Oliveira Pinto 
0768. Maria Matos
0769. Maria Micaela de Sousa Folque
0770. Maria Miquelina Monteiro
Maria Monjardino - v. Maria Medina Monjardino Brito do Rio
0771. Maria Ofélia Freire de Oliveira Corrêa 
0772. Maria Olímpia da Cunha Viana Vaz Simões Anjos
Maria O´Neill - v. Maria da Conceição Infante de Lacerda Pereira de Eça Custance O´Neill
0773. Maria Palmira Passos da Fonseca de Abreu Castelo Branco 
0774. Maria Peres
Maria Pia - v. Maria Seabra da Cruz Almeida
Maria Pia de Almeida - v. Maria Seabra da Cruz Almeida
0775. Maria Pia de Sabóia e Bragança [Rainha D.]
0776. Maria Pinto
0777. Maria Pinto Ribeiro
0778. Maria Portuzelos
0779. Maria Pureza 
0780. Maria Reis
Maria Ribeiro de Oliveira Freire - v. Maria da Graça Freire
Maria Rita Chiappe Cadet - v. Maria Rita Colaço Chiappe Cadet
Maria Rita Colaço Chiappe - v. Maria Rita Colaço Chiappe Cadet
0781. Maria Rita Colaço Chiappe Cadet 
0782. Maria Rita Mesquita
0783. Maria Rodrigues Pato

[Edição da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) / 2013]

domingo, 5 de janeiro de 2014

[0442.] MARIA RODRIGUES PATO [I]


Uma vida de resistência a caminho das prisões políticas salazaristas * 
[1949-1974] 

Casada com João Floriano Baptista Pato, Maria Rodrigues Pato nasceu em outubro de 1900. 

Mãe de Abel, Carlos Alberto (1921-26/06/1950) e Octávio Floriano Rodrigues Pato (1925-1999), “sogra” de Albina Fernandes (1929-1970) e avó de Álvaro Pato, militantes comunistas. 

Foi a mulher que mais tempo caminhou para as prisões fascistas para ver aqueles familiares, presos, em simultâneo, ou de forma continuada, a partir da década de 40: segundo palavras do neto Álvaro, "percorreu milhares de quilómetros a andar de cadeia para cadeia"


[pp. 27-31]

Em 1974, em conversa com a jornalista Gina de Freitas, publicada a 25 de setembro de 1974 no Diário de Lisboa, contou o que foram “30 anos de sofrimento”, entre maio de 1949 e abril desse ano, a partir do momento em que a PIDE prendeu o filho Carlos, morto em Caxias depois de barbaramente torturado com 130 horas de estátua e sem lhe prestarem assistência médica, apesar das insistências dos outros presos, tendo guardado “uns sapatos dele, todos rebentados devido a ter ficado muito inchado por causa das torturas” [A força ignorada das companheiras, p. 30]. 

Depois detiveram Abel, empregado bancário, para ver se denunciava Octávio Pato, na clandestinidade desde 1945; de seguida, em 1961, calhou a vez a este e a Albina Fernandes, sua companheira, serem detidos com os dois filhos pequenos em Caxias; e, por último, em 1973, foi o neto, preso onze meses e um dia, sendo libertado de Peniche em 26 de abril de 1974. 
[João Esteves]

* Júlia Coutinho, no blogue As Causas da Júlia, insere a fotografia de Maria Rodrigues Pato, assim como a respectiva entrevista publicada no Diário de Lisboa *