[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

[2208.] CARLOS ALBERTO RODRIGUES PATO [II] || ALGUNS CONTOS - 2012

* CARLOS PATO *
[1920 - 1950]

ALGUNS CONTOS

Edição Página a Página || 2012

Prefácio: José Casanova || Ilustrações: Clara Pato


[2207.] RIBEIRA DE BARCARENA || DEZEMBRO DE 2019

* RIBEIRA DE BARCARENA *



 [Caxias || Ribeira de Barcarena || Dezembro de 2019]

[2206.] CARLOS ALBERTO RODRIGUES PATO [I] || A MORTE, EM CAXIAS, AOS 29 ANOS

* CARLOS PATO *
[21/12/1920 - 26/06/1950]

Muito jovem, Carlos Pato integrou o chamado Grupo de Neo-Realistas de Vila Franca de Xira, destacou-se no associativismo local e militou no Partido Comunista, participando na sua reorganização no início da década de 1940. 

Nome muito prestigiado e estimado em Vila Franca, sua terra natal onde perdura na memória de quem o conheceu, faleceu na prisão de Caxias com apenas 29 anos, vítima das violentas torturas a que fora submetido e deliberada falta de assistência médica. 

[Carlos Alberto Rodrigues Pato]

Filho mais velho de Maria Rodrigues Pato [n. 1900] e de João Floriano Baptista Pato [26/06/1895 - 14/12/1983], Carlos Alberto Rodrigues Pato nasceu em 21 de Dezembro de 1920, em S. João dos Montes - Vila Franca de Xira.

Frequentou o curso comercial nocturno no Colégio Afonso de Albuquerque onde, com Arquimedes da Silva Santos [n. 18/06/1921] e António Teodoro Garcez da Silva [1915 - 2006], esteve envolvido na criação de uma Caixa Escolar com o objectivo de promover iniciativas culturais e integrou, com aqueles dois, os corpos directivos eleitos em assembleia realizada em 16 de Outubro de 1937 [Garcez da Silva, Alves Redol e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca, Caminho, 1990]

Nesse mesmo ano de 1937, passou a integrar o chamado Grupo de Neo-Realistas de Vila Franca de Xira formado, entre outros, por Alves Redol [29/12/1911 - 29/11/1969], António Dias Lourenço [25/03/1915 - 07/08/2010], Arquimedes da Silva Santos, Gilberto Bona da Silva [1913 - 1983], Garcez da Silva e Mário Rodrigues Faria [11/01/1921 - 08/02/2004].

Carlos Pato e Mário Rodrigues Faria [Garcez da Silva] ou Silvestre Mota [Contos e Outras Prosas de Mário Rodrigues Faria, Prefácio, Organização e Notas de Luísa Duarte Santos] foram os responsáveis por dactilografarem o manuscrito Gaibéus, de Alves Redol, de forma a apressar o envio para a tipografia a fim de se proceder à sua publicação. 

Publicou a crónica "Safra", o seu primeiro trabalho, na "Página literária" do Mensageiro do Ribatejo de 11 de Junho de 1939, assinando-o como Alberto Rodrigues, os seus dois nomes do meio, texto «em que a nota paisagística e a sensibilidade à dureza do labor humano na lezíria já pronunciavam o contista de "Valados"» [Garcez da Silva, "Alves Redol, o "Mensageiro do Ribatejo" e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca", in Alves Redol, Testemunhos dos seus contemporâneos,  Caminho, 2001].

[Diário de Lisboa || 27/06/1950 || p. 2]

O seu conto "Valados", o único dos três contos publicado em vida, consta da colectânea Contos e Poemas de Vários Autores Modernos Portugueses, impressa em 22 de Abril de 1942 e organizada por Carlos Alberto Lança e Francisco José Tenreiro [20/01/1921 - 31/12/1963], incluindo, também, textos de Arquimedes da Silva Santos, Faure da Rosa [1912 - 1985], Manuel da Fonseca [1911 - 1993], Soeiro Pereira Gomes [1909 - 1949] e Sidónio Muralha [1920 - 1982].

[Contos e Poemas de Vários Autores Modernos Portugueses || 1942]

Da sua produção literária, conhecem-se apenas três contos, editados um ano após a morte - "Ao receber a jorna...", "Valados", "Graxas" - com palavras introdutórias de Alves Redol. Foram reeditados em 1974 e 2012, neste último caso com prefácio de José Casanova e ilustrações de Clara Pato, mantendo-se o texto daquele escritor.


Simultaneamente, tornou-se militante do Partido Comunista com apenas dezassete anos: participou na sua reorganização em 1940/1941, fez parte do seu Comité Local e, posteriormente, do Comité Regional do Ribatejo, sendo por seu intermédio que o irmão Octávio Pato [01/04/1925 - 19/02/1999] aderiu, primeiro, à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas e, depois, ao Partido Comunista.

Carlos Pato foi um dos participantes dos denominados Passeios do Tejo, organizados em 1940, 1941 e 1942; presidiu, entre 1945 e 1948, à Direcção do Ateneu Artístico Vilafranquense, destituída pelas autoridades fascistas em 13 de Maio de 1948; e foi o responsável pelo núcleo de Vila Franca do MUD (Movimento de Unidade Democrática).

[Carlos Pato || 28/04/1947 || ANTT || RGP/19199 || PT-TT-PIDE-E-010-96-19199_m0407]

Empregado bancário de uma filial do Banco Nacional Ultramarino em Vila Franca de Xira, foi preso pela primeira vez em 27 de Abril de 1947 e enviado para Caxias, saindo em liberdade condicional em 17 de Julho. 

Em 1948/49, fez parte da Comissão para a candidatura do general Norton de Matos, sendo preso na madrugada de 28 de Maio de 1949, no âmbito das suas actividades políticas e associativas. A brigada que o prendeu, chefiada pelo inspector Jorge Ferreira, invadiu a casa, entrou nos quartos e revistou-os, incluindo o berço da filha.   

[Carlos Pato || 28/04/1947 || ANTT || RGP/19199 || PT-TT-PIDE-E-010-96-19199_m0407]

Espancado e sujeito à tortura da estátua durante mais de 130 horas, sem nunca ter sido julgado, faleceu, em grande sofrimento, em 26 de Junho de 1950, apesar dos sucessivos pedidos de ajuda pelos restantes 14 companheiros: «cerca das seis e meia da manhã do dia 26 de Junho de 1950, na sala 7 do rés-do-chão do forte de Caxias, o militante comunista Carlos Pato, num sofrimento atroz, sucumbia às violentas torturas a que fora submetido pela PIDE e à recusa, por parte dessa polícia, em lhe facultar a assistência médica de que necessitava» [José Casanova, "Prefácio" ao livro Alguns Contos de Carlos Pato, Página a Página, 2012]. 

Depois do falecimento de Militão Ribeiro [1896 - 1950] na Penitenciária de Lisboa em 2 de Janeiro de 1950, dos assassinatos de José Moreira [1912 - 23/01/1950] e do jovem Alfredo Lima [04/06/1950], a morte de Carlos Pato ensombrava ainda mais aquele ano. 

Casado com Clotilde da Silva Henriques Pato, tinha apenas 29 anos e deixava dois filhos órfãos: uma menina, com 20 meses, e um rapaz com sete, nunca tendo chegado a ver este. A seu pedido, estava previsto que a mulher e os dois filhos o visitassem, o que nunca sucedeu devido aos entraves postos pela PIDE e ao desenlace fatal.

"Luísa Duarte Santos, que mais do que uma vez acompanhou a mulher de Carlos Pato, Clotilde, à prisão (onde também tinha o marido preso), relatou, mais tarde, o último encontro do casal: «Era um domingo de sol, e subíamos a custo o carreiro íngreme, até ao Forte. No final da visita – nesse dia, em comum – os presos regressariam às salas, após serem revistados. Numa porta, ao topo da recepção, onde estivéramos, reparei, enquanto esperava, que o Carlos falara com o chefe dos guardas, e pedira-lhe para dar um recado à mulher. Notei e impressionou-me – ainda hoje o recordo – a intensa palidez do seu rosto. A Clotilde saiu comigo e disse-me: “O Carlos pediu-me que trouxesse no próximo domingo os filhos, que os queria ver.” A palidez, que tanto me impressionou, seria a morte a rondá-lo. Poucas horas após essa visita, nessa noite, o Carlos falecia: o seu coração sucumbiu ao desgaste torturante da estátua»" [Avante!, 01/07/2010]. 

A mãe, manteve «sempre guardados  uns sapatos dele, todos rebentados devido a ter ficado muito inchado por causa das torturas. Foram tantas as torturas que ele até deixou de urinar e depois acabou por urinar sangue» ["A minha vida foi um pesadelo", in Gina de Freitas, A Força Ignorada das Companheiras, Plátano Editora, 1975].

[Diário de Lisboa || 27/06/1950 || p. 2]

O seu falecimento só foi imediatamente conhecido devido à informação prestada por Arquimedes da Silva Santos, então quintanista de medicina e igualmente preso em Caxias, dada a um advogado que, casualmente, visitava um outro detido. A notícia chegou a Vila Franca de Xira através de telegrama e segundo Júlio Gaudêncio, amigo de Carlos Pato, para além das ligações políticas, coube-lhe dar a notícia da sua morte a Alves Redol: «nunca vi um homem chorar como eu o vi chorar, com as mãos na cabeça, chorando com a notícia que tinha acabado de receber» ["Júlio Gaudêncio", in Alves Redol, Testemunhos dos seus contemporâneos,  Caminho, 2001].

Já não podendo esconder o sucedido, a PIDE ainda tentou condicionar as exéquias fúnebres, tendo, no entanto, o funeral constituído uma imponente manifestação de pesar, já que Carlos Pato era muito considerado e estimado pela população vilafranquense: «era um jovem extraordinário, era um rapaz maravilhoso [...] de quem toda a gente gostava» ["Júlio Gaudêncio", in Alves Redol, Testemunhos dos seus contemporâneos].

«- Devo-te muito do que há-de ser o futuro do meu filho; devemos-te todos, mesmo os que te quiseram mal, alguma coisa da felicidade que virá para os filhos de cada um... // E por isso te chorámos, e por isso te lembraremos sempre, mais ainda nas horas de alegria do que nos momentos de amargura» [Alves Redol, 1951].

Júlia Coutinho, através do seu precioso Blogue As Causas da Júlia, tem procurado que Carlos Pato não caia no esquecimento.

[João Esteves]

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

[2205.] MANUEL DIAS DA FONSECA [I] || OBRA POÉTICA

* MANUEL DIAS DA FONSECA *
[1923 - 2015]

"CÓPIA DE UM PANFLETO ENCONTRADO NUMA AULA DE ORGANIZAÇÃO POLÍTICA" (Maio.73) || in OBRA POÉTICA || MODO DE LER || 2012




[Retrato de Manuel Dias da Fonseca por Augusto Gomes]

[Manuel Dias da Fonseca || Obra Poética || Modo de Ler || 2012]

Edição de rara qualidade e sensibilidade, desde o grafismo ao fluir da conversa com o poeta, composta por dois volumes: Manuel Dias da Fonseca. Obra PoéticaUma entrevista com o poeta Manuel Dias da Fonseca por Manuela Espírito Santo.

Sempre reconhecido à Manuela Espírito Santo pela generosidade e descoberta de Manuel Dias da Fonseca

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

[2204.] ERNESTO CARNEIRO FRANCO || GRUPO DOS BUDAS EM MADRID

* ERNESTO CARNEIRO FRANCO || BELMIRA DA CUNHA SANTIAGO CARNEIRO FRANCO *

GRUPO DOS BUDAS || MADRID (INÍCIOS DOS ANOS 30) || FOTOGRAFIA RETIRADA DA EXPOSIÇÃO "JAIME CORTESÃO - CIDADÃO, PATRIOTA, RESISTENTE || MUSEU DO ALJUBE



[João Esteves]

[2203.] JAIME CORTESÃO || EXPOSIÇÃO NO MUSEU DO ALJUBE

* JAIME CORTESÃO || CIDADÃO, PATRIOTA, RESISTENTE *

EXPOSIÇÃO NO MUSEU DO ALJUBE || OUTUBRO 2019 - ABRIL 2020





 


[2202.] PRAIA GRANDE || DEZEMBRO DE 2019

* PRAIA GRANDE *



 [Praia Grande || Dezembro de 2019]

[2201.] GALAMARES || DEZEMBRO DE 2019

* GALAMARES *



[Galamares || Dezembro de 2019]

domingo, 1 de dezembro de 2019

[2200.] ÁLVARO MONTEIRO RODRIGUES PATO [I] || MUSEU DO ALJUBE - 4 DE DEZEMBRO

* ÁLVARO PATO *

[Álvaro Pato]

MUSEU DO ALJUBE || VIDAS NA RESISTÊNCIA 

CONVERSA CONDUZIDA POR ANA ARANHA || 4 DE DEZEMBRO DE 2019 || 16 HORAS


Falar de Álvaro Pato é reviver décadas de luta antifascista, marcadas pela dor, sofrimento, resistência e coerência política ímpar, mas serve, também, para constatar a impunidade, após 1974, dos que prenderam, torturaram e mataram durante 48 anos.

                [Octávio Pato]                [Antónia Joaquina Monteiro]

Filho de Antónia Joaquina Monteiro e de Octávio Floriano Rodrigues Pato [01/04/1925 - 19/02/1999], ambos militantes do Partido Comunista, Álvaro Monteiro Rodrigues Pato nasceu em Março de 1950, quando os pais estavam na clandestinidade.

[Carlos Pato]

Quando nasceu, o tio, Carlos Pato [Carlos Alberto Rodrigues Pato (21/12/1920 - 26/06/1950)], igualmente militante do Partido Comunista, estava preso em Caxias e não tardaria a morrer devido às violentas torturas sofridas às mãos da PIDE, deixando uma filha e um filho muito pequenos, respectivamente com 20 e 7 meses. 

Como os riscos eram muitos e, com apenas dezasseis meses, Álvaro Pato passou a viver com os avós paternos [Maria da Conceição Rodrigues Pato (n. 1900) e João Floriano Baptista Pato (26/06/1895 - 14/12/1983)], em Vila Franca de Xira, sendo que a avó foi a mulher que, entre 1949 e 1974, mais anos passou a caminho das prisões fascistas para visitar os filhos, a nora ou o neto.

[Maria da Conceição Rodrigues Pato || Diário de Lisboa || 25/09/1974]

Aos nove anos, Álvaro reencontrou-se, fugazmente, com o pai num encontro clandestino preparado na Nazaré; voltou a ver a mãe somente aos treze, quando ela lhe apareceu junto à casa dos avós paternos.

[Abel Rodrigues Baptista Pato || 20/11/1953 || ANTT || RGP/21381 || PT-TT-PIDE-E-010-107-21381_m0367]

Em 1961, com a prisão do pai e da companheira, Albina Fernandes [05/01/1929 - 02/10/1970], Álvaro Pato, um rapazito de 11 anos, iniciou as suas caminhadas semanais a Peniche e a Caxias para os ver, acompanhando o tio Abel [Abel Rodrigues Baptista Pato, chegou a estar preso no Aljube em finais de 1953, inícios de 1954], a avó Maria, o avô João e os (novos) irmãos Isabel e Rui. Visitas que se prolongaram por muitos anos, nove, até à libertação do pai, chegando, nas férias, a estar acampado 15 dias no parque de campismo de Peniche, para o poder visitar com mais frequência, muito contribuindo para o estreitamento dos laços afectivos (e também políticos) entre os dois.

[Albina Fernandes]

Entretanto, Álvaro Pato começou a participar na secção cultural da União Desportiva Vila-franquense, onde conheceu, por exemplo, Vítor Dias, e por volta dos dezasseis anos ingressou no Partido Comunista.  

Passou pela Escola Machado de Castro e, em 1968, entrou no Instituto Industrial, também em Lisboa, tendo feito parte da direcção da Associação, entretanto encerrada pelas autoridades académicas, o que provocou greves às aulas e a prisão de vários colegas. A viver num quarto em Lisboa, foi avisado pelos avós que a GNR o tinha procurado com um mandado de captura e passou a viver numa semi-clandestinidade, sustentando-se como desenhador através de projectos de construção civil que Álvaro Veiga de Oliveira [25/01/1929 - 24/08/2006] lhe entregava.

Em Outubro de 1970, Albina Fernandes suicidou-se, cabendo a Álvaro Pato dar a notícia ao pai e ao irmão Rui.

Mobilizado para a tropa em 1971, desertou em Abril de 1972 por estar em vias de ser enviado para a Guiné, já que era «politicamente suspeito», informação dada por um alferes, comandante de pelotão. Entrou, então, na clandestinidade, chegando a reencontrar o pai, também na clandestinidade, numa reunião política ocorrida no Porto em Outubro de 1972. Passou a ser António Gomes da Silva, segundo o forjado documento de identificação.


[Álvaro Pato || in Joana Pereira BastosOs últimos presos do Estado Novo, Oficina do Livro, 2013, p. 135]

Em 25 de Maio de 1973, quando tinha por tarefa a organização, na Margem Sul, de um movimento de jovens trabalhadores, foi preso num autocarro apanhado em Coina, devido a denúncia do jovem com quem se ia encontrar: Silvano, com dezoito anos, era, afinal, informador da PIDE. 

Seguiu, primeiro, para a delegação da PIDE em Setúbal, onde não prestou quaisquer declarações. Levado para Caxias, e apesar da recusa em se identificar, foi reconhecido por um guarda do tempo em que visitava a companheira do pai, Albina Fernandes.

Começaram as torturas, tendo a do sono perdurado por 11 dias e 11 noites. Não falou. Quando presente a Tribunal Militar, devido à deserção, ousou  denunciar os maus-tratos que a PIDE lhe tinha infligido, o que teve por consequência ser espancado no regresso à prisão.

Libertado em 27 de Abril de 1974, tinha à sua espera a mãe: "Não trocaram uma palavra. Abraçaram-se a chorar, durante largos minutos" [Joana Pereira Bastos, Os últimos presos do Estado Novo, Oficina do Livro, 2013, p. 135].

[Álvaro Pato || in Joana Pereira BastosOs últimos presos do Estado Novo, Oficina do Livro, 2013, p. 135]

Recuperar a liberdade não é sinónimo de remeter para o passado os espancamentos e as torturas infligidas pela PIDE. Esses momentos nunca se apagam, continuam alojados na memória e no corpo. Sempre. Por tudo isto, é necessário falar sobre o que foram 48 anos de ditadura. E é das suas vivências, muitas delas dolorosas, que Álvaro Pato, provavelmente, conversará nesta quarta-feira, 4 de Dezembro, no Museu do Aljube, com Ana Aranha.

[João Esteves]

sábado, 30 de novembro de 2019

[2199.] HENRIQUE VALE DOMINGUES FERNANDES [I] || A MORTE NO TARRAFAL AOS 28 ANOS

* HENRIQUE VALE DOMINGUES FERNANDES *
[24/08/1913 - 07/01/1942]

Grumete de manobra do Bartolomeu Dias, participou na Revolta dos Marinheiros de 8 de Setembro de 1936 e foi deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde faleceu com apenas 28 anos de idade.

[Henrique Vale Domingues Fernandes || 1936 || ANTT || RGP/4248 || PT-TT-PIDE-E-010-22-4248_m0109]

[ANTT || Processo SPS n.º 1985, 2.º vol. || PT-TT-PIDE-E-009-1985-2_m0116]

Filho de Florinda Vale Domingues Fernandes e de José Rosa Fernandes, Henrique Vale Domingues Fernandes nasceu em 24 de Agosto de 1913, em Lisboa. 

Grumete de manobra 5222, a prestar serviço a bordo do aviso de 1.ª classe Bartolomeu Dias desde apenas 31 de Agosto de 1936, esteve envolvido na Revolta dos Marinheiros que eclodiu em 8 de Setembro do mesmo ano.



[ANTT || Processo SPS n.º 1985, 2.º vol. || PT-TT-PIDE-E-009-1985-2_m0114, m0115, m0116]

Preso nesse mesmo dia, foi entregue pelas autoridades da Marinha à Secção Política e Social da PVDE, recolheu ao 3.º Posto da 14.ª Esquadra - "Mitra" e, em 18 de Setembro, passou para a Penitenciária de Lisboa. 

[ANTT || Processo SPS n.º 1985, 1.º vol. || PT-TT-PIDE-E-009-1985-1_m0163]

Julgado pelo Tribunal Militar Especial em 14 de Outubro de 1936, Henrique Vale Domingues Fernandes foi condenado a quatro anos de prisão maior celular, seguidos de oito anos de degredo ou, em alternativa, na pena de dezasseis de degredo em possessão de 2.ª classe.

Interpôs recurso, tendo o mesmo tribunal, em decisão de 21 do mesmo mês,  confirmado a sentença, quando Henrique Fernandes já ia a caminho do Tarrafal. 

Depois de mais de cinco anos de cativeiro, faleceu no Campo de Concentração em 7 de Janeiro de 1942, com apenas 28 anos de idade.

[ANTT || Processo SPS n.º 1985, 1.º vol. || PT-TT-PIDE-E-009-1985-1_m0280, m079]


[ANTT || Processo SPS n.º 1985, 1.º vol. || PT-TT-PIDE-E-009-1985-1_m0280, m0281]

A família não terá sido avisada do seu falecimento, tendo a irmã, Gabriela Fernandes, sabido do sucedido por ter sido devolvida uma encomenda enviada para a Colónia Penal. 

 

[ANTT || Processo SPS n.º 1985, 1.º vol. || PT-TT-PIDE-E-009-1985-1_m0280, m0270, m0271]

Com data de 26 de Abril, enviou uma carta ao director da PVDE a solicitar informação da data da morte.

[Henrique Vale Domingues Fernandes || 1936 || ANTT || RGP/4248 || PT-TT-PIDE-E-010-22-4248_m0109]

Fontes:
ANTT, Registo Geral de Presos 4248 [Henrique Vale Domingues Fernandes / PT-TT-PIDE-E-010-22-4248].

ANTT, Processo SPS n.º 1985, 1.º vol. [PT-TT-PIDE-E-009-1985-1] e Processo SPS n.º 1985, 2.º vol. [PT-TT-PIDE-E-009-1985-2].

[João Esteves]