[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

terça-feira, 19 de junho de 2018

[1836.] CAROLINA LOFF DA FONSECA [I]

* CAROLINA LOFF DA FONSECA (1911 - 1999) || IMPORTANTE DIRIGENTE COMUNISTA NA DÉCADA DE 1930 || EXPULSA DO PARTIDO COMUNISTA POR ENVOLVIMENTO EMOCIONAL COM O INSPECTOR DA PVDE JÚLIO DE ALMEIDA *

O percurso político de Carolina Loff é um dos mais polémicos e intrigantes, já que destacada militante e dirigente comunista, comunista na década de 30, com passagens pela União Soviética e missões da Internacional Comunista na Espanha Republicana durante a Guerra Civil, envolveu-se emocionalmente, depois de ter sido presa pela segunda vez, em 1940, com o inspector da PVDE responsável pelo seu processo. 

Apesar de expulsa do Partido Comunista, está por apurar o seu real envolvimento com os serviços de espionagem soviética, já que se revelara um quadro ao serviço da Internacional Comunista com tarefas atribuídas em Espanha e Portugal e que continuou, depois disso, a entrar e sair da URSS com enorme facilidade. 

[Carolina Loff || 01/061940 || ANTT || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 63, registo n e 12405 || PT/TT/PlDE/E/010/63/12405 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filha de Ida Loff Fonseca, nasceu em Cabo Verde (Praia, Santiago) em 12 de Novembro de 1911 e faleceu em 6 de Março de 1999, com 87 anos. 

Aos 15 anos partiu, com a mãe, para Lisboa e estudou no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, a funcionar no Largo do Carmo. 

Prima dos activistas comunistas Álvaro [1910 - 1975] e Dalila Duque da Fonseca [15/01/1911 - 1992], era, tal como aqueles, originária de Cabo Verde e dirigente da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas nos primórdios da década de 30, depois de ter aderido por intermédio de José Grácio Ribeiro, estudante de Direito mais tarde afastado e que enfileirou na União Nacional. 

Integrou a primeira célula feminina comunista, organizada por Wilma Freund, cedo se notabilizou pela dedicada militância e enquanto autora de parte dos artigos da imprensa da FJCP. 

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Presa pela primeira vez em 6 de Setembro de 1932, passou pela Cadeia das Mónicas, saiu em liberdade um ano depois e engravidou de seguida, em resultado da união com o seu companheiro Carlos Luís Correia Matoso [n. 15/07/1908], dirigente do Partido Comunista, que não terá chegado a conhecer a filha Helena: julgado à revelia em 20 de Outubro de 1934 e condenado a 10 anos de degredo, foi preso em 11 de maio de 1938, passou sucessivamente por diversas esquadras, Cadeia do Aljube, Forte de Caxias e de Peniche, até ser enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde entrou em 20 de Junho de 1939. Solto em 20 de Dezembro de 1945, regressou em 10 de Janeiro de 1946 e emigrou para o Brasil, onde se suicidou “passado pouco tempo, em condições misteriosas” [Edmundo Pedro, Memórias. Um Combate pela Liberdade, I Volume, Âncora Editores, 2007]. 

Em Março de 1935, Carolina Loff partiu para a União Soviética com a bebé, a convite de Francisco Paula de Oliveira, frequentou a Escola Leninista, da Internacional Comunista, com o pseudónimo Ana Marta, e quando Bento Gonçalves e Álvaro Cunhal foram a Moscovo, nesse mesmo ano, reencontraram-na a trabalhar “como intérprete e tradutora nas edições em língua estrangeira” [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política, Vol. 1 – “Daniel”, O Jovem Revolucionário (1913-1941), Lisboa, Temas e Debates, 1999], destinadas sobretudo ao Brasil. 

[Carolina Loff || 01/06/1940 || ANTT || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 63, registo n 12405 || PT/TT/PlDE/E/010/63/12405 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Aí, lidou com alguns dos nomes importantes da Internacional Comunista que, em 1937, a enviaram para Espanha com a finalidade de montar uma emissora clandestina do Comintern para Portugal (mais conhecida por rádio do PCP) que passasse por funcionar em Lisboa e denunciasse o apoio do governo aos revoltosos espanhóis, o que sucedeu: a emissão “era feita a partir do próprio edifício da sede do PCE em Valência e transmitida pela Telefónica para Madrid”, fazendo quase tudo sozinha – “era a locutora e redigia grande parte do material que era transmitido”. Além disso, “lidava directamente com os mais altos responsáveis do PCE” e intervém "junto da comunidade portuguesa exilada em Espanha, informando sobre o seu comportamento político quer o PCE, quer os serviços de informação associados ao secretariado de Togliatti /«Alfredo»” [JPP, vol. 1], usando um passaporte belga em nome de Berthe Mouchet. 

Nesse ano de 1937, o seu nome surgiu como possibilidade para substituir Armando Magalhães em Paris, o quadro mais influente naquela cidade e em rota de colisão com as orientações de Francisco de Paula Oliveira, então o principal dirigente do PCP, numa tentativa de solucionar conflitos internos que se arrastavam sem solução a contento deste. 

Em 1938, fez parte da direcção da União Antifascista dos Portugueses Resistentes em Espanha, sediada em Madrid, trabalhou no Comité da Frente Popular em Barcelona e manteve-se naquele país até ao fim da Guerra Civil, tendo sido presa e torturada pelos franquistas, afirmando-se então como jornalista belga. 

As autoridades espanholas entregaram-na na fronteira portuguesa em Outubro de 1939, “acompanha-da por um personagem misterioso [Nikolas Gargoff], suposto delegado da IC, e que vai ter um papel igualmente obscuro no processo da «reorganização»” [JPP, vol. 1] do Partido Comunista Português em 1940-1941.

Ao não ser, estranhamente, detida, regressou à luta política dentro do núcleo dirigente daquele. 

Até ser presa em Maio de 1940, viveu clandestina, usou o nome de Maria Luísa, manteve estreita colaboração com Álvaro Cunhal no Secretariado, contribuiu para a redacção de documentos políticos e de textos sobre a política internacional do movimento comunista, bem como interveio na sua distribuição. 

Devido ao comportamento na prisão, chegando a ser acareada com Álvaro Cunhal e Francisco Miguel, e ao facto de se ter ligado ao subinspector da PIDE Júlio de Almeida, com quem viveu, viria a ser expulsa do Partido na década de 40, estando por apurar o real envolvimento com os serviços de espionagem soviética, já que se revelara um quadro ao serviço da Internacional Comunista com tarefas atribuídas em Espanha e Portugal e que continuou sempre a entrar e sair da URSS com enorme facilidade. 

[Carolina Loff || 01/061940 || ANTT || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 63, registo n 12405 || PT/TT/PlDE/E/010/63/12405 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

O seu nome, a par do de Helena [Vieira] Faria, constou como exemplo nefasto nas primeiras edições do importante manual político de conduta em caso de detenção pela polícia política Se Fores Preso, Camarada..., bem como no Lutemos contra os espiões e provocadores – Breve história de alguns casos de provocação no PCP,  da autoria do Secretariado do CC do PCP e saído em 1952. 

Usou ainda os pseudónimos “Berta”, “Marta da Costa” e “Sylvie”. 

Edmundo Pedro manteve relações de amizade com Carolina Loff, que lhe apresentou a filha, então já sexagenária, criada e educada na União Soviética, sendo uma dos muitos estrangeiros, incluindo filhos de portugueses, que passaram pela escola internacional de Ivanovo. 

O percurso intrigante e enigmático de Carolina Loff saiu reforçado por se ter recusado sempre, apesar da sua longevidade, a esclarecer episódios dessa vivência, originando, entre outras, as obra de ficção O Enigma de Zulmira, de Vasco Graça Moura, e Cartas Vermelhas, de Ana Cristina Silva. 

Feminae - Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013] incluiu uma nota biográfica de Carolina Loff da Fonseca.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Registo Geral de Presos / 12405 [Carolina Loff Fonseca / PT-TT-PIDE-E-010-63-12405_m0001].

[João Esteves]

domingo, 17 de junho de 2018

[1835.] ANTÓNIO MARQUES MONTEIRO [I]

* ANTÓNIO MARQUES MONTEIRO || MILITANTE COMUNISTA (1926 - 1933) || DO COMITÉ LOCAL DE BEJA AO COMITÉ REGIONAL DO OESTE || PENICHE (1934 - 1936) *

António Marques Monteiro manteve, entre 1926 e 1934, quando foi preso pela última vez, relevante militância no Partido Comunista, nomeadamente em Beja e Caldas da Rainha, com destaque na Organização Regional do Oeste.

Os dados biográficos que se seguem baseiam-se no seu Cadastro Político elaborado, primeiro, pela Polícia de Defesa Política e Social e, depois, pela Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado [ANTT, Cadastro Político 4701].

[António Marques Monteiro || ANTT || RGP/178] 

Encadernador, filho de Ermelinda de Jesus Marques e de Manuel Monteiro Marques, António Marques Monteiro terá nascido em 1900, em Lisboa.

Terá aderido ao Partido Comunista em 1926, embora, segundo o seu Cadastro Político, "mais tarde fosse suspenso temporariamente".

Em 1929, foi trabalhar para Beja e aí retomou a actividade política. Integrou o Comité Local do Partido Comunista e, em 1929-30, colaborou com Bento Gonçalves na conferência plenária da organização local que teve lugar na Casa dos Trabalhadores.

Também teve papel de relevo na organização de uma Conferência Camponesa, que teve a adesão de muitos dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais do Baixo Alentejo, filiados na União Nacional dos Trabalhadores Rurais, e contou com a participação de Daniel Neto Batalha enquanto Delegado da Comissão Inter-Sindical (CIS).

Ainda em Beja, António Marques Monteiro participou nos trabalhos de uma conferência plenária do Partido, "com o fim de ser desdobrado o aparelho local".

Acabou por ser preso naquela cidade em 16 de Abril de 1932, acusado de estar envolvido numa greve e comício de operários contra a carestia de vida e o desconto de 2% sobre os seus salários, decretado pelo Governo, tendo sido entregue, em 27 de Abril, pelo Comando local da PSP à Polícia de Defesa Política e Social [Processo 358].

Por parecer do Director-Geral de Segurança e anuência do Ministro do Interior, saiu em liberdade em 20 de Junho do mesmo ano.

No mês seguinte, participou em Lisboa, com Manuel Francisco Roque Júnior [RGP/13641] e Rodrigo Ollero das Neves [RGP/289], na reunião de Delegados de 17 Sindicatos aderentes ou simpatizantes da Comissão Inter-Sindical (CIS), de orientação comunista, que teve lugar no Sindicato do Pessoal dos Tabacos, na Rua do Mirante, com a finalidade de estabelecer as Bases de negociação com a Câmara Sindical do Trabalho, afecta à CGT, visando a criação de uma Frente Única de Luta [Processo 568].

[António Marques Monteiro || ANTT || RGP/178]

Devido a investigações posteriores à sua libertação, concluiu-se que António Marques Monteiro seria o principal elemento do Partido Comunista na região de Beja, tendo o seu processo sido enviado, em Fevereiro de 1933, ao Tribunal Militar Especial a fim de ser submetido a julgamento.

Em Lisboa, terá recusado integrar o Secretariado Político do Partido Comunista, para o qual tinha sido abordado por Manuel Francisco Roque Júnior, e foi viver para as Caldas da Rainha.

Nas Caldas, António Marques Monteiro retomou a militância comunista por via de Firmiano Cansado Gonçalves, então procurado pela Polícia. Coube-lhe assegurar ligações com as Célula da Marinha Grande e de Torres Vedras através, respectivamente, do vidreiro António Guerra e do relojoeiro Santana, para  além daquelas estabelecidas na terra onde vivia, nomeadamente com o encadernador Abílio de Sousa Marques.

Criado o Comité Regional do Oeste, Firminano Cansado Gonçalves voltou para Lisboa e António Marques Monteiro tornou-se seu Secretário, Abílio de Sousa Marques ficou responsável pelas Juventudes Comunistas e Rafael Fernandes tratava da Imprensa.

Em 25 de Agosto de 1933, foi preso nas Caldas da Rainha, onde residia na Rua 15 de Maio - 43. 

Por documentos apreendidos a Alfredo Caldeira e a Bento Gonçalves, ambos procurados pela Polícia, sobressaiu a importância de António Marques Monteiro enquanto organizador da Célula Nº 1 das Caldas da Rainha e o papel que teve na ligação do Comité Regional do Oeste às Células do Bombarral, de Torres Vedras e da Marinha Grande, "ficando assim montado o Aparelho do Centro do País, o qual tinha ligação para Lisboa com a Comissão Central de Organização do Partido, por intermédio de Rafael Fernandes".

Através dos contactos partidários, António Marques Monteiro solicitou o envio de selos e verbetes do Partido Comunista, das Juventudes Comunistas e do Socorro Vermelho Internacional, para além de um copiógrafo a fim de ser utilizado pelo Comité Regional do Oeste [Proceeso 785].

No âmbito do Processo 568, foi julgado pelo Tribunal Militar Especial em 16 de Dezembro de 1933 e abrangido pela amnistia de 5 de Dezembro de 1932 [Processo 11/933, do TME].

[António Marques Monteiro || ANTT || RGP/178]

Quanto às actividades desenvolvidas no Oeste, o julgamento no TME ocorreu em 30 de Maio de 1934, tendo sido condenado à multa de catorze mil e quatrocentos  escudos, a qual não sendo paga no prazo legal é convertido em prisão correccional, e perda de direitos políticos por cinco anos [Processo 81/934, do TME].

Entrou na Fortaleza Militar de Peniche em 19 de Junho de 1934, tendo, em 9 de Janeiro de 1936, o Comandante Militar Especial de Peniche proposto que "seja transferido daquela Fortaleza e, até, se possível for, para fora do Continente (Ofício confidencial Nº 10, do Comando Militar Especial de Peniche)".

Libertado em 19 de Junho de 1936, por ter terminado a pena imposta pelo TME.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 4701 [António Marques Monteiro / PT-TT-PIDE-E-001-CX06_m0775, m0775a, m0775b, m0775c, m0775d, m0775 e].
ANTT, Registo Geral de Presos / 178 [António Marques Monteiro / PT-TT-PIDE-E-10-1-178_c0387].
ANTT, Fotografia 2783 [António Marques Monteiro / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0028].

[João Esteves]

sexta-feira, 15 de junho de 2018

[1834.] ARMANDO DOS SANTOS CALET [I]

* ARMANDO DOS SANTOS CALET || GREVE GERAL REVOLUCIONÁRIA DE 18 DE JANEIRO DE 1934 || ALJUBE || PENICHE || FORTALEZA DE S. JOÃO BAPTISTA (1935 - 1936) || CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL (1936 - 1945) *

Armando dos Santos Calet foi um dos muitos intervenientes da Greve Geral de 18 de Janeiro de 1934, tendo participado na sabotagem do Cabo Submarino entre a Trafaria e Porto Brandão. 

Preso em Agosto de 1934, foi deportado para a Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, e para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde sobreviveu dez longos anos.

[Armando dos Santos Calet || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Mariana Borges e de José dos Santos Calet, um dos militantes do Partido Comunista Português durante a 1.ª República, Armando dos Santos Calet terá nascido por volta de 1908, em Lisboa - Santa Justa.

Serralheiro da Fábrica de Material de Guerra, em Braço de Prata, e Secretário Administrativo do Sindicato do Pessoal do Arsenal do Exército, foi acusado de estar envolvido nos acontecimentos de 18 de Janeiro de 1934 e ter participado na sabotagem do Cabo Submarino, entre Porto Brandão e Trafaria [Processo 1227/SPS], e naquela efectuada na Fábrica onde trabalhava [Processo 1031/SPS].

O caso da Fábrica de Braço de Prata foi entregue a um Oficial da Polícia Judiciária Militar que, em 19 de Fevereiro de 1934, enviou o processo para a Repartição de Justiça do Governo Militar de Lisboa, a fim de ser enviado ao Tribunal Militar Especial.

Este, reunido em 5 de Maio de 1934, absolveu Armando dos Santos Calet.

[Armando dos Santos Calet || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Quanto ao outro acto de sabotagem, colaborou com Bartolomeu José da Costa, empregado da Companhia dos Telefones, Eurico Pinto Mateus [RGP/6244] e Silvino Augusto Ferreira [RGP/12592], Secretário-Geral do Sindicato do Arsenal do Exército, tendo como missão o corte de diversas redes telefónicas antes da eclosão da Greve Geral, bem como do Cabo Submarino da Companhia Portuguesa Rádio Marconi, cujas cabines se situavam no Portinho (entre Porto Brandão e Trafaria).

Na noite de 17 de Dezembro, seguiu do Cais do Sodré para Cacilhas, com Silvino Augusto Ferreira, onde os esperava Filipe José da Costa [RGP/1165], entre outros homens.

No Portinho, Armando dos Santos Calet participou directamente no corte de fios de duas das cabines do Cabo Submarino. 

[Armando dos Santos Calet || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Cumprida a sabotagem, andou fugido, só foi preso em 2 de Agosto de 1934, depois de ter regressado de Espanha, onde se refugiara, e prestou declarações em 18 de Agosto.

Enviado para o Aljube em 22 de Novembro de 1934, foi transferido para Peniche em 20 de Março de 1935, onde ficou até 8 de Junho.

Armando Calle foi deportado para Angra do Heroísmo em 8 de Junho de 1935, tendo o Avante! de Novembro desse mesmo ano chamado a atenção para o facto de se encontrar preso há 14 meses sem culpa formada.

Em 23 de Outubro de 1936, integrou a primeira leva de presos políticos enviada para o Campo de Concentração do Tarrafal [ANTT, Cadastro Político 5045]. Aí, integrou a Organização Comunista Prisional do Tarrafal (OCPT).

Permaneceu no Tarrafal dez anos, até 11 de Novembro de 1945, data em que foi libertado por ter sido abrangido pela amnistia de 18 de Outubro, embora só regressasse no navio "Guiné" em 1 de Fevereiro de 1946.


[CLNSRF || Presos Políticos no Regime Fascista (1932 - 1935) || 1981]

Em Lisboa, voltou a residir na Travessa do Maldonado, 3 - 2.º Esquerdo - Lisboa.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

O nome aparece grafado como Callet ou Calet.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5045 [Armando dos Santos Callet / PT-TT-PIDE-E-001-CX07_m0332, m0332a, m0332b, m0332c].
ANTT, Registo Geral de Presos / 302 [Armando dos Santos Calet / PT-TT-PIDE-E-10-2-302_c0220].
ANTT, Fotografia 2457 [Armando dos Santos Callet / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0008].

[João Esteves]

quarta-feira, 13 de junho de 2018

[1833.] FRANCISCO DA GLÓRIA PERROLAS [I]

* FRANCISCO DA GLÓRIA PERROLAS || PORTIMÃO || PRESO NO ALJUBE E EM PENICHE (1934 - 1935) *

Carpinteiro Naval, Francisco da Glória Perrolas foi preso em 1934 por integrar a organização comunista de Portimão e ser o reorganizador local do Socorro Vermelho Internacional.

A sua ficha do Registo Geral de Presos não contém fotografia que, no entanto, consta dos Livros de Cadastrados políticos da Torre do Tombo. Olhando-a com atenção, tudo indica ter sido torturado.

[Francisco da Glória Perrolas || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Maria João e de José da Glória Perrolas, Francisco da Glória Perrolas terá nascido em 1906, em Portimão, residindo na Rua do Craveiro - 12 quando foi detido.

Preso "por fazer parte da facção comunista de Portimão", ser "o reorganizador do Socorro Vermelho", "assistir a reuniões de carácter revolucionário" e estar envolvido num "plano de ataque à Força Pública, tendo recebido uma pistola e munições" [ANTT, Cadastro 5282], foi entregue, em 2 de Março de 1934, pelo Comando da PSP de Faro à Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado.

Organizado pelas autoridades do Distrito de Faro, o respectivo processo foi remetido para o Tribunal Militar Especial em 17 de Março de 1934 [Processo 1055-G], tendo Francisco da Glória Perrolas permanecido no Aljube entre 19 de Abril e 22 de Novembro.

[Francisco da Glória Perrolas || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Julgado pelo TME em 27 de Outubro e condenado a 12 meses de prisão correccional, "acusado de fazer propaganda de ideias contrárias ao actual estado da sociedade" [Processo 135/934, do TME], ficou encarcerado na Fortaleza Militar de Peniche entre 22 de Novembro e 18 de Fevereiro de 1935, data em que foi libertado.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5282 [Francisco da Glória Perrolas / PT-TT-PIDE-E-001-CX09_m0490, m0490a].
ANTT, Registo Geral de Presos / 229 [Francisco da Glória Perrolas / PT-TT-PIDE-E-10-2-229_c0066].
ANTT, Fotografia 2435 [Francisco da Glória Perrolas / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0012].

[João Esteves]

terça-feira, 12 de junho de 2018

[1832.] FRANCISCO DO NASCIMENTO ESTEVES [I]

* FRANCISCO DO NASCIMENTO ESTEVES  (1914 - 1938) || A MORTE, AOS 23 ANOS, NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL *

Francisco do Nascimento Esteves integra a lista dos 32 presos políticos portugueses falecidos no Campo de Concentração do Tarrafal.

Operário torneiro de metais com militância comunista, esteve preso no Aljube, em Peniche e, por fim, aquando da segunda prisão, foi enviado para o Tarrafal, onde faleceu em 21 de Janeiro de 1938, com apenas 23 anos de idade.

A sua ficha do Registo Geral de Presos não contém fotografia que, no entanto, consta dos Livros de Cadastrados políticos da Torre do Tombo.

[Francisco do Nascimento Esteves || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Júlia do Nascimento Esteves e de Luís Sérgio Esteves, Francisco do Nascimento Esteves nasceu em 1914, em Lisboa - Arroios.

Operário torneiro mecânico, foi preso em 27 de Junho de 1934, juntamente com Álvaro Martins e Manuel Venusto dos Santos Júnior [RGP/272], quando participava numa reunião de uma célula do Partido Comunista realizada na Quinta dos Apóstolos - Alto de São João [Processo 1190].

Aquela célula seria controlada por Manuel Venusto dos Santos Júnior e alguns dos presentes na reunião conseguiram fugir à polícia.

Transferido para a Fortaleza Militar de Peniche em 17 de Agosto de 1934, aí permaneceu até 18 de Janeiro de 1935, quando deu entrada no Aljube.

[Francisco do Nascimento Esteves || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Julgado pelo Tribunal Militar Especial em 19 de Janeiro, foi condenado a seiscentos dias de prisão correccional e perda dos direitos políticos por cinco anos [Processo 198/934, do TME].

Transferido, de novo, para Peniche, terá saído em liberdade em 22 de Fevereiro de 1935, quando completou os 600 dias a que fora condenado e, assim, "haver terminado a pena imposta pelo Tribunal", ou em 22 de Fevereiro do ano seguinte [ANTT, Cadastro Político 5682; RGP/232].

Em Março de 1936, foi alistado como soldado recruta no Batalhão de Aerosteiros, com o Nº 109, tendo, nesse mesmo mês, sido "mandado apresentar em Peniche, onde ficou detido" [ANTT, Cadastro 5682; AHM, PT/AHM/FO/011/1/4/358], tendo a Repartição do Gabinete do Ministério da Guerra solicitado à PVDE informações acerca de Francisco do Nascimento Esteves.

Em 2 de Maio de 1937, foi novamente preso pela Secção Política e Social da PVDE, recolheu incomunicável a uma esquadra, transitou, em 11 de Maio, para a 1.ª Esquadra e, no dia seguinte, entrou no Aljube. 

[Francisco do Nascimento Esteves || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Em Junho de 1937, integrou a segunda leva de presos políticos que chegou ao Campo de Concentração do Tarrafal, onde faleceu em 21 de Janeiro de 1938. Teria, apenas, 23 anos!

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5682 [Francisco do Nascimento Esteves / PT-TT-PIDE-E-001-CX09_m0582, m0582a].
ANTT, Registo Geral de Presos / 232 [Francisco do Nascimento Esteves / PT-TT-PIDE-E-10-2-232_c0072].
ANTT, Fotografia 2435 [Francisco do Nascimento Esteves / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0007].
AHM, PT/AHM/FO/011/1/4/358.

[João Esteves]

segunda-feira, 11 de junho de 2018

[1831.] ANTÓNIO SOARES MONTEIRO FERRO [I]

* ANTÓNIO SOARES MONTEIRO FERRO (n. 1894) || PRESO 11 ANOS E 7 MESES (1932 - 1943) || ALJUBE || PENICHE || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO (1935 - 1943) *

Comunista, António Soares Monteiro Ferro integrou o grupo envolvido nos preparativos da jornada de luta a ocorrer no dia 29 de Fevereiro de 1932, que implicava o recurso a bombas, e foi preso no âmbito dos preparativos do 1.º de Maio, estando presente nas experiências realizadas com aquelas na Serra de Monsanto, em 17 de Abril. 

Preso em 25 de Abril de 1932 e condenado a 10 anos de degredo, com prisão.

[António Soares Monteiro Ferro || ANTT || RGP/186]

Filho de Maria Francisca Soares e de José Soares Monteiro Ferro, António Soares Monteiro Ferro terá nascido em 1894, em Oliveira do Douro - Vila Nova de Gaia.

Soldado durante a 1.ª Grande Guerra, integrou a Companhia de Projectores de Campanha do Corpo Expedicionário Português, tendo embarcado em 2 de Julho de 1917 e desembarcado, em Lisboa, em 13 de Setembro de 1918 [AHM/PT AHM-DIV-1-35A-2-73-69033] 

No início da década de 1930 era carpinteiro em Lisboa, com morada no Pátio do Machado, porta 100 - Palma de Cima, integrava a Célula 21 do Comité de Zona Nº 4 do Partido Comunista e "organizou um núcleo de simpatizantes em Telheiras, que agregou àquela célula" [ANTT, Cadastro Político 5300]. 

Em Fevereiro de 1932, António Soares Monteiro Ferro esteve envolvido nos preparativos da jornada de luta a ocorrer no dia 29, juntamente com, entre outros, Dionísio Moreira de Paiva ("O Russo") [RGP/214], Francisco de Campos [RGP/63], João Facadinha, José Duarte 1.º [RGP/244] e Manuel Francisco da Silva ("O Manuel Pedreiro" que faleceu em 24 de Agosto de 1941, quando detido na Fortaleza de Angra do Heroísmo) [RGP/138]. Essa jornada implicava o recurso a bombas e acabou por não se realizar devido à prisão dalguns dos implicados. 

Falhada a jornada de 29 de Fevereiro, interveio nos preparativos do 1.º de Maio e, por isso, presenciou as experiências com bombas realizadas na Serra de Monsanto em 17 de Abril, juntamente com Álvaro Augusto Ferreira [RGP/535], Dionísio Moreira de Paiva, Francisco de Campos, João Facadinha e Manuel Francisco da Silva, entre outros [Processo 452/SPS]. 

[António Soares Monteiro Ferro || ANTT || RGP/186]

Terá conseguido escapar aquando das detenções feitas na Serra de Monsanto em 24 de Abril de 1932, mas foi detido no dia seguinte, sendo considerado "elemento perigosíssimo e activo na Organização" [ANTT, Processo 5300].

O seu processo foi enviado para o Tribunal Militar Especial em 24 de Fevereiro de 1933, mas o julgamento só no ano seguinte, em 20 de Outubro de 1934.

Acusado de, "em 1932 e por diversas vezes, ter tomado parte no fabrico, transporte, detenção e uso, para experiência, de bombas explosivas", sofreu a pena de dez anos de degredo, com prisão, e na multa de vinte mil escudos.

[António Soares Monteiro Ferro || ANTT || RGP/186]

António Soares Monteiro Ferro interpôs recurso, tendo a sentença sido confirmada pelo mesmo Tribunal em 3 de Novembro [Processo 16/933, do TME].

Enviado para o Aljube em 4 de Dezembro, foi transferido para Peniche em 19 do mesmo mês e reenviado para o Aljube em 20 de Março de 1935, a fim de seguir para a Fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo (23/03/1935).

Regressou de Angra do Heroísmo em 1 de Julho de 1943 e levado para Peniche, de onde saiu em liberdade em 26 de Novembro do mesmo ano.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

Fontes:
AHM [António Soares Monteiro Ferro / PT AHM-DIV-1-35A-2-73-69033_m0001, m0002].
ANTT, Cadastro Político 5300 [António Soares Monteiro Ferro / PT-TT-PIDE-E-001-CX07_m0151, m0151a, m0151b].
ANTT, Registo Geral de Presos / 186 [António Soares Monteiro Ferro / PT-TT-PIDE-E-10-1-186_c0404].
ANTT, Fotografia 2652 [António Soares Monteiro Ferro / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0020].


[João Esteves]

sexta-feira, 8 de junho de 2018

[1830.] ANTÓNIO AUGUSTO QUARESMA [I]

* ANTÓNIO AUGUSTO QUARESMA (1905 - 1987) || GREVE DE 18 DE JANEIRO DE 1934 - SETÚBAL || ALJUBE || PENICHE || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO (1935 - 1938) *

Operário conserveiro, sendo soldador de latas de conserva em Setúbal, António Augusto Quaresma foi um dos activistas que esteve envolvido na preparação da Greve Geral Revolucionária a eclodir naquela cidade em 18 de Janeiro de 1934. 

Conotado com o ideário anarquista, foi preso e deportado para Angra do Heroísmo, onde ficou cativo três anos na Fortaleza de São João Baptista. 

[António Augusto Quaresma || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho Edwiges da Conceição e de Francisco Maria Quaresma, António Augusto Quaresma terá nascido por volta de 1905, em Setúbal - S. Julião.

Preso pelo Comando da PSP de Setúbal e entregue, em 2 de Fevereiro de 1934, à Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, "acusado de fazer parte de uma organização revolucionária que tinha em preparação um movimento de carácter comunista naquela cidade" [ANTT, Cadastro Político 6982; Processo 963/A].

[António Augusto Quaresma || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Julgado no Tribunal Militar Especial em 10 de Outubro de 1934 e condenado a três anos de desterro, multa de seis mil escudos e perda dos direitos políticos por dez anos [Processo 20/934, do TME], "acusado de, nos meses de Dezembro do ano findo e Janeiro do corrente ano, fazer parte do Comité Grevista Revolucionário de Setúbal, tendo efectuado várias reuniões nos arredores daquela cidade, preparatórios de um movimento grevista, contra o Governo constituído, movimento que chegou a eclodir em algumas localidades do País, no dia 18 de Janeiro do corrente ano" [ANTT, Cadastro 6982]. 

[António Augusto Quaresma || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Levado para o Aljube em 29 de Setembro, seguiu para Peniche em 19 de Dezembro e embarcou, em 23 de Agosto de  1935, para Angra do Heroísmo, de onde foi libertado em 24 de Outubro de 1938.

Depois de libertado, António Augusto Quaresma terá trabalhado na construção civil e faleceu em 1987.

A sua fotografia não consta do Registo Geral de Presos, mas encontra-se no Livro de Cadastrados - 4.

[António Augusto Quaresma || ANTT || RGP/192 || 

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 6982 [António Augusto Quaresma / PT-TT-PIDE-E-001-CX06_m0178, m0178a].
ANTT, Registo Geral de Presos / 192 [António Augusto Quaresma / PT-TT-PIDE-E-10-1-192_c0416].
ANTT, Fotografia 2554 [António Augusto Quaresma / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0014].

[João Esteves]

quarta-feira, 6 de junho de 2018

[1829.] LUÍSA RODRIGUES [III]

* LUÍSA RODRIGUES (1903 - 1960) || MILITANTE COMUNISTA NAS DÉCADAS DE 1930, 1940 E 1950 || PRESA EM 1936 E 1949 *

[Luísa Rodrigues || 1942 || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 27, registo nº 5322, PT/TT/PIDE/E/010/27/5322 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Operária e militante comunista nas décadas de 1930, 1940 e 1950. 

Filha de Maria Rosa e de Marçalo Rodrigues, Luísa Rodrigues nasceu em 7 de Março de 1903, em Lisboa - Freguesia de Santa Isabel.

Residia na Rua de São Ciro, 42, 4.º Dto, quando foi presa em 21 de Novembro de 1936, juntamente com Susana Mendonça dos Santos, acusada “de fazer propaganda subversiva e haver a suspeita de ter distribuído panfletos clandestinos nas oficinas da fábrica onde trabalha”, sendo “conhecida como pessoa de ideias avançadas, chegando a cantar a Internacional e mais versos comunistas, na oficina onde é operária” [ANTT, Cadastro Político 8807].

Levada para a 1.ª Esquadra no dia 23, foi transferida para o regime de incomunicabilidade em 5 de Dezembro de 1936, passou para a 1.ª Esquadra da PSP em 14 de Dezembro e, em 19 de Dezembro, seguiu para a Cadeia das Mónicas em 19 de Dezembro, onde permaneceu cerca de 4 meses, até ser libertada, tal como Susana Mendonça Rodrigues, em 12 de Abril de 1937 [ANTT, RGP/5322; Processo 1757/936]. 

[Luísa Rodrigues || 1942 || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 27, registo nº 5322, PT/TT/PIDE/E/010/27/5322 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Ter-se-á tornado funcionária do Partido Comunista por volta de 1942 [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política, Vol. 2, Lisboa, Temas e Debates, 2001, p. 640]. 

Escassos anos depois, era companheira de casa de Manuel dos Santos, operário comunista conhecido pelo “pequeno Dimitrov” [03/02/1914 - 25/10/1947], condenado nos anos 30 a 22 anos de prisão e fugido do Limoeiro em Setembro de 1944, após 12 anos em várias prisões, morrendo na clandestinidade com apenas 33 anos. 

Em 20 de Junho de 1945, quando usava o pseudónimo “Laura”, abandonou a tempo, com aquele, a casa-tipografia de Ermesinde assaltada pela PIDE. 

Novamente presa em 10 de Fevereiro de 1949, em Macinhata do Vouga, Sever do Vouga, na casa clandestina que partilhava com Militão Bessa Ribeiro [13/08/1896 - 02/01/1950], tendo este conseguido, temporariamente, escapar, enquanto Luísa Rodrigues, que usava o pseudónimo “Maria”, destruía documentação. 

Levada para a sede da PIDE do Porto e acusada de pertencer ao Partido Comunista Português, recusou prestar quaisquer informações apesar de "forçada a estar 4 dias e meio sem comer nem beber” [Avante! N.º 134]. Um mês depois, assistiu à chegada às mesmas instalações de Álvaro Cunhal [10/11/1913 - 15/06/2005], Militão Ribeiro e Sofia Ferreira [01/05/1922 - 22/04/2010], tendo os seus constantes gritos contribuído para que se soubesse daquelas prisões. 

[Luísa Rodrigues || 1942 || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 27, registo nº 5322, PT/TT/PIDE/E/010/27/5322 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Atendendo ao estado de saúde em que Sofia Ferreira reencontrou Luísa Rodrigues, exigiu assistência médica e tentou dar-lhe apoio moral através de um bilhete, entretanto descoberto. Em entrevista a Antónia Balsinha, datada de 30 de Maio de 2000, aquela refere que “o estado da minha amiga era tão grave que a PIDE acabou por a libertar sem processo” [Antónia Balsinha, As Mulheres de Alhandra na Resistência. Anos quarenta, século XX, Porto, Editora Ausência, 2005, p. 203]. 

Libertada em 9 de Maio de 1949, o número de Setembro do Avante! denunciava que tinha sido torturada até à loucura.    

[PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 27, registo nº 5322, PT/TT/PIDE/E/010/27/5322 || "Imagem cedida pelo ANTT"]
              
Faleceu em 1 de Dezembro de 1960, com 57 anos de idade. 
                 
Referenciando-a como companheira de Militão Ribeiro, o Avante! de Janeiro de 1961 sublinhou que o assassinato do companheiro pela PIDE e a saúde fortemente abalada pela prisão, martirizou toda a sua existência [Avante!, N.º 296].

[Desenho de António Domingues, in José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política – O Prisioneiro (1949-1960), Vol. 3, Lisboa, Temas e Debates, 2005]

António Domingues assinou, em 1954, um desenho onde a retratou com um ar acusador e o braço esquerdo levantado, tendo umas grilhetas quebradas na mão, o qual foi publicado por Pacheco Pereira no III volume dedicado à biografia política de Álvaro Cunhal.

Feminae - Dicionário Contemporâneo, editado pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género em 2013, inseriu a sua biografia.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 8807 [Luísa Rodrigues / PT-TT-PIDE-E-001-CX13_m0341].
ANTT, PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos/5322 [Luísa Rodrigues / PT-TT-PIDE-E-010-27-5322].

[João Esteves]

terça-feira, 5 de junho de 2018

[1828.] SUSANA MENDONÇA DOS SANTOS [II]

* SUSANA MENDONÇA DOS SANTOS || PRESA EM 1936 E 1942 || UMA FAMÍLIA NAS PRISÕES POLÍTICAS DO FASCISMO: MÃE E TRÊS IRMÃOS *

[Susana Mendonça dos Santos || 1942 || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 27, registo nº 5323, PT/TT/PIDE/E/010/27/5323 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Operária costureira, militante comunista.

Filha de Elvira Mendonça [n. 01/08/1883] e de António Luís dos Santos, Susana Mendonça dos Santos nasceu em 29 de Março de 1909, em Lisboa - S. Mamede.

Tal como a mãe e os irmãos André [n. 21/01/1910] e Manuel dos Santos [1914? - 25/10/1947], operário comunista conhecido pelo “pequeno Dimitrov” condenado nos anos 30 a 22 anos de prisão e fugido da Penitenciária de Coimbra em Setembro de 1944, com a saúde muito debilitada, morrendo na clandestinidade, manteve intensa actividade política nas décadas de 30 e de 40, conhecendo também ela a prisão por mais de uma vez.

Detida em 21 de Novembro de 1936 pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado/Secção Política e Social, com Luísa Rodrigues [07/03/1903 - 01/12/1960], de quem era colega de fábrica, acusada “de fazer propaganda subversiva e haver a suspeita de ter distribuído panfletos clandestinos nas oficinas onde trabalhava" [ANTT, Cadastro Político 8806; Processo 2210/SPS].

Transferida para o regime de incomunicabilidade em 5 de Dezembro de 1936, passou para a 1.ª Esquadra da PSP em 14 de Dezembro e enviada para a Cadeia das Mónicas em 19 de Dezembro, sendo restituída à liberdade em 12 de Abril de 1937 [ANTT, RGP/5323; Processo 1757/936].

[Susana Mendonça dos Santos || 1942 || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 27, registo nº 5323, PT/TT/PIDE/E/010/27/5323 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Tornou a ser presa a 1 de Agosto de 1942. Transferida para a Inspecção de Coimbra no dia 5, regressou a Lisboa em 28 do mesmo mês, recolheu à 1.ª Esquadra e ingressou no Forte de Caxias em 15 de Setembro.

Julgada pelo Tribunal Militar Especial em 27 de Outubro de 1943, foi condenada a 1 ano de prisão correccional, dada por extinta, e saiu em liberdade em 22 de Novembro de 1943 [Processos 280/942 e 1493/42, do TME].

O jornal Avante! da primeira quinzena de Março de 1943, a propósito de novo julgamento do irmão Manuel dos Santos, informava que, para o pressionarem a fazer declarações, o regime fascista tinha condenado “a sua mãe «como jovem comunista» [?] a dois anos de prisão [...] e a sua irmã Susana no Tribunal Militar Especial a muitos meses de prisão” , preparando-se para “sujeitá-lo a novo julgamento em Tribunal Militar Especial ao lado de sua irmã bastante doente” [Avante!, Nº 28]. 

[Susana Mendonça dos Santos || 1942 || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 27, registo nº 5323, PT/TT/PIDE/E/010/27/5323 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

O mesmo periódico clandestino denunciou, entre 1935 e 1947, a repressão policial que afectava quotidianamente a família daquele preso comunista, acusando de “prenderem, condenarem e assassinarem sua mãe”, ao detê-la em Fevereiro e Março de 1936, “como elemento de ligação entre ele e os seus camaradas” [“Salvemos Manuel dos Santos”, Avante!, Série II, Nº 20, Agosto de 1936, p. 2] e cuja condenação a dois anos de prisão “arruinaram o seu organismo depauperado pela miséria” [“Nos Tribunais Fascistas – Novo julgamento de Manuel dos Santos”, Avante!, Série VI, Nº 28, 1.ª Quinzena de Março de 1943, p. 2, col. 2].

Sendo Susana Mendonça dos Santos colega de fábrica e correlegionária de Luísa Rodrigues, não terá sido por acaso que o irmão Manuel dos Santos foi viver clandestinamente com esta quando fugiu da prisão, já muito doente, em 1944, falecendo três anos depois. 

Em tempos sombrios, em que muitos se calaram, pactuaram ou resignaram-se, esta família de origem modesta e operária mereceria, como muitas outras, um estudo mais aprofundado e enquadrado no contexto político e sócio-económico da época.

Feminae - Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013] incluiu uma nota biográfica de Susana Mendonça dos Santos, sendo agora corrigidos e actualizados alguns dos dados ali inseridos.

[PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 27, registo nº 5323, PT/TT/PIDE/E/010/27/5323 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 8806 [Susana Mendonça dos Santos / PT-TT-PIDE-E-001-CX15_m0501].
ANTT, PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos/5323 [Susana Mendonça dos Santos / PT-TT-PIDE-E-010-27-5323].

[João Esteves]

segunda-feira, 4 de junho de 2018

[1827.] ARMINDO FAUSTO CARDOSO DE FIGUEIREDO [I]

* ARMINDO FAUSTO DE FIGUEIREDO || PRESO EM 1932, CONDENADO A DOIS ANOS, FOI MANTIDO SUCESSIVAMENTE PRESO ATÉ 1944, QUANDO FOI LIBERTADO DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL || ALJUBE, PENICHE, ANGRA DO HEROÍSMO, TARRAFAL *

[Armindo Fausto de Figueiredo || ANTT || RGP/187]

Estudar a Ditadura Militar e o Fascismo português implica estar atento a cada um daqueles que se lhes opuseram e reconstruir o percurso possível tantos anos depois. 

Embora cada nome comporte vivências diferentes, há matrizes comuns de luta, resistência, perseguições, violências policiais e prisionais, sofrimentos individuais e familiares. Vidas que mal tinham despontado e logo eram interrompidas. Por vezes, para sempre, mesmo quando sobreviviam. Vidas que o tempo foi devorando e silenciando.

O caso de Armindo Fausto Cardoso de Figueiredo é emblemático das arbitrariedades da justiça, dos governantes e do poderio das polícias políticas, quer da Ditadura Militar transmutada em Ditadura Nacional, quer do fascizante Estado Novo: condenado, inicialmente, a dois anos de degredo, acabou por cumprir doze anos de cativeiro, sendo que os oito últimos foram passados no Campo de Concentração do Tarrafal.

Filho de Rosalina de Matos Figueiredo e de Eduardo de Figueiredo, Armindo Fausto Cardoso de Figueiredo (ou Armindo Fausto de Figueiredo), terá nascido em 1910, no Porto.

Terá estado envolvido na jornada de luta preparada pelo Partido Comunista para o dia 29 de Fevereiro de 1932, que implicava o recurso a bombas, a qual acabou por não se realizar devido à prisão dalguns dos implicados. Nesse âmbito, colaborou com Carlos Duarte, Manuel Moor [RGP/8793] e Nobre Guerreiro, tendo guardado, em sua casa, seis daquelas bombas a serem utilizadas no Rego [Processo 460].

No entanto, só foi preso em 9 de Junho de 1932 à ordem da Secção de Vigilância Política e Social da Polícia Internacional, quando já era o soldado 309/32373 da 3.ª Companhia de Trem Hipomóvel, acusado de integrar a organização comunista da sua Unidade, tendo sido indicado a Manuel Augusto da Rosa Alpedrinha [RGP/137] por Jaime Tiago [RGP/76].

Em 11 de Agosto, por parecer do Director-Geral da Segurança Pública e concordância do Ministro do Interior, foi-lhe "fixada residência obrigatória em Timor ou em Cabo Verde" [ANTT, Cadastro Político 4610].

[Armindo Fausto de Figueiredo || ANTT || RGP/187]

Julgado pelo Tribunal Militar Especial de Lisboa em 15 de Julho de 1933, foi condenado a dois anos de degredo, "ficando depois à disposição do Governo" [Processo 32/933, TME de Lisboa].

Enviado para o Aljube em 22 de Novembro de 1934, foi transferido para Peniche em 19 de Dezembro e aí permaneceu até 20 de Março de 1935. 

Regressou ao Aljube e, em 22/23 de Março de 1935, embarcou a bordo do vapor Carvalho de Araújo com destino à Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo.

Em Julho de 1935, Armindo Fausto de Figueiredo requereu ao Ministro do Interior a sua libertação, "em virtude de haver terminado a pena a que havia sido condenado" [ANTT, Cadastro 4610].

Em 12 de Agosto de 1935, entrou na Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, "vindo do Comando Militar dos Açores, um requerimento do epigrafado, em que este continua a insistir pela sua libertação", tendo sido respondido "que o epigrafado, por sentença do Tribunal, deve ser entregue ao Governo depois de cumprida a pena, não havendo qualquer vantagem para o Estado no seu regresso" [ANTT, Cadastro 4610].

Por despacho do Ministro do Interior, de 16 de Agosto, foi indeferida a libertação de Armindo Fausto de  Figueiredo, continuando este em Angra do Heroísmo.

Mesmo quando o Tribunal Militar Especial de Lisboa pediu que Armindo Fausto de Figueiredo fosse transferido para a capital, a fim de ser submetido a novo julgamento, a PVDE continuou a dar "parecer desfavorável" quanto a essa pretensão. 

Em 31 de Julho de 1936, foi julgado pelo Tribunal Militar Especial reunido em Angra do Heroísmo.  Acusado dos acontecimentos reportados a 1932, seria condenado "na pena de seis meses de prisão correccional, dada por expiada com a prisão sofrida, e na perda dos direitos políticos por cinco anos" [Processo 14/933, do TME].

Nem desta vez o jovem Armindo Fausto de Figueiredo será libertado, apesar do telegrama de 4 de Agosto de 1936 enviado dos Açores pelo Presidente do Tribunal à PVDE, mandando "por o epigrafado em liberdade, em virtude de haver terminado a pena". A resposta da SPS da PVDE foi que "no caso de ser determinado o regresso, no que não há qualquer vantagem, fica à ordem do Governo em cumprimento da sentença do TME de 1933" [ANTT, Cadastro 4610].

Uma semana depois, em 11 de Agosto, a PVDE recebe o mandado de soltura datado de 1 de Agosto e emanado pelo TME em Angra do Heroísmo, "ao qual não foi dado cumprimento em virtude de o epigrafado estar à ordem do Governo conforme determina a sentença lavrada pelo Tribunal em sua sessão de 15-7-933".

Em 23 de Outubro de 1936, Armindo Fausto de Figueiredo integrou a primeira leva de presos políticos enviada para o Campo de Concentração do Tarrafal, de onde só regressou em 1 de Outubro de 1944 e libertado no dia 9 do mesmo mês.

Condenado, primeiro, a dois anos e, depois, a mais seis meses, Armindo Fausto de Figueiredo esteve mais de doze anos preso, sendo que cerca de dez foi por intervenção directa da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado - PVDE, sobrepondo-se ao TME.

[Armindo Fausto de Figueiredo || ANTT || RGP/187]

Preso enquanto Soldado, havendo três fotografias suas fardado, nesta Ficha do Registo Geral de Presos aparece identificado como empregado no comércio, provavelmente a profissão que exerceria anteriormente.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 4610 [Armindo Fausto Cardoso de Figueiredo / PT-TT-PIDE-E-001-CX07_m0352, m0352a, m0352b, m0352c].
ANTT, Registo Geral de Presos / 187 [Armindo Fausto de Figueiredo / PT-TT-PIDE-E-10-1-187_c0406].
ANTT, Fotografia 1946 [Armindo Fausto Cardoso Figueiredo / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903_m0026].
ANTT, Fotografia 2653 [Armindo Fausto Cardoso de Figueiredo / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0020].

[João Esteves]