[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

sexta-feira, 20 de julho de 2018

[1846.] GAZETA LITERÁRIA [I] || INVERNO 2017

* GAZETA LITERÁRIA || 01 - INVERNO 2017 || ASSOCIAÇÃO DOS JORNALISTAS E HOMENS DE LETRAS DO PORTO *

Quarenta e oito anos depois, a Gazeta Literária, órgão oficial da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, está de volta, iniciando-se a 5.ª Série com um número integralmente dedicado a Óscar Lopes, "uma espécie de estudante vitalício", como escreve Francisco Duarte Mangas em "A Memória e o Porvir".

Nos cem anos de Óscar Lopes, "é evocado por antigos alunos, por amigos, por companheiros universitários, por camaradas de partido, por poetas, por leitores da sua obra" e "Pelo filho, Sérgio Lopes", publicando-se, ainda, "vários documentos inéditos, como as suas leituras anotadas a lápis de poemas de António Ramos Rosa, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Herberto Helder e Sophia de Mello Breyner Andresen" [Francisco Duarte Mangas].






[Gazeta Literária || N.º 1 || Inverno 2017 || Edição: Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto || Director e Editor: Francisco Duarte Mangas]

[1845.] SÓNIA TELES E SILVA [I]

* SÓNIA TELES E SILVA || DESENHO

PORTO || JARDINS DA CORDOARIA


quinta-feira, 19 de julho de 2018

[1844.] CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO [III]

* CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO || O EXÍLIO NO BRASIL [PARTE II] *

[Carlos Luís Correia Matoso e Raimunda Mirtes || Maio de 1949 || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"A PARTIDA"

"Esse é um capítulo a parte. Na época sua filha estava com 7 anos, e no dia 3 de março de 1959, Carlos Luis saiu de casa como um dia comum de trabalho, só que o destino seria outro. Hotel Quitandinha, Petrópolis. Alguns detalhes não são bem claros, como por exemplo, se ele deu entrada como hospede ou simplesmente se dirigiu a alguma galeria e praticou seu desfecho. Na época, no seu auge, o Quitandinha chegou a empregar 1.500 pessoas. Foi neste cenário que durante um curto período de esplendor, o hotel teve grandes personalidades brasileiras e internacionais desfilando por suas dependências... Políticos como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart... Entre os Artistas contratados para os shows em sua Boate, estiveram ali: Carmen Miranda, Grande Otelo, Oscarito, Emilinha Borba, Marlene, a vedete Virgínia Lane e outros ídolos do rádio como Orlando Silva, Carlos Galhardo, Cauby Peixoto, Mário Reis e Nelson Gonçalves. O elenco da Atlântida, produtora que realizou ali várias filmagens, também costumava aparecer: Oscarito, Cyl Farney, Anselmo Duarte, Dick Farney, Eliana Macedo, Adelaide Chiozzo, José Lewgoy, Ankito e Zezé Macedo estavam entre eles."

[Hotel Quitandinha, local onde Carlos Matoso teve seus últimos momentos em vida]

"A VIDA CONTINUA"

"Raimunda Mirtes e sua filha ainda moraram no Rio de Janeiro até o meio do ano, quando então regressaram para Fortaleza para Maria Tereza terminar seus estudos perto da família de sua mãe. Carlos Luís foi sepultado em Petrópolis mesmo.

Para Maria Tereza, sobrou um rascunho de umas vidas que poderiam ter sido preenchidas páginas com muitos momentos inesquecíveis ao lado de seu pai. Pouco ela sabia sobre sua vida passada. Aos 18 anos ela tomou conhecimento de que ele havia tirado a própria vida, onde até aquele momento, achava que seu pai havia tido um ataque fulminante e não teria resistido. Uma carta foi deixada por ele e nela continha seu desejo de nunca revelar para a filha seu real desfecho. Mas Maria Teresa aos poucos foi percebendo que ali havia muito mais do que um ataque cardíaco."

[Maria Tereza ao lado de sua mãe Raimunda Mirtes em visita ao túmulo de seu pai, em Petrópolis || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"RELATOS DE UMA VIDA"

[Carlos Matoso, Agosto de 1932 || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues] 

"Alguns relatos de sua vida passada foram contados por sua mãe, repetindo as palavras de Carlos Luís, como por exemplo, a existência de uma irmã chamada Helena. A única notícia que se tinha dela era que a mesma vivia na Rússia, mas nada além disso. Maria Tereza não sabia nem o nome da mãe de Helena, até o dia que mantive contato com você. Carolina Loff só foi mencionada poucas vezes para Raimunda Mirtes, mas sem nunca ser pronunciado seu nome. [...] Sabe-se que Carlos Luís tinha conhecimento da filha, a qual a procurou por incansáveis 15 anos pós sua saída da cadeia, mas só o que lhe era revelado seria que a mesma havia morrido. Mesmo assim continuou a procura-la com a ajuda do seu irmão, o qual aproveitando sua influência da época, por seu prestígio de ser casado com uma Pinto Souto Maior e abertura na marinha Portuguesa. Mesmo com todos esses benefícios, não foi conseguido pista alguma da filha. Hoje, sabendo um pouco mais sobre Carolina Loff, podemos deduzir as dificuldades de uma época de guerra e as constantes mudanças de locais de Carolina e as tentativas de proteger inclusive a filha dos perigos em que se mantinha com suas ações, era praticamente impossível saber qualquer coisa sobre ambas, inclusive pelas constantes mudanças de nomes da própria Carolina. Tudo que Carlos queria era a filha, a qual inclusive foi registrada como Matoso.

"LEMBRANÇAS"

"Após esse tempo, já no Brasil e o nascimento de Maria Tereza, Carlos Luís recebeu uma carta com a foto da filha Helena e um pedido para que ele ficasse com a garota, que na época tinha 15 anos. Carlos Luís surpreso e com muita mágoa, pois para ele lhe foi escondida todos esses anos, não deu importância à carta e que ali seguiria sua vida.

[Modelo Mercury semelhante ao que tinha Carlos Luís na época]

"Helena veio a aparecer após a morte do pai, através de procuração, reivindicando sua parte em herança. Por conta disso e da burocracia da época, o inventário de Carlos Luís Matoso só veio a sair 9 anos depois. Pouca coisa ele tinha em vida. Um carro importado "Mercury"e algumas ações. O imóvel em Ipanema na época era alugado. Nada mais além disso. As duas irmãs nunca se viram. Ela acha que a diferença de idade entre as duas é de 15 anos, mas não com toda certeza. Mas um fato curioso: ambas já estiveram na rua da Vila do Bispo, a qual foi nomeada de Rua Carlos Luís Correia Matoso. Mesmo lugar em momentos diferentes."

[Rua Carlos Luís Correia Matoso - Vila do Bispo]

"Bom, o certo é que Carlos Luís tinha muito para lamentar. Ele sempre demonstrou uma mágoa tremenda com seus pais nativos. Lutava por um Portugal mais justo e igualitário, mas trouxe muitas cicatrizes no corpo e na alma. Mas agora, depois dos relatos que me enviaste, sentimos um pouco de sua dor. O fato que mostrou quando no regresso de Carlos Luís a Portugal, ele foi preso pela policia federal assim que desembarcou, sua filha Maria Teresa estava com ele. No momento com 5 anos e iria completar 6 anos, e que, por incrível que pareça, ela se lembra com detalhes do momento. Aquela cena marcou para sempre. Foi também na frente de sua mãe Lia (Elisa). Essa responsável pelas inúmeras transferências de cadeia que Carlos Luís teve em sua vida carcerária. Como ele era preso incomunicável, a mãe não parava de procurá-lo e todas as vezes que o achava o transferiam, até à ida para o Tarrafal. Não tem como a pessoa sair a mesma depois de passar por tudo isso. Isso é certo."

[Foto com a família de seu irmão José Francisco em visita a Portugal com esposa e filha || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues] 

[Momento em que foi festejada sua chegada a Portugal ao lado de sua mãe e esposa, horas após ser solto de uma prisão logo que desembarcou || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"HERANÇA"

[Roberto Haroldo Sampaio e Maria Teresa || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"Maria Tereza se casou com Roberto Haroldo Sampaio, médico anestesista, homem muito bom e íntegro, o qual tenho certeza que Carlos Luís teria orgulho em conhecer. Tiveram três filhos: Juliano, Carlos Eugênio e Rafaela Matoso. Hoje todos casados e com filhos. Juliano é o que mais se parece fisicamente com Carlos Luís. Bisnetos de Carlos Luís são 5: luri (18 anos) e Ian (14 anos), filhos de Carlos Eugênio; Maria Júlia (6 anos), filha de Juliano; Benjamin (6 anos) e Maria Tereza ( 1 ano e 7 meses), filhos de Rafaela Matoso, essa minha esposa. Eu me chamo Rodney de Castro e estou na família há 18 anos (9 de casado) e sempre me interessei pela história de Carlos Luís. Em Portugal, mesmo na família de José Francisco, irmão de Carlos, a qual temos contato, não se fala muito sobre a história."

[Eu, minha esposa Rafaela e nossos filhos Benjamin e Maria Teresa || Fotografia de Rodney de Castro Rodrigues]

"Me restou procurar em fontes e saber um pouco mais através da internet. Não posso dizer que sua vida no Brasil foi feita com grandes êxitos. Acredito que ele deveria ter se dado uma chance a mais, mas não sabemos o quanto eram fundas suas feridas. O certo é que ele deixou uma filha maravilhosa e que construiu uma família incrível e que tenho orgulho de fazer parte. Tenho certeza que Carlos Luís estaria feliz em ver o caminho que cada um deles trilhou, carregando no sangue a integridade, inteligência e honra no qual sabemos que ele foi."

Rodney de Castro Rodrigues, 14 de julho de 2018

"MEMÓRIAS"

 [Carlos Luís Matoso]

[Sr. José Matoso, pai de Carlos Luís]

 [Carlos Luís, Raimunda Mirtes e M. Tereza]

 [Carlos Luís, Raimunda Mirtes e M. Tereza]

[Batisado de Maria Tereza]

[Carlos Luís com M. Tereza no colo]

[Sr. José Matoso]

 [Sra. Elisa Correia]

[Sr. José Matoso e Sra. Elisa Correia]

[Fotografias da Família, cedidas por Rodney de Castro Rodrigues e enviadas em 14 de Julho de 2018]

NOTA: O meu reiterado obrigado a Maria Tereza Matoso Sampaio, a Rafaela Matoso e a Rodney de Castro Rodrigues por este comovente Tributo à Memória de Carlos Luís Correia Matoso.

[João Esteves]

[1843.] CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO [II]

* CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO || O EXÍLIO NO BRASIL [PARTE I] *

Carlos Matoso foi um importante militante comunista na década de 30. Preso em 11 de Maio de 1938, foi deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde sofreu inenarráveis violências.

Regressado a Portugal em Janeiro de 1946, exilou-se no Brasil, onde constituiu família e acabaria por se suicidar em 3 de Março de 1959.

[Carlos Matoso || Fotografia do Passaporte cedida por Rodney de Castro Rodrigues] 

Os tempos de exílio deste "homem honrado" [Armindo Rodrigues] são aqui evocados através de sua filha Maria Tereza Matoso Sampaio, mediante recolha do genro Rodney de Castro Rodrigues, a quem muito se agradece o generoso empenho na disponibilização de informações, documentos e fotografias de Carlos Luís Correia Matoso para que a sua Memória seja preservada. Pelos seus, que não o esquecem, e pelo País que tarda em reconhecer aqueles que combateram a Ditadura e viram, em muitos casos, as suas vidas aniquiladas para sempre.

 
[Carlos Matoso aos 4 e sete anos de idade || Fotografias da Família, cedidas por Rodney de Castro Rodrigues] 

"Quem narra todos os fatos para mim é a filha Maria Tereza Matoso Sampaio, filha a qual Carlos Luis teve com Raimunda Mirtes Soares aqui no Brasil quando veio em exílio. As memórias são de uma garota que viveu com seu pai até seus 7 (hoje com 66 anos) antes de sua partida inesperada (suicídio) e dos poucos relatos de sua mãe, a qual pouco comentava para não trazer à tona mais tristeza" [Rodney de Castro Rodrigues, 14 de Julho de 2018].

"VINDA AO BRASIL"

"Acredita-se que Sr. Carlos Luís Matoso veio ao Brasil logo após sua saída do Campo de Concentração do Tarrafal, a mando de seu irmão [...] o Sr. Comandante José Francisco. Casado com única herdeira do banco Pinto Souto Maior, ele estava à frente de todas as empresas: Homem com muitas posses, [...] tinha negócios no Brasil e o Sr. Carlos Luís veio como caixeiro viajante, comercializando produtos da empresa do irmão por todo o Brasil."

[Carteira de trabalho do comércio do Rio de Janeiro || 1954 || Documentos da Família, cedidas por Rodney de Castro Rodrigues]

"FORTALEZA"

"Em Fortaleza, onde tinha muitos amigos portugueses e comerciantes, e sempre estava a vender mercadoria para eles. Certa vez estava ele passeando pelo parque das crianças à noite, não se sabe ao certo a época, mas pouco tempo que aqui havia chegado, conheceu Raimunda Mirtes. O local era ponto de encontros e passeios, inaugurado em 1810, antes conhecido como Parque da Liberdade. O destino dos dois estava traçado e pouco depois de três meses foi a casa da já então namorada, pedir a sua mão em casamento para a mãe de Raimunda. Casaram-se e moraram por um ano em Fortaleza. Após isso moraram por um tempo em Salvador, Bahia, e após esse período, seu irmão José Francisco o levou para São Paulo já com um cargo de maior destaque dentro da empresa Casas Souto Maior."

[Carlos Luís, Raimunda Mirtes e esposa de José Francisco, Elsa Souto Maior || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"MARIA TERESA"

"Alguns meses depois, Raimunda Mirtes já gravida de 8 meses da pequena Tereza, seu cunhado José Francisco chamou-a e perguntou: Mirtes, você prefere que sua filha venha a nascer carioca ou paulista? Ela prontamente respondeu: Onde é que você quer que a gente vá? Diga e iremos. José Francisco explicou os planos e em comum acordo partiram para o Rio de Janeiro, mais precisamente em Ipanema, até hoje um dos melhores e mais valorizados bairros da cidade. Ali nasceu Maria Tereza Soares Matoso."

 [Carlos Luís e a filha Maria Tereza]

 
[Carlos Luís, Raimunda Mirtes e a filha Maria Tereza || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

"GAROTA DE IPANEMA"





[Carlos Luís e a filha Maria Tereza || Fotografia da Família, cedida por Rodney de Castro Rodrigues]

[Continua...]

NOTA: O autor deste Blogue agradece, muito sensibilizado, a Maria Tereza Matoso Sampaio, filha de Carlos Luís Correia Matoso), à neta Rafaela Matoso e a Rodney de Castro Rodrigues, marido de Rafaela, a confiança de poder disponibilizar esta Homenagem a um Homem de respeito e cuja história de vida merece ser (re)conhecida.

[1842.] CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO [I]

* CARLOS LUÍS CORREIA MATOSO (1908 - 1959) || ALJUBE || CAXIAS || PENICHE || CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL *

Carlos Matoso foi um relevante militante do Partido Comunista na década de 30, tendo sido deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal em 1939, onde foi vítima de inenarrável violência e assistiu ao falecimento do seu camarada Bento Gonçalves. 

Regressou em 10 de Janeiro de 1946, “acabrunhado, tristonho, perdida a sua magnífica exuberância antiga" [Armindo Rodrigues], e exilou-se no Brasil, onde constituiu família e se suicidou em 3 de Março de 1959.

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Elisa Correia Dias Matoso e de José Matoso, nasceu em 15 de Julho de 1908, em Vila do Bispo – Algarve.

Estudante de Agronomia, aderiu à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, onde foi um importante quadro, juntamente com Carolina Loff da Fonseca, Edmundo Pedro, Francisco Paula de Oliveira (Pável), Fernando Quirino, Francisco Ferreira, Gilberto Florindo de Oliveira, Grácio Ribeiro, Manuel Rodrigues de Oliveira, Pedro Baptista da Rocha e Victor Hugo Velez Grilo.

Desempenhou, durante a década de 1930, actividade muito relevante no seio do Partido Comunista Português, tendo trabalhado, entre outros, com Bento Gonçalves, seu Secretário-Geral.

Fez parte do grupo que preparava acções para o 1.º de Maio e 1932, com recurso ao uso das bombas.

Terá sido preso em 24 de Abril, quando as experimentavam na Serra de Monsanto, juntamente com Abel Augusto Gomes de Abreu (gráfico da Casa da Moeda), António Franco Trindade, Álvaro Augusto Ferreira, Eduardo Valente Neto (marítimo), João Lopes Dinis (canteiro, faleceu no Tarrafal em 12/12/1941), Manuel Francisco da Silva (pedreiro) e Silvino Fernandes Costa (ajudante de farmácia).

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Em 1933 ou 1934, nasceu-lhe a filha Helena, fruto da sua relação com Carolina Loff. Esta e a filha recém-nascida partiram para a União Soviética, onde chegaram em Abril de1935, tendo Helena sido recolhida na escola internacional de Ivanovo.

Julgado à revelia pelo Tribunal Militar Especial em 20 de Outubro de 1934, foi condenado a dez anos de prisão no degredo e multa de vinte mil escudos, ficando, depois, à disposição do Governo.

Depois de andar anos na clandestinidade e procurado, foi preso pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) em 11 de Maio de 1938, aquando do assalto nocturno a uma tipografia clandestina, no Rego [Processo 562/938, enviado ao TME em 01/09/1938].

Levado para uma Esquadra incomunicável, entrou no Aljube em 3 de Agosto. Transferido, no dia 10, para uma Esquadra, tendo regressado ao Aljube em 23 e enviado para Caxias em 26 do mesmo mês.

Em 27 de Setembro, novamente transferido para uma Esquadra (a 1.ª) e, dois dias depois, seguiu para o Reduto Norte de Caxias, tendo sido enviado para Peniche em 1 de Novembro.

Voltou ao Aljube em 22 de Março de 1939.

Julgado pelo Tribunal Militar Especial em 10 de Maio de 1939, viu a pena de 20 de Outubro de 1934 ser agravada para doze anos e perda dos direitos políticos por cinco anos.

Em 20 de Junho de 1939, integrou a 6.ª leva de presos políticos enviada para o Campo de Concentração do Tarrafal, juntamente com Alberto Araújo e Augusto Valdez, de onde só foi libertado em 20 de Dezembro de 1945.

No Tarrafal, foi, como muitos outros presos, vítima de inenarrável violência, tendo assistido ao falecimento de Bento Gonçalves, que há muito conhecia e com quem militara no Partido Comunista: “Carlos Matoso ao notar aquela imobilidade, aquela qualquer coisa que logo nos fazia distinguir a vida da morte; pegou num pequeno espelho e aproximou-o à boca de Bento Gonçalves. Já não havia sopro de vida, e Carlos Matoso não pode conter toda a sua mágoa e toda a sua revolta. // - Assassinos! // O capitão Olegário fitou-o demoradamente e não tardou que o chamasse à secretaria para o esbofetear” [Tarrafal – Testemunhos, 1978].

Regressou em 10 de Janeiro de 1946: “Vinha acabrunhado, tristonho, perdida a sua magnífica exuberância antiga” [Armindo Rodrigues, Um poeta recorda-se, p. 223].

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

No Campo de Concentração, integrou o núcleo dirigente Organização Comunista Prisional do Tarrafal, juntamente com outros membros do Comité Central, alguns dos quais haviam tinham pertencido ao seu Secretariado, como Alberto Araújo, Francisco Miguel, Júlio Fogaça, Manuel Alpedrinha, Miguel Wager Russell e Militão Ribeiro.

No seu livro Um poeta recorda-se – Memórias de uma vida, o médico e poeta Armindo Rodrigues, amigo de convívio diário de Carlos Matoso durante a década de 30, tece-lhe os maiores elogios políticos, partidários e humanos:

Do Carlos Matoso nunca me adveio o menor perigo. Pelo contrário, quando o prenderam pela última vez, no assalto nocturno a uma tipografia clandestina, no Rego […] não disse uma palavra que pudesse comprometer-me” [p. 16].

“[…] homem honrado e inflexível” [p. 150].

 “Dos regressados da deportação, um era o meu amigo Carlos Matoso, a quem devo a mudez leal que a meu respeito manteve. Vinha acabrunhado, tristonho, perdida a sua magnífica exuberância antiga. E a breve trecho, por diligência do irmão rico, oficial da Aviação Marítima e genro único do banqueiro Soto Maior, emigraria para o Brasil” [pp. 223-224].

Exilado no Brasil, Carlos Matoso procurou reconstruir a sua vida e constituiu família: casou com 
Raimunda Mirtes Soares e do enlace nasceu Maria Tereza Matoso Sampaio. 

Em próximos postes, publicar-se-á o testemunho inédito, detalhado e comovente disponibilizado por Rodney de Castro Rodrigues, casado com a sua neta Rafaela.
  

[João Esteves]

sexta-feira, 13 de julho de 2018

[1841.] HELENA PATO [III]

* HELENA PATO || A NOITE MAIS LONGA DE TODAS AS NOITES (1926 - 1974) *

Na apresentação do livro na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, com Helena Pato, Manuela Espírito Santo, Júlio Machado Vaz, Fernando Mão de Ferro e uma plateia atenta e solidária que enchia a sala:


Decorridos 44 anos desde 25 de Abril de 1974, há a incómoda sensação, para não dizer certeza, que não se soube, ou não se quis, ainda, honrar devidamente a memória de todos os que, entre 1926 e 1974, combateram a Ditadura, muitos dos quais “viram as suas vidas aniquiladas para sempre” [p. 238], e lutaram pela Liberdade.

Por outro lado, não se procurou, de forma sistemática, valorizar a memória daqueles que lutaram e resistiram, sob as mais diversas formas, dando-lhes voz, preservando os seus testemunhos e publicitando-os.

Eis uma das razões porque A noite mais longa de todas as noites (1926 - 1974), de Helena Pato merece reflexão detalhada: fugindo à tentação autobiográfica, apesar das vivências pessoais que o suportam, ele devolve-nos a memória de um tempo prolongado de luta numa sociedade dominada pela miséria e conservadorismo retrógrado e subjugada pelo medo e repressão, incorporando na sua narrativa aqueles e aquelas que a foram acompanhando desde que, ainda menina, se mudou da Bairrada para Lisboa a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Há quem duvide. Há quem desconheça. Há quem tenha esquecido, mas “ainda vamos a tempo de lhes contarmos, na primeira pessoa, aquilo por que muitos de nós passaram” [p. 11]. Simultaneamente, uma obrigação para com os mais novos, os jovens; por outro, um contributo para a “História da noite mais longa de todas as noites” [p. 11] através de momentos da Resistência e Oposição à ditadura fascista que perdurou até 1974.

Com “uma escrita luminosa”, como Teresa Horta se lhe refere, entrecruzando memórias pessoais com a memória colectiva da luta contra o fascismo, Helena Pato descreve, em sessenta capítulos, o país atrasado e pobre, dominado pelo medo da PIDE, mas onde sobressai a capacidade de resistência daqueles que foram dizendo NÃO, as solidariedades que só o combate político comportava, as pequenas alegrias do dia-a-dia, o saborear de cada momento, retirando daquele a felicidade improvável: “dias em que, apesar de tudo isso, fomos incomensuravelmente felizes” [p. 240]. 

Está-se perante um livro depurado de uma Cidadã e Resistente Antifascista, sem se enveredar por quaisquer “menções «gratuitas» de carácter estritamente pessoal” [p. 12]. Um testemunho “coerente”, “lúcido” e “corajoso”, como evidencia Maria Teresa Horta no texto inicial, onde o leitor acompanha a progressiva consciencialização das desigualdades sociais, até à intervenção associativa e política a partir de 1956, ano da entrada na Faculdade de Ciências, e que culmina no 25 de Abril de 1974.

Se o “MEDO”, “dezenas de anos a ter medos” [p. 12], “um medo latente, que atravessava toda a sociedade”, e a PIDE, ambas palavras com “quatro letras que marcaram o passado dos portugueses” [p. 13], cruzam a narrativa, “também com quatro letras se escreve LUTA” e “a luta exigia sempre superar o medo e fazer face à PIDE” [p. 13]. Não um Medo, mas vários Medos: da PIDE; das denúncias; de se ser escutado; da prisão, associada sempre à tortura e ao medo de falar - “houve companheiros que fraquejaram nos interrogatórios da Polícia” [p. 61]; dos “bufos”. 

Eles estavam entre nós” [p. 14]: nos cafés; nas tabernas; ao pé e, parados, ao longe; nas paragens do autocarro; nos transportes; ao balcão de qualquer estabelecimento; num escritório ou sala de espera; entre os professores, sem que nada o fizesse prever.

Um episódio. quando Helena Pato consultou, na sequência do 25 de Abril, o seu dossiê que constava na PIDE/DGS, deparou-se com um cartão-de-visita de “um mestre, um poço de saber, uma doçura de criatura, um professor com quem trocava entusiasticamente ideias”, “um intelectual inteligente e culto, um homem bem-sucedido na vida, profissionalmente prestigiado, que não dava sinais de ser fascista ou, sequer, um situacionista”, dirigido a Silva Pais: “Muito obrigado, meu caro amigo, pelo favor prestado. Conforme prometido, seguem junto as informações que consegui recolher acerca da minha colega Maria Helena Pato” [pp. 227-228].

Mas também há o “situacionista com carácter”, neste caso o Director da Escola Nuno Gonçalves: “«Maria Helena, eles quiseram impedir que a aceitasse aqui como professora, mas eu apenas recebo ordens do Sr. Ministro da Educação. Procure gostar e compreender estes rapazes que vão ser seus alunos e conte sempre comigo para a ajudar»” [p. 193]. 

E quando, certo dia, “eles” se deslocaram à Escola, para terem “um breve esclarecimento consigo durante o intervalo”, Xavier Roberto dirigiu-se à sala de aula e avisou Helena Pato: “disse-lhes que hoje a menina não tinha aulas. Safe-se, safe-se já desta zona… E informo-a de que um deles vive na General Roçadas, aqui em frente.  Deu-me o braço e acompanhou-me até ao pátio. Surpreendeu-me com um beijo na testa e ficou a ver-me de longe” [p. 195].

Por isso, Helena Pato trata de reafirmar, mal o livro se desenrola, que “gosto de pessoas, aprecio-lhes a inteligência e exijo-lhes carácter” [p. 18].

“Eles” espiavam tudo e todos; escutavam os telefonemas; espiavam a correspondência; queriam saber o que se lia; com quem se falava: “Era com medo que eu acordava […] e era com medo que me deitava” [pp. 14-15]. Mas este MEDO que impregnava o quotidiano, não fazia com que se deixasse de lutar: “Não tínhamos recuo possível: lutar, lutar por todos os meios, em todas as frentes, lutar na esperança de que o regime teria um fim” [p. 161].

E assim, temos uma Helena Pato presente em muitas das lutas travadas a partir de 1957 (para não falar da petição, escrita aos oito anos e enviada ao Inspector Escolar, em defesa da sua Professora Primária, suspensa por a defender perante a prepotência da Directora – 30/10/1947): contra o Decreto-Lei 40.900, engrossando os milhares de estudantes que, de todo o país, se deslocaram à  Assembleia Nacional para exigir a sua revogação [16/01/1957]; as campanhas eleitorais de Arlindo Vicente e Humberto Delgado [1958]; o 1.º de Maio de 1962, com os polícias, que “pareciam drogados”, a reprimir violentamente os manifestantes, tendo as algibeiras atulhadas de pimenta para afugentar os cavalos da GNR; a crise académica de 1962, iniciada com a proibição do dia do Estudante e que levou à prisão, em 10 de Maio, de 1200 estudantes que tinham ocupado a Cantina Universitária, sendo transportados em autocarros da Carris e as raparigas, em crescendo nas fileiras da Oposição, “metidas, como sardinhas em lata, nos calabouços do Governo Civil – umas vinte por cada cela” [p. 58]; a fuga e partida para o Exílio, por denúncia da militância do marido [1962]; a viagem de comboio com o alentejano António José Piteira Júnior; e o “Exílio no Feminino”, onde a resistência assumia novas formas, até porque, “por Paris, as limitações à acção política dos exilados eram enormes. A polícia francesa seguia todos os nossos passos e a qualquer momento podíamos ser postos na fronteira” [p. 79]. 

Em Paris, “nem livre, nem exilada” [p. 101], onde as  dificuldades económicas foram muitas e os trabalhos duros, aprendeu com as divergências, dissidências e os conflitos, ainda que prevalecesse, sempre, a solidariedade entre os exilados; conviveu com intelectuais que ali tinham procurado refúgio, com destaque para Maria Lamas; conheceu os primeiros desertores e refractários da Guerra Colonial; desempenhou tarefas partidárias no âmbito do Partido Comunista, recolhendo assinaturas para abaixo-assinados a favor dos presos políticos ou participando no Fórum da Juventude de Moscovo, em 1964.

No regresso definitivo a Portugal, com o falecimento precoce de Alfredo Noales, com quem estava casada há menos de cinco anos, retomou a luta, envolvendo-se na primeira Comissão de Socorro aos Presos Políticos.

Presa em 14 de Junho de 1967, por incumprimento das regras de clandestinidade de quem a contactou, sofreu o isolamento e a tortura do sono: “mas foi em Caxias, aos vinte e muitos anos, que aprendi a deliciar-me com a observação de coisas insignificantes” [p. 133], numa busca incessante contra a solidão e procurando fugir “do que me deprimia ou de dar em doida”.

Na António Maria Cardoso, sujeita à tortura do sono, conseguiu arranjar um estratagema para “dormir” cinco segundos: “De olhos bem abertos, quando vinha em direcção à agente da PIDE […] mas adormecendo, logo que dava a volta, assim que lhe virava as costas e caminhava no sentido contrário. Seriam cinco segundos. Juro que adormecia de facto e que acordava no momento certo de me voltar de frente para a mesa e regressar” [p. 143].

E quando presa numa mesma cela com Lurdes, a Maria e o filho desta, que nem dois anos tinha e gritava o dia todo, “jamais dissemos a verdade, jamais quebrámos confidencialidades, jamais esclarecemos que actividades nos tinham levado, afinal, a Caxias. Andávamos de roda, guardando segredo do real motivo que ali nos conduzira: PCP uma, outra e outra, elas guardiãs corajosas das casas clandestinas e eu militante para o que desse e viesse e o partido quisesse” [p. 139].

Libertada ao fim de quase seis meses, sem acusação e sem nunca ter prestado quaisquer declarações, deu-se o regresso à luta, alimentada por encontros, piqueniques, convívios políticos, de forma a renovar “a energia revolucionária” que “nunca era um dado adquirido” [p. 128], envolvendo-se na construção do Movimento Democrático de Mulheres, em 1969 e, já professora, no Grupo de Estudos do Pessoal Docente (GEPDES). 

Mas um pilar deste livro, a par do MEDO, do retrato de um país pobre de enorme rigidez moral, e da LUTA, consiste num aspecto muito pouco referenciado e, talvez, secundarizado por outros testemunhos de resistentes e da resistência e que lhe dá um carácter único: o nunca abdicar de viver, tanto quanto possível, “os anos de oiro da juventude, das lutas, das paixões, das tasquinhas, do jazz e do fado” [p. 20] e em que todas as alegrias, as amizades, os amores, a família e os filhos constituem parte integrante da luta.

As reuniões, as sessões no Cineclube Universitário, os concertos da Juventude Musical, a frequência da Casa dos Estudantes do Império, os livros proibidos adquiridos na Livraria Escolar Editora, as exposições, os sábados dançantes, os bailes mais privativos, a audição das novidades musicais, o Hot Club, o Clube Universitário de Jazz de Lisboa, os convívios entre amigos, em que as relações pré-matrimoniais começavam a fazer o seu caminho… Tudo isto também era LUTA!

Com Alfredo Noales, e apesar dos riscos e responsabilidades políticas, “vivíamos felizes, com a facilidade com que se era feliz aos vinte e poucos anos” [p. 62], “com muito tempo e pouco dinheiro” [p. 63], em que a casa “era um espaço de alegria e de paz”, “com a opção consciente por caminhos mais ou menos clandestinos da luta antifascista” [p. 64].

Esta curta, mas intensa, felicidade, acabou, primeiro, pela traição que a desapossou “de uma parte sagrada da nossa juventude”: “O outro, de quem tanto quis esquecer o nome, o antifascista que traiu, talvez se tenha alegrado com a Revolução, mas não duvido que passou por um sofrimento prolongado” [p. 65].

Anos depois, a vida entregar-lhe-ia “um homem de eleição, bom e lúcido” [p. 166], há dias desaparecido, mas jamais esquecido: apesar de virada a página, “ficámos amigos, partilhando as grandes alegrias, as agruras da vida, conselhos e os nossos filhos” e em que “a luta pela preservação da memória do fascismo, pela Democracia e pelo socialismo, unir-nos-á para sempre” [p. 236].

Tal como Helena Pato tão bem nos descreve, a luta antifascista fez-se de dor, sofrimento e militância - “O que faria eu, a pedido de um camarada clandestino? Tudo” [p. 175] -, mas também de solidariedades, de amizades que marcaram cada tempo e ficaram para sempre, e de alegrias: pequenas e grandes: “Avançar na caminhada, com alegria e (sempre) a esperança de que o dia da vitória havia de chegar. Essa era a minha disposição” [p. 160].

E chegou. Com o 25 de Abril de 1974, o qual nunca teria chegado sem a luta, a dedicação, a abnegação, os sacrifícios de muitos e muitas resistentes como Helena Pato.

Por isso mesmo, “As vítimas (todas) merecem que lembremos simbolicamente o que a Pátria lhes deve. A História de Portugal tem que acolher com orgulho a memória dos combatentes pela Liberdade” [p. 239].

[João Esteves]

segunda-feira, 2 de julho de 2018

[1840.] JOSÉ MANUEL TENGARRINHA [VII]

* NA DERRADEIRA DESPEDIDA A JOSÉ TENGARRINHA *

[Fotografia retirada do Cartão de Estudante da Faculdade de Letras da UL, datado de 20 de Setembro de 1963 || in José Tengarrinha: o Passado que ilumina o futuro / Diálogo com José Jorge Letria, Guerra e Paz, 2015]

Quando os desígnios nacionais parecem confinar-se à glorificação, exaustiva, do efémero, as palavras de Viriato Soromenho-Marques na derradeira despedida a José Tengarrinha - sobre o Homem, o Cidadão, o Resistente libertado em 27 de Abril de 1974, o Político, o Democrata, o Constituinte, o Professor, o Investigador, o Amigo -, coroadas pelas de Margarida Tengarrinha – evocativas da fraternidade inabalável de uma vida -, mereceriam extravasar para outras audiências, nomeadamente as académicas, que só se enobreceriam com a afirmação da sua presença.

[João Esteves]

domingo, 1 de julho de 2018

[1839.] JOSÉ MANUEL TENGARRINHA [VI]

* JOSÉ TENGARRINHA || HISTÓRIA DA IMPRENSA PERIÓDICA PORTUGUESA || 1965 *

[José Tengarrinha || Portugália Editora || 1965]

Na cuidada e pouco conhecida Fotobiografia de Agostinho Fernandes - Um industrial inovador, um coleccionador de arte, um homem de cultura, Coordenada por José da Cruz Santos e Direcção Gráfica de Armando Alves (2000), José Manuel Tengarrinha testemunha a importância do proprietário da Portugália Editora e do seu projecto editorial ao acolher e dar voz a muitos dos intelectuais antifascistas perseguidos pelo fascismo português: "Quando saí da prisão em Janeiro de 1962 e fui expulso do ensino e do jornalismo, foi lá que tive acolhimento, passando a viver de traduções". 

Na inovadora "Colecção Portugália", inspirada e dirigida por Augusto da Costa Dias, editaram-se, entre outros, livros deste, de António Borges Coelho, de Alexandre Cabral, de Armando Castro, de Alberto Ferreira, de Joel Serrão, de Victor de Sá e de José Tengarrinha, nomeadamente a Obra Política de José Estêvão (2 vols.) e a primeira edição da História da Imprensa Periódica Portuguesa (1965), dedicada à irmã Margarida Tengarrinha.




[José Tengarrinha || Portugália Editora || 1965]

sexta-feira, 29 de junho de 2018

[1838.] JOSÉ MANUEL TENGARRINHA [V]

* JOSÉ MANUEL TENGARRINHA (1932 - 2018) *



José Tengarrinha foi um dos escassos Professores dignos desse título que tive enquanto aluno de História da Faculdade de Letras.

As aulas de “História de Portugal (Séculos XVIII-XX)”, com o trabalho de equipa em torno de “A base social do liberalismo na Revolução burguesa de 1820 a 1834”, e o Seminário de Opção “Greves Operárias em Portugal no Século XX”, com dezenas de milhares de páginas lidas e/ou folheadas referentes ao período entre 1870 e 1890, fizeram-me acreditar que, afinal, estava no Curso certo.

O projecto colectivo do levantamento das Greves em Portugal nos Séculos XIX e XX, pioneiro e muito influenciado pelo estudo de Michelle Perrot "Les Ouvriers en grève: France 1871-1890", datado de 1973, era inovador e fascinante, tendo proporcionado a catalogação exaustiva de muitas centenas de paralisações até então desconhecidas.

Com o Professor Tengarrinha, aprendi a arte metódica de saber ler, interpretar e citar com rigor (jornal, número, data, título da notícia, página, coluna) a imprensa periódica.

Temporariamente seu Monitor, conversámos muito, com frequência na Biblioteca Nacional e, raras vezes, na sua casa do Estoril. Num tempo de grande proximidade, em que se aprendia com o que se escutava dos outros.

Em 1984, presenciei a tentativa, frustrada, de o sanear, meticulosamente planeada por quem julgava que se tratava do elo mais fraco de um conjunto de Professores que urgia afastar do corpo docente de História.

Então, perante professores e assistentes coniventes ou receosos de reagir junto dos novos poderes emergentes, os alunos e ex-alunos foram inexcedíveis e souberam lutar pela permanência do professor Tengarrinha na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: movimentaram-se, denunciaram o caso, intervieram junto dos órgãos directivos, recorreram à comunicação social (jornais, rádio e televisão) e fizeram greve(s). Não se calaram, tendo alguns dos protagonistas desses dias sido seriamente prejudicados enquanto estudantes e nas carreiras académicas.

Dez anos depois, José Tengarrinha voltava a entrar na Faculdade de Letras através dos seus alunos!

No dia da sua partida, num desenlace esperado, fica a delicadeza de trato, a capacidade de escutar, a amabilidade, o saber e a amizade, mesmo que só nos reencontrássemos muito esporadicamente.

E fica, também, a sua duradoura luta antifascista, só sendo libertado com o 25 de Abril de 1974, o trabalho político desenvolvido com o MDP/CDE e a renovação da historiografia, com estudos incontornáveis na área da Imprensa e dos Movimentos Sociais.

Até sempre, Professor Tengarrinha!

[João Esteves]

[1837.] JAIME DA FONSECA E SOUSA [I]

* JAIME DA FONSECA E SOUSA (1902 - 1940) || A CRUELDADE IMPUNE OU A MORTE DELIBERADA NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL *

Jaime da Fonseca e Sousa foi um dos muitos presos políticos a quem foi aplicada a máxima de "Quem vem para o Tarrafal vem para morrer!", sendo por isso conhecido pelo "Campo da Morte Lenta". 

Com graves problemas hepáticos, tendo já sido operado de urgência ao fígado quando deportado em Angra do Heroísmo, mesmo assim foi enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde morreu ao fim de quase quatro anos. 

A crueldade das autoridades policiais e militares do fascismo português sobressai nos tormentos deliberadamente infligidos a Jaime da Fonseca e Sousa, apesar das diferentes diligências e súplicas da sua mãe, levando-os ao seu falecimento precoce.

[Jaime da Fonseca e Sousa || ANTT || RGP/74]

Filho de Felisbela de Jesus Rodrigues e de Artur da Fonseca Sousa, Jaime da Fonseca e Sousa nasceu em 1902, em Tondela.

Impressor da Casa da Moeda, a viver no Ginjal - Cacilhas, seria o filiado 130 da Célula 19 do Comité de Zona Nº 1 do Partido Comunista, organismo a que também pertencia Abel Augusto Gomes de Abreu e António Franco Trindade, ambos colegas de trabalho.

No âmbito do trabalho partidário, desenvolvido em conjunto com aqueles dois, Álvaro Augusto Ferreira, Eleutério Lopes Grosso (caixeiro numa taberna da Calçada da Bica), Jaime Tiago e Manuel Francisco da Silva ("O Manuel Pedreiro" que faleceu em 24 de Agosto de 1941, quando detido na Fortaleza de Angra do Heroísmo) [RGP/138], guardava em sua casa "todo o material de que dispunha o Comité Central das Brigadas de Choque (Comité Revolucionário)", nomeadamente "material para fabrico de bombas e [...] bombas já feitas", "dinamite, rastilho, espoletas e balas de espingarda", "bombas de maçaneta" e "antimónio" [ANTT, Cadastro Político 5406].

Na sequência das detenções feitas em 24 de Abril de 1932, na Serra de Monsanto, quando muitos dos seus camaradas assistiam à demonstração e preparação de lançamento de bombas, Jaime da Fonseca e Sousa foi preso na tarde no dia a seguir, no seu local de trabalho.

Considerado "um elemento desembaraçado que procedeu consciente e perfeitamente integrado na política revolucionária do Partido comunista" [Processo 452/SPS], foi determinado, em 10 de Agosto, que lhe "seja fixada residência obrigatória em Cabo Verde ou Timor, sendo-lhe aplicado o decreto Nº 20314" [ANTT, Cadastro 5406].

Preso, durante 19 meses, na Penitenciária de Lisboa, passou para Peniche onde, em 19 de Novembro de 1933, embarcou para Angra do Heroísmo, a fim de ficar detido na Fortaleza de São João Baptista.

Julgado, em 24 de Agosto de 1934, pela Secção dos Açores do Tribunal Militar Especial, "acusado de, com outros co-réus, no ano de 1932, por diversas vezes, ter tomado parte no fabrico, transporte, detenção e uso, para experiência, de bombas explosivas, em Lisboa e arredores" e deter "numeroso material explosivo e bombas, que guardava em sua casa", foi condenado a doze anos de prisão no degredo e multa de vinte mil escudos, ficando à disposição do Governo [Processo 16/933, do TME].

Jaime Sousa interpôs recurso, mas o mesmo Tribunal, reunido em 30 de Agosto de 1934, manteve a sentença.

Em Janeiro de 1935, quando se encontrava internado no Hospital Militar de Angra do Heroísmo, requereu ao Ministério do Interior a sua transferência para um hospital de Lisboa, a fim de ser operado. Embora aquele tenha deferido o requerimento, o Ministério da Guerra não terá autorizado a sua deslocação para um hospital do continente. 

[Jaime da Fonseca e Sousa || ANTT || RGP/74]

Quatro meses depois, em 20 de Maio de 1935, quando ainda se encontrava no Hospital Militar de Angra, Jaime da Fonseca e Sousa foi operado de urgência ao fígado.

Nas anotações que constam do seu Registo Geral de Presos, e noutra documentação após o seu falecimento, é dado a entender que o preso não seguiu para Lisboa por a operação já ter sido feita em Angra do Heroísmo: no entanto, o pedido e autorização do ministro do Interior, bem como a solicitação ao Ministério da Guerra para promover o seu regresso ao Continente, datam de Janeiro de 1935, enquanto a intervenção cirúrgica só aconteceu em Maio!

Durante o ano de 1935, foi mantida regular troca de informações entre o Ministério do Interior, o da Guerra e a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, sendo que, em 24 de Junho, em Ofício Confidencial, o Ministério da Guerra informava que o preso, internado no Hospital Militar de Angra, estava em em condições de fazer qualquer viagem.

Em 15 de Julho de 1935, Jaime Sousa solicitou ao Ministro do Interior "que lhe seja dada por expiada a pena a que foi condenado pelo Tribunal Militar Especial, alegando, entre outros motivos, o da falta de saúde e o de ter dado a sua adesão à União Nacional, por declaração que foi enviada oficialmente pelo Comando Militar dos Açores ao Ministério do Interior" [Cadastro 5406].

Tal pretensão foi negada, em 14 de Agosto de 1935, ela PVDE e, em 23 de Outubro de 1936, Jaime da Fonseca e Sousa integrou a primeira leva de presos políticos que seguiu para o Campo de Concentração do Tarrafal.

[Jaime da Fonseca e Sousa || ANTT || RGP/74]

Em 28 de Julho de 1938, sua mãe enviou uma carta dactilografada ao ministro do Interior a solicitar a libertação do filho, assinando-a como Felisbela Rodrigues de Sousa.. Nela, invocava os 15 anos de trabalho na Casa da Moeda, "sempre com exemplar comportamento", atribuía a culpa de deter explosivos a um colega de trabalho, descrevia o seu estado de saúde, tendo sentido "os primeiros ataques de fígado no campo de concentração de Angra do Heroísmo" e, por fim, referia, que "está filiado na União Nacional, adesão que meu filho fez gostosamente quando para tal foi falado".

Nesta carta de súplica para que "restitua a uma pobre velha a alegria que há tanto perdeu", a mãe refere-se  a Angra do Heroísmo como um campo de concentração, o mesmo fazendo para "o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde", para onde o filho foi enviado e onde "vive no desesperante receio de uma biliosa, de que já teve sintomas, ou, o que é pior, da perniciosa" [Cadastro 5406, Carta ao ministro do Interior, datada de 28 de Julho de 1938].


Jaime da Fonseca e Sousa faleceu no Campo de Concentração do Tarrafal em 7 de Julho de 1940, quando teria 37 ou 38 anos de idade. 

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5406 [Jaime da Fonseca Sousa / PT-TT-PIDE-E-001-CX10_m0303, m0303a, m0303b, m0303c, m0303d, m0303e, m0303f, m0303g, m0303h, m0303i, m0303j, m0303k].
ANTT, Registo Geral de Presos / 74 [Jaime da Fonseca e Sousa / PT-TT-PIDE-E-10-1-74_c0162].

[João Esteves]