[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

[2175.] ADELAIDE ESTRADA [II] || EXPOSIÇÃO "ADELAIDE ESTRADA: PARA ALÉM DA CIÊNCIA"

* ADELAIDE ESTRADA *
[1898 - 1979]


EXPOSIÇÃO  INTEGRADA NO CICLO MULTIDISCIPLINAR E CONTUDO, ELAS MOVEM-SE! MULHERES NAS ARTES E NAS CIÊNCIAS!

CASA-MUSEU ABEL SALAZAR || 21 DE SETEMBRO DE 2019 || 17 HORAS


“Adelaide Estrada: Para além da Ciência”, é a exposição que irá inaugurar no próximo sábado, dia 21, pelas 17h, na Casa-Museu Abel Salazar, e que presta homenagem à vida e obra de Adelaide Estrada (1898 – 1979).

Esta exposição é integrada no ciclo multidisciplinar E Contudo, Elas Movem-se! Mulheres nas Artes e nas Ciências! Este evento multidisciplinar da Reitoria da Universidade do Porto, é organizado por Ana Luísa Amaral, Maria Clara Paulino e Marinela Freitas, em parceria com Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa. A decorrer entre 10 de setembro a 29 de outubro de 2019, em vários espaços na cidade do Porto, este ciclo inclui no seu programa debates, mesas-redondas, ciclos de cinema, exposições, conferências, programas de rádio e lançamentos de livros, e pretende homenagear o contributo de várias mulheres em diferentes áreas profissionais, bem como dar conta da sua história e dos seus gestos de rebeldia ao desafiarem e ultrapassarem os limites socialmente e culturalmente associados ao sexo feminino, num passado bem recente.

É disto exemplo o percurso académico e intervenção cívica de Adelaide Estrada. Formada em Medicina, exerceu a docência como assistente livre de Histologia e preparadora no Laboratório Nobre, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Integrou várias instituições científicas, nomeadamente o Instituto de Alta Cultura, onde foi bolseira e estagiária, membro da Sociedade de Biologia (1928), da Association des Anatomistes (1932) e da Société Internationale d’Hematologie. Participou em encontros científicos, como o III Congresso Nacional de Medicina (Lisboa, 1928), o Congresso da Association des Anatomistes (1933) e as reuniões do Instituto de Oncologia de Lisboa (1941).

Tem vastíssima bibliografia científica sobre Histologia, Citologia e Análises Clínicas, tais como “Síndromas Meníngeas e Meningites Agudas Anormais”, “Questões de Nomenclatura Hematológica” ou “Os Índices Hematológicos Não Têm Valor Diagnóstico”, sendo alguns textos e comunicações apresentados em colaboração estreita com Abel Salazar, de quem foi aluna e colaboradora científica no Instituto de Histologia da Faculdade de Medicina e no Centro de Estudos Microscópicos da Faculdade de Farmácia.

Numa época em que muitos entraves ainda se colocavam às mulheres e eram poucas as que escreviam ou intervinham publicamente, Adelaide Estrada colaborou na revista “Pensamento”, órgão do Instituto de Cultura Socialista, que se publicou no Porto, e no “O Sol Nascente”, onde algumas mulheres escreviam sobre a condição feminina e a sua participação mais ativa na sociedade. Foi oposicionista do Estado Novo e apoiou as candidaturas dos generais Norton de Matos (1949) e Humberto Delgado (1958), nas respetivas campanhas à Presidência da República.

Adelaide Estrada, depois da sua aposentação do lugar de Preparadora do Laboratório de Análises Clínica, em 1950, montou, em 1952, um laboratório particular de análises no Porto. Faleceu a 18 de outubro de 1979.

A exposição “Adelaide Estrada: Para além da Ciência” ficará patente ao público até 2 de novembro, podendo ser visitada de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 13h00 e das 14h30 às 18h00; e aos sábados, das 14h30 às 17h30. A entrada é livre.

Casa-Museu Abel Salazar
Rua Dr. Abel Salazar, 488
4465-012 São Mamede de Infesta
Tel: 229039827

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

[2174.] SALVADOR ALLENDE [I] || TEXTO DE LUIS SEPÚLVEDA - 30/08/2003

* MEMORIAL DOS ANOS FELIZES || LUIS SEPULVEDA *



Memorial dos Anos Felizes 

Los mil días del Gobierno de Allende || Memorial de los años felices 

Luis Sepúlveda || Rebelión || 30 de agosto del 2003

Os mil dias do Governo de Unidade Popular foram muito duros, intensos, sofridos e ditosos. Dormíamos pouco. Vivíamos em todo o lado e em lado nenhum. Tivemos problemas sérios e procurámos soluções. Esses mil dias podem ser acompanhados de qualquer adjectivo, mas se há uma grande verdade é que, para todos aqueles e aquelas que tivemos a honra de ser militantes do processo revolucionário chileno, foram dias felizes, e essa felicidade é e será sempre nossa, permanece e permanecerá inalterável. 

Queridas companheiras, queridos companheiros. Quem de nós pode esquecer o sorriso dos irmãos Weibel, de Carlos Lorca, de Miguel Enríquez, de Bautista von Schowen, de Isidoro Carrilo, de La Payita, de Pepe Carrasco, de Lumi Videla, de Dago Pérez, de Sérgio Leiva, de Arnoldo Camú, de todas e todos os que hoje, trinta anos mais tarde, não estão connosco mas vivem em nós? 

Cada uma e cada um tem na sua memória um álbum particular de recordações felizes daqueles dias em que demos tudo, e parecia-nos que dávamos muito pouco, porque tínhamos gravado na pele os versos do poeta cubano Fayad Jamis: "por esta revolução haverá que dar tudo, haverá que dar tudo, e nunca será o suficiente". Houve quem no cómodo e cobarde cepticismo desfrutou de um tempo morto a que chamaram juventude. Nós, sim, tivemos juventude, e foi vital, rebelde, inconformista, incandescente, porque se forjou nos trabalhos voluntários, nas frias noites da acção e propaganda.

Não houve beijos de amor mais fogosos do que aqueles que se deram no fragor das brigadas muralistas. Aquele que beijou uma rapariga da brigada Ramon Parra ou Elmo Catalán beijou o céu e não houve espada capaz de tirar esse sabor dos lábios. 

Outros, na atroz cobardia dos que criticaram sem dar nada, sem se queimar, sem arriscarem, sem conhecer o magnífico sentimento de fazer o que é justo e no momento justo, nas suas mansões sem glória, comendo na prata que herdaram dos comendados e bebendo puro suor dos operários, avisavam que estávamos a cometer excessos. Claro que cometemos erros. Éramos autodidactas na grande tarefa de transformar a sociedade chilena. Metemos muitas vezes o pé na argola mas nunca as mãos nos bens do povo. Enquanto outros conspiravam, nós alfabetizávamos. Enquanto outros se aferravam com fúria homicida aos seus bens mal adquiridos, pois a propriedade da terra vem sempre do roubo, nós permitimos que os párias da terra olhassem pela primeira vez para os olhos do patrão e lhe dissessem: "Grande filho-da-puta, exploraste-me, tal como aos meus pais e avós, mas aos meus filhos e aos filhos dos meus filhos não os explorarás." E essas palavras são parte do nosso legado feliz, da nossa memória feliz. 

Fumávamos "marijuana" dos Andes misturada com tabaco doce dos Baracoas. Ouvíamos os Quilapayún e Janis Joplin. Cantávamos com Victor Jara, os Inti Illimani e os The Mamas and Papas. Dançávamos com Hector Pavez, Margot Loyola, e os quatro rapazes de Liverpool fizeram suspirar os nossos corações. Usámos calças à boca de sino e as nossas raparigas minissaias que excitavam Deus e o Diabo. E tínhamos maneiras próprias de estar, que com uma só palavra diziam quem éramos e o que sonhávamos: Olá, companheira, olá companheiro. E com isso ficava tudo dito. 

Angel Parra, Rolando Alarcón, Isabel Parra e mil cantores populares deram-nos uma nova dimensão do amor, esse formidável verbo que começámos a conjugar à nossa maneira. 

Traçámos metas impossíveis, SUL-realistas, e cumprimo-las. Por uma vez na nossa história, todos os meninos do Chile mamaram meio litro de leite, de leite branco e justo, de leite necessário e proletário, porque o pagaram justamente os que produziam a riqueza. Um dia fez-se a grande conferência da UNCTAD [Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento], e os arquitectos, e os engenheiros, e os capatazes opinaram que não era possível levantar o grande edifício que nos mostraria como um povo em marcha, mas os nossos pedreiros, electricistas, estucadores e professores de capacete salpicado de gesso disseram que sim, que era possível, e fizeram-no. Mais tarde foi o edifício da juventude chilena. Quem não comeu algum dia na UNCTAD, chamado também edifício Gabriela Mistral e que mais tarde foi usurpado pelos assassinos? Todavia, ele aí está e aí permanecerá como um enorme testemunho desses mil dias em que tudo foi possível.

Os que não tinham imaginação nem lugar nesse reino do possível, do dito possível, conspiravam contra o sol, contra o mar, contra o Verão a partir das suas mansões de Reñaca ou Papudo. Mas nos balneários populares as famílias dos operários tinham pela primeira vez a possibilidade de estar ao sol, junto ao mar, que de verdade nos banhou tranquilo. Jogaram ao pôr-do-sol, passearam de mão dada, amaram-se, fizeram planos possíveis, enquanto as crianças eram entretidas pelos voluntários da Federação de Estudantes do Chile, e divertiam-se com os títeres, o teatro, as aulas de música e de pintura dadas por artistas militantes de um povo em marcha. 

Hoje, trinta anos depois, alguns dos que não tiveram a ousadia de se envolver, de dar tudo, ufanam-se de uma estranha capacidade premonitória que lhes permitiu vaticinar o desastre e os aconselhou a manter-se à margem. Miseráveis, pobres miseráveis que perderam a oportunidade mais bela de fazer história, mas de a fazer justa. Esses mesmos são hoje os paladinos da reconciliação e apontam-nos os "excessos". Mas esses iluminados nunca mencionam um desses excessos em particular: Provocámos o imperialismo ianque quando nacionalizámos o cobre? Esquecem que o fizemos com tanta suavidade, inclusivamente pagando indemnizações, que chegámos a ser alvo de críticas da própria esquerda. Mas fizemo-lo assim porque não queríamos a confrontação directa com o inimigo da humanidade. Soubemos responder às provocações com vigor e com violência quando ela foi precisa, mas nunca provocámos. O nosso tempo era o tempo dos construtores, prestávamos toda a atenção à argamassa que uniria os ladrilhos da grande casa chilena, e nenhuma à conjura porque éramos e somos mulheres e homens de honra. 

A maior expressão cultural de um povo é a sua organização, e fomos um povo muito culto porque a nossa organização, polifacetada, plural, às vezes docemente anárquica, orientava-nos para a vida. O sonho de Salvador Allende era elevar a expectativa de vida dos chilenos para os níveis dos países desenvolvidos. O seu desafio pessoal era permitir que cada chileno tivesse vinte anos mais para desenvolver a sua capacidade criadora, o seu engenho, e para que a velhice deixasse de ser um espaço de miséria e derrota, e fosse, pelo contrário, a soma de uma experiência, a herança de um povo. 

Numa entrevista com Roberto Rossellini, o companheiro Presidente conta-lhe que as suas mãos de médico tinham realizado mil e quinhentas autópsias, que as suas mãos de médico conheciam a atroz força da morte e a precária fortaleza da vida. Salvador Allende foi o líder mais preclaro da América Latina, a vida era a sua companhia, e a vida foi a nossa bandeira de luta.

A trinta anos do crime, há miseráveis que interpretam o suicídio de Allende como uma derrota. Não entendem as razões de um homem leal, que no fragor do combate entendeu que o seu último sacrifício evitaria ao seu povo a máxima das humilhações: ver o seu dirigente, o seu líder, algemado e à mercê dos tiranos. 

Queridas companheiras, queridos companheiros: não há maior honra do que a de ter sido companheiros de luta e de sonho como Salvador Allende. Não há maior orgulho do que esses mil dias liderados pelo companheiro Presidente. 

Não somos vítimas nem do destino nem da ira de um deus enlouquecido. A história oficial, a mentira como razão de Estado, apresenta-nos como responsáveis de um crime que, cada vez que tentam explicar, as palavras fogem das suas bocas, pois não querem ser parte do vocabulário da vergonha. Se a nossa intenção de fazer do Chile um país justo, feliz e digno nos faz culpados, então assumimos a culpa com orgulho. A prisão, a tortura, os desaparecimentos, o roubo, o exílio, o não ter um país para onde voltar, a dor, se tudo isso era o preço a pagar pelo nosso esforço justiceiro, então saiba-se que o pagámos com o orgulho dos que não renunciaram à sua dignidade, dos que resistiram nos interrogatórios, dos que morreram no exílio, dos que regressaram para lutar contra a ditadura, dos que ainda assim sonham e se organizam, dos que não participam na farsa pseudodemocrática dos administradores do legado da ditadura. 

Juntamente com Salvador Allende fomos protagonistas dos mil dias mais plenos, belos e intensos da história do Chile. Sobre nós deixaram cair todo o horror, mas não conseguiram apagar dos nossos corações o Memorial dos Anos Mais Felizes. 

Quando, nos momentos mais duros dos nossos mil dias, a provocação do fascismo, da direita, do imperialismo ianque, fazia com que a ira se instalasse perigosamente nos nossos ânimos, o companheiro Presidente aconselhava-nos: "Vão para vossas casas, beijem as vossas mulheres, acariciem os vossos filhos." Agora, a trinta anos da grande traição, que a proximidade dos nossos, que a recordação dos que faltam, e o orgulho de tudo o que fizemos sejam os grandes convocantes do que devemos lembrar. Que as palavras "Companheira" e "Companheiro" soem como uma carícia, e bebamos com orgulho o vinho digno das mulheres e dos homens que deram tudo, que deram tudo pensando que não era o suficiente. 

[Na manhã do dia 11 de setembro, de 1973, Salvador Allende se defende no Palácio La Moneda, no Chile || Luis Orlando Lagos Vásques]

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

[2173.] ESTÊVÃO GIRO [I] ASSASSINADO NO 1.º DE MAIO DE 1962

* ESTÊVÃO JOSÉ DANGUE GIRO *
[1937 (?) - 01/05/1962]

[Estêvão Giro || Álvaro Cunhal - Fotobiografia || Edições Avante! || 2013]

Tipógrafo, natural de Alcochete, o militante do Partido Comunista Estêvão Giro foi assassinado durante a manifestação do 1.º de Maio de 1962 realizada em Lisboa.

Tinha 25 anos e o Diário de Lisboa de 2 de Maio referiu-se às dezenas feridos, ficando todos sob detenção, e à morte do jovem Estêvão Giro, um dos muitos manifestantes vindos da margem sul do Tejo.

[Diário de Lisboa || 2 de Maio de 1962]

[Diário de Lisboa || 2 de Maio de 1962]

[2172.] ZAMORA [I] || NO A LA VIOLENCIA DE GÉNERO

* ZAMORA || NO A LA VIOLENCIA DE GÉNERO *

[Espanha || Zamora || Julho de 2019]

[2171.] PICOS DE EUROPA [I] || JULHO DE 2019

* PICOS DE EUROPA *



[Espanha || Picos de Europa || Julho de 2019]

domingo, 1 de setembro de 2019

[2170.] JOÃO MARTINS BRANCO [V] || FOTOGRAFIAS DO FUNERAL (30/04/1931) PUBLICADAS POR PAULO BARROSA

* JOÃO MARTINS BRANCO *

[1913 - 28/04/1931]

Natural de Espinho, era aluno do Instituto Comercial e Industrial do Porto quando, em 28 de Abril de 1931, foi assassinado quando a polícia assaltou a Faculdade de Medicina do Porto durante uma reunião de contestação à Ditadura instaurada em 28 de Maio de 1926.

O seu funeral constituiu uma imponente manifestação antifascista, tendo todas as fotografias que se seguem sido retiradas, com a devida vénia, do Álbum em sua memória da autoria de Paulo Barrosa, sobrinho de João Martins Branco.













sábado, 24 de agosto de 2019

sábado, 20 de julho de 2019

[2167.] REVOLTA DE 20 DE JULHO DE 1928 CONTRA A DITADURA MILITAR [V] || CIVIS PRESOS

* REVOLTA DE 20 DE JULHO DE 1928 CONTRA A DITADURA MILITAR || "REVOLTA DO CASTELO" *

CIVIS PRESOS LEVADOS PARA O QUARTEL DO REGIMENTO DE ARTILHARIA Nº 3

[21/07/2028 || ANTT || PT-TT-EPJS-SF-001-001-0010-1056C]

[2166.] REVOLTA DE 20 DE JULHO DE 1928 CONTRA A DITADURA MILITAR [IV] || LEVA DE ESTUDANTES PRESOS

* REVOLTA DE 20 DE JULHO DE 1928 CONTRA A DITADURA MILITAR || "REVOLTA DO CASTELO" *

LEVA DE ESTUDANTES PRESOS || 21 DE JULHO DE 1928

[21/07/1928 || Leva de estudantes presos || ANTT || PT-TT-EPJS-SF-001-001-0010-1058C]

[2165.] REVOLTA DE 20 DE JULHO DE 1928 CONTRA A DITADURA MILITAR [III] || RENDIÇÃO

* REVOLTA DE 20 DE JULHO DE 1928 CONTRA A DITADURA MILITAR || "REVOLTA DO CASTELO" *

RENDIÇÃO DOS REVOLTOSOS || A VOZ - 22 DE JULHO DE 1928

[A Voz || 22 de Julho de 1928]

[2164.] REVOLTA DE 20 DE JULHO DE 1928 CONTRA A DITADURA MILITAR [II] || REVOLTA DO CASTELO

* REVOLTA DE 20 DE JULHO DE 1928 CONTRA A DITADURA MILITAR || "REVOLTA DO CASTELO" *

EXPLICAÇÃO DOS REVOLTOSOS SOBRE AS RAZÕES QUE LEVARAM À RENDIÇÃO DO CASTELO DE SÃO JORGE || 1928

[A. H. Oliveira Marques || A Literatura Clandestina em Portugal 1926 - 1932 || Vol. I || Fragmentos || 1990]

[2163.] REVOLTA DE 20 DE JULHO DE 1928 CONTRA A DITADURA MILITAR [I] || REVOLTA DO CASTELO

* REVOLTA DE 20 DE JULHO DE 1928 CONTRA A DITADURA MILITAR || "REVOLTA DO CASTELO" *

Em 20 de Julho de 1928 deu-se mais uma tentativa de derrubar a Ditadura Militar saída do 28 de Maio de 1926, localizando-se o seu epicentro no Batalhão de Caçadores 7 instalado no Castelo de São Jorge.

O movimento revolucionário iniciou-se às 21 horas, assinalado por três disparos, e envolveu militares e civis espalhados por outros pontos do país.

Visava, entre outros objectivos, derrubar a Ditadura, repor as liberdades, libertar os presos políticos, fazer regressar os exilados e deportados e convocar um Congresso Constituinte.

[Ilustração Portuguesa || 1 de Agosto de 1928]

[Canhões dos revoltosos no Castelo de São Jorge]

quarta-feira, 17 de julho de 2019

[2162.] PEDRO SOARES [II] MARIA LUÍSA COSTA DIAS [VII] || PEDRO E LUÍSA - MORRER ANTES DO FIM

* PEDRO SOARES || MARIA LUÍSA COSTA DIAS *

PEDRO E LUÍSA - MORRER ANTES DO FIM
[JUNHO DE 1975]

[Pedro Soares e Maria Luísa Costa Dias no exílio, em Itália || in Pedro e Luísa: morrer antes do fim || edições dêágâ || Junho de 1975]

[14 de Maio de 1975 || Cortejo fúnebre || in Pedro e Luísa: morrer antes do fim || Texto: Nuno Gomes dos Santos || Fotos: José Tavares || edições dêágâ || Junho de 1975]

segunda-feira, 15 de julho de 2019

[2161.] PEDRO SOARES [I] || 20 DE AGOSTO DE 1937

* PEDRO DOS SANTOS SOARES *
[13/01/1915 - 10/05/1975]

20 DE AGOSTO DE 1937 || FOTOGRAFIA DE CINCO PRESOS POLÍTICOS EM PENICHE, ANTES DE PEDRO SOARES SER DEPORTADO PARA O TARRAFAL || PEDRO SOARES É O PRIMEIRO À DIREITA

[in Pedro e Luísa: morrer antes do fim || Texto: Nuno Gomes dos Santos || Fotos: José Tavares || edições dêágâ || Junho de 1975]

domingo, 14 de julho de 2019

[2160.] SOEIRO PEREIRA GOMES [I] || POEMA DE 1949 DEDICADO A CÂNDIDA VENTURA [V]

* POEMA DE SOEIRO PEREIRA GOMES || 20 DE JULHO DE 1949 *

Já gravemente doente, Soeiro Pereira Gomes [1909 - 1949] esteve clandestino em casa de Nina Perdigão [1902 - 1988], onde reencontrou Cândida Ventura [1918 - 2015] numa das suas muitas passagens pela mesma residência. 

Desse convívio, resultou o "Poema Único - Para a C...", dedicado a Cândida Ventura que, então, usava o pseudónimo "Carlota". Perdido durante muito tempo, foi reencontrado por Rui Perdigão em 1983, «numa caixa de velhos papéis que andou mais de vinte anos de um lado para o outro e que, por fim, voltou a chegar-me às mãos» e que inseriu no seu livro O PCP visto por dentro e por fora [Editorial Fragmentos, 1988].

Poema Único

Para a C...

                                    Menina dos olhos grandes,
                                    Tão grandes que neles vejo
                                     A minha imagem e o mundo
                                     Com que sonho e que porfio...

                                     Menina do riso ingénuo
                                     À porta dos lábios mudos
                                     Como fio de água fresca
                                     Entre o musgo duma rocha...

                                     Menina de tez morena
                                     Que o sol beija e mais ninguém
                                     E de corpo tamanino
                                     E de rosto tão bonito...

                                     - Porque usas carrapito?
                                     P'ra realçar teus encantos
                                     Que são tantos, tantos, tantos
                                     Como estrelas há no céu?...

                                     Menina do meu enleio
                                     Menina doutras meninas
                                     Que tenho nos olhos tristes:
                                     - Solta as tranças, vai cortar
                                     (Não dói nada... e é mais bonito)
                                     Vai cortar o carrapito!

                                                                               20/07/1949

[Rui Perdigão || O PCP visto por dentro e por fora || Fragmentos || 1988]

sábado, 13 de julho de 2019

[2159.] NINA PERDIGÃO [IV] || 1902 - 1988

* TOMÁZIA JOSEFINA HENRIQUES PERDIGÃO *
[02/05/1902 - 1988]

[Tomázia Josefina Henriques Perdigão || ANTT || RGP/5021 || PT-TT-PIDE-E-010-26-5021]

Mais conhecida por Nina Perdigão

Filha de Tomázia Alves de Azevedo Henriques [f. 24/08/1936], proprietária, e de Joaquim dos Santos Henriques, Nina Perdigão nasceu a 2 de Maio de 1902 na Freguesia de Cedofeita, Porto, cidade onde faleceu em 1988. 

Teve quatros irmãos, todos rapazes: Luís, Carlos, Joaquim e António Azevedo Santos Henriques

Casou com Licínio Pinheiro Perdigão [1905 - 1934], nascido em Manaus, Brasil, arquitecto que cursou a Faculdade de Belas Artes do Porto entre 23/09/1922 e 03/10/1929 e que faleceu muito novo em início de carreira, não voltando a contrair matrimónio. 

[Licínio Pinheiro Perdigão || Fotografia retirada do Blogue Família Perdigão da autoria da neta Manuela Perdigão]

Viúva muito nova e mãe de dois filhos pequenos (Rui e Gil Perdigão), ficou economicamente dependente dos pais que estavam ligados à indústria têxtil portuense e detinham inúmeras propriedades. A sua militância política iniciou-se na década de 30, no âmbito do Socorro Vermelho Internacional, vendendo o boletim Solidariedade e selos para angariar fundos para os presos políticos, militantes clandestinos e vítimas da Guerra Civil de Espanha. 

Com 34 anos e recém viúva, foi presa na residência da Avenida da Boa Vista, 341, Porto, em 22 de Outubro de 1936, acusada de fazer parte do Socorro Vermelho Internacional do Norte [ANTT-PIDE/DGS Proc. 122/37], só sendo libertada em 30 de Maio de 1937. 

[Rui Perdigão || O PCP visto por dentro e por fora || Fragmentos || 1988]

Novamente detida em 9 de Agosto deste ano a fim de ser submetida a julgamento, recolheu ao Aljube do Porto e saiu em liberdade em 26 de Agosto depois de ter sido condenada pelo Tribunal Militar Especial na multa de 2.400$00, que se substituía, quando não paga, por quatro meses de prisão correccional [Processo nº 39/937 do Tribunal Militar Especial de Lisboa, fl. 25].

A mulher do Presidente Óscar Carmona, Maria do Carmo Ferreira da Silva [1888 - 1956], procurou interceder por Nina Perdigão junto de Salazar, tendo este afirmado: «Será um bom exemplo para as mulheres portuguesas»! [Rui Perdigão, O PCP visto por fora e por dentro]. 

Cumpriu a sentença no Aljube do Porto, numa cela juntamente com Alice Pereira Gomes [1910 - 1983], irmã de Soeiro Pereira Gomes. 

Em 1944, aderiu, formalmente, ao Partido Comunista Português, tendo a sua insuspeitada casa na Rua do Breyner - 213 funcionado, durante  muito tempo, como ponto de apoio às actividades dos dirigentes, nomeadamente os do Secretariado. Passaram por lá, entre outros, Cândida Ventura [1918 - 2015], Joaquim Pires Jorge [1907 - 1984], Júlio Fogaça [1907 - 1980], Octávio Pato [1925 - 1999], Sérgio Vilarigues [1914 - 2007] e, no Verão de 1949, Soeiro Pereira Gomes [1909 - 1949], este na fase terminal da doença que o vitimou, levado por Pires Jorge

Apesar de gravemente doente, «a sua alegria, em geral, era esfusiante», «o riso contagioso» e, nessa casa, reencontrou Cândida Ventura, que usava o pseudónimo Carlota, e a quem dedicou o "Poema Único - Para a C...", datado de 20 de Julho de 1949. Foi, também aí, que Soeiro Pereira Gomes se inspirou para os últimos escritos, escondidos até ser possível recuperá-los mais tarde: «Foi minha mãe, Nina Perdigão, que com uma enorme paciência reconstruiu os textos, tendo sido em muitos sítios obrigada a dar uma versão sua de certas frases, totalmente desaparecidas. Foi este o texto que serviu à primeira edição dos Contos Vermelhos aparecida clandestinamente» [Rui Perdigão]. 

Na década de 50, Nina Perdigão, os dois filhos e a nora, Fernanda Maria Baía da Silva, casada com Rui Perdigão, montaram um "aparelho" de apoio técnico e logístico «altamente importante» de apoio ao seu Secretariado, «no qual se integram automóveis para deslocações dos seus membros pelo País, casas  de refúgio, apartamentos «legais» para reuniões, etc.». [Rui PerdigãoO PCP visto por dentro e por fora, 1988]. Envolvia, ainda, o serviço clandestino de fronteiras que permitia a saída do país de militantes na clandestinidade. 

[Rui Perdigão || O PCP visto por dentro e por fora || Fragmentos || 1988]

Além disso, Nina Perdigão tornou-se o seu principal sustentáculo económico durante a clandestinidade, envolvendo, segundo o filho Rui Perdigão, 150.000 contos, doados principalmente durante a década de 50: «Referindo-se à importância do aparelho e desta dádiva, Pires Jorge disse-me certa vez: Diz-se que o Partido é indestrutível, e é; mas nos anos 50, se não fosse a herança que Júlio Fogaça entregou, e a dádiva que a vossa família fez, assim como o apoio técnico que prestou, não sei o que teria acontecido ao Partido. Decerto teríamos voltado à situação dos anos que se seguiram à "reorganização"» [Rui Perdigão].  

Tomázia Perdigão foi, segundo o Diário de Maria Luísa Ribeiro de Lemos, uma das fundadoras da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, sendo a sócia nº 273 de acordo com o caderno de Irene [Fernandes Morais] Castro, a sua última presidente, com residência na Rua do Breyner [Lúcia Serralheiro, Mulheres em Grupo Contra a Corrente, 2011] . 

O investigador José Pacheco Pereira considera que foram duas as famílias do Porto que mais ajudaram o Partido Comunista na clandestinidade, a saber, a família de Guilherme da Costa Carvalho, cujos pais e irmã também pertenciam à AFPP, e a de Nina Perdigão.

Nina Perdigão, tal como o filho Rui e a nora, afastou-se do Partido Comunista após os acontecimentos da Checoslováquia: «Uma parte muito importante da sua fortuna deu-a ao PCP nos anos difíceis que se seguiram à prisão de Cunhal e Militão Ribeiro. Apesar da sua posição intransigentemente crítica, quanto à orientação do PCP nos últimos anos, Sérgio Vilarigues, do Secretariado, e Georgete Ferreira, do Comité Central, quiseram prestar-lhe homenagem, tendo ido visitá-la ao hospital onde morreu» [Rui Perdigão]. 

[Rui Perdigão || O PCP visto por dentro e por fora || Fragmentos || 1988]

Faleceu no Verão de 1988. 

Lúcia Serralheiro incluiu uma biografia de Tomázia Josefina Henriques Perdigão/Nina Perdigão no Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) [Livros Horizonte, 2005].

[João Esteves]

sexta-feira, 12 de julho de 2019

[2158.] JANTAR DE OPOSICIONISTAS DE 20/07/1957 [I] || CONVOCATÓRIA DE 10/07/1957

* JANTAR DE OPOSICIONISTAS DE 20 DE JULHO DE 1957 || "ELEIÇÕES" PARA A ASSEMBLEIA NACIONAL DE 3 DE NOVEMBRO DE 1957 *

No âmbito das "eleições" de 3 de Novembro de 1957 para a Assembleia Nacional, um grupo de 38 prestigiados democratas antifascistas de todo o país, muitos deles já anteriormente perseguidos e presos pela Ditadura instaurada em 28 de Maio de 1926, subscreveram a convocatória para um jantar  a realizar no dia 20 de Julho, em Lisboa, sob o pretexto de se comemorar a entrada na cidade das tropas liberais em 24 de Julho de 1834.


O jantar visava reunir «o maior número possível de oposicionistas de todo o País, e de todas as tendências - sejam quais forem os seus pontos de vista actuais sobre o desenrolar da situação política», de forma a proporcionar «um debate proveitoso à volta das diferentes ideias que vão sendo formuladas em face das próximas eleições».

O evento realizou-se no restaurante Castanheira de Moura e terão participado "cerca de 300 pessoas de vários pontos do país" [Mário Matos e Lemos, Oposição e Eleições no Estado Novo, 2012].

O professor e publicista Luís da Câmara Reis [1885 - 1961], provavelmente o detentor do panfleto acima publicado pelo carimbo que nele consta, abriu os discursos para "afirmar que aquela reunião se destinava a «assentar numa atitude a tomar perante o próximo ato eleitoral e congregar os esforços de todos os antissituacionistas, fossem quais fossem as suas correntes de opinião», acrescentando que «até mesmo os monárquicos liberais seriam bem recebidos»" [Mário Matos e Lemos].

Intervieram, entre outros, o médico António Ferreira da Costa [1904 - 2004], que estivera degredado no Campo de Concentração do Tarrafal entre 1942 e 1944; o jornalista e libertário Artur Inês [1898 - 1968]; o advogado Artur Morgado dos Santos Silva [1879 – 1960]; o arquitecto Artur Vieira de Andrade [1913 - 2005]; o advogado marinhense José Henriques Vareda [1927 - 1989]; o advogado Lino Lima [1917 - 1999]; o advogado Manuel Campos Lima [1916 - 1996]; o advogado Manuel Sertório [Marques da Silva] [1926 - 1985]; a escritora Natália Correia [1923 - 1993]; e o estudante Silas Coutinho Cerqueira.

Segundo Mário Matos e Lemos, na obra Oposição e Eleições no Estado Novo, "no fim, uma moção aprovou a participação na campanha eleitoral, ficando para mais tarde a decisão de ir ou não às urnas".

A Oposição constituiu listas em Aveiro, Braga, Lisboa e Porto, tendo só a lista independente de Braga chegado a ir às urnas. Aveiro e Porto desistiram de se apresentar ao acto eleitoral em vésperas da sua realização e a lista de Lisboa não foi aceite sob o pretexto de ter sido entre fora do prazo. Faro também elaborou uma lista, mas não a chegou a apresentar.

Candidatos efectivos por Aveiro: Alfredo Ângelo Vidal Coelho de Magalhães [1919 - 1988], arquitecto; Júlio Correia da Rocha Calisto [1897 - 1973], advogado; Manuel Augusto dos Santos Pato [1918 - 1975], médico; Manuel Joaquim da Costa Pereira [1911 - 1981], advogado; Manuel Martins das Neves [1919 - 1997], professor e advogado; e Virgílio Pereira da Silva [1888 - 1963], advogado e notário.

Candidatos por Braga: Eduardo Pereira dos Santos [1903 - ?], comerciante; Francisco Alberto Pinto Rodrigues [1900 - ?], advogado; Guilherme Francisco Aguiar Branco [1909 - 2002], advogado; Joaquim José Resende Pereira Borges [1905 - 2005], advogado; José Justino de Amorim [1894 - ?], engenheiro agrónomo; Luís Gonzaga Vieira de Castro Caseiro [1929 - 1978], advogado; e Miguel Augusto Alves Ferreira [1878 - 1961], militar.

Candidatos por Lisboa, cuja lista foi recusada: Arlindo Augusto Pires Vicente [1906 - 1977], advogado; Domingos Martins de Carvalho [1917 - 2008], agente comercial; José Alves da Cruz Ferreira [1909 - 1988], advogado; Luís Augusto Ferreira Martins [1875 - 1967], militar na reserva; Luís da  Câmara Reis [1885 - 1961], licenciado em Direito, professor e publicista; Manuel João da Palma Carlos [1915 - 2001], advogado; Manuel Sertório de Carvalho Marques da Silva [1926 - 1985], advogado; Maria Lígia Valente da Fonseca Severino [Lília da Fonseca] [1916 - 1991], jornalista e escritora; Nikias Ribeiro Skapinakis [n. 1931], artista plástico; Óscar dos Reis Figueiredo [1924 - 2007], operário serralheiro; Rogério Gomes Lopes Ferreira [Rogério Paulo] [1927 - 1993], actor e encenador; e Rui Manuel Sequeira Cabeçadas [1928 - 1992], licenciado em Direito.

Candidatos pelo Porto: Amadeu Alves Morais [1920 - 1987], advogado; Artur de Oliveira Valença [1897 - 1978], industrial, comerciante, empresário e jornalista; Artur Morgado Ferreira dos Santos Silva [1910 - 1980], advogado; Artur Vieira de Andrade [1913 - 2005], arquitecto; Augusto César de Barros [1888 - 1973]; Jaime Alves Vilhena de Andrade [1922 - 2000], advogado; Manuel Coelho dos Santos [1927 - 2012], advogado; Mem Tinoco Verdial [1887 - 1974], engenheiro; Pedro Emiliano Veiga [1909 - 1987], licenciado em Direito e em Letras, professor; e Rodrigo Teixeira Mendes de Abreu [1908 - ?], professor e lavrador - "viria a ser identificado como informador da PIDE ainda antes do 25 de Abril" [Mário Matos e Lemos, Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945 - 1973) - Um Dicionário, 2009]. 

A lista de Faro, que não chegou a ser apresentada, integraria: João da Silva Nobre [1878 - 1968], médico; João Diogo Marreiros Neto [1904 - 1980], advogado; Manuel de Aguiar Campos de Lima [1916 - 1996], advogado; e Zacarias da Fonseca Guerreiro [1891 - 1978], advogado e lavrador.  

[João Esteves]

segunda-feira, 1 de julho de 2019

[2157.] ANTÓNIO MANUEL HESPANHA [I] || 1945 - 2019

* ANTÓNIO MANUEL HESPANHA *
[1945 - 2019]


António Hespanha foi meu Professor de Mestrado de História dos Séculos XIX-XX no já longínquo ano lectivo de 1985-1986. Um Docente invulgar que abria horizontes (quando lhos tentavam fechar em anos difíceis e de incertezas para o seu futuro académico), proporcionava leituras multidisciplinares e transnacionais e fomentava a discussão, numa interrogação inacabada.

Mas era muito mais. Um Pedagogo preocupado com os jovens candidatos a mestres!

Já a leccionar, procurando conciliar a docência com o mestrado, chegava sistematicamente (muito) atrasado às suas aulas na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, esbaforido depois de apanhar o comboio, autocarros e de algumas caminhadas.

Nunca disse nada e, como por acaso, propôs que as aulas passassem para os sábados de manhã. Não poderia ser na instituição académica, por estar fechada nesse dia de semana, sugerindo um edifício a que todos os ex-directores gerais do Ministério da Educação ainda tinham acesso e que estava, na prática, vazio, ali para os lados da António Augusto Aguiar. As aulas passaram a decorrer na respectiva cozinha, à volta de uma mesa, sem mais atrasos deste aluno.

Mas, atento a quem o rodeava, certo dia pediu para me deslocar a sua casa. Recebido numa sala onde se trabalhava à volta de uma mesa com uma enorme tábua que, praticamente, ocupava o espaço, demonstrou preocupação com a investigação para a disciplina que ministrava: Metodologia de História Institucional e Política. Preocupação genuína que tinha toda a razão de ser, já que só durante os meses de Julho, Agosto e meados de Setembro seria possível avançar com aquela, aproveitando a interrupção lectiva.

O Verão foi, mais uma vez, passado na Biblioteca Nacional, o texto final - Legislação e Regulamentos Internos do Trabalho (1870-1910): a disciplina e regulamentação do e no trabalho como primeiro contributo para a sua organização racional e científica - entregue dentro do prazo e, um dia, cruzando-nos na Nova, informou-me, como se se tratasse de algo natural, que o tinha citado numa História do Portugal Contemporâneo.

Três "pequenos" exemplos que nunca esqueci e que me acompanham na minha própria docência junto dos mais novos.

Até sempre, Professor Hespanha!


[João Esteves]