[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

domingo, 9 de agosto de 2020

[2411.] ANTÓNIO ESTEVES [II] || 1939

* ANTÓNIO ESTEVES || 1939 *

[Coimbra || 1939 || António Esteves (1916-2017); Barreira; Boaventura de Almeida Lopes Tavares (1917-1974); Artur Lopes Proença; Vasco Manuel de Magalhães Vilhena (1916-1993)]

quinta-feira, 30 de julho de 2020

[2410.] PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS - DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO [LII] || 1926 - 1933

* PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO || LII *

0473. António Bernardo [  ]

[Segundo Ofício do Gabinete do Ministério do Interior, datado de 11 de Janeiro de 1933, já tinha regressado de Timor, onde se encontrava deportado por motivos políticos, e não se tinha apresentado às autoridades competentes].

0474. António Blanck da Costa [1932]

[Lisboa, 1892, intérprete - Lisboa. Preso pela PSP de Lisboa em 01/05/1932 e entregue à Polícia de Defesa Política e Social. Libertado em 04/05/1932].

0475. António Borges [1928, 1931]

[Peso da Régua, 1882, comerciante (proprietário de uma leitaria) - Lisboa. Preso em 11/06/1928, sendo membro da Comissão Paroquial da "Esquerda Democrática de São Sebastião da Pedreira" e sócio do "Centro Republicano José Domingos dos Santos"; libertado em 24/08/1928 (Processo 3743). Em 16/09/1931, foi preso, juntamente com António Nunes de Carvalho, quando participava numa reunião de uma célula comunista na Avenida Almirante Reis, sendo libertado em 22/02/1932 (Processo 94)].

[João Esteves]

terça-feira, 28 de julho de 2020

[2409.] ANTÓNIO BATISTA [I] || PRESO EM 1932, 1937 e 1939 - DEPORTADO PARA O TARRAFAL

* ANTÓNIO BATISTA *
[27/03/1909 - ?]

Preso por diversas vezes, António Batista terá tido, nos anos 30, papel importante na entrada e saída do país de clandestinos do Partido Comunista, até devido à sua profissão de marítimo, tendo sido deportado para o Tarrafal em Setembro de 1939.

[António Batista || 15/09/1939 || ANTT || RGP/7076 || PT-TT-PIDE-E-010-36-7076]

Filho de Rosa Gracinda e de Jacinto Batista, António Batista nasceu em 27 de Março de 1909, na Guarda.

Quando era serralheiro mecânico com residência em Lisboa, na Rua Garibaldi, foi preso em 1 de Dezembro de 1932 na fronteira de Elvas quando vinha de Badajoz, «por suspeita de ter entendimentos com emigrados políticos em Madrid, sendo portador de algumas cartas de apresentação para os mesmos quando foi de Portugal para ali» e entregue, no dia 4, pela Secção Internacional à Secção Política e Social. Como não se tivesse provado se «aquelas cartas tratavam de assuntos revolucionários ou se era apenas para [...] arranjar trabalho» [v. Processo 580], António Batista saiu em liberdade em 8 de Dezembro, por ter sido abrangido pela amnistia decretada três dias antes. 

Cinco anos depois, em 1 de Junho de 1937, quando estava referenciado como marítimo a viver na Rua dos Prazeres - 73, foi preso e entregue pelo Comando da PSP de Lisboa à Secção Política e Social da PVDE, por ter dado a guardar num estabelecimento de vinhos um embrulho que continha exemplares do jornal Avante!. Este, ter-lhe-ia sido entregue por um amigo tipógrafo a fim de fazer o envio, para o estrangeiro, de cartas e envelopes que nele se encontravam.

Recolheu à 1.ª Esquadra e foi libertado em 03 de Julho de 1937 [Processo 3068/SPS]. 

[António Batista || 15/09/1939 || ANTT || RGP/7076 || PT-TT-PIDE-E-010-36-7076]

Em 12 de Abril de 1939, António Batista estava preso na Cadeia de Monsanto, tendo sido posto à disposição da PVDE dois dias depois, «a fim de ser ouvido num processo em curso», em que era acusado por Tomás Simões Negócio de ser o elemento encarregado de arranjar embarques clandestinos. Ficou em regime de incomunicabilidade na Cadeia do Aljube [Processo 383/939 da SPS; Processo 428/39] e, em 15 de Maio, foi devolvido à Direcção das Cadeias Civis por já não interessar à PVDE. 

[António Batista || 15/09/1939 || ANTT || RGP/7076 || PT-TT-PIDE-E-010-36-7076]

Preso pela SPS da PVDE em 28 de Junho de 1939, recolheu a uma esquadra incomunicável e seguiu para o Aljube em 26 de Julho: possuía, então, uma credencial da Secção Portuguesa do Partido Comunista dactilografada em francês e que lhe teria sido entregue há cerca de seis anos, sendo suspeito de há muito integrar o aparelho de embarques, ou seja, «recebia e embarcava clandestinamente extremistas fugidos à acção desta Polícia» [Processo 791/39]. 

Deportado para o Tarrafal em 19 de Setembro de 1939, tendo integrado a 7.ª Leva, juntamente com Herculano Jorge Bragança, Joaquim Ferreira e Sebastião Viola Júnior, aí permaneceu mais de cinco anos.

Abrangido pela amnistia de 18 de Outubro de 1945, regressou a Lisboa no paquete Guiné em 1 de Fevereiro de 1946.

  [João Esteves]

[2408.] RAUL CASTRO [I] || REUNIÃO ILEGAL OU ACUSAÇÃO IRREAL? (1974)

* RAUL CASTRO *

Reunião ilegal ou acusação irreal? Alegação de recurso para o Tribunal da Relação do Porto no Processo dos 90 estudantes no Tribunal de Polícia

Edição de Raul Castro / Distribuição da Editorial Inova || Março de 1974

Alegação da recorrente Maria da Graça Campos Morais e Castro e dos recorrentes Joaquim Alfredo Almeida da Rocha, Carlos Alberto Monterroio Martins da Rocha e José Luís Carneiro Praça || Processo 1160/73 - Tribunal de Polícia.

[Raul Castro || Reunião ilegal ou acusação irreal? || Março de 1974]

No dia 4 de Abril de 1973, pelas 15 horas, centenas de estudantes de diversas escolas superiores do Porto reuniram-se no átrio da Faculdade de Ciências, «a fim de apreciarem as medidas a tomar em face de uma recente iniciativa do Orfeão Académico de Coimbra: o festival internacional de coros universitários».

Iniciada a reunião, o edifício foi cercado pela PSP, que procedeu à evacuação do mesmo e à identificação de muitos dos presentes.

O julgamento de 90 estudantes decorreu no Tribunal de Polícia entre 9 de Julho e 29 de Dezembro, quase sempre com audiências diárias. A sentença,  datada de 29 de Dezembro de 1973, da  autoria do juiz Elias da Costa, determinou a absolvição de apenas um estudante, Júlio Machado; a atribuição de pena suspensa, por dois anos, a 56, por serem menores de 21 anos; e a condenação dos restantes 33.

Os 89 estudantes interpuseram recurso, reportando-se este opúsculo àquele que envolvia Maria da Graça Campos Morais e Castro, Joaquim Alfredo Almeida da Rocha, Carlos Alberto Monterroio Martins da Rocha e José Luís Carneiro Praça.

[João Esteves]

[2407.] DOMINGOS ABRANTES E O MUSEU DO ALJUBE || EXPRESSO - 25/07/2020

* DOMINGOS ABRANTES *

A CONFRARIA ANTICOMUNISTA E O MUSEU DO ALJUBE

Jornal Expresso || 25/07/2020

«A vida política nacional nos últimos dias foi agitada pelo crime político que foi a comunista Rita Rato ter sido escolhida num concurso em pé de igualdade de entre 60 concorrentes para directora do Museu do Aljube.

O PSD e o CDS pediram explicações pela estranha escolha. Elementos de extrema direita e outros que se autoclassificam de esquerda e democratas, desenvolveram uma intensa campanha persecutóriacontra Rita Rato de cariz anticomunista, antidemocrática, elitista, onde não faltaram manifestações de arrogância intelectual.

Mais importante do que terçar armas pelas capacidades de Rita Rato, isso o tempo se encarregará de esclarecer, é reflectirmos sobre a natureza dos argumentos subjacentes à condenação da escolha de Rita Rato, porque a triunfarem, causarão enormes estragos à nossa vida democrática.

O libelo acusatório contra a escolha de Rita Rato assenta basicamente em ela não ser licenciada em História (para alguns a razão é ela não saber nada de História); o ser política, forma eufemística para dizer que é por ser comunista; poder levar à hegemonização da memória da resistência pelos comunistas e ainda, entrando-se no campo da provocação, que a sua escolha resultou dos negócios da geringonça, de entendimentos secretos com o Presidente da Câmara. Um tacho, proclamou um fascistoide, que curiosamente ocupa vários tachos. Provocações de quem não se conforma com o terem visto ruir o (seu) «direito constitucional» não escrito, que era haver partidos com direito a existir (por enquanto), o que não podiam era ter uma palavra nas decisões governativas, nem ocupar cargos que consideram coutadas destinadas aos do «arco da governação».

Mas onde é que os sabedores de História (segundo os seus próprios juízos) aprenderam que só licenciados em História sabem de História? Bastar-lhes-ia olhar à volta para ver quanto é falso o que afirmam.

E em que fundamentam dever a licenciatura em História, abstraindo da natureza do Museu do Aljube, prevalecer como critério supremo?

O Museu do Aljube tem uma especificidade própria, que é ser dedicado à Resistência e à conquista da Liberdade como realidades inseparáveis, o que define a sua natureza e as suas funções: esclarecer a natureza do fascismo; dar a conhecer os seus crimes e formas de opressão; as causas da sua ascensão; os pilares que o sustentaram - os seus mentores e beneficiários; – o que representou o colonialismo e as guerras coloniais; dar a conhecer a gesta heróica da Resistência sem que a Liberdade não teria sido conquistada; prestar tributo à memória dos que deram a vida para que o povo português tivesse a Liberdade como modo de viver. Um dos seus objectivos fundamentais é contribuir para a formação democrática e dos valores da Liberdade das populações e sobretudo das novas gerações, cada vez mais sujeitas à política de apagamento da memória da resistência e de branqueamento do fascismo, no que se destacam alguns dos animadores da actual campanha.

O critério primeiro, irrenunciável para alguém poder dirigir o Museu do Aljube (o mesmo se põe em relação a Peniche) deve ser identificar-se com o seu projecto e defendê-lo. É situar-se nos valores do
antifascismo e do 25 de Abril que presidiram à sua instalação. A campanha contra a escolha de Rita Rato nada tem a ver com o suposto seu desconhecimento de História mas apenas com o facto de certas pessoas acharem inadmissível uma comunista dirigir um Museu dedicado à resistência e ocupar um cargo que, por direito, lhes devia estar destinado. Não é fruto do acaso que a campanha tenha sido desencadeada por uma personagem de direita, com o apoio activo de um órgão de comunicação social de direita e que, em torno desta campanha, se tenha estabelecido uma «santa aliança» animada pelo recheio do baú de velharias anticomunistas, de quem «à esquerda» nunca se reviu na natureza do Museu do Aljube e que na altura até arrasou os critérios que presidiram à sua instalação.

A aceitação do primado da licenciatura em História para ocupar o cargo de director do Museu da Resistência e da Liberdade levar-nos-ia a que pudesse estar à sua frente alguém que não se revisse na sua natureza e objectivos, mesmo branqueadores do fascismo e da PIDE, discípulos de Salazar e da sua obra, gente que absolve os crimes do fascismo, que se dedica a lançar lama sobre a Resistência e os seus mártires, na base de supostos conhecimentos de História.

Como é sabido, existem doutorados em História, com um currículo de «encher o olho», resultante de «conhecimentos» de História que negam ter existido fascismo em Portugal.

Se fossem tomadas a sério as suas teses ter-se-ia de concluir que a unidade antifascista pela qual tanto se lutou e abrangeu sectores muito diversos da vida política, social e cultural, incluindo historiadores, não tivesse passado de uma ficção; que dezenas de milhar de portugueses D. Quixotes ignorantes tivessem toda a vida lutado para derrubar o fascismo, visto destruir as suas vidas profissionais e académicas, sujeitando-se a apodrecer nas cadeias anos e anos, tenham perdido as próprias vidas a lutar contra uma coisa que afinal nunca existiu.

E que tontos e ignorantes de História eram as centenas de milhar de portugueses que, nos momentos da conquista da Liberdade, o que mais gritaram, um grito que saía das entranhas de quem sofreu as
consequências da ditadura fascista, foi «fascismo nunca mais!».

Escândalo dos escândalos, afronta das afrontas à memória de tantas vidas seria ter pessoas destas à frente do Museu do Aljube.

Arguiu-se ainda contra a escolha de Rita Rato pelo facto dela ser política, por ter “uma carreira política”, o que a privaria da necessária independência, política e ideológica, suposta exigência para ocupar o cargo. Não seria preciso tantas mistificações para dizerem que Rita Rato não deve dirigir o Aljube pela simples razão de ser comunista.

A tese de historiadores independentes que apenas se guiam por factos históricos que não vêem a História segundo as opções políticas, ideológicas e natureza de classe, é uma canção de embalar.

Não às pessoas de direita mas aos que sinceramente se preocupam com os destinos da Liberdade e do regime democrático é necessário lembrar-lhes que a política da apologia da anti-política foi e continua a ser caldo de cultura no qual se desenvolvem as forças fascistas e fascizantes.

É igualmente necessário lembrar-lhes que fascismo e anticomunismo se alimentaram e alimentam como irmãos siameses e que o povo português e as forças democráticas pagaram um preço muito elevado pelo facto do fascismo ter usado até à exaustão a arma do anticomunismo para dividir as forças democráticas e as isolarem da força mais organizada e mais combativa na luta contra o fascismo que eram os comunistas.

A Drª Irene Pimentel manifestou-se muito receosa com o perigo que é a nomeação de Rita Rato poder levar à hegemonização da memória da Resistência pelos comunistas. Como historiadora, e se o anticomunismo não lhe tivesse toldado a mente, saberia que o perigo que se adensa não é os comunistas hegemonizarem a memória da resistência, é serem apagados dessa memória, por um processo de revisionismo histórico, apesar dos comunistas terem tido um papel único na resistência, pago um preço alto em clandestinidade, prisões, torturas e perdas de vidas sem comparação com qualquer outra força política; e, em certos momentos, chegado a ser 90% dos presos. Tudo teria sido mais fácil, os comunistas teriam sido menos sacrificados se outras forças não tivessem «hibernado» durante anos e anos, e se os comunistas não se tivessem encontrado muitas vezes quase sozinhos na luta contra o fascismo.

O lugar único que os comunistas ocupam na resistência, na luta pela Liberdade, não é o resultado de manobras políticas mas por terem, durante 48 anos, sido a força que manteve acesa a chama da esperança de que a Liberdade seria conquistada.

O fascismo aí está de novo em franco crescimento. A luta antifascista não é um problema do passado mas do presente. Esta campanha anticomunista, pela sua natureza, devia ser tomada muito a sério. Talvez seja altura de relembrar o aviso de Brecht sobre os «que foram primeiro».

O Museu do Aljube vai viver uma nova fase. Dispõe de uma equipa preparada e empenhada que, dando continuidade ao trabalho notável do Dr. Luís Farinha, será uma mais valia para a defesa dos valores e do projecto do Museu da Resistência e da Liberdade.

O Museu do Aljube, tal como o Museu de Peniche, deverão ser instrumentos de maior importância nesta batalha contra o renascer do fascismo. É por isso dever de todas as forças democráticas defendê-los.

Torna-se, entretanto, necessário fazer uma declaração de «interesses». Não sabia quem era o júri. Se a memória não me atraiçoa, apenas conheço um dos seus membros. Nenhum é comunista - o que teria
acontecido se fosse. Ao terem escolhido a candidata Rita Rato, na base exclusiva da sua avaliação pessoal, não se terem deixado empeçonhar pelo vírus anticomunista, deram mostras de coragem, de isenção política, contribuíram desse modo para o saneamento da vida
democrática.

Sejam quais forem as suas opções políticas, ideológicas, são dignos do respeito da parte de qualquer antifascista.

Domingos Abrantes - Membro do PCP e Conselheiro de Estado»

domingo, 26 de julho de 2020

[2406.] ESTUDANTES DE COIMBRA NO PLENÁRIO (PEÇAS DE UM PROCESSO) [I] || 1973

* ESTUDANTES DE COIMBRA NO PLENÁRIO (NOTAS DE UM PROCESSO) *

Afrontamento/Porto || Janeiro de 1973

Edição dos Autores

António Monteiro Taborda
Arnaldo Mesquita
Joaquim Loureiro
José Luís Nunes
Mário Brochado Coelho
Raúl Castro
Rui Polónio de Sampaio

[Estudantes de Coimbra no Plenário (Peças de um Processo) || Afrontamento/Porto || Janeiro de 1973]

Peças, reputadas essenciais, do Processo que envolveu o julgamento de sete estudantes universitários de Coimbra presos em 1971 e cujo julgamento decorreu no Plenário do Tribunal Criminal do Porto em Janeiro e Fevereiro de 1972.

Eram arguidos:

António Jorge Pais Ribeiro da Cunha, de 19 anos, aluno do 2.° ano de Medicina, preso em 11 de Fevereiro de 1971. Natural de São  João de Loure, concelho de Albergaria-a-Velha, residia na República Baco. 
Advogado: Mário Brochado Coelho.

Luís Eduardo Abreu Lima Ramos, de 20 anos, aluno do 3.° ano de Engenharia, preso em 12 de Fevereiro de 1971. Natural de Coimbra. 
Advogado: António Monteiro Taborda.

Maria Fernanda Oliveira Magalhães Mateus, de 25 anos, aluna do 2.° ano de Geografia da Faculdade de Letras, presa em 5 de Março de 1971. Natural de Mafamude, Vila Nova de Gaia. 
Advogado: Raúl Castro.

Jorge Freitas Seabra, de 24 anos, aluno do 5.° ano de Medicina, preso em 5 de Março de 1971. Natural de Vera Cruz, Aveiro. 
Advogado: Rui Polónio de Sampaio.

Luís Carlos Januário dos Santos, de 20 anos, aluno do 3.° ano de Medicina, preso em 10 de Março de 1971. Natural de Coimbra. 
Advogado: Joaquim Loureiro.

Joaquim Francisco da Mota Barbosa, de 25 anos, estudante, detido em 10 de Março de 1971. Natural de Toutosa, Marco de Canaveses. 
Advogado: Arnaldo Mesquita.

José Duarte da Silva Vaz Teixeira, médico de 25 anos, detido em 20 de Março de 1971. Natural de Ponte de Lima. 
Advogado: José Luís Nunes.

Por Acórdão do Tribunal de 25 de Fevereiro de 1972, os sete réus foram absolvidos, tendo sido mandados soltar os dois únicos que se encontravam presos: Joaquim Francisco da Mota Barbosa e José Duarte da Silva Vaz Teixeira.


[João Esteves]

[2405.] A CONDIÇÃO DA MULHER PORTUGUESA [I] || COLÓQUIO (1967)

* A CONDIÇÃO DA MULHER PORTUGUESA *
[25 DE NOVEMBRO DE 1967]

[A Condição da Mulher Portuguesa || Editorial Estampa || 1968 (1.ª edição)]

Em 25 de Novembro de 1967, no dia em que um violento temporal afectou a região de Lisboa, originando cheias que provocaram centenas de mortes, realizou-se um Colóquio sobre "A Condição da Mulher Portuguesa" organizado por Urbano Tavares Rodrigues.

Intervieram Agustina Bessa-Luís, Augusto Abelaira, Isabel da Nóbrega, Isabel Martins [Isabel Barreno], Maria da Conceição Homem de Gouveia e Sousa, Natália Nunes e Sérgio Ribeiro [Sérgio Ferreira Ribeiro].

Os depoimentos, com apresentação de Urbano Tavares Rodrigues, foram publicados pela Editorial Estampa em 1968, integrados na Colecção Polémica por si dirigida. O livro foi reeditado em Março de 1972, tendo o apelido Martins sido substituído pelo Barreno [Maria Isabel Barreno de Faria Martins].



[A Condição da Mulher Portuguesa || Editorial Estampa || 1972 (2.ª edição)]

[João Esteves]

sexta-feira, 24 de julho de 2020

[2404.] A MULHER NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA [I] || COLÓQUIO (1967)

* A MULHER NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA *
[JANEIRO - FEVEREIRO DE 1967]

[A Mulher na Sociedade Contemporânea || PRELO || Maio de 1969]

Em 1967, a Secção Cultural da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa organizou, entre 19 de Janeiro e 16 de Fevereiro, um ciclo de colóquios intitulado A Mulher na Sociedade Contemporânea


As sessões realizaram-se todas as quintas-feiras, às 18h30, tendo apresentado comunicações:

Ângela Miguel [Maria Ângela Montenegro Miguel]: "O sentido da complementaridade na relação conjugal".

Augusto da Costa Dias: "O iluminismo e os mitos da mulher".

Elina Guimarães: "Evolução da situação jurídica da mulher portuguesa".

Isabel da Nóbrega: "Mulher objecto, mulher reflexo: mulher mistificada".

João dos Santos: "A mulher, a família e o amor".

José Esteves: "A mulher, o desporto e as entrevistas sociais".

Leonor da Palma Carlos: "A mulher e o trabalho".

Maria da Conceição Homem de Sousa: "Situação jurídica da mãe".

Maria de Lurdes Lima dos Santos: "Problemas da integração da mulher na vida social".

Natália Nunes: "Origem do pensamento mítico".

Rui Grácio: "A evolução da relação conjugal".

Sérgio Ribeiro [Sérgio Ferreira Ribeiro]: "A mulher numa perspectiva sócio-económica". 

Sophia de Mello Breyner Andresen: "A mulher na cidade do homem".

Urbano Tavares Rodrigues: "Imagens da mulher na literatura portuguesa do século XX".

As intervenções foram reunidas em livro e publicadas pela PRELO em Maio de 1969, integrando, em Apêndice, o texto de Clara Campoamor, enviado de Lausanne e datado de Janeiro de 1967.


[A Mulher na Sociedade Contemporânea || PRELO || Maio de 1969]

[2403.] PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS - DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO [LI] || 1926 - 1933

* PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO || LI *

0468. António Bastos [1927]

[Lisboa, 1897, pedreiro - Lisboa. Preso em 28/05/1927, «por lhe terem sido apreendidos vários livros de escrituração da Confederação Geral do Trabalho, Secção de Pedreiros». Libertado em 01/06/1927 (v. Processo 3109)].

0469. António Batista Júnior [1929]

[Horta, 1908, estudante. Preso em 23/04/1929; libertado em 25/04/1929 (Processo 4298)].

0470. António Batista [1932, 1937, 1939, 1939]

[António Batista || 15/09/1939 || ANTT || RGP/7076 || PT-TT-PIDE-E-010-36-7076]

[Guarda, 27/03/1909, serralheiro mecânico / marítimo - Lisboa. Preso em 01/12/1932 e entregue à SPS em 04/12/1932 pela Secção Internacional, por ter sido preso na fronteira de Elvas quando vinha de Badajoz, «por suspeita de ter entendimentos com emigrados políticos em Madrid, sendo portador de algumas cartas de apresentação para os mesmos» (v. Processo 580). Libertado em 08/12/1932, por ter sido abrangido pela amnistia de 05/12/1932. Preso e entregue pelo Comando da PSP à SPS da PVDE em 01/06/1937, recolheu à 1.ª Esquadra; libertado em 03/07/1937 (Processo 3068/SPS). Em 12/04/1939, estava preso na Cadeia de Monsanto, tendo sido posto à disposição da PVDE em 14/04/1939, «a fim de ser ouvido num processo em curso», ficando em regime de incomunicabilidade na Cadeia do Aljube (Processo 383/939 da SPS; Processo 428/39). Entregue novamente, em 15/05/1939, à Direcção das Cadeias Civis. Preso pela SPS da PVDE em 28/06/1939, recolhendo a uma esquadra incomunicável e transferido para o Aljube em 26/07/1939: possuía uma credencial da Secção Portuguesa do Partido Comunista dactilografada em francês, sendo suspeito de há muito integrar o aparelho de embarques, ou seja, «recebia e embarcava clandestinamente extremistas fugidos à acção desta Polícia» (Processo 791/39). Desterrado para o Tarrafal em 19/09/1939 e abrangido pela amnistia de 18/10/1945, regressou a Lisboa no paquete Guiné em 01/02/1946].     

0471. António Bento Duarte [1932]

[Mafra, 1909, pedreiro - Lisboa. Preso em 03/10/1932, «por fazer parte de uma célula comunista que funcionava numa obra do Arco do Cego, juntamente com José Madaleno» (v. Processo 535). Libertado em 12/10/1932, por não se ter provado a acusação].

0472. António Bernardino Tavares de Figueiredo [1932]

[Pinhel, 1909, tipógrafo - Aveiro. Preso pela PSP de Aveiro em 08/06/1932, por distribuir manifestos clandestinos de incitamento à greve. Libertado (v. Processo 398)].

[João Esteves]

quarta-feira, 22 de julho de 2020

[2402.] AMÁLIA - DITADURA E REVOLUÇÃO [I] || MIGUEL CARVALHO (2020)

* AMÁLIA - DITADURA E REVOLUÇÃO *

MIGUEL CARVALHO || 2020

Publicações D. Quixote

[Miguel Carvalho || Amália - Ditadura e Revolução || Publicações Dom Quixote || Junho de 2020]

O que torna esta exaustiva, rigorosa, inesperada e documentada biografia política leitura apetecível, proporcionada por Miguel Carvalho numa escrita fluente e coerente a que já nos habituou, não é a componente artística de Amália Rodrigues, mas o enquadramento histórico e os labirintos das múltiplas sociabilidades geridas até Abril de 1974 e que o Autor reconstrói, demonstrando como a artista, a par da sua "colagem" ao regime, contribuiu, tal como muitos outros e outras, para décadas de resistência antifascista sem estar comprometida politicamente com ela. Não se pode ignorar o que foram 48 anos de violenta repressão sobre quem mais se expunha a combater a Ditadura, bem como os custos, humanos e económicos, de quem assumia a luta clandestina, sendo que toda a ajuda era relevante e constituía, por si só, um acto de coragem. Mesmo que aparentemente pequeno, por vezes insignificante, era a soma de partilhas solidárias assim, anónimas, que permitiram aliviar, humana e economicamente, a subsistência de muitos presos políticos, suas famílias e outras vítimas do fascismo, a maioria conotada com o Partido Comunista, envolvido numa duríssima clandestinidade de décadas.

Se «a ditadura namorou-a, exportou-a, e Amália,  verdade seja fita, não se fez rogada», também «soube iludir vigilâncias e amarras, acudindo a opositores e resistentes ao regime, financiando famílias de presos políticos e cantando versos de autores proibidos, resgatando-os do silêncio e da perseguição» [p. 14]. Havia, afinal, "outras atitudes e outras acções", como lembrou José Saramago no dia da sua morte, quando interpelado em Paris, onde se encontrava para ser agraciado com a Legião de Honra. Atitudes e acções que valiam pelo seu fim, mesmo que o desconhecesse objectivamente, e que os intermediários tratavam de manter na confidencialidade compartimentada dos tempos, como sempre sucedera com muitos outros envolvidos em circunstâncias semelhantes. 

O que torna o livro surpreendente é a circunstância de Miguel Carvalho conseguir revelar "Uma Amália desconhecida", quando se pensava que quase tudo já tinha sido escrutinado sobre as suas andanças, ao conseguir expô-la enquanto interveniente "política" dual, rompendo com o estafado, mas compreensível, ferrete único de artista símbolo do Portugal salazarista. Se não «assumiu compromissos políticos e é completamente descabido atribuir-lhe a afeição por uma ideologia», «tal não significa [...] que fosse indiferente  à condição do seu semelhante ou se distanciasse de certos e constantes apelos» [p. 17].

[Miguel Carvalho || Amália - Ditadura e Revolução || Publicações Dom Quixote || Junho de 2020]

A par da captura e progressiva aceitação, promoção e aproveitamento, nacional e internacional, pelo regime, do convívio com aristocratas, detentores do poder económico e político, dos convites para solenidades privadas, da partilha de ambientes luxuosos tão longínquos da sua Alcântara onde nascera e crescera, Miguel Carvalho desvenda, num difícil equilíbrio, imperceptível até há pouco, uma Amália solidária com os que lhe batiam à porta a solicitar ajuda para os perseguidos políticos do mesmo regime que a publicitava, sem nunca a negar e sem querer saber a quem, verdadeiramente, se destinava: «Na verdade, durante todo este tempo houve também uma Amália clandestina, do outro lado do espelho. Num país que não era o das maravilhas» [p. 69].

«De facto, os contributos directos ou indirectos que a fadista sabia serem destinados a pessoas ou actividades clandestinas de oposição à ditadura remontam a meados da década de 1940» [p. 87], canalizados, inicialmente, através de figuras do meio artístico, que tinham suficiente confiança para a abordarem, sendo que a confidencialidade tinha de ser, sempre, assegurada. E, por vezes, eram quantias avultadas as disponibilizadas, chegando, mesmo, a doar jóias.

Amália Rodrigues terá começado por ajudar, com regularidade, o MUD Juvenil [p. 88], nascido em 1946 e que sobrevivia de pequenas quotizações e, sobretudo, de contributos de democratas. Depois, recolheram dela directamente donativos, em momentos diferentes, Maria Alda Nogueira, amiga desde os tempos da meninice e juventude em Alcântara; José Cardoso Pires; Varela Silva, seu cunhado, casado com Celeste Rodrigues; Manuel Augusto de Brito, o cabeleireiro de sempre; Rogério Paulo, que é «quem mais fará uso dos estratagemas encobertos para recolhas de dinheiro junto de Amália» [p. 187], fazendo-o desde antes da campanha de Humberto Delgado até aos anos 70; Veiga de Oliveira que, quando no Brasil, já recolhia dinheiro para a Oposição através de César Seabra, e continuou a fazê-lo em Portugal, mantendo contactos com o casal; Urbano Tavares Rodrigues; ou o actor José de Castro, igualmente comunista com quem convivia e de quem gostava muito; ou José Casanova.

Outra forma de apoio que Amália terá prestado foi mediante certos convites, como o feito a Carlos Paredes, integrando-o em deslocações internacionais. A solidariedade ia para além da componente política e estendia-se a muitos artistas, nomeadamente «velhos fadistas caídos em desgraça», segundo intervenção de Almeida Santos no Parlamento aquando da sua morte [p. 195].

[Miguel Carvalho || Amália - Ditadura e Revolução || Publicações Dom Quixote || Junho de 2020]

Assim como, ao cruzar Amália com meios intelectuais antifascistas, em resultado da renovação poética e musical do fado que cantava, desnuda e dá a conhecer redes e sociabilidades clandestinas nem sempre detectadas ou desmanteladas pela PIDE e cujo funcionamento, sob diversas capas, muito contribuíam para o combate possível à Ditadura.

Embora excessivamente conotada com o regime e com Salazar, por quem nutria admiração, a aproximação, bem evidenciada, a certos sectores oposicionistas fez com que também entrasse no grupo daqueles e daquelas que, de uma forma ou de outra, ajudou à resistência, sem nunca ter sido antifascista mesmo que cantasse fados cujas letras eram, por demais evidente, de conteúdo  antifascista. Aliás, nunca quis, propositadamente, saber a quem se destinavam os seus auxílios, albergados sob a capa da solidariedade humana, e não política, para com os presos, ex-presos e suas famílias, descomprometendo-se, assim, de ter de tomar posição.

Mesmo cantando "Abandono", mais conhecido por Fado de Peniche, foi esta circunstância duradoura de Amália Rodrigues se ter revelado esquiva a um pensamento político definido até Abril de 1974, optando por ambiguidades deliberadamente "ingénuas" que nunca a comprometeram publicamente com a Oposição, que avolumou a tormenta que teve de enfrentar após a Revolução. Os versos que dedicara a Salazar na sequência  do seu internamento, com enorme impacto negativo, ainda ecoavam na memória de muitos antifascistas aquando da data libertadora.

Perante uma Amália ambígua, adulada, comprometida e usada como estandarte pelo regime, sem o afrontar, e que nunca assumiu ou valorizou, nem em privado, nem publicamente, os seus próprios actos de solidariedade clandestina para com aqueles que a ela recorriam e o silêncio destes, imposto pelas próprias regras conspirativas, o 25 de Abril tinha tudo para não correr de feição para a artista, demasiado conotada com o que acabava de ser derrubado e, por isso, alvo das mais diversas acusações.

O sobressalto foi violento, o apaziguamento, se alguma vez o houve, revelou-se difícil e os silêncios, de ambos os lados, fizeram com que se tornasse impossível olhar para Amália como alguém que tenha auxiliado, financeiramente, comunistas na clandestinidade, a oposição e os presos políticos e suas famílias. No centenário do seu nascimento, Miguel Carvalho reescreve, com o rigor do recurso a documentos inéditos e entrevistas a quem com ela conviveu, este lado, sem dúvida mais luminoso, de uma Amália Rodrigues em tempos sombrios.

Revivendo aqueles dias, semanas e meses, dificilmente o choque que Amália enfrentou poderia ter sido diferente e mostra até que ponto estava desfasada da realidade política portuguesa. Num país há tantas décadas sob repressão e conquistada a liberdade para todos, não havia espaço para a diva do fado manter um estatuto, mesmo que artístico, intocável. Era o tempo daqueles a quem Abril abrira as portas.

Foi, pois, esta zona de penumbra que Amália Rodrigues soube cultivar em Ditadura que Miguel Carvalho se propôs, e conseguiu, desocultar, mantendo, em aberto, todas as reinterpretações possíveis. 


[João Esteves]

sexta-feira, 17 de julho de 2020

[2401.] FERNANDO PITEIRA SANTOS [IV] || DEVO A MIM PRÓPRIO A MEMÓRIA DA MINHA VIDA (2013)

* FERNANDO PITEIRA SANTOS *
[23/01/1918 - 28/09/1992]

Devo a mim próprio a memória da minha vida. Fernando Piteira Santos
Prisão. Clandestinidade. Exílio. Morte.

Organização e coordenação || Maria Antónia Fiadeira

Prefácio || Maria Antónia Palla

Campo da Comunicação || 2013

[Coordenação Maria Antónia Fiadeiro || Campo da Comunicação || 2013]

Cartas manuscritas inéditas do acervo familiar de Fernando Piteira Santos e que abrangem períodos de prisão, da clandestinidade e do exílio. Trocadas dentro do agregado familiar, reflectem pequenos assuntos de um quotidiano infernizado por um país sob Ditadura: «cartas francas, amigas, afectuosas, de um homem a quem a luta e o combate exigiam temperamento de aço e lucidez de lince»; cartas onde Fernando Piteira Santos se revela «íntimo de si próprio» [Maria Antónia Fiadeiro, p. 27]. 

Ao reunir parte significativa da correspondência trocada durante 30 anos, de 1945 a 1974, entre Fernando Piteira Santos e a mãe, Leonilde Bibiana Maria Piteira Santos [1873 - 26/02/1963], a mulher, Stella Bicker Correia Ribeiro [1917 - 2009], e a enteada, Maria Antónia Fiadeiro, esta «invasão epistolar» transporta-nos para um mundo sombrio de décadas e onde, malgrado as circunstâncias, sobressaem valores, utopias, esperanças e, sobretudo, «muita coragem de todos para as coisas insignificantes do dia a dia» [p. 28].

Cartas que, como refere Maria Antónia Palla no Prefácio "Piteira Santos. Para lá da Razão", «são um documento surpreendente porque nos revelam um aspecto pouco conhecido da personalidade de um homem olhado essencialmente como um intelectual e político», ao deixar transparecer, sobretudo nas missivas enviadas de doze anos de exílio, os sentimentos de «ternura, amizade, amor, saudade, frustração, solidão», sempre conjugados com «o sentido de responsabilidade, em relação aos deveres cívicos e políticos, ao trabalho e à família» [p. 30].

A correspondência para Stella Bicker iniciou-se em 1945, quando Piteira Santos estava preso em Caxias, tendo depois passado para Peniche, onde continuava em Dezembro de 1947. A troca epistolar prisional foi retomada com uma carta enviada em 19 de Agosto de 1961, quando encarcerado no Aljube, por ter sido um dos promotores do Programa para a Democratização da República.

Após o fracasso do assalto ao Quartel de Beja, na noite de 31 de Dezembro de 1961 para 1 de Janeiro de 1962, de que foi um dos mentores, Fernando Piteira Santos foi forçado a entrar na clandestinidade e a exilar-se, iniciando, então, nova troca de correspondência, sobretudo com a enteada que, no Verão de 1967, se fixou no Brasil com os dois filhos.

Em Marrocos, para onde fugiu de barco ao fim de meses na clandestinidade, iniciou o ciclo do exílio, única alternativa para continuar, em segurança, o combate politico há muito iniciado, mas sempre a pensar no regresso ao país, o que fará uma vez,  fugazmente, em 1968.

Antes de se fixar em Argel, passou, ainda, por Paris e Roma, reencontrando outros exilados. Ansiando por notícias, não pretende que lhe enviem «palavras líricas ditadas pela generosa intenção de me trazerem despreocupação e paz»: «preciso de saber o que se passa em casa,que dificuldades têm,  como estão de saúde, como correm os negócios?» [p. 36].

Stella juntar-se-á ao marido em Argel, onde também viveu a filha, Alfredo e os dois netos até ao Verão de 1967, quando estes quatro rumaram ao Brasil, deixando um vazio difícil de preencher e que as cartas trocadas bem evidenciam. A dureza do próprio exílio, a falta da enteada e dos netos, bem como as condições pessoais e materiais que enfrentavam, o prolongamento da ausência, que sempre julgou temporária, do país, o convívio em ambientes restritos e algumas das ilusões políticas desfeitas, são temas expressos em diferentes missivas. Sempre com enorme realismo e lucidez.

Como refere Maria Antónia Palla, «Fernando prometera a Stella, no início do exílio, que este seria apenas escala. "É para Lisboa que eu caminho mesmo quando me desvio no espaço"» [p. 39]. Só conseguiu desembarcar em Lisboa em 2 de Maio de 1974, após doze anos, muito sofridos, de exílio, para viver num Portugal livre depois de 48 anos de uma persistente Ditadura. A mais longa da Europa.


Dividido em 4 capítulos, o primeiro contém cartas  enviadas e recebidas na prisão, balizadas entre 4 de Dezembro de 1945 e 12 de Outubro de 1961, aquando das suas detenções no Forte de Caxias (1945), na Fortaleza de Peniche (1947) e na Cadeia do Aljube (1961), tendo como interlocutoras a mãe, a futura esposa, com quem casaria em 7 de Fevereiro de 1948, e a enteada.

O Capítulo 2 envolve o período da clandestinidade, imediatamente a seguir ao Golpe dr Beja, e contém dois manuscritos: o primeiro, datado de 22 de Março de 1962, onde «analisa com amarga frieza a sua situação» [p. 35] e as seis opções que se lhe afiguravam possíveis, antecipando a cada uma delas as eventuais críticas de quem o conhecia, englobadas numa suposta "Voz pública": «A - Situação de ocultação severa, muito reduzidos e espaçados contactos, actividade limitada a tarefas "intelectuais"»; «B - Situação de ocultação cuidadosa, contactos efectivos e regulares, actividade política prudente»; «C - Asilo diplomático»; «D - Desaparecimento»; «E - Entregar-me à prisão (embora alegando um objectivo compreensível)»; «F - Prisão por iniciativa da PIDE ou acaso» ]pp. 91-92].

A outra carta corresponde a um texto longo, datado de 2 de Março do mesmo ano, dirigido a Franco Nogueira, Ministro dos Negócios Estrangeiros, onde denuncia a perseguição que lhe é movida e, sobretudo, o acto de violência e de represália da PIDE ao prender a sua mulher em 15 de Fevereiro, por o não conseguir capturar: «A prisão de Maria Stella é uma violência e é um acto de represália. Não se argumente que existia um qualquer pretexto legítimo para a sua prisão. O seu crime é ser minha Mulher. Não é legal, nem é decente, perseguir a família de um adversário político» [p. 94]; «Será amanhã legítimo pedir à Senhora Franco Nogueira explicações, informações ou responsabilidades relativas aos actos do Ministro Franco Nogueira?» [p. 95].

[Coordenação Maria Antónia Fiadeiro || Campo da Comunicação || 2013]

O Capítulo 3 reporta-se ao período do exílio e insere missivas enviadas e recebidas quando em Alger, centradas no agregado familiar, embora com maior incidência nas endossadas à enteada / filha Maria Antónia Fiadeiro.

A "Morte" encerra o livro através do texto de Maria Antónia Fiadeiro "Para Fernando Piteira Santos: Uma carta sem correio", publicado no Jornal de Letras em 20 de Outubro de 1992: «Foi pelo correio, creio, que todos sobrevivemos afectivamente. Líamos as palavras como se tocássemos a vida» [p. 153].

Esta correspondência constitui mais um importante contributo para se olhar para Fernando Piteira Santos de forma inteira, enquanto resistente antifascista, político, historiador, cidadão e Homem de família, ao mesmo tempo que retira do esquecimento os que com ele sempre conviveram e que, em momentos muito difíceis, constituíram o seu suporte afectivo.

[João Esteves]

terça-feira, 14 de julho de 2020

[2400.] MARIA ALDA NOGUEIRA [IV] || MARIA ALICE SAMARA (2019)

* MARIA ALDA NOGUEIRA. DA RESISTÊNCIA À LIBERDADE *

MARIA ALICE SAMARA || ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA || 2019

Integrado na Série Parlamentares do Regime Democrático, coordenada por Luís Farinha, abrangendo uma selecção de deputados eleitos para a Assembleia Constituinte de 1975, este livro de Maria Alice Samara incide sobre Maria Alda Nogueira, cujo papel político na construção do Portugal Democrático remonta aos anos quarenta do século XX quando, enquanto militante e dirigente clandestina do Partido Comunista, encetou uma luta de mais de três décadas contra o fascismo, sintetizada no título Da Resistência à Liberdade.

[Maria Alice Samara || Maria Alda Nogueira. Da Resistência à Liberdade || Assembleia da República || 2019]

Numa batalha pela memória da Resistência, Alice Samara dedica a Parte I, subdividida em 10 capítulos, à história de vida que medeia entre o seu nascimento, ainda durante a 1.ª República, e a data libertadora de 25 de Abril de 1974, quando tinha 51 anos, contextualizando-a nas diferentes sociabilidades que a foram moldando, no processo de fascização do país e na luta daqueles que lhe souberam resistir e trilharam, com elevados custos pessoais - familiares, económicos e profissionais - o difícil, corajoso e arrojado combate político, entre os quais esteve, sempre, Maria Alda Nogueira. Individual e colectivamente.

Entre 1942, data da sua filiação no Partido Comunista, e 1974, conheceu a clandestinidade, longos anos de prisão e o exílio, não abdicando de ser «um sujeito político ativo e atuante e que é, precisamente, esta a característica definidora do seu percurso» [p. 15]: «A história da sua vida até à Revolução dos Cravos é de uma riqueza extraordinária, que estas páginas não conseguem capturar» mas, «sempre que possível [...] recuperamos a sua voz e o seu discurso» [p. 14].

Já os dois capítulos seguintes centram-se na sua intervenção pública e política enquanto parlamentar de várias legislaturas, iniciada em 1975 com a eleição para a Assembleia Constituinte.

Centremo-nos, "apenas", no longo período da Resistência em que tão poucos, muitas vezes os mais humildes e desfavorecidos, fizeram tanto.

Filha mais velha de Vitória de Jesus Barbosa Nogueira [n. 1898] e de António Pedro Nogueira [1900], Maria Alda Barbosa Nogueira nasceu em 19 de Março de 1923, quando a família vivia em Alcântara. Cresceu nesse bairro marcadamente operário e aí apreendeu acontecimentos que muito contribuíram para a sua crescente politização, como a Revolta dos Marinheiros, em 1936, a Guerra Civil de Espanha, as greves de 1943, onde as mulheres se começaram a evidenciar no espaço público, ou os festejos pela vitória dos Aliados em 1945. E «foi em Alcântara que Maria Alda Nogueira se cruzou com José Magro e Pires Jorge que tiveram um importante papel na sua formação política» [p. 29].

Frequentou a Escola da Tapada, actualmente Escola Raul Lino, e continuou os estudos no Liceu Filipa de Lencastre, onde novas sociabilidades, nomeadamente com Maria Helena Tavares Magro [1923 - 1956], que se tornaria na sua melhor amiga e morreria na clandestinidade, Cecília Simões (Areosa Feio) [1921 - 1980] e Maria Barroso [1925 - 2015], a iniciaram na luta e levaram-na a colaborar com o Socorro Vermelho Internacional ou à recolha de géneros e roupas para os republicanos espanhóis. Ainda no Liceu, foi Presidente da Associação de Estudantes.

Também algumas professoras a marcaram e influenciaram a sua formação, como Manuela Palma Carlos, que integrara o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas - CNMP, Irene Alice de Oliveira (História), Alice Graça (Física), que militara na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas - LRMP, ou Maria José Estanco (desenho).

Concluído o Liceu, ingressou na Faculdade de Ciências, no curso de Ciências Físico-Químicas, numa altura em que decorria a Guerra, propiciando-se, então, o contacto e a filiação nas duas associações progressistas de mulheres - a Associação Feminina Portuguesa para a Paz e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas - que, para além de pugnarem pela emancipação feminina, continham uma postura antifascista, a primeira, e oposicionista, a segunda. Para Alda Nogueira, a filiação na AFPP, em Janeiro de 1946, e o convívio com outras mulheres fez «gerar [...] a ideia de que os direitos das mulheres estavam entrelaçados com a defesa da democracia, com a própria luta contra o fascismo» [p. 32].

Simultaneamente, integrou a última fase do CNMP, quando este passou a ser dirigido por Maria Lamas e aglutinava muitas mulheres que integravam, ou viriam a integrar, as fileiras das oposições ao fascismo, ajudando à implantação de Delegações locais, nomeadamente no Algarve: Faro, Olhão, Silves, Monchique.

Interveio na Exposição de Livros Escritos por Mulheres, organizada na SNBA em Janeiro de 1947, proferindo a conferência "A mulher e a Ciência", e assinou  textos no Jornal do Fundão e nas revistas Modas e Bordados e Os Nossos Filhos.

Já era, então, militante do Partido Comunista, a que tinha aderido ainda no final do Liceu ou no início da Faculdade: primeiro, terá militado na Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas e, em 1942, com 18 ou 19 anos, passou para o Partido, integrando a célula da Faculdade, onde foi activa na luta contra o decreto-lei n.° 31658, de 21 de Novembro de 1941, que triplicava o valor das propinas.

Concluiu o curso em 1945; foi professora em Olhão, provavelmente no ano lectivo de 1945-1946, onde ajudou a implantar uma delegação do CNMP; leccionou, em 1947, no Externato Comercial da Voz do Operário, em Lisboa; e, entre Novembro de 1948 e Abril de 1949, trabalhou na Escola Industrial Alfredo da Silva, no Barreiro.

[Maria Alice Samara || Maria Alda Nogueira. Da Resistência à Liberdade || Assembleia da República || 2019]

Subscreveu as listas do Movimento de Unidade Democrática - MUD e a sua preocupação com o desenvolvimento e enquadramento das lutas das mulheres a nível nacional, levou-a a trabalhar até 1949, com Cecília Simões Areosa Feio e Maria das Dores Cabrita, no sector de Mobilização e Organização das Mulheres Comunistas.

Nesse mesmo ano, participou na candidatura presidencial de Norton de Matos, "mergulhando", de seguida, na clandestinidade. Tinha 26 anos e a sua opção relacionou-se com a prisão, no Luso, de Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira e a intensificação das ofensivas repressivas sobre o Partido Comunista. O que pensava ser algo temporário e que voltaria à carreira científica, que abraçara e tanto desejava, tanto mais que fora deferido o seu pedido para ir trabalhar para França com Irene Curie, transformou-se em 25 anos de sacrifícios, inimagináveis para o comum dos oposicionistas, numa luta ininterrupta pelo derrube do duradouro fascismo português.

Montou casa clandestina com Sérgio Vilarigues e desse amor nasceu, em Dezembro de 1953, o único filho que, por uma questão de segurança e sociabilização, antes de completar quatro anos foi viver com a avó materna. Da defesa das casas por onde passou, e que nunca foram localizadas pela PIDE, passou a integrar a redacção do jornal Avante, a colaborar em A Voz das Camaradas das Casas do Partido / 3 Páginas e em O Militante e a controlar organizações territoriais e sectoriais.

Em 1956, integrou o Comité Local de Lisboa, em Setembro de 1957, no V Congresso, foi eleita suplente do Comité Central e, entre 1957 e 1959, foi membro da Direcção da Organização Regional de Lisboa, envolvendo-se, cada vez mais, no trabalho de organização, tanto no sector operário, quer no dos empregados (bancários,  seguros), aquele que preferia mas que a tornavam mais vulnerável à identificação pela PIDE.

Três outras mulheres foram eleitas nesse Congresso para o Comité Central, todas como suplentes: Cândida Ventura, a primeira a ter integrado aquele organismo dirigente, Sofia Ferreira e Virgínia Moura.

No ano seguinte, envolveu-se, organicamente, na candidatura presidencial de Arlindo Vicente e, no rescaldo da fraude eleitoral que envolveu as eleições de 1958, coordenou parte do trabalho colectivo associado ao desencadear de greves e outras acções políticas de protesto na região de Lisboa.

Após dez anos consecutivos de clandestinidade, Alda Nogueira foi detida na Avenida da Liberdade em 15 de Outubro de 1959, quando se deslocava num táxi, e iria passar nove anos e três meses na prisão. Foi a primeira mulher a ser condenada a oito anos de prisão maior e, devido ao cumprimento de medidas de segurança, só foi libertada, condicionalmente, em Dezembro de 1968: «Na prisão, retiraram-me os melhores anos da minha vida. Entrei com 35 anos, saí com 45 anos» [p. 46].

Ao afirmar-se como comunista e ao pedir para avisarem a família no acto da prisão, dando o telefone e a morada da mãe, permitiu que, duas horas depois de chegar à António Maria Cardoso, já os familiares a procurassem em Caxias. Presa e submetida a duros interrogatórios, recusou-se, sempre, a «responder a todas as perguntas feitas pela polícia política» [p. 52]. Por isso, aqueles estenderam-se à mãe, ao irmão e a outras pessoas das suas sociabilidades, abordando, ainda, o filho na escola que frequentava, usando um estratagema para obter informações que desconhecia.

Julgada em 22 de Outubro de 1960 pelo Tribunal Plenário, presidido por pelo juiz Silva Caldeira, foi seu advogado Manuel João da Palma Carlos [1915 - 2001], com o qual Alda Nogueira só pôde estar uma vez. Entre as testemunhas de defesa, constavam Alice Torres Magalhães, também licenciada em Ciências Físico-Químicas e que fora Assistente na Faculdade de Ciências entre 1943 e 1947, Cecília Simões, Fernando Pedro Lopes Batista, Justino de Sousa Seabra, Maria Isabel Aboim Inglês, que não foi ouvida e sofreu ameaças, e Maria Lamas, não tendo Alda Nogueira conseguido fazer-se ouvir e ameaçada pelo juiz, à terceira tentativa, de ser reenviada para a cela.

Durante a prolongada detenção em Caxias, Alda Nogueira interveio nas diferentes dinâmicas colectivas, participou na partilha dos saberes enquanto contributo para a formação e promoção cultural de cada uma e ensinou várias mulheres a ler e a escrever. Também reencontrou e conviveu com Aida Paulo, Albertina Diogo, Ivone Dias Lourenço, Maria da Piedade Gomes, Maria Luísa Costa Dias, Matilde Bento e Sofia Ferreira, entre muitas outras, como as mulheres do Couço. A prisão também se constituía como local de Resistência e de formação política, sendo Alda Nogueira e Sofia Ferreira as responsáveis pela célula do PCP em Caxias, assegurando a primeira as ligações exteriores com a direcção partidária. Os encontros com o filho, António Vilarigues, não eram passíveis de qualquer contacto físico e decorriam sob vigilância policial permanente.

Depois de Alda Nogueira ter iniciado o período, ainda mais arbitrário, das medidas de segurança, foram seus advogados Jorge Sampaio, contactado através de um familiar, e Armando Bacelar, que  a acompanhava desde 1965. A sua libertação, condicional, em Dezembro de 1968, foi antecipada em um dia, o que fez com que não tivesse ninguém à sua espera, tornando o momento "horrível".

[Maria Alice Samara || Maria Alda Nogueira. Da Resistência à Liberdade || Assembleia da República || 2019]

Regressou a Alcântara e a adaptação às rotinas da liberdade não foi fácil, sendo que, «a partir de então, teria sempre dificuldade em dormir» [p. 62]. Em Abril e Maio de 1969, passou uns dias no Porto e, em Janeiro de 1970, saiu clandestinamente de Portugal com José Bernardino e mediante a ajuda, técnica, de Margarida Tengarrinha, reencontrando-se em Paris com Álvaro Cunhal

Até 1974, continuaria o trabalho político no exílio, passando pela União Soviética, para recuperar da saúde debilitada, Roménia, onde trabalhou na Rádio Portugal Livre, e Bélgica, onde se encontrava aquando do 25 de Abril, regressando a Portugal em 8 de Maio. 

Tinha 51 anos e começava uma outra vida. Em 25 de Abril de 1975, era eleita para a Assembleia Constituinte.

[Maria Alice Samara || Maria Alda Nogueira. Da Resistência à Liberdade || Assembleia da República || 2019]

Bibliografia:

Maria Alice Samara, Maria Alda Nogueira. Da Resistência à Liberdade, Assembleia da República, Novembro de 2019.

[João Esteves]