[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
Mostrar mensagens com a etiqueta José António Cabrita. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José António Cabrita. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

[2236.] JOSÉ ARTUR DOS SANTOS CARDOSO [I] || ASSALTO AO QUARTEL DE BEJA - 1962

* JOSÉ ARTUR DOS SANTOS CARDOSO *
[10/12/1932 - 19/07/1982]

[José Artur dos Santos Cardoso || 03/08/1965 || ANTT || RGP/25049 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

O esboço biográfico de José Artur dos Santos Cardoso, preso por ter participado, na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, no Assalto ao Quartel de Beja, só foi possível a partir do rigoroso livro José António Cabrita A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça [Câmara Municipal de Palmela, 2017], sendo que as informações apresentadas e documentação referida têm por suporte aquela obra.

[José António Cabrita || 2017 || Câmara Municipal de Palmela]

Filho de Jesuína dos Santos e de Artur dos Santos Cardoso, José Artur dos Santos Cardoso nasceu na Moita em 10 de Dezembro de 1932.

Pintor, integrava os quadros do Barreiro da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses - CP.

A viver em Pinhal Novo aquando do Golpe de Beja, integrou o «comando Serra» [p. 95], teve «lugar de certo destaque nas acções de planeamento e de recrutamento» e foi em sua casa que ocorreram reuniões conspirativas, tendo aí pernoitado algumas vezes o amigo Manuel Serra.

[José Artur dos Santos Cardoso || 03/08/1965 || ANTT || RGP/25049 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

Implicado nas três tentativas de assalto ao quartel de Beja, seria preso pela PIDE em 30 de Março de 1962 e, pelo menos, interrogado em 3 e 7 de Abril. Permaneceu no Aljube cerca de uma semana e, em 6 de Abril, seguiu para Caxias, só sendo julgado em 29 de Julho de 1964. Condenado a 2 anos anos e um mês, passou para o Forte de Peniche em 25 de Setembro. 

[José Artur dos Santos Cardoso || 03/08/1965 || ANTT || RGP/25049 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

José Artur dos Santos Cardoso só saiu em liberdade vigiada em 31 de Julho de 1965, obtendo liberdade definitiva em 28 de Janeiro de 1971.

Faleceu em 19 de Julho de 1982, com 49 anos.

Fonte:
José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça, Câmara Municipal de Palmela, 2017, pp. 95-108.

[João Esteves]

[2235.] JOSÉ FERREIRA DA SILVA [I] || ASSALTO AO QUARTEL DE BEJA - 1962

* JOSÉ FERREIRA DA SILVA *
[29/09/1933 - 15/04/1986]

Este esboço biográfico de José Ferreira da Silva, preso por ter participado, na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, no Assalto ao Quartel de Beja, só foi possível a partir do rigoroso livro José António Cabrita A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça [Câmara Municipal de Palmela, 2017], sendo que as informações apresentadas e documentação referida têm por suporte aquela obra.

[José Ferreira da Silva || 13/03/1965 || ANTT || RGP/25059 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

Filho de Inês Soares Ferreira da Silva e de João Ferreira da Silva Júnior, José Ferreira da Silva nasceu na Guiné, em 29 de Setembro de 1933, onde o pai trabalhava como agricultor.

[José António Cabrita || 2017 || Câmara Municipal de Palmela]

A família fixou-se em Pinhal Novo, tendo a mãe trabalhado no consultório do médico Manuel Veríssimo da Silva, também ele preso pela PIDE na sequência dos acontecimentos de 1 de Janeiro de 1952.

Ainda não tinha 15 anos quando foi admitido nas oficinas do Barreiro da CP como aprendiz eventual. Quase a completar os 22 anos, quando cumpria o serviço militar no Batalhão de Sapadores de Caminhos-de-ferro, concluiu o Ensino Primário Elementar (Agosto de 1955).

Regressado à CP, foi despedido em 3 de Junho de 1958, acusado de se ter ausentado sem motivo.

Desempregado, foi aliciado, pelo amigo José Artur dos Santos Cardoso, para participar no assalto ao quartel de Beja no último dia do ano de 1961.

Conheceu, nesse mesmo dia, Manuel Serra, Edmundo Pedro e Gualter Basílio, tendo partido num carro para Beja juntamente com os dois últimos e João Manuel da Silva Martins, primo de José Artur.

Durante o tiroteio ocorrido durante o assalto, fugiu do quartel com outros e encontrou uma furgoneta onde já estavam Amadeu Gonçalves de Almeida Ferrão, António Vieira Franco e outro indivíduo, todos implicados no caso. Sem ninguém que lhes prestasse apoio no Algarve, o grupo dirigiu-se para Beja e, perante o fracasso da acção, todos regressaram a casa, tendo José Ferreira da Silva saído em Setúbal e apanhado o comboio para Pinhal Novo.

[José Ferreira da Silva || 13/03/1965 || ANTT || RGP/25059 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

Preso em 11 de Abril de 1962, metido nos curros do Aljube e interrogado, em 3 de Maio por Álvaro Pereira de Carvalho e Sílvio Mortágua, foi levado para Caxias no dia 4.

[José Ferreira da Silva || 13/03/1965 || ANTT || RGP/25059 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

Em 25 de Maio, foi posto à ordem do Tribunal Militar Territorial de Lisboa, sendo julgado só no ano seguinte, em 29 de Julho.

Casou na prisão de Caxias,  em 3 de Dezembro de 1963, com Palmira da Silva Reis Neto, com quem já vivia.

Julgado em 29 de Julho de 1964, tendo por advogado Eduardo Fernandes, foi condenado a dois anos de prisão maior, suspensão de direitos políticos por 15 anos e medida de segurança de liberdade vigiada durante 2 anos. Saiu em liberdade condicional em 12 de Março de 1965, por decisão do 2.º Juízo Criminal de Lisboa A liberdade definitiva só chegaria em 25 de Maio de 1970.

Segundo testemunho de sua mulher a José António Cabrita, «ele não sabia ao que ia» tendo sofrido muito na prisão: «não o deixavam dormir e que o metiam numa sala com água a cair» [p. 115].

Libertado, trabalhou em Torres Vedras, na Fábrica Hipólito e, depois, no Hotel da Ericeira. Após 25 de Abril de 1974, o casal regressou ao Pinhal Novo, trabalhando na Setenave.

Faleceu aos 52 anos, em 15 de Abril de 1986, no Hospital de S. José.

Fonte:
José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça, Câmara Municipal de Palmela, 2017, pp. 109-117.

[João Esteves]

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

[2195.] ANTÓNIO MARREIROS [I] || MARINHEIRO DEPORTADO PARA O TARRAFAL

* ANTÓNIO MARREIROS *
[06/01/1910 - 12/07/1971]

Este esboço biográfico de António Marreiros, "aquele que esteve preso no Tarrafal porque era contra o Salazar" [p. 37] só se tornou possível a partir do rigoroso livro José António Cabrita A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça [Câmara Municipal de Palmela, 2017], sendo que as informações apresentadas e documentação referida têm por suporte aquela obra.

[António Marreiros || ANTT || RGP/4261 || PT-TT-PIDE-E-010-22-4261]

Filho de Gertrudes da Conceição [18/09/1889 - 16/01/1958] e de Nicolau Florentino [1883 - 23/10/1961], António Marreiros nasceu em Ferrarias, freguesia de Algoz - concelho de Silves, em 6 de Janeiro de 1910.

[Processo SPS n.º 1985, 2.º vol. || PT-TT-PIDE-E-009-1985-2_m0191]

Carpinteiro e ainda a viver na freguesia de Algoz, casou com Rosália da Trindade Cabrita [m. 11/05/2000]. Posteriormente, já a viver na Cova da Piedade, ingressou na Marinha de Guerra, sendo grumete de manobra do navio Bartolomeu Dias aquando da revolta dos marinheiros de 8 de Setembro de 1936.

[Processo SPS n.º 1985, 1.º vol || PT-TT-PIDE-E-009-1985-1_m0090]

Preso nesse mesmo dia e entregue pelas autoridades da Marinha à PVDE, foi enclausurado na Mitra, transferido para a Penitenciária dez dias depois e julgado pelo Tribunal Militar Especial em 13 de Outubro, sendo condenado a 5 anos de prisão maior celular, seguidos de dez anos de degredo ou, em alternativa, a 17 anos de degredo em possessão de 2. Classe. 
 
[Processo SPS n.º 1985, 2.º vol. || PT-TT-PIDE-E-009-1985-1_m0164]

Pena pesadíssima para quem não dirigiu a revolta, apesar de ter participado nela, andando armado e ter passado para o navio Afonso de Albuquerque para o sublevar.

[Processo SPS n.º 1985, 2.º vol. || PT-TT-PIDE-E-009-1985-2_m0191]

Quatro dias depois, em 17 de Outubro, António Marreiros embarcou no cargueiro Luanda a caminho do Tarrafal, de onde só sairá em Junho de 1953, mas para ainda dar entrada no Forte de Peniche.

Com mais 37 marinheiros que participaram no levantamento de Setembro, integrou a primeira leva de presos que inaugurou o Campo de Concentração, chegando na tarde de 29 de Outubro de 1936.

Aí permaneceu quase 17 anos, tendo por directores do Campo os capitães Manuel Martins dos Reis (1936-1937), José Júlio da Silva [17/11/1937 - 20/10/1938] e João da Silva [1938 - 1940], que saiu dali para dirigir a prisão do Forte de Caxias, José Olegário Antunes [1940 - 1943], que estivera à frente do Forte de São João Baptista, Filipe do Nascimento Barros [1943 - 1945] e, por fim, David Prates da Silva [1945 - 1954].

António Marreiros, que pertencia à Organização Comunista Prisional, integrou a duríssima Brigada Brava, uma criação do PIDE Henrique de Sá e Seixas e conheceu a "frigideira", onde penou 42 dias: "A história de António Marreiros, no Tarrafal, é a história de uma bruteza sem limites" [p. 62]: "Dele, provindas de punho próprio, não se revelaram cartas, ou outros escritos [...]. De António,  o que se pode ler são as dedicatórias postas no verso de meia dúzia de fotografias, todas com datas do ano de 1950" [p. 62].

[António Marreiros || Dezembro de 1949 ? || Fotografia do Acervo do filho, publicada por José António Cabrita em A Pide em Pinhal Novo]

A sua família recebeu notícias e fotografias, como a de cima, aquando da ida ao Tarrafal de Herculana e Luís Alves Carvalho, em finais de 1949, para ver o filho Guilherme da Costa Carvalho, também aí encarcerado. 

Só sairia do Tarrafal em Junho de 1953, sendo levado para Peniche, onde permaneceu preso alguns meses.

Quando foi libertado, depois de 17 anos de clausura, tinha 43 anos, os seus pais já tinham falecido sem nunca os ter voltado a ver, o filho contava 22 anos e meio.

[António Marreiros || ANTT || RGP/4261 || PT-TT-PIDE-E-010-22-4261]

Estabeleceu-se, então, em Pinhal Novo, terra onde já tinha familiares, tomando, por trespasse, uma taberna.

Como escreve José António Cabrita a finalizar o capítulo dedicado a este tarrafalista, "Bandidos! Canalhas! Era quase só o que se escutava de António Marreiros, o que esteve no Tarrafal porque era contra o Salazar, no tempo que lhe sobrou de vida depois do seu martírio no pântano da morte" [p. 69].

Fontes:
José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça, Câmara Municipal de Palmela, 2017, pp. 33-69.

ANTT, Registo Geral de Presos 4261 [António Marreiros / PT-TT-PIDE-E-010-22-4261].

ANTT, Processo SPS n.º 1985, 1.º vol. [PT-TT-PIDE-E-009-1985-1] e Processo SPS n.º 1985, 2.º vol. [PT-TT-PIDE-E-009-1985-2].

[João Esteves]

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

[2194.] ARTUR PEREIRA DAS NEVES [I] || PRESO POLÍTICO (1967 - 1970)

* ARTUR PEREIRA DAS NEVES *
[n. 27/12/1929]

Este esboço biográfico de Artur Pereira Neves só se tornou possível a partir do livro de José António Cabrita A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça [Câmara Municipal de Palmela, 2017], sendo que todos os dados apresentados e documentação referida têm por suporte aquela obra.

[Artur Pereira das Neves || 24/05/1967 || ANTT || RGP/27769 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

Filho de Cláudia da Piedade Varino e de José das Neves Barateiro, Artur Pereira das Neves nasceu na Batalha em 27 de Dezembro de 1929.

Serralheiro mecânico e exímio jogador de xadrez, vivia em Pinhal Novo com a operária têxtil Maria da Graça Sousa Neves, ambos militantes do Partido Comunista: "tinham uma actividade política muito intensa", organizando, por exemplo, piqueniques nos pinhais próximos que "mais não eram do que reuniões com um cunho marcadamente político" [p. 120].

Com 37 anos, em 24 de Maio de 1967, pelas oito horas da manhã, foi preso na Cometna, em Palmela, quando estava a iniciar o trabalho, ao mesmo tempo que outra brigada da PIDE entrava na sua residência em Pinhal Novo, onde se encontrava a mulher que, por mera coincidência, fazia anos, levando "um volumoso escrito que Artur vinha laboriosamente compondo sobre a situação política em Portugal" [p. 121] e nunca recuperado, apesar das diligências efectuadas após 1974.

Encaminhado, primeiro, para Setúbal, seguiu, depois, para Caxias, aonde o iam buscar para os interrogatórios e torturas na António Maria Cardoso. 

[Câmara Municipal de Palmela || 2017]

Dias depois da prisão, a sua mulher organizou um documento em abono do companheiro e reclamando a sua libertação, contendo o abaixo-assinado um total de 86 assinaturas, entre as quais as de 24 mulheres. Nessa recolha, participou activamente o filho, então com doze anos e estudante da Escola Comercial e Industrial de Setúbal, onde era aluno de excelência, assim continuando apesar da situação criada quanto às dificuldades económicas e emocionais. Em 6 de Junho, treze dias decorridos sobre a detenção do marido, endereçou-o ao director da PIDE por correio. 

Maria da Graça Sousa Neves não se ficou por aquela missiva e enviou uma carta ao director da PIDE protestando contra a prisão do marido que "há dois meses me foi levado do lar" sem que "ninguém lhe tivesse explicado as razões", expressando "a sua grande preocupação pelo aspecto cadavérico que Artur mostrava, em consequência dos maus-tratos que lhe estavam a ser infligidos, assim como se insurgia contra o corte de visitas que a PIDE tinha imposto". Por fim, solicitava "uma audiência ao director da PIDE, para, de viva voz, lhe poder expressar o seu descontentamento" [p. 124].

[Câmara Municipal de Palmela || 2017]

Preso em Caxias, foi duramente torturado, física e psicologicamente, na António Maria Cardoso: socos, pontapés, agressões com objectos vários, pistolas encostadas à cabeça e submetido, numa das vezes, à  tortura da estátua durante treze dias e treze noites, recusando, quase sempre, a responder a perguntas ou a assinar qualquer auto [p. 125].

Já quando tinha sido preso recusara olhar a objectiva da máquina fotográfica dos carcereiros, aparecendo de olhos cerrados aquando do acto de tirar as fotografias que constam do Registo Geral de Presos, sendo visível uma mão a segurar-lhe a cabeça.

[Artur Pereira das Neves || 24/05/1967 || ANTT || RGP/27769 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

Apesar do seu mutismo, a PIDE tinha um extenso relatório sobre as suas actividades, considerando que entrara para o Partido Comunista em 1958, quando trabalhava nos estaleiros da CUF, na Rocha do Conde de Óbidos, estando ligado, inicialmente, a Firmino João Martins [n. 29/05/1925], preso em Abril de 1963 e condenado a 24 meses de prisão correccional.

Dessas informações, constava que usara o pseudónimo de Alberto, organizara uma célula naqueles estaleiros e distribuíra panfletos e outra imprensa clandestina. Em meados de 1962, fora enviado para a União Soviética, tendo saído clandestinamente do país, aí permanecendo dez meses para frequentar a Escola Central do PCUS com o apelido Torres.

Regressado em Junho de 1963, não voltou ao trabalho que tinha, passando para a Sorefame e, depois, para a Cometna, onde ingressou em 1965 e terá formado uma célula, vivendo numa semi-clandestinidade. A sua residência em Pinhal Novo teria, então, servido de ponto de apoio do Partido Comunista.

Também foi acusado de formar uma célula em Pinhal Novo, o que levaria à prisão de cinco pessoas sem qualquer outra prova além de conhecerem Artur Neves.

Julgado em 19 de Fevereiro de 1968, foi condenado a 2 anos e 10 meses de prisão maior, 15 anos de suspensão de direitos políticos e aplicação de medidas de segurança de internamento de 6 meses a três anos, prorrogável.

Perante o Tribunal Plenário, Artur Pereira das Neves afirmou que a polícia o "havia torturado com o fim de o obrigar a assinar autos por ela forjados ao que ele se opôs" e, por isso, "recorreu a outro estratagema: prender pessoas suas amigas e obrigá-las à confissão de factos, por meio de torturas, que o incriminassem a ele. Que essas pessoas em breve ali iriam responder e que para elas pedia o perdão do Tribunal visto serem falsos os seus depoimentos" [p. 136].

Entrou no Forte de Peniche em 9 de Março, de onde só saiu em liberdade condicional em 21 de Dezembro de 1970. A definitiva só chegaria em 14 de Novembro de 1972.

Artur Pereira das Neves voltou, então, à acção política, mantendo a militância enquanto pôde ser activo. Como não foi reintegrado na Cometna, conseguiu colocação na Mague, em Alverca onde, depois de algum tempo, passou a viver com a família.

Fonte:
José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça, Câmara Municipal de Palmela, 2017, pp. 119-136.

[João Esteves]

domingo, 17 de novembro de 2019

[2192.] JOSÉ ANTÓNIO CABRITA [II] || A PIDE EM PINHAL NOVO

* JOSÉ ANTÓNIO CABRITA *

A PIDE EM PINHAL NOVO. PARA QUE A MEMÓRIA NÃO ESMOREÇA

Câmara Municipal de Palmela || 2017

[Câmara Municipal de Palmela || 2017]

Numa edição cuidada e rigorosamente documentada em cada um dos seus doze capítulos, tendo na capa uma fotografia de Maurício Abreu, "renomado fotógrafo, que aceitou ceder generosamente  a fotografia que dá rosto ao presente livro" [pp. 16-17], José António Cabrita tem como preocupação histórica do livro "A PIDE em Pinhal Novo - Para que a memória não esmoreça" evocar e homenagear os dez presos políticos associados àquela terra e levados "para os curros do Aljube, para o isolamento de Caxias, para o segredo de Peniche". 

Num pertinente aviso metodológico, reforçado em cada um dos nomes evocados, relembra que "os processos da PIDE, tal como se conhecem, devem ser considerados com precauções redobradas no que concerne a certificações da realidade" [p. 13], já que as declarações dos presos eram obtidas sob as mais variadas violências e torturas, não sendo "facilmente perceptíveis as falsidades que os interrogadores fabricam [...] em ordem a validarem [...] o seu ofício de bestas sem limites" [p. 13] e, por isso, procurou ir mais além "dos registos históricos e das fontes legitimadas", cruzando-os com as memórias possíveis dos protagonistas e lembranças de familiares e amigos, a que acrescenta as suas próprias memórias, socorrendo-se das palavras de António Borges Coelho de que "Não há história asséptica. Nenhuma bata esterilizada nos torna imunes" [p. 12].

Porque "A temática que este livro aborda, constitui, ainda, um território humano feito de muitos segredos, de persistentes omissões, de receios e de medos inculcados nos sentidos, de suspeições não apagadas, mas inconfessáveis, de imagens imaginadas e ideais, a par da realidade, muitas vezes cruel" [p. 13], importa desvendar as biografias de pinhalnovenses que, enquanto resistentes antifascistas assumidos ou presos caídos nas malhas da polícia política, conheceram os diferentes cárceres da ditadura entre 1936 e 1967. 

Antes de se centrar em cada um dos dez presos políticos de Pinhal Novo, e para que a memória não esmoreça, José António Cabrita sintetiza a evolução e explicita a terminologia e raio de acção das sucessivas polícias com intuito repressivo surgidas a partir de 1918, com Sidónio Pais (Repartição da Polícia Preventiva), até à criação da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (1933) e Polícia Internacional e de Defesa do Estado (1945), baptizada, em finais de 1969, Direcção Geral de Segurança.

E, também para que a memória não esmoreça, relembra "os lugares de clausura, cada um tão terrível como os demais" [p. 27], cuja jurisdição estava entregue à PVDE/PIDE/DGS, "um Estado dentro do Estado", e "onde foram encarcerados tantos opositores ao regime salazarista, corajosos e impenitentes, e onde muitos perderam a vida" [p. 27]: Aljube de Lisboa e do Porto, Caxias, Peniche; Angra do Heroísmo; Tarrafal de São Nicolau e Tarrafal de Santiago (Cabo Verde); Aipelo, Ataúro e Oé-Cussi (Timor); Ilha das Galinhas (Guiné); Missombo e São Nicolau (Angola); Machava, Ponta Mahone e Ilha do Ibo (Moçambique).

Por cada nome perpassa, numa teia de acontecimentos, memórias e sociabilidades familiares e locais, a história de 48 anos de repressão fascista, identificando as responsabilidades dos algozes de cada situação, a par de 48 anos de persistentes resistências que haveriam de culminar em 25 de Abril de 1974. Sem dúvida que uma das mais-valias do livro é o processo como o Autor, que tão bem conhece Pinhal Novo e assume a preocupação de o dar a conhecer, cruza cada uma das história de vida e prisional dos detidos pela PIDE com a sua inserção familiar, profissional, social, cultural e económica locais, pondo, ainda, o enfoque nas diferentes sociabilidades em que se moviam e quão importantes estas foram no apoio às famílias, vítimas das arbitrariedades da polícia política fascista. 

Se cada um dos presos enforma um percurso único, une-os as vivências colectivas da terra onde nasceram, escolheram viver ou trabalhar, bem como as repercussões de se ser um preso político nas respectivas famílias e o medo de colegas de trabalho, vizinhos ou conhecidos em arriscar qualquer cumprimento ou troca de palavras quando regressavam daquele calvário inconfessável.

Os dez detidos surgem em retrato inteiro e íntegro, empenhando-se o Autor por contrariar o exclusivo olhar, sempre redutor, dos arquivos da PIDE e dos seus tribunais. Ei-los: 

António Marreiros [16/01/1910 - 12/07/1971], grumete de manobras do navio Bartolomeu Dias aquando da revolta dos marinheiros de 8 de Setembro de 1936, "aquele que esteve preso no Tarrafal", [p. 37], que integrou a violentíssima Brigada Brava, que conheceu a "frigideira", onde penou 42 dias, e de onde só regressou em Junho de 1953 para, mesmo assim, dar entrada em Peniche. Quando libertado, depois de 17 anos de clausura, contava 43 anos de idade, os seus pais já tinham falecido sem nunca os ter voltado a ver, o filho tinha 22 anos e meio.

[António Marreiros || ANTT || RGP/4261 || PT-TT-PIDE-E-010-22-4261]

Manuel Veríssimo da Silva [02/02/1929 - 18/03/2000], o médico nascido em Pinhal Novo e que se licenciara em Coimbra em Julho de 1959, eleito, em Janeiro de 1962, Presidente da Direcção da Sociedade Filarmónica União Agrícola e preso pela PIDE no dia a seguir à tomada de posse, acusado de ter proferido frases de natureza subversiva aquando dos acontecimentos de Beja ocorridos nessa passagem de ano. Preso em 6 de Janeiro e libertado em 12 do mês seguinte, Veríssimo da Silva, que já tinha ficado isento de todo o serviço militar, "foi mandado para Angola, integrado numa força de cavalaria, como tenente miliciano médico" e aí permaneceu de 1964 a 1966 [p. 89]. Apesar de ser "homem de inspirações monárquicas" e "a sua prática política  [...] muito moderada" [p. 92], nunca mais deixou de ser vigiado pela PIDE.

José Artur dos Santos Cardoso [10/12/1932 - 19/07/1992], pintor dos quadros do Barreiro da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses - CP que, aquando do Golpe de Beja, integrou o "comando Serra" [p. 95], e teve "lugar de certo destaque nas acções de planeamento e de recrutamento", tendo sido em sua casa que ocorreram reuniões conspirativas e pernoitado, algumas vezes, o amigo Manuel Serra. Implicado nas três tentativas de assalto ao quartel de Beja, seria preso pela PIDE em 30 de Março de 1962: julgado em 29 de Julho de 1964, foi condenado a 2 anos anos e um mês e saiu em liberdade vigiada em 31 de Julho de 1965, obtendo a liberdade definitiva em 28 de Janeiro de 1971.

[Câmara Municipal de Palmela || 2017]

José Ferreira da Silva [29/09/1933 - 15/04/1986], admitido nas oficinas do Barreiro da CP como aprendiz eventual quando ainda não tinha quinze anos e que, quando desempregado, foi aliciado pelo amigo José Artur dos Santos Cardoso, para participar no assalto ao quartel de Beja no último dia do ano de 1961. Preso em 11 de Abril de 1962, metido nos curros do Aljube e interrogado, em 3 de Maio por Álvaro Pereira de Carvalho e Sílvio Mortágua, foi levado para Caxias no dia 4. Julgado, em 29 de Julho de 1964, pelo Tribunal Militar Territorial de Lisboa, foi condenado a dois anos de prisão maior e saiu em liberdade condicional em 12 de Março de 1965: a liberdade definitiva só chegaria em 25 de Maio de 1970. Segundo a esposa, com quem casou quando estava preso em Caxias, "ele não sabia ao que ia", tendo sofrido muito na prisão: "não o deixavam dormir e que o metiam numa sala com água a cair" [p. 115].

Artur Pereira das Neves [n. 27/12/1929], o operário serralheiro da Cometna e exímio jogador de xadrez, militante, juntamente com a mulher, a operária têxtil Maria da Graça Sousa Neves, do Partido Comunista, preso em 24 de Maio de 1967. Da revista policial à residência, levaram um volumoso  manuscrito seu sobre a situação política em Portugal e nunca recuperado, apesar das diligências efectuadas após 1974. Dias depois da prisão, a mulher organizou um documento em abono do companheiro e reclamando a sua libertação, contendo um total de 86 assinaturas, entre as quais as de 24 mulheres. Em 6 de Junho, endereçou-o ao director da PIDE, enviando-o por correio, tendo alguns dos subscritores vindo, também, a ser presos. Artur Pereira das Neves foi duramente torturado, física e psicologicamente, na António Maria Cardoso: socos, pontapés, agressões com objectos vários, pistolas encostadas à cabeça e submetido, numa das vezes, à tortura da estátua durante treze dias e treze noites, recusando, quase sempre, a responder a qualquer pergunta ou a assinar qualquer auto. Para além do seu mutismo perante a PIDE, José António Cabrita chama a atenção para o facto de Artur Pereira Neves se recusar a olhar a objectiva da máquina fotográfica dos carcereiros, aparecendo de olhos cerrados aquando do acto de tirar as fotografias que constam do Registo Geral de Presos, sendo visível uma mão a segurar-lhe a cabeça. Apesar de não ter proferido quaisquer declarações, a PIDE tinha um extenso relatório sobre as suas actividades, considerando que entrara para o Partido Comunista em 1958, quando trabalhava nos estaleiros da CUF, na Rocha do Conde de Óbidos, e que em meados de 1962, fora enviado para a União Soviética, onde permaneceu dez meses. Julgado em 19 de Fevereiro de 1968, foi condenado a 2 anos e 10 meses de prisão maior, 15 anos de suspensão de direitos políticos e aplicação de medidas de segurança de internamento de 6 meses a três anos, saindo de Peniche em 21 de Dezembro de 1970. Voltaria, então, à acção política, tendo conseguido colocação na Mague, em Alverca onde, depois de algum tempo, passou a viver com a família.

António Augusto Boteta Grilo [04/05/1934 - 22/02/2011], fogueiro da CP, preso em sua casa em 17 de Julho de 1967, acusado de integrar uma célula comunista em Pinhal Novo organizada por Artur Pereira das Neves. Libertado em 5 de Dezembro do mesmo ano, já que não havia quaisquer indícios de tal célula, nem do relacionamento conspirativo com Artur Neves, saiu de Caxias com a saúde muito debilitada devido às torturas e interrogatórios.

[Câmara Municipal de Palmela || 2017]

Carlos Alberto da Silva [25/04/1926 - 28/04/2009], serralheiro nas oficinas do Barreiro da CP e preso por seis agentes da PIDE no local de trabalho em 17 de Julho de 1967, quando já tinha 41 anos de idade, acusado pelos mesmos motivos de António Grilo. Tal como este, tinha assinado o documento a favor de Artur Neves. Do Barreiro levaram-no para as instalações da PIDE em Setúbal, de onde seguiu para interrogatório na António Maria Cardoso a caminho de Caxias. Submetido a quatro interrogatórios e torturado, sofrendo a tortura da estátua, entre outras, terá afirmado que fora aliciado para o Partido Comunista no início dos anos 60, tendo desenvolvido a sua acção política nas oficinas da CP no Barreiro. Solto ao fim de cinco meses, por não se conseguirem provas da sua ligação a Artur Neves e à célula do Pinhal Novo. Não pôde retomar o seu trabalho na CP, devido a um parecer da PIDE que desaconselhou a sua reintegração, provavelmente pelo seu envolvimento político em anos anteriores. Faleceu em 28 de Abril de 2009, com 83 anos completos. Militante comunista.

Desidério de Oliveira Macau [n. 25/04/1937], trabalhador da Siderurgia Nacional, com uma loja de mobílias aberta em Pinhal Novo havia pouco tempo. Preso no mesmo dia que António Grilo e Carlos Alberto da Silva, igualmente acusado de ligações a Artur Neves e a uma célula do Partido Comunista em Pinhal Novo. Em Caxias, chegou a partilhar a cela 6, localizada ao lado esquerdo do primeiro andar - pavilhão norte, com Rodrigo Apolónia Bento. Interrogado três vezes, foi submetido à tortura do sono durante quatro ou cinco dias e agredido duas vezes: com um objecto com um palmo de cumprimento que tinha uma bola de borracha numa das pontas e, na outra vez, com cinco murros "que lhe deixaram marcas nos dentes e na pele da cara" [p. 162]. Em Caxias, ainda passou pelo isolamento, no cubículo 29, no segundo andar do pavilhão norte. No tempo de cativeiro, e quando lho permitiam, jogava às cartas, "que ele próprio fazia com o papel dos maços de tabaco, embora não fumasse", "desenhava, em folhas que conseguia arranjar lá pela prisão, já que o papel que Isabel lhe levava para esse efeito, por ocasião das visitas, não era autorizado a entrar" [p. 165] ou escrevia poesia. Possui, ainda, alguns desses desenhos, todos devidamente carimbados pela PIDE, onde surge "o filho, ou outros meninos, ou a imaginação do futuro que ele julgara ter encontrado na loja de mobílias a que recentemente abrira as portas" [p. 165]. No verso de uma fotografia do seu filho, "de que nunca se separou", escreveu: "O meu companheiro dos dias amargos da minha vida" [p. 165]. Libertado ao mesmo tempo que Carlos Alberto, juntos percorreram o caminho de regresso ao Pinhal Novo.

[Câmara Municipal de Palmela || 2017]

Rodrigo Apolónia Bento [25/12/1925 - 31/05/2008], escriturário da CP, trabalhando em Lisboa nos Serviços Médicos, era conhecido por ser muito bom jogador de damas, "imbatível", e "um dos mais competentes xadrezistas" da terra, sendo preso pela PIDE em 17 de Julho de 1967. Era o quarto homem a ser acusado de integrar uma célula comunista do Pinhal Novo só porque se cruzara com Artur Neves, com quem jogara xadrez, tendo estabelecido, por isso, certa amizade. Libertado, tal como os outros, em 5 de Dezembro de 1967, nunca mais foi o mesmo desde que saiu da prisão: isolou-se e tornou-se taciturno [p. 174].

Brito da Silva Rosa [24/09/1927 - 02/09/2005], ferroviário, com as funções de factor a prestar serviço no apeadeiro de Montenegro, antes da estação Funcheira, foi preso no dia 19 de Julho de 1967, pelas seis e trinta da manhã, quando se apeava na estação ferroviária do Pinhal Novo, acusado de integrar uma célula comunista local. Estava, ainda, com o fardamento da CP. Num segundo interrogatório, terá afirmado que passou a receber mensalmente o jornal Avante! através de Artur Neves e que, por duas vezes, contribuiu com dinheiro para o Partido Comunista, embora não fosse seu militante. Segundo o filho, era possível que tivesse sido o pai a dactilografar o documento abaixo-assinado a favor de Artur Neves [p. 184]. Libertado, tal como os restantes, em Dezembro, voltou ao seu lugar na CP, sendo transferido para a estação de Mato de Miranda, na Linha do Norte. Residiu, primeiro, em Vale de Figueira e, depois, em Torres Vedras. A seguir ao 25 de Abril voltou para o Pinhal Novo.

[Câmara Municipal de Palmela || 2017]

Apesar do medo, da violência, das prisões arbitrárias, valia a pena resistir e, nas eleições para Deputados à Assembleia Nacional, de 26 de Outubro de 1969, ganhou, na assembleia eleitoral de Pinhal Novo, a lista da CDE com 229 votos contra 219 da do governo. 

O meu muito obrigado a José António Cabrita pela disponibilidade e prontidão com que facultou este importante livro de combate à desmemória histórica do que foi o fascismo português, retirando do esquecimento dez resistentes pinhalnovenses.


[Câmara Municipal de Palmela || 2017]


[João Esteves]

sexta-feira, 12 de abril de 2019

[2099.] JOSÉ ANTÓNIO CABRITA [I] || DEPORTADOS EM TIMOR

* JOSÉ ANTÓNIO CABRITA *

NA LONJURA DE TIMOR | LHA DOOK RAI TIMOR

Díli || Crocodilo Azul || 2016


Imperdível leitura para quem queira acompanhar as diferentes vagas de deportados, «aqueles que estão fora do seu porto por terem sido dele expulsos, do seu bom porto, entenda-se», e de degredados, aqueles «que estão em lugar que não agrada, mas que não podem deixar», para Timor, chegando a totalizar meio milhar de homens. 

Numa escrita apurada e envolvente da primeira à última nótula, suportada no rigor da interpretação e interpelação das fontes, José António Cabrita cruza com exactidão e exaustão documentos oficiais, imprensa, livros, registos memorialistas e narrativas que as famílias preservam, reconstruindo, “Na lonjura de Timor”, percursos e vivências de Homens que o tempo apagou ou foi esquecendo.

Primeiro, aqueles que, na segunda metade do século XIX, para lá foram remetidos enquanto presos civis, vadios e cadastrados: os catorze sobrevivos que constam da relação de Março de 1857, escriturada pelo Governador Luís Augusto de Almeida Macedo; e os onze deportados e cerca de trinta soldados «condenados em tribunal militar» e «compelidos a cumprir a pena de servir no ultramar», desembarcados em 18 de Novembro de 1859.

Depois, os indianos “Fondús”, «súbditos ingleses degredados em Timor», e “Ranes”, oriundos da «Índia Portuguesa» que, na segunda metade do século XIX e início do seguinte, deram continuidade à «vocação carcereira» da ilha, sem deixar cair no esquecimento dois companheiros e conselheiros de Gungunhana que, em 1933, viram autorizado o seu regresso a Moçambique, pondo fim a quase três décadas de deportação.

Por fim, o grupo de Homens que, por defenderem causas – sociais e políticas –, viram as suas vidas aí desterradas e reiniciadas: no tempo da Monarquia quando, em Setembro de 1896, o navio África desembarcou, em Díli, «catorze homens, tidos por anarquistas»; na sequência de acontecimentos da década de 20, durante a 1.ª República, com o navio Pero de Alenquer a largar, em Setembro de 1927, activistas das juventudes sindicalistas e outros acusados de pertencerem à “Legião Vermelha” e, como tal, estarem envolvidos no atentado contra o tenente-coronel João Maria Ferreira do Amaral, comandante da Polícia Cívica de Lisboa, ocorrido em 15 de Maio de 1925; ou por terem participado em revoltas reviralhistas contra a Ditadura Militar, nomeadamente no movimento revolucionário de 26 de Agosto de 1931, enchendo os navios Pedro Gomes e Gil Eanes que, embora largados de Lisboa em alturas diferentes e tendo seguido rotas distintas, aportaram no mesmo mês de Outubro de 1931; culminando no são-tomense Mário Lopes da Silva, o último deportado para Timor em forma de «residência fixada» e aí chegado em 23 de Julho de 1947. 

São muitos os nomes revisitados e revividos por José António Cabrita, sendo de realçar os de Antero Tavares de Carvalho, “perigoso” anarquista que integrou a leva de 1896, exerceu vários cargos da administração colonial em diversas possessões e chegou a Governador Interino de Angola, nomeado em Agosto de 1924; Joaquim António Pereira, o “Bela Kun”, que «acabaria por morrer à fome, em Dezembro de 1929, no presídio de Batugadé […] após um conflito com outro deportado» e o anarquista José da Silva Gordinho, de novo perseguido e preso aquando do regresso em 1946, ambos do grupo de 1927; e António Augusto Dias Antunes, envolvido no movimento revolucionário de 26 de Agosto de 1931. Militar mais graduado dos que estavam deportados, zelou por estes enquanto seu representante junto das autoridades coloniais de Timor e muito contribuiu para que o campo de concentração de Ataúro não degenerasse, antes do tempo, «num Tarrafal».

A narrativa de José António Cabrita prolonga-se para além de 5 de Dezembro de 1932, quando houve a amnistia para muitos dos que se encontravam em Timor, sendo oito os não abrangidos, entre os quais três que já tinham conseguido evadir-se [Alfredo António Chaves, Francisco Oliveira Pio e Manuel António Correia].

O foco passa, então, para o percurso, vivências e famílias de dois deportados com atitudes opostas durante a invasão japonesa de Timor na sequência da Segunda Guerra Mundial: Manuel Viegas Carracalão, anarquista e antigo dirigente das Juventudes Sindicalistas chegado em 1927, enquanto defensor da posição de neutralidade face ao conflito, atitude perfilhada pelo Governo Português; e Carlos Cal Brandão, maçon e oposicionista que aportara em 1931, enfileirando na resistência das forças aliadas à ocupação nipónica. E enquanto o primeiro vai deixando cair no esquecimento os ideais do seu passado, integrando-se nos meandros coloniais de Timor até 1974, Carlos Cal Brandão, que tinha sido evacuado para a Austrália em 1943 e seria impedido de regressar a Timor finda a Guerra, como desejava, manteve-se enquanto antifascista até 1973, ano em que faleceu, com várias detenções e prisões pela PIDE. 

“Na lonjura de Timor” encerra com Mário Lopes da Silva, o último deportado aí chegado em Julho de 1947, depois de vivências atribuladas na Guiné, de onde fora decretado a sua expulsão em 1931, e em S. Tomé, «onde havia ousado afrontar o governador», o major Carlos de Sousa Gorgulho.

Sem nunca descurar a precisão de conceitos e os contextos sociais, políticos, institucionais e familiares de cada situação em análise, quando as fontes se revelam parcas no elucidar dos acontecimentos, José António Cabrita não hesita em sugerir hipóteses fundamentadas e colmatar vazios interpretativos.

Num livro recheado de vivências duramente marcadas pelos decisores políticos de cada época, envolvendo “presos civis, vadios e cadastrados”, “deportados sociais” e “deportados políticos”, muitos outros nomes preenchem as dez nótulas, magistralmente encadeadas umas nas outras: «Alguns não resistiram às duras condições de vida; outros ali ganharam impulso para outros destinos, havendo um que alcançaria, até, um dos mais altos lugares da administração colonial; outros, ainda, se ficaram pela ilha verde e vermelha de Timor, construindo família e forjando um património material e social de grande vulto; e houve quem, vencido o tempo da pena, voltasse às suas origens para continuar a lutar pelos seus ideais». 

O meu muito obrigado ao Autor por dar a conhecer e a ler este belíssimo e estimulante livro.




[José António Cabrita || Na lonjura de Timor || Crocodilo Azul || 2016]

[João Esteves]

domingo, 8 de abril de 2018

[1786.] MUSEU DO ALJUBE - RESISTÊNCIA E LIBERDADE || LIVROS NO ALJUBE

* LIVROS NO ALJUBE || JOSÉ ANTÓNIO CABRITA || A PIDE EM PINHAL NOVO: PARA QUE A MEMÓRIA NÃO ESMOREÇA *

|| 10 DE ABRIL || 18.30 || 

APRESENTAÇÃO: NUNO NETO MONTEIRO | DESIDÉRIO MACAU ||