[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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terça-feira, 1 de setembro de 2015

[1070.] MARIA HERMÍNIA ALVES DE MIRANDA MACÁRIO

* CONSELHO NACIONAL DAS MULHERES PORTUGUESAS || FIGUEIRA DA FOZ *

- MARIA HERMÍNIA MIRANDA MACÁRIO -

Apesar de alguns estudos fundamentais, como os de Vanda Gorjão, Manuela Tavares, Lúcia Serralheiro, Célia Costa e Cecília Honório, muitos dos nomes que participaram no associativismo feminino nas primeiras três décadas do século XX e, posteriormente, nas agremiações conotadas com a Oposição à Ditadura de 48 anos continuam esquecidos e não tem sido fácil reconstruir os seus percursos, actividades, militâncias e sociabilidades.

Porque não integravam o grupo de dirigentes ou eram mais discretas, não sentiram necessidade de valorizar a sua intervenção, remeteram-se, ou foram remetidas, ao silêncio, continuando na penumbra.

Maria Hermínia Alves de Miranda Macário, casada com o juiz Manuel Ribeiro Macário e mãe de Maria Manuela Miranda Macário, dirigente do MUD Juvenil e presa em 7 de Março de 1955, é um desses nomes. 

De tal modo discreta que a filha, em conversa com Cecília Honório, sugere que, ao contrário do pai que tanto a marcou, a mãe era uma figura apagada [Mulheres contra a Ditadura, Bertrand Editora, 2014, p. 176]. E no entanto, Maria Hermínia Miranda Macário integrou, em 1946, o grupo das catorze subscritoras que, através de abaixo-assinado dirigido à Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, Maria Lamas, solicitou a criação duma delegação na Figueira da Foz, “tendo em vista levar a efeito várias realizações de alcance cultural e social, no sentido de elevar a mulher a um grau de maior dignificação e de prestar à criança a assistência de que carece” [Abaixo-assinado dirigido à Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, documentação gentilmente cedida por D. Natividade Correia].

Quão importante e urgente se torna recuperar cada um destes nomes que, mesmo que pontualmente, fizeram-se ouvir, tomaram posição e assumiram riscos. 

[João Esteves]

sábado, 15 de agosto de 2015

[1068.] CLAUDINA GAUDÊNCIO [I] || CNMP E AFPP

* CLAUDINA DE ALMEIDA HENRIQUES GAUDÊNCIO *

[n. 22/04/1907]



Filha de Felicidade de Almeida e de Honorato Henriques, nasceu em Lisboa a 22 de Abril de 1907.

Casada com Amadeu Gaudêncio [04/04/1889 - 13/10/1980], aderiu em 1945 ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, onde, segundo estudo de Célia Costa, marcou presença em quinze das reuniões realizadas entre Novembro de 1945 e Junho de 1947.

No início da década de 50, militou na Associação Feminina Portuguesa para a Paz. Desempenhou, em 1951, as funções de 1.ª Vogal do Conselho Fiscal.

Madrasta de Maria da Conceição Gaudêncio [Soares], casada com Tertuliano Lopes Soares, médico-cirurgião, irmão mais velho de Mário Soares, e de Josefina Gaudêncio [Simões], casada com o arquitecto João Simões [1908-1995], tendo ambas aderido ao CNMP, então presidido por Maria Lamas, no mesmo ano de 1945 [“Novas sócias”, Alma Feminina, nº 14, Novembro, 1945].

Josefina Gaudêncio Simões, mãe da arquitecta Maria João Gaudêncio Simões George [1948-2006], participou em algumas das reuniões do CNMP em conjunto com Claudina Gaudêncio e militou no mesmo período na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde desempenhou, entre 1948 e 1951, cargos nos Corpos Gerentes: 2.ª Vogal da Direcção (1948), Vice-Presidente da Assembleia Geral (1949, 1950) e 2.ª Secretária da Direcção (1951).

Emília Gaudêncio, sobrinha de Claudina Gaudêncio, também aderiu ao CNMP em 1945.

[João Esteves]

terça-feira, 11 de agosto de 2015

[1061.] LÍLIA DA FONSECA [I]

* MARIA LÍGIA VALENTE DA FONSECA SEVERINO *
[21/05/1906 - 13/08/1991]
[Fotografia publicada em Faces de Eva, nº 9, 2003, cedida pela irmã Hortense de Almeida]

Jornalista, publicista e escritora que ficou conhecida pelo pseudónimo literário de Lília da Fonseca.

Filha “de uma angolana natural de Luanda” [Hortense de Almeida] e de um republicano e maçon, nasceu em 21 de Maio de 1906, “e não em 1916 como sempre declarou nos seus dados biográficos” [H. de Almeida], em Benguela. 

[O Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV (Coordenação de Ilídio Rocha), Publicações Europa-América, 1997, pp. 607-608, apresenta a mesma data de nascimento].

Estudou em Coimbra, no Liceu Infanta D. Maria, e no Porto, na Escola Carolina Michaëlis.  

Foi redactora de A Província de Angola e Jornal de Angola; colaborou nos periódicos Acção, Jornal de Benguela, Modas & Bordados, Os Nossos Filhos e Seara Nova; e idealizou e dirigiu, entre 1950 e 1956, o Jornal-Magazine da Mulher, concretizando o projecto de publicar uma revista mensal dedicada aos problemas das mulheres portuguesas. 

Lília da Fonseca era também um dos proprietários deste magazine, sendo o trabalho de feitura e coordenação efectuado na sua casa, “posto que os meios financeiros para o empreendimento eram muito escassos e não consentiam despesas com instalações próprias” [Gastão de Vasconcelos], e contou com o apoio e a colaboração de intelectuais ligados à oposição à ditadura e que tinham aderido ao Movimento de Unidade Democrática, nomeadamente Alberto Ferreira, Clara Sérgio, Humberto d’Ávila, Lima de Freitas, Nascimento Rodrigues e Gastão de Vasconcelos [Gastão de Vasconcelos, "Jornal-Magazine da Mulher", Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), Lisboa, Livros  Horizonte, 2005].

No editorial de apresentação, explicava-se o seu aparecimento, pretendendo proporcionar uma leitura de temas relacionados com a mulher, “a que coopera com o homem na luta pelas condições de vida, na educação dos filhos, nas melhorias do trabalho”.  Começou com 30 páginas, a partir de 1954 passou a ter 48 e até Fevereiro de 1956 saíram 52 números, sendo que a partir do nº 49, de Setembro de 1955, passou a chamar-se apenas Jornal Magazine, numa tentativa de chegar a um público mais vasto. 

Não deixa de ser relevante a qualidade dos colaboradores deste projecto de Lília da Fonseca, quase todos oposicionistas, referidos por Gastão de Vasconcelos no seu texto para o Dicionário no Feminino: "no conto, Miguel Torga, Fernando Namora, Manuela de Azevedo, José Saramago, Alexandre Cabral, Manuela Porto (prematuramente falecida, infelizmente); em artes e letras, José Régio, Alves Redol, Ilse Losa, Carlos Oliveira, Nascimento Rodrigues; ilustradores, foram Júlio Pomar, Lima de Freitas, Querubim Lapa; sobre teatro, Jacinto Ramos, Fernando Gusmão, Maria Barroso; sobre música, Humberto d’Ávila, João de Freitas Branco, Francine Benoit... No desporto e campismo, encontramos Fernando de Almeida, enquanto em assuntos sobre as “colónias”, escreveram a directora, Lília da Fonseca, Alda Sara, Augusto Casimiro; questões jurídicas foram tratadas por Luz Pinheiro. Foram ainda colaboradores (entre muitos outros, repita-se) José Marinho, Graça Brosque, Isaura Correia Santos". 

É de destacar que o periódico inseriu um depoimento de Maria Barroso sobre a Associação Feminina Portuguesa para a Paz e abordou o caso das enfermeiras dos Hospitais Civis que então não eram autorizadas a casar.

A par do jornalismo, sendo autora de crónicas e de reportagens, publicou, durante mais de 30 anos, novelas, romances, contos, poesias, literatura infantil, onde se notabilizou, e peças de teatro, tendo-lhe sido atribuído, em 1960 e 1963, o Prémio João de Deus. 

Fundou a Cooperativa «Ludus», de livros infantis, e dedicou-se à arte das marionetas, consubstanciada na fundação do Teatro de Branca Flor em 1962 [História do Teatro de Branca-Flor nos seus 20 anos de existência (1962-1982), 1982] e, no seu seio, do Centro de Animação de Fantoches. 

Data da década de 40, quando se fixou definitivamente em Lisboa, a defesa de posições políticas de esquerda e o engrossar da oposição à Ditadura do Estado Novo. 

Na segunda metade da década de 40, durante a presidência de Maria Lamas, militou activamente no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, tendo, segundo o estudo de Célia Costa, participado em 37 reuniões realizadas entre 10 de Novembro de 1945 e 26 de Junho de 1947, número só superado por Fernanda Tasso de Figueiredo. Algumas das suas obras estiveram expostas na Exposição de Livros Escritos por Mulheres organizada pelo Conselho em 1947. 

Assinou na revista Alma Feminina, órgão do CNMP, um artigo sobre o sufrágio feminino [“O voto da mulher”, Alma Feminina, nº 14, Novembro, 1945, pp. 8-9]. Neste texto, e a propósito do que se passava em França, Lília da Fonseca não só considerava que “quando os governos de todo o mundo forem mistos, é possível que diminua a possibilidade da guerra”, como defendeu, para Portugal, o direito da mulher poder votar nas mesmas condições que o homem. No mesmo escrito, apelou à sua consciência cívica, que não se devia limitar à futilidade dos chás de caridade e das esmolas, “dadas muito embora com carinho e devoção”.

Também marcou presença na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, tendo assinado um escrito sobre a Paz no seu Boletim [“A Paz pela transformação do homem”, Boletim da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, nº 7, Julho, 1950]. 

A seguir ao fim da Guerra, em Novembro de 1945, foi signatária de um manifesto de intelectuais em que se protestava contra «as limitações de toda a espécie» de que a sua actividade era objecto [Mário Matos e Lemos, Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973). Um Dicionário, Texto Editores, 2009].

Em 1957, com a médica Cesina Bermudes e a escritora Natália Correia, fez parte da Comissão Cívica Eleitoral de Lisboa, que procurava dar enquadramento legal à oposição nas eleições que se avizinhavam. Aquela Comissão organizou, a 4 de Janeiro de 1958, um jantar de homenagem a Lília da Fonseca, a que compareceram cerca de 120 pessoas, entre as quais Cesina Bermudes, e durante o qual se procurou acordar numa estratégia comum para a escolha de um candidato presidencial de toda a oposição, tendo a escritora integrado, posteriormente, a Comissão Central da Candidatura de Arlindo Vicente [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política – O Prisioneiro (1949-1960), Vol. 3, Lisboa, Temas e Debates, 2005].

Em 21 de Abril de 1960 proferiu uma conferência na Casa dos Estudantes do Império intitulada "O jornalismo em Angola", tendo já em 1948 estado associada ao Movimento dos Novos Intelectuais de Angola [MNIA], que tinha como lema "Vamos descobrir Angola", onde trabalhou ao lado de outros poetas e escritores, nomeadamente Cochat Osório.

Em 1969, participou no grupo restrito de dez  mulheres que formaram a Comissão Democrática Eleitoral de Mulheres e fez parte da Comissão Distrital da CDE de Lisboa. 

A partir de 1977, e até ao seu falecimento, integrou o Conselho Nacional do Movimento Democrático de Mulheres.

Faleceu em Alverca do Ribatejo, com 85 anos de idade, deixando “um conjunto de 23 obras” inéditas. 

Hortense de Almeida testemunha o que foi a sua vivência em texto publicado na revista Faces de Eva [Hortense de Almeida, “Pioneiras - Lília da Fonseca”, Faces  de Eva. Estudos sobre a Mulher, nº 9, 2003, pp. 167-174, 2003]. 

[João Esteves]

terça-feira, 8 de julho de 2014

[0706.] MARIA CESARINA MARTINS TAVARES GONÇALVES DE CASTRO [I]

* Maria Cesarina Martins Tavares Gonçalves de Castro ou o discreto trabalho na retaguarda *
[Fotografia cedida por uma sobrinha, Maria Eduarda Castro, para a Biografia de Antifascistas da Resisitência]

Pelo Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, fundado há cem anos, em 1914, e encerrado pela ditadura salazarista em 1947, passaram três grupos distintos de mulheres: o primeiro, conotado com o republicanismo, com intervenção durante a Monarquia e os primeiros anos da República; o da década de 1920, que incluiu as primeiras jovens estudantes universitárias ou recém-licenciadas, como Elina Guimarães [1904-1991] [0558, 0559]; e o da década de 1940, quando a organização ganhou novo fôlego com o aproximar da derrota do nazismo e a liderança de Maria Lamas [1893-1983].

Nos três grupos, as mulheres que aderiram, filiando-se formalmente, apresentam vivências únicas, a maioria das quais por redescobrir.

No caso das mulheres que se empenharam nos anos 40 – várias centenas encontram-se já recenseadas – há, na maioria das situações, ligações, ora explícitas ora clandestinas, aos movimentos de oposição ao salazarismo e ao Estado Novo.

Cada nome representa uma vida por recontar. E quando se descortinam as redes familiares, profissionais e de sociabilidades encontram-se conexões surpreendentes. 

É o caso de Maria Cesarina Martins Tavares Gonçalves de Castro. 

Compareceu, entre novembro de 1945 e junho de 1947, a 18 reuniões do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas [v. Célia Costa, O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (1914-1947) - uma organização feminista], tal como Maria Alda Nogueira [1923-1998], entre outras, e ocupou o cargo de Tesoureira na última direção eleita (25/06/1946), sendo aquela presidida por Maria Lamas.

Depois o seu nome, praticamente ignorado atualmente, desaparece com a proibição do CNMP.

Só que este nome, aparentemente “irrelevante” como tantos outros, já que parecia não sobressair entre as que se empenhavam ativamente na luta oposicionista, desempenhou, com o marido – Mário da Costa Carvalho Gonçalves de Morais e Castro –, importantíssimo trabalho de retaguarda de proteção aos principais dirigentes do Partido Comunista na clandestinidade e que, não raras vezes, faziam da sua casa porto de abrigo seguro. 
  
Filha de José Eduardo Tavares, de origem aristocrática alentejana que abandonou a lavoura para se instalar em Lisboa por questões sentimentais, onde cursou Veterinária, e de Antónia Adelaide Martins, nasceu na capital a 9 de junho de 1912. 

Segundo o filho, o advogado e ator José Armando Tavares de Morais e Castro [30/09/1939-22/08/2009], frequentou um colégio, onde foi colega de Beatriz Fogaça, irmã mais velha de Júlio Fogaça, tinha uma formação católica apostólica romana e chegou a pensar ser freira, tendo, pelo casamento com Mário da Costa Carvalho Gonçalves de Morais e Castro [n. 19/03/1914] e convívio com a família deste, nomeadamente o primo Armando de Castro [Armando Fernandes de Morais e Castro, 18/07/1918-16/06/1999], modificado a forma de pensar e virado à esquerda.

Na entrevista concedida a Miguel Medina [1951-2006] por José Morais e Castro, este afirma que tanto o pai – republicano, apoiante da campanha presidencial de Norton de Matos – como a mãe terão entrado para o Partido Comunista através do convívio com Aníbal da Silva Bizarro [n. 21/02/1908], ex-tarrafalista [1937-1944] empregado na Philips onde Mário de Morais e Castro era secretário da administração, passando a casa, sita em Campo de Ourique, a funcionar como local de apoio do Comité Central. 

Pela residência passaram vários e relevantes dirigentes comunistas: Álvaro Cunhal [1913-2005], Américo de Sousa [1918-1993], António Dias Lourenço [1915-2010], Francisco Martins Rodrigues [1927-2008], Jaime Serra [n. 1921], Joaquim Pires Jorge [1907-1984], José Dias Coelho [1923-1961], Júlio Fogaça [1907-1980], Octávio Pato [1925-1999], Sérgio Vilarigues [1914-2007], entre outros. 

Aquando da fuga de Peniche, Álvaro Cunhal chegou a estar refugiado naquela casa cerca de um mês com Isaura Moreira e a filha de ambos, de escassos meses.  

Curiosamente, a casa funcionaria também como tesouraria do Partido Comunista, tendo Maria Cesarina Martins Tavares Gonçalves de Castro desempenhado exatamente o cargo de Tesoureira quando integrou o CNMP.

Devido à importância que a casa tinha, não era possível aos seus donos e ocupantes exercerem quaisquer outras atividades políticas em simultâneo, percebendo-se, assim, por que razão o nome de Maria Cesarina é ainda tão pouco referenciado. No entanto, devia ser das pessoas que teria muito a contar, já que raras terão sido as casas por onde passaram tantos e tão variados dirigentes de épocas distintas, sem que tenha sido alguma vez identificada pela polícia política.

Refira-se que o tio do marido, Amílcar Gonçalves de Morais e Castro [n. 1896] esteve várias vezes preso e a sua mulher, Irene Fernandes de Morais e Castro [1895-1975], presidiu à seção do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

Maria Cesarina Castro faleceu em 30 de Julho de 1995.

[João Esteves]