[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

[2189.] JOSÉ RUAS FERREIRA [II] || MILITANTE DAS JUVENTUDES COMUNISTAS ASSASSINADO EM 4 DE SETEMBRO DE 1932

* JOSÉ RUAS FERREIRA *
[1908 ? - 04 ou 27/09/1932]

ASSASSINADO NO COMÍCIO-RELÂMPAGO DE ALCÂNTARA DE 4 DE SETEMBRO DE 1932

[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0248]

Um dos primeiros jovens a ser assassinado pela Polícia na via pública, quando participava num comício-relâmpago organizado pela Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas no Largo de Alcântara, em 4 de Setembro de 1932, para celebrar o Dia da Juventude. 

Filho de Clara das Dores Ferreira e de Manuel Cerqueira [ou Sequeira, segundo o Processo 52/1932] Ruas, José Ruas Ferreira nasceu na Freguesia de S. Jorge - Arcos de Valdevez. 

Referenciado como manipulador do pão ou padeiro, José Ruas Ferreira teria ligações ao Partido Comunista e ao Socorro Vermelho Internacional desde 1927, quando foi abordado pelo sapateiro e militante comunista José  Silva [autor de Memórias de um operário publicadas no Porto em 1971 e que, significativamente, vivia no mesmo arruamento - Rua da Senhora das Dores - 45].

Em 15 de Abril de 1931, foi preso pela Delegação do Porto da Polícia Internacional Portuguesa, «por estar envolvido no movimento revolucionário e por ser revolucionário avançado» [ANTT, Cadastro 1053 que consta do Processo 52/1932], sendo libertado em 28 de Abril.

[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0244]

Já a residir na Rua de Santa Catarina 1022, foi preso pela Delegação da Polícia Internacional Portuguesa em 4 de Março de 1932, quando tinha 24 anos, «por pertencer ao Socorro Vermelho Internacional e Partido Comunista».

[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0243]

Interrogado em 9 de Março de 1932 por Joaquim do Passo, confirmou que tinha sido aliciado para o Partido Comunista pelo sapateiro José Silva, tendo participado em reuniões em que estiveram presentes, para além daquele, Adalberto Pinto de Oliveira, o alfaiate António de Carvalho, António Nunes, o padeiro Basílio Tavares, o sapateiro Benjamim Marques, o padeiro Manuel João, o ferroviário Maximiano Pires, morador em Campanhã, o tipógrafo Rodrigo Lopes, entre outros cujo nome desconhecia.  




[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232]

Referiu, ainda, que pagou sempre as quotas até Abril de 1931, quando foi preso, e depois de ter saído da prisão. 

Em princípios de Julho ou Agosto de 1930, fora nomeado para uma comissão com o fim de organizar as Juventudes Comunistas no Porto, tendo participado em reuniões com Adalberto Pinto de Oliveira, José da Silva, que orientava os trabalhos, e o cortador de carnes Manuel da Silva. A organização não teria tido mais do que seis filiados - Adalberto Pinto de Oliveira, João Rodrigues Viegas, José Ruas Ferreira, Manuel de Oliveira e dois outros -, tendo as actividades ficado desorganizadas com a prisão de José Silva.

Por fim, em princípios de Agosto de 1931, fora contactado por Manuel Viana Ribeiro [ANTT, RGP/421] para organizar a Zona 2 do Socorro Vermelho Internacional, tendo aliciado o padeiro António Braga, trabalhador na Padaria Alemã, na Rua Mártires da Liberdade, o padeiro Constantino da Costa, residente em Pinhão, e o ferroviário Maximiano Pires. 

[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0257]

Enviado preso para Lisboa em 14 de Abril de 1932, por despacho do Ministro do Interior, de 22 de Junho, foi-lhe fixada residência obrigatória em Peniche [Processo 52/Porto], para onde seguiu em 9 de Agosto e de onde se evadiu.

Pouco depois, em 4 de Setembro, José Ruas Ferreira participou no "comício-relâmpago" de Alcântara, tendo Francisco de Paula de Oliveira (Pável) sido o orador e estando presentes, entre outros, Domingos dos Santos - "O Calabrez", Manuel dos Santos e Pedro Batista da Rocha. 

Do confronto com a polícia, resultou a morte do guarda António Trancoso e do manifestante identificado, inicialmente, como Alfredo Ruas. Alvejado e levado, sob prisão, para o Hospital de São José, aí faleceu, sendo que o inspector da PIDE Fernando Gouveia também o referencia, nas suas memórias, por José Ruas. 

[José Ruas Ferreira || ANTT || Cadastro Político 3956]

Também na data do seu falecimento há disparidades, já que, primeiro, anotou-se no seu Cadastro que faleceu naquele Hospital em 27 de Setembro de 1932, «em virtude de ter sido ferido, quando da manifestação comunista em Alcântara, em 4 deste mês» [ANTT, Cadastro Político 3956; Processo 561].

Depois, acrescentou-se que «foi ferido quando dos tumultos que, neste dia, tiveram lugar em Alcântara, motivados pela manifestação ali levada a efeito pelas Juventudes Comunistas, comemorando a XVIII Jornada Internacional, tendo dado entrada, sob prisão, no Hospital de S. José, por haver suspeitas do epigrafado ter sido um dos provocadores dessa desordem e ter feito uso da sua arma de fogo» [ANTT, Cadastro Político 3956; Processo 558], constando como data do seu falecimento o dia 4 de Setembro.

Fonte:
ANTT, Processo Crime de António Domingues Ferreira, Fernando Alves de Sousa e Ângelo Alves Ribeiro [PT/TT/PIDE-DP/D/001/5232] [Processo 52/1932].

ANTT, Cadastro Político 3956 [José Ruas Ferreira / PT-TT-PIDE-E-001-CX12_m0689, m0689a].

[João Esteves]

domingo, 16 de dezembro de 2018

[1977.] JOSÉ BORREGO [II] || COMISSÃO CENTRAL DO MUD-JUVENIL

* JOSÉ MARIA SOARES BORREGO *
[27/03/1918 - ]

[José Borrego || Fotografia de 14/04/1947 || ANTT || RGP/17439]

Quarto filho de Maria José Soares Borrego e de José Maria Borrego Júnior, José Maria Soares Borrego nasceu em 27 de Março de 1918, em Castelo Branco, onde o pai se encontrava com escrivão de direito.

O pai, «militante e propagandista do Partido Democrático de Afonso Costa» e que, quando jovem escrivão de direito em Figueira de Castelo Rodrigo e em Castelo Branco, tinha sido «proprietário, director, redactor e repórter de jornais progressistas e até mesmo proprietário de tipografias várias vezes "empastelada" pelos reaccionários, que o ameaçavam e atacaram várias vezes à paulada, a soco e a tiro», era um democrata e opositor à Ditadura Militar, muito contribuindo para a formação  humana e política dos cinco filhos.

Com oito anos, estando a família já a residir no Porto, José Borrego assistiu à Revolta de 3 de Fevereiro de 1927 contra a Ditadura Militar, disso dando conta num texto que publicou em 1982, na revista História [n.º 40, Fevereiro], intitulado "Fevereiro de 1927: crónica de uma revolta falhada".

[História || Nº 40 || Fevereiro de 1982]

Esses cinco dias intensamente vividos, constituíram uma lição «que nos deixaria marcas que não mais se apagariam».

Em 1936, com dezoito anos, entrou na Escola de Belas-Artes do Porto, onde se evidenciou como activista estudantil. 

Em 4 de Dezembro de 1939, juntamente com os colegas Amândio da Silva, Celestino de Castro, Fernando Monteiro, Francisco Valente, Hernâni Moreira, Joaquim Bento de Almeida, Maria Margarida Soares e Nadir Afonso, assinou a carta enviada ao Ministro da Educação a solicitar autorização para, ao abrigo do decreto regulamentar 21.566 de 6 de Agosto de 1932, fundar a Associação Académica de Belas-Artes do Porto [Gonçalo Esteves de Oliveira do Canto Moniz, O Ensino Moderno da Arquitectura. A Reforma de 57 e as Escolas de Belas-Artes em Portugal (1931-69), Dissertação de Doutoramento em Arquitectura, Coimbra, 2011, Vol. I].

Em 30 de Julho de 1943, segundo Gonçalo Canto Moniz, José Borrego integrou o grupo de 54 estudantes que enviou uma carta ao director da EBAP a apelar à permanência de Carlos Ramos como docente daquela instituição. Entre os subscritores constava, também, o nome de Lobão Vital, cuja amizade se manteve até ao fim.

Em 1946, integrava o denominado “Grupo de Estudantes de Belas-Artes do Porto" que editava um Boletim, promovia actividades e conseguiu, ainda, «implementar o funcionamento de assembleias-gerais de alunos, como espaço de discussão sobre as actividades do grupo e sobre o funcionamento da escola». O Conselho Escolar da EBAP interditou-o e, em 1 de Junho, foi aplicada a vários alunos, entre os quais José Borrego, uma suspensão por 90 dias [Gonçalo Canto Moniz].

Nesse mesmo ano, fez parte da Comissão Central do MUD - Juvenil, juntamente com António Abreu, Francisco Salgado Zenha, Júlio Pomar, Maria Fernanda Silva, Mário Sacramento, Mário Soares, Nuno Fidelino de Figueiredo, Octávio Pato, Óscar Reis e Rui Grácio [apenas Nuno Fidelino de Figueiredo e Rui Grácio não eram membros do Partido Comunista].

No ano seguinte, em 13 de Abril de 1947, foi preso pela PIDE,  saindo em liberdade em 27 de Agosto, tendo o MUD - Juvenil distribuído um panfleto a apelar à sua libertação e de Francisco Salgado Zenha, Augusto Aragão, Almor Viegas Pires, Eugénio de Almeida e outros jovens democratas de todo o país presos à ordem da PIDE [Fundo Alberto Pedroso / Fundação Mário Soares].

Já casado com Júlia Borrego e referenciado como "profissional de arquitectura", foi julgado pelo Tribunal Plenário de 15 de Março de 1949 e condenado em 100 dias de prisão correccional, tendo a sentença sido confirmada por acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 19 de Julho de 1950 [Processo 575/47; anteriormente, já lhe tinha sido aberto o Processo 1659/SR]. 

José Borrego foi, ainda, Sócio Auxiliar da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, a que pertencia a sua mulher.

Em 1951, apoiou a candidatura presidencial de Ruy Luís Gomes subscrita pelo Movimento Nacional Democrático e, aquando do comício realizado em Rio Tinto, no Cine Vitória, foi um dos muitos presentes agredido pela polícia, tendo de se deslocar ao Hospital de Santo António devido a contusões diversas no dorso e pernas [José da Silva, Memórias de um operário, 2.º volume, 1971].


[José da Silva || Memórias de um operário || 1971]

A partir do início da década de 1950, José Borrego aparece associado às actividades do ODAM - Organização em Defesa de uma Arquitectura Moderna / Organização dos Arquitectos Modernos e, entre as suas traduções, consta o livro Manière de Penser l'Urbanisme, de Le Corbusier [Maneira de Pensar o Urbanismo, Publicações Europa-América, 1969].

Só em 1978, 42 anos depois de ter entrado na Escola de Belas-Artes do Porto, é que José Borrego recebeu o respectivo diploma. 

A par da sua intervenção enquanto arquitecto, trabalhando no Porto e em Lisboa, José Borrego foi um dos mais dinâmicos membros do cineclubismo, assumindo diversos cargos no Cineclube Imagem e no Cineclube do Porto.

[João Esteves]

domingo, 10 de abril de 2016

[1428.] GUILHERME DA COSTA CARVALHO [I] || 1921 - 1973

* GUILHERME DA COSTA CARVALHO *
[1921 - 1973]

[Porto || Março de 2016]

[Fotografia retirada, com a devida vénia, do Blogue Antifascistas da Resistência e que contém dados biográficos, da autoria de Helena Pato]

Filho de Herculana de Carvalho e de Luís Alves de Carvalho, ambos inscritos na Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, Guilherme da Costa Carvalho esteve preso, entre outros locais, no Campo de Concentração do Tarrafal, Peniche e Caxias, tendo-se evadido destas duas últimas fortalezas em, respetivamente, janeiro de 1960 e dezembro de 1961. 

[Avante! || 15 de Dezembro de 2011]

Membro do Partido Comunista e, durante anos, do seu Comité Central, totalizou 16 anos e seis meses de cativeiro e faleceu em 1973, com apenas 51 anos, idade com que morrera a sua mãe, ambos vítimas de doença oncológica.

Publica-se o comunicado que a Comissão Distrital do Porto do Movimento Nacional Democrático distribuiu aquando do embarque de Guilherme da Costa Carvalho para o Tarrafal e que se encontra no livro de José Silva, Memórias de um operário [Porto, 1971].









[José Silva || Memórias de um operário || 2.º volume || Porto, 1971]