* CAROLINA BEATRIZ ÂNGELO *
ROMAGEM AO CEMITÉRIO DOS PRAZERES || 03/11/1914
Intervenção de Ana de Castro Osório em nome da Associação de Propaganda Feminista
* CAROLINA BEATRIZ ÂNGELO *
ROMAGEM AO CEMITÉRIO DOS PRAZERES || 03/11/1914
Intervenção de Ana de Castro Osório em nome da Associação de Propaganda Feminista
* CAROLINA BEATRIZ ÂNGELO *
ROMAGEM AO CEMITÉRIO DOS PRAZERES || 03/11/1914
Discursaram Ana de Castro Osório, em nome da Associação de Propaganda Feminista, e Antónia Bermudes, representando o Grémio Carolina Ângelo
[João Esteves]
* A MULHER PORTUGUESA *
Nº 1 || JUNHO DE 1912
ÓRGÃO DA ASSOCIAÇÃO DE PROPAGANDA FEMINISTA
Associação de Propaganda Feminista
- Uma organização declaradamente feminista.
- Alguns pensadores chamam ao Feminismo "Humanismo Integral" [p. 1, col. 1].
- A definição das doutrinas feministas faz-se logo no primeiro artigo, onde se esclarece a orientação e fins da revista.
- Uma agremiação fundada só por mulheres, assumidamente feminista e a primeira que integra uma organização internacional: três diferenças fundamentais em relação à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.
- Embora longe de Portugal, em S. Paulo, Ana de castro Osório não deixou de acompanhar de perto a vida das organizações de mulheres, mantendo-se em estreita ligação com elas.
Um texto da escritora, datado de 24 de Março de 1912, ajuda a esclarecer os fins da Associação de Propaganda Feminista, cujo "empenho único é elevar a mulher pela educação e pela instrução" [p. 2, col. 2]. Ao educá-la, pretende-se que ela seja Perseverante, "preze a Verdade" e "saiba reclamar a Justiça que lhe é devida". Com a instrução, pretende-se que a mulher "tome o seu verdadeiro lugar de mãe de família, consciente e culta, isto é: de dirigente e moralizadora da sociedade" [p. 2, col. 2].
Mais uma vez, uma organização de mulheres põe a tónica na necessidade de instruir e educar a mulher, pois ela desempenha um papel fundamental na família e pode alterar o seu futuro se for dotada de uma boa formação. É a mulher-mãe que molda "as almas infantis, que são a sociedade do futuro" [p. 2, col. 2].
As feministas combatem:
. a mulher escrava;
. a mulher irresponsável;
. a mulher fútil;
e lutam pelo direito de a mulher ser livre, através da independência económica [p. 3, col. 1].
Para que as mulheres consigam conquistar o seu lugar na família e na sociedade, têm de ser mais instruídas e cultas.
"O que nós, as feministas, dizemos às mulheres é que, antes de serem mães e esposas, são seres livres e autónomos, com o sagrado direito de trabalhar para criar o seu lugar na vida, conforme o seu gosto, as suas aptidões e as suas justas ambições" [p. 3, col. 1].
- No 1º aniversário da Associação de Propaganda Feminista é lido um discurso de Ana de Castro Osório, enviado do Brasil [pp. 6-7].
A Associação está "destinada a atuar duma maneira progressiva e decisiva [...] na moderna sociedade portuguesa" [p. 6, col. 1].
A escritora mostra-se orgulhosa por a propaganda feminista se ter continuado a desenvolver em Portugal na sua ausência, pois durante muito tempo foi acusada de "que o feminismo não existia em Portugal, senão na minha cabeça..." [p. 6, col. 2].
O seu ideal feminista: não pretende o "predomínio absoluto da mulher" mas a "humanização da humanidade", através da "unificação dos seres conscientes": "O cérebro não tem sexo e é pelo cérebro que as sociedades cultas e perfeitas se devem governar" [p. 6,col. 2].
Além disso, manifesta-se contra a discriminação no emprego apenas com base no sexo, pois o que devia importar era a competência e as habilitações de cada um [p. 7, col. 1].
(7)
Citações
- Jean Finot
- Bernardino Machado
(8)
Quem escreve/assina
- Ana de Castro Osório: 2 vezes
- Serrana: 1
(9)
Noticiário Feminista
- W. T. Steal, pensador e jornalista inglês, morreu no naufrágio do Titanic.
- Jean Finot, sociólogo e filósofo francês.
- A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas "vai enviar ao Parlamento uma representação pedindo a promulgação duma lei proibitiva da venda de tabaco e bebidas alcoólicas às crianças. Damos todo o nosso apoio a essa sua benemérita iniciativa [...]"; apresenta-se o exemplo da Inglaterra, onde já existia aquela lei [p. 4, col. 2].
- Dá relevo à iniciativa da LRMP "contra as monstruosas ignomínias praticadas pela proxeneta Encarnação, que a Justiça condenou a um ano de prisão apenas" [p. 4, col. 2].
(10)
A Criança
- "Uma das mais belas e sagradas missões da Mulher é a educação das crianças" [p. 8, col. 1].
* A MULHER PORTUGUESA *
Nº 1 || JUNHO DE 1912
ÓRGÃO DA ASSOCIAÇÃO DE PROPAGANDA FEMINISTA
Historia o processo da criação da Aliança Internacional pelo Sufrágio das Mulheres, em 1904 [p. 5, col. 2], que visava reunir os esforços das mulheres de todos os países, sob a presidência da propagandista americana Carrie Chapman Catt.
Segundo os seus Estatutos, "a Aliança tem por fim: «assegurar a emancipação política das mulheres de todas as nações e reunir os adeptos do sufrágio feminino do mundo inteiro em cooperação organizada» (Art. 2º dos Estatutos)" [p. 5, col. 2].
Fazem parte da direção mulheres de vários países (americana, inglesa, finlandesa, holandesa, alemã, sueca, etc.) e, para atingir os seus fins, a "Aliança já organizou 6 congressos internacionais, em diferentes cidades: Copenhague, Londres, Berlim, Amsterdão, Nova-Iorque e Estocolmo" [ibidem].
No Congresso de 1911 (Estocolmo) estiveram representados cerca de 30 países, tendo algumas congressistas feito referência à revolução republicana em Portugal.
Atualmente (em 1912) estão filiados 26 países, tendo Portugal aderido em 1911, "conforme consta da revista mensal Jus Sufragii de Dezº de 1911, que é o órgão da Aliança S. M. e se publica em Roterdão (Holanda)".
A revista A Mulher Portuguesa transcreve "na língua original, o ofício da A.S.M. participando à nossa Associação o agrément da Aliança, nos termos mais fraternais" [p. 5, col. 2 e p. 6, col. 1].
O reconhecimento da Associação de Propaganda Feminista como fazendo parte da International Woman Suffrage Aliance é feito numa carta datada de 16/11/1911, onde também se lamenta a morte da presidente daquela Associação. A carta é assinada por Martina G. Kramens, secretária da A.I.S.T.
«International Woman Suffrage Alliance
Rotterdam, 16/11/1911.
Á l’Association de Propagande Féministe
Lisbonne – Portugal
Chères Consoeurs!
Ayant reçu la nouvelle de l’affiliation de votre Association à l’Alliance Internationale, je saisis l’occasion pour vous souhaiter la bienvenue dans notre organisation, et soyez sûres que, de notre côté, nous ferons tout notre possible pour rendre service à votre mouvement en Portugal.
La perte de votre excellente présidente est un grand malheur auquel je compatis sincèrement; mais j’espère bientôt apprendre que vous honorez sa memoire en travaillant à son oeuvre. Un grand mouvement comme le féminisme doit trouver des réparations aux pertes qu’il souffre.
Agréez l’expression de mes sentiments fraternels,
Martina G. Kramers
Secrétaire de l’All. Intern. p. l. S. F.»
[Apontamentos / Anos 1990]
[João Esteves]
* A MULHER PORTUGUESA *
Nº 1 || JUNHO DE 1912
ÓRGÃO DA ASSOCIAÇÃO DE PROPAGANDA FEMINISTA
O Feminismo
- "O verdadeiro feminismo, aquele que por toda a parte tem triunfado na vida prática, pretende simplesmente, dar à mulher o verdadeiro lugar a que tem jus na sociedade, pondo a em estreita e inteligente colaboração com o homem" [p. 1, cols. 1-2].
- O homem "é considerado um amigo e, socialmente, um igual, um equivalente; nunca um adversário. Não se trata de trocar o poderio social do homem pelo poderio da mulher; trata-se unicamente de instituir o poderio humano, isto é, a participação tanto do homem como da mulher em todos os campos d'atividade, conforme as aptidões intelectuais de cada indivíduo" [p. 1, col. 2].
- Não existe supremacia de qualquer dos sexos, como tem vindo a demonstrar a história. Para a queda da dominação da mulher pelo homem muito contribuíram a Democracia, a Ciência e o Progresso universais [p. 1, col. 2].
- O feminismo defende a plena igualdade entre o Homem e a Mulher em todos os campos. Combate o desnivelamento artificial que existia, favorável àquele. Opõe-se à discriminação sexual, lutando por uma verdadeira harmonia entre homens e mulheres, sem que haja a supremacia de qualquer um deles.. Por isso, também se chama ao feminismo "Humanismo Integral".
- O elogio das seguintes figuras: Condorcet, Stuart Mill, Vítor Hugo, Ibsen, Jean Finot, Paul Magnaud, Jacques Novicow [p. 1, col. 2].
(4)
O Sufrágio
- O sufrágio da mulher é a "base essencial da sua completa libertação político-social" [p. 2, col. 1].
- "As mulheres devem votar, visto que suportam as leis e pagam os impostos" [p. 3, col. 1].
- Ana de Castro Osório: "Eu pergunto, minhas senhoras, porque razão nos afastam das urnas de que devem sair os representantes do povo, se nós somos mais da metade numérica desse povo?" [p. 7, col. 1].
Critica a decisão das Constituintes portuguesas em recusarem o voto feminino, por o considerarem inoportuno, lembrando o tempo da Monarquia, quando os congressos republicanos, principalmente o de Setúbal, onde participou como Presidente da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tinham prometido a igualdade de direitos políticos e sociais.
Para Ana de Castro Osório, "se os congressos eram o parlamento da oposição, o parlamento legal devia manter a sua progressiva orientação" [p. 7, col. 2].
- Na secção "Os Direitos Políticos da Mulher" apresenta se, por ordem cronológica, os 17 Estados onde a mulher já tinha conquistado direitos políticos, distinguindo aqueles onde a mulher era só eleitora daqueles onde era eleitora e elegível: Nova Zelândia (1894); Austrália (1899), Finlândia (1906); Noruega (1907). No primeiro, segundo e último estado, trata-se do direito de voto e elegibilidade nas eleições parlamentares.
Já o voto nas eleições municipais abrange mais estados.
Claro predomínio dos países do Norte da Europa, estados americanos e ex-colónias inglesas.
* A MULHER PORTUGUESA *
Nº 1 || JUNHO DE 1912
ÓRGÃO DA ASSOCIAÇÃO DE PROPAGANDA FEMINISTA
"Orientação e fins da nossa revista"
O primeiro número data de Junho de 1912, sendo diretora Ana de Castro Osório e Albertina de Moura Benício a editora. Joana de Almeida Nogueira era a administradora.
O logótipo da revista tinha a forma oval e dentro de uma coroa de flores, fechada pelo símbolo da República Portuguesa, vê-se uma mulher caminhando em direção ao Sol, depois de ter partido as grilhetas que lhe amarravam as mãos e os pés.
O número avulso custava 4 centavos e a assinatura anual 40 centavos.
Dirigida só por mulheres, o fim da revista era "defender, pela palavra escrita, os ideais de progresso social, económico e político das mulheres" [p. 1, col. 1]: pretendia divulgar nas suas colunas "as ideias, os princípios essenciais que constituem esse importante movimento social, convencionalmente chamado Feminismo" [p. 1, col. 1].
A revista "defenderá, acima de tudo, os interesses da Mulher perante a vida social: para isso recordar-lhe-á o papel que tem a desempenhar na Família, na Sociedade, na Política, na Civilização em geral; evidenciará a sua poderosíssima influência educativa na alma das crianças, que serão os homens e as mulheres d'amanhã; examinará tudo quanto represente um progresso na vida e na ação sociais da mulher em geral e da portuguesa em especial" [p. 1, col. 2].
Sempre que possível, acompanharia "o movimento feminista internacional, dando grande desenvolvimento ao estudo do sufrágio da mulher, base essencial da sua completa libertação político-social" [p. 1, col. 2; p. 2, col. 1].
Propunha-se, também, fazer a propaganda da emancipação política e económica da mulher, bem como da sua instrução científica, já que ela era a educadora dos filhos e a "diretora do lar e da família" [p.2, col.1], exigindo que à mulher fosse dada uma educação e instrução práticas, da escola elementar à superior.
O lema era: "Perseverança na luta pela verdade, que nos há de dar a justiça" [p. 2, col. 1].
- Na secção "Humanismo Integral", "inseriremos páginas feministas de autores de todos os países, que, pela sua clareza, ponderação e bom senso, possam, de algum modo, iluminar e sanear os espíritos ainda falseados pela rotina" [p. 1, col. 1]. O primeiro autor a ser citado foi Émile Faguet (1847 - 1916).
- "Através do Mundo (Noticiário feminista)": informações sobre acontecimentos nacionais e internacionais relevantes relacionados com a luta pela emancipação das mulheres.
- A secção "Educação Prática" - Puericultura: dirigida à "mocidade feminina", dava-lhe informações preciosas, visando prepará-la para, no futuro, saber tratar das crianças. Era necessário que os filhos não fossem educados empiricamente, pois isso prejudicava-lhes a saúde e falseava-lhes o espírito: "As meninas inteligentes e estudiosas não podem deixar de aprender com entusiasmo os segredos da puericultura, da higiene, da pedagogia" [p. 8, col. 1]. Por isso, transcreverá "preceitos pouco vulgarizados no nosso meio, prescrições práticas merecedoras da maior confiança", começando com a amamentação, a partir de um texto de um livro do dr. Héricourt.
- "Os Direitos Políticos da Mulher" [p. 8, col. 2].
Artigos
- Redação (A): "Orientação e Fins da nossa Revista", nº 1, Junho de 1912, p. 1 e p. 2, col. 1.
- "Humanismo Integral - Opiniões de Pensadores", p. 2.
- Osório, Ana de Castro: "Associação De Propaganda Feminista - 'Perseverança, Verdade, Justiça", p. 2, col. 2 e p. 3, col. 1.
- Serrana: "Outros Tempos", p. 3, col. 2 e p. 4, col. 1.
- "Através do Mundo (Noticiário feminista)", p. 4 e p. 5, col. 1.
- "A Associação de Propaganda Feminista recebe o Agrément e as saudações da Aliança Internacional do Sufrágio das Mulheres", p. 5 e p. 6, col. 1.
- Osório, Ana de Castro: "A Propaganda Feminista", pp. 6-7.
- "Educação Prática", p. 8.
- "Os Direitos Políticos da Mulher", p. 8, col. 2.
* CAROLINA BEATRIZ ÂNGELO *
Cartão pessoal de Carolina Beatriz Ângelo, Presidente da Associação de Propaganda Feminista, para Teófilo Braga, desejando as suas melhoras || 1911