[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

[2707.] CINCO PRESOS POLÍTICOS PRESOS NA FORTALEZA DE PENICHE || 1º SEMESTRE DE 1936

 * MANUEL CASAL RIBEIRO || ANTÓNIO GOMES DA SILVA, "O RUSSO" || ANASTÁCIO GONÇALVES RAMOS || HORÁCIO MONTEIRO BARBOSA || CARLOS DIAS DA FONSECA *

FORTALEZA DE PENICHE || 1º SEMESTRE DE 1936

[Fortaleza de Peniche || 1.º Semestre de 1936 || Em cima: Manuel Casal Ribeiro, António Gomes da Silva "O Russo" e Anastácio Gonçalves Ramos; em baixo: Horácio Monteiro Barbosa e Carlos Dias da Fonseca]
[Fotografia disponibilizada por Tiago Casal Ribeiro, neto de Manuel Casal Ribeiro e primo de Anastácio Ramos]

O meu reconhecido agradecimento a Tiago Casal Ribeiro pela disponibilização desta importante e inédita fotografia devidamente identificada, onde constam, entre outros, o seu primo-tio-avô Anastácio Gonçalves Ramos e o seu avô Manuel Casal Ribeiro.

[João Esteves]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

[2510.] PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO [LXXVIII] || 1926 - 1933

 * PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO || LXXVIII *

00641. Deodato Medeiros Ramos [1932, 1947]

[Deodato Ramos || F. 05/05/1947 || ANTT || RGP/17565 || PT-TT-PIDE-E-010-88-17565]

[Ponta Delgada - S. Miguel, 05/12/1909, empregado de escritório / guarda-livros. Filiação: Beatriz Aldina Medeiros Ramos e António Gonçalves Ramos. Solteiro / Casado. Residência: Rua Enfermeiras da Grande Guerra, 12 - Lisboa; Mortágua. Em 1929/1930, quando ainda residia e trabalhava em Ponta Delgada, Deodato Ramos integrou o Socorro Vermelho Internacional, tendo sido responsável pela organização de um grupo de contribuintes, recebendo e distribuindo o seu material. Daí, transitou para o Partido Comunista, cabendo-lhe criar uma célula e a incumbência de contactar os deportados em outras ilhas, alguns deles filiados, recebendo, para isso, nomes e endereços. Entre esses deportados, encontravam-se Anastácio Ramos, Bento Gonçalves, Domingos Lopes Bibi e Manuel Francisco Roque Júnior. Além de distribuir material da organização, enviava a correspondência partidária através de deportados que regressavam ao Continente e cujos barcos atracavam em Ponta Delgada. Em simultâneo com as ligações partidárias, relacionou-se com outros deportados políticos, como Álvaro de Castro (filho) e Basílio Lopes Pereira. Participou, em Ponta Delgada, no movimento revolucionário despoletado em Abril de 1931, secundando o da Madeira, encarregando-se do jornal Correio dos Açores. Durante o processo de rendição da ilha de S. Miguel, integrou o grupo de revoltosos civis e militares, quase todos deportados, que se dirigiu para Madeira no vapor Pero de Alenquer, constituído por Álvaro Garrido Castro (segundo-sargento cadete), António Mendes, António Silva Reis, Augusto César Loureiro (capitão), Bartolomeu Severino, Basílio Lopes Pereira, Francisco da Conceição Rodrigues, Francisco Violante, Joaquim Pinheiro Vila, Joaquim Pinto de Lima, José Filipe Piçarra (tenente), Leonel Ferro Alves, Luís Emílio Seca (tenente), Manuel Alegria Vidal e Teotónio Malta Jota (tenente). No Funchal, encarregou-se das comunicações telefónicas entre o Quartel-General dos revoltosos e as diferentes posições de combate. Após a rendição, escapou à prisão e embarcou, clandestinamente, no vapor alemão "Madrid", com destino a Lisboa. Na capital, manteve contactos com Álvaro de Castro, embora este se viesse a exilar em Madrid, e Basílio Lopes Pereira, estando encarregado, quando foi preso, de enviar documentação, para ser divulgada, ao médico Manuel Figueiredo, de Estarreja. Manteve a militância comunista, nomeadamente através das ligações a Manuel Francisco Roque Júnior. Passou a trabalhar no Comité Local do SVI, juntamente com António Bandeira Cabrita, Carlos Pereira, César Maurício e Malaquias. Com a prisão e deportação de António Bandeira Cabrita, César Maurício e Malaquias, na sequência do envolvimento na Revolta de 26/08/1931, passou a trabalhar com os arsenalistas Manuel da Costa e um Vítor, distribuindo, por ser desconhecido da polícia já que era novo em Lisboa, os donativos do SVI aos presos que se encontravam no Aljube. As reuniões do Comité Local eram controladas por Rodrigo Ollero das Neves, do Comité Central Executivo do SVI, estando Deodato Ramos encarregado do controlo dos Comités das Zonas B e C. Era, ainda, secretário da Zona A e assegurava a cobrança entre alguns sindicatos que apoiavam o SVI, tendo um papel de destaque enquanto “contabilista” informal. A partir de certa altura, a sede clandestina do Comité Local do SVI passou a funcionar num quarto alugado por Deodato Ramos no 1.º andar da Rua do Benformoso - 364. Antes de ser detido, era o responsável pela distribuição de subsídios aos comunistas presos na Penitenciária e que aguardavam a deportação. Por convite de Manuel Francisco Roque Júnior, passou a integrar o Comité Regional de Lisboa do Partido Comunista, então em reorganização devido a prisões. Era, também, constituído por Álvaro Duque da Fonseca, Armando Ramos e Raul Nunes Leal. Preso em 17/09/1932, quando se dirigia para uma reunião daquele Comité, a realizar na sede da Associação de Classe dos Empregados de Escritório, situada na Rua da Madalena, 225 - 1º dto. Foi-lhe apreendida a quantia de 119$65 do SVI e submetido "a apertadíssimo interrogatório", ou seja torturado, sendo considerado "um elemento perigosíssimo, não só pela atividade que desenvolveu na organização do Socorro, como na do Partido, trabalhando nas suas reorganizações, mas ainda pelas suas ligações político-revolucionárias e com elementos fugidos à ação desta polícia." Libertado em 10/12/1932, por ter sido abrangido pela amnistia de 05/12/1932. Julgado pelo TME em 16/12/1933, confirmou-se que estava abrangido pela amnistia do ano anterior. Quando era guarda-livros, foi preso em Mortágua, onde residia, em 02/05/1947, recolheu a Caxias no dia seguinte e foi libertado em 27/05/1947. Esta segunda prisão deveu-se à sua ligação ao MUD e à subscrição de um documento que reivindicava melhores condições de assistência aos presos no Tarrafal [Museu do Aljube Resistência e Liberdade.

[Deodato Ramos || 05/05/1947 || ANTT || RGP/17565]

Provavelmente, um dos poemas dedicados a Deodato Ramos, assinado por M. Leiria, datado de 14 de Novembro de 1932 e oferecido pelas filhas ao Museu do Aljube, será da autoria do escrivão tavirense Manuel Wenceslau Leiria, preso em inícios do mês de Outubro e também levado para a mesma prisão do Aljube. Faleceu em 20 de Julho de 1958, com apenas 48 anos de idade.]

[alterado em 27/03/2022]

[João Esteves]

segunda-feira, 8 de junho de 2020

[2376.] ANASTÁCIO GONÇALVES RAMOS [I] || PRESO, ENTRE 1927 e 1938, 10 VEZES

* ANASTÁCIO GONÇALVES RAMOS *
[26/02/1898 - 01/06/1957]

Operário metalúrgico no Porto, Anastácio Gonçalves Ramos desenvolveu importante intervenção sindical e política durante a 1.ª República, sendo considerado um orador que galvanizava os comícios realizados naquela cidade devido aos seus dotes de oratória. Preso por diversas vezes, tornou-se militante do Partido Comunista Português aquando da sua implantação no Porto, participou no movimento revolucionário de 3 Fevereiro de 1927, foi deportado para os Açores e para a Madeira, de onde se evadiu, e esteve exilado, por pouco tempo, em Vigo. Preso dez vezes entre 1927 e 1938, conheceu, entre outros estabelecimentos prisionais, o Aljube do Porto e Peniche, voltando a ser detido pela última vez em 1949. Nome muito respeitado entre o operariado e o sector intelectual, esteve associado à fundação da Sociedade Editora do Norte e, quando esta foi encerrada pela PIDE, criou a biblioteca itinerante "Afonso Ribeiro". Faleceu em 1957, tendo, em 1958, José da Silva, seu camarada um pouco mais velho, escrito o opúsculo Anastácio Ramos - Um Operário com História [Edição do Autor, 1958]. Em 1968, foi organizado uma romagem ao cemitério de S. Mamede de Infesta, onde está a sua campa, sendo oradores vários antifascistas.


[Anastácio Gonçalves Ramos || 03/07/1932 || ANTT || RGP/382 || PT-TT-PIDE-E-010-2-382]

Filho de Albina Gonçalves Ramos, Anastácio Gonçalves Ramos nasceu em 26 de Fevereiro de 1898, em Vizela. 

Operário funileiro / zinqueiro, cedo se destacou enquanto organizador de greves sócio-profissionais no Porto - tipógrafos, construção civil, Carris, manipuladores do pão - e orador em comícios. Em 1919, era um dos dirigentes do movimento operário do Porto, representando os operários funileiros na União Sindical Operária, tendo discursado, em 14 de Outubro desse ano, no comício realizado contra a carestia de vida, a par de Joaquim Silva, Secretário-Geral da USO, David Oliveira, Domingos Pereira, Frederico Tavares, Guilherme Gonçalves Baptista, José da Silva Miranda (classe dos tecelões de seda), Maciel Barbosa e Serafim Cardoso Lucena. Ainda nesse período, assinou, pontualmente, um texto no semanário A Bandeira Vermelha, órgão da Federação Maximalista Portuguesa, publicado em 1919-1920.

Dentro do movimento sindical, Anastácio Ramos tornou-se partidário da Internacional Sindical Vermelha e integrou o Núcleo Sindicalista Revolucionário do Porto, dinamizado pelo sapateiro José da Silva. Pouco depois, passou a militar no Partido Comunista e integrou a sua primeira direcção local, presidida por José da Silva e composta, ainda, por António Nunes, chefe de armazém, e José Moutinho, empregado de escritório.

Enquanto membro da direcção do Norte do Partido Comunista, interveio, em Março e Abril de 1926, no Bloco de Defesa Social criado no Porto para denunciar as deportações por motivos sociais e combater o avanço do fascismo, sendo um dos oradores nas sessões e comícios então realizados. No dia 4 de Abril, no comício realizado na Alameda das Fontainhas, foi um dos que discursou, juntamente com oradores que representavam outras formações e sensibilidades políticas e sindicais: Américo Cardoso (Partido Republicano Radical); Cerdeira Paiva (republicano liberal); Jerónimo de Sousa (da Confederação Geral do Trabalho, mas que falou a título pessoal); José Domingues dos Santos (Esquerda Democrática); Marcelino Pedro (Câmara Sindical do Trabalho do Porto e redactor de A Comuna); e Raul Tamagnini Barbosa (do Partido Republicano Radical, mas que também tomou a palavra enquanto ).

Durante as comemorações do 1.º de Maio de 1926, interveio, enquanto membro do Partido Comunista, no comício realizado nas Fontainhas, tendo sido alvo de ataques de sectores anarco-sindicalistas. Segundo José da Silva relata nas suas Memórias de um operário, Anastácio Ramos, «com a sua voz de trovão, chamou a si a atenção geral da grande assembleia» e, «como era do seu estilo [...] abriu as suas considerações com um violento ataque ao Capitalismo, lançando-lhe os seus anátemas ao jeito de excomunhões, táctica que sempre levava ao rubro os trabalhadores que o escutassem, o que desde logo lhe granjeou uma formidável ovação». 

Ainda no mesmo mês, fez parte dos sete delegados do Porto ao II Congresso do Partido Comunista, realizado em Lisboa nos dias 29 e 30. Preso e libertado várias vezes durante a 1.ª República, Anastácio Ramos terá sido o principal promotor do Socorro Vermelho Internacional na cidade do Porto e as prisões iriam suceder-se com o triunfo da Ditadura Militar e a fascização do país. 

Participou, com o seu grupo, na revolução de 3 Fevereiro de 1927, refugiou-se em Espanha na sequência do seu fracasso (Processo 37/Porto) e terá sido preso ainda em 1927, disso dando conta Augusto Alves Rito em carta a Bernardino Machado, datada de 17 de Setembro desse ano: «[...] no Porto foi também preso o Anastácio Ramos, que esteve na Corunha também emigrado. Este Ramos é aquele rapaz comunista, para quem eu pedi a V. Ex.ª que o Cônsul lhe passasse um salvo-conduto» [(1927), Sem Título, Fundação Mário Soares / DBG - Documentos Bernardino Machado, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_100433 (2020-6-8)]. 

O seu Cadastro Político, arquivado na Torre do Tombo, começa por indicar a influência que, enquanto sindicalista comunista, Anastácio Gonçalves Ramos tinha na mobilização dos operários, datando de 9 de Fevereiro de 1928 a primeira prisão registada enquanto preso pela Delegação do Porto, «por ser revolucionário avançado» e «elemento comunista».

Libertado em 29 de Abril de 1928, manteve-se sob vigilância do «agente secreto N.º 39» e voltaria a ser preso pela Delegação do Porto em 1 de Outubro de 1930, a pedido da Polícia de Lisboa. Enviado para a capital no dia seguinte, acusado de fazer «parte de um grupo organizado pelo Comité Secreto do Partido Comunista e dedicado à prática de atentados pessoais», foi deportado para os Açores em 8 de Outubro [Processo 4695-J]. Seguiu na embarcação "Lima" juntamente com os militantes comunistas António Nunes, Bento Gonçalves, Francisco Pereira de Sousa e José da Silva, para além de outros deportados políticos, tendo sido cantada a Internacional pelos «presos e muitos seus familiares e amigos que deles se foram despedir à praia de Santos, em Lisboa» ["Comunistas deportados", Avante N.º 1735, 01/03/2007]. 

Evadiu-se, em 13 de Abril de 1931, da Ilha da Madeira, onde estava com residência fixada, a bordo do vapor "Guiné", juntamente com o comandante Sebastião da Costa e outros. Desembarcou em frente de Tavira, seguiu para o Norte, onde permaneceu alguns dias em Espinho e, depois, seguiu para Vigo, onde permaneceu até próximo do Natal. Regressou a Portugal e refugiou-se em sua casa, onde foi preso em 26 de Junho de 1932. Por despacho do Ministro do Interior, foi mandado restituir à liberdade em 14 de Julho [v. Processo 96/Porto]. 

Preso, no Porto, em 10 de Maio de 1933, «por fazer distribuição de propaganda comunista», e libertado em 24 de Maio. 

[Anastácio Gonçalves Ramos || 03/07/1932 || ANTT || RGP/382 || PT-TT-PIDE-E-010-2-382]

Preso pela Delegação do Porto em 17 de Janeiro de 1935 e libertado em 19 de Janeiro, voltou a ser detido em 2 de Fevereiro, por «manter ligações com comunistas foragidos das Astúrias» [Processo 16/Porto, Processo 1388/SPS]. Enviado para o Aljube do Porto e libertado em 25 de Abril, voltou a a conhecer a prisão pela terceira vez nesses ano. 

Preso em 2 de Dezembro e enviado para Peniche em 22 de Dezembro. Aí permaneceu seis meses e foi tirada esta fotografia, cedida pelo seu primo Tiago Casal Ribeiro, onde constam, também, os presos políticos Manuel Casal Ribeiro, António Gomes da Silva, "O Russo", Horácio Monteiro Barbosa e Carlos Dias da Fonseca. 

[Fortaleza de Peniche || 1.º Semestre de 1936 || Em cima: Manuel Casal Ribeiro, António Gomes da Silva "O Russo" e Anastácio Gonçalves Ramos; em baixo: Horácio Monteiro Barbosa e Carlos Dias da Fonseca]
[Fotografia disponibilizada por Tiago Casal Ribeiro, neto de Manuel Casal Ribeiro e primo de Anastácio Ramos]

Voltaria ao Porto em 28 de Maio de 1936, onde foi julgado pelo TME em 5 de Junho e libertado no dia seguinte [Processo 2220/35].

As prisões sucediam-se e, em 17 de Outubro, seria detido pela Delegação do Porto e libertado em 23 de Dezembro de 1936. Novamente preso pela Delegação do Porto em 14 de Janeiro de 1938 e julgado pelo TME em 10 de Agosto, foi absolvido e libertado em 17 do mesmo mês [Processo 1184/37].

[Anastácio Gonçalves Ramos || 03/07/1932 || ANTT || RGP/382 || PT-TT-PIDE-E-010-2-382]

A sua última prisão, a décima primeira sob a Ditadura, data de 12 de Fevereiro de 1949, em Vila Nova de Gaia, onde vivia, sendo libertado em 26 de Março [Processo 1167/949].

Segundo depoimento de Carlos Pereira Soares, Anastácio Ramos terá sido «o homem mais espectacular que eu conheci em toda a minha vida. Ele deu-se muito bem com o Abel Salazar; com essa gente que parava ali na Brasileira, e no Rialto, e com outros fez uma associação, que era a SEN - Sociedade Editora do Norte. Tinham sócios, e era através dessa sociedade que a gente requisitava livros, toda a gente. A PIDE investe contra isso e acaba a SEN. E esse Anastácio Ramos faz uma biblioteca itinerante, chamada Afonso Ribeiro. Pegado ao Piolho, havia um café que era de um homem da oposição, e aí se juntavam os elementos da direcção dessa biblioteca itinerante, emprestavam livros, a gente pagava 5 tostões ou 2 tostões ou 3 tostões, já não sei quanto era, e levava o livro para casa. Se não pagasse também levava» [http://cdi.upp.pt/cgi-bin/mostra_entrevista.py?doc=E06r].

Faleceu em 1 de Junho de 1957, ano em que José da Silva editou, por conta própria, o opúsculo Anastácio Ramos (um operário com história).

 
[José Pacheco Pereira || Ephemera|| http://officialjpp.com/bio-r.html]

Dez anos depois, em 1968, Sérgio Valente fotografou a romagem feita ao túmulo de Anastácio Gonçalves Ramos, localizado no cemitério de S. Mamede de Infesta - Matosinhos, tendo discursado vários oposicionistas ao regime, como Neves Fernandes e Zé "Barbeiro".




[Sérgio Valente, um fotógrafo na oposição || Edições Afrontamento || 2010]

NOTA I: Agradeço a Tiago Casal Ribeiro a relevante correcção do ano do falecimento de Anastácio Gonçalves Ramos, localizando-o em 1957 e não 1958. Segundo a mesma informação, datada de 11 de Agosto de 2020, o primo direito Manuel Casal Ribeiro também esteve preso em Peniche em 1935/36.

NOTA II: Novo agradecimento a Tiago Casal Ribeiro pela fotografia dos cinco presos políticos na Fortaleza de Peniche, datada do 1º semestre de 1936 e enviada em 3 de Fevereiro de 2022.

[João Esteves]
[corrigida data de falecimento em 11/08/2020]
[alterada em 04/02/2022]

domingo, 7 de junho de 2020

[2375.] PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS - DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO [XLI] || 1926 - 1933

* PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO || XLI *

00386. Anastácio Gonçalves Ramos [1927, 1928, 1930, 1932, 1933, 1935, 1935, 1935, 1936, 1938, 1949]

[Anastácio Gonçalves Ramos || F. 03/07/1932 || ANTT || RGP/382 || PT-TT-PIDE-E-010-2-382]

[Operário metalúrgico no Porto, Anastácio Gonçalves Ramos desenvolveu importante intervenção sindical e política durante a 1.ª República, sendo considerado um orador que galvanizava os comícios realizados naquela cidade devido aos seus dotes de oratória. Preso por diversas vezes, tornou-se militante do Partido Comunista Português aquando da sua implantação no Porto, participou no movimento revolucionário de 3 Fevereiro de 1927, foi deportado para os Açores e para a Madeira, de onde se evadiu, e esteve exilado, por pouco tempo, em Vigo. Preso dez vezes entre 1927 e 1938, conheceu, entre outros estabelecimentos prisionais, o Aljube do Porto e Peniche, voltando a ser detido pela última vez em 1949. Nome muito respeitado entre o operariado e o sector intelectual, esteve associado à fundação da Sociedade Editora do Norte e, quando esta foi encerrada pela PIDE, criou a biblioteca itinerante "Afonso Ribeiro". Faleceu em 1957, tendo, em 1958, José da Silva, seu camarada um pouco mais velho, escrito o opúsculo Anastácio Ramos - Um Operário com História (Edição do Autor, 1958). Em 1968, foi organizado uma romagem ao cemitério de S. Mamede de Infesta, onde está a sua campa, sendo oradores vários antifascistas.

Vizela, 26/02/1898, metalúrgico: funileiro / zinqueiro - Porto. Filiação: Albina Gonçalves Ramos. Casado. Residência: Rua da Glória, 76 (Ilha) - Porto / R. Camilo Castelo Branco - Candal, Vila Nova de Gaia. Cedo se destacou enquanto organizador de greves socioprofissionais no Porto - tipógrafos, construção civil, Carris, manipuladores do pão - e orador em comícios. Em 1919, era um dos dirigentes do movimento operário do Porto, representando os operários funileiros na União Sindical Operária, tendo discursado, em 14 de Outubro desse ano, no comício realizado contra a carestia de vida, a par de Joaquim Silva, Secretário-Geral da USO, David Oliveira, Domingos Pereira, Frederico Tavares, Guilherme Gonçalves Baptista, José da Silva Miranda (classe dos tecelões de seda), Maciel Barbosa e Serafim Cardoso Lucena. Ainda nesse período, assinou, pontualmente, um texto no semanário A Bandeira Vermelha, órgão da Federação Maximalista Portuguesa, publicado em 1919-1920. Dentro do movimento sindical, Anastácio Ramos tornou-se partidário da Internacional Sindical Vermelha e integrou o Núcleo Sindicalista Revolucionário do Porto, dinamizado pelo sapateiro José da Silva. Pouco depois, passou a militar no Partido Comunista e integrou a sua primeira direcção local, presidida por José da Silva e composta, ainda, por António Nunes, chefe de armazém, e José Moutinho, empregado de escritório. Enquanto membro da direcção do Norte do Partido Comunista, interveio, em Março e Abril de 1926, no Bloco de Defesa Social criado no Porto para denunciar as deportações por motivos sociais e combater o avanço do fascismo, sendo um dos oradores nas sessões e comícios então realizados. No dia 4 de Abril, no comício realizado na Alameda das Fontainhas, foi um dos que discursou, juntamente com oradores que representavam outras formações e sensibilidades políticas e sindicais: Américo Cardoso (Partido Republicano Radical); Cerdeira Paiva (republicano liberal); Jerónimo de Sousa (da Confederação Geral do Trabalho, mas que falou a título pessoal); José Domingues dos Santos (Esquerda Democrática); Marcelino Pedro (Câmara Sindical do Trabalho do Porto e redactor de A Comuna); e Raul Tamagnini Barbosa (do Partido Republicano Radical, mas que também tomou a palavra enquanto ). Durante as comemorações do 1.º de Maio de 1926, interveio, enquanto membro do Partido Comunista, no comício realizado nas Fontainhas, tendo sido alvo de ataques de sectores anarcossindicalistas. Segundo José da Silva relata nas suas Memórias de um operário, Anastácio Ramos, "com a sua voz de trovão, chamou a si a atenção geral da grande assembleia» e, «como era do seu estilo [...] abriu as suas considerações com um violento ataque ao Capitalismo, lançando-lhe os seus anátemas ao jeito de excomunhões, táctica que sempre levava ao rubro os trabalhadores que o escutassem, o que desde logo lhe granjeou uma formidável ovação". Ainda no mesmo mês, fez parte dos sete delegados do Porto ao II Congresso do Partido Comunista, realizado em Lisboa nos dias 29 e 30. Preso e libertado várias vezes durante a 1.ª República, Anastácio Ramos terá sido o principal promotor do Socorro Vermelho Internacional na cidade do Porto e as prisões iriam suceder-se com o triunfo da Ditadura Militar e a fascização do país. Participou, com o seu grupo, na revolução de 3 Fevereiro de 1927, refugiou-se em Espanha na sequência do seu fracasso (Processo 37/Porto) e terá sido preso ainda em 1927, disso dando conta Augusto Alves Rito em carta a Bernardino Machado, datada de 17 de Setembro desse ano: "[...] no Porto foi também preso o Anastácio Ramos, que esteve na Corunha também emigrado. Este Ramos é aquele rapaz comunista, para quem eu pedi a V. Ex.ª que o Cônsul lhe passasse um salvo-conduto" [(1927), Sem Título, Fundação Mário Soares / DBG - Documentos Bernardino Machado, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_100433 (2020-6-8)]. O seu Cadastro Político, arquivado na Torre do Tombo, começa por indicar a influência que, enquanto sindicalista comunista, Anastácio Gonçalves Ramos tinha na mobilização dos operários, datando de 09/02/1928 a primeira prisão registada enquanto preso pela Delegação do Porto, "por ser revolucionário avançado" e "elemento comunista". Libertado em 29/04/1928, manteve-se sob vigilância do "agente secreto N.º 39" e voltaria a ser preso pela Delegação do Porto em 01/10/1930, a pedido da Polícia de Lisboa. Enviado para a capital no dia seguinte, acusado de fazer "parte de um grupo organizado pelo Comité Secreto do Partido Comunista e dedicado à prática de atentados pessoais", foi deportado para os Açores em 08/10/1930 (Processo 4695-J). Seguiu na embarcação "Lima" juntamente com os comunistas António Nunes, Bento Gonçalves, Francisco Pereira de Sousa e José da Silva, para além de outros deportados políticos, tendo sido cantada a Internacional pelos "presos e muitos seus familiares e amigos que deles se foram despedir à praia de Santos, em Lisboa" ("Comunistas deportados", Avante  1735, 01/03/2007). Evadiu-se, em 13/04/1931, da Ilha da Madeira, onde estava com residência fixada, a bordo do vapor "Guiné", juntamente com o comandante Sebastião da Costa e outros. Desembarcou em frente de Tavira, seguiu para o Norte, onde permaneceu alguns dias em Espinho e, depois, refugiou-se em Vigo, onde permaneceu até próximo do Natal. Regressou a Portugal e refugiou-se em sua casa, onde foi preso em 26/06/1932. Por despacho do Ministro do Interior, foi mandado restituir à liberdade em 14/07/1932 (v. Processo 96/Porto). Preso, no Porto, em 10/05/1933, "por fazer distribuição de propaganda comunista", e libertado em 24/05/1933. Preso pela Delegação do Porto em 17/01/1935 e libertado em 19/01/1935. Preso pela Delegação do Porto em 02/02/1935, por "manter ligações com comunistas foragidos das Astúrias" (Processo 16/Porto, Processo 1388/SPS), enviado para o Aljube do Porto e libertado em 25/04/1935. Preso em 02/12/1935, enviado para Peniche em 22/12/1935, transferido para o Porto em 28/05/1936, julgado pelo TME em 05/06/1936 e libertado em 06/06/1936 (Processo 2220/35). Preso pela Delegação do Porto em 17/10/1936 e libertado em 23/12/1936. Preso pela Delegação do Porto em 14/01/1938, julgado pelo TME em 10708/1938 absolvido e libertado em 17/08/1938 (Processo 1184/37).

[Anastácio Gonçalves Ramos || 14/02/1949 || ANTT || RGP/382 || PT-TT-PIDE-E-010-2-382]

A sua última prisão, a décima primeira sob a Ditadura, data de 12/02/1949, em Vila Nova de Gaia, onde vivia, sendo libertado em 26 de Março (Processo 1167/949). Segundo depoimento de Carlos Pereira Soares, Anastácio Ramos terá sido "o homem mais espectacular que eu conheci em toda a minha vida. Ele deu-se muito bem com o Abel Salazar; com essa gente que parava ali na Brasileira, e no Rialto, e com outros fez uma associação, que era a SEN - Sociedade Editora do Norte. Tinham sócios, e era através dessa sociedade que a gente requisitava livros, toda a gente. A PIDE investe contra isso e acaba a SEN. E esse Anastácio Ramos faz uma biblioteca itinerante, chamada Afonso Ribeiro. Pegado ao Piolho, havia um café que era de um homem da oposição, e aí se juntavam os elementos da direcção dessa biblioteca itinerante, emprestavam livros, a gente pagava 5 tostões ou 2 tostões ou 3 tostões, já não sei quanto era, e levava o livro para casa. Se não pagasse também levava" (http://cdi.upp.pt/cgi-bin/mostra_entrevista.py?doc=E06r). Faleceu em 01/06/1957, tendo José da Silva editado em 1958, por conta própria, o opúsculo Anastácio Ramos (um operário com história). Dez anos depois, em 1968, Sérgio Valente fotografou a romagem feita ao túmulo de Anastácio Gonçalves Ramos, localizado no cemitério de S. Mamede de Infesta - Matosinhos, tendo discursado vários oposicionistas ao regime, como Neves Fernandes e Zé "Barbeiro".]
[alterado em 20/12/2021]

[João Esteves]

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

[2181.] ADALBERTO PINTO DE OLIVEIRA [I] || MILITANTE COMUNISTA (1927-1932)

* ADALBERTO PINTO DE OLIVEIRA * 
[1912 - ?]

Organizador das Juventudes Comunista no Porto a partir de 1927 e activista do Socorro Vermelho Internacional (1927-1932).

[Assinatura de Adalberto Pinto de Oliveira || 09/03/1932 || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0083]

Filho de Cristina Bessa Oliveira e de António Pinto de Oliveira, nasceu em 1912, em Vila Meã - Amarante.

Empregado comercial no Porto, onde vivia na Rua dos Caldeireiros, 181, Adalberto Pinto de Oliveira foi preso os 20 anos pela Delegação do Porto da Polícia Internacional Portuguesa em 16 de Fevereiro de 1932, por estar «filiado no Partido Comunista Português e Socorro Vermelho Internacional» [ANTT, Cadastro Político 3931] ou, segundo o Processo Crime que o envolveu, «por ser secretário do C. L. da J. C. P. e S. V.» [ANTT, PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0071].


Segundo declarações prestadas nos interrogatórios efectuados no Porto pela Polícia de Informações em 17 de Fevereiro, 18 de Fevereiro e 9 de Março de 1932, teria sido aliciado há cerca de quatro anos pelo sapateiro José Silva para integrar uma célula das Juventudes Comunistas no Porto. O encontro ter-se-ia realizado no café Águia de Ouro, local onde se reuniam outros filiados naquela organização, como Anastácio Ramos [Anastácio Gonçalves Ramos, ANTT, RGP/382] e Basílio Tavares.

[José da Silva || Memórias de um operário || 2 volumes || 1971]

Posteriormente, segundo Adalberto Pinto de Oliveira, realizou-se uma reunião na Associação dos Alfaiates, na Avenida Saraiva de Carvalho, comparecendo José Ruas Ferreira [foi um dos primeiros jovens a ser assassinado pela Polícia na via pública, quando participava num comício-relâmpago organizado pela Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas no Largo de Alcântara, em 4 de Setembro de 1932, para celebrar o Dia da Juventude], manipulador de pão, José Silva e Manuel de Oliveira [ANTT, Cadastro Político 3935], cortador de carnes verdes.

Ter-se-á formado, então, uma célula das Juventudes Comunistas: Manuel de Oliveira, Secretário, recebendo a correspondência de Lisboa; Adalberto Pinto de Oliveira, Secretário Administrativo; e José Ruas Ferreira, vogal.

Numa segunda reunião, também realizada na Associação dos Alfaiates, tratou-se da quotização e de se dar «andamento à organização de diversas células», tendo comparecido um outro elemento, levado por Manuel de Oliveira.

Esta organização não terá tido mais do que seis filiados: Adalberto Pinto de Oliveira, João Rodrigues Viegas, José Ruas Ferreira, Manuel de Oliveira e dois outros apresentados por este último.

Com a prisão de José Silva, Adalberto Pinto de Oliveira teria sido procurado por Joaquim Rodrigues, fiscal da Bolsa Agrícola, para o incumbir de «fazer um relatório circunstanciado do estado em que se encontrava a organização das Juventudes Comunistas», o que se concretizou.

Seguidamente, apareceu Mário [Eurico] Moutinho [ANTT, Cadastro Político 3930], empregado bancário, convidado por Rodrigues Lopes, para organizar as Juventudes Comunistas no Porto.

Ficou, então, organizado o Comité Local das Juventudes Comunistas, formado por, Adalberto Pinto de Oliveira [Missão Sindical], António Domingues Ferreira [ANTT, Cadastro Político 3923], estudante [Organização Académica], Manuel [Alves] Valente [Imprensa] e Mário Moutinho [Secretário], tendo havido cinco ou seis reuniões no Café Monumental.

O dinheiro para as despesas provinha da quotização dos filiados, mantendo-se correspondência com o Comité Central das Juventudes Comunistas, através do qual se recebia impressos, propostas, boletins de inscrição e o "Jovem Militante". Com a prisão de António Domingues Ferreira, a organização ficou paralisada.

Adalberto Pinto de Oliveira confirmou que integrou o Socorro Vermelho Internacional, através de José Silva, pagando 1 escudo por mês, juntamente com António Domingues Ferreira, Manuel Viana Ribeiro [ANTT, Cadastro Político 3933 e ANTT, RGP/421], que recebia as quotizações, e Raul Martins, guarda de segurança n.º 298.

Foi, ainda, convidado por Apolino Leite de Aragão, que conheceu em finais de Novembro de 1931 na Associação dos Empregados do Comércio do Porto, para integrar uma comissão visando a fusão da União dos Empregados do Comércio do Porto com a Phoenix Portuense dos Empregados do Comércio. António Maria Pedro Cordeiro [ANTT, Cadastro Político 3934], Apolino Leite de Aragão e Raul da Costa Dias formaram a Comissão. 

Adalberto Pinto de Oliveira assinou o relatório do Comité Local do Porto com o nome Adão Vasco. Por sua vez, José Augusto da Fonseca Moutinho usou o nome Domingos Dias dos Santos e Joaquim Rodrigues o de J. R. Mafra.



Em 2 de Abril de 1932, foi proposto que Adalberto Pinto de Oliveira fosse «punido com a prisão já sofrida» [Processo 52/Porto], sendo «restituído à liberdade» [Processo 561, da PIP].

Desconhece-se o percurso posterior de Adalberto Pinto de Oliveira. No entanto, em Setembro de 1974, foi concedida em Espanha a nacionalidade por residência a um português com o mesmo nome.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 3931 [Adalberto Pinto de Oliveira / PT-TT-PIDE-E-001-CX05_m0124].

ANTT, Processo Crime de António Domingues Ferreira, Fernando Alves de Sousa e Ângelo Alves Ribeiro [PT/TT/PIDE-DP/D/001/5232] [Processo 52/1932].


[João Esteves]