[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

sábado, 2 de junho de 2018

[1825.] ALFREDO RUAS / JOSÉ RUAS FERREIRA [I]

* ALFREDO RUAS OU JOSÉ RUAS FERREIRA || ASSASSINADO NO COMÍCIO-RELÂMPAGO DE ALCÂNTARA DE 4 DE SETEMBRO DE 1932 *

Alfredo Ruas foi um dos primeiros jovens a ser assassinado pela Polícia na via pública, quando participava num comício-relâmpago organizado pela Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas no Largo de Alcântara, em 4 de Setembro de 1932, para celebrar o Dia da Juventude. 

No entanto, o nome que consta no Cadastro Político da Polícia Internacional Portuguesa é José Ruas Ferreira e a data inicial da morte inscrita é de 27 de Setembro, sendo, posteriormente, antecipada para dia 4 [ANTT, Cadastro Político 3956].


Francisco de Paula de Oliveira (Pável) foi o orador desse "comício-relâmpago", estando presentes, entre outros, Domingos dos Santos - "O Calabrez", Manuel dos Santos e Pedro Batista da Rocha tendo do confronto com a polícia resultado a morte do guarda António Trancoso e do manifestante Alfredo Ruas.

Embora os dados pessoais que constam dos Cadastros Políticos não sejam, frequentemente, rigorosos, nomeadamente quanto à data de nascimento, não deixa de ser uma incógnita que o nome publicitado seja Alfredo Ruas, assim constando como uma das vítimas do Fascismo, enquanto o Cadastro Político menciona José Ruas Ferreira, situação ainda mais estranha quando este já tinha estado preso no mesmo ano e a informação do Hospital de S. José mantém esta identificação.

Filho de Clara  das Dores Ferreira e de Manuel Cerqueira Ruas, José Ruas Ferreira terá nascido em 1908, em Arcos de Valdevez.

Padeiro no Porto, teria ligações ao Partido Comunista e ao Socorro Vermelho Internacional desde 1927, quando foi abordado pelo sapateiro e militante comunista José  Silva [o autor de Memórias de um operário publicadas no Porto em 1971 e que, significativamente, vivia no mesmo arruamento - Rua da Senhora das Dores - 45].

Em 15 de Abril de 1931, foi preso pela Delegação do Porto da Polícia Internacional Portuguesa, "por estar envolvido no movimento revolucionário e por ser um elemento avançado", sendo libertado em 28 de Abril.

Em 4 de Março de 1932, José Ruas Ferreira voltou a ser detido no Porto, "por pertencer ao Socorro Vermelho Internacional e Partido Comunista Português": "exerceu o lugar de vogal nas Juventudes Comunistas" e "foi o organizador da Zona Nº 2 do Socorro Vermelho Internacional, tendo aliciado diversos indivíduos, na sua maior parte padeiros" [ANTT, Cadastro Político 3956].

Enviado preso para Lisboa em 14 de Abril de 1932, por despacho do Ministro do Interior, de 22 de Junho, foi-lhe fixada residência obrigatória em Peniche [Processo 52/Porto], para onde seguiu em 9 de Agosto e de onde se evadiu.

Pouco depois, em 4 de Setembro, participou no já referido "comício-relâmpago" de Alcântara. Alvejado e levado, sob prisão, para o Hospital de São José, aí faleceu, sendo que o inspector da PIDE Fernando Gouveia também o referencia, nas suas memórias, por José Ruas. 

Também na data do seu falecimento há disparidades, já que, primeiro, anotou-se no seu Cadastro que faleceu naquele Hospital em 27 de Setembro de 1932, "em virtude de ter sido ferido, quando da manifestação comunista em Alcântara, em 4 deste mês" [Processo 561].

Depois, acrescentou-se que "foi ferido quando dos tumultos que, neste dia, tiveram lugar em Alcântara, motivados pela manifestação ali levada a efeito pelas Juventudes Comunistas, comemorando a XVIII Jornada Internacional, tendo dado entrada, sob prisão, no Hospital de S. José, por haver suspeitas do epigrafado ter sido um dos provocadores dessa desordem e ter feito uso da sua arma de fogo" [Processo 558], constando como data do seu falecimento o dia 4 de Setembro.

Não se conseguiu encontrar nenhuma fotografia de Alfredo Ruas ou José Ruas Ferreira.

Fonte:
ANTT, Cadastro Político 3956 [José Ruas Ferreira / PT-TT-PIDE-E-001-CX12_m0689, m0689a].

[João Esteves]

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