[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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sexta-feira, 10 de julho de 2020

[2389.] ODETE DE LIMA CARVALHO DOS SANTOS [I] || RESISTENTE ANTIFASCISTA

* ODETE DE LIMA CARVALHO [PAIVA] DOS SANTOS *
[03/07/1925 - 15/10/2009]

Odete Carvalho dos Santos foi uma das jovens que pertenceu ao MUD Juvenil e que ao aderir, em 1946, ao Partido Comunista conheceu a clandestinidade e a prisão, onde nasceu a filha mais velha. 

[Odete de Lima Carvalho dos Santos || 1976 || Fotografia cedida pela Filha Isabel]

Filha de Carolina Pereira de Lima e de Manuel Viegas de Carvalho, nasceu em São Pedro do Sul em 3 de Julho de 1925. 

[João Paiva dos Santos || Fotografia cedida pela Filha Isabel]

Casada com o litógrafo João Paiva dos Santos [28/02/1920 - 25/12/2017], militante do Partido Comunista preso por diversas vezes entre 1949 e 1974, Odete de Lima Carvalho dos Santos iniciou nova a actividade política de oposição ao Estado Novo, tendo sido activista do MUD Juvenil e aderido àquele partido em 1946. 

Desempenhou, então, actividade técnica no âmbito de reuniões e da «impressão clandestina, principalmente de unidade democrática, sendo a sua casa várias vezes ponto de apoio dos camaradas funcionários do Partido» [Avante!, 29/10/2009, p. 10]. 

Participou, em 1949, na campanha eleitoral de Norton de Matos (1949) e seria detida pela PIDE no ano seguinte, em 14 de Fevereiro de 1950, ficando em prisão preventiva durante exactamente nove meses, apesar de estar grávida da filha mais velha e, entretanto, o bebé ter nascido. Parte da detenção, entre 9 de Junho e 10 de Outubro, decorreu na Maternidade Alfredo da Costa, por ter tido um princípio de aborto com hemorragias, sendo libertada em 14 de Novembro ao ser absolvida pelo Plenário do Tribunal Criminal de Lisboa. 

[Odete de Lima Carvalho dos Santos || ANTT || RGP/19650 || PT-TT-PIDE-E-010-99-19650]

Em liberdade, Odete Carvalho dos Santos continuou a actividade política: participou, em 1958, nas campanhas presidenciais dos candidatos Arlindo Vicente e Humberto Delgado; colaborou na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP), constituída em finais de 1969; interveio, no âmbito da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), nas eleições de 1969 e 1973 e no Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro. 

O percurso político e o trabalho desenvolvido fizeram com que trabalhasse, como telefonista, na primeira sede oficial do Partido Comunista após o 25 de Abril de 1974 e, posteriormente, na CDL (Central Distribuidora Livreira). Reformada, instalou-se em Brescos, aldeia alentejana da freguesia de Santo André, concelho de Santiago do Cacém, onde continuou a militância partidária de mais de seis décadas. 

[Entrevista a Gina de Freitas || Diário de Lisboa, 15/10/1974]

Relatou, em entrevista a Gina de Freitas, publicada no Diário de Lisboa de 15 de Outubro de 1974, vivências da sua prisão em Caxias, a assistência prestada na Maternidade Alfredo da Costa e as torturas infligidas ao marido durante os vários anos de cadeia.

Faleceu em 15 de Outubro de 2009, com 84 anos de idade. 

[João Esteves]

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

[1998.] MARIA LUCÍLIA ESTANCO LOURO [IV] || 1922 - 2018

* MARIA LUCÍLIA ESTANCO LOURO *
[27/01/1922 - 27/12/2018]

[Fotografia retirada, com a devida vénia, do FB da Biblioteca Municipal de São Brás de Alportel "Dr. Estanco Louro]

Nascida em Beja em 27 de Janeiro de 1922, filha de Albertina Emília Freire [1898-1971] e de Manuel Francisco Estanco Louro [1890-1953], Maria Lucília Estanco Louro pertence a uma geração única que em tempos sombrios soube, corajosamente, conciliar a docência e a intervenção cívica com o combate militante à ditadura do Estado Novo.

Se Maria Lucília Estanco Louro, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1944, com a tese Paul Gauguin visto à luz da Caracterologia - Vida e Obra, continua a ser uma referência enquanto docente que se preocupou com a formação pedagógica, cultural e científica dos seus alunos à luz da historiografia mais avançada, também o é pelo activismo antifascista desde o início dos anos 40 do século XX, tendo feito parte dos célebres passeios do Tejo e da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

Professora.

Militante da Associação Feminina Portuguesa para a Paz entre 1940 e 1944, tendo sido sua Secretária durante três anos, numa altura em que era Presidente Cândida Madeira Pinto e tinham cargos directivos Maria Alice Lamy, Stella Fiadeiro e Maria Helena Pulido Valente, sendo muito ativas Cândida Gaspar, Maria Luísa Bastos, Joana Campina e Cândida Ventura. 

Com Cândida Ventura, colega da Faculdade de Letras de Lisboa, colaborou na mobilização de artistas, escritores, actores e poetas para colaborarem nas sessões culturais e pacifistas que a AFPP promovia. 

Na sede da Associação, na Rua D. Pedro V, ao Príncipe Real, organizavam pequenos pacotes com cigarros e géneros que mandavam, em colaboração com o Socorro Vermelho Internacional, para os prisioneiros nos campos de concentração. 

Ainda no âmbito das actividades da AFPP, no dia 9 de abril, data da Batalha de La Lys, costumavam, depositar ramos de flores no monumento aos mortos da Grande Guerra. 

Participou, no início da década de 1940, nos passeios de barco  culturais e políticas realizados no rio Tejo, sendo, com Cândida Ventura, uma das duas únicas sobreviventes [sobre eles consultar http://antonioanicetomonteiro.blogspot.pt/]. 

Posteriormente, já professora do Liceu, apoiou a campanha de Humberto Delgado; subscreveu as listas da Oposição Democrática; foi “compagnon de route” do Partido Comunista Português desde 1940 e filiada desde os anos setenta; tornou-se sócia da Associação de Amizade Portugal-Cuba; e pertence ao Conselho Português para a Paz e Cooperação. 

O seu empenhamento profissional (pedagógico-didático) não é menos intenso e relevante. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1944, a sua tese, intitulada Paul Gauguin visto à luz da Caracterologia - Vida e Obra suscitou polémica visto ser então a primeira a versar sobre Arte, considerada então uma parente pobre da História. 

Em 1948, fez Exame de Estado no Liceu Pedro Nunes com a tese Filosofia - Valores Éticos e Estéticos.

Lecionou nos Liceus de Faro, Beja, Évora, Oeiras, Lisboa (D. Leonor, D. João de Castro, Passos Manuel e Pedro Nunes) e na Escola do Magistério Primário de Évora. 

Orientadora de Estágios Pedagógicos nos Liceus de Oeiras, Pedro Nunes e Passos Manuel, entre 1973 e 1976. 

Participou nos Colóquios de História e de Filosofia realizados em 1959, no Liceu Pedro Nunes, sob a égide do Reitor Francisco Dias Agudo, que pela ousadia da sua promoção e pela categoria dos intervenientes (Professores Delfim Santos, Vieira de Almeida, Rui Grácio, Joel Serrão) representavam então uma luta pela actualização e dignificação dos conteúdos pedagógicos e informativos dos ramos abrangidos. 

Dentro do mesmo combate ao ensino orientado pelo Estado Novo e veiculado pelos compêndios fascizantes, participou nas reuniões de professores progressistas, realizadas um tanto clandestinamente na Escola Francisco Arruda sob a direcção do Professor Calvet de Magalhães; frequentou os Cursos de Aperfeiçoamento Profissional orientados pelo Professor Rui Grácio no Sindicato dos Professores; e cursou, em 1975, o 10.º Curso de Pós-Graduação em História de Arte, instituído pelo Professor José Augusto França na Universidade Nova de Lisboa. 

Após o 25 de Abril, interveio activamente, com muitos outros docentes [José Magno, Maria de Lurdes Ribeiro, Hardisson Pereira, João Cruz, Maria Eugénia Bráulia Reis, Ana Leal de Faria, Margarida Matos...], numa Comissão presidida por Maria Emília Diniz com o intuito de acabar com os velhos programas e actualizá-los com tudo o que tinha ocorrido na investigação e na metodologia. 

Estes novos programas foram divulgados em cadernos de apoio editados pelo Ministério da Educação, substituindo os antigos compêndios do 6.° e 7.° anos. Coube a Maria Lucília Estanco Louro fazer o tema Humanismo e Experimentalismo na Cultura do século XVI e, em coautoria com João Cruz, A Arte Portuguesa nos Séculos XIX e XX, não tendo este último fascículo chegado a ser publicado, porque entretanto estes programas, julgados demasiadamente revolucionários, foram abolidos. 

Realizou inúmeras palestras, participou em colóquios, escreveu artigos e colaborou em publicações. 

Redigiu várias entradas no Dicionário de História de Portugal, dirigido pelo Professor Joel Serrão, e a convite deste. 

Dos muitos escritos dispersos, é de mencionar “O Jovem Piteira” [Fernando Piteira Santos], publicado no Jornal de Letras, por se referir a “alguém cuja inteligência, sólida formação cultural (especialmente política) e fulgurante lucidez e poder de comunicação marcaram os jovens da minha geração, seus colegas na Faculdade de Letras de Lisboa nos anos 40” e que integrava “Barradas de Carvalho, Rute Arons, Olívia Cunha Leal, Rui Grácio, Joel Serrão, Joana Campina, Eunice Oliveira, Jorge Borges de Macedo, Francisco Morais Janeiro, Mário Faria, Nataniel Costa, Tony Nogueira Santos e eu própria, Maria Lucília”. 

A competência, profissionalismo, dedicação e intervenção cívica de Maria Lucília Estanco Louro, quer sob condições políticas adversas, quer após a Revolução de Abril,  podem ser testemunhados pelos seus antigos alunos, muitos dos quais tornadas figuras públicas, entre os quais se contam: Ana Maria Magalhães; António Damásio; António Torrado; Diogo Freitas do Amaral; Guilherme de Oliveira Martins; Joaquim Benite; Joaquim Letria; Joel Hasse Ferreira; Jorge Martins; José Meco; José Viana da Mota Brandão, Maria Beatriz Ruivo; Miriam Halpern Pereira; Maria Ângela de Sousa; Maria José Moura; Mário Vieira de Carvalho; Norberto Barroca; Rui Vieira Nery.

Pertence a uma geração única que dedicou décadas da sua vida na luta contra a ditadura e, coerentemente, continua, dentro das suas possibilidades, a manifestar o mesmo empenho político e cívico. 

Existe uma entrada mais completa sobre Maria Lucília Estanco Louro em Feminae. Dicionário Contemporâneo [Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2013].

[João Esteves]

sexta-feira, 16 de março de 2018

[1768.] SOFIA POMBA GUERRA [III]

* MARIA SOFIA CARRAJOLA POMBA AMARAL DA GUERRA *
[19/07/1906 - 12/08/1976]

[Sofia Pomba Guerra || Fotografia cedida pela neta Maria Leonor Guerra Rodrigues Eisman]

Farmacêutica, analista e professora, nasceu a 19 de Julho de 1906 em São Pedro, Elvas, e cedo partiu para África.

Conhecida pelas actividades comunistas, antifascistas e anticolonialistas, sobretudo em Moçambique e na Guiné, onde viveu a partir de meados da década de 30. 

Em Lourenço Marques, publicou alguns estudos sobre frutos silvestres e produtos exportáveis, foi analista no Hospital Miguel Bombarda, leccionou na Escola Primária Correia da Silva, onde teve como aluno o poeta, jornalista e activista moçambicano Rui Nogar (1932-1993), e  aderiu ao Partido Comunista Português em Lourenço Marques, por intermédio do ferroviário Cassiano Carvalho Caldas [1915-2002/2003].

Manteve naquela cidade militância activa, colaborou nos jornais Emancipador e Itinerário, publicação editada entre 1941 e 1955, participou, entre 1947 e 1948, na construção de uma estrutura comunista local [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, vol. 3] e desenvolveu, juntamente com Noémia de Sousa, actividades no âmbito do Movimento dos Jovens Democratas Moçambicanos, versão local do MUDJ da metrópole, integrando a direcção. 

[Sofia Pomba Guerra || 1949 || RGP/19514]

Em 1949, tornou-se na primeira mulher branca a ser presa e deportada para a metrópole: apresentada na PIDE em 23 de Novembro de 1949, ficou detida em Caxias até 4 de Julho de 1950, quando foi libertada por ordem do Tribunal Plenário de Lisboa, por ter sido absolvida. 

[Registo Geral de Presos || RGP/19514]

Partiu então para Cabo Verde, onde se junta ao marido, e seguiu depois para a Guiné, onde veio a ser proprietária da Farmácia Lisboa e ensinou inglês no Liceu de Bissau. 

Mais uma vez, procurou reatar a actividade política, juntamente com Fausto Teixeira e o médico Gumercindo de Oliveira Correia: Pacheco Pereira refere que Sofia Pomba Guerra era vigiada pela PIDE, que sabia que a farmacêutica recebia e fazia circular revistas comunistas francesas e panfletos portugueses, procurando mesmo organizar células comunistas nos meios operários [JPP, vol. 3]. 

No entanto, onde a sua actuação mereceu destaque e obteve reconhecimento foi junto do embrionário nacionalismo independentista, patente nas referências elogiosas que muitos dos dirigentes guineenses fazem ao seu papel anticolonialista, nomeadamente no auxílio à organização clandestina de reuniões, na prestação de informações relevantes sobre prisões iminentes, como a de Carlos Correia, e na preparação de fugas, como a de Luís Cabral. 

Esteve associada, em janeiro de 1959, à fundação do Movimento de Libertação da Guiné, trabalhando na sua farmácia Epifânio Souto Amado e Osvaldo Vieira, que seria um dos principais combatentes do PAIGC, morto em 1974. 

Amílcar Cabral [1924-20/01/1973], com quem Sofia conviveu na década de 60, no discurso pronunciado num Seminário de Quadros do PAIGC, efectuado entre 19 e 24 de novembro de 1969, referiu-se à contribuição de dois brancos na fuga de Luís Cabral da capital guineense, afirmando explicitamente que “uma pessoa que teve influência no trabalho do nosso Partido em Bissau, foi uma portuguesa. Só quem não está no Partido é que não sabe isso. Ao Osvaldo, a primeira pessoa que lhe ensinou coisas para a luta, foi ela, não fui eu. Eu não conhecia o Osvaldo” [AC, Alguns Princípios do Partido, pp. 21-22].

Posteriormente, Luís Cabral, na sua Crónica de Libertação, evoca os contactos que manteve com esta “deportada para a Guiné, com a indicação de se tratar de um elemento altamente perigoso” e que, “embora vigiada pela polícia política, cujo chefe veio morar mesmo em frente da sua casa, retomou na primeira oportunidade as suas actividades políticas”. 

 [Sofia Pomba Guerra com o Marido, Dr. Guerra || Fotografia cedidas pela neta Leonor]

Relacionou-se com Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Luís Cabral, a quem deu lições de Inglês do 7.º ano do liceu, e muitos outros e, “apesar da posterior separação da actividade anticolonialista do movimento geral antifascista, a dr.ª Sofia Pomba Guerra continuou, como no passado, a ser a amiga e conselheira de cada um de nós” [idem]. 

O rótulo de desterrada política antifascista e comunista acompanhou-a por todos os locais por onde passou e nunca tal a impediu de intervir politicamente e manter-se fiel às suas ideias. 

Faleceu em 12 de Agosto de 1976, tendo Luís Cabral reencontrado em Portugal o marido, o dr. Guerra, “que parecia estar sempre muito distante das actividades da esposa, [mas] era um grande patriota e democrata português que encorajava e apoiava essa activi-dade” [idem],  com a filha mais nova Tafia. 

Feminae. Dicionário Contemporâneo, editado pela CIG em 2013, contém a biografia de Sofia Carrajola Pombo Guerra, com a respectiva bibliografia [neste dicionário consta, incorrectamente, Carrejola em vez de Carrajola, sendo o nome completo correto Maria Sofia Carrajola Pomba Amaral da Guerra].

NOTA: Agradece-se, mais uma vez, a cedência das Fotografias e as informações prestadas pela Neta, Sr.ª D. Maria Leonor Guerra Rodrigues Eisman.

[João Esteves]

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

[1219.] GABRIELA PEDRO [I] || 1948 - 1969

* GABRIELA PEDRO *
[Junho de 1948 - 02/05/1969]

[Gabriela Pedro com 20 anos, pouco antes de falecer || Edmundo Pedro, Memórias. Um Combate pela Liberdade || Vol. I || Âncora Editores || 2007]

Filha do segundo casamento de Gabriel Pedro [22/04/1898 - 1972], após o seu regresso do Tarrafal, e de Maria Adelaide Fonseca Pedro, nasceu em Junho de 1948.

Iniciou cedo a intervenção política e, segundo relato do irmão Edmundo Pedro [n. 08/11/1918] nas Memórias. Um Combate pela Liberdade [2007], frequentou a Escola Emídio Navarro, em Almada, onde desenvolveu precoce acção no meio estudantil, enquadrada pela sua militância comunista.

Em meados da década de 60, partiu para Paris, onde se encontrava o pai, «para escapar, tal como ele, à perseguição da polícia política» [Edmundo Pedro, p. 29]. 

Completou então o Liceu, matriculou-se, como estudante-trabalhadora, na Universidade de Paris, onde cursou matemática e informática, empregou-se em regime de part-time na redacção do jornal L’Humanité, militou activamente no Partido Comunista Francês, até romper com ele e abandonar o órgão oficial, e no movimento associativo dos emigrantes portugueses. 

Viveu os acontecimentos de Maio de 1968 e «aderiu, com total convicção, aos movimentos alternativos que emergiram daquela revolta estudantil, ou seja, a todas as causas nobres que despertavam o entusiasmo militante do seu generoso espírito» [idem]. 

Edmundo Pedro recorda que sempre que a visitava ficava «impressionado com o ritmo estonteante que imprimia à sua vida», «como que tomada por uma febre de acção» [idem, 158]: morreu no dia 2 de Maio de 1969, como informa a lápide da sua campa [idem, p. 146], com apenas 20 anos de idade, depois de complicações de uma lesão cardíaca detectada tardiamente.

Edmundo Pedro insere no livro duas fotografias de Gabriela Pedro: uma aos 15 anos, na companhia de colegas da escola, e outra aos vinte, em França.

Feminae - Dicionário Contemporâneo, editado pela CIG em 2013, insere um pequeno esboço biográfico de Gabriela Pedro.

[João Esteves]

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

[1064.] MARÍLIA PAIS VITERBO DE FREITAS [I] || 1933 - 2015

* MARÍLIA PAIS VITERBO DE FREITAS *
[1933 - 10/08/2015]



Faleceu na segunda-feira, 10 de Agosto, Marília Pais Viterbo de Freitas. 

Prestigiada enfermeira, licenciada em História, membro do grupo Faces de Eva da FCSH da UNL, autora de dezenas de biografias de enfermeiras e colaboradora das obras coletivas Dicionário no Feminino (Séculos XIX-XX) [LIvros Horizonte, 2005] e Feminae - Dicionário Contemporâneo [CIG, 2013], assinando como M. V. F. [Marília Viterbo de Freitas].

Muito lúcida, ponderada e interventiva, a sua participação nas Faces de Eva e nas suas diversas iniciativas constituíram uma mais-valia. Nem nos períodos em que preocupantes motivos de saúde a obrigavam a abrandar deixou de comparecer e de dar o seu contributo.

Se é quase do domínio público a sua persistente intervenção na área da enfermagem, tendo os diversos órgãos associativos destacado o papel de uma vida dedicada à profissão e ao apoio solidário e efetivo a todas as mulheres que a ela recorreram, Marília Viterbo de Freitas foi também uma consequente antifascista, correndo riscos, muitos riscos, em tempos difíceis.

Isabel Lindim, no livro Mulheres de Armas [Editora Objectiva, 2012], dá conta do seu percurso de militante antifascista, iniciado sobretudo na Faculdade de Letras, em finais da década de 1960, quando cursava História, de como passou da consciencialização política à ação e o seu papel altruísta e solidário em albergar nas suas casas ativistas políticos clandestinos, para além de material de propaganda. 

Pelas suas casas passaram, nomeadamente, Vasco Cabral, que na altura "tinha residência fixa em Lisboa e era controlada pela PIDE" [Isabel Lindim, p. 193]  e Carlos Antunes, para além de outras pessoas que "nem sequer chegou a conhecer. Simplesmente confiava em quem as trazia" [p. 194].

Se "foi uma das simpatizantes das Brigadas Revolucionárias que emprestou a casa à organização" [Isabel Lindim, p. 191], soube sempre colaborar com todas as organizações que combatiam a ditadura, mantendo-se como uma mulher de esquerda nos 41 anos subsequentes ao 25 de Abril de 1974.

No Dicionário no Feminino [2005], publicou as biografias de Ana José Guedes da Costa [enfermeira, 14/12/1860 - 12/10/1947]; de Fernanda Falcão Alves Diniz [enfermeira e professora, 08/11/1913 - Novembro de 2001]; e de Maria Fernanda da Silva Rezende [enfermeira, 21/11/1923-3/8/1988].

Em Feminae [2013], saíram as entradas de Laura Guilhermina Martins Ayres [médica e investigadora]; de Lúcia Berner de Vasconcelos [fotógrafa]; de Maria de Lima Mayer Ulrich [escritora e poetisa]; de Maria Eugénia Lopes do Rosário Nunes da Silva Horta [médica, professora e investigadora]; de Maria João Gaudêncio Simões George [arquiteta]; e de Maria Madalena Bagão da Silva Biscaia de Azeredo Perdigão [pianista].

Se todos estes textos constituem leitura incontornável, merecem particular destaque, pelas memórias afetivas, os dedicados à arquiteta Maria João Gaudêncio Simões George [1948-2006], precocemente falecida num desastre de viação, e à médica Maria Eugénia Lopes do Rosário Nunes da Silva Horta [1923-1978], cujo convívio datava de há muitos anos, tendo andado com os filhos mais novos ao colo.

Recentemente, em 2012, publicou o livro Vidas de Enfermeiras.




[João Esteves] 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

[0998.] SOFIA POMBA GUERRA [I]

* MARIA SOFIA CARRAJOLA POMBA AMARAL DA GUERRA *

[19/07/1906 - 12/08/1976]

Farmacêutica, analista e professora, nasceu a 19 de julho de 1906 em São Pedro, Elvas, e cedo partiu para África.

Conhecida pelas actividades comunistas, antifascistas e anticolonialistas, sobretudo em Moçambique e na Guiné, onde viveu a partir de meados da década de 30. 

Em Lourenço Marques, publicou alguns estudos sobre frutos silvestres e produtos exportáveis, foi analista no Hospital Miguel Bombarda, leccionou na Escola Primária Correia da Silva, onde teve como aluno o poeta, jornalista e activista moçambicano Rui Nogar (1932-1993), e  aderiu ao Partido Comunista Português em Lourenço Marques, por intermédio do ferroviário Cassiano Carvalho Caldas [1915-2002/2003].

Manteve naquela cidade militância activa, colaborou nos jornais Emancipador e Itinerário, publicação editada entre 1941 e 1955, participou, entre 1947 e 1948, na construção de uma estrutura comunista local [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, vol. 3] e desenvolveu, juntamente com Noémia de Sousa, actividades no âmbito do Movimento dos Jovens Democratas Moçambicanos, versão local do MUDJ da metrópole, integrando a direcção. 

Em 1949, tornou-se na primeira mulher branca a ser presa e deportada para a metrópole: apresentada na PIDE em 23 de novembro de 1949, ficou detida em Caxias até 4 de julho de 1950, quando foi libertada por ordem do Tribunal Plenário de Lisboa, por ter sido absolvida. 

Partiu então para Cabo Verde, onde se junta ao marido, e seguiu depois para a Guiné, onde veio a ser proprietária da Farmácia Lisboa e ensinou inglês no Liceu de Bissau. 

Mais uma vez, procurou reatar a actividade política, juntamente com Fausto Teixeira e o médico Gumercindo de Oliveira Correia: Pacheco Pereira refere que Sofia Pomba Guerra era vigiada pela PIDE, que sabia que a farmacêutica recebia e fazia circular revistas comunistas francesas e panfletos portugueses, procurando mesmo organizar células comunistas nos meios operários [JPP, vol. 3]. 

No entanto, onde a sua actuação mereceu destaque e obteve reconhecimento foi junto do embrionário nacionalismo independentista, patente nas referências elogiosas que muitos dos dirigentes guineenses fazem ao seu papel anticolonialista, nomeadamente no auxílio à organização clandestina de reuniões, na prestação de informações relevantes sobre prisões iminentes, como a de Carlos Correia, e na preparação de fugas, como a de Luís Cabral. 

Esteve associada, em janeiro de 1959, à fundação do Movimento de Libertação da Guiné, trabalhando na sua farmácia Epifânio Souto Amado e Osvaldo Vieira, que seria um dos principais combatentes do PAIGC, morto em 1974. 

Amílcar Cabral [1924-20/01/1973], com quem Sofia conviveu na década de 60, no discurso pronunciado num Seminário de Quadros do PAIGC, efectuado entre 19 e 24 de novembro de 1969, referiu-se à contribuição de dois brancos na fuga de Luís Cabral da capital guineense, afirmando explicitamente que “uma pessoa que teve influência no trabalho do nosso Partido em Bissau, foi uma portuguesa. Só quem não está no Partido é que não sabe isso. Ao Osvaldo, a primeira pessoa que lhe ensinou coisas para a luta, foi ela, não fui eu. Eu não conhecia o Osvaldo” [AC, Alguns Princípios do Partido, pp. 21-22].

Posteriormente, Luís Cabral, na sua Crónica de Libertação, evoca os contactos que manteve com esta “deportada para a Guiné, com a indicação de se tratar de um elemento altamente perigoso” e que, “embora vigiada pela polícia política, cujo chefe veio morar mesmo em frente da sua casa, retomou na primeira oportunidade as suas actividades políticas”. 

Relacionou-se com Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Luís Cabral, a quem deu lições de Inglês do 7.º ano do liceu, e muitos outros e, “apesar da posterior separação da actividade anticolonialista do movimento geral antifascista, a dr.ª Sofia Pomba Guerra continuou, como no passado, a ser a amiga e conselheira de cada um de nós” [idem]. 

O rótulo de desterrada política antifascista e comunista acompanhou-a por todos os locais por onde passou e nunca tal a impediu de intervir politicamente e manter-se fiel às suas ideias. 

Faleceu em 12 de Agosto de 1976, tendo Luís Cabral reencontrado em Portugal o marido, o dr. Guerra, “que parecia estar sempre muito distante das actividades da esposa, [mas] era um grande patriota e democrata português que encorajava e apoiava essa activi-dade” [idem],  com a filha mais nova Tafia. 

Feminae. Dicionário Contemporâneo, editado pela CIG em 2013, contém a biografia de Sofia Carrajola Pombo Guerra, com a respetiva bibliografia [neste dicionário consta, incorretamente, Carrejola em vez de Carrajola, sendo o nome completo correto Maria Sofia Carrajola Pomba Amaral da Guerra].


[João Esteves]

domingo, 8 de março de 2015

[0936.] MARIA MACHADO [VI] || 1890 - 1958

* MARIA DOS SANTOS MACHADO NASCEU HÁ 125 ANOS *
[25/02/1890-04/10/1958]

[Avante!, 26/02/2015]

Professora primária e militante do Partido Comunista desde a década de 30.

Filha de Bartolomeu Silveira Lucas e de Maria dos Santos Teixeira,  Maria dos Santos Machado nasceu na Vila da Calheta, S. Jorge, Açores, a 25 de Fevereiro de 1890 e faleceu na Amadora a 4 de Outubro de 1958.

Começou por lecionar nos Açores, onde procura pôr em prática métodos de ensino inovadores, baseados na Escola Activa e criou uma biblioteca para os alunos aberta à população. 

Em Lisboa, exerceu a profissão na Escola Primária Nº 97, apoiou a Seção Portuguesa do Socorro Vermelho Internacional, tornou-se esperantista e lecionou Português na Liga dos Esperantistas Ocidentais, atividade que esteve na origem da sua primeira prisão a 1 de Agosto de 1936, sendo libertada a 12 de Dezembro do mesmo ano. Também criou uma escola particular para os filhos dos ferroviários de Campolide, que seria encerrada pela polícia, e fundou uma biblioteca em Algés.

Responsável pela adesão ao Partido Comunista de Vítor Rafael Ferreira, empregado de escritório, que em 1937, numa conjuntura particularmente difícil, realizou a tarefa de correio entre vários dirigentes clandestinos procurados pela polícia. 

Em Maio de 1937 obteve autorização para uma breve deslocação aos Açores, efetuada sob apertada vigilância policial e, nesse mesmo ano, esteve envolvida na criação, em Coimbra, do “Núcleo Manuel dos Santos”, organismo de apoio local à Frente Popular Portuguesa, aonde se deslocou várias vezes em trabalho conspirativo. 

Em 1938 partiu para Paris, de onde regressou no início de 1942. 

Na capital francesa, exerceu funções junto do Comité de Frente Popular Portuguesa; assegurou ligação permanente com o Bloco Académico Antifascista (BAAF) que atuava em Portugal; colaborou com a Internacional Comunista e com membros do Partido Comunista Espanhol e do Partido Comunista Francês; manteve correspondência codificada com Fernando Piteira Santos [1918-1992], com Manuel dos Santos [03/02/1914-25/10/1947] – comunista conhecido pelo “pequeno Dimitrov”, preso na Penitenciária de Coimbra entre 4 de Março de 1936 e 6 de Agosto de 1942, onde cumpriu parte da pena de 22 anos a que fora condenado – e Jofre Amaral Nogueira, sendo por intermédio de Maria dos Santos Machado que este obteve a confirmação da autorização de Henri Lefebvre, em carta datada de 30 de Maio de 1938, para traduzir e publicar no periódico Sol Nascente a série de artigos “Que é a dialéctica?”, extraídos da Nouvelle Revue Française

Também em Paris, colaborou com Francisco de Paula Oliveira [1908-1992] que, após a sua fuga da prisão do Aljube a 23 de Maio de 1938, tomou conta, ainda que por escasso tempo, da direção da organização comunista portuguesa em França, e aí também conviveu com Manuel Domingues, outro quadro de relevo da direção do Partido e do Comintern, com vasta experiência internacional. 

Regressada a Portugal, travou contactos com Júlio de Melo Fogaça [1907-1980], envolveu-se com os partidários da reorganização do Partido Comunista e ingressou no trabalho das tipografias clandestinas até ser presa pela GNR a 4 de Novembro de 1945 em Barqueiros, Alvaiázere, após ser responsável durante quatro anos e três meses pela composição e impressão de 81 números consecutivos do jornal Avante!. 

A sua prisão, e a forma como permitiu a fuga dos dois outros camaradas – José Augusto da Silva Martins [1912-1956] e Máximo Joaquim Justino Alves –, de quem se fazia passar, respetivamente, por tia e mãe, tornou-se num dos episódios mais conhecidos e enaltecidos da defesa de tipografias clandestinas e da resistência comunista. 

Entregue à PIDE três dias depois, recusou-se a prestar declarações e recolheu incomunicável à Cadeia de Caxias, tendo a sua atitude de sacrifício em prol dos camaradas merecido uma saudação especial no encerramento do II Congresso Ilegal do PCP, realizado na Lousã em Julho de 1946. 

Libertada a 31 de Agosto de 1947, tornou a ser detida a 20 de Dezembro de 1953, para averiguações, sendo libertada a 9 de Janeiro do ano seguinte.

A última prisão, a quarta, ocorreu a 14 de Abril de 1956, tendo já 64 anos, e saiu em liberdade a 6 de Outubro de 1956.

Proibida de exercer a profissão, empregou-se como governanta de uma casa particular e bordava tapetes de Arraiolos para sobreviver, continuando, clandestinamente, a dar aulas gratuitas a trabalhadores.

Por pressão da PIDE que descobriu onde vivia, foi despejada do quarto alugado, passando a refugiar-se em becos e azinhagas. Faleceu com 68 anos de ataque cardíaco fulminante em plena rua, na Amadora.

Assinou em 1935, no jornal Avante!, sob o pseudónimo “Rubina”, dois textos intitulados “Tribuna Feminina” dirigidos às mulheres portuguesas. 

Pela dedicação militante até à morte, com responsabilidades no aparelho técnico clandestino das casas do Partido Comunista, pela postura que assumiu quando presa e pelo despojamento com que viveu, Maria Machado tornou-se num dos símbolos femininos mais queridos e recorrentemente evocados, perdurando no tempo a atitude na tipografia de Alvaiázere. 

Alberto Vilaça, na sua minuciosa obra Para a história remota do PCP em Coimbra – 1921-1946, insere uma fotografia de Maria Machado “na época das suas ligações partidárias com Coimbra”, bem como cópia de uma carta a Jofre Amaral Nogueira [AV, pp. 164-165].

Segundo Teresa Fonseca, entre 1975 e 1991 existiu, no âmbito da Reforma Agrária, uma unidade coletiva de produção com o nome de Maria Machado, no lugar de Fazendas do Cortiço, freguesia de Nª Sª do Bispo, concelho de Montemor-o-Novo.

Rose Nery Nobre de Melo publicou dados da sua Biografia Prisional em Mulheres Portuguesas na Resistência [Lisboa, Seara Nova, 1975], acompanhada de outros dados, sendo aí referido que Maria Machado faleceu a 4 de Outubro de 1958.

Comissão do livro negro sobre o regime fascista, vol II, apresenta parte da sua Biografia Prisional.

O Dicionário dos Educadores Portugueses (2003), o Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) (2005) e Feminae. Dicionário Contemporâneo (2013) inseriram biografias de Maria  Machado.

sábado, 31 de janeiro de 2015

[0905.] FLORA MAGRO [III] ||

* FLORA CARLOTA ALVES MAGRO *

Eis um nome que não consta dos livros da oposição ao Salazarismo e ao Marcelismo, assim como não consta o de Maria Rodrigues Pato. E no entanto Gina de Freitas, nas entrevistas que publicou no Diário de Lisboa, intituladas "A Força Ignorada das Companheiras que Ficaram na Sombra", deu-lhes destaque. Estava-se, então, em 1974, quando a História parecia ser veloz.

Feminae - Dicionário Contemporâneo incluiu os seus nomes. Espera-se que a vida destas duas mulheres sejam recontadas e as suas biografias desenvolvidas. Merecem! É um acto de justiça.  



[João Esteves]

sábado, 3 de janeiro de 2015

[0891.] ARMINDA DOS SANTOS SOARES [I] || UMA MULHER NOS PREPARATIVOS DA FUGA DE PENICHE (1960)

* ARMINDA SOARES *


|| UMA MULHER NOS PREPARATIVOS DA FUGA DE PENICHE A 3 DE JANEIRO DE 1960 ||

[Gravura de Margarida Tengarrinha segundo desenho de Álvaro Cunhal]

Filha de Olívia dos Santos Espinho Soares e de Luís António Soares, antifascista que se opôs à ditadura salazarista, combateu na Guerra Civil de Espanha, foi preso e esteve internado num campo de concentração em França aquando da Segunda Guerra Mundial.

Irmã de Pedro dos Santos Soares [13/01/1915-10/05/1975], militante clandestino do Partido Comunista.

Casou, no início da década de 1940, com o advogado escalabitano Humberto Pereira Diniz Lopes [17/10/1919-23/11/1984], jovem militante do Partido Comunista, embora na legalidade, passando o casal a revelar as mesmas opções políticas. 

Segundo Teresa Lopes Moreira, Arminda Soares envolveu-se, em 1944, no projecto do Club Literário Guilherme de Azevedo e do Grupo Pró-Cultura dos Empregados no Comércio para fundar o primeiro jardim-de-infância em Santarém, projecto pioneiro que durou apenas três meses.

A partir de 1946, a militância política fez com que Humberto Lopes fosse várias vezes preso nas cadeias políticas, passando Arminda Soares a visitar quer o marido, quer o irmão Pedro. 

Arminda também conheceu, temporariamente, a prisão durante dois dias, entre 24 e 26 de Dezembro de 1953, quando o marido estava novamente detido e condenado a dois anos e meio, acusado de pertencer ao Movimento Nacional Democrático.

Quando Humberto Lopes e Pedro Soares se encontravam presos no Forte de Peniche e se preparou a fuga de Álvaro Cunhal, do irmão e de outros camaradas em janeiro de 1960, Arminda dos Santos Soares constituía o primeiro sinal para a confirmar, através da visita dominical ao marido, o que não sucedeu pelo facto dos planos terem sido antecipados uma semana. 

Recorrendo novamente às palavras de Teresa Lopes Moreira, inscritas no Correio do Ribatejo de 31 de outubro de 2014, "o divórcio e a morte do irmão e da cunhada [Maria Luísa Costa Dias] num acidente [9 de maio de 1975] tornaram-na mais amarga, mas não quebraram os laços da militância".

Feminae - Dicionário Contemporâneo, editado em 2013 pela CIG, inseriu a biografia possível de Arminda dos Santos Soares, constituindo um primeiro passo para a divulgação e estudo do seu percurso político. Por sua vez, os textos de Teresa Lopes Moreira no Correio do Ribatejo permitem redescobrir o percurso comum do casal.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

[0843.] FERNANDO MASCARENHAS [I]

* FERNANDO JOSÉ FERNANDES COSTA MASCARENHAS *
[17/04/1945-12/11/2014]

Licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa, frequentou a Universidade de Coimbra e a de Nanterre. Foi Assistente e, depois, Assistente Convidado da Universidade de Évora entre 1979 e 1988. Instituiu, em 1989, a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, atribuindo-lhe uma vocação cultural. 12.º Marquês de Fronteira.

Nas eleições de Outubro de 1969, foi candidato nas listas da Oposição Democrática (CDE) pelo círculo de Portalegre.


Fernando Mascarenhas escreveu para Feminae. Dicionário Contemporâneo, editado em 2013 pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, uma entrada biográfica sobre Maria Margarida de Sousa Canavarro de Meneses Fernandes Costa [24/02/1917-25/12/2003], sua mãe. 

[in Feminae. Dicionário Contemporâneo, CIG, 2013]

terça-feira, 4 de novembro de 2014

[0828.] RICARDO MACHAQUEIRO [III]

* RICARDO AUGUSTO LOURENÇO MACHAQUEIRO *


[09/01/1958-04/11/2013] 

O Ricardo é único.

Conheci-o em 1974 e, até ao fim, foi sempre o mesmo Ricardo. 

Solidário, sensível, fraterno, afectuoso, saudando de uma maneira muito própria sempre que acontecia cada reencontro. 

Sabedor, como poucos, da História e de Histórias de Homens e Mulheres que, durante 48 anos, resistiram e lutaram, tendo mesmo convivido e entrevistado muitos deles, era um contador de acontecimentos vividos, escutados e estudados. 

Aquando de Feminae. Dicionário Contemporâneo, recorri ao Ricardo para confirmar dados biográficos sobre a irmã de Manuel Rodrigues Oliveira [1911-1996], editor da Biblioteca Cosmos:

  • "Não há qualquer dúvida. A Alice é irmã do Manuel Rodrigues de Oliveira. E uma mana dedicada. E uma mulher corajosa. Na casa deles, em Campo d'Ourique, foi ela a responsável por guardar muitos livros de editoras comunistas brasileiras (Calvino e outras), proibidos cá e, a partir de certa altura, também outra vez lá. Isto seria pelo final da 2.ª Guerra quando o MRO esteve na fundação das Publicações Europa-América com o Lyon de Castro. Paralelamente, o Castro e o MRO importaram esses livro que o Castro dizia que eram dele mas, por causa das coisas, estavam à guarda da Alice. Se houvesse busca e apreensão estás a ver quem se entalava... O MRO foi preso, sim. trabalhava na altura n' O Século como jornalista. Não sei bem se em 1934 ou 35. Posso ver. Esteve preso com o Vilarigues em Peniche e foram juntos para Angra. Quando abriu o Tarrafal, o Vilarigues e outros foram lá dar com os costados, mas, ao que parece por intervenção de alguém ligado ao regime e que conhecia a família do MRO de Campo d'Ourique, o MRO regressou ao continente. Não me recordo se tenho informações sobre as profissões dos pais, mas acerca disso ainda se pode falar com a Alice que, tanto quanto sei ainda está rija."

Partiu, sem nos deixar, já há um ano. 



E eis, de novo, as palavras de António Lobo Antunes:

O último abraço...

"- Abrace-me porque é o último abraço que me dá

durante o abraço

- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento

e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito."

[António Lobo Antunes, "O último abraço que me dás", Visão,  12/12/2013]

terça-feira, 30 de setembro de 2014

[0764.] MARIETA DA SILVEIRA [I]

* MARIETA AMÉLIA DA SILVEIRA *
[1917-2004]

Professora catedrática jubilada. 

Nasceu nos Açores em 18 de Julho de 1917 e faleceu em Agosto de 2004, com 87 anos de idade. 

Investigadora, docente e cidadã empenhada, formou-se, em 1941, em Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Assistente de Química desde Fevereiro de 1942. 

Doutorou-se em 1946, com a tese Contribuição para o Estudo das Radiações de Urânio X Complexo.

Aprovada, em 1969, em concurso para professora extraordinária de Química. 

A par da sua notável carreira académica, manteve atividade política contra a ditadura.

Assinou, em 1945, as listas do Movimento de Unidade Democrática (MUD).

Protestou, em 1947, contra a demissão de 21 professores universitários. 

Colaborou com a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP). 

Pela sua postura antifascista, foi-lhe cancelada uma bolsa de estudo do Instituto de Alta Cultura; não foi contratada aquando da criação do Centro de Estudos de Energia Nuclear; e, em Outubro de 1973, foi impedida de ocupar uma vaga de professor catedrático. 

Após a revolução de 1974, militou no Partido Comunista, sendo candidata a deputada para a Assembleia Constituinte pelo distrito de Lisboa. 

Autora de trabalhos de investigação e de divulgação científica, teve, segundo Maria Helena Florêncio e Manuela Brotas de Carvalho, "um papel muito activo na vida universitária e marcou dezenas de gerações de jovens, alunos de diversas licenciaturas", sendo "a melhor e a mais doce professora que tiveram durante a sua formação” [2004].

Feminae – Dicionário Contemporâneo, editado pela CIG em 2013, inclui uma entrada sobre Marieta Amélia da Silveira.

[João Esteves]