[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

[2290.] 120 ANOS DE MAÇONARIA NO ALGARVE (1816-1936) [I] || ANTÓNIO VENTURA

* ANTÓNIO VENTURA *

120 ANOS DE MAÇONARIA NO ALGARVE 1816 - 1936

Sul, Sol e Sal || 2019



Muito mais do que as lojas e triângulos de 12 dos 16 concelhos do Algarve, dos mações que as integravam e do levantamento dos algarvios em Oficinas fora do distrito. Está-se perante um novo e exaustivo conjunto de biografias da autoria de António Ventura que extrapolam a estrita acção maçónica e permitem, também,  conhecer rostos e nomes que estiveram no combate às ditaduras militar e estado-novista prolongadas por 48 anos.

Se «muitas das pessoas consideradas neste trabalho notabilizaram-se nos mais diversos campos da vida nacional e local» ou constam da toponímia local, tratam-se, no entanto, «na sua grande maioria, de pessoas desconhecidas» cujos percursos merecem ser evocados, reconhecidos e divulgados.

Balizado entre 1816, «ano de levantamento de colunas da primeira Loja maçónica no Algarve», em Lagos, e «um ano após a proibição da Maçonaria em Portugal», entre os mações referenciados, «pessoas comuns que não ficaram na História, estando por isso mesmo ausentes das enciclopédias e dos dicionários biográficos», estão nomes que importa reter nas lutas contra a Ditadura, abrangendo, essencialmente, os movimentos revolucionários entre 1927 e 1931, a adesão ao Movimento de Unidade Democrática (MUD - 1945) e o apoios às campanhas presidenciais de Norton de Matos (1949), de Quintão Meireles e Ruy Luís Gomes (1951) e de Arlindo Vicente e Humberto Delgado (1958).

Nomes que de alguma forma se opuseram à Ditadura Militar, Ditadura Nacional e Ditadura do Estado Novo e conheceram, em muitos casos, a prisão, a deportação e/ou o exílio:

Adelino da Palma Carlos [Faro, 03/05/1905 - ?].

Alfredo José Barroso [Montes de Alvor - Portimão, 15/04/1887 - Lisboa, 14/01/1970].

António José Rodrigues Rosa [Vila Real de Santo António, 06/01/1889 - VRSA, 01/11/1965].

[NOTA: agradeço muito a Desidério António Rodrigues Rosa a preciosa informação sobre as datas de nascimento e de falecimento do seu Avô materno António José Rodrigues Rosa. Este era compadre de Desidério de Jesus Rosa.]

António Neves Anacleto [S. Bartolomeu de Messines, 08/02/1897 - Lisboa, 25/02/1990].

António Silva [Tavira - Lisboa,  10/11/1948].

Artur Francisco Neves [Lisboa, ? - ?].

Artur Luís Filipe de Magalhães [Tavira, 28/02/1886 - 09/08/1938].

Augusto Fernandes Barão [Martinlongo, Alcoutim 11/06/1890 - Faro, 03/01/1968].

Basílio Lopes Pereira [Marmeleira - Mortágua, 25/12/1893 - Lisboa, 25/05/1959].

Daniel Neves Sales Grade [Albufeira, 19/12/1907 - Lisboa,  15/03/1998].

Desidério de Jesus Rosa [Castro Marim, 30/03/1888 - Vila Real de Santo António, 08/11/1983].

[Compadre de António José Rodrigues Rosa, segundo informação do seu neto Desidério António Rodrigues Rosa, a quem muito se agradece.]

Eduardo José dos Santos [Tavira,  19/03/1892 - 06/09/1975].

Francisco Madeira do Rosário [Alcoutim, 31/12/1881 - Vila Real de Santo António, 1972].

Francisco Maria Araújo Ribeiro [Tavira, 27/05/1892 - Tavira, 29/02/1964].

Francisco Martins Entrudo Júnior [Tavira, 31/05/1896 - 25/12/1971].

Francisco Salgueiro da Silva [Lagos, 16/12/1883 - Montijo, 18/01/1960].

Frederico António de Abreu Chagas [Tavira, 1884 - Tavira, 26 de Agosto de 1944].

Henrique Augusto Martinho da Silva e Costa Martins [Santarém,  24/09/1880 - Silves,  25/05/1959].

Jerónimo de Almeida Estrela [Fuzeta, Olhão, 30/07/1893 - Fuzeta, 04/11/1968].

João Augusto Filipe Gonçalves Saias (Júnior) [Olhão,  26/06/1906 - Olhão,  20/12/1964].

João da Silva Nobre [S. Brás de Alportel, 20/01/1878 - Faro, 08/12/?].

João de Jesus Ventura [Olhão,  15/10/1886 - Olhão,  10/05/1963].

João José Duarte [Lagoa, 27/01/1880 - Silves, 24/10/1960].

João Maria Vizeto Guerreiro Narchial Franco [Tavira, 10/11/1910 - Luanda, 02/06/1973].

João Mendes Cabeçadas [Loulé, 16/05/1887 - Lisboa, 07/03/1958].

João Ribeiro Gomes [Vila Real de Santo António, 04/10/1886 - Lisboa,  12/03/1961].

José Crisóstomo Sales Grade [Guia, Albufeira, 03/10/1882 - Lisboa, Junho de 1961].

José de Oliveira Calvário Júnior [Silves, 29/04/1898 - 14/05/1953].

José de Sousa Sacadura Amaral [Lisboa, 07/06/1904 - ?)].

José Joaquim Lopes Macedo [Faro, 16/12/1903 - ?].

José Mendes Cabeçadas Júnior [Loulé, 19/08/1883 - Lisboa,  11/06/1966].

José Ribeiro Lopes [Faro, 1879 - 17/02/1932].

José Rodrigues Pral [Quelfes, Olhão  19/02/1892 - Lisboa, 20/04/1946].

José Xavier da Silva Cavaco [Castro Marim,  ? - ?].

Julião Quintinha [Silves, 19/12/1885 - Lisboa, 23/07/1968].

Manuel António de Olival Júnior [Loulé, 12/03/1881 - Loulé, 28/11/1949].

Manuel Cumbrera [Vila Real de Santo António, 13/01/1880 - VRSA, 20/05/1958].

Manuel Paula Ventura [Olhão, 31/07/1884 - Huelva, 03/08/1935].

Manuel Pedro Guerreiro [São Brás de Alportel, 25/05/1878 - 01/02/1937].

Mário Celorico Drago [Castro Marim, 18/11/1898 - Lisboa, 13/12/1974].

Mário Mata Branco [Torres Novas, 01/12/1896 - Lisboa, 27/08/1959].

Nuno Guerreiro Cabeçadas [Loulé,  17/03/1896 - Lisboa,  30/01/1989].

Sebastião Eduardo Maldonado Antunes Centeno [Tavira, 24/12/1904 - Lisboa,  Julho de 1973].

Sebastião José da Costa [Faro, 02/06/1883 - Lisboa, 02/07/1966].

Victor Castro da Fonseca [Faro, 12/04/1879 - Faro, 14/04/1956].

Zacarias da Fonseca Guerreiro [Tavira, 19/04/1891 - ?].


[António Ventura || 120 Anos de Maçonaria no Algarve 1816-1936 || Sul, Sol e Sal || 2019]
[João Esteves]

sábado, 22 de fevereiro de 2020

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

[2288.] GROUPE MANOUCHIAN [I] || 21 DE FEVEREIRO DE 1944

GROUPE MANOUCHIAN * 

FUZILAMENTO DE 22 ANTIFASCISTAS || 21 DE FEVEREIRO DE 1944



Le 21 février 1944, 23 membres du "groupe Manouchian" sont condamnés à mort puis fusillés au fort du Mont-Valérien, à l'exception de la seule femme de ce mouvement de résistance, Olga Bancic.

Elle est guillotinée quelques mois plus tard, conformément au manuel du droit criminel de la Wehrmacht qui interdit alors de fusiller les femmes.

Arsène Tchakarian, mort le 4 août 2018 à l'âge de 101 ans, était le dernier membre encore en vie de ce mouvement de résistance.

La liste suivante des 23 membres du groupe Manouchian exécutés par les Allemands signale par la mention (AR) les dix membres que les Allemands ont fait figurer sur l'affiche rouge:

Celestino Alfonso (AR), Espagnol, 27 ans.

Olga Bancic, Roumaine, 32 ans (seule femme du groupe, décapitée en Allemagne le 10 mai 1944).

Joseph Boczov [József Boczor ; Wolff Ferenc] (AR), Hongrois, 38 ans - Ingénieur chimiste.

Georges Cloarec, Français, 20 ans.

Rino Della Negra, Italien, 19 ans - Footballeur du Red Star Olympique.

Thomas Elek [Elek Tamás] (AR), Hongrois, 18 ans - Étudiant.

Maurice Fingercwajg (AR), Polonais, 19 ans.

Spartaco Fontano (AR), Italien, 22 ans.

Jonas Geduldig, Polonais, 26 ans.

Emeric Glasz [Békés (Glass) Imre], Hongrois, 42 ans - Ouvrier métallurgiste.

Léon Goldberg, Polonais, 19 ans.

Szlama Grzywacz (AR), Polonais, 34 ans.

Stanislas Kubacki, Polonais, 36 ans.

Cesare Luccarini, Italien, 22 ans.

Missak Manouchian (AR), Arménien, 37 ans.

Armenak Arpen Manoukian, Arménien, 44 ans.

Marcel Rajman (AR), Polonais, 21 ans.

Roger Rouxel, Français, 18 ans.

Antoine Salvadori, Italien, 24 ans.

Willy Schapiro, Polonais, 29 ans.

Amédéo Usséglio, Italien, 32 ans.

Wolf Wajsbrot (AR), Polonais, 18 ans.

Robert Witchitz (AR), Français, 19 ans.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

[2287.] OS QUE MORRERAM NO TARRAFAL || 31 ROSTOS - 32 NOMES

* OS QUE MORRERAM NO TARRAFAL *






 




 


Fotografias (de cima para baixo, da esquerda para a direita):

Abílio Augusto Belchior [Motorista, 1897-1937]
Albino António de Oliveira de Carvalho [Comerciante, 1884-1941]
Albino Coelho Júnior [Motorista, 1897-1940]
Alfredo Caldeira [Pintor decorador, 1908-1938]
Francisco do Nascimento Esteves [Torneiro de metais, 1914-1938]
António de Jesus Branco [Descarregador, 1906-1942]
António Guedes de Oliveira e Silva [Motorista, 1901-1941]
António Guerra [Empregado de comércio, 1913-1948]
Arnaldo Simões Januário [Barbeiro, 1897-1938]
Augusto da Costa [Operário vidreiro, 1901-1937]
Bento António Gonçalves [Torneiro mecânico no Arsenal do Alfeite,1902-1942]
Cândido Alves Borja [Marinheiro, 1910-1937]
Casimiro Júlio Ferreira [Funileiro, 1909-1941]
Damásio Martins Pereira [Servente, 1905-1942]
Edmundo Gonçalves [Ex-2.º Sargento, 1900-1944]
Ernesto José Ribeiro [Servente de pedreiro, 1911-1941]
Fernando Alcobia [Vendedor de jornais, 1914-1939]
Francisco José Pereira [Marinheiro, 1909-1937)]
Francisco Nascimento Gomes [Condutor, 1909-1943]
Henrique Vale Domingues Fernandes [Marinheiro, 1913-1942]
Jacinto de Melo Faria Vilaça [Marinheiro, 1914-1941]
Jaime da Fonseca e Sousa [Impressor da Casa da Moeda, 1902-1940]
João Lopes Dinis [Canteiro, 1904-1941]
Joaquim Marreiros [Marinheiro, 1910-1948]
Joaquim Montes [Corticeiro, 1912-1943]
José Manuel Alves dos Reis [Marceneiro, 1894-1943]
Manuel Augusto da Costa [Servente de pedreiro, 1887-1945]
Mário dos Santos Castelhano [Empregado de escritório, 1896-1940]
Paulo José Dias [Fogueiro marítimo, 1904-1943]
Pedro de Matos Filipe [Estivador, 1905-1937]
Rafael Tobias Pinto da Silva [Relojoeiro, 1911-1937]

Sem Fotografia:

Francisco Domingues Quintas [Industrial, 1889-1937]

18 de Fevereiro de 1978

TRASLADAÇÃO DOS RESTOS MORTAIS DOS PRESOS POLÍTICOS QUE MORRERAM NO TARRAFAL

[2286.] TRASLADAÇÃO DOS RESTOS MORTAIS DOS PRESOS POLÍTICOS QUE MORRERAM NO TARRAFAL [I] || 1978 - 2020

* MONUMENTO AOS PRESOS POLÍTICOS QUE MORRERAM NO TARRAFAL *

18 DE FEVEREIRO DE 1978

Cemitério do Alto de São João

domingo, 16 de fevereiro de 2020

[2285.] JOAQUIM LEMOS DE OLIVEIRA - "O REPAS" [I] || ASSASSINADO PELA PIDE EM FEVEREIRO DE 1957

* JOAQUIM LEMOS DE OLIVEIRA - "O REPAS" *
[21/05/1908 - 14-15/02/1957]

O percurso político do barbeiro Joaquim Lemos de Oliveira começou muito cedo, tendo aderido às Juventudes Comunistas ainda durante a 1.ª República, em 1922, com 14 ou 15 anos. Com a Ditadura instituída em 28 de Maio de 1926 e a sua rápida fascização, tornou-se num dos primeiros presos políticos de Fafe. A continua militância no Partido Comunista levou-o a ser preso por cinco vezes entre 1936 e 1957, tendo aparecido morto numa das celas da Subdirectoria do Porto da PIDE aquando da última detenção, após vários dias de tortura da estátua e bárbaros espancamentos. 

[Joaquim Lemos de Oliveira quando jovem || in Artur Ferreira Coimbra, Desafectos ao Estado Novo - Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe, Junta de Freguesia de Fafe, 2003]

Filho de Emília de Lemos e de Joaquim de Oliveira, Joaquim Lemos de Oliveira nasceu no lugar de Fafoa, freguesia de Fafe, em nasceu em 21 de Maio de 1908.

Feita a 4.ª classe, começou a trabalhar e, com treze anos, aprendeu o ofício de barbeiro. Segundo João Freitas, autor da biografia romanceada A noite fatal de um comunista [2010], foi-se politizando mediante as conversas com os clientes, lendo, ainda, jornais e panfletos comunistas Em 1922, ter-se-à filiado nas Juventudes Comunistas, tornando-se um militante activo até à sua morte. 

[João Freitas || A noite fatal de um comunista || 2010]

Com o triunfo da Ditadura Militar e o fascismo vieram as perseguições e as constantes fugas, sendo apelidado pela PVDE por A Truta”, «por causa da facilidade como lhes escapava» [Blogue Sala de Visitas do Minho, de Artur Coimbra].

Conhecido no meio fafense por "O Repas", foi preso, juntamente com Egídio Gonçalves e mais algumas dezenas de antifascista, em 17 de Outubro de 1936, acusado de "propaganda subversiva", e condenado a 20 meses de prisão. Segundo declarações daquele a Artur Ferreira Coimbra, inseridas no livro Desafectos ao Estado Novo - Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe, Joaquim Lemos de Oliveira seria agredido violentamente numa noite de 1937, por motivos fúteis, pelo agente Roquete, antigo guarda-redes da selecção portuguesa, o mesmo que espancaria, nos anos 40, Cândido de Oliveira.

[Artur Ferreira Coimbra || Desafectos ao Estado Novo - Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe || 2003]

Novamente preso em 24 de Novembro de 1949, por ter um mandado de captura por "crime contra a segurança do Estado" emitido pelo Tribunal Criminal do Porto, e entregue pela GNR de Felgueiras à Subdirectoria do Porto da PIDE [Processo 1004/948].

Libertado em 25 de Fevereiro de 1950, foi preso em Fafe dias depois, em 4 de Março, "para averiguações", levado para o Porto e solto no dia 16 [Processo 155/50].

[Joaquim Lemos de Oliveira || ANTT || RGP/19520 || PT-TT-PIDE-E-010-98-19520]

Preso, pela quarta vez em 15 de Agosto de 1951, terá ficado dois anos nos calabouços da PIDE no Porto, seguindo, depois, em 16 de Junho de 1953, para Peniche, para cumprir um ano de medida de segurança.

Libertado em 16 de Junho de 1954, retomou a militância no Partido Comunista e seria preso pela derradeira vez em 29 de Janeiro de 1957, pela PSP de Fafe, e levado para as prisões privativas da PIDE no Porto. 

[Joaquim Lemos de Oliveira || 30/01/1957 || ANTT || RGP/19520 || PT-TT-PIDE-E-010-98-19520]

Joaquim Lemos de Oliveira faleceu, em 14 ou 15 de Fevereiro de 1957, numa das celas da Subdirectoria da PIDE no Porto. Segundo declarações de Luís Nogueira, outro militante comunista com diversas prisões, transcritas por Lino Lima no livro Romanceiro do Povo Miúdo - Memórias e confissões [Edições Avante!, 1991], «eu e o Mário de Araújo Lopes estávamos por baixo da cela onde o camarada se encontrava e tínhamos ouvido o agente da PIDE dizer para o guarda Moreira, quando vinha trazer o Repas do interrogatório: "guarde para aí esse pássaro que anda mesmo a morrer e nunca mais morre"». Tinha sido submetido à tortura da estátua durante nove dias e vergastado a cavalo marinho, pontapeado e socado, nomeadamente pelo subdirector Costa Pereira.

Por sua vez, Victor de Sá contou que, quando detido em 1960, «um guarda prisional lhe disse que os agentes da PIDE, quando foram tirar do quarto o cadáver do Lemos de Oliveira, o arrastaram pelas escadas abaixo sem nenhum respeito, sem nenhuma sensibilidade» [José Ricardo/Lino Lima, Romanceiro do Povo Miúdo - Memórias e confissões, Edições Avante!, 1991]. 

Quando no caixão, a mulher e os filhos puderam ver que «tinha ferimentos na cabeça e equimoses no corpo», tendo a PIDE procurado que o funeral fosse feito em Fafe tarde e às escondidas. Este, realizado no dia 19 de Fevereiro, constituiu «um momento importante de protesto e de revolta contra a PIDE e a GNR que vigiaram com mão de ferro as cerimónias» [Artur Ferreira Coimbra].

A morte, aos 48 anos, de Joaquim Lemos de Oliveira suscitou diversos protestos e teve repercussão em diversos meios.

Presos no Porto, Agostinho Neto, Ângelo Veloso, António Borges CoelhoCecília Alves, Hermínio Marvão, Hernâni Silva, Pedro Ramos de Almeida e Virgínia Moura subscreveram uma petição dirigida ao Presidente da República, para que «Seja feito um rigoroso inquérito, dirigido por uma entidade estranha à PIDE sobre as circunstâncias em que se deram as mortes de Joaquim Lemos de Oliveira e Manuel da Silva Júnior [o nome correcto é Manuel Fiúza Júnior], extensivo aos métodos usados para investigações nesta Polícia Internacional e de Defesa do Estado; Nesse inquérito possam depor livremente todas as pessoas actualmente presas e aquelas que já o estiveram; A nossa situação prisional passe a deixar de ser dependente da PIDE e não mais se verifique a circunstância de investigadores serem simultaneamente carcereiros» [Blogue O Castendo, de António Vilarigues].

Também doze advogados dirigiram, sem sucesso, uma exposição ao Ministro da Presidência, «exigindo um amplo e rigoroso inquérito das causas da morte do Repas e de um outro preso a seguir assassinado, Manuel Silva Júnior, de Viana do Castelo» [Artur Ferreira Coimbra].

Papiniano Carlos dedicou-lhe o poema seguinte: 

Glória a Joaquim Lemos de Oliveira

Em Fafe
O cemitério
ficava entre campos lavrados
a meio da colina.

Aí iria descansar o herói anónimo
de sua tarefa, sofrimento e morte.
Sentindo bem junto à violada face
a carícia das madrugadas.
O sorriso das espigas,
a frescura do orvalho de manso
gotejando entre as raízes
de seu coração.

Entre alas de povo
o caixão atravessava lentamente
o pequeno cemitério.
Entre dezenas de polícias armados
de metralhadoras
Joaquim Lemos de Oliveira
ia agora descansar no seu coval.
Foi quando, no silêncio da colina,
a voz dum menino atravessou os ares,
atravessou o fogo, o chumbo, a violência,
o terror, a morte.
O menino gritava:
- Eu vou crescer, vencer contigo, meu pai!
 
[in Blogue Sala de Visitas do Minho, de Artur Coimbra]

Entretanto, a PIDE prendeu e assassinou, nas mesmas instalações prisionais, o velho militante anarquista Manuel  Fiúza Júnior [1887-1957], frequentemente referido como Manuel Silva Júnior, acusando-o de ser o responsável pela autoria e distribuição, em Viana do Castelo, de um manifesto onde se denunciava o sucedido com Joaquim Lemos de Oliveira. Também Manuel Fiúza foi torturado e submetido à Estátua. 

Fontes:
ANTT, Registo Geral de Presos 19520 [Joaquim Lemos de Oliveira / PT-TT-PIDE-E-010-98-19520].

Artur Ferreira Coimbra, Desafectos ao Estado Novo - Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe, Junta de Freguesia de Fafe, 2003.

João Freitas, A noite fatal de um comunista, 2010.

Blogue Sala de Visitas do Minho, de Artur Coimbra.

Blogue O Castendo, de António Vilarigues.

[João Esteves]

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

[2284.] GRUPO DE DEPORTADOS EM MALANJE || DEZEMBRO DE 1927

* GRUPO DE DEPORTADOS EM MALANJE *
Grupo de implicados na Revolução de 7 de Fevereiro de 1927

[Colecção Particular de Manuel Mesquita || 24/12/1927 || Malanje]

Fotografia tirada em 24 de Dezembro de 1927 em Malanje (Angola), pertencente ao espólio de Manuel da Piedade e publicada pelo neto, Manuel Mesquita, em Antifascistas da Resistência

Em primeiro plano, da esquerda para a direita:
4.º - Capitão DJALME de AZEVEDO, Caçadores 9
5.º - Comandante AGATÃO LANÇA, Armada
9.º - Alferes António CARNEIRO FRANCO
10.º - Dr. RAFAEL de Sampaio, Infantaria 2
Na segunda fila, o 6.º, envergando uniforme militar é MANUEL DA PIEDADE.

[2283.] ANTÓNIO PEREIRA LOPES [I] || DA MILITÂNCIA COMUNISTA À GUERRA CIVIL DE ESPANHA

* ANTÓNIO PEREIRA LOPES *
[28/07/1915 - ?]

Militante do Partido Comunista, António Lopes foi um dos muitos portugueses anónimos que combateram em defesa da Espanha Republicana.

[António Pereira Lopes || 1934 || ANTT || RGP/300 || PT-TT-PIDE-E-010-2-300]

Filho de Maria da Conceição Pereira, vendedeira, e de António Lopes, fundidor, António Pereira Lopes nasceu em 28 de Julho de 1915, em Lisboa. Nascido e criado em Alcântara, começou a trabalhar quando concluiu a 4.ª Classe.

Caldeireiro de ferro, trabalhava nas Oficinas da Sociedade de Construções e Reparações Navais, na Rocha de Conde de Óbidos, quando terá sido aliciado pelo colega Zé Ruço, mais velho, a aderir às Juventudes Comunistas. 

Integrava a Célula N.° 41, onde era o Secretário responsável pela Comissão Sindical, quando foi preso, em 23 de Setembro de 1934, pela PSP de Lisboa e entregue à Secção Política e Social da PVDE, «por fazer parte das Juventudes Comunistas Portuguesas» e «afixar panfletos subversivos pelas paredes», juntamente com Sérgio de Matos Vilarigues, nos bairros de Campo de Ourique, Fonte Santa, Necessidades e Avenida 24 de Julho [Cadastro Político 5451]. Também distribuía publicações clandestinas no local de trabalho [Processo 1238].

Depois de submetido a interrogatórios, foi levado para o Aljube em 8 de Novembro de 1934 e julgado pelo Tribunal Militar Especial em 20 de Março de 1935, sendo condenado em 12 meses de prisão e perda de direitos políticos por cinco anos [Processo 219/934 do TME].

[António Pereira Lopes || 1934 || ANTT || RGP/300 || PT-TT-PIDE-E-010-2-300]

Permaneceu em Peniche entre 5 de Abril e 15 de Setembro de 1935, data em que foi libertado.

[Peniche - Páscoa de 1934 || Diário de Lisboa de 7 de Março de 1984]

Impedido de regressar ao estaleiro, empregou-se como pasteleiro, mantendo amizade com Alípio dos Santos Rocha e o aprendiz de traçador Manuel Almeida Costa, também militantes das Juventudes Comunistas.

Juntamente com aqueles dois, decidiu ir defender a República Espanhola e, em Dezembro de 1936, introduziu-se clandestinamente no navio francês "Lipari", desembarcando em Bordéus três dias depois. Confiante, declarou-se às autoridades como voluntário internacionalista, acabando por ficar dois meses presos.

Em liberdade, o cônsul espanhol arranjou aos três um passaporte colectivo, onde constavam como naturais da Galiza, entrando, então, em Espanha por Perpignan. Ao declararem-se como portugueses, foram novamente presos, já que o passaporte os referia como galegos. Libertado ao fim de quinze dias por intervenção de Mário Reis, ligado aos antifascistas portugueses de Barcelona, António Lopes filiou-se no Partido Socialista Unificado Catalão.

Recebeu instrução durante um mês num Centro da Juventude do PSUC e seguiu para a frente de Aragão como miliciano, integrando a 122.ª Brigada Mista da 27.ª Divisão, no sector de Rober, perto da serra de Alcubierre, na margem esquerda do Ebro: permaneceu naquela frente defensiva até Novembro de 1937.

Seguidamente, participou na batalha de Teruel, integrado na 27.ª Divisão comandada por José del Barrio Navarro  [divisão Karl Marx], sendo preso na zona de Alfambra em 18 de Fevereiro de 1938. Nesse mesmo período, foi preso o major médico Inocêncio de Vasconcelos da Câmara Pires [não confundir com o familiar Inocêncio Matoso da Câmara Pires que se exilaria em Paris], chefe dos serviços de saúde da 27.ª Divisão, tendo assistido ao seu fuzilamento pelos franquistas.

Para escapar ao mesmo fim, António Lopes fez-se passar pelo catalão Juan Pujol Toés. Percorreu, então, por vários campos de prisioneiros, ficando cerca de um ano no de Orduña, no País Basco. Em meados de 1939, estava no de Jaén, norte da Andaluzia, incorporado numa brigada de trabalhos forçados.

Conseguiu fugir, com mais dois espanhóis: atravessou a nado o rio Guadalquivir, passou a serra Morena e chegou a Jerez de los Caballeros, já próximo de Portugal. Preso, declarou-se português, sendo levado para Badajoz, onde o espancaram. Novamente internado num campo, desta vez perto de Burgos, no mosteiro de São Pedro de Cardeña, e entregue, em 26 de Dezembro de 1940, às autoridades portuguesas no Posto da Beirã [Processo 2262/940].

[António Pereira Lopes || 28/10/1941 || ANTT || RGP/300 || PT-TT-PIDE-E-010-2-300]

Seguiu para Peniche e, por ter sido indultado, saiu em liberdade condicional em 10 de Janeiro de 1943.

Segundo Varela Gomes, que recolheu o seu depoimento em 1983 ou 1984 e publicou-o no Diário de Lisboa, António Lopes, conhecido por "O Espanhol", trabalhou uns sete ou oito anos na Sociedade Geral, na reparação de navios, e continuou a militar no Partido Comunista.

[Diário de Lisboa || 7 de Março de 1984]

Denunciado, tentou emigrar para França, país onde estavam Alípio Rocha e Manuel da Costa, seus antigos companheiros de Alfama, da Guerra Civil e do Partido. No entanto, segundo o Registo Geral de Presos, foi preso no Funchal, em 4 de Janeiro de 1953, por tentativa de emigração clandestina, tendo sido entregue pelo Capitão do navio Vera-Cruz.

[António Pereira Lopes || 17/01/1953 || ANTT || RGP/300 || PT-TT-PIDE-E-010-2-300]

Enviado para o continente, esteve detido no Aljube e foi entregue ao Delegado do Procurador da República de turno nos Tribunais Correccionais de Lisboa [Processo 25/953].

[Diário de Lisboa || 7 de Março de 1984]

Acabou por ir mesmo para França, de onde só regressou definitivamente após Abril de 1974.

[Diário de Lisboa || 7 de Março de 1984]

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 5451 [António Pereira Lopes / PT-TT-PIDE-E-001-CX06_m0922, m0922a].

ANTT, Registo Geral de Presos 300 [António Pereira Lopes, PT-TT-PIDE-E-010-2-300].

Varela Gomes, "Portuguesas na Guerra de Espanha - Terceiro depoimento", Diário de Lisboa, 07/03/1984.

[João Esteves]