[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

terça-feira, 4 de agosto de 2015

[1050.] VIRGÍNIA FARIA DE MOURA [I]

* NASCIDA HÁ CEM ANOS *

[19/07/1915 - 19/04/1998]

Engenheira Civil, a primeira no país. 

Nasceu em São Martinho do Conde, concelho de Guimarães, a 19 de julho de 1915, filha de mãe solteira, professora do ensino primário que teve de enfrentar a reação desfavorável da família e criar sozinha a criança, e faleceu no Porto a 19 de abril de 1998, com 82 anos de idade. 

O pai, militar muito mais velho do que a mãe, partiu para a Primeira Guerra pouco depois, mantendo com a filha uma relação esporádica, embora a tenha perfilhado. 

Viveu, até aos 14 anos, na terra natal, onde a mãe lecionava crianças durante o dia e ensinava os pais à noite. Estudou no liceu de Guimarães do 1º ao 4º ano e, no final dos anos 20, com a transferência daquela para Vila do Conde, passou a frequentar o liceu da Póvoa de Varzim onde, em 1931, se estreou politicamente ao participar numa greve de solidariedade com os estudantes da Faculdade de Medicina do Porto devido ao assassinato do estudante João Martins Branco (Abril). 

Mudou-se para o liceu feminino do Porto, cidade onde conheceu António Lobão Vital [1911-1978], estudante liceal que a influenciou nas leituras, e ingressou na Faculdade de Engenharia, sendo a primeira mulher a licenciar-se em engenharia civil, área onde exerceu a atividade profissional. 

Cursou ainda Matemática e chegou a frequentar a Faculdade de Letras de Coimbra. 

Aderiu, com 18 anos, ao Partido Comunista Português e nesse ano de 1933 participou na secção portuguesa do Socorro Vermelho Internacional, organização de ajuda aos presos políticos portugueses e espanhóis. 

Virgínia Moura tornou-se uma das militantes comunistas, a par de Luísa [1898-1966] e Aida Paulo [1918-1993], com atividade continua e duradoura iniciada ainda antes da reorganização do PCP em 1940-1941, centrando-a na cidade do Porto onde vivia. 

Casou ainda estudante, em 1935, com o arquiteto António Lobão Vital, também destacado militante comunista nortenho, manteve-se organizada sob orientações de Fernando Correia, Manuel de Azevedo ou Joaquim Pires Jorge [1907-1984], e coube-lhe importante papel nos movimentos unitários no norte em que o Partido Comunista tinha responsabilidades: Movimento Nacional de Unidade Antifascista (MUNAF), Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde integrou a Comissão Distrital, Movimento Nacional Democrático (MND), Comissão Nacional para a Defesa da Paz (CNDP), sendo ainda a sócia nº 95 da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, com residência na Rua Santa Helena, 115. 

Foi em sua casa que funcionou a comissão diretiva inicial do periódico Sol Nascente [1937-1940], onde utilizou o pseudónimo Maria Selma, e colaborou nos anos 40 e 50, com o mesmo pseudónimo, nos periódicos O Trabalho, O Diabo, Pensamento e Ecos do Sul

Escreveu, nos anos 40, “Carta a uma mulher moderna”, apelando à participação da mulher na sua própria emancipação. 

Envolveu-se na candidatura de Norton de Matos [1867-1955] à Presidência da República [1949], sendo um dos elos entre o PCP e aquele, e discursou no comício realizado na Fonte da Moura, Porto, a 23 de janeiro de 1949. 

Aquando da prisão, em Março desse ano, de Álvaro Cunhal [1913-2005], Militão Bessa Ribeiro [1896-1950] e Sofia de Oliveira Ferreira [1922-2010] na casa clandestina do Luso e transferência dos presos para a sede da PIDE Porto, foi o seu grupo que tornou público, incluindo mediante anúncio publicado no jornal Primeiro de Janeiro, essas detenções, evitando o risco de “desaparecerem” sem rasto devido à relevância dos primeiros dois nomes. 

Com Ruy Luís Gomes [1905-1984] e outros nomes oposicionistas nortenhos, impulsionou a formação, em abril de 1949, da estrutura política unitária do Movimento Nacional Democrático, de forte influência comunista, integrando a Comissão Central e a Comissão Distrital do Porto, na sequência do qual seria presa a 17 de dezembro. 

Recolheu ao Forte de Caxias, onde conviveu na mesma cela com Cecília Simões Areosa Feio [1921-1980], Georgette de Oliveira Ferreira [n. 1925] e Maria Lamas [1893-1983], tendo as vendedeiras do Mercado do Bolhão parado a venda e manifestado-se contra a sua detenção. 

Libertada com as outras detidas, à exceção de Georgette Ferreira, na véspera de Natal, mediante elevada fiança cuja quantia se obteve mediante redes de solidariedade. 

Juntamente com Ruy Luís Gomes, discursou no funeral de Militão Ribeiro, enterrado em Murça na sequência da morte a 3 de janeiro de 1950 quando detido na Penitenciária de Lisboa. 

Presa novamente no Porto a 19 de janeiro e a 12 Abril de 1950. 

No ano seguinte, aquando da candidatura de Ruy Luís Gomes à presidência da República, envolveu-se, mais uma vez, numa campanha eleitoral, tendo ficado para a história a forma como discursou e foi agredida, juntamente com o candidato, Albertino de Macedo [1910-1997], José Cardoso Morgado [1921-2003], Lino Lima [1917-1999] e Lobão Vital, pela PSP após o comício realizado em Rio Tinto, Porto, a 3 de julho de 1951. 

Nova prisão na mesma cidade a 5 de fevereiro de 1952 e enviada para o Forte de Caxias. 

Detida em Peniche a 19 de novembro desse ano, recolheu a Caxias. 

Em 1953, aquando do Congresso da União Internacional dos Arquitetos realizado em Lisboa, participou ativamente nos debates, preocupando-se com a temática da colaboração entre arquitetos e engenheiros. 

Tornou a ser presa, no Porto, a 26 de dezembro. 

Participou, em março de 1954, na V Reunião Ampliada do Comité Central do PCP e foi novamente presa no Porto a 19 de agosto de 1954. 

Presa no Porto a 16 de agosto de 1956, com Albertino Macedo, José Morgado, Lobão Vital e Ruy Luís Gomes, enquanto dirigente do MND. 

No ano seguinte, durante o V Congresso do PCP realizado numa casa em S. João do Estoril, foi eleita para o Comité Central, apesar de ser um quadro que estava na legalidade e sempre se manteve nessa situação. 

Nas eleições presidenciais de 1958, não perfilhou qualquer simpatia pela hipótese de Cunha Leal [1888-1970] e postou-se ao lado da candidatura de Humberto Delgado [1906-1965], em detrimento da de Arlindo Vicente [1906-1977]. 

Presa no Porto a 28 de abril de 1962. 

Participou nos três congressos da Oposição Democrática de Aveiro, realizados em 1957, 1969 e 1973 e integrou a lista do círculo do Porto da Comissão Democrática Eleitoral candidata às eleições para a Assembleia Nacional de 1969, voltando a colaborar na campanha eleitoral de 1973. 

Apresentou em 1969, com o marido, uma comunicação ao II Congresso Republicano de Aveiro sobre “Casas dos trabalhadores nos centros urbanos”. 

Entre 1949 e 1974, foi presa por 16 vezes, totalizando 6 anos nas prisões do regime. 

Usou o pseudónimo “Xavier”. 

Devido à sua postura política, nunca foi admitida na função pública, o mesmo acontecendo com o marido. 

Após a data de 25 de Abril de 1974, foi distinguida com a Ordem da Liberdade [01/10/1985] e recebeu a medalha de Honra da Cidade do Porto e do Movimento Democrático de Mulheres. 

No dia do seu 80º aniversário, o Partido Comunista Português prestou-lhe homenagem no Palácio de Cristal tendo, nessa ocasião, sido lançado o livro Virgínia Moura mulher de Abril. Álbum de Memórias

[Edições Avante!, 1996]

Faleceu no Porto a 19 de Abril de 1998, com 82 anos de idade. 

Teixeira de Pascoaes [1877-1952] definiu-a como “uma força da natureza”. 

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