[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

[1059.] MARIA EVELINA DE SOUSA [I]

[01/01/1879 - 12/02/1946]
 [Fotografia assinada e com dedicatória datada de 31/08/1913]


Educadora, professora primária oficial, jornalista, republicana e feminista.

Filha de Décio de Sousa, nasceu em Ponta Delgada em 1 de Janeiro de 1879 e faleceu na mesma localidade açoreana em 12 de Fevereiro de 1946.

Frequentou a escola distrital de habilitação ao Magistério em 1900, obtendo a classificação de 17 valores no exame final, e leccionou sempre na sua terra natal. A partir de 1904, exerceu a docência na Escola de Santa Clara e, em 1908, foi a responsável pela fundação da primeira biblioteca escolar do círculo, o que teve grandes repercussões na comunidade e na imprensa, tendo sido publicado um opúsculo com a colecção de artigos com que foi saudada a sua inauguração [Biblioteca escolar de Santa Clara, Ponta Delgada, 1909]. 

Quando, em Setembro de 1909, se deslocou a Lisboa, em viagem de ‘estudo e de recreio’, manteve contactos com Amália Luazes, Ana de Castro Osório, Albertina Paraíso, Olga Morais Sarmento e Virgínia Quaresma e visitou as principais escolas da capital, em companhia do professor Ulysses Machado.

Colaborou no jornal O Campeão Escolar, semanário consagrado aos interesses da instrução e do professorado, editado no Porto, entre 1904 e 1907, mas foi através do periódico Revista Pedagógica, órgão do professorado oficial açoreano e dedicado aos interesses da instrução e do professorado oficial, que se publicou em Ponta Delgada entre 1906 e 1916, do qual foi directora, proprietária e editora, que granjeou grande notoriedade junto da comunidade educativa, local e nacional. Embora o seu objectivo central fosse a difusão da instrução e a defesa dos interesses do professorado oficial, também acompanhou naquelas páginas a formação das organizações de mulheres e deu destaque às respectivas iniciativas. 

Foi o único periódico a chamar a atenção para os Estatutos da Associação de Propaganda Feminista, destacando os objectivos e o papel meritório das dirigentes Carolina Beatriz Ângelo e Ana de Castro Osório, e publicou artigos de opinião de algumas das principais líderes. 

A partir de 12 de Maio de 1915, Maria Evelina de Sousa surgiu também como secretária de redacção do periódico A Folha, fundado em 1902 e cuja directora, editora e proprietária era a amiga inseparável Alice Moderno [11/08/1868 - 20/02/1946].  

Por iniciativa de Evelina de Sousa realizou-se em Ponta Delgada uma conferência de propaganda ao método João de Deus e, mais tarde, ofereceu-se para dar explicações gratuitas a todos os professores que desejassem aprender o Método Legográfico-Luazes, método de leitura e de escrita da autoria da professora Amália Luazes, com quem o tinha aprendido. 

Ainda durante o tempo da Monarquia, defendeu na imprensa a proibição do ensino de matéria religiosa nos estabelecimentos escolares, congratulando-se com o decreto republicano que extingue, nas escolas primárias e normais, a doutrina cristã. 

Evelina de Sousa foi das poucas intelectuais a militar em três das organizações femininas da 1.ª República. 

Estreou-se na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tendo sido homenageada, juntamente com Alice Moderno, numa sessão realizada na sede em 15 de Agosto de 1912 e onde discursaram, para além das jornalistas, Ana Augusta de Castilho, Agostinho Fortes, Carneiro de Moura e Maria Veleda.

Participou na Associação de Propaganda Feminista, tendo sido publicada no seu órgão A Semeadora a carta dirigidas a Ana de Castro Osório onde expunha as indústrias femininas açoreanas [“Indústrias femininas - Carta a D. Ana de Castro Osório”, A Semeadora, nº 27, 15/09/1917, p. 3, cols. 1-2, nº 28, 15/10/1917, p. 3, col. 4 e p. 4, col. 1, nº 33, 09/07/1918, p. 4, cols. 1-3 e nº 35, 30/09/1918, p. 3, cols. 2-4].

Aderiu à Associação Feminina de Propaganda Democrática tendo, em Maio de 1916, participado na homenagem ao Presidente da República Bernardino Machado. 

Mereceu, enquanto propagandista da instrução e das reivindicações feministas, uma saudação no Primeiro Congresso Feminista e de Educação, organizado pelo Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas em 1924.

Sócia fundadora do Centro Democrático de Ponta Delgada e da Sociedade Micaelense Protectora dos Animais (1911).  

Muito conceituada nos Açores e respeitada no continente, o seu nome tornou-se sinónimo da defesa dos direitos das mulheres e precursora na protecção dos animais.  

Alice Moderno morreu a 20 de Fevereiro de 1946, apenas oito dias após o desaparecimento da sua grande amiga e companheira de sempre.

Quer o Dicionário de Educadores Portugueses, dirigido por António Nóvoa [Porto, ASA, 2003], quer o Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) [Lisboa, Livros Horizonte, 2005], inseriram pioneiros textos biográficos.

[João Esteves]

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