[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

[1054.] MARIA ARMANDA GONÇALVES TELES [I]

[1931-2009]

Filha de Américo Simões Teles [1893-1989], funcionário dos correios e fundador do Museu Marítimo e Regional de Ílhavo em 8 de Agosto de 1937, e de Leontina Berta Pontes Gonçalves [f. 1979], também funcionária dos correios. 

Maria Armanda Gonçalves Teles nasceu em 25 de Novembro de 1931 na Senhora da Hora, Matosinhos, mas foi registada em Campanhã, Porto, cidade onde viveu, exerceu a actividade profissional, desenvolveu a militância política e faleceu em 4 de Junho de 2009, com 77 anos de idade. 

Casou, a 8 de Março de 1952, com Hernâni Alfredo Ramalho e Silva [10/01/1927-1999] que conhecera no MUD Juvenil. 

Iniciou a militância antifascista muito nova, ainda na década de 40: em 1947, com 16 anos, incorporou-se no funeral de Abel Salazar; dois anos depois, em 1949, participou na campanha eleitoral do general Norton de Matos, nomeadamente no comício na Fonte da Moura, em Aldoar; pertenceu ao MUD Juvenil; integrou com a irmã, Maria Ondina Gonçalves Teles, a Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde era a sócia n.º 355, com residência na Rua Formosa, 165, 3º, tendo-se envolvido, em 1950, nas conferências para a Paz de Teixeira de Pascoaes, no âmbito das comemorações do XV aniversário da AFPP no Porto; em 1951, esteve no comício de apoio à candidatura presidencial de Ruy Luís Gomes; interveio na campanha de Humberto Delgado, em 1958; associou-se, em 1969, à homenagem prestada a Mário Sacramento; participou no III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro; colaborou, em 1973, na homenagem ao Dr. Arnaldo Mesquita, advogado e defensor dos presos políticos e, quatro dias antes do 25 de Abril de 1974, no jantar de homenagem a Óscar Lopes. 

Apoiou as sucessivas comemorações do 1º de Maio, 5 de Outubro e 31 de Janeiro e militou no Partido Comunista, tal como o marido, várias vezes preso (1950, 1953 e 1955) e torturado. 

O marido também foi ativista da AFPP, sendo o sócio (auxiliar) nº 248. 

No âmbito da militância comunista, fez entrega de jornais e de outra propaganda, acompanhou o marido em muitas das suas atividades clandestinas e contribuiu para o disfarce dos encontros simulando piqueniques ou convívios entre amigos e filhos, nomeadamente em praias e pinhais. 

Em 1950, ainda menor e quando da primeira prisão de Hernâni Silva, foi sujeita a interrogatórios intimidatórios na Subdirectoria do Porto, na Rua do Heroísmo, acusada de distribuir propaganda subversiva. 

Durante as prisões de Hernâni Silva, Maria Armanda esteve sempre presente e apoiou-o em tudo que lhe era possível: visitas, correspondência, encomendas, transmissão de mensagens e denunciando os maus-tratos na prisão, não havendo, durante os cinco anos de reclusão, “um dia em que não se correspondesse com o marido, mesmo que as cartas fossem censuradas ou não chegassem ao destinatário”. 

Nunca deixou de ser vigiada, seguida e intimidada pela PIDE, sofrendo a sua habitação várias visitas repentinas da polícia política e, “posteriormente, numa fase de actividade política mais discreta, Hernâni, com a colaboração de Maria Armanda, cumpriu tarefas de apoio, ligação e alojamento a funcionários clandestinos do seu partido”. 

Entretanto, Maria Armanda Gonçalves Teles concluiu os cursos de línguas dos Institutos de francês, inglês e italiano, frequentou, em 1954, os cursos de Radioterapia e de Técnica de Radiologia, que fez em simultâneo no Hospital Geral de Santo António, no Porto e, em 1956, concorreu a uma vaga e ficou colocada, primeiro no serviço de Radioterapia e, mais tarde, no serviço de Radiologia, tendo integrado a sua gestão a seguir ao 25 de Abril de 1974. 

Após esta data, manteve a mesma intervenção política e cívica: integrou o Sector Intelectual do Partido Comunista; fez parte do Movimento Democrático de Mulheres; integrou o núcleo do Porto da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP); interveio na comissão promotora da homenagem a Irene Castro em 11 de Outubro de 1992, assim como na comissão que promoveu a 8 de Março, durante dois anos, a homenagem de saudade Irene Castro, Amélia Cal Brandão e Herculana de Carvalho, todas sócias da AFPP da Delegação do Porto. 

Ajudou a criar e organizar com Maria Alcina Gomes, casada com o advogado Arnaldo Mesquita, companheiro de prisão do marido, o Sindicato dos Técnicos Paramédicos que abrangia todos os técnicos de Saúde, tendo sido a sócia n.º 5, delegada sindical e pertencido à Direção e Conselho Fiscal. 

O marido faleceu em 1999 e as duas irmãs, Armanda e Ondina Gonçalves Teles, faleceram ambas em 2009. Prima de Maria Berta Gomes, com quem participou em várias iniciativas do MUD Juvenil e que casaria com Júlio Pomar. O casal teve quatro filhos [Sílvia, Paulo, Sónia e Cláudia], tendo a primeira morrido com um ano de idade. 

A filha Sónia escreveu detalhada entrada biográfica da mãe para Feminae. Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013]. 

[João Esteves]

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