* JOSÉ MANUEL ROQUE *
[28/08/1925 - 26706/1999]
No centenário do nascimento de José Manuel Roque, a filha, Vitalina da Conceição Pavia Roque Pires Sofio, escreveu esta relevante nota biográficas deste resistente antifascista.
«Nasceu a 28 de agosto de 1925, no Monte do Zambujeiro, Montemor-o-Novo, filho de Joaquim Vicente Roque e de Otília da Conceição.
Conhecido por Zé Roque, Zé do Moinho ou Zé da Tília (para distinguir por a mãe se chamar Otília e as outras duas irmãs dela também terem filhos Zé, António, Chico, Manel…).
Em criança não foi à escola, começou a trabalhar muito novo, a guardar porcos e depois nos outros trabalhos do campo. Cresceram 5 irmãos, 4 homens e uma mulher (duas irmãs morreram muito pequenas).
Trabalhou nas herdades à volta de casa, Regadia, Gamela, Água Todo o Ano, Rio Mourinho…, Torre… na linha da Mina e em tempo de maior crise, na estrada.
O seu pai tinha vindo do Algarve (Loulé), e era proprietário de uma parcela do Monte do Zambujeiro, onde viviam, o que permitiria ter mais alguns recursos; durante alguns anos os pais tiveram a venda do Moinho da Ana.
No trabalho, no contacto com os outros trabalhadores, em ranchos com muita gente, foi tomando consciência da situação de exploração e de injustiça em que os trabalhadores rurais viviam, e cedo foi cativado e se juntou a alguns trabalhadores já organizados no Partido Comunista e começou a participar nas lutas que organizavam, clandestinamente, naturalmente, por melhores condições de trabalho.
Esteve preso em Caxias (depois de passar pelo Aljube) de junho a novembro de 1947 (por aliciamento às greves rurais).
Voltou a ser preso em setembro de 1949, para averiguações, foi julgado em julho de 1950 e condenado a uma pena de 2 anos de prisão maior celular e na suspensão de todos os direitos políticos por 15 anos. Libertado em 1952, continuando com medidas de segurança, foi punido com uma pena de repreensão pública por manifestações de indisciplina; restituído à liberdade definitiva em outubro de 1956.
Saído da prisão, não tinha vontade de voltar a trabalhar para os lavradores e eles também não lhe queriam dar trabalho; na prisão aprendeu e aperfeiçoou a leitura e a escrita, estudou com o apoio de outros presos.
Começou um pequeno negócio, com a ajuda do irmão Manuel que já tinha feito o mesmo percurso de vida, de bicicleta a pedal, comprando em Montemor (mais tarde em Évora e Lisboa) e vendendo pelos montes.
Casou com Maria Cristina Pavia em outubro de 54, aumentou o negócio, a quantidade de produtos e a área de ação, tirou a carta de condução, em Évora, depois de ter feito o exame da terceira classe, comprou um carro verde (do tempo da guerra) que pegava a manivela (Monte do “Ricome” e Monte Novo).
Trabalharam de dia e de noite, montes, aldeias, mercados, feiras.
Tudo devidamente planeado, quando fui para a escola, nasceu a minha irmã (Otília Pavia Roque) e mudámos para Montemor (com uma pequena diferença de um ano nos planos), para a “Loja do Povo”.
Muito, muito clandestinamente, foram sempre apoiando as famílias dos presos políticos e o PCP e acompanhando a situação política. Tínhamos um rádio, ouvíamos a Rádio Portugal Livre e a Rádio Moscovo. Houve uma participação ativa nas campanhas de Norton de Matos, de Humberto Delgado e nas de 1969 e 1973.
Em 1973 entraram na sociedade da Casa dos Compadres, com uma loja grande e muito moderna, onde o 25 de Abril os encontrou.
Porque era necessário reforçar o número de pessoas disponíveis para organizar e dinamizar a luta, eles responderam ao desafio, deixaram a loja e foram para funcionários do PCP, durante vários anos, a tempo inteiro, levando os recursos que tinham…
Com o desgaste da saúde, voltaram a casa…
O Zé Roque foi um dos criadores e responsáveis da Comissão de Moradores do Largo dos Paços do Concelho, sempre presente no Secretariado das Associações do Concelho de Montemor, nas comemorações do 25 de abril e da Festa das Colheitas.
Durante anos dinamizou as Comissões de Base de Saúde.
Foi sócio fundador e dinamizador da Associação de Artesãos do Concelho, a Ciranda.
Na URAP, foi um dos organizadores da construção do Monumento aos Resistentes Antifascistas do Alentejo inaugurado no dia 1 de junho de 1996.
Foi artesão, agricultor e pescador.
Teve dois netos, o João e a Joana, que acima de tudo, agradecem o privilégio de brincar e conviver com um Homem que só lhes deu os melhores exemplos dia após dia.
Na manhã de 26 de junho de 1999, com 74 anos, depois de ter voltado da Feira de S. João, pela meia-noite e sem nenhum aviso, sentiu-se mal e morreu para nossa grande dor e tristeza.
Vitalina da Conceição Pavia Roque Pires Sofio
28/08/2025»
NOTA: um enorme agradecimento à neta de José Manuel Roque, Joana Sofio, o envio deste contributo para a história da resistência antifascista e a disponibilidade para o partilhar publicamente através deste blogue.
Num tempo em que muitos se calaram, houve quem resistisse e fosse perseguido e preso!
[João Esteves]
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