[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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domingo, 14 de maio de 2023

[3294.] ADALBERTO GASTÃO DE SOUSA DIAS || CARTA, CENSURADA, DE 17/02/1927

 * "UMA CARTA DO SR. GENERAL SOUSA DIAS" *

Carta enviada ao jornal O Século e cortada pela censura

O Século || 19/02/1927

Notícia censurada || ANTT || PT-TT-EPJS-A-2-003

«Bordo do «Infante e Sagres», 17-2-927.

- Sr. diretor do jornal «O Século»: Na situação de vencidos em em que nos encontramos, é desnecessário que sejamos ainda por cima caluniados. A nós, revolucionários do Porto, outro intuito não nos moveu, senão o alegado bem claramente ao assumirmos a responsabilidade do ato em que nos lançámos. 

Não estamos, por isso, tristes nem acabrunhados como se afigurou ao «repórter» do seu jornal. Também não rimos à gargalhada, evidentemente. Mas sabemos ainda sorrir; sorrir de desdém perante todas as insinuações e confusões em que nos pretendem envolver, esperando serenamente que chegue a hora calma em que possamos claramente demonstrar que nos batemos, e bem, em operações militares regulares, por um ponto de vista que não é agora o momento de discutir, e que o fizemos desinteressada e nobremente. Esperando dever-lhe a elementar justiça de respeitar a nossa atual situação, dando apenas sobre ela informações seguras e agradecendo a publicação desta carta, se subscreve com consideração o - Atento e obrigado - Adalberto Gastão de Sousa Dias, general.»

[O Século, 19/02/1927, notícia não publicada por censurada]

[João Esteves]

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

[2440.] CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE PRESOS POLÍTICOS DO TARRAFAL DE S. NICOLAU [I] || 1931-1932

 * TARRAFAL DE SÃO NICOLAU *

[1931 - 1932]

[Campo de Concentração de Presos Políticos do Tarrafal de S. Nicolau || Documento disponibilizado por José J. Cabral]

Em 1931, foi iniciado a construção de «um novo Campo de Concentração na Ilha de S. Nicolau, num sítio conhecido pelo nome de Tarrafal».

O general Adalberto Gastão de Sousa Dias pode observá-lo em Agosto de 1931, aquando da sua viagem de transferência do Campo de Concentração de Presos Políticos, instalado no ex-Seminário de S. Nicolau, para Ponta do Sol, na Ilha de Santo Antão.

Encontrava-se bordo do rebocador que o transportava e, como este teve de deixar em terra quem estava encarregado de apurar o andamento das obras, pode observar o que se preparava, disso dando conta em carta ao filho Adalberto, datada de 21/08/1931:

«O local escolhido é simplesmente pavoroso! O Tarrafal - misérrima povoação de pescadores, fica situado, próxima e ao lado de uma apertada ravina de ásperos e escalvados flancos, - flancos elevados e de abruptos declives, que se alargam um pouco, próximo ao mar, e onde se está estabelecendo o aludido campo de concentração. 3 raquíticas árvores é a única vegetação que ali se encontra. O sol, batendo todo o dia, neste pedregulhoso e árido terreno, sem que possível seja furtar-se à ardência dos seus raios, converterá, certamente, a existência dos desterrados que para ali forem mandados numa torturante vida de esfacelamento físico e moral!».

«Mas há mais: [...] já estão levantadas 4 casas desmontáveis, adquiridas no estrangeiro [...]» e «os postes para ser pregado o arame farpado, da vedação do estreito campo de prisão!».

[Excertos da carta enviada pelo general Sousa Dias ao filho Adalberto, datada de 21/08/1931, in O General Sousa Dias e as Revoltas contra a Ditadura – 1926/1931, organização de A. H. de Oliveira Marques, com a colaboração de A. Sousa Dias, Publicações Dom Quixote, Abril de 1975].

Como se pode ver pela relevante fotografia disponibilizada por José J. Cabral, o Campo de Concentração está de acordo com a planta que consta do Espólio de João do Carmo Miranda de Oliveira, que esteve deportado em S. Nicolau, depositado na Casa Comum - Fundação Mário Soares.

[Tarrafal de S. Nicolau || Planta do Campo de Concentração dos Presos Políticos do Tarrafal, São Nicolau || (s.d.), "Deportação - Planta do Tarrafal", Fundação Mário Soares / João do Carmo Miranda de Oliveira, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_78928 (2020-12-5)]

No entanto, o Campo de Concentração dos Presos Políticos do Tarrafal de S. Nicolau não terá sido concluído, embora tenha recebido presos, tal como confirma o investigador e estudioso José J. Cabral.  

Muito do seu material seria reutilizado no Tarrafal de Santiago, aberto em 1936.

[João Esteves]

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

[2438.] PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS - DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO [LX] || 1926 - 1933

 * PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO || LX *

0527. Eugénio Rodrigues Aresta [1927]

[Eugénio Rodrigues Aresta || Anos 1920 || Arquivo Histórico Parlamentar]

Moura, 23/05/1891, militar, político, professor e filósofo. Filho de Inácia Rodrigues Acabado e de Manuel Aresta Jorge, era casado com Adélia Emília Borges [nalguns registos, o nome próprio é referenciado por Adelina], nascida em 1899. 

Fez o ensino primário em Moura; continuou os estudos secundários em Évora; frequentou o curso preparatório para a Escola do Exército na Academia Politécnica do Porto onde, em 1908, foi condiscípulo de Leonardo Coimbra em Física; e, finalmente, tirou o Curso de Infantaria em Lisboa, concluído em 1913, prosseguindo a carreira militar: praça (1909); alferes (1914); tenente (1917); capitão (1919). 

Em 1915, sob o comando do general Pereira de Eça Coutinho, fez parte da Coluna Expedicionária enviada a Angola, tendo recebido um louvor, datado de 28/10/1915, e mantido contacto com o, então, tenente-coronel Adalberto Gastão de Sousa Dias. Voltou à metrópole em 1916 e, no ano seguinte, integrou o Corpo Expedicionário Português, seguindo para França em 22/02/1917: permaneceu em Flandres até ao fim da Guerra, recebendo importantes distinções e louvores militares. Regressou em 21/02/1919, sendo colocado no Estado-Maior de Infantaria. 

Neste mesmo ano, iniciou a intervenção política activa: militou na União Republicana, de Manuel Brito Camacho; no Partido Republicano Liberal (1919), em cujas listas foi eleito deputado por Beja (legislaturas de 1921, 1922); e no Partido Republicano Nacionalista (1923). Na sequência do falecimento da sua única filha, renunciou ao mandato de deputado em 20/11/1923. Manteve colaboração nos jornais A Luta e República, assim como em periódicos do Baixo Alentejo. 

Integrou a Loja Progredior, onde chegou a Mestre Maçon em 1926, e combateu a Ditadura Militar, participando na preparação e execução da revolta de 3 de Fevereiro de 1927, no Porto. Preso na sequência do seu fracasso, havendo uma fotografia a ser levado de olhos vendados, seguiu para a Casa de Reclusão da 1.ª Região Militar e enviado, de seguida, para o paquete Infante de Sagres. Separado do serviço e deportado para S. Tomé, terá desembarcado nesta ilha, juntamente com outros militares envolvidos no movimento, por volta de 12/03/1927. Nesse mesmo ano, foi redactor do jornal clandestino O Constitucional e, aquando do regresso, no início do ano seguinte, esteve com residência obrigatória fixada fora do Porto, embora no norte do país. 

Em 19/07/1928, concluiu a licenciatura em Ciências Filosóficas da Universidade do Porto, defendendo uma dissertação sobre o método filosófico de Bergson, com a qual obteve a classificação de 20 valores. Manteve colaboração activa com a Renascença Portuguesa, chegando a ser Vogal do Conselho de Administração e a colaborar na revista A Águia [1925, 1928, 1932], e exerceu, entre 1928 e 1932, a docência no ensino secundário. 

[Eugénio Rodrigues Aresta || in Almanaque Republicano]

Amnistiado nos termos do decreto n.º 21.140, de 9 de Abril de 1932, foi reintegrado no Exército em 1933, como capitão no Quartel-General da 1.ª Região Militar. Esteve, em 1934, na organização do 1.º Congresso Militar Colonial, enviuvou em 20/02/1936 e passou, voluntariamente, à reserva em 31/12/1937, enveredando pela docência liceal nos Colégios Almeida Garret e João de Deus, já que estava impedido de leccionar nos estabelecimentos oficiais, liceais e universitários, apesar de recomendado por Aarão de Lacerda

Figura muito enraizada e conceituada no meio cultural e filosófico do Porto, conviveu e manteve colaboração, entre outros, com Agostinho da Silva, de quem foi professor, Álvaro Ribeiro, Augusto Saraiva, Delfim Santos, José Marinho, Leonardo Coimbra e Sant'Anna Dionísio

Maçon, participou no Movimento de Unidade Democrática (MUD) e, em 1949, na campanha presidencial do general Norton de Matos, estando para ser um dos oradores do comício de 23/01/1949, realizado no Centro Hípico da Fonte da Moura, Porto, o que não sucedeu «devido ao adiantado da hora». 

Autor dos manuais liceais Noções de Filosofia (1933) e Primeiras Noções de Filosofia (1941), publicou um romance sobre a participação portuguesa na 1.ª Guerra (A Guerra de Sempre, 1920) e escreveu para diversas revistas e jornais. 

Faleceu na sua residência, no Porto, em 24/08/1956, em consequência dos gaseamentos sofridos na 1.ª Guerra, encontrando-se sepultado no Cemitério de Valongo. Tinha 65 anos de idade. Deixou, entre outros inéditos manuscritos, “Diário da Deportação – revolução de 3 de Fevereiro de 1927” e “Discurso no Comício no Centro Hípico da Fonte da Moura \ candidatura do general Norton de Matos à presidência da República”.

O Blogue Almanaque Republicano inseriu a sua biografia, dividida em duas partes, da autoria de Artur Barracosa Mendonça: Parte I e Parte II.

[João Esteves]

domingo, 6 de dezembro de 2020

[2435.] ADALBERTO GASTÃO DE SOUSA DIAS [IV] || DEPORTADO EM SÃO NICOLAU (CABO VERDE)

* ADALBERTO GASTÃO DE SOUSA DIAS *

REGISTO DE ÓBITO || 28 DE JULHO DE 1935

Registo de óbito do General Sousa Dias, comprovando o seu falecimento em 28 de Julho de 1935, na cidade do Mindelo, Ilha de S. Vicente (Cabo Verde). 

Nele, aparece como sendo natural de Vila Real, tendo a causa da morte sido uma peritonite.

Mais uma vez, o agradecimento a José J. Cabral pela disponibilização pública deste documento.


Averbamento da trasladação dos restos mortais do General Sousa Dias para o cemitério público da Guarda 

[Documentos disponibilizados por José J. Cabral, a quem muito se agradece]

[João Esteves]

sábado, 5 de dezembro de 2020

[2433.] O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE SÃO NICOLAU - CABO VERDE [I] || O EDÍFICIO DO SEMINÁRIO - 1931

 * O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE PRESOS POLÍTICOS DE S. NICOLAU || CABO VERDE *

[1931]

Na sequência do insucesso da Revolta da Madeira, iniciada em 4 de Abril e vencida cerca de um mês depois, militares e civis foram deportados para Cabo Verde, primeiro para a cidade da Praia, na Ilha de Santiago, e depois para a Ilha de S. Nicolau, sendo instalados no antigo Seminário, que funcionou como espaço concentracionário.

[O Seminário de S. Nicolau || Fotografia de 1897 || Pesquisa de Maria João Dias]

[O Seminário de S. Nicolau || Sem data || Pesquisa de Maria João Dias]

O edifício do Seminário-Liceu de S. Nicolau, que fora encerrado no ano lectivo de 1917-1918, era um velho casarão de dois andares, chegando a comportar cerca de 170 deportados, sem camas ou «qualquer cobertura para se cobrirem durante a noite!»: «no pavimento superior alojaram-se os presos políticos de 1.ª categoria (oficiais e civis de posição superior). No andar térreo, em três dependências do edifício principal, os sargentos e civis de 2ª e 3ª categorias».

Fora, «uma pequena cerca fica adjacente a este prédio», «onde era permitido aos deportados passearem durante o dia», ladeando todo o espaço um muro de cinco metros de altura. A guardar os presos, uma força indígena ida de Angola e 40 guardas civis, com dois subchefes e um chefe, idos de Lisboa, armados de duas metralhadoras ligeiras.

O Delegado do Governador no Campo era André da Silva e, segundo o general Sousa Dias, em carta ao filho Adalberto datada de 21 de Agosto de 1931, o regime era de «incomunicabilidade com exterior»; «visitas médicas diariamente determinadas a uma certa hora»; «censura a toda a correspondência», entregue aberta e devidamente estampilhada; acesso, apenas a «jornais reaccionários»; o dinheiro vindo de fora dependia da vontade do delegado do Governo; e «algumas ofertas ficavam na posse dos "carcereiros"».

A alimentação era «diminuta», «pessimamente mal confeccionada» e «sempre a mesma comida», preparada com «falta de asseio».

Depois de «Campanhas de protestos», conseguiu-se que «as sentinas fossem, de vez em quando, limpas e desinfectadas».

Faltavam os medicamentos, «ainda os mais simples», e o médico «dizia que não lhes satisfaziam as requisições feitas por ele e que não dispunha de meios médicos e cirúrgicos para exercer proficuamente a sua profissão!!... Um pavor!». 

Os presos políticos castigados eram sujeitos ao isolamento e a «jejuns em dias alternados», sendo que «jejuns, prolongados, em África, é uma condenação à morte».

Para além deste Seminário, transformado em Campo de detenção de deportados políticos, foi iniciado a construção de «um novo Campo de Concentração na Ilha de S. Nicolau, num sítio conhecido pelo nome de Tarrafal».

O general Sousa Dias pode observá-lo a bordo do rebocador aquando da sua viagem de transferência para Ponta do Sol, na Ilha de Santo Antão, já que aquele teve de desembarcar André da Silva, que ia «observar o estado de adiantamento das obras e providenciar em harmonia»: 

«O local escolhido é simplesmente pavoroso! O Tarrafal - misérrima povoação de pescadores, fica situado, próxima e ao lado de uma apertada ravina de ásperos e escalvados flancos, - flancos elevados e de abruptos declives, que se alargam um pouco, próximo ao mar, e onde se está estabelecendo o aludido campo de concentração. 3 raquíticas árvores é a única vegetação que ali se encontra. O sol, batendo todo o dia, neste pedregulhoso e árido terreno, sem que possível seja furtar-se à ardência dos seus raios, converterá, certamente, a existência dos desterrados que para ali forem mandados numa torturante vida de esfacelamento físico e moral!».

«Mas há mais: [...] já estão levantadas 4 casas desmontáveis, adquiridas no estrangeiro [...]» e «os postes para ser pregado o arame farpado, da vedação do estreito campo de prisão!».

[Fonte: excertos da carta enviada pelo general Sousa Dias ao filho Adalberto, datada de 21/08/1931, in O General Sousa Dias e as Revoltas contra a Ditadura – 1926/1931, organização de A. H. de Oliveira Marques, com a colaboração de A. Sousa Dias, Publicações Dom Quixote, Abril de 1975].

[Tarrafal de S. Nicolau || Planta do Campo de Concentração dos Presos Políticos do Tarrafal, São Nicolau || (s.d.), "Deportação - Planta do Tarrafal", Fundação Mário Soares / João do Carmo Miranda de Oliveira, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_78928 (2020-12-5)]

No entanto, apesar do plano inicial, descrito na planta do Espólio de João do Carmo Miranda de Oliveira (que esteve deportado em S. Nicolau) depositada na Casa Comum - Fundação Mário Soares, o Campo de Concentração dos Presos Políticos do Tarrafal de S. Nicolau não terá sido concluído e, por isso, posto a funcionar, sendo muito do seu material reutilizado no Tarrafal de Santiago, aberto em 1936.  

[Duas fotografias enviadas por José J. Cabral, a quem, mais uma vez se agradece toda a disponibilidade na partilha de informação e de documentação muito relevante e de difícil acesso]

O internamento e as condições físicas e psicológicas vividas quotidianamente pelos deportados no Seminário/Prisão de S. Nicolau, sob isolamento, regras de clausura, repressão, incomunicabilidade, acomodação, censura, restrições, vigilância policial e despotismo arbitrário e humilhante [Victor Barros, Campos de Concentração em Cabo Verde - As Ilhas como espaço de Deportação e de Prisão no Estado Novo, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009], fez com que ficasse conhecido como o Campo de Concentração de Presos Políticos de S. Nicolau.

[João Esteves]

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

[2432.] DEPORTADOS EM SÃO NICOLAU (CABO VERDE) || C. 1931

 * DEPORTADOS EM CABO VERDE *

[C. 1931]

Fotografia de quatro deportados na Ilha de São Nicolau, amavelmente disponibilizada por José J. Cabral que, já há anos, investiga, entre outras temáticas, a deportação e o Estado Novo em Cabo Verde.

Há, ainda, um longo caminho de investigação e de divulgação a percorrer.

[C. 1931 || Fotografia disponibilizada por José J. Cabral, a quem muito se agradece]

Nota muito importante: inicialmente, o Militar foi aqui referenciado, incorrectamente, como sendo o general Adalberto Gastão de Sousa Dias

Agradece-se a oportuna e rigorosa correcção feita pelos investigadores e estudiosos José J. Cabral e Aires Barata Henriques

José J. Cabral informa que «não consta que ele [o general Sousa Dias] faça parte do grupo». 

Aires Barata Henriques refere «que o oficial fardado não se assemelha com a figura do general A, Sousa Dias que, na altura do seu internamento, tinha uma idade aparentemente mais avançada e um ar envelhecido. O mesmo sucede com uma outra foto neste blogue em que o general aparece com outras três figuras. Também a farda terá que ser devidamente ponderada, para ajudar ao entendimento de quem é efectivamente o oficial que, para mais, aparece demasiado obesa relativamente à figura como é mais conhecido o general que, para mais, se encontrava doente e pouco saía das instalações do seminário, segundo os relatos que são conhecidos e que o próprio João Esteves publica.»  

[João Esteves]

[texto corrigido em 18/12/2020]

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

[2431.] PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS - DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO [LVIII] || 1926 - 1933

* PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO || LVIII * 

0512. Horácio Augusto da Silva Pinho [1927]

[Sargento de Infantaria 20 – Figueira da Foz. Participou, na Figueira da Foz, na Revolta de 3 de Fevereiro de 1927, mobilizando a saída das forças do Quartel de Infantaria 20 e, depois, o seu embarque na Estação do Caminhos de Ferro. Tal como Hermenegildo Gonçalves Granadeiro, que também interveio na mesma revolta naquela cidade, foi deportado para S. Tomé, onde terá desembarcado por volta de 12/03/1927. Em Outubro de 1934, quando estava colocado no D. R. R. N.º 7, terá requerido prestar serviço no Regimento de Infantaria N.º 7, a fim de completar os quatro anos de serviço de tropas, exigidos para a admissão à Escola Central de Sargentos. Em novembro, a Secção Política e Social da PVDE informou que não havia inconveniente em que fosse deferida a pretensão de Horácio Pinho].    

0513. Francisco de Matos [1927]

[Sargento de Infantaria 20 – Figueira da Foz. Participou, na Figueira da Foz, na Revolta de 3 de Fevereiro de 1927 e, tal como outros militares do Regimento de Infantaria 20, foi deportado para S. Tomé, onde terá desembarcado por volta de 12/03/1927].

00514. Adalberto Gastão de Sousa Dias [1927-1935]

[Adalberto Gastão de Sousa Dias || ANTT || PT-TT-EPJS-SF-001-001-0003-1040A]

[Adalberto Gastão de Sousa Dias.
Chaves, 31/12/1865. General. Filho de Ana Albina Sampaio de Sousa Dias, de Chaves, e de José Maria de Sousa Dias, Oficial do Exército, natural de Lisboa. Estudou no Liceu de Vila Real (1875-1880) e na Universidade de Coimbra (1881-1883), onde fez os preparatórios para a Escola do Exército ingressando, de seguida, nesta instituição, em Lisboa (1883-1887). Fez carreira militar na arma de Infantaria: alferes (1889); tenente (1895); capitão (1902); major (1906); tenente-coronel (1915); coronel (1918); general (1924). Assumiu-se, sempre, como republicano, filiando-se no Partido Democrático após a revolução de Outubro de 1910. Combateu as tropas monárquicas de Paiva Couceiro (1912), não apoiou a ditadura de Pimenta de Castro, recusando qualquer colaboração (1915), esteve, temporariamente, detido durante o Sidonismo e foi colocado no Regimento de Infantaria de Reserva n.º 18, no Porto. Em Janeiro de 1919, aquando da revolta monárquica, recusou-se a prestar fidelidade à Monarquia e ao rei, combatendo a “Monarquia do Norte”. Iniciou, então, a sua vida política ativa, sendo eleito deputado pelo Porto (1921, 1923, 1924). Condecorado com os graus de Grande Oficial da Ordem Militar de Avis (1920), Comendador da Ordem Militar de Cristo (1923) e Comendador da Ordem Militar de Santiago de Espada (1924). Comandante, desde 1925, da 3.ª Divisão do Exército, sediada no Porto, não aderiu aos revoltosos de 28 de Maio de 1926, tentando mesmo combatê-los, sem sucesso, devido à elevada adesão àqueles de várias unidades sob o seu comando. Dos raros oficiais a não pactuar com rebelião militar de Gomes da Costa iniciada em Braga, pediu a exoneração e passou, de imediato, a combater a Ditadura Militar. Embora se encontrasse sob prisão e com baixa no Hospital Militar do Porto, foi indigitado para chefiar a revolta que eclodiu naquela cidade em 03/02/1927. Fracassada aquela, foi detido e deportado para S. Tomé: juntamente com outros implicados, embarcou, em Leixões, no "Infante de Sagres e, de regresso à capital, fez transbordo para o barco "Lourenço Marques", no qual seguiu para São Tomé. Este vapor saiu no dia 21/02/1927, à noite, levando deportados com destino aos Açores, Cabo Verde, Guiné e Angola, tendo aportado em S. Tomé aproximadamente em 12/03/1927. Em Novembro de 1927, o Conselho de Ministros deliberou a sua transferência imediata para Ponta Delgada, via Funchal, decisão transmitida ao general em 29 desse mesmo mês. Foi ainda informado que embarcaria no vapor "Niassa" em 01/12/1927, data em que este este transporte passaria por S. Tomé, fazendo, depois, escala na Madeira. Sousa Dias ainda contestou essa decisão, por não querer abandonar os seus camaradas de desterro, sobretudo aqueles que tinham servido sob as suas ordens no movimento revolucionário de 03/02/1927, disso dando conta a todos os núcleos de deportados espalhados pelas ilhas e colónias. Depois de passar pelo Funchal, onde há uma fotografia sua entre vários deportados políticos, chegou, em Dezembro de 1927, ao Faial, ilha onde lhe tinha sido fixada residência obrigatória. Em 1929, foi mandado regressar ao Continente, submetido a julgamento no Tribunal Militar Especial, reunido no Forte da Graça, em Elvas, em 13/04/1929 e condenado a dois anos de prisão, tendo sido descontado o tempo em que esteve deportado. Apesar de já ter cumprido o tempo da pena, regressou, em 1930, à mesma ilha açoriana por lhe ter sido aí fixada residência e, em seguida, deportado para o Funchal onde, em 04/04/1931, por ser o oficial de mais alta patente, foi escolhido para chefiar a sublevação contra a Ditadura e assumir o comando da “Junta Militar”. Falhada a revolta, foi novamente preso, demitido do Exército, sem direito a pensão, honras e uso de medalhas militares e condecorações, e deportado para Cabo Verde. Levado, primeiro, para o Campo de Concentração de Presos Políticos de São Nicolau, onde permaneceu até 21/08/1931, foi, depois, transferido para a ilha de Santo Antão e, por fim, para a de São Vicente. Foi um dos militares que não foi, explicitamente, abrangido pela amnistia decretada em 05/12/1932 (Decreto 21.943) e continuou, mesmo em terras longínquas, a combater a Ditadura Militar, mantendo, dentro do possível, contactos com civis e militares. Adoeceu em Santo Antão e, devido ao agravamento do seu estado de saúde, foi transferido para o hospital de S. Vicente, onde faleceu em 28/07/1935, disso dando conta um telegrama enviado pelo Governador de Cabo Verde ao Ministro das Colónias. Em vésperas do seu falecimento, o Governador tinha enviado ao mesmo ministro o seguinte telegrama: "rogo vexa transmitir Ministério Interior creio ser máxima conveniência repatriação imediata ex-General Sousa Dias está gravemente doente. É conveniente repatriar maior número de deportados possível". Em agosto de 1935, foi autorizada a sua trasladação para a Guarda, tendo os restos mortais chegado a Lisboa, a bordo do vapor “Guiné”, em 30/11/1935. A urna foi coberta com a bandeira nacional, transportada aos ombros de antigos companheiros da deportação em África e na Madeira e encaminhada para a Estação do Rossio, "onde foi colocada num vagão armado em câmara ardente que, atrelado ao comboio correio da Beira Baixa, seguiu, às 23 horas, para a Guarda, terra natal do extinto" [Diário de Notícias, “General Sousa Dias – Os seus restos mortais chegaram de Cabo Verde e seguiram para a Guarda”, 03/12/1935, p. 2]. Três anos após o 25 de Abril, por Decreto do Conselho da Revolução de 02/06/1977 (232/77), foi reintegrado, a título póstumo, no Exército e no seu posto de General, com todas as honras ao mesmo inerentes e o direito às condecorações e graus honoríficos que possuía. Em 1980, recebeu o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.]

[Adalberto Gastão de Sousa Dias || 26/08/1935 || ANTT || PT-TT-MI-GM-4-32-44]

[alterado em 20/11/2024]

00515. Joaquim Videira [1927, 1928, 1929, 1931, 1933, 1938]

[Joaquim Videira || c. 1938-1940 || ANTT || RGP/10421 || PT-TT-PIDE-E-010-53-10421]

[Joaquim Videira.
Bendada, Sabugal, 06/09/1884, Tenente de Infantaria – Afastado. Filiação: Ana António, Manuel Videira. Residência: Escadinhas dos Terramotos, 2 - Lisboa / Rua Almeida e Sousa, 36 - Lisboa. Integrou o CEP. Terá participado na Revolução de 05/10/1910, integrando as suas barricadas. Oficial da GNR, tomou parte ativa na revolução de 07/02/1927: afastado da Corporação e deportado para S. Tomé no vapor “Lourenço Marques”, desembarcou por volta de 12/03/1927 [ANTT, PT-TT-MI-DGAPC-2-700-138]. Tomou parte no movimento revolucionário de 20/07/1928, tendo sido, provavelmente, enviado para os Açores com residência fixa. Preso em 16/03/1929, «por estar implicado no movimento revolucionário em preparação» [Processo 4346], relacionando-se, entre outros, com Alberto Alexandrino Augusto dos Santos (tenente Alexandrino), Alfredo António Chaves (capitão Chaves), Álvaro Costa, seu advogado, Álvaro Troçolo (tenente), Domingos Pereira, José de Freitas Macedo (farmacêutico de Aveiro), José Maria Videira (sargento, seu irmão), Nuno Cerqueira Machado Cruz (capitão Nuno Cruz) e Virgílio (sargento). O processo foi enviado ao Ministério da Guerra em 26/06/1929 [Processo 4346], que o mandou arquivar em Novembro. Participou no movimento revolucionário de 26/08/1931 e deportado para Timor, por motivos políticos, sendo abrangido pela amnistia de 05/12/1932: desembarcou em 09/06/1933 e apresentou-se no dia 12, ficando a residir em Lisboa. Preso em 31/10/1933, por envolvimento no movimento revolucionário em preparação, relacionando-se, entre outros, com António Marques Pereira (comerciante na Pontinha), Jaime Joaquim das Neves (furriel), José de Matos Machado, José Pedro Muralha (1.º sargento do Exército) e Pires Marques, então procurado pela Polícia [Processo 835]. Transferido, em 13/11/1933, da 19.ª esquadra para o Aljube. Em 19/11/1933, por ordem do governo, embarcou de Peniche para Angra do Heroísmo, de onde regressou em Setembro de 1935, apresentando-se na PVDE no dia 8. Preso em 09/07/1938, recolheu a uma esquadra incomunicável e, em 02/08/1938, foi transferido para o Aljube. Transferido para Caxias em 06/12/1938, voltou ao Aljube em 20/06/1939, regressando à primeira prisão em 28/06/1939 [Processo 877/38, 203/38]. Julgado pelo TME em 27/06/1939 e condenado a três anos de desterro, recorreu da sentença e voltou a ser julgado em 19/08/1939, mantendo-se a pena aplicada. Libertado em 03/06/1940, por ter sido amnistiado. Terá estado com residência nos Açores, aquando das primeiras revoltas. Faleceu em 1948. O irmão, o sargento José Maria Videira, teve idêntico percurso de resistente, sendo um dos nomes que não foi explicitamente abrangido pela amnistia de 05/12/1932.]
[alterado em 31/03/2024]
[alterado em 19/04/2024]
[alterado em 04/05/2024]

[João Esteves]

domingo, 29 de novembro de 2020

[2429.] ADALBERTO GASTÃO DE SOUSA DIAS [I] || DEPORTADO PARA S. TOMÉ, AÇORES, MADEIRA E CABO VERDE, ONDE FALECEU

 * ADALBERTO GASTÃO DE SOUSA DIAS *

[1865 - 28/07/1935]

O general Sousa Dias foi dos poucos oficiais de alta patente a não aderir ao golpe militar de 28 de Maio de 1926 e que desde o início procurou combater a Ditadura Militar.

Chefiou o movimento revolucionário de 03/02/1927 e foi deportado para S. Tomé (1927) e Açores (1928-1929). Em 1930, Voltaria a ser deportado para os Açores e, depois, para a Madeira onde, em 04/04/1931, por ser o oficial de mais alta patente, foi escolhido para chefiar a sublevação contra a Ditadura e assumir o comando da "Junta Militar".

Novamente preso, foi demitido do Exército e deportado para Cabo Verde: levado, primeiro, para o Campo de Concentração de Presos Políticos de São Nicolau, aí permaneceu até 21/08/1931; foi, depois, transferido para a ilha de Santo Antão e, por fim, para a de São Vicente, onde faleceu no hospital em 28/07/1935 e não em Junho de 1934 como tem sido referido. Os seus restos mortais chegaram a Portugal em 30/11/1935, tendo sido sepultado na Guarda em 03/12/1935.


Chaves (ou Guarda), 03 ou 31/12/1865 [consoante as fontes], General. Filho de Ana Albina Sampaio de Sousa Dias, de Chaves, e de José Maria de Sousa Dias, Oficial do Exército, natural de Lisboa. 

Estudou em Vila Real (liceu – 1875/1880) e na Universidade de Coimbra (1881-1883), onde fez os preparatórios para a Escola do Exército ingressando, de seguida, nesta instituição, em Lisboa (1883-1887). 

Fez carreira militar na arma de Infantaria: alferes (1889); tenente (1895); capitão (1902); major (1906); tenente-coronel (1915); coronel (1918); general (1924). 

Assumiu-se, sempre, como republicano, filiando-se no Partido Democrático após a revolução de Outubro de 1910. Combateu as tropas monárquicas de Paiva Couceiro (1912), não apoiou a ditadura de Pimenta de Castro, recusando qualquer colaboração (1915), esteve temporariamente detido durante o Sidonismo e colocado no Regimento de Infantaria de Reserva n.º 18, no Porto e, em Janeiro de 1919, aquando da revolta monárquica, recusou-se a prestar fidelidade à Monarquia e ao rei, combatendo a “Monarquia do Norte”. Iniciou, então, a sua vida política activa, sendo eleito deputado pelo Porto (1921, 1923, 1924).

Condecorado com os graus de Grande-Oficial da Ordem Militar de Avis (1920), Comendador da Ordem Militar de Cristo (1923) e Comendador da Ordem Militar de Santiago de Espada (1924). 

Comandante, desde 1925, da 3.ª Divisão do Exército, sediada no Porto, não aderiu aos revoltosos de 28 de Maio de 1926, tentando mesmo combatê-los, sem sucesso, devido à elevada adesão àqueles de várias unidades sob o seu comando. Dos raros Oficiais a não pactuar com rebelião militar de Gomes da Costa iniciada em Braga, pediu a exoneração e passou, de imediato, a combater a Ditadura Militar. 

Embora se encontrasse sob prisão e com baixa no Hospital Militar do Porto, foi indigitado para chefiar a revolta que eclodiu naquela cidade em 03/02/1927. Fracassada aquela, foi detido e deportado para S. Tomé: juntamente com outros implicados, embarcou, em Leixões, no "Infante de Sagres e, de regresso à capital, fez transbordo para o barco "Lourenço Marques", no qual seguiu para São Tomé. Este vapor saiu no dia 21/02/1927, à noite, levando deportados com destino aos Açores, Cabo Verde, Guiné e Angola, tendo aportado em S. Tomé aproximadamente em 12/03/1927 [ANTT, PT/TT/MI-DGAPC/2/700/138]. 

Em Novembro de 1927, o Conselho de Ministros deliberou a sua transferência imediata para Ponta Delgada, via Funchal, decisão transmitida ao general em 29 desse mesmo mês. Foi ainda informado que embarcaria no vapor Nyassa em 01/12/1927, data em que este este transporte passaria por S. Tomé, fazendo, depois, escala na Madeira. Sousa Dias ainda contestou essa decisão, por não querer abandonar os seus camaradas de desterro, sobretudo aqueles que tinham servido sob as suas ordens no movimento revolucionário de 03/02/1927, disso dando conta a todos os núcleos de deportados espalhados pelas Ilhas e Colónias. 

[in O General Sousa Dias e as Revoltas contra a Ditadura – 1926/1931, organização de A. H. de Oliveira Marques, com a colaboração de A. Sousa Dias || Publicações Dom Quixote || Abril de 1975]

Depois de passar pelo Funchal, onde há uma fotografia sua entre vários deportados políticos, chegou, em Dezembro de 1927, ao Faial, ilha onde lhe tinha sido fixada residência obrigatória. 

Em 1929, foi mandado regressar ao Continente, submetido a julgamento no Tribunal Militar Especial, reunido no Forte da Graça, em Elvas, em 13/04/1929 e condenado a dois anos de prisão, tendo sido descontado o tempo em que esteve deportado. 

Apesar de já ter cumprido o tempo da pena a que fora condenado, regressou, em 1930, à mesma ilha açoriana por lhe ter sido aí fixada residência e, em seguida, deportado para o Funchal onde, em 04/04/1931, por ser o oficial de mais alta patente, foi escolhido para chefiar a sublevação contra a Ditadura e assumir o comando da “Junta Militar”. 

Falhada a revolta, foi novamente preso, demitido do Exército, sem direito a pensão, honras e uso de medalhas militares e condecorações, e deportado para Cabo Verde. 

Desembarcou na cidade da Praia, ilha de Santiago, e levado, juntamente com os outros deportados, mais de trinta, civis e militares, para o Lazareto, «onde nos meteram, cercado de arame farpado, pregando-nos as janelas, guardados por soldados pretos, numa aglomeração a mais anti-higiénica; dando-nos uma água insalubre para beber, em que se encontravam vários vermes em suspensão; e uma vala comum, sem escoante onde, sem distinção, todos íamos satisfazer as nossas necessidades corporais» [carta ao filho Adalberto, datada de 21/08/1931, in O General Sousa Dias e as Revoltas contra a Ditadura – 1926/1931, organização de A. H. de Oliveira Marques, com a colaboração de A. Sousa Dias, Publicações Dom Quixote, Abril de 1975].  

Terá ficado ali cerca de um mês e, em 6 de Junho de 1931, embarcou para a ilha de S. Nicolau, onde chegou no dia seguinte, ao anoitecer. Levado para o edifício do Seminário, um velho casarão de dois andares,  aí chegaram a estar, ao todo, «cerca de 170 presos políticos», guardados pela «força indígena vinda de Angola» e «40 guardas civis, com dois subchefes e um chefe», idos de Lisboa: «Nunca presumi que se encerrasse um general dentro dum restrito campo de prisioneiros políticos, cercado de arame farpado, ou de um muro de 5m de altura (como no Seminário de S. Nicolau), sujeitando-o aos mais mesquinhos vexames, e aos mais insólitos enxovalhos».

Como bem lembra José J. Cabralestudioso sobre a deportação e Estado Novo em Cabo Verde, o corredor interior ao longo de todo o edifício foi baptizado pelos deportados "avenida General Sousa Dias" e, recorrendo-se do livro do historiador A. H. de Oliveira Marques sobre este, refere que ele passava dias a fio deitado na cama, outros tantos, desolado, a deambular pelo corredor, em resultado do não atendimento de denúncias que fazia, de maus tratos a que todos eram submetidos, dos colegas tuberculosos a contaminarem os outros. 

Permaneceu em S. Nicolau até 21 de Agosto. Depois, foi transferido, sem saber porquê, «visto não ter pedido, nem directa nem indirectamente; nem tão pouco consinto que se peça, para a Ponta do Sol na Ilha de Santo Antão» onde, «ao menos aqui, já respiro!» [carta citada]. Na viagem, pode observar o local onde se iria «organizar um novo Campo de Concentração na Ilha de S. Nicolau num sítio conhecido pelo nome de Tarrafal», já em construção e que «excederá tudo o que até se tem praticado». 

[No entanto, não terá sido concluído, apesar do plano inicial, sendo visíveis quatro casas desmontáveis, adquiridas ao estrangeiro, e os postes para ser pregada a vedação de arame farpado. Muito deste material seria, depois, reutilizado no Tarrafal de Santiago, aberto em 1936.  Para todos os efeitos, as condições físicas e psicológicas vividas quotidianamente pelos deportados no Seminário/Prisão de S. Nicolau, sob isolamento, regras de clausura, repressão, incomunicabilidade, acomodação, censura, restrições, vigilância policial e despotismo arbitrário e humilhante [Victor Barros, Campos de Concentração em Cabo Verde - As Ilhas como espaço de Deportação e de Prisão no Estado Novo, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009], fez com que acabasse por ficar conhecido como o Campo de Concentração de Presos Políticos de S. Nicolau.]

Foi um dos militares que não foi, explicitamente, abrangido pela amnistia decretada em 05/12/1932 (Decreto 21.943) e continuou, mesmo em terras longínquas, a combater a Ditadura Militar, mantendo, dentro do possível, contactos com civis, ex-militares e militares. 

Por fim, adoeceu em Santo Antão e, devido ao agravamento do seu estado de saúde, foi transferido para o hospital de S. Vicente, onde faleceu em 28/07/1935, disso dando conta um telegrama enviado pelo Governador de Cabo Verde ao Ministro das Colónias [ANTT, PT-TT-MI-GM-4-14-559_c0006]. 

Em vésperas do seu falecimento, o Governador tinha enviado ao mesmo ministro o seguinte telegrama: «rogo vexa transmitir Ministério Interior creio ser máxima conveniência repatriação imediata ex-General Sousa Dias está gravemente doente. É conveniente repatriar maior número de deportados possível» [ANTT, PT-TT-MI-GM-4-14-559_c0007]. 

Em Agosto de 1935, foi autorizada a sua trasladação para a Guarda [ANTT, PT-TT-MI-GM-4-32-44], tendo os restos mortais chegado a Lisboa, a bordo do vapor “Guiné”, em 30/11/1935. 

[Adalberto Gastão de Sousa Dias || Diário de Lisboa || 02/12/1935] 

A urna foi coberta com a bandeira nacional, transportada aos ombros de antigos companheiros da deportação em África e na Madeira e encaminhada para a Estação do Rossio, «onde foi colocada num vagão armado em câmara ardente que, atrelado ao comboio correio da Beira Baixa, seguiu, às 23 horas, para a Guarda, terra natal do extinto» [Diário De Notícias, “General Sousa Dias – Os seus restos mortais chegaram de Cabo Verde e seguiram para a Guarda”, 03/12/1935]. 

Foram organizados vários turnos e estiveram presentes, entre muitos outros, Alfredo Guisado, António Augusto, António Joaquim Pires, António Lomelino, Arantes Pedroso, Armando do Vale, Augusto César Loureiro, Aurélio Daniel, Avelino Cascais, Carlos Américo Garcez, Carlos Babo, Carlos Köpke [Carlos Alberto Coque], Carvalhão Duarte, Carvalho Araújo, César Nunes, Edmundo Gonçalves Lamego, Eduardo Bravo, Eduardo França Borges, Eduardo Pinto de Sousa, Eugénio Ferreira, Francisco de Aragão e Melo, Heitor Ferreira, Herculano Vasco, João Augusto Sousa (reverendo), João de Sousa, Joaquim Bento, José Maria Antunes, José Sebastião Frescata, Joubert Pereira, Julião Custódio, Júlio Anjos, Lopes Andrade, Lúcio Escórcio, Lúcio Martins (capitão), Manuel Martinho, Manuel Moutinho, Manuel Roberto, Marinho da Silva, Martins dos Santos, Maurício Costa, Máximo Barros, Pereira Vitorino, Ramon de La Féria, Ribeiro de Carvalho, Rogério Soares, Roque da Silveira, Sá Cardoso (general), Simões Raposo, Vieira Marques, Viriato de Almeida e Zeferino da Silva.

Três anos após o 25 de Abril, por Decreto do Conselho da Revolução de 02/06/1977 (decreto 232/77), foi reintegrado, a título póstumo, no Exército e no seu posto de General, com todas as honras ao mesmo inerentes e o direito às condecorações e graus honoríficos que possuía. 

Em 1980, recebeu o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.

[João Esteves]