[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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domingo, 9 de agosto de 2015

[1058.] ANA AUGUSTA DE CASTILHO [III]

[1866 - 1916]

Professora, escritora, proprietária, propagandista e defensora dos direitos das mulheres.

Natural de Angra do Heroísmo, era irmã de Maria Augusta Castilho Dias, tia do tenente Castilho Dias e viúva do professor de música João de Castilho.

Quando passou a residir em Lisboa, na Calçada do Poço dos Mouros, e sobretudo após a implantação da República, revelou-se acérrima defensora e propagandista do Livre-Pensamento, pertenceu à Associação do Registo Civil, foi uma prestigiada apologista da causa feminista e aderiu às suas organizações.

Militou na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. 

Colaborou com a Obra Maternal,  instituição destinada à protecção das crianças da rua abandonadas, sendo sua presidente em 1914 e 1915.

Participou no Grupo das Treze, agrupamento criado com a finalidade de combater a ignorância e todas as formas de superstição que afectavam a mulher portuguesa. 


Constituiu, juntamente com Ana de Castro Osório, Antónia Bermudes e Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinho, a Comissão Feminina "Pela Pátria", fundada com o objectivo de recolher donativos e agasalhos para os soldados portugueses, no caso de intervirem na guerra. 

Participou, juntamente com Maria Veleda, em campanhas de propaganda republicana e em defesa da intervenção de Portugal na 1ª Guerra, ao lado dos Aliados.


A actividade mais notória desenvolveu-se no âmbito da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, sobretudo no seu período áureo, onde presidiu a reuniões; contribuiu com donativos para subscrições; representou a agremiação em acontecimentos públicos e reuniões políticas; interveio enquanto oradora; e desempenhou cargos directivos entre 1912 e 1916, como os de Vice-Presidente da Direcção [1912] e Tesoureira [1913, 1914]. Em 1916, integrou a Mesa da Assembleia Geral. 

Intransigente defensora da República, fez parte da equipa de enfermeiras organizada pela Liga em Julho de 1912 e discursou no comício de Chaves, aquando da comemoração da vitória sobre as tropas monárquicas de Paiva Couceiro. 

Para além de contactos regulares com os responsáveis políticos republicanos, associou-se à homenagem às feministas açoreanas Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa [15/8/1912]; participou na delegação da Liga, convidada pela Comissão Administrativa dos Bens das Extintas Congregações, para uma reunião no Ministério da Justiça [1912]; foi indigitada para o Conselho Nacional que deveria participar, em nome das portuguesas, no Congresso Internacional de 1913 e para representar a Liga no XVII Congresso Internacional do Livre Pensamento; colaborou, em 1913, na campanha a favor da aprovação, pelo Parlamento, da anulação do direito de fiança aos violadores de menores; e esteve envolvida, enquanto fundadora e docente, no projecto de criação da escola Solidariedade Feminina [1914], cuja finalidade era ministrar aulas diurnas e nocturnas ao sexo feminino e  criar um curso nocturno gratuito de instrução primária destinado a todas as mulheres e raparigas com mais de doze anos. Por falta de número suficiente de inscrições, apesar de intensa propaganda, acabou por não ser implementada.

A dedicação à Obra Maternal não foi menos intensa entre 1912 e 1915, empenhando-se quer nos Corpos Gerentes, onde foi a Presidente nos dois últimos anos, quer nas iniciativas desenvolvidas para sustentar o projecto, organizando e representando nos saraus anuais em seu benefício [26/5/1912; 22/6/1913]. Angariou adesões e deveu-se às suas persistentes diligências o facto da Obra não ter sido dissolvida em finais de 1914. 

A militância estendeu-se à Associação de Propaganda Feminista: eleita 2.ª Secretária da Assembleia Geral (1916), desempenhou ainda o cargo de Tesoureira da Empresa de Propaganda Feminista e defesa dos direitos da mulher, responsável pela edição do jornal A Semeadora

Iniciada na Maçonaria, tal como muitas outras activistas, pertenceu à Loja Carolina Ângelo do Grande Oriente Lusitano Unido, com o nome simbólico de Brites de Almeida. 

Colaborou em A Madrugada, com artigos de intervenção política e educativa.

Integrou a redacção do jornal A Semeadora, assinando textos nos primeiros dois números, e foi uma das accionistas da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher, responsável pela edição daquele mensário, desempenhando o cargo de Tesoureira da sua comissão dirigente e administrativa.

Publicou, na Casa Editora Para as Crianças, o livrinho A Mulatinha.
  
Considerada pelas companheiras como uma das mais prestigiadas defensoras dos direitos das mulheres, participou e discursou em múltiplas actividades relacionadas com a causa que tinha abraçado, acreditando na libertação feminina através do trabalho e da independência económica da mulher. 

Faleceu em Dezembro de 1916, em Lisboa, tendo várias agremiações estado representadas: LRMP, através de Angélica Porto; APF; Grémios Fiat Lux, Madrugada, José Estevão, Montanha, Luz e Verdade, Marquês de Pombal e Carolina Ângelo; Grupo Obreiro da República; Comissão Paroquial Republicana de Arroios; Cruz Vermelha Portuguesa e Brasileira. 

Discursaram, junto da campa, Ana de Castro Osório, Antónia Bermudes e Borges Grainha. 

O n.º 18 do jornal A Semeadora foi, parcialmente, consagrado ao seu falecimento; a Capital, de Lisboa, publicou um artigo evocativo da sua obra pela emancipação feminina, transcrito posteriormente pelo órgão da APF; A Folha, de Ponta Delgada, de que era directora Alice Moderno e secretária Maria Evelina de Sousa, dedicou-lhe a primeira página do n.º 670; e a revista Redencion, de Valência (Espanha), referiu-se ao desaparecimento de Ana Castilho, o qual também foi lamentado por Ana Carbia Bernal.

O desaparecimento, bem como o seu exemplo, tiveram, inclusivamente, repercussões na imprensa feminina espanhola.

Quer o Dicionário de Educadores Portugueses, dirigido por António Nóvoa [Porto, ASA, 2003], quer o Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) [Lisboa, Livros Horizonte, 2005], inseriram pioneiros textos biográficos.

[João Esteves]

sábado, 4 de janeiro de 2014

[0440.] BEATRIZ PINHEIRO [I]

Beatriz Paes Pinheiro de Lemos
[1872-14/10/1922]



- Escritora e professora.

- Filha de Francisco Pinheiro e de Antónia Paes de Figueiredo,  nasceu em Viseu, em 1872. 

- Pertenceu à geração das republicanas e feministas portuguesas mais relevantes do princípio do século XX. 

- Fez a estreia literária na revista académica A Mocidade, quando ainda era aluna do liceu. 

- Com o marido, Carlos de Lemos, poeta e professor do Liceu de Viseu que, em 1909, foi Presidente da Comissão Municipal Republicana, sendo então perseguido pelo seu posicionamento político, dirigiu a revista literária Ave Azul (1899-1900). 

- Aí assinou textos dedicados à emancipação feminina e, considerando que o feminismo pretendia “pôr a mulher em condições de viver dignamente na sociedade, por meio do seu trabalho, sem precisar dum homem que a mantenha” [15/11/1899, p. 500], incitou as mulheres à luta, para “que reivindiquem os seus direitos, que façam por conquistar a igualdade civil e política, que sejam nos bancos das Escolas as dignas rivais dos mais inteligentes e dos mais estudiosos” [15/8/1899, p. 324]. 

- Nos seus escritos, revelou-se defensora da independência económica das mulheres e considerava que ela só era possível de alcançar com uma educação diferente para o sexo feminino.
- Colaborou nos periódicos A Beira, Nova Aurora (1900-1901), Almanaque das Senhoras* (1901, 1916, 1924), A Crónica (1900-1906), Alma Feminina (1907-1908), e O Garcia de Resende (1908-1909). 

- Correspondente local da Liga Portuguesa da Paz, dirigida por Alice Pestana, nunca deixou de caucionar a propaganda republicana e aderiu à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.

- Empenhou-se na campanha a favor da aprovação da lei do divórcio e reivindicou o ensino e a enfermagem laicas, servindo-se da imprensa para difundir o seu ideal. 

- Diplomada em Ciências e Letras, terá começado a leccionar em 1900. Poucos anos volvidos sobre a implantação da República passou a residir em Lisboa, onde era professora provisória do Liceu Maria Pia e leccionava Francês, Geografia e História. 

- Foi escolhida, juntamente com Ana Augusta de Castilho, Ana de Castro Osório, Luthgarda de Caires, Joana de Almeida Nogueira e Maria Veleda, para fazer parte da comissão que deveria representar as feministas portuguesas no sétimo Congresso da International Women Suffrage Alliance, a realizar em Budapeste. 

- Em 8 de Junho de 1916, proferiu no Liceu Maria Pia a conferência “A Mulher Portuguesa e a Guerra Europeia”, editada pela Associação de Propaganda Feminista. 



- Segundo Henrique Perdigão, “deve-se-lhe a criação da Escola Liberal João de Deus, para raparigas pobres, fundada como protesto à educação congreganista por ocasião do célebre ‘caso Calmon’”, e pertenceu ao Instituto de Coimbra. 

- Faleceu em Lisboa, em 14 de Outubro de 1922.

 [João Esteves,
v. Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), Lisboa, Livros Horizonte, 2005]

domingo, 21 de novembro de 2010

[0120.] ELZIRA DANTAS MACHADO [I] || 1865 - 1942

* ELZIRA DANTAS GONÇALVES PEREIRA MACHADO *

[15/12/1865 - 21/04/1942]


Filha do conselheiro Miguel Dantas Gonçalves Pereira e de Bernardina Maria da Silva, Elzira Dantas Machado casou, em 1882, com Bernardino Luís Machado Guimarães [1851 - 1944].

Tal como algumas das suas filhas, foi das figuras mais prestigiadas da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tendo apoiado, entre 1909 e 1916, várias das suas iniciativas, com destaque para a Obra Maternal. 

Viveu no Brasil enquanto o marido desempenhou as funções de Ministro de Portugal naquele país e, em 1916, presidiu à festa comemorativa do 7.º aniversário da Liga.

No entanto, foi no triénio 1915-1917 que mais se terá evidenciado enquanto propagandista, destacando-se então no âmbito da Associação de Propaganda Feminista e da Cruzada das Mulheres Portuguesas.

Detentora de 2 acções, foi Presidente da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher, sociedade constituída para editar o jornal A Semeadora (1915-1918), e da Associação de Propaganda Feminista (1915-1917), tendo subscrito, com Ana de Castro Osório, responsável pelo Grémio Carolina Ângelo, o conjunto de reivindicações feministas apresentadas ao Parlamento (Senado e Câmara dos Deputados) em Agosto de 1915.

No ano seguinte, Elzira Dantas Machado foi a principal obreira da fundação da Cruzada das Mulheres Portuguesas, criada não em função da defesa dos direitos das mulheres, mas sim do interesse nacional, voltando de novo a colaborar em estrita aliança com Ana de Castro Osório. Apontada como exemplo moral das causas defendidas, a partir do momento em que passou a dirigir a Cruzada pouco tempo lhe deve ter sobejado para se dedicar à APF.

Escreveu, durante o período que viveu no exílio, na sequência da Ditadura de 28 de Maio de 1926, a obra Contos – para os meus netos, que reflecte “as preocupações maternais da autora”.

[João Esteves]

[0119.] MARIA FRANCISCA DANTAS MACHADO [I] || 1899 - 1918

* MARIA FRANCISCA DANTAS MACHADO *

[18/08/1899 - 12/10/1918]


Filha de Bernardino Machado e de Elzira Dantas Machado, Maria Francisca Dantas Machado militou, tal como outras familiares, na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tendo contribuído para a subscrição a favor das vítimas do terramoto que abalou o Ribatejo em 1909. 

Posteriormente, aderiu à Associação de Propaganda Feminista, acompanhou o pai quando este foi nomeado Ministro de Portugal no Brasil (1912-1914) e trabalhou como enfermeira no âmbito da Cruzada das Mulheres Portuguesas. 

Faleceu em Hendaia, em 12 de Outubro de 1918, quando a família se encontrava exilada em consequência do sidonismo. 

O jornal A Semeadora publicou, no seu último número, uma carta de António Machado, onde se traça o perfil familiar da irmã, acompanhado da respectiva fotografia com o uniforme de enfermeira.

[João Esteves]

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

[0111.] MARIANA OSÓRIO DE CASTRO [I] || 1842 - 1917

* MARIANA OSÓRIO DE CASTRO *
[15/06/1842 - 17/11/1917]

[1842 - 1917]

Filha do tenente-general José Osório de Castro Cabral de Albuquerque, governador em Macau, e de Ana Doroteia Moore Quintius, de nacionalidade holandesa, Mariana Adelaide Osório de Castro Cabral de Albuquerque Moor(e) Quintius era casada com o magistrado João Baptista de Castro e mãe de Alberto Osório de Castro, João Osório de Castro, Jerónimo Osório de Castro e Ana de Castro Osório.

Casou, em 1866, no Fundão; residiu 22 anos em Mangualde, onde o marido era Conservador do Registo Predial; viveu muitos anos em Setúbal, embora acompanhasse o cônjuge em comarcas do Alentejo; e, a partir de 1911, passou a residir em Lisboa, na Rua do Arco do Limoeiro, n.º 17, num prédio sobejamente conhecido por ser o centro das actividades políticas e sociais da filha.

Militante da Associação de Propaganda Feminista desde a fundação, acabou por desempenhar papel de relevo na sua manutenção depois do falecimento de Carolina Beatriz Ângelo, e quando Ana de Castro Osório e Elzira Dantas Machado se encontravam no Brasil, tornou-se a segunda presidente da direcção eleita, escolhida entre as sócias fundadoras (1912); assegurou a publicação da revista A Mulher Portuguesa (1912-1913) e do jornal A Semeadora (1915-1918), sendo uma das accionistas da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher (Junho de 1915); auxiliou a Comissão Feminina Pela Pátria, trabalhando em agasalhos para os soldados portugueses; e, em 1916, foi eleita para o Conselho Fiscal.

Aderiu ainda à Obra Maternal, contribuiu para subscrições, nomeadamente em benefício das activistas Inês da Conceição Conde e Maria Veleda, e integrou a Cruzada das Mulheres Portuguesas.

Faleceu em 17 de Novembro de 1917, com 75 anos, e o jornal A Semeadora publicou a sua fotografia, acompanhada de informações biográficas e referências elogiosas à postura e militância.

O enaltecimento da sua integridade coube a Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinho, que tinha pertencido, com Ana de Castro Osório, à comissão dirigente da revista A Mulher e a Criança, em 1909-1910, e à Comissão Feminina Pela Pátria, e era visita assídua da casa.

[João Esteves]

domingo, 14 de novembro de 2010

[0095.] LUCRÉCIA DE BRITO BERREDO FURTADO DE MELO ARRIAGA [I] || 1844 - 1927

* LUCRÉCIA ARRIAGA *
[13/11/1844 - 15/10/1927]

[in As Primeiras-Damas. Presidentes de Portugal. Fotobiografia || Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006]

Nasce em 13 de Novembro de 1844, na Figueira da Foz, Lucrécia de Brito Furtado de Melo

Casou com Manuel de Arriaga, primeiro Presidente da República.

Em 1916, colaborou com a Cruzada das Mulheres Portuguesas.

Em 1918, já viúva, "terá vestido o uniforme de enfermeira e oferecido ajuda aos hospitais que assistiam os soldados portugueses feridos na Batalha de La Lys" [Elisa Santos Alípio e Susana Martins, na entrada para Feminae. Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013].

[João Esteves]

domingo, 7 de novembro de 2010

[0066.] VITÓRIA PAIS FREIRE DE ANDRADE MADEIRA [I] || 1883 - 1930

* VITÓRIA PAIS FREIRE DE ANDRADE MADEIRA * 

[Vitória Pais Freire de Andrade || 20/01/1883 - 07/11/1930]


Em 7 de Novembro de 1930 morre, em Lisboa, com 47 anos, a professora e militante feminista Vitória Pais Freire de Andrade Madeira.

Professora, natural de Ponte de Sor, onde nasceu em 1883, Vitória Pais era filha de José Albertino Freire de Andrade,  professor, e de Arsénia Maria Mineira e casou, muito nova, com o comerciante de Portalegre Manuel Joaquim Madeira.

Cursou a Escola Normal de Portalegre (1903), leccionou no distrito - Avis, Vale de Açor e Ponte de Sor – e inaugurou, nesta última localidade, uma escola por si dirigida e denominada “Uma missão das Escolas Móveis” (1913).

Durante a I Guerra, partiu para a capital, a fim de se inscrever no Curso de Enfermagem organizado pela Cruzada das Mulheres Portuguesas, fez exame de enfermeira em 04 de Dezembro de 1917 e prestou serviços aos mutilados no Instituto de Santa Isabel.

Frequentou a Escola Normal de Lisboa (1921), onde foi sempre a presidente da Associação Escolar, e algumas cadeiras da Faculdade de Letras.

A par do seu empenhamento nas questões pedagógicas e no associativismo docente, evidenciou-se na militância cívica e feminista, tendo aderido à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, à Associação de Propaganda Feminista e ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, de que foi um dos pilares, quer pelos cargos directivos que desempenhou, como pela participação nos Congressos Feministas e Abolicionistas.

Enquanto sócia da Liga, colaborou na revista A Mulher e a Criança (1911) e no jornal A Madrugada (1913-1915), participou na campanha a favor da aprovação, pelo Parlamento, duma lei proibitiva da venda de tabaco e bebidas alcoólicas a menores (1912), foi subscritora da Obra Maternal entre, pelo menos, 1913 e 1915, e contribuiu para subscrições.

No âmbito da APF, foi accionista da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher (Junho de 1915), responsável pela edição do jornal A Semeadora, e contribuiu para a sua propaganda na região onde leccionava.

Quando da formação da Cruzada das Mulheres Portuguesas, presidiu à subcomissão de Ponte de Sor e desempenhou, em 1918, as funções de Vogal da Comissão de Propaganda e Organização de Trabalho.

Seguindo o percurso de muitas outras activistas, foi iniciada na Maçonaria (1916) e integrou as Lojas Carolina Ângelo, com o nome simbólico de Liberdade, e Humanidade, com o de Mariana de Lencastre, tendo aderido em 1917, ainda enquanto professora na sua terra natal, ao projecto do Grémio Carolina Ângelo de instituir as Ligas de Bondade, que procuravam afastar as crianças da delinquência e da criminalidade. Nos anos vinte, pertenceu à Loja Humanidade do Direito Humano.

Quanto ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidiu a reuniões, interveio noutras, empenhou-se no combate à prostituição e à sua regulamentação pelo Estado, encabeçou o movimento pela extinção das touradas e, a partir de 1920, pertenceu aos corpos gerentes, tendo sido eleita Vogal (1920, 1922) e Tesoureira (1926) da Direcção, Vogal do Conselho Fiscal (1921) e Presidente da Assembleia Geral (1923, 1925). Também integrou a Assembleia Geral em 1924. Vitória Pais Madeira foi ainda Secretária da Comissão Jornalística (1920) e da Comissão de Educação (1920) e presidiu às Secções de Paz (1922), de Sufrágio (1925) e de Propaganda (1926).

Em 1924, exerceu as funções de Vogal da comissão organizadora do Congresso Feminista, onde defendeu a tese “Influência dos espectáculos públicos na educação”, e no Primeiro Congresso Nacional Abolicionista, realizado em 1926, apresentou a comunicação “Moral única”, que foi debatida na 2.ª Sessão Ordinária (03/08/1926).

Preocupada com o bem estar colectivo, reivindicou uma participação social mais activa por parte dos cidadãos, e assumiu-se permanentemente como educadora, tanto no exercício da profissão, como na vida associativa e cívica, sendo muito conceituada entre o professorado primário. Valorizou a importância da educação consciente da mulher, como forma de contribuir para o derrube de preconceitos e extinção das injustiças sociais, procurou transmitir aos alunos os sentimentos de solidariedade e independência, pugnou pela educação dos adultos, realizou conferências, escreveu para periódicos, tendo pertencido à comissão redactora da revista Educação Social, publicada em Lisboa, sob a direcção de Adolfo Lima, colaborou com a Universidade Popular Portuguesa e representou o CNMP na Comissão Central de Propaganda da Semana da Criança, organizada em Maio de 1925, por iniciativa da Associação dos Professores de Portugal. Aliás, integrou sucessivas comissões organizadoras da “Semana da Criança”.

Vitória Pais também nunca descurou o movimento associativo docente, procurando valorizar o papel das professoras, que constituíam a maioria da classe. Em 1918, representou o concelho de Ponte de Sor no Congresso do Professorado Primário Português, realizado em Lisboa, em 20 e 21 de Junho, e enquanto sócia da Associação de Professores de Portugal e da Liga de Acção Educativa, influiu nas suas reuniões. Posteriormente, e enquanto redactora da revista Educação Social, representou-a no Congresso das Escolas e Bibliotecas de Estudos Sociais, que decorreu no Porto, em Janeiro de 1927, e em Abril do mesmo ano participou no 9.º Congresso dos professores primários, realizado em Viseu.

Em 1928, numa atitude coerente e corajosa, foi Vogal da Comissão Executiva em prol das famílias dos presos, deportados e emigrados políticos, que visava recolher donativos, organizada por sugestão do jornal republicano O Rebate, tornando-se, significativamente, no seu último acto público conhecido.

Morava em Lisboa, na Estrada da Damaia, 69, rés-do-chão, quando faleceu, em 7 de Novembro de 1930, com 47 anos. Pertencia então ao quadro das escolas primárias da capital, trabalhando na de Benfica, e fizeram-se representar no funeral diversas sociedades, associações e estabelecimentos de ensino, nomeadamente o CNMP, o Grémio Humanidade, a Liga Portuguesa Abolicionista, a Mocidade Popular Portuguesa, a Escola Normal e a Escola-Oficina N.º 1.

Em artigo publicado no semanário pedagógico O Ensino Primário, Deolinda Lopes Vieira lembrava que tinha sido uma “pugnadora entusiasta por uma educação moderna, científica e sem dogmas”, tratando-se de um “espírito lúcido e aberto a todas as ideias de progresso e liberdade”.

Era sobretudo referenciada por Vitória Pais Freire de Andrade ou, simplesmente, Vitória Pais, e raramente utilizava o apelido do marido.


[v. João Esteves, Dicionário de Educadores Portugueses (dir. de António Nóvoa), Asa, 2003; e "Vitória Pais Freire de Andrade Madeira", Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), Livros Horizonte, 2005]

[Consultar também António Ventura, A Maçonaria no Distrito de Portalegre (1903-1935), Caleidoscópio, 2007, pp. 347-348, 365-366]


[João Esteves]

quinta-feira, 25 de março de 2010

[0035.] ANA DE CASTRO OSÓRIO [VIII] || 1872 - 1935

* ANA DE CASTRO OSÓRIO *
[18/06/1872 - 23/03/1935]

[Álbum Republicano || 1908]

Morre, em Lisboa, Ana de Castro Osório.

Escritora, editora, pedagoga, publicista, republicana e feminista, nasceu em Mangualde, em 18 de Junho de 1872, e faleceu em Lisboa, em 23 de Março de 1935, com 62 anos de idade. 

Marcou as primeiras três décadas do século XX, fruto duma ininterrupta e intensa actividade literária, cívica, política e feminista.

Filha do juiz e bibliófilo João Baptista de Castro e de Mariana Osório de Castro Cabral e Albuquerque, Ana de Castro Osório foi influenciada pelo ambiente cultural, histórico e socioeconómico em que cresceu, tratando-se duma família que cultivava os laços entre os seus membros e onde se discutiam as questões de forma aberta e frontal, como prova a correspondência trocada entre todos durante dezenas de anos.

Acompanhando os pais, passou a residir em Setúbal em 1895, cidade onde assumiu a condição de escritora quando tinha 23 anos e casou, em 10 de Março de 1898, na Igreja de Nossa Senhora da Anunciada, com o poeta e republicano Francisco Paulino Gomes de Oliveira [22/06/1864-13/03/1914]. 

Do enlace, nasceram João de Castro Osório e Oliveira [1899-1970], que desde muito novo revelou vocação para as letras, destacou-se como doutrinador político conservador na década de 20, e José Osório de Castro e Oliveira [27/08/1900-1964], escritor que casou com a cantora lírica Raquel Bastos. Embora filhos de destacados republicanos, ambos estiveram associados ao Manifesto Nacionalista de 1919 e, em 1922, João de Castro Osório publicou A Revolução Nacionalista.

O interesse literário de Ana de Castro Osório intensificou-se com o convívio quotidiano de alguém com quem partilhava os mesmos interesses culturais e colaborou com o marido em diversas iniciativas e negócios. O ambiente familiar tornou-se propício à actividade intelectual e, por isso, lutou para que as outras mulheres usufruíssem das mesmas condições, fruto de uma educação privilegiada para a época, pugnando, tanto nos escritos, como na intervenção associativa, pela emancipação social e económica das mulheres. Escreveu muito. Publicou e distribuiu gratuitamente centenas de exemplares dos folhetos genericamente intitulados A Bem da Pátria, nomeadamente As mães devem amamentar seus filhos e A educação da criança pela mãe.

Identificada como uma das fundadoras da literatura infantil em Portugal, e por não ter encontrado editor, publicou-a à sua custa mediante a criação da Casa Editora Para as Crianças: responsabilizou-se por todos os encargos editoriais e assumiu as tarefas relacionadas com a venda e distribuição dos contos e histórias para os mais pequenos. Posteriormente, fundou as Edições Lusitânia. Diversos livros seus foram adoptados como manuais escolares, quer em Portugal, como em estados do Brasil: A Minha Pátria (1906); Viagens Aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil.

Fundadora da Escola Liberal de Setúbal e maçon desde 1907, integrando a Loja Humanidade, Ana de Castro Osório foi igualmente uma das impulsionadoras do associativismo feminista, ao promover, em meia dúzia de anos, a criação do Grupo Português de Estudos Feministas (1907), da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1908) e da Associação de Propaganda Feminista (1911). Com o deflagrar da I Guerra, criou a Comissão Feminina Pela Pátria (1914), destinada a trabalhar a favor dos soldados mobilizados e suas famílias; fundou a loja maçónica feminina Carolina Ângelo (1915); e organizou a Cruzada das Mulheres Portuguesas, iniciativa de Elzira Dantas Machado (1916). Na batalha pela implantação da República, escreveu amiudadamente na imprensa diária, proferiu conferências, participou em comícios e secretariou eventos e sessões solenes. Empenhou-se, em 1909 e 1910, na obtenção da Lei do Divórcio e terá sido consultada por Afonso Costa quando este a concretizou em 3 de Novembro de 1910.

Em 1911, aquando da nomeação de Paulino de Oliveira como Cônsul de Portugal em São Paulo, passou a residir no Brasil, onde se manteve até à morte do marido, em 13 de Março de 1914, vitimado pela tuberculose. Aí manteve-se intransigente defensora da República, o que originou polémicas com membros da comunidade portuguesa, continuou empenhada na divulgação dos ideais feministas, bem como da sua literatura, e participou, com o esposo, no Congresso de Instrução Pública de Belo Horizonte.

De regresso a Portugal, fixou residência em Lisboa, no prédio onde vivia a família, na Rua do Arco do Limoeiro, que rapidamente se transformou na sede das actividades desenvolvidas por Ana de Castro Osório enquanto feminista, escritora e activista da Cruzada das Mulheres Portuguesas. Aliás, revelou-se, desde 1914, uma convicta defensora da intervenção de Portugal no conflito mundial: escreveu amiudadamente sobre ele e procurou reunir a elite feminina de todo o país em torno desse desígnio patriótico.

O carisma e relevância intelectual levaram a que fosse escolhida como delegada da Câmara Municipal de Cuba ao Congresso Municipalista de Évora (1915), onde apresentou a Tese “A Mulher na Agricultura, nas Indústrias Regionais e na Administração Municipal”.

No ano seguinte, foi nomeada pelo Ministro do Trabalho, António Maria da Silva, Subinspectora dos Trabalhos Técnicos Feminino, único desempenho que se lhe conhece atribuído pelos governos republicanos: apesar de ter sido contestada pela associação de classe das costureiras, numa polémica em torno da aplicação da legislação sobre os serões, aproveitou para incentivar as pequenas indústrias caseiras e regionais de rendas, tapetes e doces.

Recusou ser condecorada com a Ordem de Santiago, atribuída pelo governo da República em 1919, mas aceitaria, já durante o Estado Novo, ser condecorada com a Ordem de Mérito Agrícola e Industrial. A década de vinte é sobretudo marcada pela sua vontade de se afirmar como escritora reconhecida a nível nacional e no Brasil, regressando a este país em 1922 para proferir uma série de conferências no Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Reuniu-as em 1924 no livro A Grande Aliança, título demonstrativo do sonho antigo de concretizar a aproximação cultural entre os dois países separados pelo Atlântico.

Deixou centenas de artigos espalhados pela imprensa de todo o país e chegou a acalentar o desejo de se tornar numa colaboradora paga dum grande jornal diário, tendo-o confidenciado a seu pai no início do século XX. Colaborou em dezenas de periódicos.

Quando faleceu, morava na Rua Augusto Rosa, 17, 2.º, onde alternava com a residência do Estoril. 

Enterrada no jazigo de família, no cemitério do Alto de S. João, associaram-se à última homenagem personalidades políticas do regime; militares (general Ferreira Martins, comandante Jaime Athias, general Luís Domingues, tenente-coronel Marcelino Afonso, capitão Osvaldo de Andrade, general Vieira da Rocha); intelectuais; homens de letras (Aquilino Ribeiro, Carlos Lemos, viúvo da feminista Beatriz Pinheiro de Lemos, Fernando Pessoa, Hernâni Cidade, João de Barros), das artes e da ciência; assim como antigas companheiras dos combates feministas, das lides jornalísticas e do mundo da escrita e das tertúlias. Entre estas, destacavam-se Albertina Paraíso, Amélia Teixeira, dinamizadora da revista Portugal Feminino, Beatriz Arnaut, poetisa e activista do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, Eduarda Lapa, Elmana Trigo de Brito, professora de música e companheira na Liga e na Associação de Propaganda Feminista, Emília de Sousa Costa, Fernanda de Castro, Maria Pereira de Eça, Maria Veleda, Regina Quintanilha, a primeira advogada portuguesa, Teresa Leitão de Barros, então escritora destacada e dirigente do CNMP, e Virgínia Quaresma, a primeira jornalista profissional portuguesa, que tinha colaborado estreitamente com a falecida na Sociedade Futura e na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.

Participaram igualmente representantes da Cruzada das Mulheres Portuguesas e da Liga dos Combatentes da Grande Guerra – aliás, o papel desenvolvido pela escritora durante o conflito mundial que decorreu entre 1914 e 1918 foi reconhecido com a inauguração na sede desta última de um busto de Ana de Castro Osório

Dirigiu o funeral Hermínio do Nascimento e as palavras derradeiras couberam ao professor Simões Raposo e à advogada Regina Quintanilha, em nome da Cruzada das Mulheres Portuguesas.

Sobre a sua vertente enquanto escritora para crianças, educadora e pedagoga, ver a entrada do Dicionário de Educadores Portugueses, editado pela ASA (2003) sob a direcção de António Nóvoa.

[v. João Esteves, "Ana de Castro Osório", Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), Lisboa, Livros Horizonte, 2005, pp. 91-99]

[João Esteves]