[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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segunda-feira, 2 de maio de 2022

[2814.] MARIA BARROSO || INSCRIÇÃO NA ASSOCIAÇÃO FEMININA PORTUGUESA PARA A PAZ - 1942

 * MARIA DE JESUS SIMÕES BARROSO *

[1925 - 2015]

NO 97.º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE MARIA BARROSO (02/05/1925 - 07/07/2015)

Boletim de inscrição na AFPP || Julho de 1942

Maria de Jesus Simões Barroso foi uma das numerosas estudantes universitária que aderiu à Associação Feminina Portuguesa para a Paz (AFPP) criada em 1935 e proibida pela Ditadura em 1952.

Tinha 17 anos, era estudante da Faculdade de Letras e também aparece referenciada como actriz.

Criada em 1935, a Associação Feminina Portuguesa para a Paz revelou-se, até 1952, quando foi proibida pelo Estado Novo, uma agremiação que extravasou a ideia inicial de defesa da paz mundial, num momento em que ela estava ameaçada, e conseguiu mobilizar, em Lisboa, no Porto e em Coimbra, muitas centenas de mulheres ligadas à oposição, transformando-se numa relevante agremiação antifascista.

[João Esteves]

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

[1541.] MARIE CURIE [I]

* MARIE SKLODOWSKA CURIE *
[07/11/1867 - 04/07/1934] 

|| DESENHO DE ABEL SALAZAR (1889-1946) QUE INTEGROU UMA COLECÇÃO DE SEIS POSTAIS EDITADA PELA DELEGAÇÃO DO PORTO DA ASSOCIAÇÃO FEMININA PORTUGUESA  PARA A PAZ NA DÉCADA DE 1940 ||

O Boletim da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, de Fevereiro de 1947, dedicou um extenso artigo a Madame Curie.





[Boletim N.º 4 da Associação Feminina Portuguesa para a Paz || Fevereiro de 1947]

domingo, 9 de outubro de 2016

[1530.] LUCINDA MENDES [SABOGA] [IV]

[Lucinda Mendes com Agostinho Saboga e os três filhos || Avante!, 23/04/2009] 

Filha de Nazaré Mendes, Lucinda Mendes nasceu em Telhada em 13 de Janeiro de 1919 e, desde nova, manteve importante actividade política no âmbito da Associação Feminina Portuguesa para a Paz [AFPP] e do Partido Comunista. 

Vivia na Figueira da Foz quando aderiu, juntamente com a irmã Maria José Mendes [n. 15/09/1924] e por proposta de Eva Amado, ao núcleo de Coimbra da AFPP, tendo, por sua vez, convidado para a mesma agremiação as irmãs Aida [13/10/1926] e Maria da Conceição Alves de Matos [14/02/1924]. 


Entretanto, quando companheira do operário vidreiro Agostinho da Conceição Saboga [21/02/1909-1971], funcionário do PCP ligado à imprensa clandestina, seria com ele presa em Casal dos Galegos-Granja de Ulmeiro, Soure, em 4 de Junho de 1947, quando tinha 28 anos, e enviada para Caxias.

Restituída à liberdade condicional em 17 de Julho, voltou a ser presa em S. Mamede de Infesta, numa casa onde estava instalada a tipografia do jornal Têxtil, em 5 de Dezembro de 1958, no mesmo dia de Maria da Piedade Gomes dos Santos e de Maria Luísa Palhinha da Costa Dias. 

Enviada do Porto para Caxias, aqui se manteve até 24 de Outubro de 1959 – com uma hospitalização em Santa Maria entre 7 de Julho e 3 de Agosto –, quando foi transferida para a Delegação da PIDE daquela cidade e restituída à liberdade dois dias depois, por ter sido absolvida pelo 2.º Juízo Criminal da Comarca do Porto. 

 
[Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista, Presos Políticos no Regime Fascista IV – 1946-1948, 1985]

A filha mais nova, Lucinda Mendes Saboga, acompanhou os pais na clandestinidade até aos onze anos de idade e guardou, apesar de todas as vicissitudes, preciosos ensinamentos de vida.

Feminae - Dicionário Contemporâneo [CIG, 2013], contém uma entrada sobre Lucinda Mendes [Saboga].

[João Esteves]

domingo, 30 de novembro de 2014

[0858.] MARIA MANUELA LIMA VIEIRA SOARES DAVID [I]

* MARIA MANUELA LIMA VIEIRA SOARES DAVID *
[1924/5-1948]

Estudante universitária de Matemáticas.

Sócia, desde o início, da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

Em 1943/1944, foi eleita 2.ª Vogal da Direção.

Segundo Maria Branca Lemos, em escrito evocativo do 1.º aniversário da sua morte, foi uma militante empenhada e corajosa.

Faleceu a 22 de Março de 1948, com apenas 23 anos de idade.

Porque desapareceu tão cedo, é hoje um nome praticamente desconhecido ou ignorado.

[in Boletim da AFPP, N.º 6, Julho de 1949]

sábado, 6 de setembro de 2014

[0730.] ALICE BRAVO TORRES MAIA MAGALHÃES [I]



* ALICE BRAVO TORRES MAIA MAGALHÃES *
[1914-1989]

Professora, filha de Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães (1881-1932), militar republicano, e de Helena Bravo Torres Maia Magalhães, Alice Maia Magalhães nasceu a 8 de junho de 1914, no Porto, e faleceu a 4 de janeiro de 1989, em Lisboa. 

O seu percurso escolar e profissional foi exemplar: fez o Curso Geral no Liceu de Chaves, o Complementar no Liceu Maria Amália (1929-1931) e licenciou-se em Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com a elevada média de 18 valores.

Exerceu a docência nos liceus D. João de Castro (1937), Pedro Nunes (1937-1942, 1972), Almada (1972) e Maria Amália Vaz de Carvalho (1948-1949, 1972-1984). 

Entre 1943 e 1947, lecionou, como 2.ª assistente, na Faculdade que tinha cursado. 

Simultaneamente, engrossou, na década de 40, os movimentos de oposição à Ditadura do Estado Novo: desempenhou, em 1945, as funções de Vice-Presidente da Assembleia Geral da Associação Feminina Portuguesa para a Paz; assinou, no mesmo ano, as listas do Movimento de Unidade Democrática; e, pouco mais de um ano decorrido, em Janeiro de 1947, participou nas atividades culturais desenvolvidas aquando da “Exposição de Livros Escritos por Mulheres”, organizada pelo Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas na Sociedade Nacional de Belas Artes. 

Dissertou no dia 7, com Alda Nogueira (1923-1998), tal como Alice Maia Magalhães licenciada em Ciências Físico-Químicas pelas mesma Faculdade, sobre “A mulher e a ciência”, cabendo-lhe “analisar algumas figuras de mulher que no campo científico se têm evidenciado” [A Mulher, n.º 2, Maio de 1947, p. 9]. 

Ainda em 1947, participou ativamente nas campanhas contra a demissão, por motivos políticos, dos professores Manuel José Nogueira Valadares (1904-1982) e Aurélio Marques da Silva (1905-1965).

Tal como muitas outras docentes e funcionárias públicas que tiveram a ousadia de enfrentar o salazarismo, sofreu perseguições, esteve, entre 1949 e 1972, “expulsa do ensino por razões políticas” [Amaro Carvalho da Silva, “Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho”, Liceus de Portugal - Histórias, Arquivos, Memórias (coord. António Nóvoa e Ana Teresa Santa-Clara), Porto, Edições ASA, 2003, p. 493] e “viveu de lições particulares e dos seus ‘livros únicos’ de Físico-Químicas para os cursos complementares do ensino secundário” [idem]. 

Foi reintegrada no ensino a 1 de fevereiro de 1972 e lecionou até junho de 1984, ano em que se aposentou por ter completado 70 anos de idade, continuando a manter a mesma paixão pelo ato de ensinar e a intervir enquanto cidadã empenhada.

Segundo Amaro Carvalho da Silva, no texto sobre o “Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho” inserto na obra coletiva Liceus de Portugal, manteve-se solteira, adotou várias crianças e participou na constituição e dinamização da Associação de Solidariedade Social dos Professores.

Aquele professor escreveu uma detalhada entrada sobre Alice Bravo Torres Maia Magalhães para Feminae – Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013].

Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), editado em 2005 pelos Livros Horizonte, contém também uma entrada referente a Alice Maia Magalhães. 

[João Esteves]

domingo, 22 de junho de 2014

[0684.] MARIA LUÍSA BASTOS [I] || 1921 - 2006

* MARIA LUÍSA COSTA SILVA BASTOS *
[08/07/1921 - 12/06/2006]
[in Lúcia Serralheiro, Mulheres em grupo contra a corrente, 2011]

Filha de Ermelinda Costa Silva Bastos e de Daniel da Silva Bastos, republicano convicto e amigo de Manuel de Arriaga, Diretor de Alfândega em Goa, nasceu a 8 de julho de 1921, em Caranzalém, e faleceu em Lisboa a 12 de junho de 2006.

Aprendeu a ler por si própria e fez os primeiros estudos em Goa, tendo sido a primeira criança europeia do sexo feminino a frequentar a Escola Primária Massano de Amorim.

Em Goa, completou os estudos no Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, cujo reitor, professor de matemática, era o seu padrinho. 

Em 1938, terminado o liceu, partiu para Lisboa, onde se inscreveu no Curso de Românicas da Faculdade de Letras, residindo em Campo de Ourique.

Foi colega de Faculdade de Maria Lucília Estanco Louro e, nessa altura, aderiu à Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde desempenhou o cargo de 2.ª vogal do conselho fiscal no ano de 1944-1945, presidido por Glaphira Vieira de Lemos. Maria Palmira Tito de Morais era a presidente da Direção e Maria Letícia Clemente da Silva a presidente da Assembleia Geral. 

Em 1946-1947 foi 1.ª Secretária da Direção, presidida por Maria da Conceição M. do Valle. Maria Isabel Aboim Inglês era a presidente da Assembleia Geral e Maria Valentina Trigo de Sousa do Conselho Fiscal. 

Concluído o curso, por não ter assinado o decreto 27.103, foi-lhe retirado o diploma de professora oficial e particular, tendo trabalhado sempre no Liceu Francês Charles Lepierre. 

Foi casada com Jaime Pereira Gomes, irmão de Joaquim Soeiro Pereira Gomes.

Lúcia Serralheiro estudou-a na sua Tese de Mestrado, editada com o título Mulheres em Grupo Contra a Corrente [Evolua Edições, 2011] e fez uma biografia desenvolvida para Feminae. Dicionário Contemporâneo [Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2013].

[João Esteves]

sábado, 21 de junho de 2014

[0678.] MARIA CLEMENTINA VENTURA [I]


[25.05.1948]
- Irmã de Cândida Margarida Ventura e de Joaquim Pires Ventura, companheiros de militância no Partido Comunista Português nos anos da luta clandestina, nasceu em Lourenço Marques a 19 de junho de 1917. 

- Presa por motivos políticos em Monchique a 24 de Maio de 1948, recolheu ao Forte de Caxias. Tornou a ser detida em 28 de Março de 1950 e a recolher à mesma prisão.

Militou, no início da década de 50, na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, tendo sido convidada para integrar a sua Direção (dezembro de 1951).

- Casada com o escritor, advogado e militante Manuel Campos Lima [1916-1996], último diretor do jornal O Diabo.

[João Esteves]

sexta-feira, 20 de junho de 2014

[0674.] MARIA LUCÍLIA ESTANCO LOURO [I]



Professora.

Militante da Associação Feminina Portuguesa para a Paz entre 1940 e 1944, tendo sido sua Secretária durante três anos, numa altura em que era Presidente Cândida Madeira Pinto e tinham cargos directivos Maria Alice Lamy, Stella Fiadeiro e Maria Helena Pulido Valente, sendo muito ativas Cândida Gaspar, Maria Luísa Bastos, Joana Campina e Cândida Ventura

Com Cândida Ventura, colega da Faculdade de Letras de Lisboa, colaborou na mobilização de artistas, escritores, actores e poetas para colaborarem nas sessões culturais e pacifistas que a AFPP promovia. 

Na sede da Associação, na Rua D. Pedro V, ao Príncipe Real, organizavam pequenos pacotes com cigarros e géneros que mandavam, em colaboração com o Socorro Vermelho Internacional, para os prisioneiros nos campos de concentração. 

Ainda no âmbito das actividades da AFPP, no dia 9 de abril, data da Batalha de La Lys, costumavam, depositar ramos de flores no monumento aos mortos da Grande Guerra. 

Participou, no início da década de 1940, nos passeios de barco  culturais e políticas realizados no rio Tejo, sendo, com Cândida Ventura, uma das duas únicas sobreviventes [sobre eles consultar http://antonioanicetomonteiro.blogspot.pt/]. 

Posteriormente, já professora do Liceu, apoiou a campanha de Humberto Delgado; subscreveu as listas da Oposição Democrática; foi “compagnon de route” do Partido Comunista Português desde 1940 e filiada desde os anos setenta; tornou-se sócia da Associação de Amizade Portugal-Cuba; e pertence ao Conselho Português para a Paz e Cooperação. 

O seu empenhamento profissional (pedagógico-didático) não é menos intenso e relevante. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1944, a sua tese, intitulada Paul Gauguin visto à luz da Caracterologia - Vida e Obra suscitou polémica visto ser então a primeira a versar sobre Arte, considerada então uma parente pobre da História. 

Em 1948, fez Exame de Estado no Liceu Pedro Nunes com a tese Filosofia - Valores Éticos e Estéticos.

Lecionou nos Liceus de Faro, Beja, Évora, Oeiras, Lisboa (D. Leonor, D. João de Castro, Passos Manuel e Pedro Nunes) e na Escola do Magistério Primário de Évora. 

Orientadora de Estágios Pedagógicos nos Liceus de Oeiras, Pedro Nunes e Passos Manuel, entre 1973 e 1976. 

Participou nos Colóquios de História e de Filosofia realizados em 1959, no Liceu Pedro Nunes, sob a égide do Reitor Francisco Dias Agudo, que pela ousadia da sua promoção e pela categoria dos intervenientes (Professores Delfim Santos, Vieira de Almeida, Rui Grácio, Joel Serrão) representavam então uma luta pela actualização e dignificação dos conteúdos pedagógicos e informativos dos ramos abrangidos. 

Dentro do mesmo combate ao ensino orientado pelo Estado Novo e veiculado pelos compêndios fascizantes, participou nas reuniões de professores progressistas, realizadas um tanto clandestinamente na Escola Francisco Arruda sob a direcção do Professor Calvet de Magalhães; frequentou os Cursos de Aperfeiçoamento Profissional orientados pelo Professor Rui Grácio no Sindicato dos Professores; e cursou, em 1975, o 10.º Curso de Pós-Graduação em História de Arte, instituído pelo Professor José Augusto França na Universidade Nova de Lisboa. 

Após o 25 de Abril, interveio activamente, com muitos outros docentes [José Magno, Maria de Lurdes Ribeiro, Hardisson Pereira, João Cruz, Maria Eugénia Bráulia Reis, Ana Leal de Faria, Margarida Matos...], numa Comissão presidida por Maria Emília Diniz com o intuito de acabar com os velhos programas e actualizá-los com tudo o que tinha ocorrido na investigação e na metodologia. 

Estes novos programas foram divulgados em cadernos de apoio editados pelo Ministério da Educação, substituindo os antigos compêndios do 6.° e 7.° anos. Coube a Maria Lucília Estanco Louro fazer o tema Humanismo e Experimentalismo na Cultura do século XVI e, em coautoria com João Cruz, A Arte Portuguesa nos Séculos XIX e XX, não tendo este último fascículo chegado a ser publicado, porque entretanto estes programas, julgados demasiadamente revolucionários, foram abolidos. 

Realizou inúmeras palestras, participou em colóquios, escreveu artigos e colaborou em publicações. 

Redigiu várias entradas no Dicionário de História de Portugal, dirigido pelo Professor Joel Serrão, e a convite deste. 

Dos muitos escritos dispersos, é de mencionar “O Jovem Piteira” [Fernando Piteira Santos], publicado no Jornal de Letras, por se referir a “alguém cuja inteligência, sólida formação cultural (especialmente política) e fulgurante lucidez e poder de comunicação marcaram os jovens da minha geração, seus colegas na Faculdade de Letras de Lisboa nos anos 40” e que integrava “Barradas de Carvalho, Rute Arons, Olívia Cunha Leal, Rui Grácio, Joel Serrão, Joana Campina, Eunice Oliveira, Jorge Borges de Macedo, Francisco Morais Janeiro, Mário Faria, Nataniel Costa, Tony Nogueira Santos e eu própria, Maria Lucília”. 

A competência, profissionalismo, dedicação e intervenção cívica de Maria Lucília Estanco Louro, quer sob condições políticas adversas, quer após a Revolução de Abril,  podem ser testemunhados pelos seus antigos alunos, muitos dos quais tornadas figuras públicas, entre os quais se contam: Ana Maria Magalhães; António Damásio; António Torrado; Diogo Freitas do Amaral; Guilherme de Oliveira Martins; Joaquim Benite; Joaquim Letria; Joel Hasse Ferreira; Jorge Martins; José Meco; José Viana da Mota Brandão, Maria Beatriz Ruivo; Miriam Halpern Pereira; Maria Ângela de Sousa; Maria José Moura; Mário Vieira de Carvalho; Norberto Barroca; Rui Vieira Nery.

Pertence a uma geração única que dedicou décadas da sua vida na luta contra a ditadura e, coerentemente, continua, dentro das suas possibilidades, a manifestar o mesmo empenho político e cívico. 

Existe uma entrada mais completa sobre Maria Lucília Estanco Louro em Feminae. Dicionário Contemporâneo [Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2013].

[João Esteves]

[0673.] CÂNDIDA VENTURA [I]


- Cândida Margarida Ventura -
[n. 30.06.1918]

- Nasceu em Moçambique, na então cidade de Lourenço Marques, a 30 de Junho de 1918, filha de António Ventura, funcionário dos caminhos-de-ferro, e de Clementina de Deus Franco Pires Ventura, mas cresceu nas Caldas de Monchique, no Algarve. 

- As influências do pai, então funcionário da administração das termas de Monchique que “inculcou nos filhos o amor pela natureza, doando-nos a rectidão do seu carácter, a sua bondade, a compreensão, o diálogo e o respeito pelos outros como base das relações humanas” [O Socialismo que eu vivi, p. 21], e dos seus amigos, entre os quais se contavam o Dr. Rui Teles Palhinha e o poeta algarvio Francisco Xavier Cândido Guerreiro [1872-1953], marcaram a maneira de ser e de pensar de Cândida Ventura, estimulando-lhe o interesse pela História e pela Filosofia, para além da política. 

- Como a mãe era professora primária, em 1929, com 11 anos, partiu para Lisboa e ficou no Instituto do Professorado Primário, fundado e dirigido pela pedagoga Amália Luazes [1865-1938]. 

- Estudou no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, ainda no Largo do Carmo, onde “foi de grande importância para mim a influência de professoras como Ema de Oliveira, Olímpia Bastos, Margarida Pinto, Seomara da Costa Primo (assistente do Dr. Rui Teles Palhinha)” [idem, p. 22].

- Em 1936 matriculou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conviveu, entre outros nomes, com Mário Dionísio [16/07/1916-17/11/1993], Vasco Magalhães-Vilhena [1916-1993] e Fernando Piteira Santos [23/01/1918-28/09/1992], com quem se casou muito nova. 

- No meio académico, marcado pelos acontecimentos trágicos da Guerra Civil de Espanha (1936-1939), iniciou a sua vida política e, tal como os dois irmãos, Joaquim Pires Ventura e Maria Clementina Ventura Campos Lima [n. 19/06/1917], aderiu ao Partido Comunista Português, numa militância activa que perdurou por quatro décadas, até Agosto de 1976, desempenhando, de forma continuada, funções políticas relevantes. 

- Pertenceu à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas – trabalhou com Álvaro Cunhal [1913-2005], cinco anos mais velho, em 1937-1938.

- Integrou o Bloco Académico Antifascista (BAAF), organização ilegal e clandestina criada em finais de 1935 que visava combater o fascismo e o governo salazarista.

- Foi a responsável do Socorro Vermelho Internacional na sua Faculdade.

- Integrou a Associação Feminina Portuguesa para a Paz e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. 

- Fez parte da redacção do jornal O Diabo, participou, com outros jovens intelectuais e activistas, nos passeios de barco pelo rio Tejo de características culturais e políticas, realizados nos anos de transição da década de 30 para a de 40, e apoiou, em 1940-1941, os reorganizadores do Partido Comunista Português. 

- Em 1943, no mesmo ano em que concluiu o Curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra e teve papel de destaque na preparação e orientação das greves do calçado de S. João da Madeira, ocorridas em Agosto, passou à clandestinidade por proposta de José Gregório [19.03.1908-1961], tornando-se na primeira mulher com funções directivas após a reorganização.

- Sucedeu a Joaquim Pires Jorge [1907-1984] enquanto responsável do PCP na zona Norte e, como tal, chegou a viver nas casas do Porto de Nina Perdigão [Tomázia Josefina Henriques Perdigão, 02.05.1902-1988] e de Alexandre Babo, que já a conhecia desde os tempos do BAAF e a considerava “para a nossa geração uma referência determinante, quase um mito, ligado à sua luta, à sua coragem e até à sua beleza” [Alexandre Babo, Recordações de um caminheiro, Lisboa, Escritor, 1993]. 

- Participou na reunião ampliada do Comité Central realizada, em Maio de 1945, na Casa da Granja; interveio no II Congresso Ilegal, realizado numa casa da Lousã em Julho de 1946, onde passou a integrar, como suplente (1946) e depois como efectiva (1957), o Comité Central, apesar de em Março de 1954, na sua V Reunião Ampliada, ter sido acusada de actividade fracionária, suspensa e readmitida em 1956.

- Desenvolveu tarefas na organização operária de Lisboa, foi a responsável pela criação do boletim 3 Páginas, órgão especificamente dedicado às mulheres clandestinas das casas do Partido, e em Abril de 1958 saiu ilegalmente do país para visitar a União Soviética. 

- Presa a 3 de Agosto de 1960, ao fim de 18 anos de vivência clandestina no país, recolheu ao Forte de Caxias. 

- Julgada pelo Tribunal Plenário de Lisboa a 13 de Maio de 1961, foi condenada a cinco anos de prisão maior, suspensão de direitos políticos por 15 anos e medida de segurança de internamento, indeterminado, de seis meses a seis anos.

- Libertada, por questões de saúde, a 11 de Julho de 1963, partiu em 1964 para o estrangeiro e retomou a actividade política. 

- A partir de 1965, viveu na Checoslováquia enquanto representante do Comité Central naquele país e na Revista Internacional, sob o nome de Catarina Mendes. Aí acompanhou por dentro os acontecimentos relacionados com a “Primavera de Praga” e viu a filha Rosa juntar-se-lhe em 1969, quando tinha dezassete anos. 

- Regressou a Portugal ao fim de dez anos, no início de 1975, e no ano seguinte consumou a ruptura com o Partido de décadas.

- Usou os pseudónimos “Joana”, “André”, “Maria” e “Catarina Mendes” e colaborou no Avante!

- Após afastamento do PCP, manteve intervenção política e cívica noutros quadrantes político-partidários e trabalhou como professora e funcionária do Ministério dos Negócios Estrangeiros antes de voltar ao seu Algarve e fixar residência em Portimão. 

- Escreveu, em 1984, o livro O Socialismo que eu vivi. Testemunho de uma ex-dirigente do PCP, com Prefácio de Artur London [1915-1986], com apontamentos memorialistas em que é privilegiado o período posterior a 1968 em detrimento da riquíssima militância anterior. 

- Rose Nery Nobre de Melo inseriu a sua “Biografia Prisional” no livro Mulheres Portuguesas na Resistência

- Mário Dionísio lembrou-a, enquanto “Joana de olhos claros”, em Balada dos Amigos Separados

- Pacheco Pereira, na trilogia dedicada à biografia política de Álvaro Cunhal, inseriu fotografias suas, nomeadamente uma num dos passeios de barco pelo rio Tejo.

[JE]

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

[0406.] ELISA AMADO BACELAR [I]

- Armando Bacelar -

Armando Bacelar foi casado com Elisa Amado [Bacelar], importante activista do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, quer em Coimbra quer, posteriormente, no Porto. O percurso do casal merece particular importância no estudo do associativismo feminino da oposição antisalazarista. Era ainda cunhado de Eva Amado que, nos anos 40, também militou no núcleo de Coimbra da AFPP.

Acerca de Armando Bacelar, v. o Blog do Dr. Amadeu Gonçalves:


[29.08.1911]

sábado, 31 de dezembro de 2011

terça-feira, 8 de março de 2011

[0346.] Centenário da República - Vértice

Uma das novidades que o Centenário da República tem propiciado é o enfoque, inusitado, na situação das mulheres nas primeiras décadas do século XX, líderes feministas e republicanas e consequente associativismo.


A revista Vértice é mais um exemplo e o n.º 154 da II Série, virado exclusivamente para o Centenário da República, dedica, talvez pela primeira vez na sua longa história de décadas, 34 páginas à temática das mulheres no contexto republicano, com textos assinados por Domingos Abrantes, Maria Alice Samara e João-Maria Nabais.

Como é óbvio, a luta das mulheres não começou com o feminismo republicano, mas também não se pode ignorar ou desvirtuar a importância e o contexto histórico  datado deste só por ser, maioritariamente, composto por "burguesas", subalternizando algumas das suas justas reivindicações.

Aliás, muitas das intelectuais e militantes que se destacaram na resistência ao salazarismo, nomeadamente no âmbito da Associação Feminina Portuguesa para a Paz e Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, provinham da burguesia e muitas delas não "hibernaram", tendo participado activamente na oposição e vivido intensamente os acontecimentos políticos, sociais e económicos subsequentes à Revolução de Abril de 1974.

Certo é que tanto "operárias" como "burguesas" acabaram por ser silenciadas durante demasiado tempo e, pelo menos, o Centenário teve o mérito de as trazer para a discussão pública e integrá-las na análise histórica.

 

sábado, 27 de novembro de 2010

[0156.] ADÉLIA ROSALES MARQUES DE ALMEIDA [I] || CNMP E AFPP - COIMBRA

* ADÉLIA ROSALES MARQUES DE ALMEIDA *

Filha de José Marques de Almeida e de Adelaide Rosales de Almeida, Adélia Rosales Marques de Almeida nasce em Lisboa em 27 de Novembro de 1914.

Integrou o numeroso grupo de mulheres da região centro que, em 1946, subscreveu o documento a solicitar a Maria Lamas, na qualidade de Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a formação de uma delegação em Coimbra e foi sócia, por proposta de Maria Joana Rosendo Dias, do núcleo local da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

[João Esteves]

terça-feira, 16 de novembro de 2010

[0098.] AMÉLIA ALMEIDA BRANDÃO DE CAL OU AMÉLIA ALMEIDA CAL BRANDÃO [I] || SÓCIA DA AFPP - PORTO

* AMÉLIA ALMEIDA BRANDÃO DE CAL | AMÉLIA ALMEIDA CAL BRANDÃO *

[in Lúcia Serralheiro || Mulheres em Luta Contra a Corrente || Edições Evolua, 2011]

Mais conhecida por Amélia Cal Brandão, foi a sócia n.º 315 da AFPP – Associação Feminina Portuguesa para a Paz – Delegação do Porto.

Casou, em 1905, com Silo José Cal Muiños, oriundo da Galiza, imigrante radicado no Porto e funcionário da empresa inglesa Casa Graham. 

Faleceu, em Vila Nova de Gaia, em 14 de Novembro de 1974.

[João Esteves]

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

[0088.] ASSOCIAÇÃO FEMININA PORTUGUESA PARA A PAZ [I] || 1935 - 1952

* ASSOCIAÇÃO FEMININA PORTUGUESA PARA A PAZ || 1935 - 1952 *

Organização criada na década de 30, os seus Estatutos datam de 10 de Novembro de 1935 e foram homologados pelo Governo Civil de Lisboa em 8 de Fevereiro do ano seguinte.


Constituída com o objectivo de promover a realização de conferências, exposições, projecções cinematográficas e a organização de uma biblioteca, de forma a desenvolver a Paz Universal [art.º 2 a) dos Estatutos], teve também um importante papel oposicionista e aglutinou centenas mulheres que se opunham ao Salazarismo.

Com sede em Lisboa, teve dois núcleos importantíssimos: no Porto e em Coimbra.

De certa forma, a AFPP tentou, até 1952, quando foi proibida, continuar o trabalho desenvolvido pelo CNMP, havendo não só muitas sócias comuns, como o respectivo Boletim dava continuidade às aspirações emancipadoras da mulher.

[João Esteves]