[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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segunda-feira, 8 de junho de 2020

[2376.] ANASTÁCIO GONÇALVES RAMOS [I] || PRESO, ENTRE 1927 e 1938, 10 VEZES

* ANASTÁCIO GONÇALVES RAMOS *
[26/02/1898 - 01/06/1957]

Operário metalúrgico no Porto, Anastácio Gonçalves Ramos desenvolveu importante intervenção sindical e política durante a 1.ª República, sendo considerado um orador que galvanizava os comícios realizados naquela cidade devido aos seus dotes de oratória. Preso por diversas vezes, tornou-se militante do Partido Comunista Português aquando da sua implantação no Porto, participou no movimento revolucionário de 3 Fevereiro de 1927, foi deportado para os Açores e para a Madeira, de onde se evadiu, e esteve exilado, por pouco tempo, em Vigo. Preso dez vezes entre 1927 e 1938, conheceu, entre outros estabelecimentos prisionais, o Aljube do Porto e Peniche, voltando a ser detido pela última vez em 1949. Nome muito respeitado entre o operariado e o sector intelectual, esteve associado à fundação da Sociedade Editora do Norte e, quando esta foi encerrada pela PIDE, criou a biblioteca itinerante "Afonso Ribeiro". Faleceu em 1957, tendo, em 1958, José da Silva, seu camarada um pouco mais velho, escrito o opúsculo Anastácio Ramos - Um Operário com História [Edição do Autor, 1958]. Em 1968, foi organizado uma romagem ao cemitério de S. Mamede de Infesta, onde está a sua campa, sendo oradores vários antifascistas.


[Anastácio Gonçalves Ramos || 03/07/1932 || ANTT || RGP/382 || PT-TT-PIDE-E-010-2-382]

Filho de Albina Gonçalves Ramos, Anastácio Gonçalves Ramos nasceu em 26 de Fevereiro de 1898, em Vizela. 

Operário funileiro / zinqueiro, cedo se destacou enquanto organizador de greves sócio-profissionais no Porto - tipógrafos, construção civil, Carris, manipuladores do pão - e orador em comícios. Em 1919, era um dos dirigentes do movimento operário do Porto, representando os operários funileiros na União Sindical Operária, tendo discursado, em 14 de Outubro desse ano, no comício realizado contra a carestia de vida, a par de Joaquim Silva, Secretário-Geral da USO, David Oliveira, Domingos Pereira, Frederico Tavares, Guilherme Gonçalves Baptista, José da Silva Miranda (classe dos tecelões de seda), Maciel Barbosa e Serafim Cardoso Lucena. Ainda nesse período, assinou, pontualmente, um texto no semanário A Bandeira Vermelha, órgão da Federação Maximalista Portuguesa, publicado em 1919-1920.

Dentro do movimento sindical, Anastácio Ramos tornou-se partidário da Internacional Sindical Vermelha e integrou o Núcleo Sindicalista Revolucionário do Porto, dinamizado pelo sapateiro José da Silva. Pouco depois, passou a militar no Partido Comunista e integrou a sua primeira direcção local, presidida por José da Silva e composta, ainda, por António Nunes, chefe de armazém, e José Moutinho, empregado de escritório.

Enquanto membro da direcção do Norte do Partido Comunista, interveio, em Março e Abril de 1926, no Bloco de Defesa Social criado no Porto para denunciar as deportações por motivos sociais e combater o avanço do fascismo, sendo um dos oradores nas sessões e comícios então realizados. No dia 4 de Abril, no comício realizado na Alameda das Fontainhas, foi um dos que discursou, juntamente com oradores que representavam outras formações e sensibilidades políticas e sindicais: Américo Cardoso (Partido Republicano Radical); Cerdeira Paiva (republicano liberal); Jerónimo de Sousa (da Confederação Geral do Trabalho, mas que falou a título pessoal); José Domingues dos Santos (Esquerda Democrática); Marcelino Pedro (Câmara Sindical do Trabalho do Porto e redactor de A Comuna); e Raul Tamagnini Barbosa (do Partido Republicano Radical, mas que também tomou a palavra enquanto ).

Durante as comemorações do 1.º de Maio de 1926, interveio, enquanto membro do Partido Comunista, no comício realizado nas Fontainhas, tendo sido alvo de ataques de sectores anarco-sindicalistas. Segundo José da Silva relata nas suas Memórias de um operário, Anastácio Ramos, «com a sua voz de trovão, chamou a si a atenção geral da grande assembleia» e, «como era do seu estilo [...] abriu as suas considerações com um violento ataque ao Capitalismo, lançando-lhe os seus anátemas ao jeito de excomunhões, táctica que sempre levava ao rubro os trabalhadores que o escutassem, o que desde logo lhe granjeou uma formidável ovação». 

Ainda no mesmo mês, fez parte dos sete delegados do Porto ao II Congresso do Partido Comunista, realizado em Lisboa nos dias 29 e 30. Preso e libertado várias vezes durante a 1.ª República, Anastácio Ramos terá sido o principal promotor do Socorro Vermelho Internacional na cidade do Porto e as prisões iriam suceder-se com o triunfo da Ditadura Militar e a fascização do país. 

Participou, com o seu grupo, na revolução de 3 Fevereiro de 1927, refugiou-se em Espanha na sequência do seu fracasso (Processo 37/Porto) e terá sido preso ainda em 1927, disso dando conta Augusto Alves Rito em carta a Bernardino Machado, datada de 17 de Setembro desse ano: «[...] no Porto foi também preso o Anastácio Ramos, que esteve na Corunha também emigrado. Este Ramos é aquele rapaz comunista, para quem eu pedi a V. Ex.ª que o Cônsul lhe passasse um salvo-conduto» [(1927), Sem Título, Fundação Mário Soares / DBG - Documentos Bernardino Machado, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_100433 (2020-6-8)]. 

O seu Cadastro Político, arquivado na Torre do Tombo, começa por indicar a influência que, enquanto sindicalista comunista, Anastácio Gonçalves Ramos tinha na mobilização dos operários, datando de 9 de Fevereiro de 1928 a primeira prisão registada enquanto preso pela Delegação do Porto, «por ser revolucionário avançado» e «elemento comunista».

Libertado em 29 de Abril de 1928, manteve-se sob vigilância do «agente secreto N.º 39» e voltaria a ser preso pela Delegação do Porto em 1 de Outubro de 1930, a pedido da Polícia de Lisboa. Enviado para a capital no dia seguinte, acusado de fazer «parte de um grupo organizado pelo Comité Secreto do Partido Comunista e dedicado à prática de atentados pessoais», foi deportado para os Açores em 8 de Outubro [Processo 4695-J]. Seguiu na embarcação "Lima" juntamente com os militantes comunistas António Nunes, Bento Gonçalves, Francisco Pereira de Sousa e José da Silva, para além de outros deportados políticos, tendo sido cantada a Internacional pelos «presos e muitos seus familiares e amigos que deles se foram despedir à praia de Santos, em Lisboa» ["Comunistas deportados", Avante N.º 1735, 01/03/2007]. 

Evadiu-se, em 13 de Abril de 1931, da Ilha da Madeira, onde estava com residência fixada, a bordo do vapor "Guiné", juntamente com o comandante Sebastião da Costa e outros. Desembarcou em frente de Tavira, seguiu para o Norte, onde permaneceu alguns dias em Espinho e, depois, seguiu para Vigo, onde permaneceu até próximo do Natal. Regressou a Portugal e refugiou-se em sua casa, onde foi preso em 26 de Junho de 1932. Por despacho do Ministro do Interior, foi mandado restituir à liberdade em 14 de Julho [v. Processo 96/Porto]. 

Preso, no Porto, em 10 de Maio de 1933, «por fazer distribuição de propaganda comunista», e libertado em 24 de Maio. 

[Anastácio Gonçalves Ramos || 03/07/1932 || ANTT || RGP/382 || PT-TT-PIDE-E-010-2-382]

Preso pela Delegação do Porto em 17 de Janeiro de 1935 e libertado em 19 de Janeiro, voltou a ser detido em 2 de Fevereiro, por «manter ligações com comunistas foragidos das Astúrias» [Processo 16/Porto, Processo 1388/SPS]. Enviado para o Aljube do Porto e libertado em 25 de Abril, voltou a a conhecer a prisão pela terceira vez nesses ano. 

Preso em 2 de Dezembro e enviado para Peniche em 22 de Dezembro. Aí permaneceu seis meses e foi tirada esta fotografia, cedida pelo seu primo Tiago Casal Ribeiro, onde constam, também, os presos políticos Manuel Casal Ribeiro, António Gomes da Silva, "O Russo", Horácio Monteiro Barbosa e Carlos Dias da Fonseca. 

[Fortaleza de Peniche || 1.º Semestre de 1936 || Em cima: Manuel Casal Ribeiro, António Gomes da Silva "O Russo" e Anastácio Gonçalves Ramos; em baixo: Horácio Monteiro Barbosa e Carlos Dias da Fonseca]
[Fotografia disponibilizada por Tiago Casal Ribeiro, neto de Manuel Casal Ribeiro e primo de Anastácio Ramos]

Voltaria ao Porto em 28 de Maio de 1936, onde foi julgado pelo TME em 5 de Junho e libertado no dia seguinte [Processo 2220/35].

As prisões sucediam-se e, em 17 de Outubro, seria detido pela Delegação do Porto e libertado em 23 de Dezembro de 1936. Novamente preso pela Delegação do Porto em 14 de Janeiro de 1938 e julgado pelo TME em 10 de Agosto, foi absolvido e libertado em 17 do mesmo mês [Processo 1184/37].

[Anastácio Gonçalves Ramos || 03/07/1932 || ANTT || RGP/382 || PT-TT-PIDE-E-010-2-382]

A sua última prisão, a décima primeira sob a Ditadura, data de 12 de Fevereiro de 1949, em Vila Nova de Gaia, onde vivia, sendo libertado em 26 de Março [Processo 1167/949].

Segundo depoimento de Carlos Pereira Soares, Anastácio Ramos terá sido «o homem mais espectacular que eu conheci em toda a minha vida. Ele deu-se muito bem com o Abel Salazar; com essa gente que parava ali na Brasileira, e no Rialto, e com outros fez uma associação, que era a SEN - Sociedade Editora do Norte. Tinham sócios, e era através dessa sociedade que a gente requisitava livros, toda a gente. A PIDE investe contra isso e acaba a SEN. E esse Anastácio Ramos faz uma biblioteca itinerante, chamada Afonso Ribeiro. Pegado ao Piolho, havia um café que era de um homem da oposição, e aí se juntavam os elementos da direcção dessa biblioteca itinerante, emprestavam livros, a gente pagava 5 tostões ou 2 tostões ou 3 tostões, já não sei quanto era, e levava o livro para casa. Se não pagasse também levava» [http://cdi.upp.pt/cgi-bin/mostra_entrevista.py?doc=E06r].

Faleceu em 1 de Junho de 1957, ano em que José da Silva editou, por conta própria, o opúsculo Anastácio Ramos (um operário com história).

 
[José Pacheco Pereira || Ephemera|| http://officialjpp.com/bio-r.html]

Dez anos depois, em 1968, Sérgio Valente fotografou a romagem feita ao túmulo de Anastácio Gonçalves Ramos, localizado no cemitério de S. Mamede de Infesta - Matosinhos, tendo discursado vários oposicionistas ao regime, como Neves Fernandes e Zé "Barbeiro".




[Sérgio Valente, um fotógrafo na oposição || Edições Afrontamento || 2010]

NOTA I: Agradeço a Tiago Casal Ribeiro a relevante correcção do ano do falecimento de Anastácio Gonçalves Ramos, localizando-o em 1957 e não 1958. Segundo a mesma informação, datada de 11 de Agosto de 2020, o primo direito Manuel Casal Ribeiro também esteve preso em Peniche em 1935/36.

NOTA II: Novo agradecimento a Tiago Casal Ribeiro pela fotografia dos cinco presos políticos na Fortaleza de Peniche, datada do 1º semestre de 1936 e enviada em 3 de Fevereiro de 2022.

[João Esteves]
[corrigida data de falecimento em 11/08/2020]
[alterada em 04/02/2022]

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

[2293.] MÁRIO MATA BRANCO [I] || PRESO EM 1933, 1934 E 1947

* MÁRIO MATA BRANCO *
[01/12/1896 - 27/08/1959]

Mário Mata Branco foi iniciado na Maçonaria em 1928 e preso, pela primeira vez, em 1933, acusado de ser militante da célula do Partido Comunista em Faro e responsável pelo Socorro Vermelho Internacional. Voltou a ser encarcerado em 1934 e 1947.

[Mário Mata Branco || 21/06/1947 || ANTT || RGP/17696 || PT-TT-PIDE-E-010-89-17696]

Filho de Júlia Duque Mata Branco e de Francisco Rodrigues Branco, Mário Mata Branco nasceu em 1 de Dezembro de 1896, em Torres Novas, na freguesia de Santa Maria.

Funcionário do Banco do Algarve, onde era escriturário, foi iniciado na Maçonaria em 16 de Novembro de 1928, na Loja Gil Eanes N.º 413, em Faro, adoptando o nome simbólico de "Mário Neotorrejano", numa referência à terra do seu nascimento. Em 1932, era membro activo da Associação do Registo Civil [António Ventura, 120 Anos de Maçonaria no Algarve 1816 - 1936] e, no ano seguinte, já aparece referenciado como estando envolvido em actividades do Partido Comunista. 

Vigiado pela Polícia de Defesa Política e Social, foi descrito, em 26 de Março de 1933, como «desafecto à actual situação política do País», «tem afinidades comunistas», «pertenceu ao Socorro Vermelho Internacional» e «fez parte do grupo de republicanos democratas, de Faro, que enviou um telegrama em 24 do corrente, ao Dr. Domingos Monteiro, redacção do "Século", felicitando-o pela conferência levada a efeito por este senhor» [ANTT, Cadastro Político 4389].

Cerca de cinco meses depois, em 12 de Agosto de 1933, Mário Mata Branco foi entregue pelo Comando da PSP de Faro à Polícia de Defesa Política e Social «por se encontrar em manejos comunistas». Terá aderido ao Partido Comunista por intermédio de João Correia Gaspar e mantido contactos com Alberto Carlos Braga Júnior, quando este se deslocou a Faro, o 1.º marinheiro Artur Alves, Francisco Paula de Oliveira, Francisco Simões, José Joaquim Lopes Macedo, Manuel Atayde Carvalho Moreira, comunista residente em Portimão, e Pedro Batista da Rocha: «das três Delegacias que foram feitas a Faro, o epigrafado esteve sempre em contacto com os elementos de agitação, o que confirma o seu interesse pelo Partido Comunista Português» [Cadastro Político 4389; Processo 799]. Em 1933, seria o responsável da Comissão local do Socorro Vermelho Internacional. 

Libertado em 5 de Outubro de 1933, Mário Mata Branco seria preso em 28 de Setembro de 1934 para ser julgado pelo Tribunal Militar Especial que, reunido em 24 de Outubro, o absolveu [Processo 799A]. Saiu em liberdade no dia seguinte.

[Mário Mata Branco || 21/06/1947 || ANTT || RGP/17696 || PT-TT-PIDE-E-010-89-17696]

Voltou a ser detido em 20 de Junho de 1947, quando tinha 50 anos. Levado para uma Esquadra, foi transferido para a Penitenciária de Lisboa em 21 de Junho e entrou em Caxias em 23 de Setembro do mesmo ano [Processos 690/47 e 691/47]. Posto à disposição do Tribunal Militar Territorial em 29 de Outubro, o processo foi considerado extinto por acórdão de 27 de Maio de 1950 devido à amnistia de 10 de Maio do mesmo mês.

Faleceu em Lisboa em 27 de Agosto de 1959, com 62 anos de idade.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 4389 [Mário Mata Branco / PT-TT-PIDE-E-001-CX14_m0397, m0397a]. 

ANTT, Registo Geral de Presos 17696 [Mário Mata Branco / PT-TT-PIDE-E-010-89-17696].

António Ventura, 120 Anos de Maçonaria no Algarve 1816 - 1936, Sul, Sol e Sal, 2019.

[João Esteves]

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

[2280.] PEDRO BATISTA DA ROCHA [VI] || DA MILITÂNCIA COMUNISTA À GUERRA CIVIL DE ESPANHA

* PEDRO BAPTISTA DA ROCHA *
[25/07/1912 - ?]

MILITANTE DAS JUVENTUDES COMUNISTAS E DO PARTIDO COMUNISTA || ACTIVISTA DO SOCORRO VERMELHO INTERNACIONAL || PRESO POLÍTICO || COMBATENTE DA GUERRA CIVIL DE ESPANHA || PASSAGEM PELOS CAMPOS DE INTERNAMENTO EM FRANÇA E DE TRABALHO NA ALEMANHA NAZI || EXILADO

[Pedro Batista da Rocha || 06/12/1943 || ANTT || RGP/288 || PT-TT-PIDE-E-010-2-288]

O percurso político de Pedro Rocha revelou-se invulgarmente rico e complexo, tendo abrangido quase todo o período da Ditadura Militar e do Fascismo: militante comunista desde 1929; activista do Socorro Vermelho Internacional; combatente da Guerra Civil de Espanha; internado em Angelès-sur-Mer, Gurs e Vernet; passagem pela Alemanha nazi; preso nos anos 30 e 40; exílio no Congo francês e Brasil, só regressando após Abril de 1974.

Filho único de Hermínia do Carmo Batista e de António José da Rocha, sargento músico preso por estar envolvido na Revolta Republicana de 31 de Janeiro de 1891, no Porto, Pedro Batista da Rocha nasceu em 25 de Julho de 1912, em Lisboa - Anjos, e cresceu em Alfama. 

Frequentou o Liceu Gil Vicente, tendo os amigos, as greves estudantis, as leituras, as dificuldades económicas e o ambiente familiar em torno dos ideais da República, contribuído para a sua adesão à luta contra a Ditadura Militar e militância comunista desde 1929. Usou os pseudónimos de "Hélder", nas Juventudes Comunista, de "Osvaldo", no Socorro Vermelho Internacional, e "José Pedro da Rocha".

Segundo as suas memórias, intituladas Escrito com paixão [Caminho, 1991], com 18 anos era já membro das Juventudes Comunistas, tendo aderido por influência de César Maurício e trabalhado directamente com Francisco Paula de Oliveira e, depois, com Fernando Quirino. Participou, então,  nas greves estudantis e nos comícios relâmpago. 

[Pedro Rocha || Escrito com paixão || Caminho || 1991]

Detectado e procurado como activista comunista desde 1932, Pedro Rocha desempenhou ainda trabalho partidário, entre outros, com Afonso Henriques Ventura, Afonso Martins da Silva, Álvaro Duque da Fonseca, Bento Gonçalves, Bernard Freund, Carolina Loff da Fonseca, Cassiano Nunes Diogo, Eliseu Monteiro, Isaac Soares, Joaquim Domingos Lisboa, Júlio dos Santos Pinto, Manuel Augusto da Rosa Alpedrinha, Mário Rodrigues Pio, Togo da Silva Batalha e Virgínio de Jesus Luís. Em 1933, integrou o Secretariado Político e Executivo das Juventudes Comunistas.

Foi, simultaneamente, activista, desde 1929, do Socorro Vermelho Internacional, em Lisboa, sendo funcionário da sua sede clandestina instalada no Regueirão dos Anjos. Posteriormente, em 1933, foi encarregue da sua reorganização no Alentejo e Algarve, assim como dos Comités Locais do Partido Comunista e das suas Juventudes: saiu de Lisboa em 19 de Junho e passou por Vale de Vargos, Aldeia Nova de São Bento, Beja, Aljustrel, Portimão, Lagos, Odeceixe, Monchique, Silves e Faro [Processo 799].

Integrou, ainda, diversas agremiações, como a Associação dos Amigos da União Soviética, criada em 1931, Caixa Económica Operária e Clube Naval de Lisboa. Enquanto empregado comercial, foi delegado do seu sindicato, filiado na Comissão Intersindical (CIS).

Preso, pela primeira vez, em 23 de Julho de 1933, juntamente com Rodrigo Ollero das Neves [n. 27/06/1906], na casa da Rua Bernardim Ribeiro, 57, 4.º, foi julgado pelo Tribunal Militar Especial em 22 de Janeiro de 1934, juntamente com mais vinte jovens, e condenado a dezoito meses de prisão correccional e perda dos direitos políticos por dois anos [Processo 87/933 do TME - Processo 798 da Polícia de Defesa Política e Social].

Libertado em 27 de Janeiro do ano seguinte, tinha passado pela Penitenciária de Lisboa, Aljube e Peniche, mantendo colaboração em periódicos feitos, clandestinamente, pelos presos.

Voltou a ser preso, «para averiguações», em 16 de Maio de 1936 e libertado em 26 do mesmo mês [Processo 1803].

Em Abril de 1937, dando seguimento ao apelo do Partido Comunista para que militantes e simpatizantes se juntassem às forças republicanas de Espanha e/ou porque tivesse sido enviado pela Frente Popular Portuguesa para se especializar em assuntos militares, Pedro Rocha saiu legalmente de Portugal para França, aproveitando a organização da Exposição Internacional de Artes e Técnicas Aplicadas à Vida Moderna. 

Embarcou no paquete "Aurigny", desembarcou no Havre, passou por Paris, onde contactou com os portugueses antifascistas residentes em França, assistiu ao 1.º de Maio em Lyon e, depois, atravessou os Pirenéus a pé e chegou a Figueras, na Catalunha, em Maio, após uma atribulada e tormentosa viagem. 

 [Pedro Batista da Rocha || 1937 ou 1938]

Em Espanha, manteve contactos estreitos com os portugueses Caetano João, Carolina Loff da Fonseca, César de Almeida, Jaime de Morais, José Ramos, Manuel Roque Júnior, Mário Batista Reis, Miguel Ramos, Óscar Morais, Utra Machado e Telmo dos Santos, entre outros. Aí também se cruzou com Luís António Soares, "um homem de meia-idade", pai de Pedro Soares, seu camarada das Juventudes Comunistas.

Por usar óculos, não pode ser piloto de caça, passando para a artilharia. Frequentou, segundo as suas memórias dactilografadas, a escola pré-militar de Pins del Vallès, em Sant Cugat del Vallès; a escola de comissários, cujo responsável militar era o major César de Almeida; e, por fim, a Escola de Artilharia N.º 2, em Lorca, perto de Valência, onde estavam mais cinco portugueses: Caetano João, Manuel Roque Júnior, Mário Batista Reis, Miguel Ramos e Óscar Morais.

Concluído aquele curso, foi promovido a tenente de artilharia. Adstrito à Reserva Geral de Artilharia e colocado no 2.º Grupo de Canhões de 7.62, Pedro Rocha participou em combates no sector Tremp/Blaguer; Lérida; frente do Levante (Sagunto), entre outros.

Foi quando estava em Lorca que, em Outubro de 1937, aderiu ao Partido Comunista de Espanha, talvez por intermédio de Mário Batista Reis, delegado português no Partido Socialista Unificado da Catalunha, integrando a célula da Escola Popular de Guerra N.º 2. 

[Diário de Lisboa || 9 de Setembro de 1983]

Em finais de Outubro de 1938, terá passado a capitão, como consta do Certificado passado em nome de Juan Negrín López, Presidente do Governo de Espanha e Ministro de Defesa Nacional. 

[Diário de Lisboa || 9 de Setembro de 1983]

Em Fevereiro de 1939, juntamente com Jaime Cortesão, Jaime de Morais, Mário Fernandes e outros portugueses, saiu de Espanha e começou, durante cerca de dois anos e meio, a prolongada passagem pelos campos de internamento franceses: Argelès-sur-Mer, Gurs, novamente Argelès e, por fim, Vernet d'Arriège, vigiado por milícias de Vichy. 

Forçado pelas condições desumanas e políticas deste último campo, inscreveu-se para trabalhar, como voluntário, na Alemanha nazi, onde trabalhou como carregador na IGFarben, em Bitterfeld e, depois, em Berlim, no escritório da editora da revista “O Espelho de Berlim”, de propaganda nazi. Também terá trabalhado como locutor de rádio, ganhando razoavelmente.

[Pedro Batista da Rocha || 06/12/1943 || ANTT || RGP/288 || PT-TT-PIDE-E-010-2-288]

Invocando a necessidade de visitar os pais, regressou a Portugal no Verão de 1942, entrou em contacto com os antigos camaradas de Partido, agora sujeito a nova reorganização, e viveu numa semiclandestinidade até ser preso, «para averiguações», em 4 de Dezembro de 1943. Enviado para o Aljube, foi libertado em 19 de Janeiro de 1944.

[Pedro Batista da Rocha || 06/12/1943 || ANTT || RGP/288 || PT-TT-PIDE-E-010-2-288]

Nesse mesmo ano, em Maio, partiu para Angola, onde se manteve por mais de dois anos e continuou a ser vigiado e perseguido pela PIDE.

Seguiu, então, para Brazaville e aí permaneceu, durante 14 anos, como locutor da RTF. Em fins de 1959, fixou-se no Brasil, trabalhando no Estado de São Paulo.

Logo que eclodiu a Revolução de 25 de Abril, Pedro Rocha ofereceu, por carta, os seus préstimos profissionais ao Movimento das Forças Armadas, não tendo obtido qualquer resposta. Em 1976, ao fim de 28 anos de exílio e de 43 de militância antifascista, regressou a Portugal.

João Varela Gomes, em artigo publicado no Diário de Lisboa de 9 e 10 de Setembro de 1983, dá amplo destaque ao percurso político de Pedro Rocha, inserindo documentação sua enquanto participante na Guerra Civil de Espanha. Voltou a dedicar um capítulo a Pedro Rocha no livro Guerra de Espanha. Achegas ao redor da participação portuguesa - 70 anos depois [Fim de Século, 2006].

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 4602 [Pedro Baptista da Rocha / PT-TT-PIDE-E-001-CX14_m0725, m0725a, m0725b, m0725c, m0725d].

ANTT, Registo Geral de Presos 288 [Pedro Batista da Rocha / PT-TT-PIDE-E-010-2-288].

Varela Gomes, Diário de Lisboa, 9 e 10 de Setembro de 1983.

Varela Gomes, Guerra de Espanha. Achegas ao redor da participação portuguesa - 70 anos depois, Fim de Século, 2006.

[João Esteves]

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

[2239.] NARCISO ALVES XAVIER [I] || PRESO EM 1932 (SVI) E 1934 (GREVE GERAL)

* NARCISO ALVES XAVIER *
[1900 - ?]

Filho de Maria Augusta Baptista, Narciso Alves Xavier terá nascido em 1900, em Lisboa.

Empregado no comércio em Coimbra, foi preso nessa cidade em 15 de Fevereiro de 1932, acusado de ser simpatizante comunista e estar filiado no Núcleo Regional do Socorro Vermelho Internacional, a que aderiu por intermédio de José Augusto Frutuoso [Processo 308]. Ficou em liberdade condicional.

Narciso Alves Xavier foi novamente preso em 9 de Fevereiro de 1934, também em Coimbra, por estar «implicado nos acontecimentos revolucionários de 18 de Janeiro» [Processo 1011-C].

Foi libertado em 31 de Maio de 1934 por ter sido despronunciado pelo Tribunal Militar Especial.

Fonte:
ANTT, Cadastro Político 4716 [Polícia de Defesa Política e Social, Narciso Alves Xavier / PT-TT-PIDE-E-001-CX14_m0602].

[João Esteves]

sábado, 9 de novembro de 2019

[2183.] ADELINO FERREIRA MOREIRA [I] || PRESO EM 1930, 1932 E 1937-1938 (PÓVOA DO VARZIM)

* ADELINO FERREIRA MOREIRA *
[12/01/1908 - ?]

Preso em 1930, por estar envolvido em conspirações contra a Ditadura Militar, em 1932, acusado de pertencer ao Partido Comunista e integrar o Socorro Vermelho Internacional, e em 1937-1938.

[Assinatura de Adelino Ferreira Moreira || 26/03/1932 || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0251]

Filho de Maria das Dores Maia e de David Ferreira Moreira, Adelino Ferreira Moreira nasceu na Póvoa do Varzim em 12 de Janeiro de 1908.

Alfaiate, com residência na Póvoa do Varzim, Rua Elias Garcia - 70, foi preso, pela primeira vez, em 21 de Abril de 1930 «por estar implicado num movimento revolucionário em preparação, estando ligado a José Domingos Carvalheira e João dos Santos [...] todos da Artilharia 3» [ANTT, Cadastro Político 3951]. Entregue, em 8 de Maio, na Artilharia 3 «para lhe ser dado destino» [Processo 4565].

[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0249]

Preso pela Delegação do Porto da Polícia Internacional Portuguesa em 16 de Fevereiro de 1932, acusado de ser o organizador, na Póvoa do Varzim, do núcleo do Partido Comunista e do Socorro Vermelho Internacional, o que foi sempre negado por Adelino Ferreira Moreira [ANTT, Cadastro Político 3951]. Levado para o Aljube do Porto em 17 de Fevereiro do mesmo ano.


[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0250 e m0251]

Foi interrogado em 26 de Março de 1932 sobre a sua participação nos acontecimentos do 1.º de Maio do ano anterior na Póvoa e militância comunista.

Em 2 de Abril de 1932, foi proposto que «seja punido com o tempo de prisão já sofrida» [Processo 52/Porto], sendo «restituído à liberdade» [ANTT, Cadastro Político 3951; Processo 561/PIP - Porto].

Adelino Ferreira Moreira voltou a ser preso em 3 de Dezembro de 1937, para averiguações, pela Delegação do Porto da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado [Processo 1184/937]. Julgado pelo Tribunal Militar Especial em 17 de Agosto de 1938, foi condenado em 16 meses de prisão correccional e perda de direitos políticos por cinco anos. 

[Adelino Ferreira Moreira || ANTT || RGP/9029]

Libertado em 1 de Setembro de 1938 «por ter sido indultado» [ANTT, RGP/9029].

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 3951 [Adelino Ferreira Moreira / PT-TT-PIDE-E-001-CX05_m0143].

ANTT, Processo Crime de António Domingues Ferreira, Fernando Alves de Sousa e Ângelo Alves Ribeiro [PT/TT/PIDE-DP/D/001/5232] [Processo 52/1932].

ANTT, Registo Geral de Presos/9029 [Adelino Ferreira Moreira / PT-TT-PIDE-E-010-46-9029_m0063_derivada].

[João Esteves]

[2182.] DOMINGOS DA SILVA MARTINS [I] || MILITANTE COMUNISTA (1930-1932)

* DOMINGOS DA SILVA MARTINS *
[1909 - ?]

Militante do Partido Comunista e activista do Socorro Vermelho Internacional em Matosinhos.

[Assinatura de Domingos da Silva Martins || 26/03/1932 || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0254]

Filho de Arminda Carolina Martins e de António Justino Martins, Domingos da Silva Martins nasceu em Matosinhos, em 1909.

Empregado Comercial, residia no Porto, na Rua Brito Capelo n.º 544, quando foi preso pela Delegação do Porto da Polícia Internacional Portuguesa em 7 de Março de 1932 «por fazer parte do Socorro Vermelho Internacional» desde 1930 [ANTT, Cadastro Político 3950, ANTT, PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0252].

[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0252]

Segundo declarações por ele prestadas durante o interrogatório de 26 de Março de 1932, aderiu, em finais de 1930, ao Socorro Vermelho Internacional através de um padeiro que trabalharia em Águas Santas, pagando 1 escudo de quota mensal.

[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0253]

[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0254]

Domingos da Silva Martins aparece, ainda, referenciado como  tendo exercido «o lugar de secretário da zona comunista em Matosinhos» [ANTT, Cadastro Político 3950].

[Processo 52/1932 || Porto || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0262]

Em 2 de Abril de 1932, foi proposto que «seja punido com a prisão já sofrida» [Processo 52/Porto], sendo «restituído à liberdade» [Cadastro Político 3950].

Embora haja Domingos da Silva Martins, também de Matosinhos, preso em 8 de Dezembro de 1944 [ANTT, RGP/16142], não se trata da mesma pessoa. 

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 3950 [Domingos da Silva Martins / PT-TT-PIDE-E-001-CX08_m0684].

ANTT, Processo Crime de António Domingues Ferreira, Fernando Alves de Sousa e Ângelo Alves Ribeiro [PT/TT/PIDE-DP/D/001/5232] [Processo 52/1932].

[João Esteves]

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

[2181.] ADALBERTO PINTO DE OLIVEIRA [I] || MILITANTE COMUNISTA (1927-1932)

* ADALBERTO PINTO DE OLIVEIRA * 
[1912 - ?]

Organizador das Juventudes Comunista no Porto a partir de 1927 e activista do Socorro Vermelho Internacional (1927-1932).

[Assinatura de Adalberto Pinto de Oliveira || 09/03/1932 || ANTT || PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0083]

Filho de Cristina Bessa Oliveira e de António Pinto de Oliveira, nasceu em 1912, em Vila Meã - Amarante.

Empregado comercial no Porto, onde vivia na Rua dos Caldeireiros, 181, Adalberto Pinto de Oliveira foi preso os 20 anos pela Delegação do Porto da Polícia Internacional Portuguesa em 16 de Fevereiro de 1932, por estar «filiado no Partido Comunista Português e Socorro Vermelho Internacional» [ANTT, Cadastro Político 3931] ou, segundo o Processo Crime que o envolveu, «por ser secretário do C. L. da J. C. P. e S. V.» [ANTT, PT-TT-PIDE-DP-D-001-5232_m0071].


Segundo declarações prestadas nos interrogatórios efectuados no Porto pela Polícia de Informações em 17 de Fevereiro, 18 de Fevereiro e 9 de Março de 1932, teria sido aliciado há cerca de quatro anos pelo sapateiro José Silva para integrar uma célula das Juventudes Comunistas no Porto. O encontro ter-se-ia realizado no café Águia de Ouro, local onde se reuniam outros filiados naquela organização, como Anastácio Ramos [Anastácio Gonçalves Ramos, ANTT, RGP/382] e Basílio Tavares.

[José da Silva || Memórias de um operário || 2 volumes || 1971]

Posteriormente, segundo Adalberto Pinto de Oliveira, realizou-se uma reunião na Associação dos Alfaiates, na Avenida Saraiva de Carvalho, comparecendo José Ruas Ferreira [foi um dos primeiros jovens a ser assassinado pela Polícia na via pública, quando participava num comício-relâmpago organizado pela Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas no Largo de Alcântara, em 4 de Setembro de 1932, para celebrar o Dia da Juventude], manipulador de pão, José Silva e Manuel de Oliveira [ANTT, Cadastro Político 3935], cortador de carnes verdes.

Ter-se-á formado, então, uma célula das Juventudes Comunistas: Manuel de Oliveira, Secretário, recebendo a correspondência de Lisboa; Adalberto Pinto de Oliveira, Secretário Administrativo; e José Ruas Ferreira, vogal.

Numa segunda reunião, também realizada na Associação dos Alfaiates, tratou-se da quotização e de se dar «andamento à organização de diversas células», tendo comparecido um outro elemento, levado por Manuel de Oliveira.

Esta organização não terá tido mais do que seis filiados: Adalberto Pinto de Oliveira, João Rodrigues Viegas, José Ruas Ferreira, Manuel de Oliveira e dois outros apresentados por este último.

Com a prisão de José Silva, Adalberto Pinto de Oliveira teria sido procurado por Joaquim Rodrigues, fiscal da Bolsa Agrícola, para o incumbir de «fazer um relatório circunstanciado do estado em que se encontrava a organização das Juventudes Comunistas», o que se concretizou.

Seguidamente, apareceu Mário [Eurico] Moutinho [ANTT, Cadastro Político 3930], empregado bancário, convidado por Rodrigues Lopes, para organizar as Juventudes Comunistas no Porto.

Ficou, então, organizado o Comité Local das Juventudes Comunistas, formado por, Adalberto Pinto de Oliveira [Missão Sindical], António Domingues Ferreira [ANTT, Cadastro Político 3923], estudante [Organização Académica], Manuel [Alves] Valente [Imprensa] e Mário Moutinho [Secretário], tendo havido cinco ou seis reuniões no Café Monumental.

O dinheiro para as despesas provinha da quotização dos filiados, mantendo-se correspondência com o Comité Central das Juventudes Comunistas, através do qual se recebia impressos, propostas, boletins de inscrição e o "Jovem Militante". Com a prisão de António Domingues Ferreira, a organização ficou paralisada.

Adalberto Pinto de Oliveira confirmou que integrou o Socorro Vermelho Internacional, através de José Silva, pagando 1 escudo por mês, juntamente com António Domingues Ferreira, Manuel Viana Ribeiro [ANTT, Cadastro Político 3933 e ANTT, RGP/421], que recebia as quotizações, e Raul Martins, guarda de segurança n.º 298.

Foi, ainda, convidado por Apolino Leite de Aragão, que conheceu em finais de Novembro de 1931 na Associação dos Empregados do Comércio do Porto, para integrar uma comissão visando a fusão da União dos Empregados do Comércio do Porto com a Phoenix Portuense dos Empregados do Comércio. António Maria Pedro Cordeiro [ANTT, Cadastro Político 3934], Apolino Leite de Aragão e Raul da Costa Dias formaram a Comissão. 

Adalberto Pinto de Oliveira assinou o relatório do Comité Local do Porto com o nome Adão Vasco. Por sua vez, José Augusto da Fonseca Moutinho usou o nome Domingos Dias dos Santos e Joaquim Rodrigues o de J. R. Mafra.



Em 2 de Abril de 1932, foi proposto que Adalberto Pinto de Oliveira fosse «punido com a prisão já sofrida» [Processo 52/Porto], sendo «restituído à liberdade» [Processo 561, da PIP].

Desconhece-se o percurso posterior de Adalberto Pinto de Oliveira. No entanto, em Setembro de 1974, foi concedida em Espanha a nacionalidade por residência a um português com o mesmo nome.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 3931 [Adalberto Pinto de Oliveira / PT-TT-PIDE-E-001-CX05_m0124].

ANTT, Processo Crime de António Domingues Ferreira, Fernando Alves de Sousa e Ângelo Alves Ribeiro [PT/TT/PIDE-DP/D/001/5232] [Processo 52/1932].


[João Esteves]

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

[1630.] PEDRO BATISTA DA ROCHA [II]

* MILITANTE DAS JUVENTUDES COMUNISTAS E DO PARTIDO COMUNISTA || ACTIVISTA DO SOCORRO VERMELHO INTERNACIONAL || PRESO POLÍTICO || COMBATENTE DA GUERRA CIVIL DE ESPANHA || PASSAGEM PELOS CAMPOS DE INTERNAMENTO EM FRANÇA E DE TRABALHO NA ALEMANHA NAZI || EXILADO *


O percurso político de Pedro Rocha é invulgarmente rico e complexo, tendo abrangido quase todo o período da Ditadura Militar, Salazarista e Marcelista.

Filho de Hermínia do Carmo Batista e de António José da Rocha, músico militar preso por estar envolvido na Revolta Republicana de 31 de Janeiro de 1891, no Porto, Pedro Baptista da Rocha nasceu em 25 de Julho de 1912, em Lisboa. 

[Escrito com paixão || Caminho || 1991]

Filho único, frequentou o Liceu Gil Vicente cujo ambiente, associado à influência familiar em torno dos ideais da República, muito contribuiu para a sua adesão à luta contra a Ditadura Militar e militância comunista, onde usou os pseudónimos de "Helder", de "Osvaldo" e de "José Pedro da Rocha".


Segundo as suas memórias, intituladas Escrito com paixão [Caminho, 1991], com 18 anos era já membro das Juventudes Comunistas, onde trabalhou directamente com Francisco Paula de Oliveira e, depois, com Fernando Quirino. 


Detectado e procurado como activista comunista desde 1932, Pedro Rocha desempenhou ainda trabalho partidário, entre outros, com Álvaro Duque da Fonseca, Carolina Loff da Fonseca, Cassiano Nunes Diogo e Júlio dos Santos Pinto. Em 1933, integrou o Secretariado Político das Juventudes Comunistas.

Foi, simultaneamente, activista do Socorro Vermelho Internacional em Lisboa e, posteriormente, encarregado da sua reorganização no Alentejo e Algarve.

Preso, pela primeira vez, em 23 de Julho de 1933, juntamente com Rodrigo Ollero das Neves [n. 27/06/1906], na casa da Rua Bernardim Ribeiro, 57, 4.º, foi julgado pelo Tribunal Militar Especial em 22 de Janeiro de 1934 e condenado a dezoito meses de prisão correccional e perda dos direitos políticos por dois anos, sendo libertado em 27 de Janeiro do ano seguinte.

Voltou a ser preso, "para averiguações", em 16 de Maio de 1936 e libertado em 26 do mesmo mês.

Em 1937, dando seguimento ao apelo do Partido Comunista para que militantes e simpatizantes se juntassem às forças republicanas de Espanha, Pedro Rocha partiu para aquele país, via França, chegando à Catalunha depois de uma atribulada e tormentosa viagem, tendo atravessado os Pirenéus a pé. 

[Diário de Lisboa || 9 de Setembro de 1983 || p. 5]

Em Espanha, manteve contactos estreitos com os portugueses Caetano João, César de Almeida, Jaime de Morais, Manuel Roque, Mário Reis, Miguel Ramos, Óscar Morais e Utra Machado, entre outros. Aí também se cruzou com Luís António Soares, pai de Pedro Soares, seu camarada das Juventudes Comunistas.

Concluído o curso na Escola de Artilharia N.º 2, em Lorca, perto de Valência, foi promovido a tenente de artilharia e, em 30 de Outubro de 1938, passou a capitão.

[Diário de Lisboa || 9 de Setembro de 1983 || p. 5]

Em Fevereiro de 1939, juntamente com Jaime Cortesão, Jaime de Morais, Mário Fernandes e outros portugueses, saiu de Espanha e começou a prolongada passagem pelos campos de internamento franceses e, em meados de 1941, durante um ano, esteve em campos de trabalho na Alemanha.

Regressou a Portugal em 1942, sendo preso, "para averiguações", em 4 de Dezembro de 1943, enviado para o Aljube e libertado em 19 de Janeiro de 1944.

Nesse mesmo ano, em Maio, partiu para Angola, onde continuou a ser vigiado e perseguido pela PIDE.


Partiu, então, para Brazaville e aí trabalhou, durante 14 anos, como locutor da RTF. Em fins de 1959, fixou-se no Brasil, trabalhando no Estado de São Paulo.

Logo que eclodiu a Revolução de 25 de Abril, ofereceu, por carta, os seus préstimos profissionais ao Movimento das Forças Armadas, não tendo obtido qualquer resposta.

Em 1976, ao fim de 28 anos de exílio e de 43 de militância antifascista, regressou a Portugal.

João Varela Gomes, em artigo publicado no Diário de Lisboa de 9 e 10 de Setembro de 1983, dá amplo destaque ao percurso político de Pedro Rocha, inserindo documentação sua enquanto participante na Guerra Civil de Espanha.

[Varela Gomes || "A derrota" || DL, 09/09/1983]

[João Esteves]