[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
Mostrar mensagens com a etiqueta Octávio Pato. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Octávio Pato. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

[2722.] JAIME SERRA || 1921 - 2022

* JAIME DOS SANTOS SERRA *

[21/01/1921 - 09/02/2022]

[Jaime Serra || F. 29/03/1949 || ANTT || RGP/19050 || PT-TT-PIDE-E-010-94-19050_P2]

Filho de pais de origem camponesa idos do Pezinho, Concelho do Fundão, para Lisboa, Jaime dos Santos Serra nasceu em 22 de Janeiro de 1921, num quarto em Alcântara, onde a família passou a viver. 

O pai, Jaime Eleutério Serra, trabalhador rural, empregou-se na capital como descarregador de mar e terra e militou no movimento sindical, tendo em casa literatura anarquista e a coleção do jornal A Batalha. Poucos anos depois, mudou-se de Alcântara para o Caramão da Ajuda, junto ao Cemitério, onde comprou um terreno e construiu uma "barraquinha de madeira", posteriormente revestida, por fora, a tijolo, dedicando-se, então, ao negócio ambulante de roupas. 

No final da década de 1920, na sequência de um acidente com a carroça e subsequente operação, faleceu, deixando viúva Ana dos Santos, de 39 anos, com cinco filhos pequenos a cargo, a mais nova com menos de dois anos.

Jaime Serra, com nove anos, continuou na escola de forma a concluir a instrução primária e, nas horas vagas, ajudava, tal como os irmãos, a mãe nas vendas. Concluída aquela, foi trabalhar no Barreiro, na construção das novas oficinas da C.P., onde assistiu, em 1933, a uma greve contra a prisão pela PVDE de um sindicalista e à tentativa da greve de 18 de Janeiro de 1934. 

Aos 14 anos, por questões económicas, começou a trabalhar como servente na construção civil e, em 1935/1936, mudou-se do Barreiro para a Cruz Quebrada, devido às obras na fábrica de fermentos holandeses.

No trajeto diário entre o Caramão da Ajuda e a Cruz Quebrada assistiu, em 8 de Setembro de 1936, à revolta dos marinheiros e ao seu trágico desfecho mediante o bombardeamento dos navios a partir do Forte do Alto do Duque. Terminada a obra, passou pelo desemprego, aproveitando para frequentar diariamente a Biblioteca de Alcântara.

Passou a colaborar com o Socorro Vermelho Internacional e a militar na Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, sendo Alfredo Dinis o controleiro da zona Ajuda/Alcântara. Teria 15 anos e foi através deste que foi para a Construtora Moderna, em Pedrouços, com cerca de 2000 operários, e se matriculou na Escola Industrial Marquês de Pombal, vindo a trabalhar como traçador de construção civil e, depois, naval.

Preso, pela primeira vez, em Janeiro de 1937, quando ainda tinha 15 anos, na sequência da distribuição do Avante! num sábado à noite. Apanhado numa rusga da PSP, seguiu para a Esquadra da Ajuda e, depois, para o Governo Civil, onde permaneceu cerca de um mês e seria espancado, o que o marcou quanto ao futuro político e prisional.

Entre 1940 e 1947, trabalhou como traçador naval no Arsenal do Alfeite, beneficiando das aprendizagens na Escola Marquês de Pombal e da experiência na traçagem de construções metálicas, nomeadamente dos pavilhões para a Exposição do Mundo Português. No novo emprego, estreitou-se o contacto com o Partido Comunista, envolveu-se na constituição de uma Comissão de Trabalhadores, responsável pela elaboração de um Caderno Reivindicativo, e controlou a Célula local quando tinha 19 anos. Continuava, entretanto, a frequentar a Escola Industrial Marquês de Pombal, mesmo quando esteve dois anos na tropa, na Artilharia1, em Campolide.

Integrou, em 1947, o Comité Local de Lisboa do Partido Comunista, juntamente com António Dias Lourenço, o controleiro, Américo de Sousa e José Maria do Rosário, e esteve envolvido na greve das construções navais de Lisboa e Margem Sul de Abril desse ano, tendo de passar à clandestinidade. Era já casado, tinha uma filha e montou uma casa clandestina no Alto de S. João, na Rua Dom Fuas Roupinho.

Manteve intensa atividade relacionada com a campanha presidencial de Norton de Matos e em 27 de Março de 1949, aos 28 anos de idade e com duas filhas, foi preso na rua e a casa assaltada pela PIDE. O pseudónimo era, na altura, José da Silva, mantendo, assim, as iniciais do nome verdadeiro. A companheira também foi presa e libertada devido a ter as crianças com ela, indo para casa de família.

Passou pela tortura da estátua e do sono durante oito dias, seguida de seis meses incomunicável no Aljube, numa cela de 2 metros por 1 metro e meio, com um bailique que se levantava durante o dia, sem nunca prestar quaisquer declarações.

Do Aljube seguiu para Peniche, onde participou nas lutas greves de fome e recusas por melhores condições de alimentação e de dormida. Daí, fugiu em 3 de Novembro de 1950, juntamente com Francisco Miguel: através de uma janela gradeada, serrada um pouco todos os dias, subiram para o terraço da fortaleza e, com uma corda, desceram pelo lado do mar. 

Enquanto o camarada de fuga foi apanhado, por se terem cruzado com um guarda da Fortaleza que os reconheceu, Jaime Serra conseguiu chegar a Mafra ao fim de três dias a caminhar a pé, sempre de noite, escondendo-se de dia no mato.

Retomou os contactos partidários que tão bem conhecia, pois controlava a Organização de Lisboa, e voltou à luta. Teve mais dois filhos, sendo que a mais velha e o mais novo acabaram por ir para a União Soviética, para a Escola Internacional de Ivanovo. Laura, a companheira, não mais foi presa e manteve-se na clandestinidade até ao 25 de Abril de 1974.

Em 1951-1952, esteve no sector das Beiras, responsável por 5 distritos, que percorria de quinze em quinze dias numa bicicleta motorizada: Coimbra, Aveiro, Viseu, Guarda e Castelo Branco. Em 1952, foi eleito para o Comité Central e, em 27 de Fevereiro de 1954, foi preso pela terceira vez.

Tentou fugir do Aljube em 1955, mas a fuga só se concretizaria em Caxias, em 3 de Março de 1956. Contou, sempre, com apoio familiar, tendo a PIDE, como represália, prendido os irmãos durante três meses: "a minha irmã esteve sempre com as janelas pregadas em Caxias". 

Voltou a controlar Lisboa, integrou o Secretariado e esteve na Comissão Organizadora do Congresso de 1957, onde apresentou um relatório sobre a política anticolonial, proclamando o direito à autodeterminação e independência das colónias, bem como ajuda à formação de movimentos de libertação.

Preso em 8 de Dezembro de 1958, pela quarta e última vez, no Porto, aonde se dirigiu devido a detenções, quando já integrava o Secretariado do Comité Central. Transferido no dia seguinte, para Lisboa, voltou a fugir de Peniche em 3 de Janeiro de 1960, com Álvaro Cunhal e outros dirigentes.

Mais uma vez, voltou à luta antifascista, nunca vivendo fora do país, a não ser quando cumpria missões partidárias, como no caso da fuga de Agostinho Neto por via marítima.

Integrou, entre 1962 e 1970, a Comissão Executiva do Comité Central, desempenhando tarefas fundamentais, como o controlo do aparelho de tipografias, controlo do aparelho de Fronteiras e da redação do Avante!, para além das ligações com o exterior e com as cadeias, enviando e recolhendo informações.

Entre 1970 e 1974, tornou-se  o responsável pela constituição e intervenção da ARA - Ação Revolucionária Armada, considerada uma organização autónoma que integrava comunistas e simpatizantes.

No 25 de Abril de 1974, habitava uma casa clandestina nos arredores de Lisboa e, com Álvaro Cunhal e Octávio Pato, constituiu a delegação que se reuniu com o general Spínola na Cova da Moura em nome do Partido Comunista Português.

Sempre discreto, manteve-se como dirigente e militante do Partido Comunista. Nos últimos 20 anos, escreveu vários testemunhos sobre as suas vivências políticas, individuais e coletivas, falecendo com 101 anos de idade, em 9 de Fevereiro de 2022. 

[Dados recolhidos da entrevista de Miguel Medina a Jaime Serra, Esboços - Antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo, vol. 2, CML, 2001]

[João Esteves]

sábado, 13 de novembro de 2021

[2613.] MARIA DA CONCEIÇÃO RODRIGUES PATO [II] || 1900 -1984

* MARIA DA CONCEIÇÃO RODRIGUES PATO *

[27/10/1900 - 13/03/1984]

[Maria Pato || Fotografia in Elas estiveram nas prisões do fascismo || URAP || 2021]

Vinte e cinco anos a caminho das prisões fascistas

Maria da Conceição Rodrigues Pato nasceu em S. João dos Montes, Vila Franca de Xira, em 27 de Outubro de 1900, casou com João Floriano Baptista Pato [26/06/1895 - 14/12/1983] e era mãe de Carlos Alberto [21/12/1920 - 26/06/1950], Abel [n. 09702/1922], João e Octávio Floriano Rodrigues Pato  [01/04/1925 - 19/02/1999], “sogra” de Albina Fernandes [05/01/1929 - 02/10/1970] e avó de Álvaro Pato (n. 1950), todos militantes comunistas que passaram anos e anos presos, sofrendo  bárbaras torturas. 

Foi a mulher que mais tempo caminhou para as prisões fascistas para ver aqueles familiares, presos, em simultâneo ou de forma continuada, a partir da década de 40: segundo palavras do neto Álvaro, "percorreu milhares de quilómetros a andar de cadeia para cadeia". 

Em 1974, em conversa com a jornalista Gina de Freitas, publicada em 25 de Setembro de 1974 no Diário de Lisboa, contou o que foram “30 anos de sofrimento”, entre Maio de 1949 e Abril desse ano, a partir do momento em que a PIDE prendeu o filho Carlos, morto em Caxias depois de barbaramente torturado com 130 horas de estátua e sem lhe prestarem assistência médica, apesar das insistências dos outros presos, tendo guardado “uns sapatos dele, todos rebentados devido a ter ficado muito inchado por causa das torturas” [A força ignorada das companheiras, p. 30]. 

Depois detiveram Abel, empregado bancário, no Aljube, entre 16/11/1953 e 12/02/1954, para ver se denunciava o irmão Octávio, na clandestinidade desde 1945; de seguida, em 1961, calhou a vez a este e a Albina Fernandes, sua companheira, serem detidos com os dois filhos pequenos em Caxias; e, por último, em 1973, foi o neto Álvaro, preso em 25 de Maio, sendo libertado de Caxias em 27 de Abril de 1974. 

[Elas estiveram nas prisões do fascismo || URAP || 2021]
[Na capa, fotografia prisional de Albina Fernandes que recusou ser separada do filho Rui, então com apenas dois anos]

Como confessou a Gina de Freitas, "a minha vida foi um pesadelo", sendo "uma das grandes vítimas do monstruoso regime que durante 48 anos amordaçou e apavorou tanta e tanta gente do nosso país" [Gina de Freitas].

Faleceu em 13 de Março de 1984.

[João Esteves]

terça-feira, 15 de junho de 2021

[2584.] ELAS ESTIVERAM NAS PRISÕES DO FASCISMO || URAP - JUNHO DE 2021

 * ELAS ESTIVERAM NAS PRISÕES DO FASCISMO *

 1755 MULHERES PRESAS (1926-1974)

URAP || JUNHO DE 2021

Na capa, fotografia prisional de Albina Pato, tendo o seu filho Rui, então com dois anos, ao colo

Albina Pato [1929 - 1970] foi detida em 15 de dezembro de 1961, no mesmo dia que o companheiro Octávio Pato [01/04/1925 - 19/02/1999], embora em locais diferentes. 

Sem ter a quem os confiar, levou os filhos Isabel (filha de Antónia Joaquina Monteiro) e Rui Pato (filha de Albina), de seis e dois anos, e manteve-os junto de si em Caxias: deitava-os no único divã e “descansava de joelhos no chão e com as mãos agarradas aos pulsos deles, para que não lhos tirassem” [A Forças Ignorada das Companheiras, p. 30], segundo descrição da própria a Maria Rodrigues Pato, a quem entregou os netos. 

Julgada em 17 de novembro de 1962, no mesmo dia de Octávio Pato, e condenada “na pena de prisão maior, na variável de 3 anos, na fixa de suspensão de direitos políticos durante quinze anos e no mínimo de Imposto de Justiça e na medida de segurança de internamento de seis meses a três anos prorrogável” [“Biografia Prisional”], acabou por permanecer seis anos e sete meses na Cadeia de Caxias. 

Em Novembro de 1966, numerosos cidadãos assinaram uma petição a solicitar a sua libertação, atendendo a ter já cumprido a pena a que tinha sido condenada e ao debilitado estado de saúde em que se encontrava. 

Só lhe foi concedida a liberdade condicional em 9 de Julho de 1968 e solta em 11, depois de devidamente fotografada. 

Suicidou-se em 2 de outubro de 1970, com apenas 41 anos de idade, situação denunciada pela Circular n.º 6, de 23 de outubro de 1970, da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. 

A mesma Comissão, em telegrama enviado ao Presidente do Conselho Marcelo Caetano e subscrito, entre outros, por Cecília Areosa Feio, Maria Eugénia Varela Gomes e Sophia de Mello Breyner Andresen, responsabilizou diretamente o Governo pelo “trágico acontecimento consequência não só longa prisão sofrida condições desumanas como cruel expectativa quanto à situação seu marido Octávio Rodrigues Pato preso há nove anos cumprindo agora medidas de segurança”.

Sofia Ferreira [10/05/1922 – 22/04/2010] responsabilizou o conhecido médico da PIDE José Godinho Gama Barata pelo falecimento precoce, por não lhe ter prestado “nenhuma assistência, apesar de ter sido testemunha visual de inúmeras crises nervosas e psíquicas que ela teve na prisão”; Maria Eugénia Varela Gomes, sua companheira de cela, em conversa com Manuela Cruzeiro, referiu a forma impiedosa como os filhos pequenos e a mãe foram tratados na cadeia.

[João Esteves]

domingo, 5 de janeiro de 2020

[2242.] ANTÓNIO GERVÁSIO [I] || PRESO EM 1947, 1960 E 1971

* ANTÓNIO JOAQUIM GERVÁSIO *
[N. 25/02/1927]

Filho de uma família pobre, militante do Partido Comunista desde 1945, preso três vezes (1947, 1960 e 1971), espancado em tribunal e barbaramente torturado pela PIDE, sofrendo a tortura do sono durante cerca de 400 horas aquando da última prisão, em 1971, António Gervásio foi um principais activistas da reivindicação das oito horas de trabalho para os operários agrícolas do Sul, conquista histórica alcançada em 1962, e um dos obreiros da Reforma Agrária após Abril de 1974.

[António Gervásio || 1947 [?] || in Histórias da Clandestinidade || Edições Avante!, 2016]

Filho mais velho de Josefa Maria Vedoria e de Francisco José Gervásio, um casal muito pobre de assalariados agrícolas com oito filhos, António Joaquim Gervásio nasceu em 25 de Fevereiro de 1927, em Montemor-o-Novo, no Monte da Regadia [a ficha prisional indica como data de nascimento 10 de Março].

Não frequentou a Escola e só aos 14 anos, quando já trabalhava, pôde aprender a ler. Em 1945, mal feitos os 18 anos, aderiu ao Partido Comunista por intermédio de José Adelino dos Santos, assassinado anos mais tarde, em 23 de Junho de 1958, pela GNR. Começou por distribuir o Avante! e a destacar-se nas comissões de unidade criadas nas praças de jorna.

Preso, pela primeira vez, na noite de 14 de Junho de 1947, ano em que começava a estar muito activo na reivindicação das 8 horas para os operários agrícolas, «por aliciamento às greves rurais». Na sequência de uma greve às ceifas, reivindicando-se 30 escudos diários para os homens e 20 para as mulheres, António Gervásio, que integrava os comités de greve e preparava-se para participar num plenário / reunião alargada de ceifeiros, perto da Torre da Gadanha, seria detido pela GNR. Foram presos os primeiros dez trabalhadores a chegar e levados para o posto de Montemor. Interrogado pela Guarda e, depois, pela PIDE, todo o grupo foi levado para Caxias, onde ficou cerca de cinco meses, desde 17 de Junho a 20 de Novembro: António Jacinto Patrão; António Joaquim Gervásio; António Vicente Calção; Custódio Joaquim Sequeira; Ernesto Joaquim Gomes; Jacinto Joaquim Vidigal; José Cabecinha; José Manuel Roque; Luís José Patrão.

Condenado, em 10 de Novembro de 1947, juntamente com os restantes companheiros, a cinco meses de prisão pelo Tribunal Plenário da Boa-Hora, António Gervásio saiu em liberdade em 20 de Novembro por a pena já estar cumprida.

Chamado para a inspecção militar quando estava preso, iniciou, no ano seguinte, o cumprimento dos 16 meses do serviço militar, assentando praça no Quartel de Infantaria 16, em Évora, tendo continuando com as ligações partidárias. Apesar de não ser o seu intento inicial, regressou a Montemor-o-Novo e, na sequência da ofensiva pidesca na zona, com a prisão de dezenas de militantes comunistas, António Gervásio destacou-se na reorganização partidária local.

[António Gervásio || Histórias da Clandestinidade || Edições Avante! || 2016]

Tornou-se funcionário do Partido Comunista e entrou na clandestinidade em 1952, juntamente com a mulher, Maria Lourença Calção Cabecinha [n. 1933], e o filho recém-nascido, tendo sido convencido a vencer a natural indecisão, depois de dois anos de muita reflexão, pelos dirigentes comunistas Américo Leal e Octávio Pato.

Utilizou, durante os 22 anos de clandestinidade, o mesmo pseudónimo: Lemos. Os primeiros tempos da clandestinidade foram vividos em casas diferentes de Évora, passando, depois, por casas de muitas outras localidades a Sul do Tejo. Participou, então, na organização das lutas do proletariado agrícola e desfiles contra os períodos longos de desemprego, além tarefas de ligação ao MUD Juvenil.

Depois de ter funções partidárias nos distritos de Évora e Portalegre, passou, com alguma preocupação, para o de Beja, onde viria a ser preso pela PIDE em 8 de Agosto de 1960, aquando da terceira deslocação à cidade.

[António Gervásio || 09/08/1960 || ANTT || RGP/17678 || PT-TT-PIDE-E-010-89-17678]

Levado para a sede local da PIDE, seria nesse mesmo dia transportado para a António Maria Cardoso, «onde será barbaramente interrogado, sujeito a espancamentos, 'estátua' e tortura do sono» [Luís Godinho, O Alentejo e a Luta Clandestina: António Gervásio um Militante Comunista, Edições Colibri, 2019, p. 56]. Torturado pela primeira vez, não prestou quaisquer declarações e ficou no Aljube cerca cinco meses e meio incomunicável, em isolamento total. Voltou a ser barbaramente torturado na sede da PIDE e devolvido ao Aljube sem «ser capaz de me manter em pé» [p. 61], sendo transferido para Caxias em 31 de Janeiro de 1961.

Aquando do julgamento no Tribunal da Boa Hora, em 4 de Maio, usou da palavra para denunciar as torturas que lhe tinham sido infligidas, sendo ali mesmo espancado.

Condenado a três anos e meio de prisão maior, mais medida de segurança de internamento indeterminado, de seis meses a três anos, prorrogável, regressou a Caxias ensanguentado e com equimoses.

Em 4 de Dezembro de 1961, integrou o grupo de oito dirigentes do Partido Comunista que fugiram de Caxias no Chrysler blindado oferecido por Hitler a Salazar, conduzido por António Tereso: António Gervásio, Domingos Abrantes, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Ilídio Esteves, José Magro e Rolando Verdial.

António Gervásio retomou, novamente, a clandestinidade, instalando-se no Barreiro. 

Desde 1957 que era um dos activistas na luta pela conquista das oito horas nos campos do Sul, retomando-a após a fuga, com reuniões minuciosamente preparadas, decisões amplamente discutidas entre os operários agrícolas das mais diversas localidades e conseguindo abranger os ranchos vindos de fora, greves, manifestações e protestos. Esta reivindicação, muito antiga, recomeçou a ganhar forma naquele ano e culminou nas greves marcadas para o 1.º de Maio de 1962 e a subsequente vitória do fim do trabalho de sol a sol: «Era a primeira vez na história que os trabalhadores agrícolas saíam de casa com sol e regressavam com sol. [...] tinham deixado de ser bichos da noite.» [Luís Godinho, p. 96].

[Maria Lourença Calção Cabecinha || in Teresa Fonseca, A Memória das Mulheres. Montemor-o-Novo em tempo de ditadura || Edições Colibri, 2007]

Na sequência do sucesso das lutas em que se envolvera, passou, em 1963, a pertencer ao Comité Central do Partido Comunista. Com documentação falsa, saiu de Portugal pela zona de Chaves e fez um curso de formação política na União Soviética, país onde permaneceu cerca de um ano. Quando de regresso ao país, soube que a sua mulher fora presa, assim permanecendo por quase cinco anos e meio: de 12 de Abril de 1964 a 12 de Setembro de 1969.

A viver em Lisboa e com responsabilidades na estrutura partidária no Ribatejo e Oeste, a terceira prisão de António Gervásio aconteceu em 31 de Julho de 1971, na Marinha Grande, vítima de dois militantes do Comité Local que tinham passado a colaborar com a PIDE quando presos.

[António Gervásio || 03/08/1971 || ANTT || RGP/17678 || PT-TT-PIDE-E-010-89-17678]

Levado para o Reduto Sul de Caxias, onde a PIDE já realizava as suas torturas, foi submetido à tortura do sono durante 18 dias e 18 noites. Em 10 de Dezembro de 1971 foi transferido para Peniche. 


[António Gervásio || 03/08/1971 || ANTT || RGP/17678 || PT-TT-PIDE-E-010-89-17678]

Julgado pelo Tribunal Plenário de Lisboa em 22 de Fevereiro de 1972, seria condenado na pena global de 11 anos e 8 meses e medida de segurança de seis meses a três anos, prorrogável. 

[António Gervásio a sair de Peniche || 27/04/1974 || Fotografia de Ezequiel Santos]

Na sequência do 25 de Abril de 1974, os 36 presos do Forte de Peniche começaram a ser libertados às duas horas e trinta minutos da madrugada de 27, contando-se, entre eles, António Gervásio, então com 47 anos. É o recomeço de outras lutas, em liberdade, destacando-se na implementação e defesa da Reforma Agrária, uma reivindicação política antiga do Partido Comunista e uma aspiração dos trabalhadores agrícolas que nada tinham: «a terra a quem a trabalha».

Fontes:
ANTT, Registo Geral de Preso 17678 [António Joaquim Gervásio /  PT-TT-PIDE-E-010-89-17678].

António Gervásio, Histórias da Clandestinidade, Edições Avante!, 2016.

Luís Godinho, O Alentejo e a Luta Clandestina: António Gervásio um Militante Comunista, Edições Colibri, 2019.

[João Esteves]

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

[2211.] CARLOS ALBERTO RODRIGUES PATO [III] || CARTA DE ANTÓNIO GUERRA - 1974

* CARLOS PATO *
[1920 - 1950] 

"CARTA ABERTA A OCTÁVIO PATO" 

ANTÓNIO GUERRA || DIÁRIO DE LISBOA || 24 DE AGOSTO DE 1974

[Diário de Lisboa || 24/08/1974]

domingo, 1 de dezembro de 2019

[2200.] ÁLVARO MONTEIRO RODRIGUES PATO [I] || MUSEU DO ALJUBE - 4 DE DEZEMBRO

* ÁLVARO PATO *

[Álvaro Pato]

MUSEU DO ALJUBE || VIDAS NA RESISTÊNCIA 

CONVERSA CONDUZIDA POR ANA ARANHA || 4 DE DEZEMBRO DE 2019 || 16 HORAS


Falar de Álvaro Pato é reviver décadas de luta antifascista, marcadas pela dor, sofrimento, resistência e coerência política ímpar, mas serve, também, para constatar a impunidade, após 1974, dos que prenderam, torturaram e mataram durante 48 anos.

                [Octávio Pato]                [Antónia Joaquina Monteiro]

Filho de Antónia Joaquina Monteiro e de Octávio Floriano Rodrigues Pato [01/04/1925 - 19/02/1999], ambos militantes do Partido Comunista, Álvaro Monteiro Rodrigues Pato nasceu em Março de 1950, quando os pais estavam na clandestinidade.

[Carlos Pato]

Quando nasceu, o tio, Carlos Pato [Carlos Alberto Rodrigues Pato (21/12/1920 - 26/06/1950)], igualmente militante do Partido Comunista, estava preso em Caxias e não tardaria a morrer devido às violentas torturas sofridas às mãos da PIDE, deixando uma filha e um filho muito pequenos, respectivamente com 20 e 7 meses. 

Como os riscos eram muitos e, com apenas dezasseis meses, Álvaro Pato passou a viver com os avós paternos [Maria da Conceição Rodrigues Pato (n. 1900) e João Floriano Baptista Pato (26/06/1895 - 14/12/1983)], em Vila Franca de Xira, sendo que a avó foi a mulher que, entre 1949 e 1974, mais anos passou a caminho das prisões fascistas para visitar os filhos, a nora ou o neto.

[Maria da Conceição Rodrigues Pato || Diário de Lisboa || 25/09/1974]

Aos nove anos, Álvaro reencontrou-se, fugazmente, com o pai num encontro clandestino preparado na Nazaré; voltou a ver a mãe somente aos treze, quando ela lhe apareceu junto à casa dos avós paternos.

[Abel Rodrigues Baptista Pato || 20/11/1953 || ANTT || RGP/21381 || PT-TT-PIDE-E-010-107-21381_m0367]

Em 1961, com a prisão do pai e da companheira, Albina Fernandes [05/01/1929 - 02/10/1970], Álvaro Pato, um rapazito de 11 anos, iniciou as suas caminhadas semanais a Peniche e a Caxias para os ver, acompanhando o tio Abel [Abel Rodrigues Baptista Pato, chegou a estar preso no Aljube em finais de 1953, inícios de 1954], a avó Maria, o avô João e os (novos) irmãos Isabel e Rui. Visitas que se prolongaram por muitos anos, nove, até à libertação do pai, chegando, nas férias, a estar acampado 15 dias no parque de campismo de Peniche, para o poder visitar com mais frequência, muito contribuindo para o estreitamento dos laços afectivos (e também políticos) entre os dois.

[Albina Fernandes]

Entretanto, Álvaro Pato começou a participar na secção cultural da União Desportiva Vila-franquense, onde conheceu, por exemplo, Vítor Dias, e por volta dos dezasseis anos ingressou no Partido Comunista.  

Passou pela Escola Machado de Castro e, em 1968, entrou no Instituto Industrial, também em Lisboa, tendo feito parte da direcção da Associação, entretanto encerrada pelas autoridades académicas, o que provocou greves às aulas e a prisão de vários colegas. A viver num quarto em Lisboa, foi avisado pelos avós que a GNR o tinha procurado com um mandado de captura e passou a viver numa semi-clandestinidade, sustentando-se como desenhador através de projectos de construção civil que Álvaro Veiga de Oliveira [25/01/1929 - 24/08/2006] lhe entregava.

Em Outubro de 1970, Albina Fernandes suicidou-se, cabendo a Álvaro Pato dar a notícia ao pai e ao irmão Rui.

Mobilizado para a tropa em 1971, desertou em Abril de 1972 por estar em vias de ser enviado para a Guiné, já que era «politicamente suspeito», informação dada por um alferes, comandante de pelotão. Entrou, então, na clandestinidade, chegando a reencontrar o pai, também na clandestinidade, numa reunião política ocorrida no Porto em Outubro de 1972. Passou a ser António Gomes da Silva, segundo o forjado documento de identificação.


[Álvaro Pato || in Joana Pereira Bastos, Os últimos presos do Estado Novo, Oficina do Livro, 2013, p. 135]

Em 25 de Maio de 1973, quando tinha por tarefa a organização, na Margem Sul, de um movimento de jovens trabalhadores, foi preso num autocarro apanhado em Coina, devido a denúncia do jovem com quem se ia encontrar: Silvano, com dezoito anos, era, afinal, informador da PIDE. 

Seguiu, primeiro, para a delegação da PIDE em Setúbal, onde não prestou quaisquer declarações. Levado para Caxias, e apesar da recusa em se identificar, foi reconhecido por um guarda do tempo em que visitava a companheira do pai, Albina Fernandes.

Começaram as torturas, tendo a do sono perdurado por 11 dias e 11 noites. Não falou. Quando presente a Tribunal Militar, devido à deserção, ousou  denunciar os maus-tratos que a PIDE lhe tinha infligido, o que teve por consequência ser espancado no regresso à prisão.

Libertado em 27 de Abril de 1974, tinha à sua espera a mãe: "Não trocaram uma palavra. Abraçaram-se a chorar, durante largos minutos" [Joana Pereira Bastos, Os últimos presos do Estado Novo, Oficina do Livro, 2013, p. 135].

[Álvaro Pato || in Joana Pereira Bastos, Os últimos presos do Estado Novo, Oficina do Livro, 2013, p. 135]

Recuperar a liberdade não é sinónimo de remeter para o passado os espancamentos e as torturas infligidas pela PIDE. Esses momentos nunca se apagam, continuam alojados na memória e no corpo. Sempre. Por tudo isto, é necessário falar sobre o que foram 48 anos de ditadura. E é das suas vivências, muitas delas dolorosas, que Álvaro Pato, provavelmente, conversará nesta quarta-feira, 4 de Dezembro, no Museu do Aljube, com Ana Aranha.

[João Esteves]

domingo, 12 de janeiro de 2014

[0467.] ALBINA FERNANDES [PATO] [II] || DEFESA DE OCTÁVIO PATO (1962)

* ALBINA FERNANDES [PATO] *

[1929-1970]

* Intervenção de Octávio Pato [01/04/1925 - 19/02/1999] no Tribunal Plenário de Lisboa em Novembro de 1962 *

   [...]

    [...]
[A Defesa Acusa || Edições Avante! || 1975]

domingo, 5 de janeiro de 2014

[0442.] MARIA DA CONCEIÇÃO RODRIGUES PATO [I] || 1900 - 1984


* Uma vida de resistência a caminho das prisões políticas salazaristas * 
[1949-1974] 

Casada com João Floriano Baptista Pato, Maria Rodrigues Pato nasceu em outubro de 1900. 

Mãe de Abel, Carlos Alberto (21/12/1920 - 26/06/1950) e Octávio Floriano Rodrigues Pato (1925-1999), “sogra” de Albina Fernandes (1929-1970) e avó de Álvaro Pato, militantes comunistas. 

Foi a mulher que mais tempo caminhou para as prisões fascistas para ver aqueles familiares, presos, em simultâneo, ou de forma continuada, a partir da década de 40: segundo palavras do neto Álvaro, "percorreu milhares de quilómetros a andar de cadeia para cadeia". 


[pp. 27-31]

Em 1974, em conversa com a jornalista Gina de Freitas, publicada a 25 de setembro de 1974 no Diário de Lisboa, contou o que foram “30 anos de sofrimento”, entre maio de 1949 e abril desse ano, a partir do momento em que a PIDE prendeu o filho Carlos, morto em Caxias depois de barbaramente torturado com 130 horas de estátua e sem lhe prestarem assistência médica, apesar das insistências dos outros presos, tendo guardado “uns sapatos dele, todos rebentados devido a ter ficado muito inchado por causa das torturas” [A força ignorada das companheiras, p. 30]. 

Depois detiveram Abel, empregado bancário, para ver se denunciava Octávio Pato, na clandestinidade desde 1945; de seguida, em 1961, calhou a vez a este e a Albina Fernandes, sua companheira, serem detidos com os dois filhos pequenos em Caxias; e, por último, em 1973, foi o neto, preso onze meses e um dia, sendo libertado de Peniche em 26 de abril de 1974. 
[João Esteves]

* Júlia Coutinho, no blogue As Causas da Júlia, insere a fotografia de Maria Rodrigues Pato, assim como a respectiva entrevista publicada no Diário de Lisboa *