[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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sábado, 18 de dezembro de 2021

[2646.] GUILHERME DA COSTA CARVALHO [II] || NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO (1921 - 2021)

 * GUILHERME DA COSTA CARVALHO *

[11/06/1921 - 24/03/1973]

GUILHERME DA COSTA CARVALHO - EVOCAÇÃO DE UM REVOLUCIONÁRIO

DORP || Edições Avante! || Dezembro de 2021


Edição comemorativa do centenário do nascimento de Guilherme da Costa Carvalho [11/06/1921 - 24/03/1973], militante do Partido Comunista desde o tempo de estudante da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e que, entre 1945, quando entrou na clandestinidade, e 1973, ano da sua morte prematura, exactamente com a mesma idade da mãe, passou mais de metade do tempo preso, totalizando 16 anos e meio de cativeiro por motivos políticos, passando pelo Aljube, Caxias, Peniche e Campo de Concentração do Tarrafal.

[Guilherme da Costa Carvalho, à esquerda, a embarcar com destino ao Tarrafal || Porto de Leixões - 18/09/1949]

Preso em 1948, 1959, 1960 e 1963, participou nas fugas históricas de Peniche (1960) e Caxias (1961). A última prisão deu-se em 7 de Maio de 1963 e só seria libertado ao fim de nove anos, em 16 de Fevereiro de 1972, já muito doente, falecendo no ano seguinte.

Se esta edição evoca, através de diversa documentação, o militante comunista, eleito para o seu Comité Central em 1957 e 1965, e antifascista, nomeadamente através da carta para os pais, datada de 21 de Julho de 1949, onde pede, insistentemente, que agradeçam, pessoalmente, a todos os que se dispuseram a testemunhar a seu favor, dá, simultaneamente, o retrato do "homem generoso, íntegro, de grande coragem, culto, sensível, preocupado sempre com o rigor" [p. 10].

Contando com o apoio incondicional dos pais, que o acompanharam em todas as detenções e o visitaram no Tarrafal, estabelecendo um vínculo entre os restantes presos políticos e as suas famílias, esta "Evocação de um revolucionário", organizada pela Direção da Organização Regional do Porto do Partido Comunista, inclui, ainda, o manuscrito Relâmpagos do meu coração, datado de 1967, livro que reúne 42 poemas escritos no Aljube e dedicados à mãe, Herculana de Jesus da Costa Dias de Carvalho [23/12/1900 - 16/05/1952], e à avó materna, Maria Custódia da Costa [17/06/1875 - 20/06/1959].

O "homem tranquilo, ameno, atencioso", que "falava serenamente, a olhar nos olhos  e escutava com muita atenção" é, também, recordado por Herculana Rosa Diogo de Carvalho, sua filha, no escrito "Meu Pai": 

"Adorava estar com as pessoas, atento a todos e delicado com cada um. Tinha um sentido de humor apurado que usava com o coração e os olhos a brilhar de malandrice, afecto e prazer. Nunca o vi alterado, zangado ou crispado. Nunca o ouvi queixar-se mesmo estando a morrer" [p. 59].

Guilherme da Costa Carvalho não conheceu a Liberdade e foi um dos muitos presos políticos que seria libertado para, pouco depois, morrer. 

Tinha, apenas, 51 anos de idade!

Na capa, fotografia de Guilherme da Costa Carvalho no Tarrafal, tirada pelo seu pai, Luís Alves de Carvalho, aquando da deslocação àquele Campo de Concentração. 



Luís Carvalho tirou, então, fotografias, individuais ou em grupo, a todos os outros presos políticos, tendo, no regresso ao Continente, visitado, com a mulher, as suas famílias, a quem entregou esses registos.

[João Esteves]

domingo, 3 de janeiro de 2021

[2455.] A FUGA DE PENICHE || 3 DE JANEIRO DE 1960

 * 3 DE JANEIRO DE 1960 *

A FUGA DO FORTE DE PENICHE DE 10 DIRIGENTES DO PARTIDO COMUNISTA

[Gravura de Margarida Tengarrinha]

Em 3 de Janeiro de 1960, fugiram do Forte de Peniche dez dirigentes do Partido Comunista: 

1. Álvaro Cunhal [Fotografia de 25/03/1949]

2. Carlos Costa [F. 17/06/1953]

3. Francisco Martins Rodrigues [F. 31/01/1966]

4. Francisco Miguel [F. 09/07/1947]

5. Guilherme da Costa Carvalho [F. 15/11/1960] 

6. Jaime Serra [F. 03/01/1955]

7. Joaquim Gomes [F. 20/01/1959]

8. José Carlos [F. 25/03/1972]

9. Pedro Soares [F. 24/01/1959]

10. Rogério de Carvalho [F. 21/01/1966]

1.2.

3.4.

5.6.

7.8.

9.10.

A fuga contou com a ajuda/colaboração do guarda prisional José Jorge Alves.

Coube a José Dias Coelho e a Margarida Tengarrinha "documentar" com Bilhetes de Identidade todos os fugitivos, o que foi concretizado na "Oficina de Falsificações", então situada em Linda-a-Velha.

Neste processo, José Dias Coelho deslocou-se às diferentes casas onde estavam alojados os fugitivos para os fotografar.

[João Esteves]

sábado, 24 de outubro de 2020

[2411.] JOSUÉ MARTINS ROMÃO [I] || HOMENAGEM A HERCULANA DE CARVALHO - 29/10/1976

 * SÍNGELA HOMENAGEM À MULHER DOS ANTIFASCISTAS PRESOS NO TARRAFAL *

Intervenção de Josué Martins Romão [13/04/1918 - 30/10/2006] na sessão evocativa dos 40 anos da entrada dos primeiros presos políticos no Campo de Concentração do Tarrafal, promovida pela URAP na Voz do Operário em 29 de Outubro de 1976.

[Josué Martins Romão || Alverca || 29 de Outubro de 1976]

«Se é porventura verdadeiro que em muitas centenas de presos que passaram longos anos no Campo de extermínio do Tarrafal foram todos apenas homens, poderá à partida, pressupor-se que lhe cabe por inteiro e em exclusivo todo o cortejo de sofrimento. Nada mais ilusório porquanto, sabemo-lo bem, em muitíssimos aspectos, a nossa mulher penou bem mais.

Agora que estamos em condições de fazer um balanço do processo requintado e cientificamente estudado de nos liquidarem a todos; que sentimos bem na pele quão monstruoso e implacável é o fascismo, somos levados a concluir que as mulheres nossas mães, nossas companheiras, nossas irmãs e até simples namoradas, embora, na aparência, em “liberdade”, sofreram, as que não estavam conscientemente formadas politicamente, infinitamente mais que nós – presos no Tarrafal. Pensarmos nós o que não representa de dor, de ansiedade, de sofrimento atroz, estar dias, meses, e casos houve que até anos, sem saber nada, absolutamente nada do seu ente querido?! Não há dúvida que todas tiveram a sua quota parte de incomensurável sofrimento. E que dizer então da Mulher nossa Mãe!?...

Nos longos anos que passámos no Tarrafal (nós dezasseis anos completos e outros houve que lá estiveram dezoito) apenas tivemos uma visita. E, caso curioso, foi a Mãe de um companheiro nosso (que vive na nossa memória como um símbolo de coragem, de abnegação, de amor ao próximo): - HERCULANA DA COSTA CARVALHO.

Mulher operária, da indústria têxtil, onde trabalhou de tenra idade atá aos dezoito anos de idade. Com o casamento passa à classe burguesa, onde os problemas de dinheiro deixam de existir. Entretanto nasce-lhe o filho. Este cresce. Chega a frequentar o 1.º e 2.º anos de engenharia e precisamente por ser um homem dotado de inteligência, de qualidades morais excepcionais ingressa na luta antifascista e é preso passados poucos meses de se lançar na luta. Sem julgamento, sem culpa formada enviam-no de pronto para o Tarrafal.

O nazi-fascismo, por essa altura, começava já a desmoronar-se. No Campo de Morte Lenta, nós, os que para lá fomos de início, e que até então vivemos no mais completo isolamento do que se ia passando pelo mundo, começamos a partir daqui a ter certas e determinadas regalias que até então nos estavam inteiramente vedadas.

Quis a sorte que este amigo e grande combatente antifascista fizesse anos logo após poucas semanas de ali chegar. Não menos sorte tivemos que a Mãe desse bom e grande amigo Guilherme da Costa Carvalho tivesse meios suficientes e levasse à prática os planos que arquitectou. Estar junto do filho amado no próprio dia em que ele fazia vinte anos. Descrever todos os obstáculos que esta Mãe teve de enfrentar, desde a respectiva autorização para a visita, ao fretar um avião, com um mínimo de segurança, ao barquinho de cabotagem da ilha do Sal para a ilha de Santiago (onde nos encontrávamos) era, porventura, só por si, uma epopeia digna de registo à parte. Mas a grandeza maior desta excepcional Mulher não se limitou só à visita ao filho. Mal abraçou o filho e de imediato, um a um, todos os companheiros dignos da sua qualidade de presos antifascistas, esta mulher, como que a pedir-nos desculpa da sua ousadia, propôs-nos isto:

“- Amigos! A alegria, como deveis calcular, que eu sinto neste momento é imensa. Poderá, talvez, interpretar-se como egoísmo de Mãe estar hoje aqui presente. Mas ao vê-los a todos sinto-me como que envergonhada ao lembrar-me das vossas mães, das vossas companheiras, enfim, de todos os vossos familiares que jamais poderão ter a sorte que eu tive, enquanto aqui permanecerem. Peço-vos, do coração, que me forneçam uma lista com os vossos nomes e respectivas moradas de vossos familiares lá na terra…”

Do Algarve ao Minho, nos lugares mais recônditos (onde para lá chegar se tem que ir com o credo na boca) havia familiares de presos. Pois esta Mulher extraordinária, esta Mulher símbolo da Mulher dos antifascistas presos, a todos os familiares espalhados pelo Continente contemplou com amor, num gesto a todos os títulos imorredoiro. Mais, ao verificar a miséria porque muitas delas passavam, de ver a imensa dor e privações porque todas passavam sentiu o que todos nós, aliás, sentimos ao termos pleno conhecimento dos factos: - Que o nosso mau passadio, embora durante longos anos numas condições em que o pior não era morrermos mas conservarmos vivos, comparado com aquele quadro que se lhe deparou lhe pareceu infinitamente menor. Só que nós havíamo-nos lançado conscientemente na luta, acontecesse o que acontecesse. Elas, Mulheres, na sua quase totalidade, só porque eram mães, companheiras ou irmãs. Pelo SEU único amor eram capazes das proezas arrojadas. 

No dia em que o MEU (egoisticamente falando) se transformar no colectivo NOSSO, a Mulher, companheira do homem, será, sem sombra de dúvida, uma força e um poderoso meio de acabarmos de uma vez para sempre com os explorados e os exploradores.

Glória, pois, à Mulher antifascista!!!

Alverca, 29 de Outubro de 1976

a) Josué Martins Romão»

[João Esteves]

domingo, 18 de outubro de 2020

[2409.] LUÍS ALVES DE CARVALHO [II] || DESLOCAÇÃO AO TARRAFAL EM DEZEMBRO DE 1949

 * LUÍS ALVES DE CARVALHO *

[15/12/1899 - 1978]

[Porto, 22/06/1974 || Pormenor de uma fotografia de Sérgio Valente || Sérgio Valente. Um fotógrafo na revolução || Edições Afrontamento || 2015]

Pai de Guilherme da Costa Carvalho, a ele se deve um enorme reconhecimento pela solidariedade e generosidade que sempre demonstrou para com os presos políticos, ajudando-os no que podia, mesmo depois de libertados.

Foi o autor do levantamento fotográfico de todos os deportados para o Tarrafal quando, em Dezembro de 1949, juntamente com a mulher, se deslocou ao Campo de Concentração para visitar o filho.

Escreve-se, geralmente, sobre Herculana e Guilherme da Costa Carvalho, mas não se pode esquecer o que Luís Alves de Carvalho fez pelo filho e por todos os presos políticos até 1974.

Filho de Luísa de Azevedo ou Luísa de Jesus [15/07/1876 - 11/11/1966], natural do Porto, e de José Alves de Carvalho [01/04/1867 - 06/06/1954], natural de Celorico de Basto, Luís Alves de Carvalho nasceu em 15 de Dezembro de 1899.

Concluiu o Curso Comercial, foi contabilista da primeira cooperativa de táxis existente no Porto e, mais tarde, ligou-se à Banca, sendo corrector de fundos públicos da Bolsa do Porto durante quase cinquenta anos [Lúcia Serralheiro, "Herculana de Jesus da Costa Dias Carvalho", Dicionário no Feminino (Séculos XIX-XX), 2005].

Conhecido corretor da cidade do Porto, procurou, em conjunto com a mulher, minorar o sofrimento do filho sempre que este estava preso, contribuindo, também, para ajudar todos os outros presos que se encontravam na mesma situação daquele.

Devido às suas influências, foi possível ao casal visitar Guilherme da Costa Carvalho quando este estava preso no Campo de Concentração do Tarrafal, a única visita que os Tarrafalistas receberam e que nunca esqueceram, e deveu-se muito a Luís Alves de Carvalho a ideia e o custeamento do Mausoléu aos 32 resistentes antifascistas que ali morreram erigido no Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa.

A correspondência trocada entre Virgínia Moura e António Lobão Vital refere, por diversas vezes, a solidariedade exemplar do casal Herculana e Luís Alves de Carvalho, sendo que, mesmo presa, Virgínia Moura procurou dar o apoio possível a este quando enviuvou em maio de 1952: "Querido António, se ainda não escreveste ao senhor Luís de Carvalho, peço-te muito muito que o faças rapidamente. É muito nosso amigo e por isso merece ser tratado por nós com todas as deferências. Ele escreveu-te logo ao outro dia do funeral da esposa. Mesmo nos momentos dolorosíssimos que passou, nunca nos esqueceu. É bem uma prova a carta que te escreveu. Eu tenho-lhe escrito." [carta de VM a ALV datada de 28 de Maio de 1952, Manuela Espirito Santo, Tem cuidado, meu amor. Cartas da prisão de Virgínia Moura e António Lobão Vital, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 2015]

[Fotografia completa prontamente disponibilizada por Sérgio Valente, a quem muito se agradece. Atrás, Albertina Diogo Carvalho, a nora que, tal como Guilherme da Costa Carvalho, também conheceu a prisão e a tortura durante a ditadura. Também estão na fotografia Raul de Castro, Hernâni Silva, Carlos Costa, Óscar Lopes e  Diamantino]

[João Esteves]

[2408.] FERNANDO VICENTE [II] || FOTOGRAFIA NO TARRAFAL - 23/12/1949

 * FERNANDO VICENTE *

Fotografia no Tarrafal, datada de 23 de Dezembro de 1949, disponibilizada por Ana Vicente, sua filha.


Guilherme da Costa Carvalho [1921-1973], militante e dirigente do Partido Comunista, foi preso em Outubro de 1948 e, depois de passar pelo Aljube, Caxias e Peniche, seria deportado para o Tarrafal em Setembro de 1949.

Seus pais, Herculana [1900 - 1952] e Luís de Carvalho [1899 - 1978], conseguiram autorização para o visitar, deslocando-se ao Tarrafal num paquete, desembarcando em Dezembro de 1949. Aí, Luís Alves de Carvalho foi autorizado a fotografar os presos políticos, tendo Herculana de Jesus abraçado cada um como se fossem todos seus filho.

No regresso, o casal visitou cada uma das suas famílias, entregando-lhes, num acto solidário e de enorme generosidade e despreendimento, fotografias dos entes queridos.

Nesta fotografia, datada de 23 de Dezembro de 1949, está, entre outros, Fernando Vicente (o segundo a contar da direita para quem vê de frente), tendo Herculana e Luís de Carvalho deslocado-se à aldeia de Paul, Torres Vedras, para a entregar às irmãs.

Agradece-se a Ana Vicente, filha de Fernando Vicente, a generosidade com que disponibilizou esta fotografia de enorme valor afectivo.

Fernando Vicente, 2.° artilheiro, militante do Partido Comunista e um dos reorganizadores, em 1936, da Organização Revolucionária da Armada, foi dos presos que mais tempo permaneceu encarcerado no Tarrafal (29 de Outubro de 1936 a Junho de 1953), o que muito contribuiu para o seu falecimento precoce aos 50 anos de idade [24/04/1914 - 22/01/1965].

Apesar de tudo o que passou, no regresso voltou à militância política possível, continuando a ser um nome muito respeitado e honrado na sua terra.

[João Esteves]

sábado, 4 de janeiro de 2020

[2241.] A FUGA DE CAXIAS [I] || 4 DE DEZEMBRO DE 1961

* A FUGA DE CAXIAS || 1961 *

Em 4 de Dezembro de 1961, oito dirigentes do Partido Comunista fugiram de Caxias no Chrysler blindado oferecido por Hitler a Salazar, conduzido por António Tereso: António Gervásio, Domingos Abrantes, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Ilídio Esteves, José Magro e Rolando Verdial.

No dia 6, o Diário de Lisboa inseriu na primeira página uma pequena Nota do Dia, intitulada "O Segredo de Polichinelo".


[Diário de Lisboa || 6 de Dezembro de 1961]

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

[2240.] A FUGA DE PENICHE || 3 DE JANEIRO DE 1960

* A FUGA DE PENICHE || 1960 *

Em 3 de Janeiro de 1960, fugiram do Forte de Peniche dez dirigentes do Partido Comunista: Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério de Carvalho.

No dia 7, o Diário de Lisboa inseria, na primeira página, uma pequena notícia relativa à fuga desses presos: 


[Diário de Lisboa || 7 de Janeiro de 1960]

[João Esteves]

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

[2005.] A FUGA DE PENICHE || 3 DE JANEIRO DE 1960

* 3 DE JANEIRO DE 1960 *

A FUGA DO FORTE DE PENICHE DE 10 DIRIGENTES DO PARTIDO COMUNISTA:

Álvaro Cunhal || Carlos Costa || Francisco Martins Rodrigues || Francisco Miguel || Guilherme da Costa Carvalho || Jaime Serra || Joaquim Gomes || José Carlos || Pedro Soares || Rogério de Carvalho

[Gravura de Margarida Tengarrinha]

A fuga contou com a ajuda/colaboração do guarda prisional José Jorge Alves.

Gravura de Margarida Tengarrinha, baseada num esboço de Álvaro Cunhal.

Coube a José Dias Coelho e a Margarida Tengarrinha "documentar" com Bilhetes de Identidade todos os fugitivos, o que foi concretizado na "Oficina de Falsificações", então situada em Linda-a-Velha.

Neste processo, José Dias Coelho deslocou-se às diferentes casas onde estavam alojados os fugitivos para os fotografar.

domingo, 10 de abril de 2016

[1428.] GUILHERME DA COSTA CARVALHO [I] || 1921 - 1973

* GUILHERME DA COSTA CARVALHO *
[1921 - 1973]

[Porto || Março de 2016]

[Fotografia retirada, com a devida vénia, do Blogue Antifascistas da Resistência e que contém dados biográficos, da autoria de Helena Pato]

Filho de Herculana de Carvalho e de Luís Alves de Carvalho, ambos inscritos na Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, Guilherme da Costa Carvalho esteve preso, entre outros locais, no Campo de Concentração do Tarrafal, Peniche e Caxias, tendo-se evadido destas duas últimas fortalezas em, respetivamente, janeiro de 1960 e dezembro de 1961. 

[Avante! || 15 de Dezembro de 2011]

Membro do Partido Comunista e, durante anos, do seu Comité Central, totalizou 16 anos e seis meses de cativeiro e faleceu em 1973, com apenas 51 anos, idade com que morrera a sua mãe, ambos vítimas de doença oncológica.

Publica-se o comunicado que a Comissão Distrital do Porto do Movimento Nacional Democrático distribuiu aquando do embarque de Guilherme da Costa Carvalho para o Tarrafal e que se encontra no livro de José Silva, Memórias de um operário [Porto, 1971].









[José Silva || Memórias de um operário || 2.º volume || Porto, 1971]

domingo, 2 de agosto de 2015

[1047.] ANTÓNIO BORGES COELHO] [II] || ENTREVISTA DE CÉSAR AVÔ


* ENTREVISTA DE CÉSAR AVÔ A BORGES COELHO PUBLICADA NO JORNAL SOL EM 1 DE JULHO DE 2015 *

«Aos 86 anos, o historiador lança o quinto volume da sua História de Portugal - Os Filipes e trabalha já no próximo. Desculpa para ouvirmos um vulto da Cultura falar não só sobre a História de Portugal, mas também da sua, da descoberta de Marx em Murça através de um pedreiro à prisão em Peniche, da primeira experiência nos jornais à entrada na Faculdade de Letras, dez anos depois de Raízes da Expansão Portuguesa ter feito furor e sido censurado.

Em Os Filipes há algum dado que tenha destapado?
Tem uma estrutura bastante diversificada e que partiu dos factos, uns mais conhecidos, outros menos, uns propositadamente esquecidos e fundamentais que ficaram no limbo e agora foram postos em relevo. Por exemplo, a resistência dos Açores aos Filipes durante três anos é conhecida, mas praticamente poucos portugueses, excepto os açorianos, terão consciência disso. Foi uma resistência terrível. Também não sendo uma novidade, subestima-se o que foi a repressão em Lisboa e o assalto espectacular à capital pelo exército do duque de Alba e pela esquadra do marquês de Santa Cruz. E fala-se na monarquia dual, mas não era nada, era o projecto da monarquia católica universal. É evidente que o elemento que sustentava essa guerra era o ouro e a prata produzidos na América espanhola. Há livros fundamentais e a História de Portugal dirigida por Damião Peres em 1940 tem grandes colaboradores e está em muitos aspectos inteiramente válida hoje.

Pensava que era datada, típica do Estado Novo.
É uma visão nacionalista, mas tem alguns autores que não perderam a actualidade na História política. Nos últimos anos tem havido uma subestimação da História Política. Nenhum autor, sobretudo isolado, pode abarcar toda a vastíssima informação que houve no passado. Também não é necessário lê-la toda, mas a mais significativa. Não é por deitar pedras daqui da janela que provo a lei da atracção universal. Já está provada. Não se pode é ignorar a História Política. Os homens fazem a História e herdam um passado. Foi assim e não assado porque intervieram, quer colectivamente, quer individualmente. O historiador tem de estar envolvido na política, não pode estar a sachar cebolas e se não acompanha o movimento colectivo não compreende os documentos que lhe aparecem à frente.

Voltando ao livro, há pormenores muito interessantes, como os falsos sebastiões.
É curioso e mostra como aquilo que alguns autores falaram da identidade hispânica e que se davam todos muito bem, ao nível popular, caramba, houve uma reacção que atingiu proporções… Oliveira Martins exagerou ao dizer que Portugal acordou com as bofetadas da França e de Inglaterra. Houve apoios e interesses dos ingleses e dos franceses, mas houve participação popular.

O livro demonstra muitas mudanças de posição.
Não é só hoje. Se hoje fizermos um retrato dos políticos no 25 de Abril e agora há mudanças do arco-da-velha.

Cita muito uma fonte, Pero Roiz Soares, que tem um estilo muito romanceado. É totalmente crível?
A literatura não é inimiga da História. Fernão Lopes, João de Barros ou Alexandre Herculano são grandes escritores. A História não é uma linguagem matemática. Utilizo esta fonte que tem sido completamente ignorada, mas ela é confirmada por uma série de outras fontes. Ele faz um relato fantástico sobretudo de Lisboa num período determinante para a História dos Filipes. 

Qual foi o grande erro da dinastia filipina? Não transformar Lisboa na capital do reino?
Isso é entrar muito nos 'ses'. Um dos 'ses' fundamentais é que a grande burguesia foi expropriada. Quem são as principais vítimas da Inquisição? A grande burguesia portuguesa e a que emigrou para Espanha e outros locais e à qual não lhe era permitida o desenvolvimento. Os que se mantiveram cá punham os capitais nos inimigos de Espanha. O grande problema é a derrota do projecto filipino, no final da Guerra dos Trinta Anos, com o Tratado de Vestfália que é a vitória da Europa do Norte, e a derrota do Papado e da monarquia habsburga. Isso de a capital ser Lisboa, especula-se, é uma coisa tradicional. Se tivesse acontecido seria mais difícil a Restauração, indiscutivelmente.

Disse que a História política é subestimada. Revê-se na corrente de Fernand Braudel?
Foi uma grande corrente. Eu fui sempre muito individualista. Se for ver as minhas referências vai ler que me põem sempre como marxista e nem sequer sabem o que li. Tive muita honra e muito orgulho em ler Marx, mas li muitos outros filósofos e muitos outros contemporâneos. A História não se faz através da ideologia, faz-se a partir dos factos e há ferramentas que são específicas da História. Pode-se dizer que Marx me influenciou no sentido de olhar para as pessoas? Sim, e todo o mundo contemporâneo. Há um autor contemporâneo por quem tenho uma admiração especial, o Eric Hobsbawm, que tem uma obra fantástica, A Era dos Extremos, e que é uma época mais difícil trabalhar, que é a época contemporânea. Agora menos, mas durante anos tinha sempre um livro de filosofia à cabeceira. Podia ser de um pré-socrático, podia ser dos dois filósofos que mais estudei na minha vida, Espinosa e Leibniz. Marx influenciou-me na minha vida política, o que não quer dizer que só falo depois de pedir opinião ao Marx. 

Revê-se hoje em Marx?
Considero um livro como o primeiro volume de O Capital uma obra admirável. Para achar que tem razão em tudo? Não pode ser esse o espírito de leitura, que é a leitura crítica. Se me perguntar pelo Manifesto Comunista, está actual? Há coisas que estão actuais, outras não. O tempo amarelece as folhas.

Poria a pergunta de outra forma. Revê-se na aplicação do marxismo na política?
Isto vai escandalizar os meus amigos: a aplicação do marxismo é a introdução de um certo espírito religioso na política. Aceito que na política haja certos autores como modelos. Mas não vou pedir licença ao autor tal para aprovar uma certa lei. Temos de partir da realidade viva e temos instrumentos de pensamento e aí entra Marx e entram outros autores. E entra tudo o que foi o final do século XIX e o século XX. E quando entra tudo, meus amigos, temos de deitar a mão à cabeça e confessar que correu de uma forma… enfim, não quero mais falar sobre isso.

Quando é que Marx entrou na sua vida?
Muito cedo, tinha eu uns 17 anos, em Trás-os-Montes. 

Não devia ser um autor muito lido em Murça.
Saí do seminário convencido de que ia para o Inferno, mas a achar que antes isso do que continuar ali. Acabei por ser expulso. Saí quase com dificuldade em falar com as pessoas. Depois tornei-me muito amigo de um sobrinho do Militão Ribeiro, um grande militante comunista, e um mártir do fascismo, a expressão que lhe cabe é essa. E foi através de um pedreiro que li o Manifesto Comunista, numa tradução espanhola. Tinha escondido numa lata do quintal várias obras e disse-me: 'Ó senhor Toninho, leia que vai gostar'. E de facto gostei, é um texto político fantástico.

Saiu do seminário porquê?
Sentia-me enclausurado. Disseram-me que perdi a vocação e que esse pecado, segundo o confessor, era imperdoável. O que até nem é correcto do ponto de vista religioso, porque todo o pecado é perdoável. Os nossos Descobrimentos foram fertilíssimos em pecados perdoáveis. Não sei se a consciência tinha aguentado tanto pecado mundo fora (risos).

Esteve lá quantos anos?
Cinco. Saí quando terminou a guerra, 1945. No quinto ano não estudei e escrevi uma História da Literatura Grega e Latina e queria ir embora. Estava a pensar fugir, mas acabei expulso.

Como vem parar a Lisboa?
Concorri a Direito e vim fazer o exame de admissão. Foi com o pretexto de que vinha estudar, mas já na altura tinha ideias revolucionárias, e a família não queria que viesse. Cheguei a Lisboa e não tinha dinheiro. Tive o apoio de estudantes de Medicina, que me matavam a fome e vivi no quarto de um conterrâneo. Só três meses depois consegui arranjar emprego. 

Lisboa abriu-lhe os horizontes.
As eleições presidenciais e a faculdade também abriram… Entrei no MUD Juvenil.

Quem era a sua referência na altura?
O Carlos Aboim Inglez, que era meu colega de ano e de curso, e que me introduziu no MUD Juvenil. E um médico radiologista, que ainda hoje é vivo, que me matriculou em Histórico-Filosóficas porque desisti de Direito. Fiz o primeiro ano, depois vivi como membro do MUD Juvenil como quadro clandestino até ser chamado para funcionário do Partido Comunista durante meio ano.

Preferiu Lisboa a Coimbra, porquê?
Na minha terra não andavam na universidade sequer dez pessoas. Andava o meu irmão que era filho de uma lojista e de um guarda-fios, e depois havia os filhos dos senhores agrários e grandes comerciantes. Iam geralmente para Coimbra, para as estúrdias, era isso que atraía. Lisboa abria a porta para o mundo. E eu já tinha vivido em Lisboa durante dois anos. Os meus pais fixaram-se entre o largo do cemitério do Alto de São João e a Graça. A minha mãe abriu uma espécie de mercearia e o meu pai trabalhava como guarda-fios.

Por que voltaram para Murça?
A minha mãe tinha pequenas propriedades e havia diferenças no casal por causa disso. E o meu pai conseguiu ser colocado em Murça. Já antes tinha ajudado na construção das linhas da zona de Aveiro. O meu irmão mais velho foi gerado nessa linha (risos). A minha mãe voltou à terra e ficou muito conservadora, muito católica apostólica romana. Só no fim da vida é que ficou cheia de dúvidas.

E quanto a si, é crente?
Não. Houve coisas muito positivas na Igreja portuguesa e outras extremamente negativas. Respeito muito os homens da Igreja actual e ex-colegas meus. Por outro lado, em relação ao destino do homem, tenho a noção clara de que somos bocadinhos de nada no universo. A mitologia das religiões intelectualmente não me diz nada. Percebo, mas estou perto do Espinosa, quando escreveu que são instrumentos teórico-práticos de obediência. Sem ritual não há religião, não há crença. Eu mantenho algumas coisas. Às vezes gosto de cantar o cantochão. Gosto, é belo, acalma-me. Tive uma batalha muito grande para me libertar, tive conflitos e problemas gravíssimos na minha vida, mas esse não aflora.

É ateu?
Se lhe dermos o significado do Deus das religiões positivas, nesse sentido sou ateu. Tenho ternura por Jesus Cristo. Tive este sentimento ao longo da vida, gosto dos Salmos, não propriamente da História do povo de Israel. Agnóstico também não sou, porque significa que sobre este tema tenho dúvidas e se calhar o Deus de Israel existe e vai julgar-me. Essa conversa não é para mim. Há pessoas que têm necessidade de acreditar nos símbolos, etc., eu compreendo, tudo bem. Mas foram utilizados para fins nada brilhantes, como é o caso da Nossa Senhora de Fátima. Não brinquem comigo, vão lá com os três pastorinhos.

Acha que foi uma fraude?
Está provado pela documentação. Mas dirão: a razão não chega, a crença nasce do sentimento. No meu tempo houve uma segunda Nossa Sra. de Fátima em Trás-os-Montes. Não eram três pastorinhos, mas uma pessoa que tinha as chagas de Cristo. Um dia juntaram-se 50 mil pessoas e viram o sol a mudar de cor. Só que era gente a mais, uma concorrência muito grande para Fátima. E a senhora veio para a penitenciária de Coimbra. Esteve lá uma semana e continuou com as chagas. Proibiram as freiras de visitá-la, não chegou o nitrato de prata e as chagas acabaram. O padre e o médico seu irmão estavam na base de tudo isso.

Voltando atrás. Quem era o seu controleiro no MUD juvenil?
Era o Dias Lourenço, foi o homem da mais audaciosa fuga de Peniche. E tive um outro, Guilherme de Carvalho, que esteve no Tarrafal, era filho de um banqueiro e é sogro de outro banqueiro, o Pina Moura.

Esteve preso na mesma altura que Álvaro Cunhal?
Estive dois anos com o Cunhal em Peniche. 

Foi logo para lá quando foi preso?
Não. Fui preso em Janeiro de 56 e estive meio ano nas celas do Aljube. Depois fui para Caxias, e daí fui levado em Dezembro para o Porto, onde fui julgado no processo do MUD Juvenil. O processo demorou cerca de sete meses, com sessões de manhã, à tarde, e algumas à noite, com 52 réus jovens e dois adultos, que eram o Óscar Lopes e um advogado. Fui condenado a dois anos e nove meses.

Peniche era a mais dura das prisões?
Claro que era. Era um regime celular, cada um na sua cela. Havia quatro faxinas diárias, limpeza, varrer, lavar a loiça e por vezes descascar a batata. Quando não havia castigo uma hora de recreio e havia uma hora à tarde, no refeitório, em que podíamos escrever à família, ler e fazer perguntas por intermédio do guarda: 'Ó senhor guarda, posso perguntar?'. Era este o regime que melhorou ligeiramente pouco antes da fuga. Houve um grande movimento internacional e uma visita de personalidades estrangeiras à prisão. Então deixaram entrar um gira-discos e as perguntas tornaram-se mais simples, mas de resto tudo na mesma.

Conversava com Álvaro Cunhal?
Cifrado. Tínhamos uma linguagem própria. Havia determinadas palavras que não eram as autênticas. No recreio o guarda estava sempre no meio e dizia 'Fale mais alto que eu também quero ouvir'. Mas nós tínhamos a voz treinada e a voz ia até determinado sítio. De vez em quando ia qualquer coisa para o alimentar. E havia contacto com o exterior. A fuga foi organizada no interior e no exterior. Foi uma fuga espectacular.

Teve hipótese de fugir?
Tive. Não quis porque nessa altura continuava no partido mas queria levar a vida que levei depois, isto é, queria escrever, etc. Depois da fuga foi muito difícil, fui parar ao Aljube e à estátua. Represálias. Foi um trauma muito grande na minha vida. Quando saí, mais tarde, estava em liberdade mas sentia uma mágoa pelos outros que lá estavam presos. Os laços que se criam com os companheiros da prisão são indestrutíveis.

Quando é que saiu da prisão?
Em Maio de 62, em plena luta académica.

Entretanto casara-se na prisão.
A minha mulher, Isaura Silva, esteve quatro anos presa. Não era comunista, era do MUD Juvenil, estava envolvida na luta das enfermeiras, pelo casamento das enfermeiras. Estava proibida de me visitar porque não era minha parente. Mas houve uma luta para nos casarmos e acabou por ser autorizado. Aí vai a noiva no carro com o filho do Monjardino, que era o patrão dela na maternidade, e com as testemunhas. As minhas eram a Maria Amélia Padez, uma antifascista casada com um polaco que ajudou muitos portugueses a emigrar para Paris; o Alexandre O'Neill; e os meus cunhados que eram os padrinhos da noiva. O meu sogro fez um escândalo porque eu estava de um lado da mesa e a noiva do outro. Lá ficámos ao lado um do outro e ao fim de uma hora tudo acabou.

A comida era a da prisão?
Não, os meus sogros levaram e também vinho. Nós podíamos beber vinho uma vez por ano, no Natal, uma canequinha.

Como conheceu o O'Neill?
No MUD Juvenil. Fui um dos homens de contacto dele. E foi uma das casas onde dormi. Andei dois anos sem salário nem residência fixa. Com ele discutia poesia. Tínhamos longas discussões e chegou a propor-me fazer poemas em conjunto. 

Para as novas gerações a luta da sua mulher é algo de fantástico.
As enfermeiras e telefonistas não se podiam casar, é uma coisa incrível. As pessoas não têm ideia do que era o fascismo e há muita gente que acha que era bom, que havia autoridade.

Como foi quando saiu da prisão?
Tive à volta de 30 empregos. O essencial foi tradutor e explicador de História e Filosofia e fundador d'A Capital. Saí ao cabo de dois anos. Eu estava em liberdade condicional e queriam que eu fosse para a Rodésia cobrir a guerra colonial, e eu recusei. Depois mandaram-me a Peniche cobrir uma visita do Américo Tomás, a guarda de honra eram os guardas prisionais. Quando cheguei à redacção anunciei que me ia embora.

Como é que o tratam? Por professor?
Muita gente trata-me por professor. Estive como professor universitário durante 24 anos na Faculdade de Letras. E no período mais polémico, mais vivo e mais criador da alteração das estruturas, de reformas efectivas, com os estudantes e professores a terem um papel fundamental. 

Foi um tempo apaixonante.
Apaixonante. Hoje até me dá alguma tristeza entrar nos corredores da universidade e vê-los quase desertos. Naqueles tempos estavam sempre cheios de gente. E não era só a namorar. Não havia gabinetes, o meu gabinete foram os corredores ou uma sala ad-hoc. A investigação era feita em casa. 

Vivia em Lisboa?
Sim, mas coincidiu com o 25 de Abril vir para aqui (Parede). Fui um desalojado do 25 de Abril. A minha casa era de um cunhado meu que estava no exílio e voltou, pelo que vim para a minha casa de férias.

Havia muita discussão na faculdade?
Muita tensão. Mas isso fez parte e era gratificante.

Na altura tudo se punha em causa.
Exactamente. Vou dar-lhe um exemplo, sobre um seminário criado em 1974 sobre o infante D. Henrique. Caiu-me por acaso em cima e eu cheguei à universidade com a fama de ser o diabo vermelho. Quando entrei na sala do seminário verifiquei que os alunos olharam para mim com o ar de 'só nos faltava aparecer este'. Limitei-me a dizer: 'Em relação às vossas opiniões não tenho nada com isso. A única coisa que vocês têm de fazer é basearem-se sempre em documentação e depois têm as opiniões que quiserem'. Sei que passados aí dois meses estavam muito mais exaltados do que eu no mundo social e político. Não que eu fosse discutir política para a aula, na aula discutia as matérias. Para mim foi importantíssimo porque aprofundei conhecimentos e voltei-me para o ensino sempre com a intenção de indagar, de ir ao fundo, de não ficar pelo que disseram todos até à data, mas sim encontrar coisas novas, com base na documentação, e levar os alunos a interessarem-se pela investigação.

Como eram as suas aulas?
Geralmente tinham uma introdução e depois havia um debate sobre a matéria. Havia efectivamente intervenção dos alunos. Eram aulas extremamente vivas.

De certo modo era uma novidade.
Era. No meu tempo, os professores debitavam, os alunos tiravam notas, faziam uma sebenta e empinava-se. Comigo havia uma bibliografia mínima e para avaliação havia um trabalho que podia ser individual ou de grupo. 

A sua tese de doutoramento foi sobre a Inquisição de Évora. Porquê?
Começou por uma tentativa de mostrar como o pensamento moderno tinha a ver com a crise de cristãos-novos e cristãos-velhos e a emigração europeia a ela ligada. Tinha como centro a obra de Espinosa e o envolvimento dos cristãos-novos portugueses em Amesterdão. À medida que avancei à procura dos familiares de Espinosa levou-me a entrar a fundo na Inquisição de Évora. Alguns alunos meus fizeram o inventário dos processos da Inquisição de Évora até um determinado período e eu trabalhei sobre isso durante quase nove anos. Julgo não se ficar apenas pelo tribunal mas tenta verificar e qualificar as vítimas e dar ideia do que foi o imenso sofrimento das vítimas e do que isso significou para a cultura e para a História portuguesa e de que ainda hoje temos os restos em cima de nós. 

Que restos são esses?
É o espírito da denúncia: o tribunal vivia da denúncia, o pensamento estava continuamente em análise, os próprios pensamentos secretos estavam sob alvo da pesquisa da Inquisição. Dizia-se antes que a Inquisição nos livrou das guerras da religião. E o que ela nos trouxe? Queimaram em praça pública três mil desgraçados, muitos deles inocentes. Isto é diabólico e nós como povo ainda não tomámos consciência do que foi. Nem a Igreja, que foi a principal responsável.

A Inquisição foi um dos factos mais tenebrosos da História de Portugal?
Em certo sentido foi o pior, porque se manteve quase durante três séculos. Ao nível criador é terrível. Não é um acidente como o terramoto de 1755 ou a guerra da Restauração, que foi muitíssimo violenta. A Idade Média foi muito dura mas pôs a região portuguesa e de certo modo a Península Ibérica num grande desenvolvimento, para os parâmetros da época. Foi uma época extremamente criadora, foi essa geração de Aljubarrota que lançou Portugal na expansão. 

Estava a dizer que ficou nos portugueses o espírito da denúncia. E que mais marcas?
O medo. 

Os portugueses continuam com medo?
Ainda há muito medo. A prova disso é que os movimentos cívicos em Portugal têm pouca força. A situação social actual, com desemprego em massa, cria um medo terrível. Esta é a situação real no inconsciente colectivo, sobretudo nas zonas mais conservadoras.

Tendo em conta que estudou a presença árabe no nosso território, surpreende-o a barbárie do Estado Islâmico?
Se regressarmos à Idade Média, há um islão criador, no sentido em que vai buscar o passado greco-romano, e que conservou algumas obras fundamentais. E do lado cristão, vamos à Restauração, e como era castigada uma conjura? Pescoço fora, forca de cabeça para baixo ou de cabeça para cima, arrastados depois de mortos pelas ruas e partidos aos bocados. Toda a prática do medo é bárbara, miserável é o termo, e o equivalente quando destroem a memória da humanidade. Na verdade o Ocidente tem também muita culpa no cartório. A exploração das matérias-primas com a conivência de pequenas dinastias e de ditaduras terríveis. O que não quer dizer que devemos ficar parados a olhar.

Também pelo facto de muitos desses combatentes serem ocidentais.
Porque é que na Europa tantos jovens se deixam atrair, embora muitos enganosamente, para a aventura? O número de jovens que nos países desenvolvidos não se acham realizados é extremamente preocupante.»