[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

[1998.] MARIA LUCÍLIA ESTANCO LOURO [IV] || 1922 - 2018

* MARIA LUCÍLIA ESTANCO LOURO *
[27/01/1922 - 27/12/2018]

[Fotografia retirada, com a devida vénia, do FB da Biblioteca Municipal de São Brás de Alportel "Dr. Estanco Louro]

Nascida em Beja em 27 de Janeiro de 1922, filha de Albertina Emília Freire [1898-1971] e de Manuel Francisco Estanco Louro [1890-1953], Maria Lucília Estanco Louro pertence a uma geração única que em tempos sombrios soube, corajosamente, conciliar a docência e a intervenção cívica com o combate militante à ditadura do Estado Novo.

Se Maria Lucília Estanco Louro, licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1944, com a tese Paul Gauguin visto à luz da Caracterologia - Vida e Obra, continua a ser uma referência enquanto docente que se preocupou com a formação pedagógica, cultural e científica dos seus alunos à luz da historiografia mais avançada, também o é pelo activismo antifascista desde o início dos anos 40 do século XX, tendo feito parte dos célebres passeios do Tejo e da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

Professora.

Militante da Associação Feminina Portuguesa para a Paz entre 1940 e 1944, tendo sido sua Secretária durante três anos, numa altura em que era Presidente Cândida Madeira Pinto e tinham cargos directivos Maria Alice Lamy, Stella Fiadeiro e Maria Helena Pulido Valente, sendo muito ativas Cândida Gaspar, Maria Luísa Bastos, Joana Campina e Cândida Ventura. 

Com Cândida Ventura, colega da Faculdade de Letras de Lisboa, colaborou na mobilização de artistas, escritores, actores e poetas para colaborarem nas sessões culturais e pacifistas que a AFPP promovia. 

Na sede da Associação, na Rua D. Pedro V, ao Príncipe Real, organizavam pequenos pacotes com cigarros e géneros que mandavam, em colaboração com o Socorro Vermelho Internacional, para os prisioneiros nos campos de concentração. 

Ainda no âmbito das actividades da AFPP, no dia 9 de abril, data da Batalha de La Lys, costumavam, depositar ramos de flores no monumento aos mortos da Grande Guerra. 

Participou, no início da década de 1940, nos passeios de barco  culturais e políticas realizados no rio Tejo, sendo, com Cândida Ventura, uma das duas únicas sobreviventes [sobre eles consultar http://antonioanicetomonteiro.blogspot.pt/]. 

Posteriormente, já professora do Liceu, apoiou a campanha de Humberto Delgado; subscreveu as listas da Oposição Democrática; foi “compagnon de route” do Partido Comunista Português desde 1940 e filiada desde os anos setenta; tornou-se sócia da Associação de Amizade Portugal-Cuba; e pertence ao Conselho Português para a Paz e Cooperação. 

O seu empenhamento profissional (pedagógico-didático) não é menos intenso e relevante. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1944, a sua tese, intitulada Paul Gauguin visto à luz da Caracterologia - Vida e Obra suscitou polémica visto ser então a primeira a versar sobre Arte, considerada então uma parente pobre da História. 

Em 1948, fez Exame de Estado no Liceu Pedro Nunes com a tese Filosofia - Valores Éticos e Estéticos.

Lecionou nos Liceus de Faro, Beja, Évora, Oeiras, Lisboa (D. Leonor, D. João de Castro, Passos Manuel e Pedro Nunes) e na Escola do Magistério Primário de Évora. 

Orientadora de Estágios Pedagógicos nos Liceus de Oeiras, Pedro Nunes e Passos Manuel, entre 1973 e 1976. 

Participou nos Colóquios de História e de Filosofia realizados em 1959, no Liceu Pedro Nunes, sob a égide do Reitor Francisco Dias Agudo, que pela ousadia da sua promoção e pela categoria dos intervenientes (Professores Delfim Santos, Vieira de Almeida, Rui Grácio, Joel Serrão) representavam então uma luta pela actualização e dignificação dos conteúdos pedagógicos e informativos dos ramos abrangidos. 

Dentro do mesmo combate ao ensino orientado pelo Estado Novo e veiculado pelos compêndios fascizantes, participou nas reuniões de professores progressistas, realizadas um tanto clandestinamente na Escola Francisco Arruda sob a direcção do Professor Calvet de Magalhães; frequentou os Cursos de Aperfeiçoamento Profissional orientados pelo Professor Rui Grácio no Sindicato dos Professores; e cursou, em 1975, o 10.º Curso de Pós-Graduação em História de Arte, instituído pelo Professor José Augusto França na Universidade Nova de Lisboa. 

Após o 25 de Abril, interveio activamente, com muitos outros docentes [José Magno, Maria de Lurdes Ribeiro, Hardisson Pereira, João Cruz, Maria Eugénia Bráulia Reis, Ana Leal de Faria, Margarida Matos...], numa Comissão presidida por Maria Emília Diniz com o intuito de acabar com os velhos programas e actualizá-los com tudo o que tinha ocorrido na investigação e na metodologia. 

Estes novos programas foram divulgados em cadernos de apoio editados pelo Ministério da Educação, substituindo os antigos compêndios do 6.° e 7.° anos. Coube a Maria Lucília Estanco Louro fazer o tema Humanismo e Experimentalismo na Cultura do século XVI e, em coautoria com João Cruz, A Arte Portuguesa nos Séculos XIX e XX, não tendo este último fascículo chegado a ser publicado, porque entretanto estes programas, julgados demasiadamente revolucionários, foram abolidos. 

Realizou inúmeras palestras, participou em colóquios, escreveu artigos e colaborou em publicações. 

Redigiu várias entradas no Dicionário de História de Portugal, dirigido pelo Professor Joel Serrão, e a convite deste. 

Dos muitos escritos dispersos, é de mencionar “O Jovem Piteira” [Fernando Piteira Santos], publicado no Jornal de Letras, por se referir a “alguém cuja inteligência, sólida formação cultural (especialmente política) e fulgurante lucidez e poder de comunicação marcaram os jovens da minha geração, seus colegas na Faculdade de Letras de Lisboa nos anos 40” e que integrava “Barradas de Carvalho, Rute Arons, Olívia Cunha Leal, Rui Grácio, Joel Serrão, Joana Campina, Eunice Oliveira, Jorge Borges de Macedo, Francisco Morais Janeiro, Mário Faria, Nataniel Costa, Tony Nogueira Santos e eu própria, Maria Lucília”. 

A competência, profissionalismo, dedicação e intervenção cívica de Maria Lucília Estanco Louro, quer sob condições políticas adversas, quer após a Revolução de Abril,  podem ser testemunhados pelos seus antigos alunos, muitos dos quais tornadas figuras públicas, entre os quais se contam: Ana Maria Magalhães; António Damásio; António Torrado; Diogo Freitas do Amaral; Guilherme de Oliveira Martins; Joaquim Benite; Joaquim Letria; Joel Hasse Ferreira; Jorge Martins; José Meco; José Viana da Mota Brandão, Maria Beatriz Ruivo; Miriam Halpern Pereira; Maria Ângela de Sousa; Maria José Moura; Mário Vieira de Carvalho; Norberto Barroca; Rui Vieira Nery.

Pertence a uma geração única que dedicou décadas da sua vida na luta contra a ditadura e, coerentemente, continua, dentro das suas possibilidades, a manifestar o mesmo empenho político e cívico. 

Existe uma entrada mais completa sobre Maria Lucília Estanco Louro em Feminae. Dicionário Contemporâneo [Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2013].

[João Esteves]

domingo, 7 de fevereiro de 2016

[1335.] ANA DE CASTRO OSÓRIO || CASA EDITORA "PARA AS CRIANÇAS" [I]

* CASA EDITORA "PARA AS CRIANÇAS" || COLEÇÃO PARA AS CRIANÇAS *
 
Começou por funcionar em Setúbal, na Praça de Bocage, 114-116; depois, quando em 1914 regressou do Brasil, passou para prédio da Rua do Arco do Limoeiro, onde viviam os pais

Ana de Castro Osório, "Aos 24 anos e solteira, lançou-se no empreendimento que a tornou nacionalmente conhecida e pô-la em contacto com crianças, jovens, educadores, homens de letras, jornalistas e políticos: a Coleção Para as Crianças, a primeira tentativa sistemática de criar uma Biblioteca Infantil Ilustrada de inspiração portuguesa destinada aos mais novos, mediante a publicação regular, às suas custas, de fascículos de histórias assentes, essencialmente, em contos tradicionais, histórias maravilhosas e fábulas, muitas das vezes adaptados, recriados ou traduzidos pela sua pena. Para além da recolha direta de narrativas de diversas províncias, a partir da tradição oral e popular (O Homem da Moca, Branca Flor, A Maria das Silvas) e da recriação de outros (A Princesa Muda), editou originais seus (Alma Infantil, As Boas Crianças, Os Animais), fez incursões pela poesia e teatro infantil (A Comédia da Lili), adaptou e traduziu, em colaboração com Luise Ey [1854-1936] e Afonso Hincker, contos dos irmãos Grimm, Charles Perrault e Hans Christian Andersen, tendo em atenção que se dirigiam ao público infanto-juvenil.

Se o conteúdo era essencial, [...], a parte da ilustração não o era menos, tal como indiciava a pretensão de ser uma Biblioteca Infantil Ilustrada, recorrendo, para isso, à colaboração de conceituados artistas: Alfredo de Morais, aguarelista e ilustrador; [António Tomás da] Conceição Silva, pintor; Hebe Gonçalves; Laura de Almeida Nogueira, que, em 1914, pintou em guache um esboço de Ana de Castro Osório; Leal da Câmara, pintor, ilustrador e caricaturista; Mily Possoz, pintora; e a jovem Raquel Roque Gameiro que, desta forma, iniciou a carreira de ilustradora. Num dos casos, serviu-se de desenhos do filho mais novo, então com três anos (Os animais, 1ª edição).

[...]

O primeiro fascículo saiu em Abril de 1897 , o começo não podia ter sido mais auspicioso, já que obteve, em 1898, o Grande Diploma de Honra na Exposição da Imprensa, e foram editados 18 volumes ou séries: a 1ª, 3ª, 4ª, 8ª, 12ª, 13ª e 14ª intitularam-se Contos tradicionais portugueses; a 2ª, 6ª e 7ª correspondiam a Contos maravilhosos da tradição popular; a 5ª (Alma infantil), 9ª (As boas crianças) e 10ª (Os animais) eram originais seus; a 11ª (Alguns contos de Grimm) e 15ª (Histórias escolhidas) resultaram da tradução direta do alemão pela amiga Luise Ey; a 16ª continha Contos e fábulas em verso da autoria de Paulino de Oliveira; e às duas últimas séries, 17ª e 18ª, deu o nome de Teatro Infantil." 


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

[1219.] GABRIELA PEDRO [I] || 1948 - 1969

* GABRIELA PEDRO *
[Junho de 1948 - 02/05/1969]

[Gabriela Pedro com 20 anos, pouco antes de falecer || Edmundo Pedro, Memórias. Um Combate pela Liberdade || Vol. I || Âncora Editores || 2007]

Filha do segundo casamento de Gabriel Pedro [22/04/1898 - 1972], após o seu regresso do Tarrafal, e de Maria Adelaide Fonseca Pedro, nasceu em Junho de 1948.

Iniciou cedo a intervenção política e, segundo relato do irmão Edmundo Pedro [n. 08/11/1918] nas Memórias. Um Combate pela Liberdade [2007], frequentou a Escola Emídio Navarro, em Almada, onde desenvolveu precoce acção no meio estudantil, enquadrada pela sua militância comunista.

Em meados da década de 60, partiu para Paris, onde se encontrava o pai, «para escapar, tal como ele, à perseguição da polícia política» [Edmundo Pedro, p. 29]. 

Completou então o Liceu, matriculou-se, como estudante-trabalhadora, na Universidade de Paris, onde cursou matemática e informática, empregou-se em regime de part-time na redacção do jornal L’Humanité, militou activamente no Partido Comunista Francês, até romper com ele e abandonar o órgão oficial, e no movimento associativo dos emigrantes portugueses. 

Viveu os acontecimentos de Maio de 1968 e «aderiu, com total convicção, aos movimentos alternativos que emergiram daquela revolta estudantil, ou seja, a todas as causas nobres que despertavam o entusiasmo militante do seu generoso espírito» [idem]. 

Edmundo Pedro recorda que sempre que a visitava ficava «impressionado com o ritmo estonteante que imprimia à sua vida», «como que tomada por uma febre de acção» [idem, 158]: morreu no dia 2 de Maio de 1969, como informa a lápide da sua campa [idem, p. 146], com apenas 20 anos de idade, depois de complicações de uma lesão cardíaca detectada tardiamente.

Edmundo Pedro insere no livro duas fotografias de Gabriela Pedro: uma aos 15 anos, na companhia de colegas da escola, e outra aos vinte, em França.

Feminae - Dicionário Contemporâneo, editado pela CIG em 2013, insere um pequeno esboço biográfico de Gabriela Pedro.

[João Esteves]

terça-feira, 14 de julho de 2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

[0934.] ESTUDOS SOBRE AS MULHERES E BIOGRAFIAS NO FEMININO [I]

* CONTRIBUTOS DE MARIA REYNOLDS DE SOUZA *

Um livro que constitui um roteiro da obra dispersa, mas una e coerente, de Maria Reynolds de Souza em torno das primeiras parlamentares e que merece ser lida nos textos originais, com um grafismo magnífico, apelativo e  cativante de Mafalda Matias.


 


Esta edição também é reveladora de quão importante foi a Comissão da Condição Feminina, a Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres e a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género na implementação dos Estudos Sobre as Mulheres em Portugal e na construção, divulgação e implementação dos estudos biográficos de mulheres, durante muito tempo, demasiado tempo, ignorados nos meios académicos.

sábado, 3 de janeiro de 2015

[0891.] ARMINDA DOS SANTOS SOARES [I] || UMA MULHER NOS PREPARATIVOS DA FUGA DE PENICHE (1960)

* ARMINDA SOARES *


|| UMA MULHER NOS PREPARATIVOS DA FUGA DE PENICHE A 3 DE JANEIRO DE 1960 ||

[Gravura de Margarida Tengarrinha segundo desenho de Álvaro Cunhal]

Filha de Olívia dos Santos Espinho Soares e de Luís António Soares, antifascista que se opôs à ditadura salazarista, combateu na Guerra Civil de Espanha, foi preso e esteve internado num campo de concentração em França aquando da Segunda Guerra Mundial.

Irmã de Pedro dos Santos Soares [13/01/1915-10/05/1975], militante clandestino do Partido Comunista.

Casou, no início da década de 1940, com o advogado escalabitano Humberto Pereira Diniz Lopes [17/10/1919-23/11/1984], jovem militante do Partido Comunista, embora na legalidade, passando o casal a revelar as mesmas opções políticas. 

Segundo Teresa Lopes Moreira, Arminda Soares envolveu-se, em 1944, no projecto do Club Literário Guilherme de Azevedo e do Grupo Pró-Cultura dos Empregados no Comércio para fundar o primeiro jardim-de-infância em Santarém, projecto pioneiro que durou apenas três meses.

A partir de 1946, a militância política fez com que Humberto Lopes fosse várias vezes preso nas cadeias políticas, passando Arminda Soares a visitar quer o marido, quer o irmão Pedro. 

Arminda também conheceu, temporariamente, a prisão durante dois dias, entre 24 e 26 de Dezembro de 1953, quando o marido estava novamente detido e condenado a dois anos e meio, acusado de pertencer ao Movimento Nacional Democrático.

Quando Humberto Lopes e Pedro Soares se encontravam presos no Forte de Peniche e se preparou a fuga de Álvaro Cunhal, do irmão e de outros camaradas em janeiro de 1960, Arminda dos Santos Soares constituía o primeiro sinal para a confirmar, através da visita dominical ao marido, o que não sucedeu pelo facto dos planos terem sido antecipados uma semana. 

Recorrendo novamente às palavras de Teresa Lopes Moreira, inscritas no Correio do Ribatejo de 31 de outubro de 2014, "o divórcio e a morte do irmão e da cunhada [Maria Luísa Costa Dias] num acidente [9 de maio de 1975] tornaram-na mais amarga, mas não quebraram os laços da militância".

Feminae - Dicionário Contemporâneo, editado em 2013 pela CIG, inseriu a biografia possível de Arminda dos Santos Soares, constituindo um primeiro passo para a divulgação e estudo do seu percurso político. Por sua vez, os textos de Teresa Lopes Moreira no Correio do Ribatejo permitem redescobrir o percurso comum do casal.

sábado, 15 de novembro de 2014

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

terça-feira, 30 de setembro de 2014

[0764.] MARIETA DA SILVEIRA [I]

* MARIETA AMÉLIA DA SILVEIRA *
[1917-2004]

Professora catedrática jubilada. 

Nasceu nos Açores em 18 de Julho de 1917 e faleceu em Agosto de 2004, com 87 anos de idade. 

Investigadora, docente e cidadã empenhada, formou-se, em 1941, em Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Assistente de Química desde Fevereiro de 1942. 

Doutorou-se em 1946, com a tese Contribuição para o Estudo das Radiações de Urânio X Complexo.

Aprovada, em 1969, em concurso para professora extraordinária de Química. 

A par da sua notável carreira académica, manteve atividade política contra a ditadura.

Assinou, em 1945, as listas do Movimento de Unidade Democrática (MUD).

Protestou, em 1947, contra a demissão de 21 professores universitários. 

Colaborou com a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP). 

Pela sua postura antifascista, foi-lhe cancelada uma bolsa de estudo do Instituto de Alta Cultura; não foi contratada aquando da criação do Centro de Estudos de Energia Nuclear; e, em Outubro de 1973, foi impedida de ocupar uma vaga de professor catedrático. 

Após a revolução de 1974, militou no Partido Comunista, sendo candidata a deputada para a Assembleia Constituinte pelo distrito de Lisboa. 

Autora de trabalhos de investigação e de divulgação científica, teve, segundo Maria Helena Florêncio e Manuela Brotas de Carvalho, "um papel muito activo na vida universitária e marcou dezenas de gerações de jovens, alunos de diversas licenciaturas", sendo "a melhor e a mais doce professora que tiveram durante a sua formação” [2004].

Feminae – Dicionário Contemporâneo, editado pela CIG em 2013, inclui uma entrada sobre Marieta Amélia da Silveira.

[João Esteves]

quinta-feira, 31 de julho de 2014

[0717.] GERTRUDES PEREIRA PAULINO DA SILVA [II]

 
* GERTRUDES PAULINO *
[20/04/1923 - --/04/2012]

[Fotografia retirada do Blogue Antifascistas da Resistência]

29 anos consecutivos na clandestinidade (1945-1974)

Na História das Oposições há muitos nomes por (re)descobrir, estudar, enquadrar e revelar, tarefa tanto mais difícil quando viveram durante décadas em situação clandestina sem nunca terem sido detectados pela polícia política. É o caso de Gertrudes Paulino, com 29 anos consecutivos de clandestinidade, assumindo constantemente identidades diferentes, sem que a historiografia dedicada aos 48 anos de Ditadura a incluam ou sequer a mencionem.   

Costureira. 

Nasceu em Vila Franca de Xira a 24 de Abril de 1923 e faleceu em Abril de 2012, com 72 anos de militância comunista em 89 de vida. 

O pai, militante do Partido Comunista, trabalhava num armazém que tinha um negócio de cereais e possuía um barco com que os transportava; a mãe, costureira, fazia fatos para fora. 

Cresceu em Vila Franca, fez o exame da 4.ª Classe e gostaria de ter sido professora, desejo inviabilizado pelas condições económicas da família, com seis filhos a cargo.

Marcada pelo espírito solidário da mãe e muito influenciada pelo pai, começou a ler muito nova o Avante! clandestino, a interessar-se por Alves Redol [1911-1969] e Soeiro Pereira Gomes [1909-1949] e a prestar atenção à situação em que viviam os trabalhadores e camponeses da lezíria. 


Coordenou em 1943-1944, com Georgette Ferreira e Otília Borrelho, uma greve das costureiras nas alfaiatarias locais e empenhou-se na formação de um sindicato daquelas. 

Em 1944, integrou o mesmo trio que juntou mulheres trabalhadoras junto à Praça de Touros de Vila Franca de Xira aquando da Marcha da Fome em 8 de maio de 1944 e destacou-se no apoio dados aos presos e suas famílias. 

No ano seguinte, com apenas vinte e dois anos, entrou na clandestinidade, formando casa com Manuel Luís da Silva Júnior [n. 27/08/1908], militante comunista desde 1932 com quem viria a casar, ainda que só depois do 25 de Abril. 

[Manuel da Silva || Fotografia retirada do Antifascistas da Resistência]

No âmbito da militância no Partido Comunista, esteve, tal como o companheiro, durante quase trinta anos consecutivos ligada à imprensa clandestina e a tipografias ilegais, sem nunca ser detida: passou pelo Algarve (Caldas de Monchique, onde conviveu com Maria Clementina Ventura, Luz de Tavira, São Brás de Alportel), Viseu (Besteiros), Cartaxo (Ereira), Torres Novas, Malveira, Porto, Lisboa (Rua Vítor Bastos, em Campolide, Travessa Barbosa, Tv. do Possolo, R. Arco do Carvalhão), Setúbal, Matosinhos, Famalicão e Vila do Conde.

Na vida clandestina passou por médica e professora. 

Usou o pseudónimo “Maria” e os dois filhos nasceram na clandestinidade: a rapariga, quando tinha três anos, foi para casa de uma tia-avó, enquanto o rapaz, nascido em 1954, partiu para a União Soviética com sete anos e formou-se em engenharia de telecomunicações. 

Só em 1974, após 29 anos de separação, é que Gertrudes Paulino reencontrou os pais. 

O jornal O Mirante entrevistou-a e dedicou-lhe várias páginas em 2006.

Feminae. Dicionário Contemporâneo incluiu estes dados biográficos.

[João Esteves]

sexta-feira, 25 de julho de 2014

[0716.] MANUELA CÂNCIO REIS [I] || 1910 - 2011

* MANUELA CÂNCIO REIS *
[02/01/1910 - 08/12/2011]
[1931 - Pormenor]
Compositora, musicóloga e maestrina.

O pai, Francisco Filipe dos Reis, republicano que chegou a estar preso durante a Monarquia, era chefe dos escritórios da fábrica Cimento Tejo, em Alhandra, e teve considerável intervenção cultural na terra através dos espectáculos teatrais e de variedades que organizava, para além de ensaiador, dramaturgo, poeta e compositor. Foi o responsável pela conclusão da construção do Teatro de Alhandra, inaugurado em 1905, apenas cinco anos decorridos sobre a chegada à vila, e influenciou o percurso artístico da filha, que estudou em Lisboa e, depois, com professores particulares, tendo ainda aprendido piano e composição musical.

Manuela Câncio Reis casou a 25 de Maio de 1931, aos 21 anos, com Joaquim Soeiro Pereira Gomes [14/04/1909 - 05/12/1949], colega mais velho do irmão no curso de regente agrícola da Escola Nacional de Agricultura de Coimbra.

O enlace realizou-se nesta cidade, na Igreja da Conceição, e fixaram-se em Alhandra, por Soeiro Pereira Gomes passar a trabalhar como empregado de escritório na Fábrica de Cimentos Tejo.
 
[1931 - Manuela Câncio e Soeiro Pereira Gomes]
O marido, militante do Partido Comunista, teve de passar repentinamente à clandestinidade em 11 de Maio de 1944, na sequência do papel desempenhado nas greves de 8 e 9 do mesmo mês, no Ribatejo.

Manuela Câncio chegou a ser detida, como refém, e mantida na esquadra da polícia do Alto de S. João, episódio descrito no seu livro Eles vieram de madrugada [1981]. Apesar dessa prisão, nunca lhe foi aberto qualquer processo relacionado com a detenção ou sujeita a julgamento.

A partir do momento em que o marido entrou na clandestinidade, a vida de Manuela Câncio sofreu transformações profundas e dramáticas. Partiu para Lisboa, onde passou a trabalhar como secretária na empresa Campos Ferreira, exportador de vinhos, e a viver em pensões, não deixando de ajudar os pais.

Foram tempos difíceis e de dificuldades económicas, recebendo notícias espaçadas do marido através de Virgílio Barroso, irmão de Maria de Jesus Simões Barroso [n. 02/05/1925], matemático que assegurava a ligação entre ambos.

Durante esses cinco anos, até ao falecimento do marido, vítima de um cancro nos pulmões, tiveram apenas breves encontros.

No primeiro livro memorialista, Eles vieram de madrugada – cartas para a clandestinidade a Soeiro Pereira Gomes, de 1981, evoca momentos decisivos do marido, temática recuperada em A Passagem, uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, datada de 2007, quando já tinha 97 anos de idade e com Introdução de Isabel Câncio Reis Nunes, sua sobrinha, que refere no início que «Esta é uma história de amor. A história de amor de um homem e de uma mulher, a história de amor de um homem pela terra e pelo Homem» [p. 9].

Após a sua morte, viria a casar, por pouco tempo, com Virgílio Barroso, sendo ajudada no divórcio deste segundo enlace pelo advogado Avelino Cunhal [28/10/1887 - 19/12/1966], pai de Álvaro Cunhal [10/11/1913 - 13/06/2005].

Se a sua vida tem sido retratada em função do percurso de militante e de escritor de Soeiro Pereira Gomes, é de salientar a importância que Manuela Câncio teve no panorama cultural e artístico de Alhandra, com projecção na capital, nomeadamente enquanto autora de várias composições – Fiandeira, Bexigueiros, Noite de Luar, Rapazes dos Telhais (marcha), Cantigas ao S. João (vira), Fado do Zé Miúdo, Ceifeiras –, algumas com letra do marido.

Musicou revistas regionais, escreveu e musicou, com Soeiro Pereira Gomes, a revista Sonho ao Luar, estreada, em 1937, no Teatro Salvador Marques e representada no Éden-Teatro, e regeu um agrupamento musical feminino orfeónico na Emissora Nacional.


Viveu os últimos anos numa casa de repouso na Parede.

Antónia Balsinha incluiu o seu nome no estudo pioneiro que fez sobre o papel das mulheres de Alhandra na resistência ao fascismo nos anos 40, tendo-a entrevistado em Agosto de 2001.

Faleceu a 8 de Dezembro de 2011, a menos de um mês de completar 102 anos.

Feminae. Dicionário Contemporâneo, editado pela CIG em 2013, incluiu a sua biografia.

[João Esteves]

sexta-feira, 4 de julho de 2014

[0700.] AMÉLIA FONSECA DO CARMO - AMÉLIA GREGÓRIO [I]

 * AMÉLIA FONSECA DO CARMO *
[Georgette Ferreira e Amélia Fonseca do Carmo (1960)]
[in João Céu e Silva, Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido, Edições ASA, 2006]
Muitas são as vivências que o tempo se tem encarregado de fazer cair no esquecimento e não se torna fácil resgatá-las, sobretudo quando os dados biográficos são escassos e parte das vidas vividas se passaram na mais rigorosa clandestinidade, como sucedeu com Amélia Fonseca do Carmo/Amélia Gregório.

Amélia Fonseca do Carmo foi companheira do militante e dirigente comunista José Gregório [Marinha Grande, 19/03/1908-Praga, 10/05/1961)], com quem assegurou, em 1941, juntamente com Joaquim Correia [f. 1946], a principal tipografia do grupo dos reorganizadores do Partido Comunista Português, dando reinício à publicação do jornal Avante!

Impresso numa casa clandestina em Alverca do Ribatejo, aquele trio foi o responsável, entre Agosto daquele ano e Maio de 1942, pela execução dos primeiros dez números da VI série, periódico que desde então não mais se deixou de publicar ininterruptamente. 

Seguidamente, Amélia Fonseca do Carmo acompanhou José Gregório no seu trabalho organizativo no Algarve e no Norte, onde era o responsável pelas regiões do Porto, Vale do Vouga, Trás-os-Montes e Coimbra.

Com ele partiu para a Checoslováquia em 1956, quando já se encontrava muito doente e onde veio a falecer com apenas 53 anos de idade.
 l
[Diário de Notícias, 1971]

Naquele país conviveu, entre  outras portuguesas, com Georgette Ferreira.

Em 1971, decorrida uma década sobre a sua morte, publicou uma inédita e arrojada evocação no Diário de Notícias, encimado com a sua fotografia, com os seguintes dizeres: “10 anos são passados, mas continuas presente na minha memória: não se esquecem companheiros tão dedicados e leais. Tão suave seja a paz em que descansas, como suaves foram os 20 anos da nossa união”, assinando “A tua Amélia”.

Alguns destes elementos biográficos foram inseridos em Feminae. Dicionário Biográfico [Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2013].


[João Esteves]

sexta-feira, 27 de junho de 2014

[0695.] NATALINA BASTOS [I]

* NATALINA MORA PEREIRA BASTOS *
[1914-2011]
[in Lúcia Serralheiro, Mulheres em grupo contra a corrente, 2011]
Professora, terá nascido no Porto a 26 de Julho de 1914 [e não em 1915] e faleceu, na mesma cidade, a 1 de Agosto de 2011. 

Colaboradora da revista portuense Pensamento, subscreveu, em 1934, com com Aida Mesquita, Antónia Girão Azuaga Santos, Berta Neves, Cândida Bastos, Cecília Moreira, Claudina Martins, Ema Rosine Cunha, Henriqueta Mesquita, Laura Neves de Castro, Leopoldina Mesquita, Maria Clarisse Bastos, Maria Lucena e Maria Silva, o manifesto O dia do Armistício, distribuído profusamente no Porto e noutras terras do país. 

Presa em 14 de Maio de 1935 pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado do Porto, acusada de ter escrito e enviado “ao arguido João Dinis Cupertino de Miranda, uns versos que estão junto aos autos e em que demonstra claramente as suas ideias avançadas”, foi restituída à liberdade na mesma data.

Segundo Amadeu Gonçalves, no blogue Literatura e Filosofia, Natalina Bastos integrava então grupo “Jovens Liras”, composto por colaboradores da revista Pensamento, entre os quais João Dinis Cupertino de Miranda [1911-1993], com quem terá casado, tendo editado nesse ano o livro colectivo de poemas O nosso eu [Porto, Edições Pensamento, 1935]. Natalina Bastos era a "Lira de Oiro" e assinava com o pseudónimo Jodinal, enquanto aquele era a "Lira Irreverente" e tinha o pseudónimo Kupertinu. Do mesmo grupo, entre outros, fazia parte Armando Bacelar [1918-1998] (a "Lira Indómita") e Maria Clarisse, outra das subscritores do manifesto pacifista.

Novamente presa a 29 de Janeiro de 1937 e solta em 9 de Fevereiro.

Nos anos 40, participou no núcleo do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz (AFPP) e fez parte, enquanto 1.ª Vogal, da Direcção eleita para o ano de 1943-1944. 

Sócia, com o número 11969,  da Associação de Solidariedade Social dos Professores.

Lúcia Serralheiro, no livro dedicado àquela delegação, insere a fotografia aqui publicada de Natalina Pereira Bastos [Mulheres em Grupo Contra a Corrente, Rio Tinto, Evolua Edições, 2011] e Feminae. Dicionário Contemporâneo contém uma entrada dedicada a esta professora [Lisboa, Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2013].

[João Esteves]

sábado, 24 de maio de 2014

[0646.] FEMINAE [XLIII] - Letra Z

- ENTRADAS -


- LETRA Z -

Zezinha - v. Maria José Ribeiro Gomes de Abreu Vilas Soares
Zita - v. Maria José Ribeiro Gomes de Abreu Vilas Soares
Zita de Portugal - v. Maria José Ribeiro Gomes de Abreu Vilas Soares
Zoé Maria Josephine Caroline Wauthelet Batalha Reis - v. Zoé Wauthelet
0941. Zoé Wauthelet
0942. Zulmira Miranda
0943. Zulmira Ramos

[Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2013]

sexta-feira, 23 de maio de 2014

[0645.] FEMINAE [XLII] - Letra V

- ENTRADAS -


- LETRA V -

Valentina de Lucena - Pseudónimo da escritora Maria Amália Vaz de Carvalho.
Venda da Flor - v. Festa da Flor
0928. Vicenta Guerreiro
0929. Violet Mallet Fulford-Williams   
Virgínia Carlota Xavier dos Santos e Silva - v. Virgínia Santos de Avelar
0930. Virgínia Cassia do Sacramento Marques
0931. Virgínia Dias da Silva
0932. Virgínia Falco
Virgínia Farrusca - v. Virgínia Glória dos Santos Farrusca 
0933. Virgínia Glória dos Santos Farrusca
0934. Virgínia Inês de Lima
0935. Virgínia Nery
0936. Virgínia Robertes Rau
0937. Virgínia Santos de Avelar 
0938. Virgínia Soler
Viscondessa da Torre das Donas - v.  Maria Emília de Barros Lima de Azevedo do Rego Barreto
Viscondessa das Nogueiras (1.ª) - v. Matilde Isabel de Sant’Ana e Vasconcelos Moniz de Bettencourt
Viscondessa de Pindela (2.ª) - v. Maria Amália de Sousa Botelho Mourão de Vasconcelos
Viscondessa de Pindela (3.ª) - v. Maria Helena Cardoso de Meneses
Viscondessa de Proença-a-Velha (1.ª) - v. Luísa Augusta da Cunha Castro Meneses Pita
Viscondessa de Proença-a-Velha (2.ª) - v. Maria de Melo Furtado Caldeira Geraldes de Bourbon
0939. Viscondessa de Sistelo
0940. Vitória Pais Freire de Andrade Madeira

[Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2013]

[0644.] FEMINAE [XLI] - Letra U

- ENTRADAS -


- LETRA U -

UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta - v. Associações de Mulheres nas décadas de 70 e 80 do século XX
0927. Umbelina Antunes

[Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2013]