[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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segunda-feira, 7 de julho de 2014

[0705.] SOFIA DE OLIVEIRA FERREIRA [I]

* SOFIA DE OLIVEIRA FERREIRA *
[01/05/1922 - 22/04/2010]
[1955 - Clandestinidade]

* A mulher que totalizou mais tempo de prisão por motivos políticos: 12 anos e 3 meses *

Filha de trabalhadores rurais com muitas dificuldades económicas, nasceu em Alhandra a 1 de maio de 1922, ainda que no registo conste dia 10, e com dois anos foi viver para Vila Franca de Xira. 

Sem condições para ir à escola e estudar, começou a labutar na agricultura ainda garota, fazendo, com dez anos, todo o tipo de trabalho como “as mudas, as sachas, a apanha de favas, andar com as éguas a gradar” e ganhando “um pouco menos que a minha mãe, cerca de três escudos” [João Céu e Silva, Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido, Porto, Edições ASA, 2006]. 

Aos doze foi viver para casa dos padrinhos, em Lisboa, onde ajudava nos trabalhos domésticos: “Havia pessoas idosas e também cuidava delas, existia um quintal com criação e eu cuidava também da criação. Foi aí que aprendi a ler, com uma vizinha que me ensinou as primeiras noções, num livro do João de Deus, e a fazer contas. Na casa havia livros que me interessavam, As Pupilas do Senhor Reitor, por exemplo, que gostava muito de ler. Comecei a escrever para a minha família, para os meus pais e para as minhas irmãs que tinham ficado em Vila Franca. Depois, a minha irmã mais nova, a Mercedes, foi ter comigo e fez a 4.ª classe porque eles pagaram!” [palavras de Sofia Ferreira a João Céu e Silva]. 

Em 1945, na sequência do crescimento da luta política na zona de Vila Franca de Xira e por influência das irmãs Georgette [n. 25/07/1925] e Mercedes de Oliveira Ferreira [n. 09/12/1928], tornou-se militante do Partido Comunista Português, entrando, por intermédio de António Dias Lourenço [25/03/1915-07/08/2010], na clandestinidade em 1946. Tinha então 24 anos e, embora fosse mais velha do que aquelas duas, foi a última a entrar na luta política, sendo que o irmão não manteve intervenção política ativa, o que se revelou importante por permitir dar apoio, com a mulher, aos pais já idosos, circulando as informações com muita dificuldade e morosidade, “apesar do esforço da direção do partido para obter informações dos familiares” [entrevista a Antónia Balsinha de 30/09/2000, p. 223]. 

Durante as suas duas prisões, recusou sempre prestar quaisquer declarações sobre as atividades partidárias, apesar da violência policial, incluindo a tortura, aquando da primeira detenção. 

Esteve, durante pouco mais de dois anos, numa casa clandestina no concelho da Figueira da Foz onde era impresso O Militante: “Era uma localidade muito pobre. Havia uma vizinha que nos ia buscar água porque a casa não tinha eletricidade, nem água, trabalhávamos à luz dos candeeiros. A casa ficava isolada dentro duma quinta e não existia nenhuma casa perto” [palavras ditas a João Céu e Silva]. 

Em finais de 1948, ocupou com Álvaro Cunhal [1913-2005] uma casa do Secretariado instalada no Luso (Mealhada), usando o pseudónimo “Elvira” e passando os dois por um “casal”. A 25 de março de 1949 era presa pela primeira vez, juntamente com aquele e Militão Bessa Ribeiro [13/08/1896-02/01/1950] que, andando fugido à PIDE que estava no seu encalço, procurou ali refúgio: a detenção, “de uma violência impressionante”, tendo inclusivamente sido apontada uma arma à cabeça de Álvaro Cunhal, deu-se de surpresa durante a noite, quando todos dormiam, com a PIDE bem armada e o local cercado. 

Levada para a sede da PIDE do Porto, aí encontrou Luísa Rodrigues [1903-1961], companheira de Militão Ribeiro detida a 10 de fevereiro de 1949 em Macinhata do Vouga, Sever do Vouga, e que se encontrava em estado grave, sobretudo do ponto de vista psíquico, procurando, dentro do possível, aliviar o seu sofrimento psicológico. 

Na subdiretoria do Porto, onde permaneceu seis meses “completamente isolada e proibida de fazer o que quer que fosse” [João Pina e Rui Daniel Galiza, “Sofia Ferreira – A prisioneira política portuguesa com mais tempo de detenção”, Por Teu Livre Pensamento – Histórias de 25 Ex-Presos Políticos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, pp. 68-69 e 179-182], Sofia Ferreira seria sujeita a persistentes interrogatórios, que incluíram agressões físicas e ameaças várias. 

Foi transferida para Caxias a 15 de setembro, posta à disposição do Tribunal Criminal de Lisboa a 21 do mesmo mês e libertada no dia 31 de outubro, por ordem do 3.º Juízo Criminal de Lisboa, mediante o pagamento de caução. Aquando do julgamento, com Álvaro Cunhal, no Tribunal da Boa Hora a 2 e 9 de maio de 1950, foi defendida pelo advogado Manuel João da Palma Carlos [24/06/1915-01/11/2001]. Sofia Ferreira foi então condenada em dezoito meses, pena agravada para vinte meses e um ano de medidas de segurança e privada de direitos políticos durante três anos, por pertencer ao Partido Comunista, só saindo da cadeia a 4 de fevereiro de 1953.

Regressou à atividade política e em julho desse mesmo ano partiu para o Porto, onde esteve dois anos a desenvolver trabalhos técnicos. 

Em 1957, passou a atuar em Lisboa e em setembro, no V Congresso realizado numa casa em S. João do Estoril, foi eleita membro suplente do Comité Central. 

Tornou a ser presa, desta vez em Lisboa, no bairro das Amoreiras, a 28 de maio de 1959, quando se dirigia para um encontro político com o companheiro António Santo, também ele detido: embora fossem companheiros e pertencessem ao mesmo organismo partidário, por uma questão de segurança não habitavam a mesma casa clandestina. 

Recolheu ao Forte de Caxias e recusou, mais uma vez, prestar quaisquer declarações à PIDE. Na sequência do julgamento realizado em maio de 1960, foi condenada a cinco anos e meio de prisão, mais três anos de medidas de segurança, só sendo libertada a 5 de agosto de 1968, o que a tornou a presa política com mais tempo de cativeiro: 12 anos e três meses. Nem mesmo quando a mãe, Joaquina de Oliveira Ferreira, faleceu em março de 1965 lhe foi concedida autorização para ir ao velório.

Os anos de cativeiro em Caxias foram particularmente difíceis: “A alimentação nesse tempo era insuficiente e mal confecionada. A assistência, praticamente não existia. Havia proibições e limitações constantes de entradas de jornais e livros e, até, de trabalhos manuais. Ao mesmo tempo assistia-se a constantes provocações dos carcereiros, castigos, tanto nas celas como nos segredos e espancamentos. Tinha-se conhecimento e presenciava-se as saídas e entradas de companheiros, mulheres e homens, para interrogatórios, de onde regressavam em estado lamentável, gritando, gemendo e arrastando os pés pelos corredores em consequência das torturas” [testemunho prestado a Rose Nery Nobre de Melo, Mulheres Portuguesas na Resistência, Lisboa, Seara Nova, 1975, pp. 48-57]. 

Depois de nove anos e três meses detida, exatamente o mesmo período do do companheiro, este em Peniche, casou, em novembro, com António Santo. 

Após uma passagem de ano e meio pela União Soviética, onde viveu a lua-de-mel, procurou recuperar a saúde abalada e desempenhou tarefas políticas, voltou à militância, continuando a não viver na mesma casa do marido por questões de segurança: integrou, com Cecília Areosa Feio [05/12/1921-08/02/1980], Maria da Piedade Morgadinho, Maria José Ribeiro e Maria Luísa Palhinha da Costa Dias [15/10/1916-10/05/1975], a delegação portuguesa ao Congresso Mundial das Mulheres em Helsínquia, realizado entre 14 e 17 de junho de 1969, onde se abordou as condições de vida das trabalhadoras, as iniciativas em defesa da paz e campanhas de solidariedade realizadas no país, e em 1970 regressou a Portugal. 

Em Abril de 1974, residia, com Maria Lourenço Calção Cabecinha [n. 1937], numa casa clandestina na Damaia de Baixo. 

Usou os pseudónimos “Soares” e “Elvira”. 

Manteve-se no Comité Central até 1988 e faleceu a 22 de abril de 2010, com 87 anos de idade. 

Rose Nery Nobre de Melo integrou-a no pioneiro trabalho sobre as Mulheres portuguesas na resistência, intercalando a “Biografia Prisional” com o relato de Sofia Ferreira. 

Antónia Balsinha incluiu o seu nome no estudo pioneiro que fez sobre o papel das mulheres de Alhandra na resistência ao fascismo nos anos 40, tendo-a entrevistado a 30 de setembro de 2000 [As Mulheres de Alhandra na Resistência. Anos quarenta, século XX]

Rui Daniel Galiza e João Pina encerraram a obra Por teu livre pensamento com o seu depoimento. 

João Céu e Silva ouviu-a pormenorizadamente no âmbito do livro Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido

Feminae - Dicionário Contemporâneo, editado em 2013, inseriu a sua biografia.


[João Esteves]

domingo, 6 de julho de 2014

[0703.] GEORGETTE DE OLIVEIRA FERREIRA [I] || 1925 - 2017

* GEORGETTE DE OLIVEIRA FERREIRA *
[25/07/1925 - 04/02/2017]

[Georgette Ferreira || 1959 || in João Céu e Silva, Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido, Edições ASA, 2006]

A 1.ª mulher a evadir-se enquanto presa política 

Nasceu em Alhandra a 25 de julho de 1925. 

Filha de Joaquina de Oliveira Ferreira e de Augusto Ferreira, trabalhadores rurais com muitas dificuldades económicas, teve de ir viver com os padrinhos e começou, com apenas oito anos, a trabalhar na agricultura. 

Posteriormente, trabalhou como operária na Juta – Sociedade Têxtil do Sul, Lda. Embora o pai fosse republicano, foi o padrinho que a “esclareceu politicamente e que me levou, com o seu exemplo, a aderir à causa antifascista” [As Mulheres de Alhandra na Resistência. Anos quarenta, século XX, Porto, Editora Ausência, 2005, p. 100]. 

Tal como as irmãs Sofia [1922-2010] e Mercedes Ferreira [n. 1928], desde muito nova que se evidenciou enquanto militante, e posteriormente dirigente, do Partido Comunista Português, a que aderiu na década de 40, quando era operária têxtil, tendo o relacionamento com Alves Redol [29/12/1911-29/11/1969], Carlos Pato [21/12/1920-26/06/1950] e Soeiro Pereira Gomes [14/04/1909-05/12/1949], entre outros nomes locais, muito contribuído para a sua formação política. Interveio, em 1943, na luta pela criação de uma secção do Sindicato das Costureiras em Vila Franca. 

No ano seguinte, foi uma das organizadoras em Alhandra e Vila Franca de Xira das greves de 8 e 9 de maio de 1944 e da marcha do dia 8, que culminou com a prisão de várias mulheres nas Praças de Touros de Vila Franca de Xira e do Campo Pequeno, tendo algumas sido remetidas, a 11, para Caxias, onde permaneceram até Agosto. 

Em 1945, tal como as duas irmãs, passou à clandestinidade, vivendo como “companheira” de António Assunção Tavares, operário da Fábrica Cimentos Tejo e forçado a “mergulhar” na sequência do movimento grevista de 1944: apenas um irmão, o mais velho, não teve atividade política e, por isso, acabou por ser o único a dar apoio, com a mulher, aos pais já idosos, circulando as informações familiares com muita dificuldade e morosidade. 

Escapou, em 28 de agosto de 1945, de ser presa na casa da Lapa, onde vivia com o companheiro e, em 1946, participou com Cândida Ventura [n. 1918] no II Congresso Ilegal do PCP realizado na Lousã. 

Detida pela PIDE às três horas da madrugada de 17 de dezembro de 1949 com António Dias Lourenço [25/03/1915-07/08/2010], na casa de Monte de Moraventos, concelho de Palmela. Recolheu ao Forte de Caxias, onde conviveu na mesma cela, ainda que por poucos dias, com Cecília Areosa Feio [05/12/1921-08/02/1980], Maria Lamas [06/10/1893-06/12/1983] e Virgínia Moura [19/07/1915-19/04/1998]. 

Durante a reclusão, em resultado da alimentação a doença de estômago de que padecia agravou-se, conseguindo, devido à solidariedade dos outros presos, ser levada de urgência para o hospital; e recebeu correspondência de Álvaro Cunhal [1913-2005], preso na Penitenciária de Lisboa, da qual extratos de uma carta de 3 de setembro de 1950 foram publicados no boletim 3 Páginas. 

Evadiu-se, em 4 de Outubro de 1950, do Hospital de Santo António dos Capuchos, depois de a fuga ser devidamente planeada com o seu Partido, a família, o médico Arménio Ferreira [1920-2002] e o camarada que a esperava com um carro cá fora e a transportou para uma casa clandestina em Lisboa. Daqui passou para o Comité Local do Porto, posteriormente teve responsabilidades na organização de Lisboa e integrou o Comité Central entre 1952 e 1988.

Participou, em março de 1954, na V Reunião Ampliada do Comité Central do Partido Comunista e voltou a ser detida em dezembro desse ano, num encontro com Jaime Serra, quando ambos trabalhavam na organização da capital. 

Condenada, em 1957, a três anos e medidas de segurança, gerou enorme movimento de solidariedade para que as cumprisse em liberdade. 

Libertada somente em 1959, partiu clandestinamente para a Checoslováquia, saindo do país por Chaves, a convite da organização de mulheres do país e lá curou a sua doença pulmonar, percorrendo vários sanatórios até 1962. Aí conviveu com José Gregório [19/03/1908-10/05/1961], que também estava naquele país em tratamento, e a sua companheira Amélia Fonseca do Carmo. 

Representou Portugal, juntamente com Maria Lamas, no Congresso Mundial das Mulheres de 1963. 

Passou depois por Paris, onde viveu quase três anos, e regressou à luta clandestina em Portugal, encontrando-se na região de Setúbal aquando do 25 de Abril de 1974. 

Usou o pseudónimo “Paiva”. 

Após a revolução, foi uma das deputadas comunistas na Assembleia da República. 

Antónia Balsinha incluiu o seu nome no estudo pioneiro que fez sobre o papel das mulheres de Alhandra na resistência ao fascismo nos anos 40, tendo-a entrevistado a 30 de setembro de 2000.

[João Esteves]

[0702.] MERCEDES DE OLIVEIRA FERREIRA [II]


- MERCEDES DE OLIVEIRA FERREIRA -
[1949]

- BIGRAFIA PRISIONAL - 
[Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista, Presos Políticos no Regime Fascista V – 1949-1951, 1987]

sábado, 5 de julho de 2014

[0701.] MERCEDES DE OLIVEIRA FERREIRA [I]

* MERCEDES DE OLIVEIRA FERREIRA *
[n. 09/12/1928]
[1958]
[Pormenor de fotografias de família, in João Céu e Silva, Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido, Edições ASA, 2006]

Ajudante de costureira, natural de Vila Franca de Xira. 

Filha de Joaquina de Oliveira Ferreira e de Augusto Ferreira, a mais nova das irmãs Ferreira nasceu a 9 de dezembro de 1928 e, tornou-se, tal como as irmãs Sofia de Oliveira Ferreira [1922-2010] e Georgette de Oliveira Ferreira [n. 1925], militante e funcionária do Partido Comunista Português na década de 1940. 

Começou a trabalhar muito nova e, tal como o irmão mais velho e as duas irmãs, não estudou “porque os meus pais trabalhavam no campo e lá não havia onde estudar”, como declarou a João Céu e Silva. 

Em setembro de 1945, com apenas 16 anos, terá passado à clandestinidade ao acompanhar o namorado – António Eusébio Bastos Lopes [08/08/1924-05/11/2007] –, carpinteiro natural de V. Franca de Xira. 

Desenvolveu atividade partidária nas zonas do Porto (1945-1947) e de Lisboa e tinha 20 anos quando foi presa com ele, e o casal Casimira da Conceição Silva [08/09/1917-05/01/2009] e José Augusto da Silva Martins [08/10/1912-1956], na tipografia de Coimbrão (Leiria) durante o assalto perpetuado pela PIDE na madrugada de 9 de abril de 1949. 

Recusou-se a prestar quaisquer declarações, incluindo a identificação, o que lhe valeu ser insultada e agredida, aparecendo na sua ficha policial o nome de Odete Nunes.

Recolheu ao Forte de Caxias. Condenada a 18 meses, ficou detida dois anos e meio, chegando a estar na mesma cela que a irmã Sofia. Foi libertada em outubro de 1951, enquanto o companheiro só saiu em 1955, ao fim de quase sete anos de prisão. 
[1963]
[Pormenor de fotografias de família, in João Céu e Silva, Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido, Edições ASA, 2006]

Em 1965, temendo o risco de prisão, Mercedes, o marido e os dois filhos pequenos partiram para o exílio: Argélia; Checoslováquia, onde ficaram três anos e meio, até 1969; e, finalmente, França, onde o irmão já se encontrava emigrado.

Em 1949 e 1950, Sofia, Georgette e Mercedes de Oliveira Ferreira chegaram a estar presas em simultâneo, embora tivessem sido detidas em diferentes pontos do país.

[João Esteves]