[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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segunda-feira, 24 de abril de 2023

[3283.] ASSOCIAÇÃO FEMININA PORTUGUESA PARA A PAZ || DECISÕES DA DIREÇÃO - 08/07/1948

 * ASSOCIAÇÃO FEMININA PORTUGUESA PARA A PAZ *

DECISÕES DA DIREÇÃO || 08/07/1948

[AFPP || 08/07/1948]

DIREÇÃO 1948-1948

- Maria do Carmo Rosendo Dias: Presidente.
- Maria Amália Medeiros: Vice-Presidente.
- Maria Isabel Soares: 1.ª Secretária.
- Maria Suzete Gomes: 2.ª Secretária.
- Maria Helena Correia: Tesoureira.
- Branca Macedo: 1.ª Vogal.
- Clarisse Oliveira: 2.ª Vogal.

[João Esteves]

segunda-feira, 2 de maio de 2022

[2814.] MARIA BARROSO || INSCRIÇÃO NA ASSOCIAÇÃO FEMININA PORTUGUESA PARA A PAZ - 1942

 * MARIA DE JESUS SIMÕES BARROSO *

[1925 - 2015]

NO 97.º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE MARIA BARROSO (02/05/1925 - 07/07/2015)

Boletim de inscrição na AFPP || Julho de 1942

Maria de Jesus Simões Barroso foi uma das numerosas estudantes universitária que aderiu à Associação Feminina Portuguesa para a Paz (AFPP) criada em 1935 e proibida pela Ditadura em 1952.

Tinha 17 anos, era estudante da Faculdade de Letras e também aparece referenciada como actriz.

Criada em 1935, a Associação Feminina Portuguesa para a Paz revelou-se, até 1952, quando foi proibida pelo Estado Novo, uma agremiação que extravasou a ideia inicial de defesa da paz mundial, num momento em que ela estava ameaçada, e conseguiu mobilizar, em Lisboa, no Porto e em Coimbra, muitas centenas de mulheres ligadas à oposição, transformando-se numa relevante agremiação antifascista.

[João Esteves]

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

[2594.] MARIA BARREIRA || 1914-2010

 * MARIA BARREIRA *

[1914 - 2010]

Artista plástica e professora, Maria Barreira integrou o Movimento de Unidade Democrática e a Associação Feminina Portuguesa para a Paz, tendo sido afastada do ensino oficial devido ao seu posicionamento antifascista.

Reprodução comprada numa sessão política nocturna muito acalorada realizada, talvez, em Junho/Julho de 1974, no Liceu D. Leonor.


[João Esteves]

domingo, 3 de janeiro de 2016

[1294.] MARIA DA GRAÇA SIMÕES DE CARVALHO DÓRIA (COCHOFEL) [I]

* MARIA DA GRAÇA DÓRIA [COCHOFEL] *
[02/04/1922 - ]

[1946 || Av. da Liberdade]
[Pormenor de uma reprodução inserida na Fotobiografia de José Gomes Ferreira, da autoria de Raúl Hestnes Ferreira, encontrando-se ladeada de José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, João José Cochofel e Ângela de Oliveira || Publicações Dom Quixote, 2001]

Maria da Graça Dória integrou, nos anos 40, o grupo de inteletuais antifascistas de Coimbra, sendo que até agora tem sido dado escasso relevo à componente feminina. No entanto, mais de uma centena de mulheres procurou formar, em 1946, uma Delegação do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e havia na mesma cidade um núcleo ativo da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, sendo a sua última presidente Gabriela Monjardino de Azevedo Gomes Nemésio [1900-1980].

Filha de Jaime Castanhinha Dória [Coimbra, 09/04/1895 – Coimbra, 09/06/1956] e de Irene Simões de Carvalho Dória [Coimbra, 12/03/1896 – Coimbra, 14/03/1972], nasceu em Coimbra em 2 de Abril de 1922 e faleceu no Porto. 

Casou, em 2 de maio de 1942, com João José de Melo Cochofel Aires de Campos [Coimbra, 17/07/1919 – Lisboa, 14/03/1982], intelectual comunista na década de 40. 

Maria da Graça Dória Cochofel integrou o numeroso grupo de mulheres da região centro que, em 1946, subscreveu o documento solicitando a Maria Lamas, na qualidade de Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a formação de uma delegação em Coimbra. 

Já a viver em Lisboa, aderiu à Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde desempenhou as funções de 1.ª Vogal do Conselho Fiscal (1950) e Vice-Presidente da Direção (1951). 

Irmã de Maria Vitória Simões de Carvalho Dória [18/07/1917 – 29/11/2008] que casou, em 22 de Agosto de 1940, com Ivo da Veiga Cortesão [Figueira da Foz, 05/09/1910 – Coimbra, 16/01/2001]. Nora de Maria Albina de Manique e Melo Cochofel [12/09/1887 - 29/10/1947] que também integrou a Delegação de Coimbra do CNMP. 

Viúva, Maria da Graça Simões de Carvalho Dória casou, em 23 de Fevereiro de 1990, com Rui Feijó [Rui Maria Malheiro de Távora de Castro Feijó, 25/03/1921 - 15/05/2008].

[João Esteves]

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

[1291.] CÂNDIDA RIBEIRO GASPAR (CARAÇA) [I] || 1917 - 2003

* CÂNDIDA RIBEIRO GASPAR [CARAÇA] *
[04/10/1917 – 05/03/2003]

[Cândida Ribeiro Gaspar (Caraça) || 1945 || Casa Comum/FMS]

Embora insuficientemente referenciada, Cândida Ribeiro Gasparfoi uma lutadora corajosa” e denodada antifascista, tendo colaborado “em inúmeras iniciativas durante os anos negros da ditadura” [João Caraça].

Filha de Maria Palmira Ribeiro e de Manuel Gaspar, nasceu em 4 de Outubro de 1917, em Ramalhal, terra perto de Torres Vedras, e faleceu em 5 de Março de 2003, com 85 anos de idade.

Licenciou-se em Ciências Económicas e Financeiras pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), onde conheceu Bento de Jesus Caraça [Vila Viçosa, 18/04/1901 – Lisboa, 1948] com quem casou em 25 de Agosto de 1943, depois de concluído o curso.

Na década de 1940, integrou o relevante grupo de intelectuais antifascistas que se reunia nos passeios de barco pelo rio Tejo, sendo de referir os nomes femininos de Cândida Ventura [30/06/1918-16/12/2015], Lídia Monteiro [n. 31/10/1910], casada com António Aniceto Monteiro, Maria do Pilar Baptista Ribeiro [05/10/1911-28/03/2011, casada com Hugo Baptista Ribeiro [16/05/1910-1988], Maria Helena Correia Guedes, Maria Lucília Estanco Louro [n. 27/01/1922], Maria Olívia, Stella Fiadeiro (depois, Stella Biker Correia Ribeiro Piteira Santos) [01/06/1917-22/01/2009] e Virgínia Redol.

Nos anos de 1940, militou na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde desempenhou as funções de 2.ª Suplente (1944-1945) do Conselho Fiscal, sendo 1.ª Suplente Maria Lucília Estanco Louro, e associou-se à criação do Movimento de Unidade Democrática.

Interveio, no mesmo período, no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas quando este passou a ser dirigido por Maria Lamas (1945-1947) [Célia Rosa Batista Costa, 2007].

Em 1949, já viúva e empregada nos serviços mecanográficos da Federação das Caixas de Previdência, viu-se impedida de ser promovida a chefe de divisão por informação desfavorável da PIDE, que a considerava influenciada “pelo marido para as ideias comunistas, razão pela qual não deveria continuar no emprego” [Irene Pimentel, A história da PIDE, 2007, p. 91].

Casou, em 16 de Setembro de 1954, com António de Seixas da Costa Leal (1921-2007), passando a assinar como Cândida Ribeiro Gaspar da Costa Leal.

O Arquivo da Fundação Mário Soares contém vasta documentação referente ao casal Cândida e Bento de Jesus Caraça, disponibilizada pelo filho de ambos, João Manuel Gaspar Caraça

Dispõe, igualmente, de fotografias de diversas proveniências, nomeadamente do casal Bento de Jesus Caraça - Cândida Ribeiro Gaspar.

Agradece-se ao Dr. João Caraça alguns dados sobre sua Mãe.

[João Esteves]

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

[1258.] MARIA EUGÉNIA CUNHAL [I] || 1927 - 2015

* MARIA EUGÉNIA CUNHAL *
[17/01/1927 - 10/12/2015]

Filha de Mercedes Simões Ferreira Barreirinhas 05/05/1888 - 12/09/1971] e de Avelino Henriques da Costa Cunhal [28/10/1877 - 19/12/1966], advogado nascido em Seia, e irmã de Álvaro Cunhal, Maria Eugénia Cunhal nasceu em Lisboa em 17 de Janeiro de 1927.

Presa em 2 de Fevereiro de 1945, quando tinha apenas 18 anos, como forma de pressionar a família e o irmão, então muito procurado pela PIDE, seria libertada durante a noite em resultado da atitude da mãe, que se recusou a abandonar a sede da polícia política sem levar a filha. Tal procedimento por parte da PIDE, que também deteve o pai, mas por vários meses, esteve na origem de uma carta denúncia de Álvaro Cunhal ao Ministro da Justiça. 


14 anos mais nova do que o irmão, acompanhou-o sempre na atividade cívica e política e, para além da militância comunista, Maria Eugénia Cunhal aderiu muito nova ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, tendo participado em várias reuniões sob a direção de Maria Lamas, e fez parte da Associação Feminina Portuguesa para a Paz. 

Mãe de Pedro [08/09/1950 - 1999], Miguel [1951-2006: publicou, em 1999 e 2001,  Esboços - Antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo], Duarte e Joana, os dois primeiros prematuramente desaparecidos. 

Em 13 de Junho de 2006, Júlia Coutinho, no seu blogue As causas da Júlia, publicou a seguinte carta de Álvaro Cunhal para Maria Eugénia e que, com a devida vénia, aqui se transcreve:

«Moscovo, 1 de Março de 1966

Minha muito querida irmã:

Terríveis notícias me chegaram nos últimos tempos: o suicídio do Fernando [Fernando Manuel da Rocha Medina (15/03/1924 - 09/09/1965), médico psiquiatra], a Morte do Pai. Que te posso dizer das lágrimas que chorei e choro, e de todas as razões delas, e das mil inquietações para que não tenho resposta? Por via indirecta, recebi as duas notícias. Secas, sem qualquer referência a mais. Nada mais sei, a não ser o que suponho.

A grande distância, o não ter visto mais o Pai, o não ter podido dizer-lhe um último adeus e uma última palavra, são dores irreparáveis. Sofreste mais de perto, querida irmã, mas não isto. E o que ele terá sofrido. Esforçado e paciente decerto, mas decerto também inconformado e profundamente triste. Perdemos a pessoa que mais nos amava, que melhor nos compreendia e a quem devemos elevadas lições de honestidade e isenção pessoal. Por isso não perdemos tudo. Apenas lamento, se ele o não sabia.

Chorando os mortos, penso nos vivos, querida, muito querida irmã. Penso em ti, na mãe cega, nos teus filhos, na vossa situação. Que posso eu fazer por vós? Eu sei (e é necessário que tu saibas também) que algo posso fazer. Continuo a ser o teu irmão infinitamento amigo, o teu irmão de sempre. Conta comigo, querida irmã. 

À nossa pobre mãe, diz que vos escrevi algumas linhas, que sofro por não vos ter dado o muito que gostaria de dar-vos e que por isso me perdõem, se é coisa de perdoar. Diz-lhe mais, atribuindo-me a mim, todas aquelas palavras que entendas que a podem auxiliar. Do coração to agradeço, a ti a quem coube o leme de tão amargas situações.

Neste momento, quero dizer-te alguma coisa mais: olha para o futuro! Não descreias da vida e da alegria! Tem forças para recomeçar, se de recomeçar se trata!

Peço-te, querida irmã, que procures escrever-me algumas palavras, se não do que se passou (por te ser demasiado penoso) ao menos do que se passa. Eu não sei se esta carta te chegará às mãos, dada a pessoa que a escreve, dado o país de onde vai e dado que nem certo estou dos endereços para onde a envio (que em tempos me disseram ser o teu e o do Pai). Tenho porém uma certa esperança em que a venhas a receber. E, se a receberes, tenta escrever-me. A direcção é simples: 
URSS - Moscovo 132
Hotel
Álvaro Cunhal

É o bastante e, tratando-se como se trata, de questões familiares e questões desta natureza, pode ser que a tua carta me chegue.

Querida, muito querida irmã: um grande, grande abraço, aquele que gostaria de poder dar-te neste momento de profunda tristeza.
Repito ainda: não desanimes, olha em frente, olha para a vida e confia.
Com a imensa ternura do teu irmão
Álvaro»

[Jornal de Letras, Junho de 2004 || Fotografia de João Ribeiro]

Em Junho de 2004, Maria Leonor Nunes publicou no Jornal de Letras o texto "Maria Eugénia Cunhal: Palavras resistentes".

[Jornal de Letras, Junho de 2004]

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

[1194.] ETELVINA LOPES DE ALMEIDA [IV] || 1916 - 2004

* ETELVINA LOPES DE ALMEIDA *
[Serpa, 17/03/1916 – Tábua, 30/04/2004]


[Fontanelas]

O nome de Etelvina Lopes de Almeida merece atenção não só pelo percurso profissional e enquanto escritora, mas também enquanto lutadora pelos direitos das mulheres, oposicionista à Ditadura e construtora de um país livre, nunca, mesmo em tempos difíceis, sombrios e adversos, deixando de intervir enquanto cidadã.

Nascida em 1916, em Serpa, filha de dois professores primários, fez a instrução primária em Idanha-a-Nova e, depois de um percurso atribulado, a família fixou-se em Lisboa, tendo então frequentado o Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho e um colégio interno, em Queluz. 

Naquele Liceu foi aluna de Olímpia Perry Vidal Pereira Bastos - filha do republicano e militar João Pereira Bastos - que tinha sido ativista, quando estudante, da Associação de Propaganda Feminista e que militou, na década de 40, no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas [integrou, entre 1940 e 1943, a Secção de Literatura, com as ativistas Leontina Hogan, Maria da Luz Albuquerque, Maria da Luz de Deus, Maria Lamas e Teresa Leitão de Barros]. 

Afirmou-se profissionalmente na Rádio Renascença e, seguidamente, na Emissora Nacional, onde foi afastada por motivos políticos, tendo ainda sido chefe de redação da revista Modas & Bordados, onde colaborou e trabalhou com Maria Lamas.

Enquanto mulher atenta aos problemas e dificuldades das outras mulheres, aderiu, em 1945, ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido por Maria Lamas e onde Sara Beirão tinha tido igualmente um papel relevante.

Assistiu a várias reuniões, disso dando conta as respetivas atas, esteve representada com O tontinho da esquina na Exposição Livros Escritos por Mulheres, iniciativa do Conselho realizada na Sociedade Nacional de Belas Artes em Janeiro de 1947, e participou nas conferências então realizadas, juntamente com Maria Lamas, Fernanda Tasso de Figueiredo, Maria Palmira Tito de Morais, Maria Helena Lucas, Alice Maia Magalhães, Maria Alda Nogueira, Joana Campino Miguel, Carmen Dolores, Manuela Porto, Maria da Luz Espírito Santo, Maria Valentina de Sousa, Maria Teresa Ana de Neves, Benvinda Caires e Amália Neves.

No dia 8 de Janeiro, Etelvina Lopes de Almeida e Carmen Dolores leram textos e declamaram poemas de várias autoras, cujos perfis foram esboçados por Joana Campina Miguel.

Terá militado também na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, ambas agremiações encerradas e proibidas pela Ditadura.

A sua consciência política levou-a a enfrentar publicamente essa mesma Ditadura: aderiu, em 1945, ao MUD – Movimento de Unidade Democrática; subscreveu, em 1948, um documento a solicitar o fim da censura e a libertação dos presos políticos, sendo, por isso mesmo, afastada da Emissora Nacional no ano seguinte; participou nas campanhas de Norton de Matos e do general Humberto Delgado; e, em 1962, denunciou a Guerra de África, sendo, então, demitida da revista Modas & Bordados.

Foi ainda, segundo Maria Antónia Fiadeiro, uma mulher generosa, solidária e amável, nomeadamente aquando da prisão de Stella Piteira Santos em 1961.

Se a adesão ao associativismo feminino e as iniciativas contra a Ditadura já bastariam para que o nome de Etelvina Lopes de Almeida ficasse registado na História, em 1969 integrou o grupo restrito de mulheres que fizeram parte das listas da oposição candidatas à Assembleia Nacional.

Depois de Lília da Fonseca ter sido o primeiro nome feminino a integrá-las em 1957, Etelvina Lopes de Almeida fez parte, juntamente com Joana de Barros e Sophia de Mello Breyner Andresen, das listas da CEUD dinamizadas por Mário Soares, colaborando e discursando em inúmeras iniciativas que os jornais República e Diário de Lisboa destacaram.

Na Fundação Mário Soares há várias fotografias dessa época e em que é percetível a presença de Etelvina Lopes de Almeida.

Tinha então 53 anos e era, a seguir a Raúl Rego, a candidata mais velha pelo círculo de Lisboa.

Em todo o país, foram apenas 11 as mulheres candidatas pela Oposição, sendo somente 25 as que integraram as suas listas entre 1945 e 1974.

O 25 de Abril de 1974 apanhou-a com 58 anos feitos, tendo Etelvina Lopes de Almeida continuado a revelar-se uma cidadã empenhada, interveniente e militante.

Foi reintegrada na Rádio em 26 de Julho de 1974, passou a chefiar, em 1975, o departamento da RDP Internacional e aderiu ao Partido Socialista, tendo sido uma das primeiras mulheres a ser eleita deputada para a Assembleia Constituinte de 1975 (cerca de 9% de mulheres) e, nas eleições subsequentes, para a Assembleia da República, sempre pelo distrito de Évora.

Numa intervenção feita na Assembleia Constituinte afirmou que a sua vida de antifascista começou aos 16 anos, «visitanto presos nas cadeias», tendo a sua mãe sido professora de Francisco Miguel e outros comunistas eleitos deputados «fizeram antifascismo dentro da minha casa com o meu pai» [fotocópia do Diário da Assembleia Constituinte cedida pela Dr.ª Edite Estrela].

Em 1993, presidiu em Estrasburgo a uma sessão do parlamento Europeu para idosos, de que resultou a Carta Europeia para os Idosos.

Revelou-se igualmente como escritora, tendo o conto Maria Verdade, editado em 1952, sido muito bem acolhido pela crítica e estado na origem de uma peça de teatro representada no Teatro de S. Luís.


Escreveu, ainda, Bia Calatroia, «a história de uma mulher sofrida, igual a tantas outras» centrada no Alentejo (1948), Histórias que o mundo conta, bem como o conhecido ABC da Culinária, apreendido pela PIDE na grande confiscação feita nos armazéns da editora Europa-América.


Enquanto escritora, integrou, em 1959, a direção da Sociedade Portuguesa de Escritores presidida por Jaime Cortesão.

Em 1995, foi agraciada pelo Presidente da República Mário Soares com a Comenda da Ordem de Mérito

Fez parte da Associação das Mulheres Socialistas, que a homenageou em 1994, e manteve a mesma militância política até ao fim, tendo dedicado os últimos anos de vida à Fundação Sara Beirão – António Costa Carvalho, em Tábua, instituição fundada por si e pelo amigo e correligionário Igrejas Caeiro

Diga-se, num aparte, que Sara Beirão foi uma das militantes da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas em Tábua, ainda antes da implantação da República, e integrou a direção do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas nos anos 30 e 40.

Em 2001, três anos antes do seu desaparecimento físico, Etelvina Lopes de Almeida declarou num autorretrato feito para a revista Faces de Eva que «Não lamento nada do que me aconteceu. Quero que se saiba que não trocava a minha vida por nada».

Faleceu em 2004, a 30 de Abril, em Tábua, 20 anos depois de se ter aposentado da RDP.

[João Esteves ||
19 de Novembro de 2015]

sábado, 15 de agosto de 2015

[1068.] CLAUDINA GAUDÊNCIO [I] || CNMP E AFPP

* CLAUDINA DE ALMEIDA HENRIQUES GAUDÊNCIO *

[n. 22/04/1907]



Filha de Felicidade de Almeida e de Honorato Henriques, nasceu em Lisboa a 22 de Abril de 1907.

Casada com Amadeu Gaudêncio [04/04/1889 - 13/10/1980], aderiu em 1945 ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, onde, segundo estudo de Célia Costa, marcou presença em quinze das reuniões realizadas entre Novembro de 1945 e Junho de 1947.

No início da década de 50, militou na Associação Feminina Portuguesa para a Paz. Desempenhou, em 1951, as funções de 1.ª Vogal do Conselho Fiscal.

Madrasta de Maria da Conceição Gaudêncio [Soares], casada com Tertuliano Lopes Soares, médico-cirurgião, irmão mais velho de Mário Soares, e de Josefina Gaudêncio [Simões], casada com o arquitecto João Simões [1908-1995], tendo ambas aderido ao CNMP, então presidido por Maria Lamas, no mesmo ano de 1945 [“Novas sócias”, Alma Feminina, nº 14, Novembro, 1945].

Josefina Gaudêncio Simões, mãe da arquitecta Maria João Gaudêncio Simões George [1948-2006], participou em algumas das reuniões do CNMP em conjunto com Claudina Gaudêncio e militou no mesmo período na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde desempenhou, entre 1948 e 1951, cargos nos Corpos Gerentes: 2.ª Vogal da Direcção (1948), Vice-Presidente da Assembleia Geral (1949, 1950) e 2.ª Secretária da Direcção (1951).

Emília Gaudêncio, sobrinha de Claudina Gaudêncio, também aderiu ao CNMP em 1945.

[João Esteves]

terça-feira, 11 de agosto de 2015

[1061.] LÍLIA DA FONSECA [I] || 1906 - 1991

* MARIA LÍGIA VALENTE DA FONSECA SEVERINO *
[21/05/1906 - 13/08/1991]

[Fotografia publicada em Faces de Eva, nº 9, 2003, cedida pela irmã Hortense de Almeida]

Jornalista, publicista e escritora que ficou conhecida pelo pseudónimo literário de Lília da Fonseca.

Filha “de uma angolana natural de Luanda” [Hortense de Almeida] e de um republicano e maçon, nasceu em 21 de Maio de 1906, “e não em 1916 como sempre declarou nos seus dados biográficos” [H. de Almeida], em Benguela. [O Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV (Coordenação de Ilídio Rocha), Publicações Europa-América, 1997, pp. 607-608, apresenta a mesma data de nascimento].

Estudou em Coimbra, no Liceu Infanta D. Maria, e no Porto, na Escola Carolina Michaëlis.  

Foi redactora de A Província de Angola e Jornal de Angola; colaborou nos periódicos Acção, Jornal de Benguela, Modas & Bordados, Os Nossos Filhos e Seara Nova; e idealizou e dirigiu, entre 1950 e 1956, o Jornal-Magazine da Mulher, concretizando o projecto de publicar uma revista mensal dedicada aos problemas das mulheres portuguesas. 

Lília da Fonseca era também um dos proprietários deste magazine, sendo o trabalho de feitura e coordenação efectuado na sua casa, “posto que os meios financeiros para o empreendimento eram muito escassos e não consentiam despesas com instalações próprias” [Gastão de Vasconcelos], e contou com o apoio e a colaboração de intelectuais ligados à oposição à ditadura e que tinham aderido ao Movimento de Unidade Democrática, nomeadamente Alberto Ferreira, Clara Sérgio, Humberto d’Ávila, Lima de Freitas, Nascimento Rodrigues e Gastão de Vasconcelos [Gastão de Vasconcelos, "Jornal-Magazine da Mulher", Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), Lisboa, Livros  Horizonte, 2005].

No editorial de apresentação, explicava-se o seu aparecimento, pretendendo proporcionar uma leitura de temas relacionados com a mulher, “a que coopera com o homem na luta pelas condições de vida, na educação dos filhos, nas melhorias do trabalho”.  Começou com 30 páginas, a partir de 1954 passou a ter 48 e, até Fevereiro de 1956, saíram 52 números, sendo que a partir do nº 49, de Setembro de 1955, passou a chamar-se apenas Jornal Magazine, numa tentativa de chegar a um público mais vasto. 

Não deixa de ser relevante a qualidade dos colaboradores deste projecto de Lília da Fonseca, quase todos oposicionistas, referidos por Gastão de Vasconcelos no seu texto para o Dicionário no Feminino: «no conto, Miguel Torga, Fernando Namora, Manuela de Azevedo, José Saramago, Alexandre Cabral, Manuela Porto (prematuramente falecida, infelizmente); em artes e letras, José Régio, Alves Redol, Ilse Losa, Carlos Oliveira, Nascimento Rodrigues; ilustradores, foram Júlio Pomar, Lima de Freitas, Querubim Lapa; sobre teatro, Jacinto Ramos, Fernando Gusmão, Maria Barroso; sobre música, Humberto d’Ávila, João de Freitas Branco, Francine Benoit... No desporto e campismo, encontramos Fernando de Almeida, enquanto em assuntos sobre as “colónias”, escreveram a directora, Lília da Fonseca, Alda Sara, Augusto Casimiro; questões jurídicas foram tratadas por Luz Pinheiro. Foram ainda colaboradores (entre muitos outros, repita-se) José Marinho, Graça Brosque, Isaura Correia Santos». 

É de destacar que o periódico inseriu um depoimento de Maria Barroso sobre a Associação Feminina Portuguesa para a Paz e abordou o caso das enfermeiras dos Hospitais Civis que então não eram autorizadas a casar.

A par do jornalismo, sendo autora de crónicas e de reportagens, publicou, durante mais de 30 anos, novelas, romances, contos, poesias, literatura infantil, onde se notabilizou, e peças de teatro, tendo-lhe sido atribuído, em 1960 e 1963, o Prémio João de Deus. 

Fundou a Cooperativa «Ludus», de livros infantis, e dedicou-se à arte das marionetas, consubstanciada na fundação do Teatro de Branca Flor em 1962 [História do Teatro de Branca-Flor nos seus 20 anos de existência (1962-1982), 1982] e, no seu seio, do Centro de Animação de Fantoches. 

Data da década de 40, quando se fixou definitivamente em Lisboa, a defesa de posições políticas de esquerda e o engrossar da oposição à Ditadura do Estado Novo. 

Na segunda metade da década de 40, durante a presidência de Maria Lamas, militou activamente no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, tendo, segundo o estudo de Célia Costa, participado em 37 reuniões realizadas entre 10 de Novembro de 1945 e 26 de Junho de 1947, número só superado por Fernanda Tasso de Figueiredo. Algumas das suas obras estiveram expostas na Exposição de Livros Escritos por Mulheres organizada pelo Conselho em 1947. 

Assinou na revista Alma Feminina, órgão do CNMP, um artigo sobre o sufrágio feminino [“O voto da mulher”, Alma Feminina, nº 14, Novembro, 1945, pp. 8-9]. Neste texto, e a propósito do que se passava em França, Lília da Fonseca não só considerava que “quando os governos de todo o mundo forem mistos, é possível que diminua a possibilidade da guerra”, como defendeu, para Portugal, o direito da mulher poder votar nas mesmas condições que o homem. No mesmo escrito, apelou à sua consciência cívica, que não se devia limitar à futilidade dos chás de caridade e das esmolas, “dadas muito embora com carinho e devoção”.

Também marcou presença na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, tendo assinado um escrito sobre a Paz no seu Boletim [“A Paz pela transformação do homem”, Boletim da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, nº 7, Julho, 1950]. 

A seguir ao fim da Guerra, em Novembro de 1945, foi signatária de um manifesto de intelectuais em que se protestava contra «as limitações de toda a espécie» de que a sua actividade era objecto [Mário Matos e Lemos, Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973). Um Dicionário, Texto Editores, 2009].

Em 1957, com a médica Cesina Bermudes e a escritora Natália Correia, fez parte da Comissão Cívica Eleitoral de Lisboa, que procurava dar enquadramento legal à oposição nas eleições que se avizinhavam. Aquela Comissão organizou, a 4 de Janeiro de 1958, um jantar de homenagem a Lília da Fonseca, a que compareceram cerca de 120 pessoas, entre as quais Cesina Bermudes, e durante o qual se procurou acordar numa estratégia comum para a escolha de um candidato presidencial de toda a oposição, tendo a escritora integrado, posteriormente, a Comissão Central da Candidatura de Arlindo Vicente [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política – O Prisioneiro (1949-1960), Vol. 3, Lisboa, Temas e Debates, 2005].

Em 21 de Abril de 1960, proferiu uma conferência na Casa dos Estudantes do Império intitulada "O jornalismo em Angola", tendo já em 1948 estado associada ao Movimento dos Novos Intelectuais de Angola [MNIA], que tinha como lema "Vamos descobrir Angola", onde trabalhou ao lado de outros poetas e escritores, nomeadamente Cochat Osório.

Em 1969, participou no grupo restrito de dez  mulheres que formaram a Comissão Democrática Eleitoral de Mulheres e fez parte da Comissão Distrital da CDE de Lisboa. 

A partir de 1977, e até ao seu falecimento, integrou o Conselho Nacional do Movimento Democrático de Mulheres.

Faleceu em Alverca do Ribatejo, com 85 anos de idade, deixando “um conjunto de 23 obras” inéditas. 

Hortense de Almeida testemunha o que foi a sua vivência em texto publicado na revista Faces de Eva [Hortense de Almeida, “Pioneiras - Lília da Fonseca”, Faces  de Eva. Estudos sobre a Mulher, nº 9, 2003, pp. 167-174, 2003]. 

[João Esteves]

quinta-feira, 2 de julho de 2015

[1013.] ARMANDA DA CONCEIÇÃO SILVA MARTINS [I] || 1919 - 1955

* ARMANDA DA CONCEIÇÃO SILVA MARTINS FORJAZ DE LACERDA *

[1919-1955]

Eis um nome e uma família de importância indiscutível na luta contra a ditadura do Estado Novo, ainda que insuficientemente referenciado, tendo Armanda Lacerda sido sócia da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, militado clandestinamente no Partido Comunista e, nesse âmbito, sido presa em 1945, dez anos antes do seu falecimento precoce.


Filha de Maria Josefina da Conceição Rocha e Silva e de José Martins Pacheco, grande proprietário rural, Armanda da Conceição Silva Martins nasceu em Nogueira do Cravo, Oliveira de Azeméis a 26 de Fevereiro de 1919 e desposou Miguel Pereira Sarmento Forjaz de Lacerda [28/12/1913-20/04/1993]. 

Militante comunista na década de 40 e sócia nº 301 da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, Armanda Lacerda constitui um exemplo paradigmático da importância das teias familiares na intervenção política e associativa das mulheres, nomeadamente sob a ditadura.

Pertencia a uma família muito politizada, com vários intervenientes na luta política ativa: os irmãos José Augusto [08/10/1912-1956] e Júlio da Conceição Silva Martins e o marido eram importantes quadros e dirigentes do Partido Comunista; a sogra, Adélia Augusta Gonçalves de Morais e Castro [n. 09/12/1889], era irmã de Amílcar Gonçalves de Morais e Castro [n. 22/05/1896], casado com Irene Fernandes Morais Castro [05/09/1895-28/07/1975] que teve um papel relevante na Delegação do Porto da AFPP, tendo sido a sua última presidente [1949-1952]; o marido, Miguel Pereira Sarmento Forjaz de Lacerda, era, assim, primo de Armando, Raúl e Amílcar de Castro, cujas esposas, respetivamente Maria Virgínia Castro, Maria Carolina Campos e Maria Adelaide Lima Oliveira Ribeiro, eram igualmente sócias da mesma associação; as irmãs Helena Maria e Maria Lucília da Silva Martins eram também sócias da AFPP, com os números 172 e 39. 

Casou pouco tempo antes de passar à clandestinidade; usou o pseudónimo “Conceição”; participou, enquanto companheira, no apoio logístico à V reunião ampliada do Comité Central realizada, em Maio de 1945, na Casa da Granja; e escassos dias depois, a 14 de Junho, foi presa com o marido, então membro suplente do CC, numa casa em Moreira da Maia usada como tipografia pelo Comité Local do Porto. 

Tal como Dalila Duque da Fonseca, presa na mesma data mas noutro local, foi solta em liberdade condicional e, em 4 de Novembro de 1946, condenada em três meses de prisão correcional, por ter acompanhado o marido na clandestinidade. Neste mesmo ano, segundo documento de Setembro, o Secretariado do Comité Central acusara o marido de ter “contribuído para o afrouxamento da firme posição que sua companheira, Armanda Martins de Lacerda, vinha mantendo e para que ela fizesse algumas declarações prejudiciais”, aconselhando-a a confirmar “o que a polícia já sabia”, expulsando-o do PCP. 

Mãe de um único filho, nascido em Pinheiro de Bemposta, Oliveira de Azeméis, morreu muito nova, no dia 22 de Fevereiro de 1955, a 4 dias de completar 36 anos de idade. 

[João Esteves]

domingo, 28 de junho de 2015

[1008.] MARIA BARROSO [III] || AFPP

* MARIA DE JESUS SIMÕES BARROSO SOARES *

** ATIVISTA DA ASSOCIAÇÃO FEMININA PORTUGUESA PARA A PAZ *

[Fotografia in Lúcia Serralheiro, Mulheres em grupo contra a corrente, 2011]

Maria Barroso integrou a Associação Feminina Portuguesa para a Paz e colaborou numa sessão de poesia organizada em Lisboa aquando das comemorações do seu XV aniversário.

O Sarau de Poesia decorreu a 9 de junho de 1950 na Casa do Alentejo, contou também com a participação de Manuela Porto e Maria Barroso incluiu no seu reportório poemas de Beatriz Bandeira (Hora presente), Camilo Pessanha (Um soneto), Carlos de Oliveira (Canção de jorna), Joaquim Namorado (Os pequenos pedintes), Manuel da Fonseca e Vitorino Nemésio. 

No âmbito da sua intervenção na AFPP, Maria Barroso concedeu uma entrevista a Lúcia Serralheiro em 7 de novembro de 2008, tendo então referido que "ainda sei de cor O Prometeu, de Joaquim Namorado, que era um verdadeiro panfleto: «triturai os meus ossos que aqui ninguém se entrega». Eu dizia isto com uma força e com um entusiasmo...  A primeira vez que fui à PIDE foi com esse poema... Eles não gostavam desse poema. Também recitei António Feijó, Mário Dionísio e o Manuel da Fonseca: «eram campos, campos... eram cabeços redondos». Tão bonito, tão bonito! Os poetas já morreram todos... ainda me lembro de poemas de há 60 anos. A poesia era uma forma de luta, de caráter social, interessava estar contra a ditadura" [Mulheres em grupo contra a corrente, Evolua Edições, 2011].

Segundo Lúcia Serralheiro, em 6 de agosto de 1950 o jornal República publicou o seu depoimento à questão «O que de mais emocionante ocorreu na sua carreira?», no âmbito de um inquérito às mulheres profissionais com o título «Dá licença minha senhora?». A resposta de Maria Barroso foi: «Terem-me escolhido para Benilde ou a Virgem Mãe» . 

[1007.] MARIA BARROSO [II] || 1969 - CDE

* MARIA DE JESUS SIMÕES BARROSO SOARES *

** CANDIDATA POR SANTARÉM NA LISTA DA OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICA - CDE || OUTUBRO DE 1969 **

 [As eleições de Outubro de 1969, Publicações Europa-América, 1970]

Maria Barroso integrou a lista da Oposição Democrática - CDE juntamente com António Reis [António Fernando Marques Ribeiro Reis], Alexandre Cabral [José dos Santos Cabral, 1917-1996], Antunes da Silva [António Antunes da Silva, 1911-1979], Marques Pereira [José Fidalgo Marques Pereira, 1930-1988] e Lino Neto [Francisco de Assis de Mendonça Lino Neto, 1918-1997].

O nome de Blasco Hugo Fernandes [1930-2002] não foi admitido, sendo substituído por Alexandre Cabral.

Invulgar na nota biográfica de Maria Barroso é a informação de que pertenceu, entre outras organizações, à Associação Feminina Portuguesa para a Paz, pois muito poucas mulheres se referiam publicamente a esta agremiação proibida pela ditadura em 1952.

quinta-feira, 19 de março de 2015

[0946.] ALDA NOGUEIRA [I] || 1923 - 1998

* MARIA ALDA BARBOSA NOGUEIRA *
[19/03/1923-05/03/1998]

[1975]

Filha de uma costureira de alfaiate e de um serralheiro mecânico, Maria Alda Barbosa Nogueira nasceu em 19 de Março de 1923 em Alcântara, “então um bairro cheio de fábricas, de trabalhadores e muitos dos seus filhos eram meus colegas de escola” [entrevista a Helena Neves].

Andou na Escola da Tapada, em Alcântara, e frequentou o Liceu D. Filipa de Lencastre, onde militou no Socorro Vermelho Internacional, recolhendo géneros e roupas para os espanhóis e foi Presidente da Associação Escolar durante vários anos. 

No Filipa de Lencastre foi aluna de Manuela Palma Carlos, “uma mulher admirável que me despertou para as ciências humanas, para a literatura”, de Irene Alice de Oliveira, “professora de História que me alargou a visão de história, do mundo”, de Alice Graça, “professora de Física, uma mulher republicana que tinha pertencido à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, uma mulher interessantíssima, muito avançada para a época” e de Maria José Estanco, “em Desenho”, mulheres que a influenciaram muito [Helena Neves].

Também no Liceu, tornou-se amiga e camarada inseparável de Cecília Simões [Areosa Feio] e de Maria Helena Alves Tavares Magro: “A Helena era quase como irmã, era a minha grande amiga, e acompanhou-me sempre. Ela foi para a clandestinidade primeiro que eu, mas estive a tomar a última refeição com ela. Sim, foi a minha melhor amiga cuja morte na clandestinidade eu senti muito” [Helena Neves].

Aos 17 anos entrou para a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, licenciou-se em Ciências Físico-Químicas em 1946 e exerceu a docência liceal durante três anos. 

Durante a Faculdade, integrou a Associação Feminina Portuguesa para a Paz, cuja sede funcionava próximo da Faculdade de Ciências. Na AFPP “conheci mulheres fantásticas, combativas, inteligentes, a Maria Valentina Trigo de Sousa, a Maria Helena Pulido Valente, a Glafina Lemos, assistente da faculdade, a Maria Letícia, a Francine Benoit, que dirigia o orfeão da Associação, a Manuela Porto” [Helena Neves].

Aí, 
Aprendi imenso. Tínhamos muita correspondência a nível internacional, recebíamos filmes das embaixadas que fazíamos passar nos cinemas, para arranjar fundos para o socorro dos refugiados da guerra, aos perseguidos pelo fascismo, no estrangeiro e entre nós. Enviámos mesmo algum socorro para o Tarrafal. Simultaneamente a esta atividade funcionavam cursos de alfabetização, cursos de primeiros socorros. Pela própria composição da Associação, pelas mulheres que a animavam, mas também pelas notícias que nos vinham dos países envolvidos no conflito, onde as mulheres ocupavam todos os postos de trabalho, começou a gerar-se a ideia de que os direitos da mulher estavam entrelaçados com a defesa da democracia, com a própria luta contra o fascismo”.

Em 1945, integrou o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, onde colaborou ativamente com Maria Lamas.

“O Conselho estava organizado só aqui em Lisboa e a Maria, tal como muitas de nós, considerava que era necessário alargá-lo a todo o país. Como eu dava aulas mas tinha uma vida bastante disponível, fui destacada para ir ao Algarve e lá consegui organizar várias delegações do Conselho, em Faro, Olhão, Silves, Montachique. Depois fui o Porto… Enfim, enraizámo-nos de facto. Tínhamos delegações na Figueira da Foz, em Coimbra, no Porto, na Marinha, nas Caldas. Tínhamos várias atividades. Entre elas, os cursos de alfabetização. Recordo-me que em Olhão foi distribuída uma tarjeta pelas fábricas informando que no Conselho se ensinava a ler e a escrever e o largo onde eu morava e funcionava o Conselho, ficou pejado de mulheres, umas 200 ou 300, querendo vir às aulas. Foi um trabalho esgotante este, mas maravilhoso. Aprendi muito com a Maria e também ela aprendeu connosco – foi belo!” [Helena Neves].

Aderiu ao Partido Comunista em 1942.

Em 1949, quando se lhe deparava a possibilidade de uma carreira de investigadora científica, passou à clandestinidade. Trabalhou na redação do jornal Avante!, pertenceu ao Comité Local de Lisboa, em 1957, no V Congresso do Partido Comunista, foi eleita membro suplente do Comité Central e, entre 1957 e 1959, integrou a Direção da Organização Regional de Lisboa.  

Em 1958, destacou-se na candidatura presidencial de Arlindo Vicente.

Presa a 15 de Outubro de 1959, recusou-se a responder a qualquer pergunta e permaneceu detida 10 anos consecutivos: “Na prisão retiraram-me os melhores anos da minha vida. Entrei com 35 anos, saí com 45 anos” [Helena Neves].

Durante a prisão, 
Estive com várias amigas durante muitos anos – a Sofia Ferreira, Ivone Dias Lourenço, Maria da Piedade, Aida Paulo, Matilde Bento, Maria Luísa Costa Dias e tantas outras. Passámos por várias situações. Houve salas com beliches (10 ou 12 pessoas) e outras menores. Dividíamos o dia em duas partes. De manhã levantávamo-nos e tínhamos de correr para tomar o banho quente (com o tempo contado e só uma por casa de banho). A inspeção e a contagem eram às 8H. Recebíamos um jornal diário – o Século – e líamos em coletivo. À volta da mesa fazíamos os nossos trabalhos. Fiz então as camisolas todas do meu filho, saias para a minha mãe, pegas para a cozinha, essas coisas… A Ivone fazia bonecas, caixas e outras coisas interessantes. Elas foram-me ensinando. A visita era às 10H, em geral de meia hora. Depois trocávamos as notícias… que não eram muitas pois a vigilância era muito grande. Almoçávamos. Repousávamos. E retomávamos o trabalho” [Helena Neves].

Passavam pelas prisões pessoas analfabetas e outras com cursos. E umas ensinavam às outras. Tínhamos cursos de matemática, ciências, português, línguas e história. Depois tínhamos o recreio. Inicialmente davam-nos apenas 15 minutos, mas lutámos e chegámos a ter 1 hora. Uma hora num terraço por cima da cela, uma cela sem telhado.!...” [Helena Neves].

Só foi libertada em Dezembro de 1969: 
O tempo tem uma contagem conforme se vive mais ou menos os acontecimentos. Ao fim de cinco anos de cadeia deixamos de ter a noção dos dias. O tempo deixa de contar. A sensação de sair liberta sozinha foi horrível. Eles tinham dito que eu saía e eu disse ao meu irmão para estar lá à minha espera. Anteciparam 24 horas e sai só, com duas malas grandes, num mundo que tinha mudado tanto. À porta da António Maria Cardoso foi horrível, não podia com as malas. Meti-me no elétrico até à Rua do Ouro. Aí, meti-me num táxi e disse ao homem para me levar a Alcântara, ao Largo do Calvário. Eram destruidores, malvados até ao fim. Quando saí tinha dificuldade em andar. Lembro-me de ir na rua com o meu filho e parecia-me ter um tapete rolante que me levava a cair. Fez-me muita impressão ver as pessoas juntas num elétrico, num autocarro. Sentia as pessoas com um ar muito triste. O primeiro filme que fui ver o “Romeu e Julieta”. Quando veio o intervalo e vi todas as pessoas juntas, fiquei agoniada e vomitei o jantar todo e tive de me vir embora.” [Helena Neves]

Libertada, voltou à militância, encontrando-se na Bélgica com o estatuto de refugiada política aquando do 25 de Abril de 1974.

Após a revolução, foi eleita pelo círculo de Lisboa para Assembleia Constituinte (1975-1976) e para a Assembleia da República, onde permaneceu até 1986.

Na Assembleia Constituinte, integrou a Comissão de Sistematização.

Na Assembleia da República, participou nas comissões de Negócios Estrangeiros e de Emigração. Segundo Teresa Fonseca refere no Dicionário no Feminino
interveio frequentes vezes a favor dos trabalhadores portugueses emigrantes, reivindicando a promoção do ensino da língua portuguesa no estrangeiro, requerendo medidas de proteção aos emigrantes de visita a Portugal e pugnando pela aprovação de um projeto de lei sobre comissões consulares dos emigrantes, suscetíveis de contribuir para a solução dos múltiplos problemas com que estes se debatiam, nomeadamente no respeitante à obtenção e à renovação das cartas de trabalho. Emitiu pareceres sobre os relatórios de várias missões parlamentares ao estrangeiro, no âmbito dos trabalhos da União Parlamentar. Interveio em diversos debates sobre a paz, o desanuviamento militar e o desarmamento nuclear, denunciando os grandes interesses económicos envolvidos no fabrico de armas. Protestou contra a violação dos direitos do homem em diversos países, como a Nicarágua, El Salvador, a África do Sul e ainda em Timor Leste. Participou ativamente nos debates em torno dos orçamentos gerais do Estado”. 

Presidente da Comissão Parlamentar da Condição Feminina de 1983 a 1985.

A par da sua militância, colaborou no Movimento Democrático de Mulheres e integrou a Comissão da Condição Feminina, sendo uma defensora intransigente, desde os tempos da juventude, dos direitos das crianças e das mulheres.

Em 1987, recebeu a Distinção de Honra do Movimento Democrático de Mulheres, tendo então Helena Neves escrito um importante texto sobre Alda Nogueira, transcrito pelo filho António Vilarigues no blogue O Castendo

Em 1988, foi condecorada com a Ordem da Liberdade.

A investigação também foi uma grande paixão de Alda Nogueira e sempre pensou que um dia voltaria a ela: “Pensei que era uma suspensão na minha carreira, apenas isso. E lia imensas obras da minha especialidade que pedia aos camaradas que me arranjassem. Entretanto, uni-me ao homem que amava, tive um filho. Mas sempre aguardando o momento em que eu retomaria a carreira. Senti sempre e sinto a nostalgia de não seguir a vida da investigação científica”.

Faleceu em 5 de Março de 1998, em Lisboa, a escassos dias de completar 75 anos de idade.

Publicou dois livros para crianças: Viagem numa gota de água (1977), escrito na prisão, em Caxias, em Dezembro de 1962, ilustrado por Miguel; e Viagem numa flor (1978), ilustrado por Ana Maria Cunhal.

[João Esteves]