[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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sexta-feira, 23 de março de 2018

[1774.] ANA DE CASTRO OSÓRIO || 1872 - 1935

* ANA DE CASTRO OSÓRIO (18 de Junho de 1872 – 23 de Março de 1935) || O FALECIMENTO HÁ 83 ANOS *

[Álbum Republicano || 1908]

Falecida há 83 anos, em 23 de Março de 1935, Ana de Castro Osório deixou um importante legado que importa evocar, estudar e divulgar.

Ana de Castro Osório e o Feminismo em Portugal

I - Nota Prévia

1.º Ana de Castro Osório foi uma figura destacada e reconhecida no seu tempo, com intervenção pública entre finais do século XIX e 1935, ano da sua morte.

2.º Deixou marcas visíveis nos quatro regimes a que sobreviveu: Monarquia, República, Ditadura Militar, Estado Novo.

3.º Correspondeu-se com centenas de figuras públicas, num total de milhares de missivas: políticos, escritores, intelectuais, diplomatas, militares, governantes…

4.º Assegurou colaboração em dezenas de periódicos: de educação; femininos; feministas; republicanos; literários; nacionais; locais; regionais.

5.º Assinou textos e editoriais de primeira página e dirigiu secções.

6.º O seu funeral ilustra, por um lado, a importância do nome e a mescla de contactos que soube manter durante toda a vida adulta, tendo os jornais destacado muitas dezenas de nomes que assistiram às cerimónias fúnebres, entre os quais:

Aquilino Ribeiro // Carlos Lemos // Tovar de Lemos // Bernardino Machado (filho) // Hernâni Cidade // Joaquim Manso // João de Barros // António Sérgio // Diogo de Macedo // José Rodrigues Miguéis // Manuel Mendes // Luís Montalvôr // Fernando Pessoa (que faleceria no mesmo ano, poucos meses depois, em Novembro) // Fernanda de Castro // Emília de Sousa Costa // Teresa Leitão de Barros // Albertina Paraíso // Maria Veleda // Regina Quintanilha.

Estiveram ainda presentes, militares e representantes dos Ministros das Colónias e dos Negócios Estrangeiros, de colectividades e de instituições de ensino.

[Diário de Lisboa || 25 de Março de 1935]

7.º Esta mescla entre republicanos, monárquicos e autoridades militares da ditadura e governantes salazaristas resulta do seu próprio percurso, tendo sempre procurado: ser conhecida // ser reconhecida // triunfar no campo literário, educativo e pedagógico.

8.º O seu percurso foi longo, duradouro, intenso, polémico, contraditório:

a) Começou por estar associada à divulgação de poetas e escritores, setubalenses [António Maria Eusébio, o Calafate (1902)] e nacionais [Garrett (1899) e Bocage (1905)].

b) Passou para a literatura infantil, com a criação de uma Casa Editora Para as Crianças.


c) Aventurou-se na produção de livros escolares e de leitura para todos os anos do ensino primário (em Portugal e no Brasil).

d) Proclamou-se feminista.

e) Foi iniciada na Maçonaria, na Loja Humanidade do GOLU.


f) Interveio em defesa da proclamação da República.

g) Relançou o associativismo feminino, feminista, republicano, sufragista e nacionalista.

h) Defendeu a intervenção de Portugal na 1.ª Guerra e entregou-se, entre 1916 e 1933, à Cruzada das Mulheres Portuguesas.


i) Foi-se desiludindo com a República, por esta não reconhecer os seus “méritos”. Apenas desempenhou, em 1916, o cargo de Subinspectora do Trabalho, sendo, aliás, criticada pelas associações de classe.

j) Na década de 20, o nacionalismo e o conservadorismo triunfaram sob as restantes vertentes do seu pensamento.

k) Procurou, obsessivamente, pôr de pé o seu projeto de uma Aliança Luso-Brasileira.

l) Voltou-se, definitivamente, para a escrita, muito conservadora, centrada na defesa dos valores da Pátria, da Raça e das mulheres enquanto geradoras de filhos e suas educadoras.

m) Recusou ser condecorada pela República e aceitou sê-lo pelo regime saído do 28 de Maio de 1926.

9.º Apesar desta intensa vivência, falta um estudo abrangente do que foram dezenas de anos de intervenção literária, educativa, política e feminista.

10.º Não o há, talvez: pela intensidade da sua intervenção; pela aparente complexidade da sua evolução e posicionamentos; pelo vasto material que deixou e ainda por estudar; e, sobretudo, por não ser uma figura que não provoque a mesma empatia que outros nomes, até pelas contradições que encerra e opções tomadas.

II - Ana de Castro Osório Republicana

Ana de Castro Osório está indubitavelmente associada à República.

1.º É a única mulher a figurar na aguarela pintada por Alfredo Roque Gameiro em 1911 e no qual constam 161 dirigentes republicanos. Está retratada em primeiro plano.

[Roque Gameiro || 1911]

2.º Considerava a República como um regime e uma forma de governo mais favorável às pretensões das mulheres. 

3.º Esperava da República um outro reconhecimento que a Monarquia lhe negava, nomeadamente quanto às suas obras para o ensino.

4.º No entanto, considerava que a República poderia seguir os mesmos passos da Revolução Francesa e trair as aspirações femininas.

5.º Escolhida por António José de Almeida, Bernardino Machado e Magalhães Lima para dirigir a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.

[Liga Republicana das Mulheres Portuguesas || Estandarte]

6.º Discursou, em Abril de 1909, no Congresso do Partido Republicano Português realizado em Setúbal.

[O Mundo || 24/04/1909]

7.º Participou na reunião do Directório Republicano de 30 de Janeiro de 1910.

8.º Uma vez implantada a República, assumiu-se cada vez mais como nacionalista, em detrimento das suas opções feministas.

9.º A Guerra ajudou a concretizar o sonho de liderar uma organização patriótica de implantação nacional – a Cruzada das Mulheres Portuguesas –, mas tal só seria possível com o papel desempenhado por Elzira Dantas Machado já que Ana de Castro Osório não era uma pessoa consensual. 

Aliás, Elzira Dantas Machado seria muito mais afetada e perseguida pelo Sidonismo do que Ana de Castro Osório, apesar do papel relevante desta no âmbito da CMP.

10.º Republicana, Ana de Castro Osório virou definitivamente as costas à República ainda no final dos anos 10 e a rutura consumou-se na década de 20, enveredando pelo mesmo caminho dos filhos, presos por associados aos movimentos nacionalistas de 1922.

11.º Em virtude desta deriva, foi acusada pelo velho republicano Carlos Magalhães Ferraz, em carta a si dirigida, de se ter tornado:
  • Adversária do parlamentarismo.
  • Defensora de um regime presidencialista.
  • Adepta de um movimento nacional, que estaria a ser preparado pelas novas gerações, embora não estivesse em causa o republica¬nismo da escritora: “apesar de pelo visto não sermos já correligionários na Democracia, somo-lo na República” [carta de 30 de Junho de 1922].


12.º Estava explicada a recusa em ser condecorada com a Ordem de Santiago, atribuída pelo governo da República em 1919, mas aceitaria, já durante o Estado Novo, sê-lo com a Ordem de Mérito Agrícola e Industrial, “com que o Governo a agraciou, como justa recompensa pelos esforços, por ela desenvolvidos, em prol da silvicultura e do ressurgimento das indústrias caseiras, genuinamente nacionais, como a das rendas e a da tapeçaria”.

III - Ana de Castro Osório Feminista

1.º É o nome mais conhecido do feminismo português da 1.ª vaga, destacando-se, enquanto feminista na 1.ª década do século XX.

2.º Aspirou a fundar um Partido Feminista, tal como confessou a Bernardino Machado em carta datada de 1904.

3.º Publicou, em 1905, a obra Às mulheres Portuguesas, considerado por Regina Tavares da Silva “o manifesto do movimento feminista português”, ao abordar, “de forma muito clara e radical questões relacionadas, por um lado, com a situação da mulher, o seu estatuto legal e os condicionalismos culturais inerentes e, por outro lado, questões de índole mais teórica, sobre o feminismo, a igualdade dos sexos, o direito à educação e ao trabalho, o direito a salário igual”.


4.º Criou, em 1907, o Grupo Português de Estudos Feministas, juntamente com Adelaide Cabete, Carolina Beatriz Ângelo e Maria Veleda, nome decalcado de uma organização francesa de mulheres.


5.º Redigiu a Tese “Feminismo”, apresentada no Congresso Nacional do Livre Pensamento realizado em Abril de 1908:

[O Mundo || 22/04/1908]

Reconhecimento da absoluta liberdade da mulher, com relação ao exercício de todos os direitos individuais, civis, políticos e profissionais.
As primeiras aspirações feministas podem, no momento atual, resumir-se ao seguinte:
I – Educação intelectual, moral e física da mulher.
II – Igualdade entre os dois sexos, perante o Código Civil.
III – Direitos políticos da mulher.
1.º - A mulher precisa, antes de tudo, ser convenientemente educada, para se poder desempenhar da sua nobre tarefa de educadora de todos os instantes e formadora das gerações futuras.
2.º - Às mulheres serão facultadas todas as profissões que as habilitem a lutar contra a prostituição e a miséria, sempre que lhes falte o apoio do seu natural companheiro e amigo – o homem – Como nem todas as mulheres casam todas devem saber trabalhar.
3.º - Não deve a mulher ser considerada menor, em caso algum, depois da maioridade legal para ambos os sexos, exceto no caso de interdição.
4.º - O divórcio, como está estabelecido na lei francesa, impõe-se, sendo a indissolubilidade do matrimónio um atentado gravíssimo à liberdade e à igualdade, tanto do homem como da mulher.

6.º Esteve, em Agosto de 1908, na origem e direcção da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.

7.º À medida que a luta pela mudança de regime se intensificou, o republicanismo sobrepôs-se ao feminismo.

8.º Após a implantação da República, tornou-se declaradamente sufragista, defendendo o voto restrito para uma minoria de mulheres.

[O Radical || 12/02/1911]

9.º Desligou-se da Liga Republicana, por esta ter radicalizado às suas posições com Maria Veleda a sua frente, e fundou, com Carolina Beatriz Ângelo, a Associação de Propaganda Feminista – Maio de 1911.

[Logótipo da APF]

10.º Defensora da entrada de Portugal na Guerra, o seu nacionalismo e patriotismo vingaram sobre as ideias feministas:
  • Criou, em 1914, a Comissão Feminina Pela Pátria.

  • Dedicou-se, entre 1916 e 1933, à Cruzada das Mulheres Portuguesas.


11.º Nunca integrou associações que não tivessem sido fundadas por si.

12.º Recusou aderir à Liga Portuguesa da Paz, de Alice Pestana, por não ser pacifista, nem acreditar nele.

13.º Não se associou ao CNMP, nem participou nos Congressos Feministas e de Educação de 1924 e 1928.

14.º O seu feminismo tornou-se cada vez mais conservador, defendendo nas suas obras literárias que o objetivo da mulher burguesa era fazer um bom casamento, apoiar o marido, ter filhos e educá-los, revelando-se contrária ao divórcio.  

IV - Ana de Castro Osório Pedagoga

Para além da intervenção republicana e feminista, Ana de Castro Osório procurou destacar-se enquanto pedagoga.

1.º Foi autora e divulgadora da literatura infantil, apontada como a sua iniciadora e principal impulsionadora, mediante a publicação regular, às suas custas, de fascículos de histórias para crianças, com base em contos tradicionais portugueses.

2.º Em Abril de 1897, lançou-se na publicação da Coleção Para as Crianças, empresa que tornaria nacionalmente conhecida e pô-la em contacto com crianças de todas as idades, homens de letras, jornalistas e políticos. Tinha sede na Praça de Bocage, 114-116, onde também funcionava parte dos Armazéns de Móveis do marido, Francisco Paulino de Oliveira. 

3.º Uma importante obra educativa para os mais novos, devido ao conteúdo didático, formativo e moralizante de inspiração portuguesa. 

4.º Foram publicados na totalidade 18 volumes (ou séries), compostos por histórias populares portuguesas, narrativas doutrinárias e educativas, contos originais, peças de teatro e poesia:
  • Fez recolha direta de contos tradicionais em diversas províncias, a partir da tradição oral e popular.
  • Recriou muitos outros.
  • Editou originais seus.
  • Traduziu contos dos irmãos Grimm, C. Perrault, H. C. Andersen, Rosália Hoch, A. Stein, Irieda Schuette e S. A. E. M. Mees, em colaboração com Afonso Hincher e Louise Ey.
  • Colaborou com importantes ilustradores e ilustradoras: Leal da Câmara, Raquel Roque Gameiro, Hebe Gonçalves, Laura de Almeida Nogueira, Alfredo Morais, Conceição Silva, Mily Possoz.
  • As suas tiragens atingiram na totalidade várias dezenas de milhares de exemplares.

5.º O êxito residiu:
  • Na utilização de uma linguagem simples, repleta de diálogos e muito ligada aos valores da natureza e da Pátria.
  • Na preocupação com o aspeto gráfico.
  • No esforço de Ana de Castro Osório para tornar os livrinhos de pequeno formato conhecidos em toda a parte, criando uma rede de assinantes, que assim os recebiam a preços mais económicos.

6.º Ana de Castro Osório considerava que a literatura infantil devia e podia funcionar como instrumento de educação das crianças e do povo, analfabeto ou pouco instruído.

7.º Refutava a ideia que esse género literário tivesse de ser banal e vazio de sentido, pois as crianças deviam ser tomadas a sério, e o gosto pela leitura e a formação da sensibilidade artística passava necessariamente pelas lendas, contos tradicionais e dizeres do povo, indispensáveis ao desenvolvimento da sua inteligência, alargamento da fantasia e do imaginário e ligação às raízes históricas do país e às memórias do seu povo; não infantilizava a criança e aliava a componente lúdica a aspectos didácticos, procurando criar uma leitura acessível.

8.º A ascendência que mantinha junto do público infantil estendeu-se também ao ensino, mediante livros didáticos: várias obras suas foram aprovadas oficialmente como livros de leitura para as 2ª, 3ª, 4ª e 5ª classes e para prémios escolares, alargando-se essa influência até ao Brasil.

9.º Havia a preocupação:
  • Em contribuir para a educação cívica e patriótica das crianças.
  • Incutir nelas os valores laicos.
  • Reforçar o nacionalismo e patriotismo, muito próprios do ideário republicano. 
  • Valoriza o amor pelas coisas portuguesas”, “realçando figuras históricas cujo ideário político ou social tinha algo a ver com as suas próprias opções”.

10.º Procurava ainda:
  • Combater todas as formas de superstição.
  • Realçar a razão e a ciência.
  • Enaltecer o amor à natureza e aos animais. 
  • Fazer triunfar a escola absolutamente laica e intransigentemente patriótica, pois só dela adviria a consolidação da República.
  • Por isso, saudou a nomeação, ainda que efémera, de Magalhães Lima para Ministro da Instrução, depois da revolução de 14/05/1915, acalentando a esperança que soubesse dar outro rumo à situação do ensino.

11.º Apesar de ser sobejamente conhecida, alguns dos seus livros foram recusados para prémios escolares durante o tempo da Monarquia, tentando mesmo contactar João Franco para desbloquear a situação.

12.º Foi acusada, entre outras coisas, de sofrer em demasia a influência das fontes francesas, prejudicando a sua forma literária, e evidenciar uma “tradução descurada e inadmissível”.

13.º Anos depois, aquando do concurso aberto em Abril de 1920, para livros destinados às escolas do ensino primário geral e ensino primário superior, na Memória Justificativa, dirigida à Comissão encarregada de os julgar, “acusou” que já há dez anos esperava da República um Concurso em que todos pudessem enviar os seus livros destinados à instrução infantil. 

14.º Para a escritora, não se “constrói uma sociedade, nem se reforma uma Pátria se as crianças não forem desde os primeiros anos dirigidas, instruídas e disciplinadas para um alto fim de grandeza e idealismo superior da Pátria, a que pertencem, e do grupo racial em que se filiam” (ACPC, Esp. N12). E denunciava o facto do novo regime continuar a dar às crianças manuais de leitura mal adaptados e mal preparados que vinham do tempo do regime deposto e sem corresponder “às modernas ideias e exigências pedagógicas”.

15.º Também nestas obras, Ana de Castro Osório recorria:

  • À evocação de aspetos significativos da História de Portugal, pondo esse tom pedagógico ao serviço de argumentos nacionalistas, como sucedeu com o livro De Como Portugal foi Chamada à Guerra. História para Crianças. 
  • Fomentava o desenvolvimento da imaginação.
  • O amor pela Natureza e pelos outros seres.
  • A necessidade do trabalho.
  • O amor e dedicação à Pátria. 
  • Os aspetos práticos, para as preparar para a vida corrente. 

16.º Existia, ainda, o cuidado de produzir textos que envolvessem a realidade brasileira e pudessem atrair leitores do lado de lá do Atlântico, nunca descurando a potencial importância do seu mercado. Muitos daqueles manuais sofreram adaptações, consoante se destinavam ao nosso país, ou ao Brasil, e foi devido à obstinação da autora que alguns deles foram adoptados em estados brasileiros, nomeadamente em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

17.º Propagandista da educação, Ana de Castro Osório reclamou sempre para o povo instrução, como veículo para o retirar da miséria em que vivia e, logo a seguir à implantação da República, defendeu a criação, pelo novo governo, de missões que fossem por todo o país ensinar, entre outras coisas, o povo a ler, escrever e contar.

18.º Reivindicava para a mulher o papel de educadora das crianças e a criação de escolas para proporcionar a todos a primeira instrução, incentivando-a a exigir creches, jardins-escola e escolas-oficinas, pois era aí que se ministrava a melhor educação. 

19.º Enquanto defensora da igualdade dos sexos e da emancipação social e económica da mulher, escreveu sobre o seu papel na sociedade e a urgente necessidade de o modificar e dignificar, realçando sempre a componente educativa como a fundamental.

20.º O papel feminino não se reduzia ao de mãe e de esposa e para a mulher poder romper com as tradicionais dependências e tornar-se economicamente independente necessitava de uma educação e instrução adequadas e do acesso a todos os estudos em igualdade de circunstâncias com os rapazes. Além disso, a sua educação devia ser cuidada e merecer atenção privilegiada, devido à função da mulher como principal educadora e formadora das crianças.

21.º Por todo este labor, nunca compreendeu, nem aceitou, que o primeiro governo da República não a tivesse convidado para desempenhar qualquer papel na ação educativa do país, pela qual tanto tinha lutado desde sempre.

V - Ana de Castro Osório Escritora

O ideário mais intrinsecamente conservador revela-se na sua produção literária, a mais genuína das produções porque não filtrada por interesses políticos momentâneos e datados, onde acaba por defender explicitamente opiniões contrárias às que defendeu enquanto feminista e educadora.

[Ana de Castro Osório || 12/06/1928 || ANTT]

1.º Assim, nas suas novelas, contos, romances, e mesmo livros didáticos, é feita a defesa da mulher enquanto veículo da regeneração da Nação e de preservação da Identidade Nacional.

2.º Nessas obras faz uma abordagem muito conservadora da Mulher, da sua educação, do trabalho e da independência económica, separando, num espírito de classe muito acentuado:
  • Senhoras / Mulheres.
  • Casadas / Solteiras.
  • Mães da burguesia / E as outras.
  • Burguesas / Operárias e Camponesas.
3.º O que importa é que, em nome da Pátria e da sua regeneração:
  • A mãe burguesa se case e saiba dedicar-se à família.
  • Apoiar e amparar o marido.
  • Educar nos valores pátrios os filhos, tornando-os melhores cidadãos.
  • Contribuir para a pureza da raça. 
  • Impedir a miscigenação da população.

4.º Depois de ter defendido publicamente a importância da independência económica das mulheres e o direito ao divórcio, o legado que deixa na sua literatura é que o casamento era um fim em si da mulher burguesa e a instituição por excelência na protecção e defesa dos seus direitos materiais, sendo ainda essencial cumprir com a maternidade.

5.º Daí ser algo contraditório que continue a ser um símbolo das feministas e do feminismo português.

[Ana de Castro Osório por Raquel Bastos, sua nora || 1933]

6.º O que sobressai é uma escritora:
  • Nacionalista.
  • Defensora da Pátria.
  • Preocupada com a Regeneração da Nação.
  • Enquadrando de forma muito espartilhada nessas preocupações o papel da mulher burguesa portuguesa.
Em síntese:

Faltam ainda muitas respostas para os percursos que Ana de Castro Osório tomou e que só os Arquivos Particulares e a sua correspondência podem ajudar a esclarecer.

No caso de Ana de Castro Osório, provavelmente mais importante do que os seus escritos, será a correspondência particular a que permitirá uma releitura do seu percurso.


[CIG || 2014]

NOTA IMPORTANTE:
Ana Barradas, no seu artigo "Ana de Castro Osório: O feminismo anti-operário e a greve das conserveiras de Setúbal", evoca o papel da escritora perante o operariado feminino setubalense, bem patente nas opções tomadas aquando das greves de Março de 1911 e que está omisso no texto acima, constituindo uma lacuna a corrigir quanto ao seu pensamento.

De facto, se Ana de Castro Osório é indissociável de Setúbal, pois ali forjou a sua identidade e se fez escritora e cidadã, os últimos momentos lá vividos ficaram marcados pelo movimento grevista que, em Março, afectou a cidade e envolveu, entre outros, o estabelecimento da irmã de Paulino de Oliveira, Maria da Conceição de Oliveira e Costa, culminando com 2 mortos pela GNR. 

Martins dos Santos, do jornal anarcossindicalista Germinal, questionou os fundamentos do feminismo de Ana de Castro Osório, que criticara as grevistas, considerou as pretensões das conserveiras extemporâneas e injustas, defendeu os fabricantes e chegou a ir trabalhar para um dos edifícios, atitudes que a definiram, como marca indelével até hoje, quanto à sua posição de classe  e que ficaram registadas em As operárias das fábricas de Setúbal e a Greve. Resposta de Ana de Castro Osório ao “Germinal”.

Agradeço a Ana Barradas o envio do seu artigo e, assim, a possibilidade de colmatar uma faceta extremamente relevante do feminismo burguês de Ana de Castro Osório.

[João Esteves]

domingo, 19 de dezembro de 2010

[0253.] ADELAIDE CABETE [IV] || ASSOCIATIVISMO E CRONOLOGIA

* ADELAIDE CABETE *

[A República || 01/08/1908]

A) ASSOCIATIVISMO 

Associação do Registo Civil.
Centro Nacional de Aviação.
Junta Federal do Livre Pensamento.
Partido Republicano Português.
Sociedade das Ciências Médicas.
[1906-1909] La Paix et le Désarmement par les Femmes.
[1907] Maçonaria – Loja Humanidade.
[1907-1908] Grupo Português de Estudos Feministas.
[1909-1911] Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.
[1914-1935] Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.
[1915-1922] Centro Democrático Republicano.

B) CRONOLOGIA
 
[25.01.1867] Nasce em Elvas, filha de Ezequiel Duarte Brazão e de Balbina dos Remédios Damas Brazão.
[1885] Casa em Elvas, aos 18 anos, com Manuel Ramos Fernandes Cabete.
[1889] Faz exame da instrução primária.
[1894] Conclui, em Lisboa, o Curso dos Liceus.
[1895] Faz os Preparatórios na Escola Politécnica, submetendo-se aos exames de Física Superior, Química Orgânica e Química Mineral.
[1896] Matricula-se na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.
[26.07.1900] Conclui a licenciatura na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa com a Tese A Protecção às mulheres grávidas pobres como meio de promover o desenvolvimento físico das novas gerações.
[1907] Inicia-se na Maçonaria, Loja Humanidade do GOLU.
Integra o Grupo Português de Estudos Feministas.
[Setembro 1908] Reside ou tem consultório na Rua do Ouro, 266, 2.º.
[Outubro 1908] O Álbum Republicano publica a sua fotografia, acompanhada de uma pequena biografia.
[1908] Participa na fundação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (sócia n.º 143).
[06.01.1909] Envia um telegrama de saudação ao comício republicano que se realiza em Elvas com a presença de Bernardino Machado.
[27.02.1909] Secretaria a Assembleia Geral da LRMP e é eleita Tesoureira da comissão dirigente.
[Abril 1909] Participa na campanha em prol da Lei do Divórcio, dispondo no consultório de listas para serem assinadas.
Assina a mensagem dirigida ao congresso do Partido Republicano que decorre em Setúbal.
[02.05.1909] Secretaria a Assembleia-Geral da LRMP.
[Maio 1909] Contribui para a subscrição aberta pela LRMP a favor das vítimas do tremor de terra do Ribatejo.
[Maio/Junho 1909] Assina a saudação enviada pela comissão dirigente da LRMP ao novo Directório do PRP.
[02.07.1909] Demite-se, por carta, de Vogal do Comité Português da associação francesa La Paix et le Désarmement par les Femmes.
[18.07.1909] Participa na inauguração de uma escola no Grémio Republicano de Alcântara, tendo secretariado a sessão diurna.
[25.07.1909] Secretaria a reunião da LRMP.
[12.09.1909] Preside à sessão de propaganda da LRMP.
[17.10.1909] Representa a LRMP na romagem de homenagem a Heliodoro Salgado, promovida pela Associação do Registo Civil e Junta Federal do Livre Pensamento.
[24.10.1909] Secretaria a sessão de protesto pelo fuzilamento, em Espanha, de Francisco Ferrer y Guardia (LRMP).
[18.11.1909] Secretaria a Assembleia-Geral da LRMP e pede a exoneração do cargo de Tesoureira, invocando motivos de doença e excesso de trabalho.
[06.06.1910] O jornal O Mundo noticia que Adelaide Cabete "tem estado gravemente doente, com uma pleurisia".
[15.09.1910] Eleita Presidente da Assembleia-Geral da LRMP, com 13 votos.
[05.10.1910] É uma das republicanas que confeccionaram as bandeiras utilizadas na Rotunda durante a revolução republicana.
[14.10.1910] Secretaria a sessão diurna da 2.ª Sessão do Congresso Nacional do Livre Pensamento.
[17.10.1910] Secretaria nova Sessão do Congresso Nacional do Livre Pensamento.
[19.10.1910] Por falta de saúde, não comparece à assembleia geral da LRMP. Pede dispensa do cargo por o não poder exercer com regularidade. A sua substituição fica agendada para reunião a realizar no dia 26.
[26.01.1911] Obtém, na assembleia geral, os seguintes votos: 5 para Vice-Presidente da Direcção; 14 para Presidente da Assembleia Geral; 1 para 1.ª Secretária daquela; 1 para 1.ª Suplente do Conselho Fiscal.
[08.02.1912] Passa a leccionar noções de higiene e de medicina prática no Instituto Torre e Espada.
[Maio 1913] Envia ao Congresso Internacional de Ocupações Domésticas, realizado em Gand, a Tese Papel que o estudo da puericultura, da higiene feminina, do ensino dos primeiros cuidados em caso de acidente e da pedagogia maternal deve desempenhar no ensino doméstico.
[1914] Funda o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e desempenha o cargo de Presidente em exercício.
[08.04.1915] Preside à Assembleia-Geral do CNMP: fala da utilidade da agremiação e tece considerações sobre o feminismo.
[29.10.1914] Preside à Assembleia-Geral do CNMP.
[Outubro 1915] Eleita 2.ª Secretária da Assembleia Geral do Centro Democrático Republicano.
[11.01.1916] Enviúva.
[25.03.1917] Eleita Presidente da Direcção do CNMP.
[23.06.1917] Preside à assembleia-geral ordinária do CNMP.
[31.10.1917] Preside à assembleia-geral ordinária do CNMP.
[30.10.1919] Preside à assembleia-geral extraordinária do CNMP. Oferece-se, com Maria Clara Correia Alves, para pagar a publicação do órgão do Conselho.
[22.12.1919] Participa na assembleia-geral, onde se decide que passa a dirigir a revista Alma Feminina a partir de Janeiro de 1920, devido à impossibilidade de MCCA poder assegurar a sua edição mensalmente.
É eleita Presidente da Direcção do CNMP e Presidente da Comissão Jornalística para o ano de 1920.
[Janeiro 1920] Assume a Direcção da revista Alma Feminina, órgão do CNMP.
[1920] A propósito do Congresso Internacional realizado em Cristiânia, a revista norueguesa Urd publica o seu retrato, acompanhado de algumas palavras elogiosas. Também a Who's Who, editado pela comissão de imprensa do Conselho Nacional da Noruega, publica as fotografias de Adelaide Cabete e de Maria Clara Correia Alves.
As revistas feministas Nylaende e Hjemmenes Vel, a propósito do mesmo congresso, publicam o retrato de Adelaide Cabete, na qualidade de Presidente do CNMP.
É convidada por Ida Magliocchetti a colaborar na revista feminista italiana Attività Femminile Sociale, órgão do Conselho Italiano.
[23.12.1920] Eleita em assembleia-geral Presidente da Direcção do CNMP para o ano de 1921.
Eleita para a Comissão Jornalística do CNMP [1921].
[22.12.1921] Eleita em assembleia-geral Presidente da Direcção do CNMP para o ano de 1922.
Eleita Presidente da Secção de Imprensa [1922].
[18.01.1922] Eleita 2.ª Secretária da Assembleia-Geral do Centro Democrático Republicano.
[04.01.1923] Participa na assembleia-geral: a sócia Albertina Gamboa propõe um voto de louvor pelo trabalho, dedicação e esforço de Adelaide Cabete pela causa feminista.
Reeleita Presidente da Direcção e Presidente da Secção de Imprensa do CNMP.
[Maio 1923] Representa o CNMP e o governo português no Congresso Feminista de Roma, organizado pela IWSA.
[22.06.1923] ou [22.07.1923] É uma das 6 oradoras que intervêm na sessão solene comemorativa do aniversário do CNMP.
[27.12.1923] Participa na assembleia-geral e apresenta o relatório da Secção de Imprensa.
Eleita para a Direcção do CNMP e para as Comissões Permanentes de Higiene e de Imprensa [1924].
[24.05.1924] Profere o discurso inaugural do Primeiro Congresso Feminista e da Educação.
[Maio 1924] O jornal A Fronteira, de Elvas, edita uma separata em sua homenagem.
[1924] Presidente da comissão organizadora do Congresso Feminista de 1924.
Realiza, na Universidade Livre, três conferências contra o Alcoolismo.
[04.01.1925] Participa na assembleia-geral do CNMP. Reeleita Presidente da Direcção e Presidente da Secção de Imprensa.
[06.05.1925] Discursa na Sessão Solene do Congresso Internacional Feminista de Washington, organizado pela ICW.
[Maio 1925] Representa o CNMP e governo português no Congresso Internacional Feminista de Washington.
[27.12.1925] Escolhida, em reunião da assembleia geral, para representar o CNMP no Congresso Internacional Feminista de Paris, a realizar-se em Maio de 1926.
Reeleita Presidente da Direcção e Presidente da Secção de Imprensa [1926].
[01.08.1926] Intervém, enquanto Presidente do Grémio Humanidade, na sessão inaugural do Primeiro Congresso Nacional Abolicionista.
[02.08.1926] A sua Tese Polícia Feminina é debatida durante a 1.ª Sessão Ordinária do Congresso.
[04.08.1926] Preside à 3.ª Sessão Ordinária do Congresso.
[05.08.1926] Intervém nos trabalhos da Sessão de Encerramento.
[30.12.1926] Participa na assembleia geral do CNMP. Eleita Presidente da Direcção e Presidente das Secções de Imprensa e de Paz [1927].
[08.01.1928] Participa na assembleia geral do CNMP. Eleita Presidente da Direcção e Presidente da Secção de Imprensa.
Assina o Relatório da Secção da Paz, apresentado na mesma reunião.
[24.06.1928] Abre a sessão inaugural do Segundo Congresso Feminista e de Educação: tece elogios à imprensa e a Elisa Soriano.
[26.06.1928] Na 2.ª Sessão Ordinária do Congresso Feminista e de Educação discute-se a tese O ensino da puericultura nas escolas infantis, de Adelaide Cabete.
[1928] Funda a Associação das Mulheres Universitárias de Portugal.
Participa na campanha realizada em prol das famílias dos presos, deportados e emigrados políticos, promovida por sugestão do jornal republicano O Rebate.
[1929] Parte para Angola.
[06.12.1934] Aquando do regresso de Angola, o CNMP organiza uma recepção, sob a forma de chá.
[1934] Vota no Plebiscito à Constituição de 1933.
[19.09.1935] Morre em Lisboa, com 66 anos.

[João Esteves]

domingo, 12 de dezembro de 2010

[0235.] ADELAIDE CABETE [III] || 1867 - 1935 - BIOGRAFIA

* ADELAIDE DE JESUS DAMAS BRAZÃO CABETE *
[1867-1935]

[Adelaide Cabete || 1928 || Pormenor de uma fotografia do II Congresso Feminista]

Combativa e persistente, a médica ginecologista Adelaide de Jesus Damas Brazão Cabete foi uma destacada propagandista republicana e dirigente feminista, funções que exerceu durante quase três décadas, tendo granjeado enorme prestígio no país e além fronteiras.

Foi a activista que se manteve durante mais tempo à frente duma organização feminista em Portugal, sendo a única das líderes do princípio do século XX que continuou a ser referência do feminismo português durante os anos vinte e trinta.

Filha de Ezequiel Duarte Brazão e de Balbina dos Remédios Damas Brazão, falecida em 1919, e irmã de Maria Brazão, nasceu em Elvas a 25 de Janeiro de 1867, terra onde passou a infância e casou jovem com Manuel Ramos Fernandes Cabete (f. 11/01/1916), sargento republicano liberal e muito culto – era um autodidacta - que a orientou nos estudos.

Devido à morte do pai, trabalhou na direcção da pequena indústria caseira de secagem de ameixas e só em 1889, já casada, fez o exame de instrução primária.

Não mais parou: em 1894, concluiu, com distinção, o curso dos liceus; em 1895, fez os preparatórios na Escola Politécnica, submetendo-se aos exames de Física Superior, Química Orgânica e Química Mineral; e, em 1896, quase com trinta anos, matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde se formou em 26 de Julho de 1900, com a tese A protecção às mulheres grávidas pobres como meio de promover o desenvolvimento físico das novas gerações. Tinha, então, 33 anos.

Para além de exercer clínica para senhoras, leccionou Higiene e Puericultura no Instituto Feminino de Educação e Trabalho de Odivelas, esteve ligada à assistência infantil de Santa Isabel e fez parte da direcção do Centro Nacional de Aviação, fundado em Lisboa em 1914, onde era responsável pelos serviços de saúde.

A sua consciência republicana, alicerçada pelo casamento com um homem mais velho, manifestou-se durante o curso de medicina e, concluído aquele, foi Vogal do Comité Português da associação francesa La Paix et le Désarmement par les Femmes (1906), de que se demitiu em Julho de 1909, num momento em que se intensificava a luta pela República; iniciou-se na Maçonaria em 1907, adoptando o nome simbólico de Louise Michel, no seio da qual batalhou pela igualdade de tratamento entre homens e mulheres; integrou, nesse mesmo ano, o Grupo Português de Estudos Feministas, com Ana de Castro Osório, Maria Veleda e as colegas Beatriz Ângelo e Sofia Quintino; e, em 1908, está entre as impulsionadoras da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tendo o Álbum Republicano publicado a sua fotografia, acompanhada de uma pequena nota biográfica.

Ainda durante a Monarquia, desdobrou-se por iniciativas do Partido Republicano Português, dos Centros Escolares Republicanos, da Associação do Registo Civil e da Junta Federal do Livre Pensamento, não sendo por acaso que foi escolhida para confeccionar as bandeiras vermelhas e verdes utilizadas na Rotunda durante a revolução de Outubro de 1910.

Por exemplo, em 18 de Julho de 1909, presidiu à sessão diurna e discursou na inauguração duma escola do Grémio Republicano de Alcântara, tendo feito "uma calorosa apologia da causa da instrução, única que pode dotar um dia este país de um povo cônscio dos seus direitos e deveres e capaz de lutar com denodo pelas suas liberdades e garantias"; e em Novembro anunciou-se a sua participação na inauguração da escola diurna do Centro Democrático Alhandrense.

Na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, onde era a sócia n.º 143, desempenhou as funções de Tesoureira, cargo para que foi eleita na assembleia geral de 27 de Fevereiro de 1909; participou na campanha a favor da aprovação da Lei do Divórcio, sendo o seu consultório um dos locais onde as listas a exigi-la podiam ser assinadas; subscreveu mensagens de felicitações endossadas aos correligionários, nomeadamente aquando do Congresso de Setúbal (1909) e da eleição do Directório do PRP; contribuiu para subscrições; secretariou reuniões e sessões de propaganda, entre as quais a de protesto pelo fuzilamento, em Espanha, de Francisco Ferrer y Guardia, organizada em 24 de Outubro de 1909; e representou a agremiação em eventos políticos e romagens.

Na assembleia geral de 18 de Novembro de 1909, invocando motivos de doença e excesso de trabalho, pediu a exoneração do cargo de Tesoureira e entrou em discórdia com Ana de Castro Osório, acusando-a de ser mais feminista do que republicana, enquanto "ela entende que assim não deve ser, porque o nosso dever é trabalhar pela república, porque embora ela nos não aproveite a nós, aproveitará aos nossos maridos e aos nossos filhos" [“Expediente da Liga – Acta da sessão em assembleia geral da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, realizada em 18 de Novembro de 1909”, A Mulher e a Criança, n.º 9, Dezembro de 1909].

O seu carisma no seio das feministas, da maçonaria e, sobretudo, do movimento republicano, levou a que António José de Almeida, aquando da comemoração do primeiro aniversário da Liga, em Março de 1910, propusesse que se envidassem esforços para que reocupasse um lugar na Direcção, pois "pelo seu temperamento, pelo seu feitio, pelo calor da sua apaixonada palavra, ela agrada às mulheres que se preocupam mais com a questão política do que com a questão social, económica e educativa" [“Expediente da Liga – Sessão comemorativa do 1.º aniversário da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, A Mulher e a Criança, n.º 11, Abril de 1910], dando-se a entender que a médica se teria afastado por divergências.

Meses volvidos, em Setembro, é eleita Presidente da Assembleia Geral, acto muito saudado pelas sócias, tendo, em Outubro, pedido dispensa do cargo por não o poder exercer com regularidade, sendo significativo que o tenha abandonado na sequência da implantação da República, invocando motivos de saúde, quando tinha acabado de participar no Congresso Nacional do Livre Pensamento e secretariado duas das sessões (14 e 17 de Outubro) – talvez Adelaide Cabete pertencesse ao grupo minoritário que alvitrou a extinção da Liga, já que sempre considerou que o principal objectivo era trabalhar pela República e esta tinha triunfado.

Depois da experiência como fundadora da Liga Republicana e dum interregno na sua visibilidade, apareceu como a principal impulsionadora, em 1914, do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, ainda que só a partir de 1920, quando assumiu a direcção da revista Alma Feminina, em substituição de Maria Clara Correia Alves, se tenha tornado mais notório o papel por si desempenhado.

O seu nome é indissociável do historial da agremiação e, apesar de ter exercido sempre o cargo de Presidente da Direcção, sucessivamente reeleita entre 1914 e 1935, a sua actuação reparte-se por duas fases distintas: até 1919, presidiu a muitas das reuniões e assinou textos no Boletim Oficial e na revista, quase todos de carácter médico; a partir de Janeiro de 1920, e coincidindo com a chefia do órgão do Conselho, que se prolongou até 1929, este diversificou o número e tipo de colaboradoras e sócias, realizaram-se os dois únicos Congressos Feministas jamais realizados em Portugal (1924 e 1928) e, por fim, a médica tornou-se a representante do país em congressos internacionais.

É neste período que aderiram escritoras e jovens licenciadas em Direito, Letras e Medicina e que se constituiu a maioria das Comissões sectoriais do CNMP, tendo Adelaide Cabete presidido às de Jornalística ou Imprensa (1920-1929, 1931), de Higiene (1924) e da Paz (1927).

Em 1933 e 1934, apesar de ausente em Luanda, continuou a ser eleita para a Secção de Imprensa.

Enquanto activista, proferiu conferências, nomeadamente sobre o alcoolismo; foi, em 1923, umas das seis oradoras na sessão comemorativa do seu aniversário; participou nos Congressos Abolicionistas de 1926 e 1929, onde defendeu, no primeiro, a Tese "Polícia Feminina", visando a sua criação em Portugal para, à semelhança do que acontecia noutros países, zelar pela moral dos costumes e defender a mulher e a criança dos indivíduos corruptos; e fundou, em 1928, a efémera Associação das Mulheres Universitárias de Portugal, constituída por diplomadas pelas Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra. Segundo Elina Guimarães, esta acabou por não ser consentida pelas novas autoridades políticas.

Mas a sua iniciativa mais relevante terá sido, pelo impacto que teve, pelos temas debatidos e pela mobilização feminina, a realização dos Congressos Feministas e de Educação.

O primeiro decorreu em Maio de 1924, tendo Adelaide Cabete não só proferido o discurso inaugural, na presença de vários convidados políticos, entre os quais o Presidente Manuel Teixeira Gomes, Bernardino Machado, Magalhães Lima e Abranches Ferrão, como apresentou as teses Protecção à mulher grávida e à criança e A luta anti-alcoólica nas escolas, para além daquela já exposta no Congresso de Gand: aí reivindicou o repouso de um mês antes do parto para as mulheres grávidas, alertando para que uma gravidez livre de canseiras e de preocupações morais e físicas proporcionariam ao nascituro outro desenvolvimento físico; a criação de maternidades, a começar por Lisboa; a implementação de sanatórios de gravidez, creches e asilos para a infância; e considerou que o combate aos efeitos do alcoolismo teria de passar pela sensibilização dos alunos das escolas e liceus para as campanhas antialcoólicas.

No Segundo Congresso Feminista e de Educação, realizado em 1928 já sob o período da Ditadura Militar, defendeu a tese O ensino da puericultura na escola infantil, por considerar como o instrumento mais adequado para diminuir a mortalidade infantil. A defesa desse ensino dirigido a crianças tão pequenas, entre os 5 e os 7 anos, residia não só no facto de se tratar duma idade propícia à aprendizagem através do acto de brincar, mas sobretudo porque muitas delas pertenciam às camadas desfavorecidas e não chegavam a estudar nas escolas elementares, podendo, assim, apreender as noções essenciais sobre como lavar, pegar, amamentar, vestir e alimentar um bebé.

Adelaide Cabete já tinha, em Maio de 1913, enviado ao Congresso Internacional de Ocupações Domésticas, realizado em Gand, um trabalho intitulado Papel que o estudo da puericultura, da higiene feminina, do ensino dos primeiros cuidados em caso de acidente e da pedagogia maternal deve desempenhar no ensino doméstico, onde relatava a sua experiência como professora do Instituto Feminino de Educação e Trabalho, em Odivelas, e fazia a apologia do ensino da puericultura nas escolas infantis, acreditando que quanto menor fosse a ignorância, menor seria a mortalidade infantil e que não bastava ser mãe, era preciso saber sê-lo.

Também dirigiu na Universidade Popular Portuguesa, no ano lectivo de 1924-1925, um curso para mães, intitulado Higiene e Puericultura, com a finalidade de as ensinar a criar o recém-nascido.

Foi igualmente na década de vinte que se reforçou a projecção além fronteiras de Adelaide Cabete, ao tornar-se no principal elo de ligação aos movimentos feministas internacionais: convidada por Ida Magliocchetti, colaborou na revista feminista italiana Attività Femminile Sociale, órgão do Conselho Italiano; a propósito do Congresso Internacional realizado em Cristiânia (1920), as revistas feministas Nylaende, Hjemmenes Vel e Urd e a Who’s Who, editado pela comissão de imprensa do Conselho Nacional da Noruega, publicaram o seu retrato, acompanhado de palavras elogiosas; e participou em Congressos, quer como delegada oficial do governo português, quer como mandatária do CNMP, em resultado da filiação no International Council of Women e na International Woman Suffrage Alliance.

Em Maio de 1923, representou o país no Congresso Internacional Feminista de Roma, promovido pela IWSA, onde abordou a moderna legislação portuguesa sobre a protecção prestada à mulher não casada e aos filhos ilegítimos e reivindicou o direito de voto, pois já se tinham obtido as leis do divórcio, da investigação da paternidade e da família, faltando obter a da igualdade política.

Dois anos depois, em Maio de 1925, participou no Congresso Internacional Feminista de Washington, organizado pela ICW, onde discursou na sessão solene de 6 de Maio. De novo se debateu a importância da educação moral e social e pugnou-se pelo acesso às mais altas funções administrativas dentro do ensino, reivindicando Adelaide Cabete o direito das mulheres poderem desempenhar o cargo de inspectora escolar, porque já figuravam como professoras em todos os graus do ensino, desde o infantil até ao superior.

Em ambos os casos, apresentou relatórios aos responsáveis políticos que a nomearam, expondo de forma rigorosa e sintética as respectivas conclusões e o que considerava que deveria ser incrementado em Portugal.

No ano seguinte, voltou a ser indicada como delegada do CNMP ao Congresso de Paris, decisão tomada na Assembleia Geral de 27 de Dezembro de 1925.

Entretanto, nunca deixou de colaborar com os seus correligionários e confidenciou, aquando da vitória do Partido Democrático nas eleições de Novembro de 1913, que fez parte do Partido Republicano Português até 5 de Outubro de 1910 e aí permanecia após a revolução.

Pertenceu a direcções do Centro Democrático Republicano (1915; 1922) e participou, em 1928, na primeira campanha realizada em prol das famílias dos presos, deportados e emigrados políticos, organizada por sugestão do jornal republicano O Rebate.

Apesar de em 1929 ter partido repentinamente para Angola, onde foi vítima de uma arma de caça, disparada acidentalmente, Adelaide Cabete manteve-se como a principal referência do CNMP: continuou a ser reeleita sua Presidente; angariou novas sócias (Adelaide Ivone de Sousa Marrocos, Angélica de Oliveira Barroso, Ilda Cunha, Maria Gabriela Costa Gomes, Matilde Pereira, Sara Loureiro Pinto Leite); participou em conferências; e enviou escritos para a imprensa da metrópole.

Durante a permanência em África, escreveu artigos a favor dos indígenas e pugnou pela criação de casas de beneficência e de maternidades. Também realizou conferências a favor da gota de leite e da assistência à criança indígena e foi, talvez sem consciência do que estava a caucionar, a primeira eleitora em Luanda, ao plebiscitar a Constituição de 1933.

Quando do seu regresso, após cinco anos de ausência, foi recepcionada, em 6 de Dezembro de 1934, por dezenas de dirigentes e militantes do Conselho.

Manteve colaboração regular na imprensa e, embora tenha assinado dezenas de textos, nunca pretendeu teorizar acerca do feminismo - os escritos de cariz ideológico surgiram somente quando assumiu a direcção da Alma Feminina, apesar de ter assinado um sobre “A mulher na política” no Almanaque das Senhoras (1913) -, preferindo optar por “pequenas lições”, direccionadas às mulheres e crianças, sobre cuidados básicos de saúde pública.

Preocupada, enquanto médica e professora, com a divulgação de informações científicas, escreveu sobre a educação das crianças e das mulheres, a protecção à mulher pobre, o espartilho, os preceitos da higiene, as doenças infecciosas, a nutrição, o alcoolismo, o abolicionismo, os direitos das grávidas, o aborto, a amamentação, a puericultura e a eugenia, sempre numa perspectiva didáctica, informativa e profiláctica, recorrendo a uma linguagem facilmente compreensível.

A actividade de articulista não finalizou com a presença em África, encontrando-se textos sobre “As Pioneiras do Feminismo” em O Globo, hebdomadário de cultura, doutrina e informação, publicado em 1930; e Pensamento, Revista mensal de divulgação social e científica, arte e literatura, órgão do Instituto de Cultura Socialista, editado no Porto entre 1930 e 1940. Também foram publicados escritos seus na secção “A Moda e a Higiene” da revista Portugal Feminino.

Faleceu em Lisboa em 19 de Setembro de 1935, com 66 anos, tendo a Alma Feminina dedicado um número por ocasião do seu 67.º aniversário, caso fosse viva, com textos evocativos de Angélica Porto, Beatriz Arnut, Branca de Gonta Colaço, Elina Guimarães, Maria Gertrudes Amarante, Mariana da Assunção da Silva e Zoe Grabit Pereira.

Já em 1924 e 1929, Adelaide Cabete fora homenageada através de números especiais do jornal A Fronteira, de Elvas, e do órgão do Conselho. Também Clara Campoamor fez o seu elogio na imprensa espanhola (1928).

A enorme vontade de estudar, o gosto pela leitura que manifestou desde muito cedo e a competência profissional e científica, tornaram-na num nome respeitado e deram credibilidade às posições que defendeu enquanto médica, propagandista da República e feminista.

No número que A Fronteira lhe dedicou, João Camoesas, republicano e director da publicação, salientou que "Adelaide Cabete é uma filha do povo, erguida à sua própria custa" e que "teimando, lutando, trabalhando, adquiriu, contra todos os preconceitos, uma profissão das mais nobres e mais difíceis" [“Adelaide Cabete”, Adelaide Cabete, Médica Elvense. Homenagem de ‘A Fronteira’ e dos seus admiradores, p. 9].


Na mesma edição, Maria O’Neill consagrou-lhe a seguinte poesia:

"Mulher cujo vigor d’alma venero,
Como tudo que é grande, justo, e forte!
Quisera ter a lira dum Antero
Para esboçar em nítido recorte
O teu carácter firme, doce e austero,
Que a todas nós pode servir de norte
Nas bravas lutas do destino fero.
Pois foi com essas mãos que corpos saram
Que as bandeiras da Pátria nos bordaste,
E no cinco de Outubro tremularam
Saudando o novo ideal com que sonhaste.
E foram essas mãos que amortalharam
Marido e Mãe, tudo que mais amaste!"

[Maria O’Neill, “À Dr.ª Adelaide Cabete”]

Ao contrário doutras dirigentes, não se lhe conhecem polémicas e mostrou-se "tolerante nas suas ideias, não sacrificando nunca a marcha e a conquista da emancipação da mulher com divergências de ideais políticos ou religiosos. Republicana por si, é essencialmente feminista por todas" [Aurora de Castro e Gouveia, “Justa Homenagem”, Adelaide Cabete, Médica Elvense...].

O consultório, situado estrategicamente na Baixa lisboeta, funcionou como local de encontro do associativismo republicano e feminista e sede da LRMP, do CNMP e da Liga Abolicionista Portuguesa, mesmo depois da sua morte: em 1907, estava sediado na Rua da Prata, 153, 2.º; no ano seguinte, ficava na Rua do Ouro, 266, 2.º, sendo nesta morada que recebeu a correspondência das mulheres que quiseram participar no plebiscito organizado pela secção “A Tribuna Feminina”, do jornal A República, e funcionou, nos primeiros meses de 1909, a primeira sede provisória da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas; por fim, era na Praça dos Restauradores, n.º 13.

Lídia Jorge centrou na sua vida a peça de teatro A Maçon [Lisboa, Sociedade Portuguesa de Autores/Publicações D. Quixote, 1997].

[João Esteves]