[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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domingo, 13 de dezembro de 2020

[2439.] PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS - DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO [LXI] || 1926 - 1933

* PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO || LXI * 

00528. Fernando Augusto Freiria [1927

[Fernando Augusto Freiria]

[Fernando Augusto Freiria.
Lisboa, 12/01/1877. Coronel de Artilharia - professor. Filiação: Maria da Piedade Vaz, Diogo Freiria. Casado com Germana de Alcântara de Albuquerque e Castro. Frequentou a Escola do Exército, a Arma de Artilharia e o Curso de Estado Maior, seguindo a carreira militar: praça (1893); alferes (1897); tenente (1897); capitão (1911); major (1917); tenente-coronel (1917); coronel (1919). Professor da Escola de Guerra (1912-1919) e do Instituto Feminino de Educação e Trabalho (1914-1915, 1920). Chefe do Estado Maior de Gomes da Costa (1914); incluído na restrita Missão Militar Portuguesa que debateu, em Londres, a participação de Portugal na Guerra; adjunto do quartel general de Divisão de Instrução de Tancos (1916); Chefe do Estado Maior da 1.ª Divisão do Corpo Expedicionário Português (1917-1918), sob o comando do general Gomes da Costa; Chefe do Estado Maior da 2.ª Divisão do CEP; Chefe do Estado Maior da Divisão de Operações encarregada de combater a Monarquia do Norte (Dezembro de 1918 – Abril de 1919), chegando a ser preso e, depois de ter conseguido escapar, comandou as tropas que derrotaram os revoltosos em Lisboa; diretor do Instituto Central de Oficiais (1920) e do Instituto dos Pupilos do Exército (1921). 

[Fernando Freiria || Fotografia retirada do Instituto dos Pupilos do Exército]

Manteve atividade política e governativa a partir deste ano: Ministro da Guerra, como independente, nos governos de Francisco Pinto da Cunha Leal e de António Maria da Silva (16/12/1921-06/02/1922, 07/12/1922-21/07/1923); e deputado por Viana do Castelo, integrando, também como independente, as listas do Partido Democrático nas eleições de 29/01/1922. 

[Ilustração Portuguesa || 24/12/1921 || 1.ª reunião do ministério de Francisco Cunha Leal || Fernando Freiria é o 1.º a esquerda]

Comandante, em 1926, do Regimento de Infantaria 16 de Santarém, onde tirocinava para a promoção a general, opôs-se, com os seus efetivos, ao golpe militar de 28 de Maio de 1926: assumiu o controlo da cidade e ordenou a detenção dos militares António Jacinto da Silva Brito de Pais, de Armando Humberto da Gama Ochoa, que viria a integrar o triunvirato que governou o país de 1 a 3 de Junho de 1926, e de José Mendes Cabeçadas, "que por lá andavam com intuitos subversivos" [José Luís Andrade, Ditadura ou Revolução, Casa das Letras, 2016]. Combateu, desde então, a Ditadura Militar. Integrou a liderança militar que desencadeou, no Porto, a Revolta de 3 de Fevereiro de 1927, sendo Chefe do seu Estado Maior. Fracassada aquela, foi detido e deportado para S. Tomé: juntamente com outros implicados, nomeadamente o general Adalberto Gastão de Sousa Dias, embarcou, em Leixões, no "Infante de Sagres” e, de regresso à capital, fez transbordo para o barco "Lourenço Marques", no qual seguiu para São Tomé, onde se manteve com residência fixada durante cerca de 13 meses. Este vapor saiu no dia 21/02/1927, à noite, levando deportados com destino aos Açores, Cabo Verde, Guiné e Angola, tendo aportado em S. Tomé por volta de 12/03/1927. Em fevereiro de 1928, por interferência da sua família e do general Sousa Dias, passou a ter residência obrigatória fixada no Funchal, instalando-se, primeiro, na Pensão Éden e, depois, na Quinta das Cruzes. Desembarcou, em 18/12/1928, em Lisboa, continuando na situação de preso, ainda que em sua casa. Seguiu, em 05/03/1929, para o presídio militar de Elvas, a fim de ser submetido a julgamento pelo Tribunal Militar Especial reunido, em 13/04/1929, no Forte da Graça. Presidiu a este o general Francisco das Chagas Parreira, tendo por um dos vogais o almirante Vitorino Gomes da Costa; o seu advogado foi Adelino da Palma Carlos, então um recém-licenciado em direito. Foi-lhe, novamente, fixada residência obrigatória na Madeira, permanecendo no Funchal entre 1929 e 1931, cidade onde leccionou, criou e dirigiu o Instituto de Instrução Secundária. Em Abril de 1931, integrou o grupo que preparou e dirigiu a Revolta da Madeira, assumindo, mais uma vez, as funções de chefe do seu Estado Maior. Demitido do Exército, por motivos políticos, em 15/04/1931. Na sequência do fracasso, engrossou o grupo de deportados para Cabo VerdeTerá desembarcado na cidade da Praia em 17/05/1931, ilha de Santiago, e levado, juntamente com os outros deportados, mais de trinta, civis e militares, para o Lazareto. Terá permanecido ali cerca de um mês e, em 06/06/1931, seguiu para a ilha de S. Nicolau, onde chegou no dia seguinte, ao anoitecer, e encaminhado para o edifício do Seminário, um velho casarão de dois andares, guardado por uma força indígena ida de Angola e 40 guardas civis, com dois subchefes e um chefe, deslocados de Lisboa. Foi um dos militares que não foi, explicitamente, abrangido pela amnistia decretada em 05/12/1932 (Decreto 21.943), permanecendo em Cabo Verde até 1936: no entanto, o seu nome deixou de constar em documentos assinados pelos deportados políticos nas diferentes ilhas. Em finais de julho de 1935, após o falecimento do general Sousa Dias, o Governador de Cabo Verde propôs, em telegrama ao Ministério do Interior, o seu repatriamento, juntamente com António Fernandes Varão (major), Francisco Filipe de Sousa (major), Francisco Alexandre Lobo Pimentel (major), Inácio Severino de Melo Bandeira (major), João Manuel Carvalho (contra-almirante), José Mendes dos Reis (coronel) e Luís António da Silva Tavares de Carvalho (major), até porque três se encontravam doentes, incluindo Fernando Freiria. O parecer da Polícia de Vigilância de Defesa do Estado foi desfavorável, considerando-os "altamente inconvenientes no Continente e Ilhas Adjacentes", posição secundada por Salazar, enquanto Presidente do Conselho, em documento datado de 13/09/1935. Regressou doente em 1936 e seria reintegrado no Exército, na situação de reforma, continuando sem atividade política conhecida. Faleceu em 13/04/1955, em Lisboa, com 78 anos de idade. Sepultado no Cemitério do Alto de S. João, no talhão dos Combatentes da Grande Guerra.]
[alterado em 31/05/2024]
   [alterado em 14/04/2025]
[alterado em 30/05/2025]

[João Esteves]

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

[2438.] PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS - DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO [LX] || 1926 - 1933

 * PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO || LX *

0527. Eugénio Rodrigues Aresta [1927]

[Eugénio Rodrigues Aresta || Anos 1920 || Arquivo Histórico Parlamentar]

Moura, 23/05/1891, militar, político, professor e filósofo. Filho de Inácia Rodrigues Acabado e de Manuel Aresta Jorge, era casado com Adélia Emília Borges [nalguns registos, o nome próprio é referenciado por Adelina], nascida em 1899. 

Fez o ensino primário em Moura; continuou os estudos secundários em Évora; frequentou o curso preparatório para a Escola do Exército na Academia Politécnica do Porto onde, em 1908, foi condiscípulo de Leonardo Coimbra em Física; e, finalmente, tirou o Curso de Infantaria em Lisboa, concluído em 1913, prosseguindo a carreira militar: praça (1909); alferes (1914); tenente (1917); capitão (1919). 

Em 1915, sob o comando do general Pereira de Eça Coutinho, fez parte da Coluna Expedicionária enviada a Angola, tendo recebido um louvor, datado de 28/10/1915, e mantido contacto com o, então, tenente-coronel Adalberto Gastão de Sousa Dias. Voltou à metrópole em 1916 e, no ano seguinte, integrou o Corpo Expedicionário Português, seguindo para França em 22/02/1917: permaneceu em Flandres até ao fim da Guerra, recebendo importantes distinções e louvores militares. Regressou em 21/02/1919, sendo colocado no Estado-Maior de Infantaria. 

Neste mesmo ano, iniciou a intervenção política activa: militou na União Republicana, de Manuel Brito Camacho; no Partido Republicano Liberal (1919), em cujas listas foi eleito deputado por Beja (legislaturas de 1921, 1922); e no Partido Republicano Nacionalista (1923). Na sequência do falecimento da sua única filha, renunciou ao mandato de deputado em 20/11/1923. Manteve colaboração nos jornais A Luta e República, assim como em periódicos do Baixo Alentejo. 

Integrou a Loja Progredior, onde chegou a Mestre Maçon em 1926, e combateu a Ditadura Militar, participando na preparação e execução da revolta de 3 de Fevereiro de 1927, no Porto. Preso na sequência do seu fracasso, havendo uma fotografia a ser levado de olhos vendados, seguiu para a Casa de Reclusão da 1.ª Região Militar e enviado, de seguida, para o paquete Infante de Sagres. Separado do serviço e deportado para S. Tomé, terá desembarcado nesta ilha, juntamente com outros militares envolvidos no movimento, por volta de 12/03/1927. Nesse mesmo ano, foi redactor do jornal clandestino O Constitucional e, aquando do regresso, no início do ano seguinte, esteve com residência obrigatória fixada fora do Porto, embora no norte do país. 

Em 19/07/1928, concluiu a licenciatura em Ciências Filosóficas da Universidade do Porto, defendendo uma dissertação sobre o método filosófico de Bergson, com a qual obteve a classificação de 20 valores. Manteve colaboração activa com a Renascença Portuguesa, chegando a ser Vogal do Conselho de Administração e a colaborar na revista A Águia [1925, 1928, 1932], e exerceu, entre 1928 e 1932, a docência no ensino secundário. 

[Eugénio Rodrigues Aresta || in Almanaque Republicano]

Amnistiado nos termos do decreto n.º 21.140, de 9 de Abril de 1932, foi reintegrado no Exército em 1933, como capitão no Quartel-General da 1.ª Região Militar. Esteve, em 1934, na organização do 1.º Congresso Militar Colonial, enviuvou em 20/02/1936 e passou, voluntariamente, à reserva em 31/12/1937, enveredando pela docência liceal nos Colégios Almeida Garret e João de Deus, já que estava impedido de leccionar nos estabelecimentos oficiais, liceais e universitários, apesar de recomendado por Aarão de Lacerda

Figura muito enraizada e conceituada no meio cultural e filosófico do Porto, conviveu e manteve colaboração, entre outros, com Agostinho da Silva, de quem foi professor, Álvaro Ribeiro, Augusto Saraiva, Delfim Santos, José Marinho, Leonardo Coimbra e Sant'Anna Dionísio

Maçon, participou no Movimento de Unidade Democrática (MUD) e, em 1949, na campanha presidencial do general Norton de Matos, estando para ser um dos oradores do comício de 23/01/1949, realizado no Centro Hípico da Fonte da Moura, Porto, o que não sucedeu «devido ao adiantado da hora». 

Autor dos manuais liceais Noções de Filosofia (1933) e Primeiras Noções de Filosofia (1941), publicou um romance sobre a participação portuguesa na 1.ª Guerra (A Guerra de Sempre, 1920) e escreveu para diversas revistas e jornais. 

Faleceu na sua residência, no Porto, em 24/08/1956, em consequência dos gaseamentos sofridos na 1.ª Guerra, encontrando-se sepultado no Cemitério de Valongo. Tinha 65 anos de idade. Deixou, entre outros inéditos manuscritos, “Diário da Deportação – revolução de 3 de Fevereiro de 1927” e “Discurso no Comício no Centro Hípico da Fonte da Moura \ candidatura do general Norton de Matos à presidência da República”.

O Blogue Almanaque Republicano inseriu a sua biografia, dividida em duas partes, da autoria de Artur Barracosa Mendonça: Parte I e Parte II.

[João Esteves]

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

[2430.] JOAQUIM VIDEIRA [I] || DEPORTADO PARA S. TOMÉ, TIMOR E AÇORES

 * JOAQUIM VIDEIRA *

[06/09/1884 - 1948]

Joaquim Videira foi um dos muitos militares que se insurgiu contra a Ditadura Militar e a combateu, sendo várias vezes preso e deportado, tal como o irmão José Maria Videira.

[Joaquim Videira || c. 1938-1940 || ANTT || RGP/10421 || PT-TT-PIDE-E-010-53-10421]

Joaquim Videira nasceu em Bendada, concelho de Sabugal, em 6 de Setembro de 1884, sendo filho de Manuel Videira. 

Seguiu a carreira militar até ser dela afastado por motivos políticos. Terá participado na Revolução de 5 de Outubro de 1910, integrando as suas barricadas, e pertenceu ao Corpo Expedicionário Português durante a 1.ª Guerra. 

Oficial da GNR, tomou parte activa na revolução de 7 de Fevereiro de 1927: afastado da Corporação e deportado para S. Tomé no vapor “Lourenço Marques”, desembarcou por volta de 12 de Março de 1927 [ANTT, PT-TT-MI-DGAPC-2-700-138]. 

No ano seguinte, em 20 de Julho, participou no movimento revolucionário de 20 de Julho, tendo sido, provavelmente, enviado para os Açores com residência fixa. 

Novamente preso em 16 de Março de 1929, «por estar implicado no movimento revolucionário em preparação» [Processo 4346], relacionando-se, entre outros, com Alberto Alexandrino Augusto dos Santos (tenente Alexandrino), Alfredo António Chaves (capitão Chaves), Álvaro Costa, seu advogado, Álvaro Troçolo (tenente), Domingos Pereira, José de Freitas Macedo (farmacêutico de Aveiro), José Maria Videira (ex-sargento, seu irmão), Nuno Cerqueira Machado Cruz (capitão Nuno Cruz) e Virgílio (ex-sargento). O processo foi enviado ao Ministério da Guerra em 26/06/1929 [Processo 4346], que o mandou arquivar em Novembro. 

Em 1931, engrossou o movimento revolucionário que eclodiu em 26 de Agosto e deportado para Timor, sendo abrangido pela amnistia de 5 de Dezembro de 1932: desembarcou em 09/06/1933 e apresentou-se no dia 12, ficando a residir em Lisboa. 

A quinta prisão aconteceu em 31 de Outubro de 1933, por envolvimento no movimento revolucionário em preparação, acusado de conspirar, entre outros, com António Marques Pereira (comerciante na Pontinha), Jaime Joaquim das Neves (furriel), José de Matos Machado, José Pedro Muralha (1.º sargento do Exército) e Pires Marques, então procurado pela Polícia [Processo 835]. Em 19 de Novembro, embarcou de Peniche para Angra do Heroísmo, de onde regressou em Setembro de 1935, apresentando-se na PVDE no dia 8. 

[Joaquim Videira || 30/03/1934 || Retirado de uma fotografia de presos políticos em Angra do Heroísmo e que consta da Casa Comum || Fundação Mário Soares / Arquivo Mário Soares, Disponível HTTP: http://www.casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06786.001.105 (2020-11-30)]

A última detenção deu-se em 9 de Julho de 1938: recolheu a uma esquadra incomunicável, foi transferido para o Aljube em 2 de Agosto e, em 6 de Dezembro, seguiu para Caxias. Voltou ao Aljube em 20 de Junho de 1939, para ser julgado pelo TME em 27 de Junho [Processo 877/38, 203/38] e condenado a três anos de desterro. No dia seguinte, regressou a Caxias, recorreu da sentença e voltou a ser julgado em 19 de Agosto, mantendo-se a pena aplicada.

[Joaquim Videira || ANTT || RGP/10421 || PT-TT-PIDE-E-010-53-10421]

Libertado em 3 de Junho de 1940, por ter sido amnistiado, faleceu em 1948. O irmão, o sargento José Maria Videira, teve idêntico percurso de resistente, sendo um dos nomes que não foi explicitamente abrangido pela amnistia de 05/12/1932. 

[Segundo informação da Neta, que muito agradecemos, Palmira Cândido dos Reis Videira era casada com Joaquim Videira e não sua mãe, como consta erroneamente no Registo Prisional da PVDE.]
[alterado em 09/05/2023]

[João Esteves]

domingo, 29 de novembro de 2020

[2429.] ADALBERTO GASTÃO DE SOUSA DIAS [I] || DEPORTADO PARA S. TOMÉ, AÇORES, MADEIRA E CABO VERDE, ONDE FALECEU

 * ADALBERTO GASTÃO DE SOUSA DIAS *

[1865 - 28/07/1935]

O general Sousa Dias foi dos poucos oficiais de alta patente a não aderir ao golpe militar de 28 de Maio de 1926 e que desde o início procurou combater a Ditadura Militar.

Chefiou o movimento revolucionário de 03/02/1927 e foi deportado para S. Tomé (1927) e Açores (1928-1929). Em 1930, Voltaria a ser deportado para os Açores e, depois, para a Madeira onde, em 04/04/1931, por ser o oficial de mais alta patente, foi escolhido para chefiar a sublevação contra a Ditadura e assumir o comando da "Junta Militar".

Novamente preso, foi demitido do Exército e deportado para Cabo Verde: levado, primeiro, para o Campo de Concentração de Presos Políticos de São Nicolau, aí permaneceu até 21/08/1931; foi, depois, transferido para a ilha de Santo Antão e, por fim, para a de São Vicente, onde faleceu no hospital em 28/07/1935 e não em Junho de 1934 como tem sido referido. Os seus restos mortais chegaram a Portugal em 30/11/1935, tendo sido sepultado na Guarda em 03/12/1935.


Chaves (ou Guarda), 03 ou 31/12/1865 [consoante as fontes], General. Filho de Ana Albina Sampaio de Sousa Dias, de Chaves, e de José Maria de Sousa Dias, Oficial do Exército, natural de Lisboa. 

Estudou em Vila Real (liceu – 1875/1880) e na Universidade de Coimbra (1881-1883), onde fez os preparatórios para a Escola do Exército ingressando, de seguida, nesta instituição, em Lisboa (1883-1887). 

Fez carreira militar na arma de Infantaria: alferes (1889); tenente (1895); capitão (1902); major (1906); tenente-coronel (1915); coronel (1918); general (1924). 

Assumiu-se, sempre, como republicano, filiando-se no Partido Democrático após a revolução de Outubro de 1910. Combateu as tropas monárquicas de Paiva Couceiro (1912), não apoiou a ditadura de Pimenta de Castro, recusando qualquer colaboração (1915), esteve temporariamente detido durante o Sidonismo e colocado no Regimento de Infantaria de Reserva n.º 18, no Porto e, em Janeiro de 1919, aquando da revolta monárquica, recusou-se a prestar fidelidade à Monarquia e ao rei, combatendo a “Monarquia do Norte”. Iniciou, então, a sua vida política activa, sendo eleito deputado pelo Porto (1921, 1923, 1924).

Condecorado com os graus de Grande-Oficial da Ordem Militar de Avis (1920), Comendador da Ordem Militar de Cristo (1923) e Comendador da Ordem Militar de Santiago de Espada (1924). 

Comandante, desde 1925, da 3.ª Divisão do Exército, sediada no Porto, não aderiu aos revoltosos de 28 de Maio de 1926, tentando mesmo combatê-los, sem sucesso, devido à elevada adesão àqueles de várias unidades sob o seu comando. Dos raros Oficiais a não pactuar com rebelião militar de Gomes da Costa iniciada em Braga, pediu a exoneração e passou, de imediato, a combater a Ditadura Militar. 

Embora se encontrasse sob prisão e com baixa no Hospital Militar do Porto, foi indigitado para chefiar a revolta que eclodiu naquela cidade em 03/02/1927. Fracassada aquela, foi detido e deportado para S. Tomé: juntamente com outros implicados, embarcou, em Leixões, no "Infante de Sagres e, de regresso à capital, fez transbordo para o barco "Lourenço Marques", no qual seguiu para São Tomé. Este vapor saiu no dia 21/02/1927, à noite, levando deportados com destino aos Açores, Cabo Verde, Guiné e Angola, tendo aportado em S. Tomé aproximadamente em 12/03/1927 [ANTT, PT/TT/MI-DGAPC/2/700/138]. 

Em Novembro de 1927, o Conselho de Ministros deliberou a sua transferência imediata para Ponta Delgada, via Funchal, decisão transmitida ao general em 29 desse mesmo mês. Foi ainda informado que embarcaria no vapor Nyassa em 01/12/1927, data em que este este transporte passaria por S. Tomé, fazendo, depois, escala na Madeira. Sousa Dias ainda contestou essa decisão, por não querer abandonar os seus camaradas de desterro, sobretudo aqueles que tinham servido sob as suas ordens no movimento revolucionário de 03/02/1927, disso dando conta a todos os núcleos de deportados espalhados pelas Ilhas e Colónias. 

[in O General Sousa Dias e as Revoltas contra a Ditadura – 1926/1931, organização de A. H. de Oliveira Marques, com a colaboração de A. Sousa Dias || Publicações Dom Quixote || Abril de 1975]

Depois de passar pelo Funchal, onde há uma fotografia sua entre vários deportados políticos, chegou, em Dezembro de 1927, ao Faial, ilha onde lhe tinha sido fixada residência obrigatória. 

Em 1929, foi mandado regressar ao Continente, submetido a julgamento no Tribunal Militar Especial, reunido no Forte da Graça, em Elvas, em 13/04/1929 e condenado a dois anos de prisão, tendo sido descontado o tempo em que esteve deportado. 

Apesar de já ter cumprido o tempo da pena a que fora condenado, regressou, em 1930, à mesma ilha açoriana por lhe ter sido aí fixada residência e, em seguida, deportado para o Funchal onde, em 04/04/1931, por ser o oficial de mais alta patente, foi escolhido para chefiar a sublevação contra a Ditadura e assumir o comando da “Junta Militar”. 

Falhada a revolta, foi novamente preso, demitido do Exército, sem direito a pensão, honras e uso de medalhas militares e condecorações, e deportado para Cabo Verde. 

Desembarcou na cidade da Praia, ilha de Santiago, e levado, juntamente com os outros deportados, mais de trinta, civis e militares, para o Lazareto, «onde nos meteram, cercado de arame farpado, pregando-nos as janelas, guardados por soldados pretos, numa aglomeração a mais anti-higiénica; dando-nos uma água insalubre para beber, em que se encontravam vários vermes em suspensão; e uma vala comum, sem escoante onde, sem distinção, todos íamos satisfazer as nossas necessidades corporais» [carta ao filho Adalberto, datada de 21/08/1931, in O General Sousa Dias e as Revoltas contra a Ditadura – 1926/1931, organização de A. H. de Oliveira Marques, com a colaboração de A. Sousa Dias, Publicações Dom Quixote, Abril de 1975].  

Terá ficado ali cerca de um mês e, em 6 de Junho de 1931, embarcou para a ilha de S. Nicolau, onde chegou no dia seguinte, ao anoitecer. Levado para o edifício do Seminário, um velho casarão de dois andares,  aí chegaram a estar, ao todo, «cerca de 170 presos políticos», guardados pela «força indígena vinda de Angola» e «40 guardas civis, com dois subchefes e um chefe», idos de Lisboa: «Nunca presumi que se encerrasse um general dentro dum restrito campo de prisioneiros políticos, cercado de arame farpado, ou de um muro de 5m de altura (como no Seminário de S. Nicolau), sujeitando-o aos mais mesquinhos vexames, e aos mais insólitos enxovalhos».

Como bem lembra José J. Cabralestudioso sobre a deportação e Estado Novo em Cabo Verde, o corredor interior ao longo de todo o edifício foi baptizado pelos deportados "avenida General Sousa Dias" e, recorrendo-se do livro do historiador A. H. de Oliveira Marques sobre este, refere que ele passava dias a fio deitado na cama, outros tantos, desolado, a deambular pelo corredor, em resultado do não atendimento de denúncias que fazia, de maus tratos a que todos eram submetidos, dos colegas tuberculosos a contaminarem os outros. 

Permaneceu em S. Nicolau até 21 de Agosto. Depois, foi transferido, sem saber porquê, «visto não ter pedido, nem directa nem indirectamente; nem tão pouco consinto que se peça, para a Ponta do Sol na Ilha de Santo Antão» onde, «ao menos aqui, já respiro!» [carta citada]. Na viagem, pode observar o local onde se iria «organizar um novo Campo de Concentração na Ilha de S. Nicolau num sítio conhecido pelo nome de Tarrafal», já em construção e que «excederá tudo o que até se tem praticado». 

[No entanto, não terá sido concluído, apesar do plano inicial, sendo visíveis quatro casas desmontáveis, adquiridas ao estrangeiro, e os postes para ser pregada a vedação de arame farpado. Muito deste material seria, depois, reutilizado no Tarrafal de Santiago, aberto em 1936.  Para todos os efeitos, as condições físicas e psicológicas vividas quotidianamente pelos deportados no Seminário/Prisão de S. Nicolau, sob isolamento, regras de clausura, repressão, incomunicabilidade, acomodação, censura, restrições, vigilância policial e despotismo arbitrário e humilhante [Victor Barros, Campos de Concentração em Cabo Verde - As Ilhas como espaço de Deportação e de Prisão no Estado Novo, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009], fez com que acabasse por ficar conhecido como o Campo de Concentração de Presos Políticos de S. Nicolau.]

Foi um dos militares que não foi, explicitamente, abrangido pela amnistia decretada em 05/12/1932 (Decreto 21.943) e continuou, mesmo em terras longínquas, a combater a Ditadura Militar, mantendo, dentro do possível, contactos com civis, ex-militares e militares. 

Por fim, adoeceu em Santo Antão e, devido ao agravamento do seu estado de saúde, foi transferido para o hospital de S. Vicente, onde faleceu em 28/07/1935, disso dando conta um telegrama enviado pelo Governador de Cabo Verde ao Ministro das Colónias [ANTT, PT-TT-MI-GM-4-14-559_c0006]. 

Em vésperas do seu falecimento, o Governador tinha enviado ao mesmo ministro o seguinte telegrama: «rogo vexa transmitir Ministério Interior creio ser máxima conveniência repatriação imediata ex-General Sousa Dias está gravemente doente. É conveniente repatriar maior número de deportados possível» [ANTT, PT-TT-MI-GM-4-14-559_c0007]. 

Em Agosto de 1935, foi autorizada a sua trasladação para a Guarda [ANTT, PT-TT-MI-GM-4-32-44], tendo os restos mortais chegado a Lisboa, a bordo do vapor “Guiné”, em 30/11/1935. 

[Adalberto Gastão de Sousa Dias || Diário de Lisboa || 02/12/1935] 

A urna foi coberta com a bandeira nacional, transportada aos ombros de antigos companheiros da deportação em África e na Madeira e encaminhada para a Estação do Rossio, «onde foi colocada num vagão armado em câmara ardente que, atrelado ao comboio correio da Beira Baixa, seguiu, às 23 horas, para a Guarda, terra natal do extinto» [Diário De Notícias, “General Sousa Dias – Os seus restos mortais chegaram de Cabo Verde e seguiram para a Guarda”, 03/12/1935]. 

Foram organizados vários turnos e estiveram presentes, entre muitos outros, Alfredo Guisado, António Augusto, António Joaquim Pires, António Lomelino, Arantes Pedroso, Armando do Vale, Augusto César Loureiro, Aurélio Daniel, Avelino Cascais, Carlos Américo Garcez, Carlos Babo, Carlos Köpke [Carlos Alberto Coque], Carvalhão Duarte, Carvalho Araújo, César Nunes, Edmundo Gonçalves Lamego, Eduardo Bravo, Eduardo França Borges, Eduardo Pinto de Sousa, Eugénio Ferreira, Francisco de Aragão e Melo, Heitor Ferreira, Herculano Vasco, João Augusto Sousa (reverendo), João de Sousa, Joaquim Bento, José Maria Antunes, José Sebastião Frescata, Joubert Pereira, Julião Custódio, Júlio Anjos, Lopes Andrade, Lúcio Escórcio, Lúcio Martins (capitão), Manuel Martinho, Manuel Moutinho, Manuel Roberto, Marinho da Silva, Martins dos Santos, Maurício Costa, Máximo Barros, Pereira Vitorino, Ramon de La Féria, Ribeiro de Carvalho, Rogério Soares, Roque da Silveira, Sá Cardoso (general), Simões Raposo, Vieira Marques, Viriato de Almeida e Zeferino da Silva.

Três anos após o 25 de Abril, por Decreto do Conselho da Revolução de 02/06/1977 (decreto 232/77), foi reintegrado, a título póstumo, no Exército e no seu posto de General, com todas as honras ao mesmo inerentes e o direito às condecorações e graus honoríficos que possuía. 

Em 1980, recebeu o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.

[João Esteves]

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

[1731.] ALBERTO EMÍDIO MIDÕES [I]

* 3 DE FEVEREIRO DE 1927 || DEPORTADO PARA TIMOR E S. TOMÉ || ALJUBE (LISBOA E PORTO) || PENICHE *

[Alberto Emídio Midões || ANTT || RGP/197]

Alberto Emídio Midões é um dos muitos nomes insuficientemente estudados na luta contra a Ditadura Militar e o Estado Novo, tendo desenvolvido a sua ação política conspirativa a partir de Matosinhos, localidade onde era dono do Central Hotel, situado no então n.º 19 da R. Brito Capelo, e do Café Central. 

Republicano e, posteriormente, comunista, por estar envolvido nas primeiras revoltas contra a Ditadura, foi deportado para Timor e transferido, depois, para Angola, esteve ainda preso no Aljube, de Lisboa e do Porto, e em Peniche.

Filho de Guilhermina de Jesus Midões e de Valentim José Midões, nasceu em Lisboa, em 21 de Novembro de 1882.

Negociante, comerciante e proprietário conotado, inicialmente, como elemento influente do Partido Republicano Português, foi preso, pela primeira vez, em 28 de Outubro de 1927, quando já tinha 45 anos, por ser "o chefe do grupo civil da conspiração revolucionária", que integrava Alfredo Fonseca Campelo, Augusto Araújo, Emílio Campos  Negrais, Pimentel e Silva, e "por ser revolucionário de 3 de Fevereiro" [ANTT, Cadastro Político 367].

Segundo as informações recolhidas pela Polícia de Informações do Ministério do Interior do Porto, era em Matosinhos, no seu Central Hotel, que se reuniam, sendo Alberto Midões acusado de "chefiar o grupo que atacou a coluna fiel ao governo que desembarcou em Leixões" [ANTT].

[Alberto Emídio Midões || ANTT || RGP/197]

Enviado para Lisboa em 29 de Outubro, foi deportado, em 22 de Novembro de 1927, para Timor, de onde se evadiu em 17 de Janeiro de 1929. No entanto, a fuga pode ter-se dado já a caminho de Angola, para onde fora transferido em 6 de Janeiro, segundo registo do seu Cadastro Político.

Segundo informações prestadas a Manuela Espírito Santo pelo neto, Alberto Midões "fugiu de S. Tomé, onde estava deportado, para Tenerife. De Tenerife chegou a Vigo, cidade onde permaneceu algum tempo, graças à  generosidade de uma família galega que o acolheu. A relação  (e amizade) com essa família chegou até  às gerações mais próximas" [informação via Manuela Espírito Santo].

Em 3 de Janeiro de 1930, um informador dava conta da sua presença em Matosinhos, com várias deslocações à Póvoa do Varzim.

Mais de meio ano depois, em 23 de Julho, era dada a informação que Alberto Midões continuava a deslocar-se a Matosinhos.

No ano seguinte, em 1 de Maio, é referenciado como estando envolvido na revolução preparada para o dia 2 e que acabou por fracassar. O mesmo informador dá conta de, ao ter conhecimento do movimento revolucionário, se ter deslocado de Vila do Conde para Matosinhos, talvez "acompanhado do ex-capitão Ramalho" [ANTT] e ter sido "hasteado no café de que é proprietário" "uma bandeira vermelha".

Alberto Emídio Midões só seria preso em 2 de Dezembro de 1931, no Porto, por andar fugido da deportação e estar envolvido nos acontecimentos do 1.º de Maio.

Enviado para Lisboa em 19 de Dezembro, saiu em liberdade em 18 de Fevereiro de 1932.

Novamente preso em 3 de Outubro de 1934, no Porto, "por estar envolvido em manejos revolucionários", envolvendo, entre outros, Armando Soares, Camilo Cortesão, Gregório Mendes e José Ferreira da Costa e Silva.

[ANTT || RGP/197]

Considerado pela Polícia como "um elemento irrequieto, conspirando sempre, embora o faça com toda a segurança, pois trata-se de uma pessoa esperta" [ANTT], foi transferido para a Fortaleza Militar de Peniche em 14 de Outubro, onde ficou a aguardar julgamento. e, em 9 de Novembro, passou para o Aljube.

Libertado em 14 de Dezembro de 1934, voltou a ser preso em 21 de Maio de 1935, no Porto. e enviado para o Aljube daquela cidade.

Solto em 1 de Julho, seria novamente detido, sempre no Porto, em 5 de Maio de 1937 e libertado em 2 de Agosto.

[Central Hotel || Matosinhos]

Segundo José Rodrigues, Alberto Midões "foi um comerciante, proprietário e militante do PCP que residiu em Matosinhos a maior parte da sua vida" e comprara o Central Hotel antes de Janeiro de 1927, tendo, durante a Ditadura Militar, pedido "a um pedreiro para fazer um quarto falso", "no qual ele sempre se escondia quando se perspectivava a sua prisão (além do pedreiro que o fez e do seu amigo e barbeiro Miguel Garcia, seus companheiros de Partido, ninguém mais sabia da existência desse quarto secreto)" [José Rodrigues].

Alberto Emídio Midões faleceu em 1946.

O nome consta do Memorial de Homenagem aos Ex-Presos Políticos, inaugurado na Fortaleza de Peniche em 9 de Setembro de 2017.

Fontes: ANTT, Cadastro Político 367; RGP/197. 
Informações prestadas pelo neto de Alberto Midões a Manuela Espírito Santo, a quem muito agradecemos a preciosa colaboração.

[João Esteves]