[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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domingo, 15 de dezembro de 2019

[2226.] RICARDO HIPÓLITO [I] || A PRAÇA DA JORNA EM ALPIARÇA

* RICARDO HIPÓLITO *

A Praça de Jorna em Alpiarça - A saga do trabalho e da dignidade 

Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça || Cadernos Culturais Nº 14 || 2013




[Ricardo Hipólito || A Praça de Jorna em Alpiarça - A saga do trabalho e da dignidade || 2013] 

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

[2222.] ALFREDO LIMA [I] || ASSASSINADO, AOS 19 ANOS, EM ALPIARÇA - 1950

* ALFREDO FERREIRA DIAS LIMA *
[1930/31 - 04/06/1950]

Alfredo Lima foi assassinado em 4 de Junho de 1950, quando os trabalhadores rurais de Alpiarça reivindicavam na "praça de jorna" um aumento do salário diário.

O texto que se segue baseia-se no fundamentado estudo de Ricardo Hipólito "A Praça de Jorna em Alpiarça - A saga do trabalho e da dignidade", assim como algumas das imagens utilizadas [Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça, Cadernos Culturais Nº 14, 2013]. 

[Alfredo Lima || 18 anos || Ricardo Hipólito, A Praça de Jorna em Alpiarça - A saga do trabalho e da dignidade || 2013] 

Os acontecimentos que vitimaram Alfredo Lima deram-se em 4 de Junho de 1950, domingo, durante a realização de praças de jorna de homens e de mulheres, situadas a pouca distância uma da outra, reivindicando os dois grupos um aumento do salário diário de 20 para 30 e de 10 para 15 escudos, já que os homens ganhavam sempre o dobro das mulheres.

A conflitualidade começou por ser entre as trabalhadoras e os capatazes que recusavam qualquer aumento, tendo a GNR, mobilizada pelos agrários, procurado conter as exigências e dispersá-las. Os homens vieram em socorro daquelas, mobilizando-se muitos populares.

[Alfredo Lima || Ricardo Hipólito, A Praça de Jorna em Alpiarça - A saga do trabalho e da dignidade || 2013] 

Foi nesse contexto repressivo que Alfredo Ferreira Dias Lima, com apenas 19 anos, recém militante do Partido Comunista e que estaria encostado a uma parede, foi assassinado com um tiro no ventre por uma praça da GNR. Outros ficaram feridos com tiros, nomeadamente Manuel da Silva Piscalho (Manuel Ganacho), Raúl Farroupo Casaca e Angelino Arraiolos.


                   [Angelino Arraiolos]      [Raúl Farroupo Casaca]   [Manuel da Silva Piscalho]

A notícia chegou ao Diário de Notícias através de um pronto telefonema de José Faustino Rodrigues Pinhão e ao Século, através de Jerónimo Reinaldo Bernardes (Jerónimo Nazaré), que viriam a ser presos por tal ousadia e o último muito torturado.

[José Faustino Rodrigues Pinhão]

Filho de Florinda Ferreira Dias e de Domingos de Almeida Lima, Alfredo Lima faleceu no Hospital de Santarém, tentando a PIDE impedir a mobilização popular para o funeral, sendo enterrado no cemitério de Santarém, perante muita gente ida de Alpiarça. 

Na sequência dos acontecimentos, a GNR reforçou fortemente o seu contingente, fazendo se Alpiarça uma vila sitiada, e a PIDE instalou-se, mais uma vez na localidade, procedendo à prisão de dezenas de trabalhadores e trabalhadoras rurais.

No entanto, os trabalhadores conseguiram, ao fim de mais algumas dominicais praças de jorna, o valor reivindicado: 30 escudos para os homens e 15 para as mulheres, o que foi considerado uma grande vitória, embora o preço da féria voltasse a baixar em períodos posteriores.

Um ano após o ocorrido, três militantes comunistas - Chico Galiza (Francisco Presúncia Bonifácio), Chico Matias e Chico do Pombalinho - afixaram no local do assassinato um pano com a inscrição "Rua Alfredo Lima", que seria retirado pelas autoridades ao amanhecer do dia 4 de Junho de 1951. Aquele arruamento seria assim rebaptizado após Abril de 1974.

[Diário de Lisboa || 5 de Junho de 1974]

Só em 4 de Junho de 1974, os seus restos mortais de Alfredo Lima foram trasladados para o cemitério de Alpiarça.



[Alfredo Lima || 18 anos || Ricardo Hipólito, A Praça de Jorna em Alpiarça - A saga do trabalho e da dignidade || 2013]

[Nota: O meu obrigado a Isaura Madeira Lopes por, há mais  de um ano, me ter facultado o acesso a este precioso livro]

Fonte:
Ricardo Hipólito, A Praça de Jorna em Alpiarça - A saga do trabalho e da dignidade, Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça, Cadernos Culturais Nº 14, 2013.

[João Esteves]

sábado, 26 de abril de 2014

[0610.] MARIA ALBERTINA AGOSTINHO SABINO [III]


[0609.] MARIA ALBERTINA AGOSTINHO SABINO [II] 1940 - 1964

* MARIA ALBERTINA AGOSTINHO SABINO *
[1940 - 18/04/1964]

[https://www.facebook.com/FascismoNuncaMais/photos/a.559109110865139.1073741828.558291707613546/1229950027114374/?type=3&theater]

Viver e Morrer na Clandestinidade

"A morte de Maria Albertina Agostinho Sabino"

por José João Pais, transcrito de

[http://jornalalpiarcense.blogspot.pt/2012/12/a-morte-de-maria-albertina-agostinho.html]

 "Regressemos então, por momentos, ao ano de 1963. Nesse ano, Maria Albertina, militante comunista de 22 anos, natural de Alpiarça, junta-se ao seu namorado, Manuel Mendes Colhe, que vivia na clandestinidade há 4 anos. Esta era uma situação normal nas “casas do partido” que serviam de apoio às tarefas dos “funcionários”. Umas vezes surgiam nas casas “funcionárias” que não tinham qualquer laço de parentesco com os outros utilizadores, mas também havia casais constituídos por marido e mulher, que permitiam uma relação mais normal em termos de visibilidade exterior e na relação com a vizinhança, que se pretendia que não fosse muito estreita e profunda, mas que também não fosse conflituosa. É assim que Maria Albertina se junta a Manuel Colhe.

“Estávamos a fazer a nossa vida com a normalidade possível” refere Manuel Mendes Colhe, “eu saía de manhã, como se fosse para o emprego e voltava à noite. A Maria Albertina fazia a lida da casa e parecia na realidade um casal a fazer uma vida pacata e perfeitamente normal. Como normal foi ela ter ficado grávida. Mas nós dois começamos a perceber da gravidade da situação, porque não nos podíamos esquecer que estávamos na clandestinidade, que tínhamos identidades falsas e que qualquer percalço, por mais pequeno que fosse, poderia transformar-se num grande problema. A gravidez dela era uma situação a requerer a nossa melhor atenção, atendendo ao modo em que vivíamos”.

O casal decide que o parto iria ocorrer no Cartaxo, na casa de um amigo de Manuel Mendes Colhe. Correu tudo sem qualquer problema, tendo nascido um menino que foi registado no Cartaxo e a quem puseram o nome de Manuel Celestino Sabino Colhe.

Deu-se o regresso a Lisboa e à actividade política na clandestinidade. “Entretanto a minha esposa começa a ter febres muito altas” refere mais uma vez Manuel Mendes Colhe, “tomou alguns medicamentos, mas nada fazia baixar a temperatura. Tratava-se de uma infecção muito forte nos ovários, motivada pelo parto e que não fora convenientemente tratada devido à nossa situação de clandestinidade, que não nos permitia grandes exposições públicas, o que evitávamos a todo o custo. Ainda foi ao médico, mas, numa altura em que eu estava fora, ela sentiu-se pior e foram as vizinhas que a levaram para o Hospital de Santa Maria, onde ficou internada com o nome falso de Maria Fernanda Pais Damião. No outro dia, quando cheguei a casa, vi logo que tinha havido problemas, pois as vizinhas vieram ter comigo a dizer: – oh vizinho, a sua mulher está pior. Percebi logo, pela cara delas, que o pior tinha acontecido e que estavam apenas a preparar-me para me darem a notícia fatal.

Na verdade, no dia 18 de Abril de 1964 a Maria Albertina faleceu com apenas 23 de idade, 22 dias depois de ter o filho e quando se encontrava na clandestinidade”.

A notícia chega célere a Alpiarça. Forma-se, de imediato, uma Comissão destinada a organizar e a custear o funeral e que é composta por: - José Faustino Rodrigues Pinhão, Alcindio Pinhão, Olímpio Francisco Oliveira, Rui Batista Feliciano “o Rui Balsa”, Jerónimo Nazaré e António Conceição Jorge. Foi através do esforço desta comissão, e de mais alguns elementos, que percorreram as propriedades rurais e os estabelecimentos comerciais e industriais, que se obtiveram os fundos para a transladação do corpo de Lisboa para Alpiarça e se conseguiu a mobilização popular para estar presente no funeral, pois todos os estabelecimentos comerciais fecharam nessa ocasião.

No dia 23 de Abril, Alpiarça ficou em “estado de sítio” com a realização do funeral. Uma multidão imensa encheu por completo a Rua do Casalinho até ao cemitério, controlada de perto por um enorme contingente policial onde não faltavam os elementos da PIDE. A GNR chega a entrar no cemitério, espancando aqueles que ousavam lançar palavras de ordem contra o regímen político que governava o país. Algumas das imagens do funeral haveriam de ficar registadas em fotografias tiradas por um fotógrafo que foi convidado para o efeito por Natalino Paciência Andrade.

O Chefe de Brigada, que dirigia o posto da PIDE do Entroncamento e que estava presente, descreve no seu relatório o que se passou: “O féretro, procedido por duas alas de mulheres, dirigidas pela comissão que lhes ia dando instruções, e que ao mesmo tempo regulava o trânsito, era acompanhado por mais de 2.000 pessoas, sem que muitas delas conhecessem a falecida ou os seus familiares. À porta do cemitério, o irmão da falecida, Fernando Agostinho Sabino, leu uma carta que dizem ter sido escrita pelo Manuel Mendes Colhe e onde afirmava a falta de assistência dispensada no Hospital ao saberem que a doente vivia na clandestinidade. Antes da leitura da carta, António da Conceição Jorge fez uma alocução acerca da falecida. Suspeita-se que a carta referida não seja do Colhe mas sim do António da Conceição Jorge, que enviou também a notícia do funeral para o jornal República que ultimamente tem estado bastante activo… Embora todos os elementos da citada comissão sejam elementos suspeitos de pertencerem ao p.c.p. e tenham cadastro nesta Polícia por actividades contra a segurança do Estado, há que destacar o José Faustino Rodrigues Pinhão, que foi quem recebeu o telefonema a comunicar o falecimento da Maria Albertina e organizou a Comissão, revelando-se mais uma vez o mentor das actividades subversivas de Alpiarça e Olímpio Oliveira, elemento que, segundo consta, recebe os fundos para o partido e que é para o efeito procurado na sua oficina, aos Sábados, por muitas mulheres do campo, entre elas Adelina Arranzeiro Calarrão, casada com João Cravina Isidoro, motorista dos “Claras” e também já referenciado como suspeito de actividades subversivas. O Olímpio sai com frequência, ausentando-se por períodos de 3 e 4 dias, desconhecendo-se para onde se desloca”.

Eu ia a pé para os Patudos onde uma multidão esperava o funeral – diz António Conceição Jorge. De carro, em sentido contrário, encontrei o Dr. Hermínio, que vinha da Instituição José Relvas, onde era o Presidente. Quando me vê, pára o carro e diz-me: “Volta para trás António Jorge, tu és muito emocional e depois dizes coisas que te poderão trazer problemas”.

Continuei o meu caminho e esperei, no meio daquela multidão, que chegasse o caixão.

Depois viemos todos a pé até ao cemitério, lembro-me que vinha ladeado pelo Zé Pinhão e pelo Olímpio de Oliveira. Quando o funeral chegou ao cemitério vi alguns carros da PIDE, onde conheci o Capitão Inspector Porto Duarte, os chefes de brigada José Gonçalves e Gouveia, “tipos” que eu nem podia ver à minha frente, pois já me tinham feito a “vida negra” em interrogatórios. Dirigi-me ao Inspector:- Vocês não são os responsáveis directos, mas indirectamente o que aconteceu à Maria Albertina é da vossa responsabilidade. Enquanto a ditadura se mantiver, casos como este, continuarão.

Sentia-me muito emocionado e há coisas que não me faziam calar. Esta era uma delas.

Então dirigi-me à multidão (eram talvez mais de 5.000 pessoas), empurrado por alguns acompanhantes e sentindo que ao menor atrito haveria problemas graves entre a PIDE, GNR e a população: “Amigos! Por favor curvemo-nos perante este caixão e esta desgraça. Peço-vos que vão para casa em sinal de respeito pela memória da falecida.

O resto do funeral decorreu num silêncio impressionante. No fim, as pessoas dispersaram sem uma palavra, não dando motivos para qualquer prisão ou violência”.

O funeral de Maria Albertina Sabino foi, na realidade, um dos momentos políticos que marcou o ano de 1964 e que iria trazer consequências nefastas para alguns dos intervenientes nesse acontecimento, como é o caso de Fernando Vieira Pires “o Setenta”, que é detido no dia 29 de Maio, sendo libertado a 24 de Julho; Fernando Agostinho Sabino “o Carqueja”, irmão da falecida, que é detido no dia 6 de Junho, só sendo libertado a 28 de Setembro de 1964; Alcindio e José Pinhão, ambos pertencentes à comissão que organizou o cortejo fúnebre, o último detido a 29 de Maio e o irmão detido a 6 de Junho, tendo sido ambos libertados a 24 de Julho; Jerónimo Nazaré, que fez também parte da comissão e que seria detido no dia 2 de Julho e libertado a 3 de Agosto. Escapou momentaneamente o Olímpio Oliveira, o Rui Balsa e o António Jorge. Este último haveria de cair nas mãos da PIDE pouco tempo depois.

Bibliografia consultada: Pais, José João, Gente de Outro Ver, edição de autor, 2005."

segunda-feira, 31 de março de 2014

[0568.] JOAQUINA FARINHA RELVAS [I]


* JOAQUINA FARINHA RELVAS *

|| ALPIARÇA ||

[22/02/1913 - 08/01/1995]

[Fotografia retirada do Blogue AgitAlpiarça || 25 de Abril de 2011]

Trabalhadora rural. 

Primeira mulher de Alpiarça a ser presa por motivos políticos.

Presa em 1936 quando se manifestava na praça de jornas por aumento do salário.

Homenageada, a título póstumo, pela Assembleia Municipal de Alpiarça (2011).