[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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segunda-feira, 15 de maio de 2023

[3295.] PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO || CCXXIV

PRESOS POR MOTIVOS POLÍTICOS: DA DITADURA MILITAR AO INÍCIO DO ESTADO NOVO || CCXXIV * 

01384. Amadeu Primo da Rocha [?, 1934]

 [Amadeu Primo da Rocha || ANTT || PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904]

[Santa Isabel - Lisboa, c. 1886, empregado do comércio. Filiação: Georgina Augusta da Rocha, Pedro Maria da Rocha. Casado. Residência: Praça do Ultramar, C. A. L. - Lisboa. Deportado, em 1931, para Cabo Verde, onde continuava em 28/12/1932, aquando do conhecimento que fora abrangido pela amnistia de 05/12/1932. Regressou e apresentou-se na S. V. P. e Social em 18/01/1933. Preso, entrou no Aljube em 25/08/1934, por ser "desafeto à Situação". Julgado pelo TME em 29/05/1935 e condenado em três anos de desterro, foi transferido para Peniche em 31/05/1935. Requereu, em 11/06/1936, para ser amnistiado, foi transferido, em 14/10/1936, para o Forte de Caxias e, em 17/10/1936, embarcou para Angra do Heroísmo, de onde regressou em 08/08/1938 e foi libertado.]

[Amadeu Primo da Rocha || 31/05/1935 || ANTT || PT-TT-MI-GM-4-54-537]

[Amadeu Primo da Rocha || 03/06/1935 || ANTT || PT-TT-MI-GM-4-54-537]

01385. José Luís Marques Lebroto [?, 1933]

 [José Luís Marques Lebroto || F. 08/02/1940 || ANTT || RGP/84 || PT-TT-PIDE-E-010-1-84]

[Santarém, c. 1899, funcionário público. Filiação: Maria Marques, José Lebroto. Residência: Travessa das Parreiras, 52 - Lisboa. Em 1932, estava com residência obrigatória em Cabo Verde. Abrangido pela amnistia de 05/12/1932, regressou e apresentou-se na S. V. P. e Social em 19/01/1933. Preso em 27/10/1933. Transferido, em 16/11/1933, da 24.ª esquadra para o Aljube. Deportado para Angra do Heroísmo em 19/11/1933, por ordem do Governo, «acusado de estar implicado na preparação de um movimento revolucionário prestes a eclodir». Seguiu, em 23/10/1936, para o Campo de Concentração do Tarrafal, de onde regressou em 08/02/1940.]
[alterado em 30/03/2024]
[alterado em 20/04/2024]
[alterado em 04/05/2024]

01386. José Augusto da Silva [1931]

[Penamacor, c. 1899, guarda-fios dos Correios e Telégrafos. Filiação: Maria Isabel da Silva, Ângelo Augusto da Silva. Solteiro. Residência: Rua Damasceno Monteiro, 1 - Lisboa. Preso em 02/05/1931, "por estar implicado no corte de comunicações telegráficas e telefónicas entre Alhandra e Vila Franca de Xira", juntamente com Domingos da Silva e Henrique de Almeida. Seguiu, em 06/06/1931, para Cabo Verde, embarcando no vapor "Pedro Gomes". Abrangido pela amnistia de 05/12/1932, regressou e apresentou-se na S. V. P. e Social em 19/01/1933, indo residir para Alhandra.]

01387. João do Carmo Miranda de Oliveira [1928, 1928, 1929]

[João do Carmo Miranda de Oliveira || ANTT || PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903]

[Barcelos, c. 1900, ajudante de guarda-livros. Filiação: Maria do Carmo Miranda de Oliveira, João José de Oliveira. Solteiro. Residência: Travessa do Terreirinho, 6 - Lisboa. Terá pertencido às Juventudes Sindicalistas, sendo preso na sua sede em 25/06/1925; libertado no dia seguinte (Processo 2756). Participou na revolta de Fevereiro de 1927. Preso em 25/04/1928, "por ser o chefe do grupo "A Rebelião" e do jornal clandestino do mesmo nome"; libertado em 08/07/1928. Preso em 22/07/1928, "por suspeita de ter tomado parte no movimento revolucionário de 20"; libertado em 24/08/1928. Preso em 10/08/1929, "por ser um revolucionário do 7 de Fevereiro do 1927 e de 20 de Julho de 1928, sendo um grande organizador da massa revolucionária, estando constantemente em contacto com indivíduos desafetos à Ditadura Militar, entre muitos o Tenente Lopes Soares". Detido no Aljube, foi deportado, em 08/12/1929, para os Açores, sendo-lhe fixada residência em Ponta Delgada, onde chegou em 12/12/1929. Tentou fugir, mas seria recapturado e enviado para Santa Cruz, na Ilha da Graciosa. Passou, em Fevereiro de 1931, para Fortaleza de São Baptista, em Angra do Heroísmo e, em Março, seria transferido para a ilha das Flores. Em Maio, foi transferido para a Horta, na ilha do Faial, seguindo, em Junho, para Cabo Verdeonde esteve preso na cidade da Praia e no Campo de Concentração dos Presos Políticos do Tarrafal de S. Nicolau. Abrangido pela amnistia de 08/12/1932, regressou a Lisboa, a bordo do vapor Luanda, apresentou-se, em 19/01/1933, na SVPS e declarou ir residir, temporariamente, no Hotel Filadelfia - Lisboa. Há muita documentação sua na Fundação Mário Soares, cujo arquivo, com o seu nome, contém diários, apontamentos, correspondência e outros documentos oficiais relacionados com o percurso da deportação.]

[João Esteves]

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

[2441.] TARRAFAL DE S. NICOLAU - CABO VERDE [II] || 1931-1932 / 2020

 * TARRAFAL DE S. NICOLAU || CABO VERDE *

[1931-1932 || Campo de Concentração de Presos Políticos do Tarrafal de S. Nicolau || Documento disponibilizado por José J. Cabral]

Planta propositadamente invertida para melhor se perceber a localização das casernas utilizadas no Campo de Concentração
[Tarrafal de S. Nicolau || 1931-1932 || Planta do Campo de Concentração dos Presos Políticos do Tarrafal, São Nicolau || (s.d.), "Deportação - Planta do Tarrafal", Fundação Mário Soares / João do Carmo Miranda de Oliveira, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_78928 (2020-12-5)]

[17/12/2020 || Tarrafal de S. Nicolau || Fotografia actual disponibilizada por Cess--]

Nesta fotografia é ainda possível ver algumas das marcações das casernas utilizadas no Campo de Concentração do Tarrafal de S. Nicolau. 

Como assinala José J. Cabral, as fundações das demais casernas estão soterradas, mas encontram-se lá.

[João Esteves]

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

[2440.] CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE PRESOS POLÍTICOS DO TARRAFAL DE S. NICOLAU [I] || 1931-1932

 * TARRAFAL DE SÃO NICOLAU *

[1931 - 1932]

[Campo de Concentração de Presos Políticos do Tarrafal de S. Nicolau || Documento disponibilizado por José J. Cabral]

Em 1931, foi iniciado a construção de «um novo Campo de Concentração na Ilha de S. Nicolau, num sítio conhecido pelo nome de Tarrafal».

O general Adalberto Gastão de Sousa Dias pode observá-lo em Agosto de 1931, aquando da sua viagem de transferência do Campo de Concentração de Presos Políticos, instalado no ex-Seminário de S. Nicolau, para Ponta do Sol, na Ilha de Santo Antão.

Encontrava-se bordo do rebocador que o transportava e, como este teve de deixar em terra quem estava encarregado de apurar o andamento das obras, pode observar o que se preparava, disso dando conta em carta ao filho Adalberto, datada de 21/08/1931:

«O local escolhido é simplesmente pavoroso! O Tarrafal - misérrima povoação de pescadores, fica situado, próxima e ao lado de uma apertada ravina de ásperos e escalvados flancos, - flancos elevados e de abruptos declives, que se alargam um pouco, próximo ao mar, e onde se está estabelecendo o aludido campo de concentração. 3 raquíticas árvores é a única vegetação que ali se encontra. O sol, batendo todo o dia, neste pedregulhoso e árido terreno, sem que possível seja furtar-se à ardência dos seus raios, converterá, certamente, a existência dos desterrados que para ali forem mandados numa torturante vida de esfacelamento físico e moral!».

«Mas há mais: [...] já estão levantadas 4 casas desmontáveis, adquiridas no estrangeiro [...]» e «os postes para ser pregado o arame farpado, da vedação do estreito campo de prisão!».

[Excertos da carta enviada pelo general Sousa Dias ao filho Adalberto, datada de 21/08/1931, in O General Sousa Dias e as Revoltas contra a Ditadura – 1926/1931, organização de A. H. de Oliveira Marques, com a colaboração de A. Sousa Dias, Publicações Dom Quixote, Abril de 1975].

Como se pode ver pela relevante fotografia disponibilizada por José J. Cabral, o Campo de Concentração está de acordo com a planta que consta do Espólio de João do Carmo Miranda de Oliveira, que esteve deportado em S. Nicolau, depositado na Casa Comum - Fundação Mário Soares.

[Tarrafal de S. Nicolau || Planta do Campo de Concentração dos Presos Políticos do Tarrafal, São Nicolau || (s.d.), "Deportação - Planta do Tarrafal", Fundação Mário Soares / João do Carmo Miranda de Oliveira, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_78928 (2020-12-5)]

No entanto, o Campo de Concentração dos Presos Políticos do Tarrafal de S. Nicolau não terá sido concluído, embora tenha recebido presos, tal como confirma o investigador e estudioso José J. Cabral.  

Muito do seu material seria reutilizado no Tarrafal de Santiago, aberto em 1936.

[João Esteves]

sábado, 5 de dezembro de 2020

[2433.] O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE SÃO NICOLAU - CABO VERDE [I] || O EDÍFICIO DO SEMINÁRIO - 1931

 * O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE PRESOS POLÍTICOS DE S. NICOLAU || CABO VERDE *

[1931]

Na sequência do insucesso da Revolta da Madeira, iniciada em 4 de Abril e vencida cerca de um mês depois, militares e civis foram deportados para Cabo Verde, primeiro para a cidade da Praia, na Ilha de Santiago, e depois para a Ilha de S. Nicolau, sendo instalados no antigo Seminário, que funcionou como espaço concentracionário.

[O Seminário de S. Nicolau || Fotografia de 1897 || Pesquisa de Maria João Dias]

[O Seminário de S. Nicolau || Sem data || Pesquisa de Maria João Dias]

O edifício do Seminário-Liceu de S. Nicolau, que fora encerrado no ano lectivo de 1917-1918, era um velho casarão de dois andares, chegando a comportar cerca de 170 deportados, sem camas ou «qualquer cobertura para se cobrirem durante a noite!»: «no pavimento superior alojaram-se os presos políticos de 1.ª categoria (oficiais e civis de posição superior). No andar térreo, em três dependências do edifício principal, os sargentos e civis de 2ª e 3ª categorias».

Fora, «uma pequena cerca fica adjacente a este prédio», «onde era permitido aos deportados passearem durante o dia», ladeando todo o espaço um muro de cinco metros de altura. A guardar os presos, uma força indígena ida de Angola e 40 guardas civis, com dois subchefes e um chefe, idos de Lisboa, armados de duas metralhadoras ligeiras.

O Delegado do Governador no Campo era André da Silva e, segundo o general Sousa Dias, em carta ao filho Adalberto datada de 21 de Agosto de 1931, o regime era de «incomunicabilidade com exterior»; «visitas médicas diariamente determinadas a uma certa hora»; «censura a toda a correspondência», entregue aberta e devidamente estampilhada; acesso, apenas a «jornais reaccionários»; o dinheiro vindo de fora dependia da vontade do delegado do Governo; e «algumas ofertas ficavam na posse dos "carcereiros"».

A alimentação era «diminuta», «pessimamente mal confeccionada» e «sempre a mesma comida», preparada com «falta de asseio».

Depois de «Campanhas de protestos», conseguiu-se que «as sentinas fossem, de vez em quando, limpas e desinfectadas».

Faltavam os medicamentos, «ainda os mais simples», e o médico «dizia que não lhes satisfaziam as requisições feitas por ele e que não dispunha de meios médicos e cirúrgicos para exercer proficuamente a sua profissão!!... Um pavor!». 

Os presos políticos castigados eram sujeitos ao isolamento e a «jejuns em dias alternados», sendo que «jejuns, prolongados, em África, é uma condenação à morte».

Para além deste Seminário, transformado em Campo de detenção de deportados políticos, foi iniciado a construção de «um novo Campo de Concentração na Ilha de S. Nicolau, num sítio conhecido pelo nome de Tarrafal».

O general Sousa Dias pode observá-lo a bordo do rebocador aquando da sua viagem de transferência para Ponta do Sol, na Ilha de Santo Antão, já que aquele teve de desembarcar André da Silva, que ia «observar o estado de adiantamento das obras e providenciar em harmonia»: 

«O local escolhido é simplesmente pavoroso! O Tarrafal - misérrima povoação de pescadores, fica situado, próxima e ao lado de uma apertada ravina de ásperos e escalvados flancos, - flancos elevados e de abruptos declives, que se alargam um pouco, próximo ao mar, e onde se está estabelecendo o aludido campo de concentração. 3 raquíticas árvores é a única vegetação que ali se encontra. O sol, batendo todo o dia, neste pedregulhoso e árido terreno, sem que possível seja furtar-se à ardência dos seus raios, converterá, certamente, a existência dos desterrados que para ali forem mandados numa torturante vida de esfacelamento físico e moral!».

«Mas há mais: [...] já estão levantadas 4 casas desmontáveis, adquiridas no estrangeiro [...]» e «os postes para ser pregado o arame farpado, da vedação do estreito campo de prisão!».

[Fonte: excertos da carta enviada pelo general Sousa Dias ao filho Adalberto, datada de 21/08/1931, in O General Sousa Dias e as Revoltas contra a Ditadura – 1926/1931, organização de A. H. de Oliveira Marques, com a colaboração de A. Sousa Dias, Publicações Dom Quixote, Abril de 1975].

[Tarrafal de S. Nicolau || Planta do Campo de Concentração dos Presos Políticos do Tarrafal, São Nicolau || (s.d.), "Deportação - Planta do Tarrafal", Fundação Mário Soares / João do Carmo Miranda de Oliveira, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_78928 (2020-12-5)]

No entanto, apesar do plano inicial, descrito na planta do Espólio de João do Carmo Miranda de Oliveira (que esteve deportado em S. Nicolau) depositada na Casa Comum - Fundação Mário Soares, o Campo de Concentração dos Presos Políticos do Tarrafal de S. Nicolau não terá sido concluído e, por isso, posto a funcionar, sendo muito do seu material reutilizado no Tarrafal de Santiago, aberto em 1936.  

[Duas fotografias enviadas por José J. Cabral, a quem, mais uma vez se agradece toda a disponibilidade na partilha de informação e de documentação muito relevante e de difícil acesso]

O internamento e as condições físicas e psicológicas vividas quotidianamente pelos deportados no Seminário/Prisão de S. Nicolau, sob isolamento, regras de clausura, repressão, incomunicabilidade, acomodação, censura, restrições, vigilância policial e despotismo arbitrário e humilhante [Victor Barros, Campos de Concentração em Cabo Verde - As Ilhas como espaço de Deportação e de Prisão no Estado Novo, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009], fez com que ficasse conhecido como o Campo de Concentração de Presos Políticos de S. Nicolau.

[João Esteves]