[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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segunda-feira, 9 de março de 2020

[2306.] ANÍBAL CÂNDIDO DE VASCONCELOS [I] || PRESO EM 1918, 1922, 1923, 1929, 1930, 1937, 1939, 1949

* ANÍBAL CÂNDIDO DE VASCONCELOS *
[06/01/1887 - 1974]

A intervenção política de Aníbal Cândido de Vasconcelos prolongou-se por mais de 30 anos, entre, pelo menos, 1918 e 1949, data da sua última prisão. Esteve envolvido na luta contra o Sidonismo, foi preso várias vezes durante a 1.ª República (1918, 1922, 1923), militou no Partido Comunista Português nos primórdios da sua fundação, insurgiu-se contra a Ditadura Militar e o Estado Novo e, por isso, voltou a conhecer a prisão (1929, 1930, 1937, 1939, 1949).

[Aníbal Cândido de Vasconcelos ou Aníbal Vasconcelos || Década de 1910 (1918?) || ANTT || Livro de Cadastrados 1 || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-1-NT-8902]

Filho de Adelaide Glória Mendonça Furtado Meneses Pinto [de Vasconcelos] e de Júlio Emílio da Rocha Vasconcelos, Aníbal Cândido de Vasconcelos nasceu em 6 de Janeiro de 1887, em Leça de Palmeira, Porto.

Em 1918, durante os meses de Julho e Agosto, foi preso pela Polícia Preventiva por três vezes, «por distribuir manifestos contra o Governo» e «conspirar contra o Governo», sendo apontado como um «bolchevista ferrenho»: «faz propaganda bolchevista na Brasileira do Rossio» e reunia-se «com vários socialistas na casa de penhores Santos e C.ª, entre eles Augusto Dias da Silva, ex-Ministro do Trabalho». Também se reuniria frequentemente «com elementos suspeitos, fazendo propaganda bolchevista» [ANTT, Cadastro Político 207].

Na sequência dessas prisões, foi violentamente torturado, tendo Cunha Leal, na Sessão da Câmara de Deputados de 13 de Dezembro de 1918, véspera do assassinato de Sidónio Pais, denunciado o que se passava com alguns presos políticos, referindo-se, entre outros, ao caso específico de Aníbal de Vasconcelos: «O preso Aníbal de Vasconcelos, actualmente em Elvas, veio para o Governo Civil de Lisboa, e foi espancado a cavalo marinho, açulado contra ele um cão e deram-lhe uma coronhada que acertou no cão. Por último, partiram-lhe duas costelas» [Diário da Câmara dos Deputados, Sessão N.º 7, 13 de Dezembro de 1918].

[Aníbal Cândido de Vasconcelos ou Aníbal Vasconcelos || Década de 1910 (1918?) || ANTT || Livro de Cadastrados 1 || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-1-NT-8902]

Em Dezembro de 1920, integrou, com Alberto das Neves, António Peixe, Araújo Pereira, Campos Lima, Carlos Araújo, Carlos Rates, Eduardo Metzner, João de Castro, Joaquim Cardoso, José Corvo, Júlio de Matos, Manuel Ribeiro, Nascimento Cunha, Raul Baptista, Sebastião Eugénio, Sobral Campos e Vítor Martins, a Comissão Organizadora dos Trabalhos para a Constituição do Partido Comunista [José Pacheco Pereira, "Contribuição para a história do Partido Comunista Português na I República (1921-26)", Análise Social, vol. XVII (67-68), 1981-3.º-4.º, 695-713].

Em 23 de Junho de 1921, acrescentou-se no seu Cadastro Político que «é um velho republicano, tendo sofrido bastante durante o período dezembrista», anotando-se que, «a seguir ao triunfo de Monsanto, filiou-se no partido socialista e fez parte dum complot contra o Dr. José Domingos dos Santos, ex-Ministro do Trabalho» [ANTT, Cadastro Político 207]. Referenciado como vendedor ambulante de tabaco, voltou a ser preso em 1 de Agosto de 1922, «por ter abusado de liberdade de imprensa», e em 3 de Julho de 1923, «por ordem superior».

Segundo Pacheco Pereira, Aníbal de Vasconcelos terá feito parte, entre Março e Maio de 1923,  do Comité Central do Partido Comunista, com António Monteiro, Caetano de Sousa, J. Pires Barreira e José de Sousa.

Na sequência da luta contra a Ditadura Militar, Aníbal de Vasconcelos tomou parte no movimento revolucionário de 20 de Julho de 1928, sendo preso em 4 de Abril de 1929 e libertado em 28 de Maio.

No ano seguinte, o informador Conceição referia, em 8 de Março, que Aníbal Cândido de Vasconcelos fora visto com aqueles que se «fardaram de oficiais para raptarem o Ex.m° Ministro das Finanças,  Dr. Oliveira Salazar, chegando a ir até à entrada da Avenida Duque de Loulé» [Cadastro Político 207]. Por «estar comprometido com Fidelino da Costa no projecto do rapto do Senhor Ministro das Finanças», foi preso em 29 de Março de 1930 e solto em 18 de Abril [Processo 4573].

Em Junho do mesmo ano, o informador Bom referia que Aníbal de Vasconcelos andava vendendo o livro «Dez dias que abalaram o Mundo».

Depois de uns anos de interregno, voltou a ser detido em 22 de Janeiro de 1937, desta vez pela Secção Política e Social da PVDE. Sem profissão, a residir na Rua Carlos Mardel - 111, passou pelos calabouços da 1.ª Esquadra e, no dia seguinte, seguiu para Caxias, sendo libertado em 24 de Março do mesmo ano [Registo Geral de Presos 5773; Processo 74/937].

[Aníbal Cândido de Vasconcelos || 26/04/1939 || ANTT || RGP/5773 || PT-TT-PIDE-E-010-29-5773]

Em 25 de Abril de 1939, quando era cobrador e vivia na Rua Dr. Oliveira Ramos, 11, 2.° esquerdo, foi preso «por andar a propalar boatos tendenciosos, entre eles o de que as tropas italianas que em Espanha combateram ao lado de Franco, estavam concentradas junto da nossa fronteira» [Registo Geral de Presos 5773]. Por ser «conspirador de todos os tempos com largo cadastro», foi deportado para Angra do Heroísmo, onde desembarcou em 23 de Maio. Regressou em 23 de Dezembro e foi libertado no mesmo dia [Processo 480/939].

[Aníbal Cândido de Vasconcelos || 05/09/1949 || ANTT || RGP/5773 || PT-TT-PIDE-E-010-29-5773]

O último contacto com a polícia política deu-se dez anos depois, em 3 de Setembro de 1949. Permaneceu no Aljube até 11 de Novembro, quando regressou à Cadeia Penitenciária de Lisboa [Processo 1115/49]. Era, então, empregado forense e residia na Rua Heróis de Quionga, 52 - 2.° esquerdo.

Aníbal Cândido de Vasconcelos terá falecido em 1974, em Lisboa.

[Aníbal Cândido de Vasconcelos || ANTT || RGP/5773 || PT-TT-PIDE-E-010-29-5773]

Fontes:

ANTT, Cadastro Político 207 [Aníbal de Vasconcelos ou Aníbal Cândido de Vasconcelos / PT-TT-PIDE-E-001-CX06_m0053, m0053a].

ANTT, Registo Geral de Presos 5773 [Aníbal Cândido de Vasconcelos / PT-TT-PIDE-E-010-29-5773].

José Pacheco Pereira, "Contribuição para a história do Partido Comunista Português na I República (1921-26)", Análise Social, vol. XVII (67-68), 1981-3.º-4.º, 695-713.

[João Esteves]

quarta-feira, 17 de abril de 2019

[2107.] MARIA ADELAIDE (CALADO) [I] || PRESA POLÍTICA (1938 - 1939)

* MARIA ADELAIDE (CALADO) *

Militante comunista da década de 30 que, quando presa, motivou um apelo do Partido Comunista a seu favor e de Amélia do Carmo Oliveira, «chamando a atenção para "duas camaradas presas [...] doentes e não têm família, pai, marido"» [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política, Vol. 1, p. 311].

[Maria Adelaide || 1938 || ANTT || PT-TT-PIDE-E-010-54-10624_m0053]

Filha de Maria Adelaide Carvalho Calado e de António Calado, Maria Adelaide era natural de Lisboa.

Residia na Rua Capitão Humberto Ataíde - 6 quando, em 28 de Agosto de 1938, foi presa «para averiguações, recolhendo a uma esquadra incomunicável» [ANTT, RGP/10624].

[Maria Adelaide || 1938 || ANTT || PT-TT-PIDE-E-010-54-10624_m0053]

Provavelmente, a sua detenção verificou-se no mesmo contexto da de Amélia do Carmo Oliveira, presa quatro dias depois, sendo transferida para a Cadeia das Mónicas passados três meses, em 29 de Novembro.

Julgada pelo Tribunal Militar Especial [Processos 1128/938 - 1127/38], Maria Adelaide foi condenada a 12 meses de prisão, estando por cumprir 115 dias, e perda de direitos políticos por cinco anos.

Libertada em 7 de Setembro de 1939.

[Maria Adelaide || 1938 || ANTT || PT-TT-PIDE-E-010-54-10624_m0053]

Fonte:
ANTT, Registo Geral de Presos 10624 [Maria Adelaide / PT-TT-PIDE-E-010-54-10624_m0053].

[João Esteves]

[2106.] AMÉLIA DO CARMO OLIVEIRA [I] || PRESA POLÍTICA (1938 - 1939)

* AMÉLIA DO CARMO OLIVEIRA *
[11/11/1906 - ?]

Militante comunista da década de 30 que, quando presa, motivou um apelo do Partido Comunista a seu favor e de Maria Adelaide/Maria Adelaide Calado, «chamando a atenção para "duas camaradas presas [...] doentes e não têm família, pai, marido"» [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política, Vol. 1, p. 311].

[Amélia do Carmo Oliveira || 1938 || ANTT || PT-TT-PIDE-E-010-54-10647_m0099]

Filha de Ernestina Fonseca e de José Augusto do Carmo, Amélia do Carmo nasceu em 11 de Novembro de 1906, em Lisboa.

Costureira, residia em Alfama [Rua Entre Muros do Mirante, 27, 1.º Direito] quando, em 1 de Setembro de 1938, foi presa «para averiguações, recolhendo a uma esquadra incomunicável» [ANTT, RGP/10647, Processos 1143/938 - 1127/38].

[Amélia do Carmo Oliveira || 1938 || ANTT || PT-TT-PIDE-E-010-54-10647_m0099]

Ao fim de três meses, em 29 de Novembro, foi transferida para a Cadeia das Mónicas, sendo julgada pelo Tribunal Militar Especial em 6 de Maio de 1939.

Condenada a 90 dias de prisão e perda de direitos políticos por cinco anos, foi libertada em 10 de Maio.

[Amélia do Carmo Oliveira || 1938 || ANTT || PT-TT-PIDE-E-010-54-10647_m0099]

Fonte:
ANTT, Registo Geral de Presos 10647 [Amélia do Carmo Oliveira / PT-TT-PIDE-E-010-54-10647_m0099].

[João Esteves]

domingo, 17 de fevereiro de 2019

[2061.] BOAVENTURA GONÇALVES [I] || DEPORTADO PARA TIMOR (1931) E PARA O TARRAFAL (1936)

* BOAVENTURA GONÇALVES *
[1907 - ?]

DEPORTADO PARA TIMOR (1931 - 1932) E PARA O TARRAFAL (1936 - 1944)

[Boaventura Gonçalves || 1936 || RGP/3406 || PT-TT-PIDE-E-010-18-3406_m0025]

Filho de Maria Teresa e de Joaquim Gonçalves, Boaventura Gonçalves nasceu em 5 de Janeiro de 1907, em Silves.

Operário da construção civil, com residência na Avenida 5 de Outubro - Quinta  do Ferro, participou na Revolta de 26 de Agosto de 1931 e foi preso nesse mesmo dia por uma força da PSP «numas terras próximas de Entrecampos, onde se encontrava escondido juntamente com outros civis armados que fizeram fogo sobre a mesma força» [ANTT, Cadastro Político 3308].

Levado para a Cadeia Nacional / Penitenciária de Lisboa e deportado para Timor na semana seguinte, Boaventura Gonçalves integrou a leva de 358 presos políticos (271 civis e 87 militares) que, em 2 de Setembro, embarcou no navio Pedro Gomes [Processo 324].

[Boaventura Gonçalves || 1936 || RGP/3406 || PT-TT-PIDE-E-010-18-3406_m0025]

Naquele transporte seguiam os principais chefes militares da revolta de 26 de Agosto, tendo o barco navegado pelo Mar Mediterrâneo, atravessado o Canal do Suez e chegado a Dili em 16 de Outubro, sem fazer qualquer escala nas colónias portuguesas. 

Abrangido pela amnistia de 5 de Dezembro de 1932, regressou no paquete Moçambique que atracou no Cais da Rocha do Conde de Óbidos em 9 de Junho de 1933.

Apresentou-se na Polícia Política em 12 de Junho de 1933, onde declarou ir residir para a Rua do Barão - 14.

[Boaventura Gonçalves || 1936 || RGP/3406 || PT-TT-PIDE-E-010-18-3406_m0025]

Três anos após o regresso da primeira deportação, Boaventura Gonçalves estava como empregado no comércio em Lisboa e residiria na Rua Carvalho Araújo, nº 28 - 4.º. 

Em 12 de Julho de 1936 foi preso pela Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa Social, sendo então responsável por uma tipografia do Partido Comunista. Encaminhado para uma esquadra, foi transferido, em 17 de Agosto, para a 1.ª Esquadra e, em 27 do mesmo mês, passou para o Aljube.

[Boaventura Gonçalves || 1936 || RGP/3406 || PT-TT-PIDE-E-010-18-3406_m0025]

Em 17 de Outubro de 1936 seguiu para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, incorporando o grupo de presos políticos que o inaugurou em 29 do mesmo mês. Aí, integrou a Organização Comunista Prisional do Tarrafal (OCPT) e, na sequência de divergências no seu seio, formou, com Álvaro Duque da Fonseca, Fernando Macedo, Fernando Quirino, Jaime Tiago, José de Sousa, Leonilde Felizardo e Virgílio de Sousa, o Grupo dos Comunistas Afastados, todos expulsos do Partido Comunista em 1943 [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal - Uma Biografia Política, Vol. I, 1999]. 

Cândido de Oliveira, no livro póstumo Tarrafal - O Pântano da Morte [Editorial República, 1974], refere que Boaventura Gonçalves foi um dos muitos tarrafalistas afectados pela biliosa, registada em 16 de Janeiro de 1938.

Regressou do Tarrafal em 1 de Outubro de 1944, seguiu para Caxias e só em 1 de Novembro desse ano é que foi a julgamento, tendo sido condenado pelo Tribunal Militar Especial a 24 meses de prisão correccional. Tinha estado preso preventivamente 8 anos e 112 dias!

Libertado em 8 de Novembro de 1944, desconhece-se seu o percurso posterior. 

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 3308 [Boaventura Gonçalves / PT-TT-PIDE-E-001-CX07_m0884].
ANTT, Registo Geral de Presos 3406 [Boaventura Gonçalves / PT-TT-PIDE-E-010-18-3406_m0025].

[João Esteves]

terça-feira, 19 de junho de 2018

[1836.] CAROLINA LOFF DA FONSECA [I] || 1911 - 1999

* CAROLINA LOFF DA FONSECA (1911 - 1999) || IMPORTANTE DIRIGENTE COMUNISTA NA DÉCADA DE 1930 || EXPULSA DO PARTIDO COMUNISTA POR ENVOLVIMENTO EMOCIONAL COM O INSPECTOR DA PVDE JÚLIO DE ALMEIDA *

O percurso político de Carolina Loff é um dos mais polémicos e intrigantes, já que destacada militante e dirigente comunista na década de 30, com passagens pela União Soviética e missões da Internacional Comunista na Espanha Republicana durante a Guerra Civil, envolveu-se emocionalmente, depois de ter sido presa pela segunda vez, em 1940, com o inspector da PVDE responsável pelo seu processo. 

Apesar de expulsa do Partido Comunista, está por apurar o seu real envolvimento com os serviços de espionagem soviética, já que se revelara um quadro ao serviço da Internacional Comunista com tarefas atribuídas em Espanha e Portugal e que continuou, depois disso, a entrar e sair da URSS com enorme facilidade. 

[Carolina Loff || 01/06/1940 || ANTT || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 63, registo n e 12405 || PT/TT/PlDE/E/010/63/12405 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filha de Ida Loff Fonseca, "jovem destemida e moderna, de uma família abastada" [Anabela Natário, "Carolina Loff", Portuguesas com História - Século XX, Temas e Debates, 2008] nasceu em Cabo Verde (Praia, Santiago) em 12 de Novembro de 1911 e faleceu em 6 de Março de 1999, com 87 anos. 

O pai, Carlos Eugénio de Vasconcelos [1883 - 1928], seria natural da Madeira e os bisavós, "um ucraniano de apelido Loff e a belga Lídia Léger", emigraram para Cabo Verde em meados do século XIX, dando "início a um futuro próspero" [A. Natário].

Aos 15 anos partiu, com a mãe, para Lisboa e estudou no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, a funcionar no Largo do Carmo, onde concluiu o Curso Geral dos Liceus. 

Prima dos activistas comunistas Álvaro [1910 - 1975] e Dalila Duque da Fonseca [15/01/1911 - 1992], era, tal como aqueles, originária de Cabo Verde e dirigente da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas nos primórdios da década de 30, depois de ter aderido por intermédio de José Grácio Ribeiro, estudante de Direito mais tarde afastado e que enfileirou na União Nacional. 

Integrou a primeira célula feminina comunista, organizada por Wilma Freund, cedo se notabilizou pela dedicada militância e enquanto autora de parte dos artigos da imprensa da FJCP. 

[Carlos Luís Correia Matoso || 12/09/1931 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Polícias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Presa pela primeira vez em 6 de Setembro de 1932, quando estava grávida do seu companheiro Carlos Matoso e andava a colar propaganda. 

Passou pela Cadeia das Mónicas e, embora detida e sob vigilância da Polícia e Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), o parto ocorreu na Maternidade Bensaúde, onde a filha Helena nasceu em 1933. 

O companheiro Carlos Luís Correia Matoso [n. 15/07/1908], dirigente do Partido Comunista, não terá chegado a conhecer a filha Helena: julgado à revelia em 20 de Outubro de 1934 e condenado a 10 anos de degredo, foi preso em 11 de maio de 1938, passou sucessivamente por diversas esquadras, Cadeia do Aljube, Forte de Caxias e de Peniche, até ser enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde entrou em 20 de Junho de 1939. Solto em 20 de Dezembro de 1945, regressou em 10 de Janeiro de 1946 e emigrou para o Brasil, onde se suicidou “passado pouco tempo, em condições misteriosas” [Edmundo Pedro, Memórias. Um Combate pela Liberdade, I Volume, Âncora Editores, 2007]. 

Em Março de 1935, Carolina Loff partiu para a União Soviética com a bebé, a convite de Francisco Paula de Oliveira, frequentou a Escola Leninista, da Internacional Comunista, com o pseudónimo Ana Marta, e quando Bento Gonçalves e Álvaro Cunhal foram a Moscovo, nesse mesmo ano, reencontraram-na a trabalhar “como intérprete e tradutora nas edições em língua estrangeira” [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política, Vol. 1 – “Daniel”, O Jovem Revolucionário (1913-1941), Lisboa, Temas e Debates, 1999], destinadas sobretudo ao Brasil. 

[Carolina Loff || 01/06/1940 || ANTT || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 63, registo n 12405 || PT/TT/PlDE/E/010/63/12405 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Aí, lidou com alguns dos nomes importantes da Internacional Comunista que, em 1937, a enviaram para Espanha com a finalidade de montar uma emissora clandestina do Comintern para Portugal (mais conhecida por rádio do PCP) que passasse por funcionar em Lisboa e denunciasse o apoio do governo aos revoltosos espanhóis, o que sucedeu: a emissão “era feita a partir do próprio edifício da sede do PCE em Valência e transmitida pela Telefónica para Madrid”, fazendo quase tudo sozinha – “era a locutora e redigia grande parte do material que era transmitido”. Além disso, “lidava directamente com os mais altos responsáveis do PCE” e intervém "junto da comunidade portuguesa exilada em Espanha, informando sobre o seu comportamento político quer o PCE, quer os serviços de informação associados ao secretariado de Togliatti /«Alfredo»” [JPP, vol. 1], usando um passaporte belga em nome de Berthe Mouchet. 

Nesse ano de 1937, o seu nome surgiu como possibilidade para substituir Armando Magalhães em Paris, o quadro mais influente naquela cidade e em rota de colisão com as orientações de Francisco de Paula Oliveira, então o principal dirigente do PCP, numa tentativa de solucionar conflitos internos que se arrastavam sem solução a contento deste. 

Em 1938, fez parte da direcção da União Antifascista dos Portugueses Resistentes em Espanha, sediada em Madrid, trabalhou no Comité da Frente Popular em Barcelona e manteve-se naquele país até ao fim da Guerra Civil, tendo sido presa e torturada pelos franquistas, afirmando-se então como jornalista belga. 

As autoridades espanholas entregaram-na na fronteira portuguesa em Outubro de 1939, “acompanha-da por um personagem misterioso [Nikolas Gargoff], suposto delegado da IC, e que vai ter um papel igualmente obscuro no processo da «reorganização»” [JPP, vol. 1] do Partido Comunista Português em 1940-1941.

Ao não ser, estranhamente, detida, regressou à luta política dentro do núcleo dirigente daquele. 

Até ser presa em Maio de 1940, viveu clandestina, usou o nome de Maria Luísa, manteve estreita colaboração com Álvaro Cunhal no Secretariado, contribuiu para a redacção de documentos políticos e de textos sobre a política internacional do movimento comunista, bem como interveio na sua distribuição. 

Devido ao comportamento na prisão, chegando a ser acareada com Álvaro Cunhal e Francisco Miguel, e ao facto de se ter ligado ao subinspector da PIDE Júlio de Almeida, com quem viveu cerca de dez anos e que, depois, partiu para Angola, viria a ser expulsa do Partido na década de 40, estando por apurar o real envolvimento com os serviços de espionagem soviética, já que se revelara um quadro ao serviço da Internacional Comunista com tarefas atribuídas em Espanha e Portugal e que continuou sempre a entrar e sair da URSS com enorme facilidade. 

[Carolina Loff || 01/061940 || ANTT || PIDE, Serviços Centrais, Registo Geral de Presos, liv. 63, registo n 12405 || PT/TT/PlDE/E/010/63/12405 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

O seu nome, a par do de Helena [Vieira] Faria, constou como exemplo nefasto nas primeiras edições do importante manual político de conduta em caso de detenção pela polícia política Se Fores Preso, Camarada..., bem como no Lutemos contra os espiões e provocadores – Breve história de alguns casos de provocação no PCP,  da autoria do Secretariado do CC do PCP e saído em 1952. 

Usou ainda os pseudónimos “Berta”, “Marta da Costa” e “Sylvie”. 

Edmundo Pedro manteve relações de amizade com Carolina Loff, que lhe apresentou a filha, então já sexagenária e mãe de um casal de gémeos, criada e educada na União Soviética, sendo uma dos muitos estrangeiros, incluindo filhos de portugueses, que passaram pela escola internacional de Ivanovo. 

O percurso intrigante e enigmático de Carolina Loff saiu reforçado por se ter recusado sempre, apesar da sua longevidade, a esclarecer episódios dessa vivência, originando, entre outras, as obra de ficção O Enigma de Zulmira, de Vasco Graça Moura, e Cartas Vermelhas, de Ana Cristina Silva. 

Segundo Anabela Natário, "Carolina afastou-se da política activa, mas nunca deixou de contribuir para as causas antifascistas, inclusive para o Partido Comunista".

Feminae - Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013] incluiu uma nota biográfica de Carolina Loff da Fonseca.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Registo Geral de Presos / 12405 [Carolina Loff Fonseca / PT-TT-PIDE-E-010-63-12405_m0001].

[João Esteves]

sábado, 27 de janeiro de 2018

[1710.] ANTÓNIO FRANCO TRINDADE [I] || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO E TARRAFAL

* ANTÓNIO FRANCO TRINDADE || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO E PARA O TARRAFAL || 18 ANOS CONSECUTIVOS DE PRISÃO *

Militante do Partido Comunista no início de década de 1930, António Franco Trindade foi um dos resistentes à Ditadura Militar e ao Estado Novo que mais anos esteve preso: de 24 de Abril de 1932 a 30 de Maio de 1950.

[António Franco Trindade || ANTT || RGP/4 || PT-TT-PIDE-E-010-1-4]

Filho de Maria de Jesus Costa da Trindade e de Prudêncio Franco da Trindade, António Franco da Trindade era natural da Ericeira, concelho de Mafra, onde nasceu em 1906.

Litógrafo da Casa da Moeda, com residência na Avenida Almirante Reis, 35 - R/C, integrou o Comité de Zona N.º 1 do Partido Comunista. Filiado nº 132 da Célula 19, foi seu Secretário, tendo ainda a cargo o controlo da Célula 18.

Esteve envolvido nos preparativos da jornada de luta preparada para o dia 29 de Fevereiro de 1932 e que implicava o recurso a bombas, a qual acabou por não se realizar devido à prisão dalguns dos implicados.

De seguida, com Álvaro Augusto Ferreira e Manuel Francisco da Silva ("O Manuel Pedreiro" que faleceu em 24 de Agosto de 1941, quando detido na Fortaleza de Angra do Heroísmo), fez parte do núcleo responsável pela preparação de acções durante o 1.º de Maio, com recurso ao uso das bombas não utilizadas anteriormente. Jaime Tiago e Manuel Alpedrinha também acompanharam os preparativos. 

[António Franco Trindade || ANTT || RGP/4 || PT-TT-PIDE-E-010-1-4]

No dia 24 de Abril de 1932, quando o grupo experimentava o material na Serra de Monsanto e se treinava sob a instrução de Manuel Francisco da Silva, a PSP e a Polícia Especial do Ministério do Interior intervieram e prenderam alguns dos presentes, entre eles António Franco Trindade, Abel Augusto Gomes de Abreu (gráfico da Casa da Moeda), Álvaro Augusto Ferreira, Carlos Luís Correia Matoso (estudante de Agronomia), Eduardo Valente Neto (marítimo), João Lopes Dinis (canteiro, faleceu no Tarrafal em 12/12/1941), Manuel Francisco da Silva (pedreiro) e Silvino Fernandes Costa (ajudante de farmácia). Outros, conseguiram fugir.

Do Cadastro Político de António Franco da Trindade, consultado na Torre do Tombo, consta que ele "é elemento duma actividade extraordinária e perigosíssimo pela acção revolucionária desenvolvida, sendo de notar que, como funcionário do Estado, não hesitou em sacrificar o seu lugar aos manejos revolucionários em que se envolveu" [Cadastro 5992].

Fez parte da leva de 143 presos políticos que, em 19 de Novembro de 1933, embarcou no vapor Quanza, fundeado a cerca de 500 metros da praia sul de Peniche, com destino à Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, onde chegou a 22.

Julgado, em 24 de Agosto de 1934, pela Secção dos Açores do Tribunal Militar Especial, foi condenado, tal como muitos dos seus camaradas, a 14 anos de degredo e à multa de vinte mil escudos.


[António Franco Trindade || ANTT || RGP/4 || PT-TT-PIDE-E-010-1-4]
Embora tenha interposto recurso, a sentença foi confirmada em 30 de Agosto e, em 23 de Outubro de 1936, integrou a primeira leva de presos políticos que seguiu para o Campo de Concentração do Tarrafal.

Aí, integrou a Organização Comunista Prisional do Tarrafal (OCPT) e, na sequência de divergências no seu seio, formou, com Álvaro Duque da Fonseca, Boaventura Gonçalves, Fernando Macedo, Fernando Quirino, Jaime Tiago, José de Sousa, Leonilde Felizardo e Virgílio de Sousa o Grupo dos Comunistas Afastados, sendo todos expulsos do Partido Comunista em 1943 [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal - Uma Biografia Política, Vol. I, 1999]. 

Em 1945, subscreveu a exposição dirigida por presos políticos no Tarrafal à Comissão Executiva do Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde se saúda e apoia as resoluções tomadas na sessão de Outubro de 1945. Subscreveram-na ainda, António BatistaAntónio Gato Pinto, António Gonçalves CoimbraArmindo Guimarães, Constantino, Eurico Martins Pires, Francisco Silvério Mateus, Jaime Tiago, João Maria, Joaquim PedroTomás Marreiros [Casa Comum/Fundação Mário Soares]. 

António Franco Trindade só foi libertado (liberdade condicional) do Tarrafal em 30 de Maio de 1950. A liberdade definitiva só se deu em 2 de Junho de 1953, passando a residir na Rua António Pedro, 54, 1.º - Lisboa.

Dos 18 anos que esteve preso, três foram passados na Fortaleza de São João Baptista, Açores, e catorze no Tarrafal, Cabo Verde.

Fontes: ANTT, Cadastro Político 5992; RGP/4.

[João Esteves]
[Revisto em 25/11/2021]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

[0691.] LUÍSA RODRIGUES [I]

* LUÍSA RODRIGUES [1903-1960] *
[Desenho de António Domingues, in José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política – O Prisioneiro (1949-1960), Vol. 3, Lisboa, Temas e Debates, 2005]

Operária, nasceu em Lisboa no ano de 1903.

Militante comunista nas décadas de 1930, 1940 e 1950. 

Presa pela primeira vez a 21 de novembro de 1936, acusada “de fazer propaganda subversiva e haver a suspeita de ter distribuído panfletos clandestinos nas oficinas da fábrica onde trabalha”, sendo “conhecida como pessoa de ideias avançadas, chegando a cantar a Internacional e mais versos comunistas, na oficina onde é operária”. 

Foi libertada quase cinco meses depois, a 12 de abril de 1937. 

Ter-se-á tornado funcionária do Partido Comunista por volta de 1942 [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política, Vol. 2, Lisboa, Temas e Debates, 2001, p. 640]. 

Escassos anos depois, era companheira de casa de Manuel dos Santos, operário comunista conhecido pelo “pequeno Dimitrov” [03/02/1914-25/10/1947], condenado nos anos 30 a 22 anos de prisão e fugido do Limoeiro em setembro de 1944, após 12 anos em várias prisões, morrendo na clandestinidade com apenas 33 anos. 

Novamente presa em 10 de fevereiro de 1949, em Macinhata do Vouga, Sever do Vouga, na casa clandestina que partilhava com Militão Bessa Ribeiro [13/08/1896-02/01/1950], tendo este escapado por poucos dias. 

Levada para a sede da PIDE do Porto, recusou prestar quaisquer informações. Um mês depois, assistiu à chegada às mesmas instalações de Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira, tendo os seus constantes gritos contribuído para que se soubesse daquelas prisões. 

Devido ao grave estado de saúde, a PIDE acabou por a libertar sem processo, tendo o número de setembro do jornal Avante! denunciado que foi torturada até à loucura. 

Morreu a 1 de dezembro de 1960, com 57 anos de idade. 

Referenciando-a como companheira de Militão Ribeiro, o Avante! de janeiro de 1961 sublinhou que o assassinato do companheiro pela PIDE e a saúde fortemente abalada pela prisão, martirizou toda a sua existência [Avante!, n.º 296].

António Domingues assinou, em 1954, um desenho onde a retratou com um ar acusador e o braço esquerdo levantado, tendo umas grilhetas quebradas na mão, o qual foi publicado por Pacheco Pereira no III volume dedicado à biografia política de Álvaro Cunhal.

Feminae - Dicionário Contemporâneo, editado pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, inseriu uma biografia mais desenvolvida de Luísa Rodrigues.

[João Esteves]