[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Vilaça. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Vilaça. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 13 de maio de 2022

[2816.] JOÃO GOMES JÚNIOR || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO EM 1936

* JOÃO GOMES JÚNIOR  *

[1872 - 1957]

DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO EM 1936

[João Gomes Júnior || Fotografia prisional tirada em Coimbra, datada de 29/08/1936 || ANTT, Registo Geral de Presos/4058]

João Gomes Júnior é um dos muitos nomes que passa despercebido na historiografia da 1.ª República e na da Oposição à Ditaduras Militar e Estadonovista e, no entanto, foi um denodado republicano, antes da República, e corajoso opositor do regime instaurado em 28 de Maio de 1926, tendo sido perseguido, preso e deportado já sexagenário.

Filho de Guilhermina dos Prazeres e de João Gomes, nasceu em Coimbra, em 9 de Novembro de 1872, e casou com Mariana da Conceição Gomes [10/09/1875 - 1961(?)], tendo o casal tido nove filhos [Carlos Gomes, Jaime, José Gomes dos Santos, Berta, Felismina, Mário Gomes dos Santos, João, Maria Adelaide e uma rapariga falecida ainda bebé].

Industrial, serralheiro de reconhecida arte e comerciante, foi ativista do Partido Republicano de Coimbra - Comissão Paroquial da Freguesia de Santa Cruz, onde era, em 1910, o respectivo Secretário, sendo um dos muitos cidadãos que, em 6 de Outubro, assinou o Auto de Proclamação da República em Coimbra elaborado na sede do Município. 

Aquando do triunfo da Ditadura Militar, enfileirou a oposição ativa republicana e sofreu duras consequências políticas, económicas e familiares. Amigo e correligionário de Bissaya Barreto [1886 - 1974], fez questão de cortar relações e não mais lhe dirigir a palavra na sequência do posterior posicionamento ideológico deste.

Nos anos 30, a partir da mercearia que detinha na Rua da Sofia, colaborou com alguns dos filhos na impressão e difusão do jornal A Verdade, afeto a Afonso Costa, sendo aquele estabelecimento "também frequentado assiduamente por tertúlias de vários «desafetos» ao regime" [Alberto Vilaça]. 

Na sequência desse envolvimento, andou quase três anos fugido à Polícia Política, escondendo-se onde podia na zona da Figueira da Foz, Lares e Coimbra, inclusivamente em estações de comboio, foi condenado, preso e deportado. O armazém, que abastecia a cidade e muitos lugares dos arredores, foi fechado e, "logo após a sua fuga e as dos filhos, seguidas das prisões destes, a esposa ter-se-á visto mesmo forçada, por falta de todos estes apoios, a encerrar a mercearia, convocando os credores" [Alberto Vilaça], causando danos económicos e familiares extremamente gravosos ao quotidiano familiar. 

Um dos filhos, José Gomes dos Santos, esteve diretamente envolvido na fuga de Armando Cortesão, um dos responsáveis pelo órgão republicano, e entregou, por volta de 1935, parte do tipo que se salvara, "escondida talvez nos escaninhos da mercearia de João Gomes Júnior" ao Partido Comunista "que dele pôde assim passar a usufruir" [Alberto Vilaça]. 

Os caracteres tipográficos salvos foram entregues dentro de um saco a António Mano Fernandes [23/01/1911 - 30/01/1938], estudante antifascista conimbricense que faleceu em 30 de Janeiro de 1938, com 27 anos, por falta de assistência médica, tendo sido transferido já moribundo do Forte de Peniche para os Hospitais Universitários de Coimbra.

Por andar fugido, foi julgado à revelia pelo Tribunal Militar Especial do Porto em 6 de Julho de 1934, acusado de ter autorizado, no segundo semestre de 1933, a armazenarem na sua mercearia muitos pacotes com o jornal clandestino A Verdade e que escondessem o tipo da impressão com que foi feito o seu número 5, para além de o ter distribuído na cidade de Coimbra.

Preso em Coimbra em 29 de Agosto de 1936, quando tinha 63 anos de idade, foi transferido para o Aljube em 26 de Setembro e deportado para a Fortaleza de Angra do Heroísmo em 17 de Outubro do mesmo ano, tendo embarcado no dia seguinte no vapor Luanda.

O regresso deu-se em 3 de Novembro de 1937, quando embarcou no navio Carvalho de Araújo, e foi solto a 8, na véspera de completar 65 anos.

No final da década de 1930, Manuel Campos Lima [1916-1996], então diretor do jornal O Diabo, era visita de sua casa quando se deslocava a Coimbra, onde se reunia, entre outros, com José Gomes  dos Santos.

João Gomes Júnior faleceu em Coimbra, na sua residência, com 85 anos de idade.

[João Esteves]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

[2513.] A VISITA A COIMBRA DOS CANDIDATOS ÀS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1958 || TEXTO DE PAULO MARQUES DA SILVA [III]

 * A VISITA A COIMBRA DOS CANDIDATOS PRESIDENCIAIS DE 1958 *

Texto || Paulo Marques da Silva

«A visita a Coimbra dos candidatos às eleições presidenciais de 1958

     As eleições presidenciais de 8 de Junho de 1958 geraram um grande entusiasmo em torno da campanha do general Humberto Delgado. Após a desistência de Arlindo Vicente a favor de Delgado, em 30 de Maio de 1958, conhecido como o “Pacto de Cacilhas”, e lançado o mote da campanha na conferência de imprensa no café Chave D`Ouro, em Lisboa, no dia 10 de Maio, com a frase “Obviamente demito-o”, referindo-se a Salazar, seguiu-se uma vasta movimentação popular, criando-se uma forte dinâmica de unidade na oposição, como se viu na grande manifestação ocorrida na deslocação do general à cidade do Porto, quatro dias após aquela frase mítica. Começaram, então, as intimidações e a repressão do regime, visível nos casos da proibição da deslocação a Braga do general Humberto Delgado ou nos incidentes na estação de Santa Apolónia, em Lisboa, a 16 de Maio, na chegada do candidato à capital, com a polícia a carregar sobre a população que ali se juntara.

    O entusiasmo existente em torno da candidatura de Humberto Delgado era evidente no país, e o povo ganhou alento e esperança para vir para a rua receber o general, por onde este passava durante a campanha.

   Vejamos um relato das passagens por Coimbra dos dois candidatos, Humberto Delgado e Arlindo Vicente, antes da desistência deste último. Mas não é a descrição da imprensa, do historiador, ou do cidadão comum que testemunhou os factos. É a visão do informador Inácio, muito provavelmente, o maior informador de Coimbra. É através dos seus relatórios sobre estas passagens por Coimbra e dos pormenores recolhidos nas suas informações, que vamos deixar o leitor tentar perceber as diferenças existentes na recepção aos candidatos presidenciais.
 


Informação de Inácio de 28-5-1958
 
Dr. ARLINDO VICENTE
 
     A sua chegada a esta cidade não teve coisa alguma de especial.
   Na estação velha era aguardado por 4 membros da sua Comissão chefiados pelo Dr. ALBERTO VILAÇA, três jornalistas, e um simples estudante, rapaz ainda novo. Havia mais alguns indivíduos mas como simples espectadores.
     No muro que veda a estrada em frente da estação, estavam cerca de 50 operários, por ser a hora de saída do seu emprego, o Dr. ARLINDO VICENTE fez-lhes saudação com as mãos, mas não obteve qualquer resposta.
     A sessão realizada no Teatro Avenida teve realmente muita assistência, notando-se que a sua maioria era constituída por caixeiros, operários e empregados – muita gente – (digo), ralé.
     Na estrada de Eiras, Casal do Ferrão e Relvinha, viu-se muita gente, mas da pior condição.
     O automóvel Volkswagen MI-17-49 guiado por pessoa desconhecida em Coimbra, veio duas vezes ao Teatro Avenida trazer indivíduos, tipo trabalhadores ou operários. Esta gente era de fora.
     A mesa da sessão era assim constituída:
 
     Eng.º MEM VERDIAL
     HENRIQUE BARRETO
     JOÃO PIMENTEL DAS NEVES
     EVA AMADO
     MANUEL FIUZA PIMENTEL
     MANUEL RAMALHO GANTES
    Dr. ALFREDO GOMES, da Comissão do General Humberto Delgado que representou a Comissão de Coimbra.
 
     ORADORES
 
     Dr. ALBERTO VILAÇA
     MANUEL LOUZÃ HENRIQUES
     AUGUSTO CÉSAR ANJO
     MÁRIO SILAS CERQUEIRA
     MÁRIO SACRAMENTO
     Eng.º MEM VERDIAL
     Fechou a série de discursos o candidato ARLINDO.
 
    Todos os discursos foram muito inflamados, destacando-se os dos seguintes oradores:
 
     Eng.º MEM VERDIAL
     Dr. AUGUSTO CÉSAR
     Dr. ALBERTO VILAÇA
     MANUEL LOUZÃ HENRIQUES
 
     Estava prevista a vinda de MARIA ISABEL ABOIM INGLÊS para discursar, mas não apareceu.
     Houve certa decepção por esta ausência.
   No palco encontravam-se vários indivíduos, para além da mesa constituída.
     A Dr.ª MADALENA ALMEIDA parecia chefiar um grupo desta gente.
    O candidato retirou hoje para Lisboa no comboio foguete da manhã, nada tendo havido de especial.
  Era apenas acompanhado pelo Dr. ALBERTO VILAÇA, que também seguiu viagem no mesmo comboio para a capital onde vai discursar.

----------------

Informação de Inácio de 1-6-1958

 
GENERAL HUMBERTO DELGADO EM COIMBRA
 
     Para o Hotel Astória onde se foi hospedar entraram para receber o General, não só a Comissão de Coimbra (já conhecida) como também as seguintes personagens:
 
a) Da Comissão do ARLINDO: - Dr.ª MADALENA ALMEIDA, EVA AMADO, MANUEL LOUZÃ HENRIQUES.
b) Dr. MÁRIO SILVA E FERREIRA DA COSTA.
c) Dr. ANTÓNIO CONTENTE RIBEIRO e RAÚL MADEIRA, ambos de Soure.
d) Drs. ADELINO MESQUITA, ALBANO DUQUE, Dr. JOÃO BOGALHO, Dr. CUSTÓDIO OLIVEIRA, da Figueira da Foz.
     No átrio do Hotel estava bastante gente.
 
     No Teatro Avenida era enorme a multidão. A sua lotação estava excedida vendo-se muitas capas negras. No palco muita gente também e diversas comissões de fora de Coimbra.
     O serviço no palco era dirigido pelos Drs. JOSÉ FERREIRA e FERNANDO LOPES.
     A mesa da presidência tinha a seguinte constituição:
 
     Major DAVID NETO
     Dr. VASCO DA GAMA FERNANDES
     Dr. MANUEL MONTEZUMA DE CARVALHO
     MÁRIO QUEIROZ MARQUES – estudante
     MÁRIO SILVA – estudante.
 
     ORADORES
 
     Dr. FERNANDO LOPES
     DAVID NETO
     VASCO DA GAMA FERNANDES
     JOSÉ RIBEIRO
     Dr. JAIME CORTESÃO
     Dr. ROLÃO PRETO
     Dr. VIEIRA DE ALMEIDA – monárquico
 
     Os Drs. JAIME CORTESÃO, FERNANDO LOPES, VASCO DA GAMA FERNANDES, ROLÃO PRETO e JOSÉ RIBEIRO foram os que fizeram os seus discursos de bastante violência contra o E.N. tendo arrancado à assistência muitos aplausos.
    Na assistência à Portagem era notória uma grande mole de gente do povo-operários-trabalhadores e mulheres das fábricas. Muitos estavam por espirito de curiosidade e nem sequer podem votar por não estarem inscritos. Havia bastante ralé e muitos rapazes novos.
   Devo frisar que todo o comércio da baixa que costumam fechar uns minutos depois das 19 horas o fez precisamente a essa hora e outros até um pouco antes para o pessoal poder assistir à chegada do General.
     A imprensa de Coimbra compareceu no seu total à sessão do Avenida. O Diário de Coimbra mandou dois redactores além do chefe da redacção, o célebre JOSÉ CASTILHO.»

[Paulo Marques da Silva]

segunda-feira, 15 de abril de 2019

[2103.] BERNARDINA ANTUNES ARAÚJO NEVES [III] || PRESA POLÍTICA (1934)

* BERNARDINA ANTUNES ARAÚJO NEVES *

"Dryada" ou a primeira presa política da cidade de Coimbra devido a actividades antifascistas de influência anarco-sindicalista [1934]

[Bernardina Neves || 1934 || in Alberto Vilaça, Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do Salazarismo]

Filha de Maria da Cruz e de Francisco Antunes Araújo, Bernardina Antunes Araújo terá nascido na última década do século XIX (c. 1894), em Coimbra. 

Costureira, casada com o tipógrafo Alfredo Neves, residia em Coimbra, onde era uma das subscritoras do jornal O Proletário, de orientação marxista-leninista, e terá sido, segundo Alberto Vilaça, a primeira presa política daquela cidade devido a actividades antifascistas de influência anarco-sindicalista. 

[Bernardina e Alfredo Neves || 1934 || in Alberto Vilaça, Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do Salazarismo]

Em 28 de Agosto de 1934, foi detida com o marido na casa que habitavam [Rua Martins de Carvalho, 34, 4.º] e entregue, em 15 de Fevereiro de 1935, à Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. Levada para Lisboa, foi confiada à PSP no dia 26 [Processo 1237/SPS - 1934].

[Grupo de Presos || 1934 || in Alberto Vilaça, Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do Salazarismo]

Julgada em 23 de Março de 1935 pelo Tribunal Militar Especial, foi condenada a 180 dias de prisão correccional, dada por expiada com a prisão sofrida, e perda de direitos políticos por cinco anos. Libertada em 26 de Março, Bernardina Antunes Araújo Neves faleceu pouco tempo depois no Hospital de São José, quando teria cerca de 40 anos de idade. 

[Bernardina Antunes Araújo Neves || ANTT || RGP/444 || PT-TT-PIDE-E-010-3-444_m0093]

Segundo investigações feitas por Alberto Vilaça no ANTT, «a sua prisão ficou a dever-se à actividade de recepção e distribuição dos números 1 e 2 da série clandestina de A Batalha, para o seu endereço enviados por Manuel Henriques Rijo [27/05/1897 - 01/08/1974], conforme sugestão do anarquista conimbricense Arnaldo Simões Januário [06/06/1897 - 27/03/1938], então preso no Forte da Trafaria pelos acontecimentos do 18 de Janeiro, e dirigidos "à camarada Dryada" em papel timbrado da CGT» [Alberto Vilaça, Para a História Remota do PCP em Coimbra. 1921-1946]. 

Neste mesmo estudo, considera-se esta costureira «uma personagem merecedora de atenção pelo seu activismo antifascista», confirmado pelas entrevistas a Emília Pessoa, sobrinha consanguínea do marido, e ao sapateiro Guilherme Luís [n. 29/04/1904], ambas datadas de Maio de 1992. O mesmo autor publicou, em trabalho posterior, uma fotografia de 1934 de presos políticos nas instalações da PSP de Coimbra onde são visíveis Bernardina Araújo e Alfredo Neves.

Feminae - Dicionário Contemporâneo, editado pela CIG em 2013, inclui uma entrada sobre esta anarquista.

Fonte:
ANTT, Registo Geral de Presos 444 [Bernardina Antunes Araújo Neves / PT-TT-PIDE-E-010-3-444_m0093].

[João Esteves]

domingo, 17 de março de 2019

[2076.] ALBERTO VILAÇA [VI] || À MESA D'A BRASILEIRA

* ALBERTO DE OLIVEIRA VILAÇA *

À MESA D'A BRASILEIRA. CULTURA, POLÍTICA E BOM-HUMOR

Calendário de Letras || Dezembro de 2005

Por muitas destas "pequenas histórias" narradas por Alberto Vilaça [1929 - 2007] passam muitos dos antifascistas de Coimbra vigiados ou presos pela PIDE e a quem Paulo Marques da Silva, no seu recente livro A PIDE e os seus informadores - O caso de Inácio [Palimage, 2019] se refere com mais detalhe por via do informador "Inácio".









[Calendário das Letras || Dezembro de 2005]

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

[1719.] ANTÓNIO MARIA DE OLIVEIRA [I]

* ANTÓNIO MARIA DE OLIVEIRA || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO *

Filho de Maria Nunes e de José de Oliveira, António Maria de Oliveira nasceu em Coimbra por volta de 1897, já que foi preso com 36 anos, em 1933.

Tipógrafo em Coimbra, foi detido por estar envolvido na impressão de alguns números do jornal republicano clandestino A Verdade na tipografia de Manuel Reis Gomes, situada na Rua da Sofia, 116 [Alberto Vilaça, "O jornal republicano clandestino A Verdade", Revista de História das Ideias, 23, 2002]. 


Tal como o tipógrafo António Borges Clemente, envolvido no mesmo processo, foi levado para o Aljube e, depois, para Peniche. 

Fez parte da leva de 143 presos políticos que, em 19 de Novembro de 1933, embarcou no vapor Quanza com destino à Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, onde chegou a 22.

Julgado em 27 de Agosto de 1934, foi condenado a 430 dias de prisão e perda dos direitos políticos por cinco anos.

Libertado em 9 de Janeiro de 1935, já depois de ter concluído a pena.

[ANTT || RGP/11]

Na sequência deste mesmo processo envolvendo o jornal A Verdade, foram presos na mesma altura, entre outros: Manuel Reis Gomes, também ele deportado e vários anos encarcerado; João da Silva (escultor, cunhado de António Sérgio); António Maria Malva do Vale (médico); Neves Rodrigues; António Borges Clemente (tipógrafo); Henrique José Pereira de Matos (aprendiz); Manuel Pereira Júnior (servente); e os irmãos Jaime Gomes dos Santos, Mário Gomes dos Santos e José Gomes dos Santos (deportado para Angra do Heroísmo, voltaria a suceder o mesmo anos depois). 

Fontes: ANTT, RGP/11; Alberto Vilaça, "O jornal republicano clandestino A Verdade", Revista de História das Ideias, 23, 2002; Alberto Vilaça, Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do Salazarismo, Campo das Letras, 2003.

[João Esteves]

sábado, 27 de janeiro de 2018

[1708.] ANTÓNIO BORGES CLEMENTE [I] || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO EM 19/11/1933

* ANTÓNIO BORGES CLEMENTE || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO *

Filho de Maria Clemente e de António Clemente, António Borges Clemente nasceu em Coimbra por volta de 1910.

Tipógrafo em Coimbra, terá sido preso em Outubro de 1933, com 23 anos, por estar envolvido na impressão de alguns números do jornal republicano clandestino A Verdade na tipografia de Manuel Reis Gomes, situada na Rua da Sofia, 116 [Alberto Vilaça, "O jornal republicano clandestino A Verdade", Revista de História das Ideias, 23, 2002]. 



Preso no Porto pelo agente da PSP de Coimbra e colaborador da Polícia Política Artur da Costa ("o 11"), que o seguira.

Levado para o Aljube e, depois, para Peniche, fez parte da leva de 143 presos políticos que, em 19 de Novembro de 1933, embarcou no vapor Quanza com destino à Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, onde chegou a 22.

[ANTT || RGP 2]

Torturado e espancado, tal como os outros tipógrafos, foi julgado em 27 de Agosto de 1934 e condenado a 420 dias de prisão e perda dos direitos políticos por cinco anos.

Saiu em liberdade em 9 de Janeiro de 1935, já depois de ter cumprido a pena a que fora condenado.

Na sequência deste mesmo processo envolvendo o jornal A Verdade, foram presos na mesma altura, entre outros: Manuel Reis Gomes, também ele deportado e vários anos encarcerado; João da Silva (escultor, cunhado de António Sérgio); António Maria Malva do Vale (médico); Neves Rodrigues; António Maria de Oliveira (tipógrafo); Henrique José Pereira de Matos (aprendiz); Manuel Pereira Júnior (servente); e os irmãos Jaime Gomes dos Santos, Mário Gomes dos Santos e José Gomes dos Santos (deportado para Angra do Heroísmo, voltaria a suceder o mesmo anos depois). 

Fontes: ANTT, RGP 2; Alberto Vilaça, "O jornal republicano clandestino A Verdade", Revista de História das Ideias, 23, 2002; Alberto Vilaça, Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do Salazarismo, Campo das Letras, 2003.

[João Esteves]

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

[1646.] BENTO GONÇALVES [I] || A MORTE NO TARRAFAL (1902 - 1942)

* HÁ 75 ANOS, BENTO ANTÓNIO GONÇALVES FALECIA NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL *

[02/03/1902 - 11/09/1942]

Quando Bento Gonçalves, Secretário-Geral do Partido Comunista Português, faleceu no Tarrafal, vítima de uma biliose, já tinha cumprido a pena a que fora condenado pelo Tribunal Militar Territorial em 3 de Agosto de 1936.

Filho de Germana Alves e de Francisco Gonçalves, Bento António Gonçalves nasceu em 2 de Março de 1902, em Fiães do Rio (Montalegre - Trás-os-Montes).

[Seara Nova || 1976]

Segundo António Ventura, no livro Bento Gonçalves. Escritos (1927-1930) [Seara Nova, 1976], e a "Contestação de Bento Gonçalves à secretaria do Tribunal Militar Especial" [Os Comunistas 1 - Bento Gonçalves, Opinião, 1976], aos 13 anos, depois de concluída a instrução primária, já se encontrava a trabalhar em Lisboa, no Bairro da Sé, como torneiro de madeira e, posteriormente, tornou-se aprendiz de torneiro mecânico, profissão que manteve até ao fim da vida.

Com pouco mais de 17 anos, em 29 de Outubro de 1919, foi admitido como aprendiz no Arsenal da Marinha, onde onze anos depois, em 29 de Setembro de 1930, seria preso, e aí se manteve até 1933 como operário metalúrgico do quadro (oficinas de máquinas).

Frequentou, segundo o próprio, a Escola Industrial Afonso Domingues e, em 16 de Junho de 1922, foi alistado no Exército: aí fez serviço efectivo na Escola de Condutores Militares de Automóveis, tirou o 2.º ano do Curso elementar de Pilotagem na Escola Auxiliar de Marinha e embarcou, em Janeiro de 1924, para Angola onde, até 1926, trabalhou como torneiro mecânico de primeira classe nas Oficinas Gerais do Caminho de Ferro de Luanda e colaborou com o Sindicato dos Operários locais.

[A Opinião || 1976]

Licenciado em 25 de Março de 1926, regressou a Portugal e, no ano seguinte, iniciou a sua actividade sindical ao intervir activamente na reorganização do Sindicato do Pessoal do Arsenal da Marinha, sendo eleito Secretário-Geral da sua Comissão Administrativa.

[Alberto Vilaça || Bento Gonçalves. Inéditos e Testemunhos || Edições Avante!, 2003]

Em Outubro de 1927, aquando do décimo aniversário da Revolução de Outubro, deslocou-se à Rússia, tendo Alberto Vilaça inserido uma fotografia desse tempo no seu livro dedicado a Bento Gonçalves [Edições Avante!, 2003]. Esta fotografia da Delegação Portuguesa ao Congresso dos Amigos da URSS consta dos Arquivos em Moscovo, tendo João Arsénio Nunes obtido uma reprodução [p. 66].

[Alberto Vilaça || Bento Gonçalves. Inéditos e Testemunhos || Edições Avante!, 2003]

Em 1928, em 20 de Setembro, convicto que "só o bolchevismo poderá conduzir a nossa classe à emancipação integral", tornou-se militante do Partido Comunista, sendo Secretário da Célula do Arsenal da Marinha e, em 21 de Abril do ano seguinte, com apenas 26 anos, foi eleito Secretário-Geral e participou na sua reorganização tendo em conta as condições resultantes do triunfo da Ditadura Militar de 28 de Maio de 1926: "não se podia aceitar a inactividade de trabalho comunista, tanto legal, como ilegal, neste momento em que [...] toda a nossa organização operária se afunda em pleno marasmo, tanto do ponto de vista de ideologia, como de acção sindical". 

Em 29 de Setembro de 1930, é preso no seu local de trabalho e enviado para o forte de S. Julião da Barra (8 de Outubro), de onde seguiu para os Açores, Lajes do Pico, com residência fixa. 

Em 15 de Fevereiro de 1931, foi transferido para Cabo Verde, para as ilhas do Sal e Fogo, de onde regressou em Fevereiro de 1933.

Nesse mesmo ano, em 9 de Agosto, Bento Gonçalves entrou na clandestinidade, tendo sobrevivido devido ao apoio e cotização de militantes do Partido Comunista e doutros opositores à Ditadura, como Francisco Pulido Valente: Armindo Rodrigues, no livro Um poeta recorda-se - Memórias de uma vida [Edições Cosmo, 1998], refere que uma "tarde procurei-o com uma ponta de comoção e contei-lhe que o secretário-geral do Partido Comunista Português, o camarada Bento Gonçalves, força exclusiva que sem tréguas combatia a ditadura do Salazar, atravessava dificuldades tremendas, até fome sofrendo, e que urgia dinheiro para ele. Imediatamente se levantou, foi ao casaco que guardava num compartimentozinho, dele tirou a carteira [...]".

Em Julho-Agosto de 1935, interveio no VII Congresso da Internacional Comunista organizado em Moscovo, sendo preso, juntamente com José de Sousa e Júlio Fogaça, pouco tempo depois do seu regresso, em Novembro.

Transferido para o Aljube em 20 de Dezembro de 1935, foi deportado para Angra do Heroísmo em 8 de Janeiro de 1936, condenado a 4 anos de prisão e enviado para o Tarrafal, onde chegou a 29 de Outubro do mesmo ano. Mesmo longe, vivendo em condições inimagináveis para os vindouros, é (mais uma vez) um dos obreiros da reorganização do Partido Comunista iniciada e concretizada em 1941-1942. Aí dirigiu a Organização Prisional Comunista e redigiu "Palavras Necessárias" e "Duas Palavras".

Nome muito respeitado por todos aqueles que com ele conviveram no local de trabalho, na tropa, no Partido Comunista, nas prisões e deportações, Bento Gonçalves faleceu aos 40 anos, sem a devida assistência médica no Campo de Concentração do Tarrafal. Já tinha cumprido a pena a que fora condenado, sendo, pois, mais uma vítima das muitas arbitrariedades do fascismo.


[Alberto Vilaça || Bento Gonçalves. Inéditos e Testemunhos || Edições Avante!, 2003]

Em 1973, Virgínia de Moura editou Palavras Necessárias. A vida do proletária em Portugal de 1872 a 1927, com introdução sua e de António Lobão Vital.


[Edição de Virgínia Moura || Fevereiro de 1973]

Em 11 de Setembro de 1974, no 32.º Aniversário da sua morte, realizou-se uma sessão evocativa no Arsenal da Marinha/Alfeite, estando presentes centenas de operários, assim como Francisco Miguel e Pedro Soares que estiveram com ele no Tarrafal.

[Augusta Madaleno Rodrigues e António Policarpo || Bento António Gonçalves. Vida e descendência em Portugal e Cabo Verde || Edições Avante! 2012]

[João Esteves]

sexta-feira, 25 de março de 2016

[1414.] MARIA LÚCIA RAMOS FRUTUOSO [NAMORADO] [I] || 1927 - 2011

* MARIA LÚCIA RAMOS FRUTUOSO NAMORADO *
[26/04/1927 - 08/01/2011]

|| AFPP || COIMBRA ||


Técnica Superior Analista. 

Filha de Maria B. Ramos e de José Augusto Frutuoso [Gaspar de Matos] [f. 23/03/1971], operário cerâmico modelador, prestigiado jogador do Clube de Futebol União de Coimbra e secretário do Comité Local de Coimbra do PCP no início da década de 30. 

[in Alberto Vilaça, Para a história remota do PCP em Coimbra - 1921-1946, Edições Avante!, 1997]

Nasceu nesta cidade a 26 de Abril de 1927 e faleceu a 8 de Janeiro de 2011, com 83 anos. 

Frequentou a Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e licenciou-se em 31 de outubro de 1958, em Ciências Físico-Químicas, na Universidade do Porto. 

Aderiu, quando estudante, por proposta de Maria Joana Rosendo Dias, ao núcleo de Coimbra da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, colaborou, no início da década de 50, com o MUD Juvenil e, já na zona de Lisboa, deu apoio “aos filhos de muitos presos políticos, acolhidos em sua casa” [Avante!, 03/02/2011]. 

[Fotografia de Egídio Namorado retirado do Blogue O Grande Zoo, de Rui Namorado]

Casada com o físico e escritor Egídio Namorado [Alter do Chão, 27/11/1920 – Carcavelos, 1977], prestigiado intelectual comunista que nunca pôde lecionar em instituições públicas ou privadas até 1974, trabalhou na Estação Agronómica como técnica superior analista e manteve ativa militância partidária no concelho de Cascais. 

Fez parte do Coro da Academia dos Amadores de Música. 


O pai, José Augusto Frutuoso, foi preso várias vezes por motivos políticos: uma, antes de 28 de Maio de 1926; e depois, em 11/03/1931, “sendo considerado pela polícia como «elemento perigoso» e que fazia «propaganda comunista»” , em 1932 e em 18 de dezembro de 1933, na sequência de preparativos para a ação revolucionária de 18 de Janeiro de 1934. Foi, por diversos mandatos, Presidente da Direção do União de Coimbra, “mantendo o essencial da sua postura ideológica e atitudes antifascistas, sempre vigiadas de perto pela PIDE” [A. Vilaça, 1997]. 

O irmão, Mário Ramos Frutuoso, também esteve envolvido, na viragem da década de 1940, no MUD Juvenil de Coimbra, sendo referenciado por Alberto Vilaça como simpatizante [O MUD Juvenil em Coimbra. Histórias e estórias, Porto, Campo das Letras, 1998]. 

O marido era irmão de António (Médico) [Alter do Chão, 14/02/1916 – Loureiro de Silgueiros, 16/07/1981], de Joaquim (Licenciado em Ciências Matemáticas) [Alter do Chão, 30/06/1914 – Coimbra, 29/12/1986], e de Maria José Vitorino Namorado (professora), todos com atividade política oposicionista. 

[João Esteves]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

[1284.] JOÃO GOMES JÚNIOR [IV] || 1872-1957

* JOÃO GOMES JÚNIOR *

[1872 - 1957]

João Gomes Júnior é um dos muitos nomes que passa despercebido na historiografia da 1.ª República e na da Oposição às Ditaduras Militar e Estadonovista e, no entanto, foi um denodado republicano, antes da República, e corajoso opositor do regime instaurado em 28 de Maio de 1926, tendo sido perseguido, preso e deportado já sexagenário.

Filho de Guilhermina dos Prazeres e de João Gomes, nasceu em Coimbra, em 9 de Novembro de 1872, e casou com Mariana da Conceição Gomes [10/09/1875 - 1961(?)], tendo o casal tido nove filhos [Carlos Gomes, Jaime, José Gomes dos Santos, Berta, Felismina, Mário Gomes dos Santos, João, Maria e uma rapariga falecida ainda bebé].

Industrial, serralheiro de reconhecida arte e comerciante, foi ativista do Partido Republicano de Coimbra - Comissão Paroquial da Freguesia de Santa Cruz, onde era, em 1910, o respectivo Secretário, sendo um dos muitos cidadãos que, em 6 de Outubro, assinou o Auto de Proclamação da República em Coimbra elaborado na sede do Município. 



Aquando do triunfo da Ditadura Militar, enfileirou a oposição ativa republicana e sofreu duras consequências políticas, económicas e familiares. Amigo e correligionário de Bissaya Barreto [1886-1974], fez questão de cortar relações e não mais lhe dirigir a palavra na sequência do posterior posicionamento ideológico deste.

Nos anos 30, a partir da mercearia que detinha na Rua da Sofia, colaborou com alguns dos filhos na impressão e difusão do jornal A Verdade, afeto a Afonso Costa, sendo aquele estabelecimento "também frequentado assiduamente por tertúlias de vários «desafetos» ao regime" [Alberto Vilaça]. 
 

Na sequência desse envolvimento, andou quase três anos fugido à Polícia Política, escondendo-se onde podia na zona da Figueira da Foz, Lares e Coimbra, inclusivamente em estações de comboio, foi condenado, preso e deportado. O armazém, que abastecia a cidade e muitos lugares dos arredores, foi fechado e, "logo após a sua fuga e as dos filhos, seguidas das prisões destes, a esposa ter-se-á visto mesmo forçada, por falta de todos estes apoios, a encerrar a mercearia, convocando os credores" [Alberto Vilaça], causando danos económicos e familiares extremamente gravosos ao quotidiano familiar. 

Um dos filhos, José Gomes dos Santos, esteve diretamente envolvido na fuga de Armando Cortesão, um dos responsáveis pelo órgão republicano, e entregou, por volta de 1935, parte do tipo que se salvara, "escondida talvez nos escaninhos da mercearia de João Gomes Júnior" ao Partido Comunista "que dele pôde assim passar a usufruir" [Alberto Vilaça]. Os caracteres tipográficos salvos foram entregues dentro de um saco a António Mano Fernandes [n. 23/01/1911], estudante antifascista conimbricense que faleceu em 30 de Janeiro de 1938, com 27 anos, por falta de assistência médica, tendo sido transferido já moribundo do Forte de Peniche para os Hospitais Universitários de Coimbra.


Por andar fugido, João Gomes Júnior foi julgado à revelia pelo Tribunal Militar Especial do Porto em 6 de Julho de 1934, acusado de ter autorizado, no segundo semestre de 1933, a armazenarem na sua mercearia muitos pacotes com o jornal clandestino A Verdade e que escondessem o tipo da impressão com que foi feito o seu número 5, para além de o ter distribuído na cidade de Coimbra.


Preso em Coimbra em 29 de Agosto de 1936, quando tinha 63 anos de idade, João Gomes Júnior foi transferido para o Aljube em 26 de Setembro e deportado para a Fortaleza de Angra do Heroísmo em 17 de Outubro do mesmo ano, tendo embarcado no dia seguinte no vapor Luanda.


O regresso deu-se em 3 de Novembro de 1937, quando embarcou no navio Carvalho de Araújo, e foi solto a 8, na véspera de completar 65 anos.


No final da década de 1930, Manuel Campos Lima [1916-1996], então diretor do jornal O Diabo, era visita de sua casa quando se deslocava a Coimbra, onde se reunia, entre outros, com José Gomes  dos Santos.

 [Coimbra || Década de 1950]

João Gomes Júnior faleceu em Coimbra, na sua residência, com 85 anos de idade [o nome próprio da esposa é Mariana e não Maximina como consta da necrologia].


[João Esteves]