[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

[1060.] ALICE MODERNO [V]

* ALICE AUGUSTA PEREIRA DE MELO MAULAZ MONIZ MODERNO *

[11/08/1867 - 20/02/1946]

Poetisa, professora particular de Português e de Francês, jornalista, editora, tradutora, mulher de negócios, republicana e feminista.

Filha de Celina Pereira de Melo Maulaz Moderno e do médico e comendador João Rodrigues Pereira Moderno, descendentes de imigrantes no Brasil onde nasceram e se casaram, Alice Moderno nasceu em Paris, a 11 de Agosto de 1867 e faleceu a 20 de Fevereiro de 1946, em Ponta Delgada, apenas oito dias após Maria Evelina de Sousa, sua companheira de 40 anos. 

Embora tenha nascido em Paris, cidade onde os pais se tinham instalado, o "casal Moderno mudou para a Terceira, ainda no ano do seu nascimento, ali permanecendo durante nove meses. Regressaram a Paris, e só em 1876 vemos de novo Alice Moderno em Angra do Heroísmo e, depois, em Ponta Delgada, onde se fixou a 31 de Agosto de 1883, ano da estreia literária com a publicação da poesia “Morreu”, a que se seguiu, três anos passados, Aspirações, o seu primeiro livro de versos. [Cristina l. Duarte].

Foi a primeira aluna a frequentar o Liceu Nacional de Ponta Delgada, onde se matriculou quando já tinha 20 anos, e cursou o magistério, sendo “muito estimada pelas suas faculdades e processo de ensino” [Inocêncio Francisco da Silva e Brito Aranha, Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Vol. XXII, p. 64]. 

Dirigiu o periódico mensal Recreio das Salas [1888] e o Diário dos Açores, fundou, em Ponta Delgada, o jornal A Folha [05/10/1902 - 15/04/1917], que veiculou as novas ideias feministas, divulgando o que se passava em Portugal e no Mundo, e manteve permuta com a imprensa do continente. 

Mulher combativa e emancipada, que vivia de forma independente devido exclusivamente aos seus trabalhos, tornou-se numa prestigiada activista, nos Açores, das organizações de mulheres da I República.

Militou na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, na Associação de Propaganda Feminista e na Associação Feminina de Propaganda Democrática

Já em 1906, o “Jornal da Mulher” de O Mundo a considerava como “uma das convictas e sinceras feministas da nossa terra” e, “apesar de estar longe de nós, [...], em todas as cruzadas de propaganda feminista que se empreendam no nosso meio, o estímulo da sr.ª D. Alice Moderno vem sempre, generosamente, animar-nos nas campanhas, as mais difíceis”. 

Colaborou em A Madrugada, órgão da LRMP, na Alma Feminina, periódico do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, e na Revista Pedagógica, dirigida pela professora, e amiga inseparável, Maria Evelina de Sousa. 

Interveio, em 1909, na campanha a favor da aprovação da Lei do Divórcio, quer através de artigos, como subscrevendo o abaixo-assinado posto a circular nesse sentido e, em Agosto de 1912, durante uma das suas frequentes passagens por Lisboa, foi homenageada, juntamente com Evelina de Sousa, companheira de causas, pela Liga. 

Para além das homenageadas, discursaram Agostinho Fortes, Carneiro de Moura, Ana Augusta de Castilho, Maria Veleda e Mariana da Assunção da Silva, tendo esta frisado que “a colectividade se devia orgulhar pela honra da sua presença, que era bem um caso esporádico visto que todas as intelectuais portuguesas, excepto D. Ana de Castro Osório, se têm afastado dela, num injusto retraimento”. Na sua intervenção, Alice Moderno considerou que “em cada membro [...] da Liga Republicana há um paladino glorioso do feminismo”. 

As mesmas duas açoreanas presenciaram iniciativas da Associação Feminina de Propaganda Democrática [1915-1916] – associaram-se à homenagem ao Presidente da República, Bernardino Machado, em Maio de 1916 – e voltaram a merecer atenção especial no Primeiro Congresso Feminista e de Educação, promovida pelo CNMP em 1924, enquanto propagandistas do feminismo e da educação das mulheres no Arquipélago. 

Mulher de negócios, “dirigindo todos os trabalhos da sua oficina tipográfica, uma exploração agrícola” [Revista do Bem, nº 113, 31/01/1912] e correspondente de importantes companhias e casas comerciais e bancárias estrangeiras nos Açores, não se pode ignorar a sua vasta e contínua colaboração em periódicos literários de todo o país: 

Bouquet Literário [1885], semanário literário e pedagógico do Porto; A Alvorada, revista mensal literária e científica de Vila Nova de Famalicão [1887, na homenagem a Camilo Castelo Branco no dia do seu 61.º aniversário]; A Apoteose [19/10/1887], número único comemorativo do sétimo centenário e inauguração da estátua de D. Afonso Henriques; Gazeta das Salas [30/01/1890], de Lisboa; A Festa das Crianças [18/10/1891], de Ponta Delgada; Nova Alvorada [1891-1903], revista mensal literária e científica de Vila Nova de Famalicão; Almanaque das Senhoras [1896, 1899, 1903, 1904, 1913 a 1919, 1923]; A Crónica [1900-1906], revista ilustrada e literária de Lisboa; O País [1901-1904], semanário independente, político, noticioso, crítico, literário e teatral do Porto; Revista de Lisboa [1901-1909]; Folha de Saudação [1902], número único dedicado a António Maria Eusébio, o Calafate; A Sociedade Futura [1902-1904]; Álbum Açoriano [1903], publicado em Lisboa; Jornal das Senhoras [1904-1905]; Alma Feminina [1907-1908], hebdomadário literário e noticioso publicado em Matosinhos; Revista Micaelense [1918-1921]; Os Açores [1922-1924, 1928]; O Despertar de Angeja [1924-1927], semanário independente, noticioso e literário; O Instituto, de Coimbra; Portugal Feminino; A Leitura [1932], publicação de Angra do Heroísmo; e Ínsula (anos 30), revista mensal ilustrada publicada em Ponta Delgada. 

Foi redactora e directora do Diário de Anúncios, periódico de Ponta Delgada do final do século XIX; participou na obra dedicada a Antero de Quental In memoriam, com “Tributo singelo” [1887]; colaborou na publicação A maior dor humana [1889], “coroa de saudades, oferecida a Teófilo Braga e sua esposa para a sepultura de seus filhos” [Inocêncio, vol. XVIII, p. 91]; e utilizou, segundo a recolha de Adriano da Guerra Andrade, os pseudónimos Da Janela do Levante, Dominó Preto, Ecila, Eurico, o Secular, Gavroche, Gil Diávolo, Gyp e Veritas. 

Poetisa consagrada e premiada, saudada por Camilo Castelo Branco, Teófilo Braga e João de Deus, com versos publicados em várias línguas (francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, norueguês), traduziu Camões para francês, pertenceu ao Instituto de Coimbra, por proposta de Bernardino Machado, à Sociedade Literária Almeida Garrett, à Sociedade de Geografia de Lisboa, à instituição italiana Luigi di Camoens, e fundou a Sociedade Protectora dos Animais Micaelenses (1911) e o Sindicato Agrícola Micaelense. 

Mulher interventiva, que não se enquadrava nos cânones femininos da sua época, até porque usava o cabelo cortado e fumava [Maria da Conceição Vilhena], a faceta enquanto jornalista está por esmiuçar, bem como o papel que desempenhou na divulgação das ideias feministas nas ilhas. 

A poetisa açoriana Mariana Belmira de Andrade dedicou-lhe, no periódico O Velense, a poesia “Desencanto: A Alice Moderno” [1886]. Tinha então apenas dezanove anos. 

Tal como sublinhou a investigadora Maria da Conceição Vilhena no 40.º aniversário da sua morte, estamos perante “uma conhecida desconhecida”. 

Como refere Cristina L. Duarte, para além de Alice Moderno ter passado a usar cabelo curto desde os dezanove anos, "mais tarde seria considerada excêntrica pelo seu gosto pela camisa branca, com colarinho e gravata preta, acompanhado por chapéu masculino e bengala. Na década de 40, era vista pela manhã nas ruas daquela cidade, fumando charuto, a passear um cãozinho pela trela." [Agenda Feminista, As Mulheres e a República - 2010

Sobre o percurso e ideário enquanto professora, consultar a entrada de Carlos Enes para o Dicionário de Educadores Portugueses [Porto, ASA, 2003]. 

O Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) incluiu a sua biografia [Lisboa, Livros Horizonte, 2005],

Cristina L. Duarte fez um breve esboço biográfico para a Agenda Feminista As Mulheres e a República - 2010.

Adriana Mello fez a entrada para Feminae. Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013].  

[João Esteves]

[1059.] MARIA EVELINA DE SOUSA [I] || 1879 - 1946

* MARIA EVELINA DE SOUSA *
[01/01/1879 - 12/02/1946]

 [Fotografia assinada e com dedicatória datada de 31/08/1913]

Educadora, professora primária oficial, jornalista, republicana e feminista.

Filha de Décio de Sousa, nasceu em Ponta Delgada em 1 de Janeiro de 1879 e faleceu na mesma localidade açoreana em 12 de Fevereiro de 1946.

Frequentou a escola distrital de habilitação ao Magistério em 1900, obtendo a classificação de 17 valores no exame final, e leccionou sempre na sua terra natal. A partir de 1904, exerceu a docência na Escola de Santa Clara e, em 1908, foi a responsável pela fundação da primeira biblioteca escolar do círculo, o que teve grandes repercussões na comunidade e na imprensa, tendo sido publicado um opúsculo com a colecção de artigos com que foi saudada a sua inauguração [Biblioteca Escolar de Santa Clara, Ponta Delgada, 1909]. 

Quando, em Setembro de 1909, se deslocou a Lisboa, em viagem de "estudo e de recreio", manteve contactos com Amália Luazes, Ana de Castro Osório, Albertina Paraíso, Olga Morais Sarmento e Virgínia Quaresma e visitou as principais escolas da capital, em companhia do professor Ulysses Machado.

Colaborou no jornal O Campeão Escolar, semanário consagrado aos interesses da instrução e do professorado, editado no Porto, entre 1904 e 1907, mas foi através do periódico Revista Pedagógica, órgão do professorado oficial açoreano e dedicado aos interesses da instrução, que se publicou em Ponta Delgada entre 1906 e 1916, do qual foi directora, proprietária e editora, que granjeou notoriedade junto da comunidade educativa, local e nacional. Embora o seu objectivo central fosse a difusão da instrução e a defesa dos interesses do professorado oficial, acompanhou naquelas páginas a formação das organizações de mulheres e deu destaque às respectivas iniciativas. 

Foi o único periódico a chamar a atenção para os Estatutos da Associação de Propaganda Feminista, destacando os objectivos e o papel meritório das dirigentes Ana de Castro OsórioCarolina Beatriz Ângelo, e publicou artigos de opinião de algumas das principais líderes. 

A partir de 12 de Maio de 1915, Maria Evelina de Sousa surgiu como secretária de redacção do periódico A Folha, fundado em 1902 e cuja directora, editora e proprietária era a amiga inseparável Alice Moderno [11/08/1868 - 20/02/1946].  

Por iniciativa de Evelina de Sousa realizou-se em Ponta Delgada uma conferência de propaganda do método João de Deus e, mais tarde, ofereceu-se para dar explicações gratuitas a todos os professores que desejassem aprender o Método Legográfico-Luazes, método de leitura e de escrita da autoria da professora Amália Luazes, com quem o tinha aprendido. 

Ainda durante o tempo da Monarquia, defendeu na imprensa a proibição do ensino de matéria religiosa nos estabelecimentos escolares, congratulando-se com o decreto republicano que extinguia, nas escolas primárias e normais, a doutrina cristã. 

Evelina de Sousa foi das poucas intelectuais a militar em três das organizações femininas da 1.ª República. 

Estreou-se na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tendo sido homenageada, juntamente com Alice Moderno, numa sessão realizada na sede em 15 de Agosto de 1912 e onde discursaram, para além das duas jornalistas, Ana Augusta de Castilho, Agostinho Fortes, Carneiro de Moura e Maria Veleda.

Participou na Associação de Propaganda Feminista, tendo sido publicada no seu órgão A Semeadora a carta dirigidas a Ana de Castro Osório sobre as indústrias femininas açoreanas [“Indústrias femininas - Carta a D. Ana de Castro Osório”, A Semeadora, nº 27, 15/09/1917, p. 3, cols. 1-2, nº 28, 15/10/1917, p. 3, col. 4 e p. 4, col. 1, nº 33, 09/07/1918, p. 4, cols. 1-3 e nº 35, 30/09/1918, p. 3, cols. 2-4].

Aderiu à Associação Feminina de Propaganda Democrática tendo, em Maio de 1916, participado na homenagem ao Presidente da República Bernardino Machado

Mereceu, enquanto propagandista da instrução e das reivindicações feministas, uma saudação no Primeiro Congresso Feminista e de Educação, organizado pelo Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas em 1924.

Foi, ainda, sócia fundadora do Centro Democrático de Ponta Delgada e da Sociedade Micaelense Protectora dos Animais (1911).  Muito conceituada nos Açores e respeitada no continente, o seu nome tornou-se sinónimo da defesa dos direitos das mulheres e precursora na protecção dos animais.  

Alice Moderno faleceu em 20 de Fevereiro de 1946, apenas oito dias após o desaparecimento da sua grande amiga e companheira de sempre.

Quer o Dicionário de Educadores Portugueses, dirigido por António Nóvoa [Porto, ASA, 2003], quer o Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) [Lisboa, Livros Horizonte, 2005], inseriram pioneiros textos biográficos.

[João Esteves]

domingo, 9 de agosto de 2015

[1058.] ANA AUGUSTA DE CASTILHO [III]

[1866 - 1916]

Professora, escritora, proprietária, propagandista e defensora dos direitos das mulheres.

Natural de Angra do Heroísmo, era irmã de Maria Augusta Castilho Dias, tia do tenente Castilho Dias e viúva do professor de música João de Castilho.

Quando passou a residir em Lisboa, na Calçada do Poço dos Mouros, e sobretudo após a implantação da República, revelou-se acérrima defensora e propagandista do Livre-Pensamento, pertenceu à Associação do Registo Civil, foi uma prestigiada apologista da causa feminista e aderiu às suas organizações.

Militou na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. 

Colaborou com a Obra Maternal,  instituição destinada à protecção das crianças da rua abandonadas, sendo sua presidente em 1914 e 1915.

Participou no Grupo das Treze, agrupamento criado com a finalidade de combater a ignorância e todas as formas de superstição que afectavam a mulher portuguesa. 


Constituiu, juntamente com Ana de Castro Osório, Antónia Bermudes e Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinho, a Comissão Feminina "Pela Pátria", fundada com o objectivo de recolher donativos e agasalhos para os soldados portugueses, no caso de intervirem na guerra. 

Participou, juntamente com Maria Veleda, em campanhas de propaganda republicana e em defesa da intervenção de Portugal na 1ª Guerra, ao lado dos Aliados.


A actividade mais notória desenvolveu-se no âmbito da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, sobretudo no seu período áureo, onde presidiu a reuniões; contribuiu com donativos para subscrições; representou a agremiação em acontecimentos públicos e reuniões políticas; interveio enquanto oradora; e desempenhou cargos directivos entre 1912 e 1916, como os de Vice-Presidente da Direcção [1912] e Tesoureira [1913, 1914]. Em 1916, integrou a Mesa da Assembleia Geral. 

Intransigente defensora da República, fez parte da equipa de enfermeiras organizada pela Liga em Julho de 1912 e discursou no comício de Chaves, aquando da comemoração da vitória sobre as tropas monárquicas de Paiva Couceiro. 

Para além de contactos regulares com os responsáveis políticos republicanos, associou-se à homenagem às feministas açoreanas Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa [15/8/1912]; participou na delegação da Liga, convidada pela Comissão Administrativa dos Bens das Extintas Congregações, para uma reunião no Ministério da Justiça [1912]; foi indigitada para o Conselho Nacional que deveria participar, em nome das portuguesas, no Congresso Internacional de 1913 e para representar a Liga no XVII Congresso Internacional do Livre Pensamento; colaborou, em 1913, na campanha a favor da aprovação, pelo Parlamento, da anulação do direito de fiança aos violadores de menores; e esteve envolvida, enquanto fundadora e docente, no projecto de criação da escola Solidariedade Feminina [1914], cuja finalidade era ministrar aulas diurnas e nocturnas ao sexo feminino e  criar um curso nocturno gratuito de instrução primária destinado a todas as mulheres e raparigas com mais de doze anos. Por falta de número suficiente de inscrições, apesar de intensa propaganda, acabou por não ser implementada.

A dedicação à Obra Maternal não foi menos intensa entre 1912 e 1915, empenhando-se quer nos Corpos Gerentes, onde foi a Presidente nos dois últimos anos, quer nas iniciativas desenvolvidas para sustentar o projecto, organizando e representando nos saraus anuais em seu benefício [26/5/1912; 22/6/1913]. Angariou adesões e deveu-se às suas persistentes diligências o facto da Obra não ter sido dissolvida em finais de 1914. 

A militância estendeu-se à Associação de Propaganda Feminista: eleita 2.ª Secretária da Assembleia Geral (1916), desempenhou ainda o cargo de Tesoureira da Empresa de Propaganda Feminista e defesa dos direitos da mulher, responsável pela edição do jornal A Semeadora

Iniciada na Maçonaria, tal como muitas outras activistas, pertenceu à Loja Carolina Ângelo do Grande Oriente Lusitano Unido, com o nome simbólico de Brites de Almeida. 

Colaborou em A Madrugada, com artigos de intervenção política e educativa.

Integrou a redacção do jornal A Semeadora, assinando textos nos primeiros dois números, e foi uma das accionistas da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher, responsável pela edição daquele mensário, desempenhando o cargo de Tesoureira da sua comissão dirigente e administrativa.

Publicou, na Casa Editora Para as Crianças, o livrinho A Mulatinha.
  
Considerada pelas companheiras como uma das mais prestigiadas defensoras dos direitos das mulheres, participou e discursou em múltiplas actividades relacionadas com a causa que tinha abraçado, acreditando na libertação feminina através do trabalho e da independência económica da mulher. 

Faleceu em Dezembro de 1916, em Lisboa, tendo várias agremiações estado representadas: LRMP, através de Angélica Porto; APF; Grémios Fiat Lux, Madrugada, José Estevão, Montanha, Luz e Verdade, Marquês de Pombal e Carolina Ângelo; Grupo Obreiro da República; Comissão Paroquial Republicana de Arroios; Cruz Vermelha Portuguesa e Brasileira. 

Discursaram, junto da campa, Ana de Castro Osório, Antónia Bermudes e Borges Grainha. 

O n.º 18 do jornal A Semeadora foi, parcialmente, consagrado ao seu falecimento; a Capital, de Lisboa, publicou um artigo evocativo da sua obra pela emancipação feminina, transcrito posteriormente pelo órgão da APF; A Folha, de Ponta Delgada, de que era directora Alice Moderno e secretária Maria Evelina de Sousa, dedicou-lhe a primeira página do n.º 670; e a revista Redencion, de Valência (Espanha), referiu-se ao desaparecimento de Ana Castilho, o qual também foi lamentado por Ana Carbia Bernal.

O desaparecimento, bem como o seu exemplo, tiveram, inclusivamente, repercussões na imprensa feminina espanhola.

Quer o Dicionário de Educadores Portugueses, dirigido por António Nóvoa [Porto, ASA, 2003], quer o Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) [Lisboa, Livros Horizonte, 2005], inseriram pioneiros textos biográficos.

[João Esteves]

domingo, 15 de março de 2015

[0941.] FERNANDA GIRÃO DE AZUAGA [I]

* FERNANDA GIRÃO DE AZUAGA *
[1884/5-1968]

[Pormenor de uma fotografia de família, Abril de 1965]

Embora praticamente desconhecido, o nome de Fernanda Girão de Azuaga merece particular atenção por ter aderido aos ideais da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, ainda antes da implantação da República, e da Associação de Propaganda Feminista e pela circunstância da filha, Antónia Girão de Azuaga Santos [1908-2002] ter militado, décadas depois, na Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz. Aliás, tanto a filha como o genro, o médico Jorge Gustavo Sanches de Castro Marques  dos Santos, tiveram militância antifascista nas décadas de 30 a 50 na cidade do Porto.

Nasceu em 1884/5, neta de José Francisco Martins Viana e de Fernanda de Azuaga, sobrinha de Marciano do Carmo Martins Viana de Azuaga e de Joaquim de Azuaga (1853-1893) e filha de Clara de Azuaga.

Casou com Fernando Ezequiel de Moura Viana de Azuaga, funcionário da alfândega, sobretudo em Angola, segundo informações do neto Jorge Santos, tendo o casal tido cinco filhos: Antónia, Edite, Alfredo, João e Fernando.

Em 1909, quando se encontrava em Moçâmedes na companhia do marido, Fernanda Girão de Azuaga terá escrito uma carta de adesão à Liga Republicana das Mulheres Republicanas, agremiação recentemente constituída dirigida por Ana de Castro Osório, sendo referenciada de forma indireta na seção “Expediente da Liga” do Nº 1 da revista A Mulher e a Criança: “Mossamedes – Agradecemos a sua carta e esperemos que ponha em execução o art.º 13º dos nossos Estatutos” [“Expediente da Liga”, A Mulher e a Criança, Nº 1, Abril, 1909, p. 5]. 

Em Maio de 1916, também a partir de Moçâmedes, tornou-se acionista da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher, sociedade responsável pela edição do jornal A Semeadora (1915-1918), órgão da Associação de Propaganda Feminista dirigido por Ana de Castro Osório [“Empresa de propaganda feminista e defesa dos direitos da mulher”, A Semeadora, nº 12, 15/6/1916, p. 4, col. 3 e nº 21, 15/3/1917, p. 4, col. 4].

Segundo informações do neto, o marido era maçon, terá falecido em 1933 ou 1934 e foi enterrado com aquelas insígnias. Fernanda Girão de Azuaga faleceu em Fevereiro ou Março de 1968, com 83 anos de idade, na cidade do Porto. 

O pormenor da fotografia e alguns dados aqui referidos (outros se seguirão referentes a esta família) só foram possíveis devido à extrema amabilidade e disponibilidade do neto Jorge Santos, há 50 anos a viver em França, da neta e bisnetas. 

Para eles o meu sentido agradecimento, por permitirem dar um rosto e uma história a um nome nascido há 130 anos e que, em terras longínquas e numa época em que a intervenção feminina era rara e incorria riscos, integrou o feminismo e o sufragismo de cariz republicano. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

[0753.] ALZIRA VIEIRA [I]

- ALZIRA AUGUSTA DE LOURDES PINTO VIEIRA -

[08/06/1879-01/01/1970]


Professora primária oficial e escritora.

Filha de Maria Augusta da Encarnação Vieira e de Tiago Pinto Vieira, professor primário em Viseu, nasceu em Vilar de Besteiros, Tondela, a 8 de Junho de 1879, e faleceu em Boaldeia, Viseu, a 1 de Janeiro de 1970. 

Exerceu a docência na sua terra natal e aderiu, nas primeiras décadas do século XX, às organizações feministas. 

Republicana assumida, colaborou com iniciativas da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas; foi activista da Associação de Propaganda Feminista, assinando no jornal A Semeadora artigos de opinião, escritos biográficos de figuras históricas femininas e, em forma de folhetim, o texto “O Poeta e o Soldado”; e aderiu à Cruzada das Mulheres Portuguesas, exercendo o cargo de Vice-Presidente da Subcomissão de Tondela. 

Durante a I Guerra, recolheu uma órfã de 16 anos e foi a autora do folheto patriótico A missão da mulher na hora presente editado, em 1917, em Viseu. 

Posteriormente, militou no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e engrossou, enquanto mulher e educadora, a campanha promovida contra o espectáculo das touradas, por contribuir para a degradação dos povos e ser impróprio dos países civilizados. 

Em Agosto de 1925, secretariou a 3.ª Sessão do Congresso Pedagógico de Braga, organizado pela União do Professorado Primário Oficial de Ensino Geral e Infantil. 

Colaborou em vários periódicos e usou, por vezes, o pseudónimo Zila. 

Nos anos 30, foi delegada da revista Portugal Feminino na localidade onde residia, a qual publicou a sua fotografia a acompanhar poesias e um texto sobre Viseu. 

O ex-libris, da autoria de Clotilde Mateus, constava de uma concha – uma ‘vieira’ – onde estava inscrita a palavra Alzira. Seguravam-na duas crianças, uma de cada lado, e por baixo “Deixai vir a mim as criancinhas”. 

Sobre o percurso enquanto professora no distrito de Viseu durante cerca de quatro décadas, consultar a entrada escrita por Alice C. Silva Batista para o Dicionário de Educadores Portugueses dirigido por António Nóvoa (2003).

[João Esteves]

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

[0450.] LIGA REPUBLICANA DAS MULHERES PORTUGUESAS


* Liga Republicana das Mulheres Portuguesas *

[09/07/1911] Organizada pela Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, realiza-se no Coliseu dos Recreios uma sessão solene de homenagem ao ministro da Justiça, Afonso Costa, tendo-se aí inaugurado o seu retrato. A sessão é presidida por Bernardino Machado e discursam Alfredo de Magalhães, Maria Veleda, Eusébio Leão, Carneiro de Moura, Agostinho Fortes, Visconde da Ribeira Brava e França Borges. A APF faz-se representar.

A direção da LRMP com Bernardino Machado
[Julho de 1911]

sábado, 4 de janeiro de 2014

[0440.] BEATRIZ PINHEIRO [I]

Beatriz Paes Pinheiro de Lemos
[1872-14/10/1922]



- Escritora e professora.

- Filha de Francisco Pinheiro e de Antónia Paes de Figueiredo,  nasceu em Viseu, em 1872. 

- Pertenceu à geração das republicanas e feministas portuguesas mais relevantes do princípio do século XX. 

- Fez a estreia literária na revista académica A Mocidade, quando ainda era aluna do liceu. 

- Com o marido, Carlos de Lemos, poeta e professor do Liceu de Viseu que, em 1909, foi Presidente da Comissão Municipal Republicana, sendo então perseguido pelo seu posicionamento político, dirigiu a revista literária Ave Azul (1899-1900). 

- Aí assinou textos dedicados à emancipação feminina e, considerando que o feminismo pretendia “pôr a mulher em condições de viver dignamente na sociedade, por meio do seu trabalho, sem precisar dum homem que a mantenha” [15/11/1899, p. 500], incitou as mulheres à luta, para “que reivindiquem os seus direitos, que façam por conquistar a igualdade civil e política, que sejam nos bancos das Escolas as dignas rivais dos mais inteligentes e dos mais estudiosos” [15/8/1899, p. 324]. 

- Nos seus escritos, revelou-se defensora da independência económica das mulheres e considerava que ela só era possível de alcançar com uma educação diferente para o sexo feminino.
- Colaborou nos periódicos A Beira, Nova Aurora (1900-1901), Almanaque das Senhoras* (1901, 1916, 1924), A Crónica (1900-1906), Alma Feminina (1907-1908), e O Garcia de Resende (1908-1909). 

- Correspondente local da Liga Portuguesa da Paz, dirigida por Alice Pestana, nunca deixou de caucionar a propaganda republicana e aderiu à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.

- Empenhou-se na campanha a favor da aprovação da lei do divórcio e reivindicou o ensino e a enfermagem laicas, servindo-se da imprensa para difundir o seu ideal. 

- Diplomada em Ciências e Letras, terá começado a leccionar em 1900. Poucos anos volvidos sobre a implantação da República passou a residir em Lisboa, onde era professora provisória do Liceu Maria Pia e leccionava Francês, Geografia e História. 

- Foi escolhida, juntamente com Ana Augusta de Castilho, Ana de Castro Osório, Luthgarda de Caires, Joana de Almeida Nogueira e Maria Veleda, para fazer parte da comissão que deveria representar as feministas portuguesas no sétimo Congresso da International Women Suffrage Alliance, a realizar em Budapeste. 

- Em 8 de Junho de 1916, proferiu no Liceu Maria Pia a conferência “A Mulher Portuguesa e a Guerra Europeia”, editada pela Associação de Propaganda Feminista. 



- Segundo Henrique Perdigão, “deve-se-lhe a criação da Escola Liberal João de Deus, para raparigas pobres, fundada como protesto à educação congreganista por ocasião do célebre ‘caso Calmon’”, e pertenceu ao Instituto de Coimbra. 

- Faleceu em Lisboa, em 14 de Outubro de 1922.

 [João Esteves,
v. Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), Lisboa, Livros Horizonte, 2005]

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

[0412.] ANA DE CASTRO OSÓRIO [XVIII] || 01/02/1913

* ANA DE CASTRO OSÓRIO || 01/02/1913 *

Muitas sócias da LRMP e da APF acorrem a esperar Ana de Castro Osório, que regressa de S. Paulo para uma curta visita ao país.

sábado, 4 de dezembro de 2010

[0189.] REIVINDICAÇÕES FEMINISTAS [VII] || 10/07/1911 - ASSOCIAÇÃO DE PROPAGANDA FEMINISTA

* REPRESENTAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DE PROPAGANDA FEMINISTA À ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE || 10/07/1911 *

"Ex.mo Sr. Presidente e Dignos Deputados à Assembleia Nacional Constituinte; - A «Ass. de Propaganda Feminista», reunida em assembleia geral no dia 10 de julho do corrente ano, resolveu, por proposta da direcção, enviar à Ex.ma Assembleia Constituinte a seguinte representação, obedecendo a um dos fins principais da Associação, consignado no § 4.º do art. 2.º dos seus estatutos, em que se determina solicitar o sufrágio feminino, visto que, enquanto a mulher estiver afastada da questão social e política os seus direitos serão menos lembrados.

«Nós vimos, pois, reclamar para o nosso sexo o sufrágio nas condições modestíssimas em que julgamos de nosso dever fazê-lo para não pôr a Ex.ma Assembleia Constituinte na contingência desagradável de recusar o que constitui uma das mais nobres afirmações do partido republicano - a igualdade de direitos dos dois sexos.

«Nós desejamos que a República nascente, para a qual trabalhámos com o entusiasmo da nossa propaganda e que já tem legislado tão longa e nobremente, não cometa o erro imperdoável que a grande Revolução Francesa cometeu negando à mulher todos os direitos políticos, tendo-se aliás servido dela para a sua propaganda na oposição.

«Nós não vimos reclamar, porque isso seria pedir por agora um impossível social, o sufrágio universal, como à luz da razão e da ciência seria justo, mas vimos reclamar - o que temos feito desde o princípio: o direito do voto para as mulheres diplomadas em cursos superiores; - para as mulheres diplomadas com o curso completo de Instrução Primária Superior; - para as mulheres chefes de família que saibam ler e escrever; - para as mulheres comerciantes que saibam ler e escrever.

«Todas estas mulheres, de idade superior a 21 anos, sendo independentes moral e economicamente, não podem, por uma imposição do preconceito e da rotina, continuar na República a viver no regímen vexante dos tutelados, fora da sociedade, como menores e interditos. O voto como o pedimos é apenas o estabelecimento de um princípio de justiça, o qual, honrando a Ex.ma Assembleia Constituinte, auxiliará a nossa propaganda educativa, pois que a mulher tratará de trabalhar e de se elevar para obter o direito que hoje apenas a uma pequena minoria aproveitará.

«Vimos também reclamar para as mulheres o direito de elegibilidade nas juntas paroquiais e câmaras municipais, onde, por certo, prestarão bons serviços.

«Na Noruega há actualmente noventa mulheres vereadoras nos conselhos municipais e há no Parlamento (Storthing) uma mulher deputada, a sr.ª Rogstad, uma humilde professora de instrução primária. Na maioria dos países civilizados as mulheres são eleitoras e elegíveis nas eleições municipais.

«A terra portuguesa tão baixo caída pela incúria da monarquia, necessita, para se erguer à altura que lhe compete, do concurso de todos os cidadãos, e a mulher é um factor que não pode nem deve desprezar-se neste momento único de renovação social. Por isso cidadãos, nós vimos requerer para as mulheres o direito de trabalhar pelo ressurgimento duma Pátria que também julgam pertencer-lhes. Já há mais de meio século, Stuart Mill dizia que «uma sociedade em que a mulher não intervém no governo está impregnada de injustiça».

«Foi a livre América do Norte que concedeu primeiro o voto às mulheres, no estado do Wyoming, por lei de 12 de dezembro de 1869. A seguir tiveram-no em mais quatro estados da mesma confederação norte-americana.

«Na Austrália, Nova-Zelândia, República do Equador, Ilha de Man e Noruega as mulheres exercem os mesmos direitos políticos que os homens. Na Finlândia, apesar da despótica opressão exercida pela Rússia, há perfeita igualdade política aos dois sexos, assim como existe há muito igualdade moral e intelectual. Logo para o 1º parlamento (Dieta Finlandesa) foram eleitas deputadas dezanove mulheres. Na Inglaterra, Alemanha, Itália, Rússia e França a concessão do voto à mulher será para breve, pois as sufragistas têm trabalhado com denodo nesse sentido.

«O facto de, nas últimas eleições parlamentares, ter votado uma mulher em Portugal foi fervorosa e entusiasticamente acolhido pelas associações feministas e imprensa do mundo inteiro civilizado e foi largamente tratado no recente Congresso Internacional de Estocolmo, reunido em junho próximo passado. Após o grande rumor causado no estrangeiro pela vitória, em Portugal, de um direito que, em todo o mundo culto, é tido como um importantíssimo progresso social, causaria espanto ver-nos repentinamente retrogradar e seria injustificável e mesquinho que os Representantes do Povo não consagrassem o direito de voto da mulher nas restritas - mas evolutivas - condições em que a « Associação de Propaganda Feminista» o reclama.

«Os resultados obtidos pelo sufrágio feminino têm sido dos melhores e mais elevados: - Na América tem conseguido a eleição dos homens mais honestos e cultos elevando, por isso, o nível moral e intelectual da sociedade diminuindo a criminalidade, o alcoolismo, a prostituição e assegurado a paz e a ordem nas eleições. Verificando isto mesmo, o Parlamento de Wyoming resolveu comunicá-lo a todas as Assembleias Legislativas do mundo, convidando-as a dar às mulheres os direitos políticos o mais breve possível. No outono de 1910, o Senado Australiano votou, por unanimidade uma moção, rogando ao Governo Inglês que concedesse o voto às mulheres, em vista dos excelentes resultados obtidos, na Austrália, pelo sufrágio feminino.

«Vós, Senhores Deputados, que trabalhais na organização de uma Pátria nova, lembrai-vos que nessa Pátria há mais mulheres que homens e não queirais manchar a vossa obra com o labéu de injustiça, mesquinhez e egoísmo masculino. Tanto quanto possível e compatível com a tranquilidade da nossa amada República, mostrai ao mundo inteiro, que, neste momento concentra em vós toda a sua atenção, quanto sois modernos, quanto o vosso espírito é recto, justo e civilizado. Lembrai-vos de que é nos países mais adiantados que a mulher tem lugar conscientemente preponderante.» - «A direcção da Associação de Propaganda Feminista: (as.) Beatriz Ângelo; J. d'A. Nogueira; A. de Castro Osório; M. L. Monteiro Torres; C. Da; Rita Dantas Machado; M. I. e Zuzarte."

[“O movimento internacional do sufrágio das mulheres – VII” || A Vanguarda || 03/09/1911]

[João Esteves]

domingo, 21 de novembro de 2010

[0120.] ELZIRA DANTAS MACHADO [I] || 1865 - 1942

* ELZIRA DANTAS GONÇALVES PEREIRA MACHADO *

[15/12/1865 - 21/04/1942]


Filha do conselheiro Miguel Dantas Gonçalves Pereira e de Bernardina Maria da Silva, Elzira Dantas Machado casou, em 1882, com Bernardino Luís Machado Guimarães [1851 - 1944].

Tal como algumas das suas filhas, foi das figuras mais prestigiadas da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tendo apoiado, entre 1909 e 1916, várias das suas iniciativas, com destaque para a Obra Maternal. 

Viveu no Brasil enquanto o marido desempenhou as funções de Ministro de Portugal naquele país e, em 1916, presidiu à festa comemorativa do 7.º aniversário da Liga.

No entanto, foi no triénio 1915-1917 que mais se terá evidenciado enquanto propagandista, destacando-se então no âmbito da Associação de Propaganda Feminista e da Cruzada das Mulheres Portuguesas.

Detentora de 2 acções, foi Presidente da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher, sociedade constituída para editar o jornal A Semeadora (1915-1918), e da Associação de Propaganda Feminista (1915-1917), tendo subscrito, com Ana de Castro Osório, responsável pelo Grémio Carolina Ângelo, o conjunto de reivindicações feministas apresentadas ao Parlamento (Senado e Câmara dos Deputados) em Agosto de 1915.

No ano seguinte, Elzira Dantas Machado foi a principal obreira da fundação da Cruzada das Mulheres Portuguesas, criada não em função da defesa dos direitos das mulheres, mas sim do interesse nacional, voltando de novo a colaborar em estrita aliança com Ana de Castro Osório. Apontada como exemplo moral das causas defendidas, a partir do momento em que passou a dirigir a Cruzada pouco tempo lhe deve ter sobejado para se dedicar à APF.

Escreveu, durante o período que viveu no exílio, na sequência da Ditadura de 28 de Maio de 1926, a obra Contos – para os meus netos, que reflecte “as preocupações maternais da autora”.

[João Esteves]

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

[0111.] MARIANA OSÓRIO DE CASTRO [I] || 1842 - 1917

* MARIANA OSÓRIO DE CASTRO *
[15/06/1842 - 17/11/1917]

[1842 - 1917]

Filha do tenente-general José Osório de Castro Cabral de Albuquerque, governador em Macau, e de Ana Doroteia Moore Quintius, de nacionalidade holandesa, Mariana Adelaide Osório de Castro Cabral de Albuquerque Moor(e) Quintius era casada com o magistrado João Baptista de Castro e mãe de Alberto Osório de Castro, João Osório de Castro, Jerónimo Osório de Castro e Ana de Castro Osório.

Casou, em 1866, no Fundão; residiu 22 anos em Mangualde, onde o marido era Conservador do Registo Predial; viveu muitos anos em Setúbal, embora acompanhasse o cônjuge em comarcas do Alentejo; e, a partir de 1911, passou a residir em Lisboa, na Rua do Arco do Limoeiro, n.º 17, num prédio sobejamente conhecido por ser o centro das actividades políticas e sociais da filha.

Militante da Associação de Propaganda Feminista desde a fundação, acabou por desempenhar papel de relevo na sua manutenção depois do falecimento de Carolina Beatriz Ângelo, e quando Ana de Castro Osório e Elzira Dantas Machado se encontravam no Brasil, tornou-se a segunda presidente da direcção eleita, escolhida entre as sócias fundadoras (1912); assegurou a publicação da revista A Mulher Portuguesa (1912-1913) e do jornal A Semeadora (1915-1918), sendo uma das accionistas da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher (Junho de 1915); auxiliou a Comissão Feminina Pela Pátria, trabalhando em agasalhos para os soldados portugueses; e, em 1916, foi eleita para o Conselho Fiscal.

Aderiu ainda à Obra Maternal, contribuiu para subscrições, nomeadamente em benefício das activistas Inês da Conceição Conde e Maria Veleda, e integrou a Cruzada das Mulheres Portuguesas.

Faleceu em 17 de Novembro de 1917, com 75 anos, e o jornal A Semeadora publicou a sua fotografia, acompanhada de informações biográficas e referências elogiosas à postura e militância.

O enaltecimento da sua integridade coube a Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinho, que tinha pertencido, com Ana de Castro Osório, à comissão dirigente da revista A Mulher e a Criança, em 1909-1910, e à Comissão Feminina Pela Pátria, e era visita assídua da casa.

[João Esteves]

domingo, 7 de novembro de 2010

[0066.] VITÓRIA PAIS FREIRE DE ANDRADE MADEIRA [I] || 1883 - 1930

* VITÓRIA PAIS FREIRE DE ANDRADE MADEIRA * 

[Vitória Pais Freire de Andrade || 20/01/1883 - 07/11/1930]


Em 7 de Novembro de 1930 morre, em Lisboa, com 47 anos, a professora e militante feminista Vitória Pais Freire de Andrade Madeira.

Professora, natural de Ponte de Sor, onde nasceu em 1883, Vitória Pais era filha de José Albertino Freire de Andrade,  professor, e de Arsénia Maria Mineira e casou, muito nova, com o comerciante de Portalegre Manuel Joaquim Madeira.

Cursou a Escola Normal de Portalegre (1903), leccionou no distrito - Avis, Vale de Açor e Ponte de Sor – e inaugurou, nesta última localidade, uma escola por si dirigida e denominada “Uma missão das Escolas Móveis” (1913).

Durante a I Guerra, partiu para a capital, a fim de se inscrever no Curso de Enfermagem organizado pela Cruzada das Mulheres Portuguesas, fez exame de enfermeira em 04 de Dezembro de 1917 e prestou serviços aos mutilados no Instituto de Santa Isabel.

Frequentou a Escola Normal de Lisboa (1921), onde foi sempre a presidente da Associação Escolar, e algumas cadeiras da Faculdade de Letras.

A par do seu empenhamento nas questões pedagógicas e no associativismo docente, evidenciou-se na militância cívica e feminista, tendo aderido à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, à Associação de Propaganda Feminista e ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, de que foi um dos pilares, quer pelos cargos directivos que desempenhou, como pela participação nos Congressos Feministas e Abolicionistas.

Enquanto sócia da Liga, colaborou na revista A Mulher e a Criança (1911) e no jornal A Madrugada (1913-1915), participou na campanha a favor da aprovação, pelo Parlamento, duma lei proibitiva da venda de tabaco e bebidas alcoólicas a menores (1912), foi subscritora da Obra Maternal entre, pelo menos, 1913 e 1915, e contribuiu para subscrições.

No âmbito da APF, foi accionista da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher (Junho de 1915), responsável pela edição do jornal A Semeadora, e contribuiu para a sua propaganda na região onde leccionava.

Quando da formação da Cruzada das Mulheres Portuguesas, presidiu à subcomissão de Ponte de Sor e desempenhou, em 1918, as funções de Vogal da Comissão de Propaganda e Organização de Trabalho.

Seguindo o percurso de muitas outras activistas, foi iniciada na Maçonaria (1916) e integrou as Lojas Carolina Ângelo, com o nome simbólico de Liberdade, e Humanidade, com o de Mariana de Lencastre, tendo aderido em 1917, ainda enquanto professora na sua terra natal, ao projecto do Grémio Carolina Ângelo de instituir as Ligas de Bondade, que procuravam afastar as crianças da delinquência e da criminalidade. Nos anos vinte, pertenceu à Loja Humanidade do Direito Humano.

Quanto ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidiu a reuniões, interveio noutras, empenhou-se no combate à prostituição e à sua regulamentação pelo Estado, encabeçou o movimento pela extinção das touradas e, a partir de 1920, pertenceu aos corpos gerentes, tendo sido eleita Vogal (1920, 1922) e Tesoureira (1926) da Direcção, Vogal do Conselho Fiscal (1921) e Presidente da Assembleia Geral (1923, 1925). Também integrou a Assembleia Geral em 1924. Vitória Pais Madeira foi ainda Secretária da Comissão Jornalística (1920) e da Comissão de Educação (1920) e presidiu às Secções de Paz (1922), de Sufrágio (1925) e de Propaganda (1926).

Em 1924, exerceu as funções de Vogal da comissão organizadora do Congresso Feminista, onde defendeu a tese “Influência dos espectáculos públicos na educação”, e no Primeiro Congresso Nacional Abolicionista, realizado em 1926, apresentou a comunicação “Moral única”, que foi debatida na 2.ª Sessão Ordinária (03/08/1926).

Preocupada com o bem estar colectivo, reivindicou uma participação social mais activa por parte dos cidadãos, e assumiu-se permanentemente como educadora, tanto no exercício da profissão, como na vida associativa e cívica, sendo muito conceituada entre o professorado primário. Valorizou a importância da educação consciente da mulher, como forma de contribuir para o derrube de preconceitos e extinção das injustiças sociais, procurou transmitir aos alunos os sentimentos de solidariedade e independência, pugnou pela educação dos adultos, realizou conferências, escreveu para periódicos, tendo pertencido à comissão redactora da revista Educação Social, publicada em Lisboa, sob a direcção de Adolfo Lima, colaborou com a Universidade Popular Portuguesa e representou o CNMP na Comissão Central de Propaganda da Semana da Criança, organizada em Maio de 1925, por iniciativa da Associação dos Professores de Portugal. Aliás, integrou sucessivas comissões organizadoras da “Semana da Criança”.

Vitória Pais também nunca descurou o movimento associativo docente, procurando valorizar o papel das professoras, que constituíam a maioria da classe. Em 1918, representou o concelho de Ponte de Sor no Congresso do Professorado Primário Português, realizado em Lisboa, em 20 e 21 de Junho, e enquanto sócia da Associação de Professores de Portugal e da Liga de Acção Educativa, influiu nas suas reuniões. Posteriormente, e enquanto redactora da revista Educação Social, representou-a no Congresso das Escolas e Bibliotecas de Estudos Sociais, que decorreu no Porto, em Janeiro de 1927, e em Abril do mesmo ano participou no 9.º Congresso dos professores primários, realizado em Viseu.

Em 1928, numa atitude coerente e corajosa, foi Vogal da Comissão Executiva em prol das famílias dos presos, deportados e emigrados políticos, que visava recolher donativos, organizada por sugestão do jornal republicano O Rebate, tornando-se, significativamente, no seu último acto público conhecido.

Morava em Lisboa, na Estrada da Damaia, 69, rés-do-chão, quando faleceu, em 7 de Novembro de 1930, com 47 anos. Pertencia então ao quadro das escolas primárias da capital, trabalhando na de Benfica, e fizeram-se representar no funeral diversas sociedades, associações e estabelecimentos de ensino, nomeadamente o CNMP, o Grémio Humanidade, a Liga Portuguesa Abolicionista, a Mocidade Popular Portuguesa, a Escola Normal e a Escola-Oficina N.º 1.

Em artigo publicado no semanário pedagógico O Ensino Primário, Deolinda Lopes Vieira lembrava que tinha sido uma “pugnadora entusiasta por uma educação moderna, científica e sem dogmas”, tratando-se de um “espírito lúcido e aberto a todas as ideias de progresso e liberdade”.

Era sobretudo referenciada por Vitória Pais Freire de Andrade ou, simplesmente, Vitória Pais, e raramente utilizava o apelido do marido.


[v. João Esteves, Dicionário de Educadores Portugueses (dir. de António Nóvoa), Asa, 2003; e "Vitória Pais Freire de Andrade Madeira", Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), Livros Horizonte, 2005]

[Consultar também António Ventura, A Maçonaria no Distrito de Portalegre (1903-1935), Caleidoscópio, 2007, pp. 347-348, 365-366]


[João Esteves]