[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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domingo, 14 de fevereiro de 2021

[2495.] MADELEINE PELLETIER [VII] || 16/03/1911

 * MADELEINE PELLETIER *

O jornal A Montanha, de 16 de Março de 1911, conclui a transcrição do texto de Madeleine Pelletier sobre Portugal.


«A República Portuguesa e o voto das mulheres
(Conclusão)
 
Damos hoje o resto do artigo de Madeleine Pelletier, sobre o que em Portugal viu de referente a feminismo.
Em volta do Dr. Bernardino Machado
Despedi-me do presidente; e fui ter com o sr. Machado, ministro dos negócios estrangeiros, que alguém me dizia completamente favorável ao feminino.
O sr. Machado é um patriarca: tem quinze ou dezasseis filhos. Para me provar que é feminista, estreita diante de mim as suas duas netas, uma de cada lado, formando um quadro comovente de ternura paternal; mas, como para fazer política, eu perdi a amável candura peculiar do meu sexo, isso não bastou para formar a minha convicção  e pedi esclarecimentos.
Quanto o seu Braga é claro, tanto o sr. Machado o é pouco. É, segundo diz, pelo sufrágio das mulheres; mas encontra nessa medida algumas dificuldades. Em primeiro lugar, as mulheres devem ser instruídas. Declara-se, porém, partidário de certas reformas que o feminismo tem no seu programa: vota pela abolição da prostituição regulamentada! O sr. Braga é um filósofo; o sr. Machado parece-me sobretudo um diplomata; gosta pouco de se afirmar.
Tentei ver o sr. Almeida, ministro do interior, que passa por feminista; não pude falar-lhe; e não podia esperar muito tempo, porque tinha de sair de Lisboa no próprio dia em que o procurei.
As associações secretas
Mas, tive o prazer de falar com o sr. Magalhães Lima, que é muito popular em Lisboa. É um feminista; se for eleito deputado, como espera, defenderá o voto das mulheres no parlamento português: - O sr. Lima convidou-me a uma festa organizada pelo franco-maçonaria – (de que é grão-mestre) para celebrar a república. Desde a vitória desta última, as sociedades secretas estão na ordem do dia. As livrarias põem todos os dias à venda brochuras sobre a acção do carbonarismo na preparação da revolução. Aí se mencionam o ritual, a hierarquia, as cerimónias de iniciação, até ao fabrico das bombas.
As sociedades secretas desempenharam um grande papel na proclamação da República; a Carbonária, estava organizada como um exército; todos os aderentes eram obrigados a ter armas e a saberem servir-se delas; nas reuniões ensinava-se a preparação de explosivos. Foi graças à Carbonária que o exército e a marinha em lugar de  defenderem a monarquia, passaram para os revolucionários. Nela se tinham filiado um grande número de soldados e de marinheiros, entre os quais muitos sargentos.
As bombas, que ali se designam sob o pitoresco nome de «artilharia civil» foram muito eficazes na luta; lançaram o terror entre as tropas reais.
No teatro da República, onde a festa se realizou, a franco-maçonaria e a Carbonária ocuparam os lugares de honra. No palco, uma centena de homens ostentando cordões multicolores; entre eles, uma mulher. A minha ignorância da língua impediu-me de compreender os discursos, mas regozijou-me o entusiasmo daquela multidão. Levam em triunfo o grão-mestre da franco-maçonaria, o grão-mestre da Carbonária e vários outros chefes. Vários projecteis atravessam o espaço; mas são apenas bouquets de rosas.
O partido feminista
Além dos governantes, necessitava de conversar com os militantes do feminismo; não deixei de o fazer.
Não há em Lisboa um partido feminista propriamente dito. As mulheres estão agrupadas na «Liga  das Mulheres Republicanas, na loja feminina «Humanidade» aderente ao Grande Oriente português e no «Livre-Pensamento». Por ocasião do estabelecimento do governo provisório, uma delegação dessas sociedades foi pedir-lhe o direito de voto.
As damas com quem estive deixaram-me uma boa impressão; não encontrei feministas «entravées», como se encontram muito frequentemente em França, para prejuízo da nossa causa. Esquecia-me dizer que foram os chefes radicais que superintenderam na selecção das sociedades femininas; eliminaram delas todas as mulheres de costumes equívocos. A Liga das Mulheres Republicanas e a loja feminina foram, com efeito, criadas por homens. Inspirando-se no exemplo dos clericais que empregam as mulheres quiseram também utilizá-las. E foram bem sucedidos: as mulheres republicanas auxiliaram muito os preparativos da revolução, a «conspiração», como dizem os portugueses. Esperamos que as recompensarão dos seus esforços concedendo-lhes direitos cívicos.
As direcções dessas sociedades são formadas de intelectuais: médicas, professoras, estudantes, preceptoras. D. Castro Osório, presidente da Liga, é uma escritora de renome.
Essas damas, contudo, são um pouco frouxas nas suas reivindicações. Bem acolhidas por altos personagens, numa cidade não muito grande onde toda a gente se conhece, confiam nos polidos compromissos dos governantes que, ali como em toda a parte, pensam principalmente em defender-se no poder.
As portuguesas, como todas  as mulheres, imaginam de muito boa vontade que os governantes lhes apreciam essa discrição e que lhes saberão marcar o seu lugar; mas enganam-se. Os que aconselham às mulheres que «fiquem no seu sexo», isto é, que se coloquem à margem da vida social, são adversários do feminismo. Muitas vezes, é certo, dizem-se seus amigos; a  sua oposição, porém, por ser mascarada, ainda mais temível é. A expressão «ficar mulher» não tem sentido, se se toma à letra; necessariamente, cada um fica no seu sexo, como fica com a sua estatura, a sua configuração anatómica, a sua inteligência. No sentido social, ficar mulher é ficar escrava, é guardar atitudes e hábitos que, criados para a servidão, não poderiam convir à liberdade. As mulheres não têm mais obrigações sexuais quanto aos homens, do que estes para com elas. Cada um tem o direito de fazer o que deseje, e se as feministas se recolhem ao isolamento, a sua causa será sempre desprezada pelos homens. Um partido só é considerado quando é activo. 

O socialismo em Portugal
Socialista, fui naturalmente ver o meu partido. Uma parte dos seus adeptos, arrastada pelos acontecimentos, passou-se para a República; os chefes ficaram com uma pequena elite de militantes. Havia descontentamento com o governo no campo socialista;: acha-se a república muito burguesa. Creio que os chefes republicanos dispensaram o concurso dos chefes socialistas para preparar a revolução; e agora gozam o triunfo insolente, e olham muito de cima o partido da classe operária. Talvez isso seja um mau caminho. «Vede, dizia-me um cidadão pacífico, os operários não estão contentes, o governo não cumpre as suas promessas. Prometeu-lhes o dia de 8 horas, as reformas operárias; assegurou-lhes que o preço do bacalhau, que é o prato nacional, diminuiria e o preço do bacalhau não diminuiu; é mesmo mais caro que sob a monarquia. Ah! o governo não se importa com o quarto estado!» 
N. da R. – Neste capítulo, a articulista fez-se eco de ridículas acusações. É para se ver como lá fora  sabem estudar-nos...  
Há mulheres socialistas; mas, agrupadas no terreno sindical; apenas tratam de interesses cooperativos. À testa das suas organizações vi algumas pessoas inteligentes, mas que não valem as burguesas do feminismo radical.
Em resumo – O feminismo talvez passe
Em suma, a força do feminismo está na elite intelectual da nação: um grupo de homens e de mulheres que, instruídos, cultos, ao corrente de todas as questões que agitam o mundo, souberam libertar-se dos preconceitos seculares. Se o sr. Braga pedisse de repente o sufrágio universal para as mulheres, uma força desse género seria completamente insuficiente; as prevenções das massas populares aniquilar-lhes-iam o efeito; mas, como o projecto do governo provisório não se aplica senão a uma elite restrita de mulheres, é muito provável que passe.
E quando as portuguesas tiverem voto, talvez se pense em no-lo dar a nós. É desnecessário pedir à França d’hoje que seja a iniciadora dos outros países nas grandes ideias; mas talvez seja um ponto d’honra o lembrar-lhe que já que nisso não é a primeira das nações, ao menos não seja a última.».

[A Montanha || 16/3/1911]

[João Esteves]

[2494.] MADELEINE PELLETIER [VI] || 15/03/1911

 * MADELEINE PELLETIER *

A Montanha, de 15 de Março de 1911, transcreve de uma revista francesa um artigo de Madeleine Pelletier sobre o sufrágio feminino em Portugal.



«A República Portuguesa e o voto das mulheres

I

     Madeleine Pelletier publica numa revista francesa o seguinte curioso artigo:

 "Uma constituição e o voto das mulheres

Desde 3 de novembro de 1910 (pequeno engano de data) Portugal é dirigido por um governo provisório, composto dum presidente, o sr. Teófilo Braga, e de sete ministros. O governo entrou em ditadura; não há parlamento, porque ainda não houve eleições. As eleições, segundo se diz, realizar-se-ão no próximo mês de abril. // Este longo crédito de poder absoluto concedido a alguns homens pareceria estranho a republicanos franceses. Os portugueses, porém, explicaram que, sabendo o que se passa nos outros países, sobre lentidões, tormentos, conflito de personalidades, dificuldades de todas as espécies suscitadas por um parlamento num país em reorganização, era preferível, pelo menos durante certo tempo, não o ter. // Aos olhos das pessoas de opinião liberal, a situação moral da república portuguesa aparecia, pois, magnífica. No poder, um conselho de homens distintos pelo valor intelectual, sérios, sem rivalidades internas, poderosamente animados do desejo de fazer bem, e ante eles poucos obstáculos: um povo amorfo, ignorante é verdade, mas que lhes dava toda a confiança. Que não se iria assim realizar neste feliz país? Portugueses de gema afirmavam que em alguns meses a sua república faria mais reformas liberais e sociais que a República francesa fez nos seus quarenta anos de existência. // Os factos bem depressa confirmaram o que se dizia; a imprensa do mundo inteiro publicou a constituição da república portuguesa; continha medidas excelentes, entre as quais o voto das mulheres. // Como é de supor, as mulheres estariam cheias de alegria. De diversos países chegavam telegramas de felicitação ao governo; a nossa «Solidariedade das Mulheres» organizou em Paris uma grande reunião para celebrar esse feliz acontecimento. Mas, do lado da colónia portuguesa vinham algumas dificuldades. Depois de ter aprovado o nosso projecto de reunião, fez-nos muitas objecções; segundo ela, andávamos prematuramente; não era certo que as mulheres fossem votar em Portugal; alguns governantes eram completamente contrários ao feminismo. // Resolvi verificar a situação por meus próprios olhos; e parti para Portugal.

Vista geral de Lisboa

Esperava ver em Lisboa uma reprodução de Paris de 1793; cidadãos de boné vermelho e de lança em punho, mulheres vestidas das cores nacionais, rondas de «sans culottes» dançando ao som d’um Ça irá português. Nada disso: as ruas tranquilas cheias de pessoas que iam para os seus misteres. Dir-se-ia que a república foi já estabelecida há vinte anos. Apenas repúblicas em gesso, brochuras sobre a recente revolução, retratos dos membros do governo expostos nas vitrines das livrarias mostram que se está no princípio do regime; mas diante dessas vitrines os nacionais passam com indiferença; para se deter, é necessário um estrangeiro como eu. // Os portugueses não são iconoclastas; na praça do Comércio, uma estátua real continua a erguer-se; atravesso a rua d’El-Rei. Somente, na Avenida da Liberdade, uma coroa real gravada sobre o obelisco está deteriorada; foi uma granada revolucionária que praticou o desbarato. // Esta indiferença pelos sinais exteriores do regímen saído pode dar uma impressão de força. O governo, sentindo-se solidamente estabelecido, não julga necessário estar a riscar do espírito do povo o regímen precedente. //   Quem sabe, porém, se essa moderação na vitória não visa a tranquilizar os reaccionários, a fazer-lhes compreender que, se os homens mudaram, as coisas ficaram e ficarão as mesmas?

Na Arcada – Falando com vários ministros

A praça do Comércio onde fica o palácio do governo (?) é mais movimentada. Cobre-a uma multidão; há bandeiras e grita-se «Viva Braga! Viva a República!». São delegados provinciais que vêm trazer ao governo a adesão dos seus mandatários. // Entrei no palácio; fizeram-me esperar numa pequena saleta, onde está instalado o chefe do gabinete. Muito democrático o compartimento; o director dum jornal revolucionário de Paris teria certamente mais luxo. Paredes brancas, uma secretária vulgaríssima de acaju, algumas cadeiras cobertas de papéis. // Não tardam a anunciar-me que o presidente está pronto a receber-me; atravesso uma grande sala; o sr. Braga está de pé diante duma secretária; convida-me a sentar-me. De idade de 55 anos, (?) aproximadamente, é alto (?) e magro, cabelo branco cortado à escovinha, o olhar bom e recto, um qualquer fato de sábio que não pensa na sua toilette. De princípio, parecia um pouco fatigado; mas o seu rosto anima-se; «il a ouvert le tiroir», segundo a frase de Napoleão, e expõe-me as suas ideias.

O que diz Teófilo Braga

Foi ele que propôs o voto das mulheres; fez, acrescentou, um croquis de constituição e nele incluiu o sufrágio feminino. Esse sufrágio será restrito: para poder votar uma mulher deverá ou ter um diploma universitário ou desempenhar uma função social que assegure a sua vida material. Dado indistintamente a todas as mulheres, o voto talvez desse maus resultados; é possível que as mulheres do povo, muito ignorantes, votem primeiro contra a república. Além disso, quanto mais restrito for o sufrágio, mais probabilidades haverá de ser aceite pelo parlamento. // O presidente Braga é um filósofo; reflectiu durante longos anos e as ideias que expõe são conclusões seguras da sua razão. Disse-me frases que me encheram de felicidade, tanto elas traduzem o meu próprio pensar: «A mulher é a amiga do homem; mas o homem é o inimigo da mulher». - «A emancipação política das mulheres trará excelentes resultados; os homens de Estado não querem compreendê-lo, enclausurados como estão dentro dos seus preconceitos». «A maioria dos homens não vê na mulher senão a reprodução da espécie, eu vejo nela um indivíduo». - «Se a mulher fica presa às ideias retrógradas, é porque não tem entrada na vida pública; cidadã, ela será tão avançada como o homem». // O sr. Braga crê que, em certos pontos, a mulher é superior ao homem; é mais «pura», diz ele; terá, pois, na política uma acção excelente; nunca cometerá as torpezas que os homens cometem para «chegar». // Mais adiante, eu deixei de estar em acordo com o presidente, mas não discuti. // O sr. Braga é um filósofo positivista; crê no poder espiritual, e pensa que será possível no futuro orientar a educação das gerações novas no sentido do maior interesse social. // Stuart Mill pensa que devia ser possível formar os caracteres segundo os dados exactos duma ciência, a etologia; o sr. Braga pensa que se podem cultivar os sentimentos, e, nesse domínio do sentimento, diz que a mulher é superior ao homem. O homem, acrescenta, não é mais que uma energia, gastando a sua actividade a torto e a direito, muitas vezes para os grandes males sociais; a energia não deve ser abandonada a si própria; deve ser guiada por sentimentos orientados com método no sentido do bem do país.

     Ninguém pode entravar a expansão das faculdades femininas

Tudo isso me inquietava um pouco. Augusto Comte pensava também que a mulher era superior pelos sentimentos; mas concluía daí a necessidade da sua escravidão social. Compreendo muito bem que duma teoria análoga o sr. Braga tire a emancipação feminina; eu é que continuo a desconfiar de tudo, da mesma maneira. // Não me seduzem as teorias em nome das quais se pretende consignar a uma ou outra categoria de indivíduos, este ou aquele papel social. Nada é menos estável que os sistemas dos filósofos; nada é mais raro no mundo que a boa-fé. É possível que um dia a harmonia social seja uma realidade; mas nesta ocasião a vida é um campo  fechado. Limitemo-nos a suprimir as barreiras que impedem os indivíduos de dar a sua medida; simplesmente a liberdade fará sempre mais benefícios e menos males que o arbítrio melhor intencionado. // - Mas, retorqui eu, suponhamos, sr. presidente, que nos defrontamos com mulheres muito mal dotadas de sensibilidade mas duma energia superior. Suponde, por exemplo, que têm o gosto da guerra. Deixá-las-eis tornar-se soldados, oficiais, generais? Confiaríeis a uma mulher o comando em chefe dum exército? // - Certamente, respondeu o chefe do governo; não se pode entravar ninguém na expansão das suas faculdades. // - Sr. presidente, a breve fórmula que acabais de mencionar contém todo o feminismo. // Eu queria contudo assegurar-me, se bem que o sr. Braga me parecesse um homem muito sincero, que ele queria seriamente o voto das mulheres e que era para mim alguma coisa mais que o homem de mundo, desejoso de ser agradável a um estrangeiro. Dispus-me então para lhe fazer repetir que manteria, aconteça o que acontecer, o voto das mulheres no seu projecto de constituição; prometeu-mo por quatro vezes. // - Mas, aventurei eu, sr. presidente, se desejais que a mulher tenha voto, porque lho não dais por um decreto ditatorial? Podeis fazê-lo; foi assim que decretastes o divórcio. Ir ante um parlamento é sempre duvidoso; não sabeis que câmara vos darão as eleições. // - Um decreto ditatorial sobre o voto das mulheres é impossível, me respondeu o sr. Braga; há ministros que se opõem a ele.».

[A Montanha || 15/03/1911]

 [João Esteves]

[2493.] MADELEINE PELLETIER [V] || LIGA REPUBLICANA DAS MULHERES PORTUGUESAS - 11/12/1910

 * MADELEINE PELLETIER *

LIGA REPUBLICANA DAS MULHERES PORTUGUESAS || 11/12/1910

Realizou-se, em 11 de Dezembro de 1910, uma sessão solene em honra da propagandista do sufrágio feminino Madeleine Pelletier, que profere uma conferência na sede da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. 

A sessão é secretariada por Ana de Castro Osório e Maria Veleda, tendo também usado da palavra Maria Clara Correia Alves e Virgínia Quaresma.

«Vida Republicana – Liga Republicana das Mulheres Portuguesas

Hoje, pelas 8 e meia horas da noite, realiza-se uma sessão de propaganda feminista na sede da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Farão uso da palavra: madame Madeleine Pelletier, D. Ana de Castro Osório, D. Maria Clara Correia Alves, dr. Magalhães Lima, dr. António Macieira e D. Maria Veleda. A entrada é exclusivamente reservada à imprensa, sócias da Liga e pessoas de sua família.».

[O Mundo || 11/12/1910]

«Liga Republicana das Mulheres Portuguesas – Sessão de propaganda feminista

Conforme noticiámos, realizou-se ontem, na sede da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, ao bairro Andrade, uma sessão de propaganda feminista em honra de madame Pelletier. // A presidência foi ocupada por madame Pelletier, que foi secretariada pelas sr.as D. Ana de Castro Osório e D. Maria Veleda. // Abriu a sessão a sr.ª D. Ana de Castro Osório que fez a apresentação de madame Pelletier e os seus esforços em benefício da propaganda feminista. // Seguidamente madame Pelletier fez uma interessante conferência, dizendo que as mulheres, na monarquia, não podiam alcançar direitos a que tinham jus e só dentro da República atingiriam as suas aspirações. // A palavra «República», em si, diz a conferente, já queria dizer que era exclusiva à individualização para um favor ao público. // Defendeu depois o sufrágio feminino dizendo que todos os países em que fosse concedido o voto à mulher a conquista da liberdade era um facto. // Sabe que os homens da República portuguesa não hão-de proceder como os da República francesa. Aquela prometeu os direitos políticos à mulher e está certa que cumprirá a sua palavra. // Foi depois dada a palavra à sr.ª D. Maria Clara Alves que começou por se referir, com elogio, à conferência feita por madame Pelletier, dizendo que ela era uma energia de propaganda no meio feminista do nosso país. Refere-se depois à influência da mulher sobre a criança, demonstrando consequentemente a necessidade da sua cultura. // A convite da sr.ª D. Ana de Castro Osório, usou da palavra a sr.ª D. Virgínia Quaresma que, depois de saudar madame Pelletier, produziu um substancioso discurso sobre o feminismo, concluindo por dizer que a propaganda feminista devia, de facto, começar agora e prosseguir persistentemente, fossem quais fossem os escolhos encontrados no seu caminho. // Ao terminar o seu discurso a sr.ª D. Virgínia Quaresma foi muito aplaudida.».

[Diário de Notícias || 12/12/1910]

[Diário de Notícias || 12/12/1910]

[João Esteves]

[2492.] MADELEINE PELLETIER [IV] || 08/12/1910

 * MADELEINE PELLETIER *

[18/05/1874 - 29/1271939]

[Madeleine Pelletier || 1910]

O jornal O Mundo publica, em 8 de Dezembro de 1910, um artigo da médica e feminista francesa Madeleine Pelletier intitulado "Portugal e o voto das mulheres".

[O Mundo || 7 de Dezembro de 1910]

«Portugal e o voto das mulheres
     A extensão do direito de sufrágio às mulheres não constitui já, no momento actual, apenas o ideal de alguns espíritos de elite, é um movimento universal que triunfou já em vários países. Assim que a Finlândia conquistou a sua quase independência, o seu primeiro cuidado foi o de realizar a igualdade política dos dois sexos. Neste país privilegiado, as mulheres não só votam como são elegíveis; e há na câmara finlandesa vinte e seis deputadas pertencentes a todas as classes da Sociedade. Na Noruega, Suécia e Dinamarca, são as mulheres eleitoras e elegíveis para os cargos municipais; o mesmo sucede há longos anos em vários estados americanos. Na Nova Zelândia as mulheres votam há um certo número de legislaturas, e neste país só têm que felicitar-se todos pela influência moralizadora que elas têm exercido na política. Graças às mulheres, ninguém é eleito deputado na Nova Zelândia se a sua conduta não for irrepreensível, na vida política como na vida particular; elas têm, além disso, exercido tal pressão nos legisladores, que o alcoolismo e a prostituição regulamentada, essas duas chagas sociais, quase por completo desapareceram.
     Toda a gente conhece a coragem das sufragistas inglesas. Para vencerem, sujeitam-se às prisões terríveis do seu país, onde os presos políticos são tratados como os ladrões e mais criminosos de direito comum. Como a propaganda pacífica fosse de acção demasiado lenta, transportaram elas para o feminismo o que, em França, chamam os revolucionários acção directa. Um ministro que fez sistemática oposição às justas reivindicações das mulheres, foi por estas tão maltratado que teve de ficar alguns dias de cama. Seria erro censurar esta atitude. Certamente que a discussão pacífica é preferível à violência, pois é a obra dos espíritos esclarecidos, ao passo que a violência lhe é inferior. Se, porém, é certo que, para os espíritos cultos, passou já esta etapa feminina da violência, nela se mantêm ainda as colectividades. Tem-se dito, com razão, que a força é a parteira das sociedades em acção. Todos os partidos masculinos têm, para triunfar, derramado o sangue dos adversários e exposto a vida dos seus próprios adeptos. As sufragistas inglesas apenas começam a aprendizagem das necessárias energias. De resto, os seus esforços foram já, em parte, coroados de bom êxito: obtiveram o voto municipal, a elegibilidade municipal. Seis a oito mulheres, administram já, na qualidade de maires, as respectivas municipalidades inglesas.
     O que conheço das coisas de Portugal permite-me esperar que, aqui, nunca as feministas terão necessidade de recorrer ao emprego da força. Graças à sua recente revolução, tem esta nacionalidade a vantagem de ser dirigida por um núcleo de espíritos de eleição que realizam o que o grande filósofo Augusto Comte chamava o poder espiritual. Há, portanto, toda a razão de esperar que as portuguesas obterão justiça sem combate, e talvez mesmo sem necessidade de argumentar.
     As objecções dos anti-feministas caiem pela base; o espaço restrito de um artigo de  jornal não me permite refutá-las uma a uma; mas ninguém há que as não conheça; no fundo, são apenas a expressão de um preconceito, do misoneísmo preguiçoso que recusa admitir que o que nunca existiu possa existir no meio restrito em que ele envolve. O único argumento de certo valor aparente é o de que só uma minoria das mulheres reclama o direito de voto. Mas então a massa dos negros protestava contra a escravatura? E todavia ela foi abolida. A missão do poder espiritual é, precisamente, a de fazer chegar até à luz as multidões que, por si próprias, nada faziam para a atingirem. Só ao profissional da política incumbe o dever de servir de porta-voz daqueles de quem é mandatário; o guia do homem digno desse nome caminha para a ideia de progresso que concebeu, e nada o detém na sua marcha, nem sequer a perspectiva de ser esmagado. De resto, se as mulheres no seu conjunto, em Portugal como em qualquer outra parte, vivem na ignorância dos interesses do país, há entre o sexo feminino uma elite, já numerosa, amplamente capaz de exercer os direitos políticos. Quem ousaria sustentar que uma médica, uma professora, uma comerciante que dirija com sagacidade o seu estabelecimento, uma empregada ou uma funcionária ganhando honradamente a sua vida, não votará com mais discernimento do que muito homem iletrado?
     É sob o regime desta selecção das capacidades que o voto há-de ser, provavelmente, concedido às portuguesas. Pode, portanto, afirmar-se que o bom efeito de tal medida será certo e ela só digna de louvor, ninguém podendo ter que arrepender-se de ter feito justiça. Dando o voto às mulheres, Portugal colocar-se-á na vanguarda das nações latinas. O que John Stuart Mill não pode alcançar há mais de sessenta anos, em Inglaterra, realizá-lo-á Teófilo Braga na nova República, e pode prever-se que o exemplo será seguido pela República Francesa.
     Disse Victor Hugo que, em França, o século XVIII havia proclamado os direitos do homem, e ao século XIX devia competir a proclamação dos direitos da mulher. O grande poeta francês antecipava os acontecimentos. O século XX é que há-de proclamar os direitos da mulher em França. É de esperar que Portugal quererá, precedendo o meu país, insuflar um pouco de sangue novo na já velha República Francesa.
Doutora Madeleine Pelletier»

[O Mundo || 08/12/1910]

[O Mundo || 8 de Dezembro de 1910]

[João Esteves]

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

[0078.] MADELEINE PELLETIER [II] || VISITA A PORTUGAL - NOVEMBRO DE 1910

* MADELEINE PELLETIER E O MOVIMENTO FEMINISTA EM PORTUGAL *

O movimento feminista em Portugal foi particularmente activo na segunda década do século XX e, embora esteja por estudar o seu relacionamento com o exterior, sabe-se que Madeleine Pelletier foi uma das personalidades estrangeiras que com ele manteve contactos, quer quando se deslocou a este país na sequência da implantação da República, ocorrida em 5 de Outubro de 1910, quer mediante correspondência e permutas com as principais organizações de mulheres.

Informada de que o novo regime pretendia conceder o voto às mulheres, Madeleine Pelletier viajou, logo em Novembro, para Portugal, de forma a inteirar-se do que realmente se passava, tendo mantido contactos privilegiados com alguns dos principais políticos e governantes republicanos e com as agremiações femininas; assistiu a reuniões; e foi homenageada pela Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1908-1919) [primeira organização que, em Portugal, procurou conciliar a intervenção política com reivindicações feministas e chegou a ter mais de mil filiadas] em 11 de Dezembro.

Recebida por Teófilo Braga, presidente do Governo Provisório e defensor assumido do voto feminino restrito, para não prejudicar a República e de forma a ser aceite pelo Parlamento, e por Bernardino Machado, ministro dos Negócios Estrangeiros, confirmou a possibilidade de se vir a atribuir o sufrágio a uma pequena elite de mulheres, tendo disso dado conta em artigos publicados na imprensa portuguesa e francesa [“A República Portuguesa e o voto das mulheres”, A Montanha, 15/03/1911, p. 1, cols. 5-7 e p. 2, col. 1; 16/03/1911, p. 2, cols. 3-5]. Chegou mesmo a escrever que as portuguesas obteriam “justiça sem combate, e talvez mesmo sem necessidade de argumentar” [M. Pelletier, “Portugal e o voto das mulheres”, O Mundo, 08/12/1910, p. 1, cols. 6-7], acalentando a esperança de que a França seguisse o mesmo exemplo.

Na sua estada em Portugal, teve também a oportunidade de se encontrar com Magalhães Lima, Grão-Mestre da Maçonaria, que lhe prometeu, caso fosse eleito deputado, defender o voto feminino no Parlamento, tendo-a convidado para uma sessão comemorativa do triunfo da República; enquanto socialista, visitou os dirigentes desse partido; e manteve contactos com as principais feministas portuguesas, nomeadamente com Ana de Castro Osório (1872-1935), considerando-as frouxas nas suas reivindicações e demasiado confiantes na vontade política dos homens. Aliás, as suas palavras demonstram alguma desconfiança em relação à República, talvez demasiado burguesa.

De regresso ao seu país, discorreu em Paris, na sala Procope, sobre a revolução republicana e as relações entre o feminismo, o livre-pensamento e a maçonaria [Aquilino Ribeiro, “Aspectos Feministas – O sr. Afonso Costa não é feminista e O sr. Bernardino Machado é... a seu modo – Di-lo M.me Pelletier numa conferência, em Paris”, A Capital, 08/02/1911, p. 1, cols. 2-3] e, quando em Portugal se intensificou a campanha a favor do sufrágio, em carta a Ana de Castro Osório, de 23 de Julho [de 1911], a médica informou que em França também se tentava obter o voto “aux commerçantes et aux ouvrières qui sont inscrites sur les listes electorales pour les Conseils de Prud’hommes et les Tribunaux de Commerce” [BN, ACPC, Colecção Castro Osório, Esp. N12/445], o que não abrangeria mais de dois a três mil casos. Na mesma missiva, anunciou o envio da brochura sobre Le droit à l’avortement, considerando que se tratava de um tema integrante do seu feminismo.

Na qualidade de maçon, respondeu, ainda que de forma sucinta, ao questionário organizado por Ana de Castro Osório, em 1913, sobre o papel da mulher na Maçonaria Portuguesa, considerando que “la femme devrait être admise dans toutes les loges; mais si vous ne pouvez obtenir cette égalité, la loge d’adoption vaut mieux que la maçonnerie irrégulière” [Ana de Castro Osório, Resposta a uma Consulta, Lisboa, Pap. e Tip. Assis, 1914, p. 20]; e manteve, com certeza, contactos estreitos com o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (1914-1947), já que lhe enviou a sua obra teatral In Anima Vili e os livros Un crime scientifique e Les femmes peuvent-elles avoir du Génie? [“Biblioteca”, Alma Feminina, n.º 7-8, Julho - Agosto de 1920, p. 41; “Biblioteca Feminina”, Alma Feminina, n.º 11-12, Novembro – Dezembro de 1920, p. 61].

[João Esteves]

[0077.] MADELEINE PELLETIER [I] || CARTA A ANA DE CASTRO OSÓRIO - 23/07/1911

* MADELEINE PELLETIER *

CARTA A ANA DE CASTRO OSÓRIO || 23/07/1911
 
«23 Juillet [1911]

 Chère Madame

     Le mouvement féministe est calme à Paris comme toujours. Néanmoins après nombre de démarches; après avoir essuyé je ne sais combien de fins de non recevoir j’ai fini par trouver un député M. Pauiqnery de Boisserin qui a consenti à déposer sur le vote des femmes un amendement à la loi sur la Réforme Electorale que l’on a commencé de discuter avant les vacances. L’amendement est très timide il tend seulement à accorder le vote aux commerçantes et aux ouvrières qui sont inscrites sur les listes électorales pour les Conseils de Prud’hommes et les Tribunaux de Commerce. Cela ferait voter deux à trois mille femmes seulement dans toute la France; mais si l’amendement passait ce serait le premier pas, toujours le plus difficile. 

     Il est pénible de constater que notre parti déjà si peu nombreux est très divisé; il y a chez nous autant de généraux que de troupes et chacune essaye d’avoir son petit groupe à elle, de là des cabales sans fin. De plus même les chefs connus du féminisme le sont en général assez peu; les unes sont avant tout protestantes, les autres avant tout anti-cléricales; elles ne comprennent pas qu’il faudrait être avant tout féministe attendu que dans n’importe quel régime les femmes ne comptèrent pas tant qu’elles n’eurent pas leurs droits politiques.

     Je vous envoie ma nouvelle brochure sur «Le droit à l’avortement». C’est un sujet scabreux; car lorsqu’on traite des choses de la sexualité on a toujours l’air immoral; cependant le droit à l’avortement fait à mes yeux parti du féminisme; la femme restera infériorisée dans la lutte pour la vie sans que la maternité pourra en quelque sorte lui être imposée; il faut qu’elle puisse seule en décider.

      J’espère que vous me donnez de temps à autre de vos nouvelles et des nouvelles du féminisme. J’ai vu qu’une femme a voté à Lisbonne  peut-on en conclure que définitivement la porte est ouverte? 

 Bien à vous

Dr Palletier

     55 rue [?] Paris

P.S. Toutes mes félicitations pour la nomination de Monsieur votre mari. Permettez-moi d’espérer que les magnificences de la vie d’ambassadrice  ne vous feront pas oublier le féminisme.».

[BNP || ACPC || Colecção Castro Osório || Esp. N12/445] 

[João Esteves]

sexta-feira, 26 de março de 2010

[0044.] MARIA VELEDA [IV] || 26/03/1911

* MARIA VELEDA || 26/03/1911 *

LEI ELEITORAL DA REPÚBLICA

Reflexão de Maria Veleda na "Tribuna Feminina" do jornal O Tempo [26/03/1911, p. 3, cols. 1-2], sobre a primeira lei eleitoral da República. 

Tece considerações críticas sobre Madeleine Pelletier e assume-se como contrária ao sufragismo.


«A propósito da reforma da lei eleitoral
 
Muito se fantasia lá por fora! Ainda não há muito tempo, apareciam as esquinas, em Paris, cobertas de espaventosas affiches, noticiando que a República Portuguesa, a dois dias da sua proclamação, resolvera conceder o voto às mulheres. // Madame Pelletier, justamente surpreendida, abalou de longada, caminho deste país extraordinário, que, marchando, aliás, na retaguarda do progresso,  dava a todos os países civilizados uma lição de igualdade tão estrondosa e tão completa. // «Devem ser prodigiosas as mulheres portuguesas» diria de si para consigo a ilustre propagandista do sufrágio feminino. «É impossível que as mulheres portuguesas não disponham de um partido feminista devidamente organizado, muito embora, nos congressos internacionais onde temos reivindicado os nossos direitos, elas brilhassem sempre pela ausência. No seu país, essas mulheres privilegiadas terão realizado importantes comícios, feito uma intensiva propaganda a favor do ideal. Devem ser modelares as feministas portuguesas; e o governo republicano, que lhes concedeu o sufrágio, deve ser o governo mais progressivo do mundo!» // É provável que madame Pelletier levasse para a sua terra alguma desilusão... Pelo menos, num artigo que publicou num jornal francês, e foi reproduzido na Capital, a ilustre escritora burilava frases discretamente irónicas, que alvejavam alguns dos nossos políticos mais em evidência. Madame Pelletier declarava, por exemplo, que o dr. Afonso Costa não era feminista, e que o dr. Bernardino Machado o era a seu modo... // É que, para o feminismo de madame Pelletier, todo aquele que não defenda o sufrágio, não é feminista. // Não conhecemos a opinião do doutor Afonso Costa nem a do doutor Bernardino Machado sobre o sufrágio, mas se o último se tem revelado sincero e convicto feminista em teoria, o dr. Afonso Costa realizou num brevíssimo lapso de tempo algumas das mais importantes reivindicações feministas e que mais interessam à vida sentimental da mulher. A lei da família e a lei sobre o divórcio não viriam melhorar bastante a situação da mulher portuguesa? A lei da família, que nivela os filhos bastardos com os filhos legítimos e levanta a mulher sem esposo e sem coroa virginal, que o preconceito enjeita e despreza, à dignidade augusta de Mãe, não foi um avanço importantíssimo no caminho da emancipação feminina? // Mas o voto interessa mais as sufragistas; e madame Pelletier retirou-se de Portugal, levando, certamente, as suas primeiras previsões muito abaladas... // Agora, é um jornal inglês que noticia ter o governo da República concedido o voto às mulheres portuguesas, acrescentando ainda que uma importante sociedade feminista celebrou este triunfo em reunião especial... // E enquanto estas deliciosas fantasias vão marchetando de purpura e ouro o azul diáfano da ilusão, as mulheres portuguesas continuam vivendo tranquilamente, burguesmente a sua existência igual e monótona... // Publicada a nova lei eleitoral, algumas mulheres haveria que a lessem com certa curiosidade r interesse. Não pertencemos nós a este número. A lei passou-nos despercebida; e se uma nossa colega não nos escrevesse sobre o assunto, calculando que devêssemos estar satisfeitíssimas, porque a lei eleitoral continuará excluindo as mulheres do direito do voto, ainda neste momento ignoraríamos essa, ao que parece, suprema injustiça do Governo da República. // Injustiça... será. Realmente, perante a lógica e o princípio de igualdade por que devemos nortear-nos, não é admissível que qualquer lapuz ignorante seja eleitor e uma mulher ilustrada o não seja. Isto está sobejamente discutido, e não temos a estulta pretensão de convencer os inconvencidos, que a nenhuma razão se dobram e persistem nas suas opiniões, menos por convicção do que por espírito de rotina. De resto -, mais uma vez o dizemos -, não nos preocupa a questão do sufrágio, que pode ter razão de existir noutros países mais cultos, mas que apenas começa a revelar-se, muito timidamente, em Portugal. // Não basta que meia dúzia de senhoras cultas reclamem o direito do voto, para que qualquer governo lho conceda como um mimo – uma caixinha de bombons, ou um raminho de violetas. // Não basta que um grupo interprete o sentir da minoria – é preciso que essa minoria dê, pelo menos, sinais da sua existência. // Uma lei não se atira ao acaso, para o meio da multidão. E onde estão essas mulheres que reclamam o direito ao voto? Onde apareceram elas a reivindicar esse direito? // As inglesas, por todos os meios ao seu alcance, desde a propaganda falada e escrita à propaganda pela força e pela violência, ora realizando meetings, ora assaltando o Parlamento, sujeitando-se aos maiores vexames, não as intimidando a prisão, e ganhando terreno dia a dia, são dignas de admiração e respeito. Combatem por um princípio de igualdade, e por mais que tenham tentado inutilizá-las pelo ridículo, elas prosseguem altivamente na sua campanha. Presentemente, as inglesas estão esperançadas em que o Conciliation Bill, que foi redigido por cinquenta deputados, passe este ano no Parlamento. // Mas falaremos mais de espaço sobre este assunto. // Na França, a propaganda feminista tem-se feito, revestindo o mesmo carácter sufragista. As francesas, porém, como as inglesas, podem lutar contra um meio hostil às suas reivindicações, porque o partido dispõe de muitas mulheres com aptidões literárias e científicas, dispõe de numerosas oradoras e incansáveis propagandistas, dispõe de dinheiro, que é a mola real de todos os cometimentos. // E nós? Onde estão as nossas oradoras? Como se tem feito a nossa propaganda? Em que comício defendemos já os nossos direitos? Quando nos fizemos representar num congresso? Onde nos manifestámos publicamente? // O que temos feito – meia dúzia de artigos publicados, duas ou três reclamações assinadas por seis ou oito nomes, não representa não pode representar a vontade sequer da mais insignificante minoria. // Apareçam as oradoras, façam-se conferências – não por homens, que é deprimente esperar deles a obra que deve ser nossa, exclusivamente nossa – revolucione-se a opinião, faça-se a propaganda, como a fazem as feministas estrangeiras, organizem-se manifestações públicas, realizem-se comícios, prove-se, finalmente, que as mulheres portuguesas estão educadas para reivindicarem os seus direitos, e só então, se o governo persistir em recusar-no, poderá dizer-se que praticou uma revoltante injustiça. // Pela propaganda escrita, nunca as sufragistas portuguesas conseguirão o que pretendem – já porque é limitadíssimo o número das nossas escritoras, já porque, só por meio de actos, mais ou menos irreverentes, mais ou menos corajosos, conseguirão impor-se e dominar o preconceito. // É o que acontece em Inglaterra, onde apenas dois jornais se referiram a um substancioso discurso, sobre sufrágio feminino, proferido na câmara dos Pares por um notável homem político, ex-ministro e o leader da oposição. // Não somos sufragistas, repetimos, por coerência com os princípios que professamos, mas se o fossemos e quiséssemos triunfar, adoptaríamos a atitude das mulheres  inglesas, caso pudéssemos contar com a coragem e a dedicação das restantes partidárias do sufrágio feminino. // Maria Veleda.»

[O Tempo || 26/03/1911]

[João Esteves]