[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
Mostrar mensagens com a etiqueta Edições Colibri. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Edições Colibri. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 21 de março de 2025

[3514.] OS IMPACTOS DA DITADURA NAS FAMÍLIAS DOS OPOSITORES POLÍTICOS || MARIANELA VALVERDE

 OS IMPACTOS DA DITADURA NAS FAMÍLIAS DOS OPOSITORES POLÍTICOS * 

Marianela Valverde 

Edições Colibri || 2025 

Lançamento: 22 de Abril || 19 horas || Biblioteca Municipal Palácio Galveias - Lisboa

"Esta obra resulta de uma investigação académica, onde através de 101 entrevistas realizadas a familiares de opositores políticos e a outras figuras que apoiaram a resistência à ditadura do Estado Novo, se revelam os impactos sofridos nas dinâmicas familiares e os traumas consequentes.

A apresentação deste livro será realizada pela Professora Doutora Maria Fernanda Rollo."

sexta-feira, 10 de julho de 2020

[2387.] ARTUR DE OLIVEIRA SANTOS [III] || JOSÉ POÇAS DAS NEVES (2020)

* ARTUR DE OLIVEIRA SANTOS *
[22/01/1884 - 27/06/1955]

José Poças das Neves

Artur de Oliveira Santos: um republicano idealista (1884 - 1955), o administrador de Ourém ao tempo das aparições de Fátima

Edições Colibri || Maio de 2020







 

[2386.] ARTUR DE OLIVEIRA SANTOS [II] || JOSÉ POÇAS DOS SANTOS (2020)

* ARTUR DE OLIVEIRA SANTOS *
[22/01/1884 - 27/06/1955]

Republicano muito prestigiado em Ourém, Artur de Oliveira Santos testemunhou, em Lisboa, a Revolução de 5 de Outubro de 1910. 

Foi Administrador do Concelho de Vila Nova de Ourém quando do fenómeno de Fátima e combateu a Ditadura Militar desde os primórdios.

Participou na Revolta de 20 de Julho de 1928, esteve preso e exilou-se em Espanha em 1931, onde interveio na Guerra Civil, aí permanecendo até 1939/1940.

José Poças das Neves, no livro Artur de Oliveira Santos: um republicano idealista (1884 - 1955), o administrador de Ourém ao tempo das aparições de Fátima, editado pela Colibri em Maio de 2020, traça-lhe, detalhadamente e de forma documentada, o invulgar e sofrido percurso político.

[José Poças das Neves || Artur de Oliveira Santos: um republicano idealista (1884 - 1955) || Edições Colibri,  2020]

Livro recheado de informações e de documentação, nomeadamente a consultada na Torre do Tombo e no riquíssimo espólio familiar minuciosamente explorado por José Poças, importa aqui referir o percurso cívico e político de Artur de Oliveira Santos após a implantação da Ditadura Militar em 28 de Maio de 1926, tornando-se um persistente opositor com diversas consequências, desde a prisão, por várias vezes, ao exílio em Espanha, de onde só regressou em 1940.

Administrador do Concelho de Ourém, já não tinha pactuado com a ditadura sidonista, demitindo-se do cargo em 8 de Dezembro de 1917, aquando da subida de Sidónio Pais ao poder na sequência do movimento iniciado em 5 do mesmo mês. O 28 de Maio de 1926 apanhou-o, novamente, como Administrador do mesmo concelho, tendo sido demitido e substituído em 3 de Junho. Passava, definitivamente, para as fileiras da Oposição e aí se manteve activo, até falecer, no combate possível à ditadura que terminara com a 1.ª República.

Envolveu-se nos preparativos do movimento revolucionário de 20 de Julho de 1928, conhecido como a "Revolta do Castelo", quando era terceiro-oficial do Ministério das Colónias. Depois de ter andado fugido, acabou por ser preso em 1 de Setembro de 1928, em Leiria, e enviado para Santarém para ser interrogado. Em 4 de Setembro, seguiu para Lisboa, onde foi entregue, sob prisão, ao Delegado Especial do Ministério do Interior e, no dia seguinte, foi sujeito a interrogatório pela Polícia de Informação.

Nesse mesmo mês, foi encarcerado em Monsanto e, posteriormente, no Aljube, havendo fotografia com um grupo de presos, datada de 5 de Maio de 1929, onde consta a identificação dos 16 presos [pp. 234-235]: Adelino Magalhães (Lisboa); António Abreu (Lisboa); António Teixeira (Lisboa); Artur de Oliveira Santos (Vila Nova de Ourém); João Rodrigues da Silva (Lisboa - deportado); Manuel [?] (Lisboa); Manuel G. da Silva (Lisboa); Manuel Mota (Lisboa); Manuel Padeiro (Lisboa); Mário Maia (Lisboa); Miguel Monteiro (Espinho); Miguel Picado (Lisboa); Pina Marques (Lisboa); Silva Reis (Porto); Tércio de Miranda (Porto - deportado); e Videira (Sargento - Lisboa).

Libertado em 28 de Maio de 1929, fixou-se, novamente, em Vila Nova de Ourém.

Dois anos depois, durante a revolta da Madeira, iniciada em 4 de Abril de 1931, Artur de Oliveira Santos apareceu como um dos responsáveis pelo corte das linhas férreas e telegráficas em Albergaria dos Doze, ocorrido na noite de 1 para 2 de Maio. Na sequência do falhanço da revolta da Madeira e do envolvimento naquela tentativa de descarrilamento, saiu de Ourém, andou escondido e, em meados de Setembro, refugiou-se em Espanha, entrando por Badajoz, já depois da inconsequente revolta de 26 de Agosto.

O exílio em Espanha acabou por durar dez longos anos, entre 1931 e 1940, sobrevivendo mediante venda pedestre de gravatas e, durante a Guerra Civil, trabalho hospitalar, sempre à espera de poder regressar a Portugal e integrar um movimento revolucionário que acabasse com o regime ditatorial saído do 28 de Maio.

Manterá, durante essa década, intensos contactos com importantes refugiados e exilados portugueses espalhados por Espanha, acompanhando os seus esforços, dissensões e mobilizações para regressarem ao país. Apontado como próximo do "Grupo dos Budas", foi trocando correspondência com Bernardino Machado, a quem tratava por "Presidente da República Democrática de Portuguesa" [p. 252], exortando-o a pôr fim aos sucessivos conflitos entre as chefias, que minavam a união dos exilados, e pugnando pela criação de uma frente única que fizesse a Revolução. Encontra-se documentação no Arquivo Casa Comum, da Fundação Mário Soares, e é possível ler as missivas para Bernardino Machado no Blogue do Dr. Manuel Sá Marques, falecido em Fevereiro deste ano.

Com o início do golpe militar desencadeado por Franco contra o legítimo governo republicano, Artur de Oliveira Santos teve de abandonar a venda avulsa de gravatas e passou a trabalhar em diversos hospitais até à entrada triunfante das tropas daquele em Madrid, em Março de 1939.

São anos de luta pela sobrevivência económica, agravada por problemas de saúde, sempre com a esperança, sucessivamente frustrada, de que algo mudasse entre os exilados e em Portugal.

Entretanto, participou na reunião fundadora da União Anti-Fascista dos Emigrados Portugueses, realizada em Outubro de 1936, e aderiu ao Socorro Vermelho Internacional.

Preso, então, por três vezes, a última das quais por sete meses e meio, solicitou a intervenção do Cônsul português e acabou por voltar a Portugal, sendo preso na fronteira e interrogado pela PVDE em Fevereiro de 1940. Levado para Caxias, seria libertado em 16 de Março desse ano.

Seguem-se anos de dedicação a iniciativas em prol do seu concelho, mantendo algumas intervenções políticas,  como a do apoio ao Almirante Quintão Meireles aquando das eleições presidenciais de 1951, na sequência do falecimento de Óscar Carmona.

Utilizou o pseudónimo João de Ourém e casou com Idalina de Oliveira Santos, de quem teve vários filhos, mantendo relevante correspondência com a família durante os anos de exílio.

Faleceu em 27 de Junho de 1955, aos 71 anos, sendo o seu desaparecimento noticiado com destaque de primeira página,  incluindo fotografia, pelo jornal República,  entre outros.

[José Poças das Neves || Artur de Oliveira Santos: um republicano idealista (1884 - 1955) || Edições Colibri,  2020]

[João Esteves]

segunda-feira, 23 de março de 2020

[2322.] A OPOSIÇÃO AO ESTADO NOVO NO CONCELHO DE ALMADA (1933-1958) [I] || PAULO JORGE

* A OPOSIÇÃO AO ESTADO NOVO NO CONCELHO DE ALMADA (1933 - 1958) *

PAULO JORGE 

Edições Colibri || 2019




 [Paulo Jorge || A Oposição ao Estado Novo no Concelho de Almada (1933-1958) || Edições Colibri || Dezembro de 2019]

domingo, 5 de janeiro de 2020

[2244.] ANTÓNIO GERVÁSIO [III] || POR LUÍS GODINHO

* LUÍS GODINHO *

O ALENTEJO E A LUTA CLANDESTINA: ANTÓNIO GERVÁSIO UM MILITANTE COMUNISTA

Edições Colibri || Dezembro de 2019

Prefácio de Carlos Pinto de Sá.

Na capa, a emblemática fotografia de António Gervásio a ser libertado de Peniche na madrugada de 27 de Abril de 1974, da autoria de Ezequiel Santos.




 
[Luís Godinho || O Alentejo e a Luta Clandestina: António Gervásio um militante comunista || Edições Colibri || 2019]

domingo, 10 de novembro de 2019

[2185.] NOVA SÍNTESE [I] || 13 - 2018

* NOVA SÍNTESE *
[N.º 13 - 2018]

NOVA SÍNTESE - Textos e contextos do neo-realismo 

Propriedade e Administração: Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo || Edições Colibri

Director: Vítor Viçoso || Director-Adjunto: António Mota Redol



[Nova Síntese 13 || Edições Colibri || 2018]

domingo, 19 de maio de 2019

[2139.] ANTÓNIO CARTAXO [I] || QUASE VERDADE COMO SÃO MEMÓRIAS

* ANTÓNIO CARTAXO *

QUASE VERDADE COMO SÃO MEMÓRIAS

Edições Colibri || 2009




[António Cartaxo || Quase verdade como são memórias || Edições Colibri, 2009]

domingo, 12 de maio de 2019

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

[1879.] JOSÉ ADELINO DOS SANTOS [I] || LIVROS NO ALJUBE

* JOSÉ ADELINO DOS SANTOS || LIVROS NO ALJUBE * 

[25/10/1912 - 23/06/1958]

"Memórias de um assassinato em Montemor-O-Novo. José Adelino dos Santos, radiografia de uma luta pela Liberdade" 

Livro de Carlos André, editado pela Colibri em 2017, com apresentação de Teresa Fonseca e de Fernanda Santos || Actuação do Grupo de Teatro de Carnide || 23 de Outubro || 18.30 ||


Trabalhador muito respeitado e influente na região de Montemor -o- Novo, militante do Partido Comunista desde o início da década de 40, José Adelino dos Santos (n. 1912) destacou-se na sua organização e nas acções reivindicativas pela subida de salários e melhorias das condições de vida, tendo sido assassinado a tiro pela GNR e PIDE em 23 de Junho de 1958.

Já tinha sido preso pela PIDE por duas vezes: em 1945, permanecendo três meses no Aljube e em Caxias; e em 1947, tendo estado encarcerado encarcerado 29 meses no Aljube, Caxias e Peniche.

Em 28 de Junho de 1986, o núcleo de Montemor-o-Novo da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses, com o apoio da Câmara Municipal, inauguro uma escultura dedicada à memória de José Adelino dos Santos.

Para além deste livro de Carlos André, Teresa Fonseca escreveu sobre “José Adelino dos Santos e a resistência à ditadura em Montemor-o-Novo”, publicado em Almansor | Revista de Cultura, N.º 7, 2008, pp. 217-227. Também algumas das mulheres que prestaram depoimento para o livro "A memória das mulheres. Montemor-o-Novo em tempo de ditadura", coordenado por Teresa Fonseca e editado em 2007, também se referem ao sucedido com José Adelino dos Santos.



  
[Carlos André || Edições Colibri || 23 de Junho de 2017]

quarta-feira, 16 de maio de 2018

[1811.] MARGARIDA TENGARRINHA [V]

* MARGARIDA TENGARRINHA || MEMÓRIAS DE UMA FALSIFICADORA: A LUTA NA CLANDESTINIDADE PELA LIBERDADE EM PORTUGAL *

MUSEU DO ALJUBE || 15 DE MAIO

[Museu do Aljube || 15/05/2018]

sábado, 12 de maio de 2018

[1810.] MARGARIDA TENGARRINHA [IV]

* MARGARIDA TENGARRINHA || MEMÓRIAS DE UMA FALSIFICADORA: A LUTA NA CLANDESTINIDADE PELA LIBERDADE EM PORTUGAL *

MUSEU DO ALJUBE || 15 DE MAIO || 18.30 ||

|| HELENA PATO || JOÃO ESTEVES || MARGARIDA TENGARRINHA ||

Luís Farinha: «No momento em que decorre no espaço de exposições temporárias do Museu do Aljube a exposição José Dias Coelho Artista Militante Revolucionário, fazemos o convite para a apresentação do livro de Margarida Tengarrinha «Memórias de uma falsificadora: A luta na clandestinidade pela Liberdade em Portugal».

segunda-feira, 7 de maio de 2018

[1806.] HELENA PATO [II]

* HELENA PATO || A NOITE MAIS LONGA DE TODAS AS NOITES (1926-1974) *

23 DE MAIO || 18.30 || BIBLIOTECA ESPAÇO EUROPA

APRESENTAÇÃO: IRENE PIMENTEL || MÁRIO DE CARVALHO

PREFÁCIO: MARIA TERESA HORTA

POSFÁCIOS: LUÍS FARINHA || JORGE SAMPAIO

[Edições Colibri || Maio de 2018]

domingo, 1 de abril de 2018

[1780.] MARGARIDA TENGARRINHA [III]

* MARGARIDA TENGARRINHA || MEMÓRIAS DE UMA FALSIFICADORA: A LUTA NA CLANDESTINIDADE PELA LIBERDADE EM PORTUGAL *

[Edições Colibri || 2018]

A luta contra o Fascismo, em Portugal, durou quarenta e oito longos anos. Houve quem se acomodasse e houve quem, em condições inimagináveis pela dureza de um quotidiano incerto, tenha resistido dia após dia, apoiado em redes solidárias – legais, semilegais, clandestinas -, apesar da forte repressão de uma polícia política eficaz, aterrorizadora e com tentáculos nos mais inesperados e recônditos lugares.

Margarida Tengarrinha, militante do Partido Comunista desde 1952, totalizou treze anos de vida clandestina (1955-1962, 1968-1974), tendo “mergulhado” em 1955, com José Dias Coelho, intercalados por seis de exílio (1962-1968), sem nunca ter sido presa! Tinha 27 anos e o companheiro 32. Para além de ser uma militante “disciplinada, dedicada e eficaz” e de contar com a “resistência indómita daqueles que, sob tortura, nunca denunciaram”, como escreve Manuel Loff, rodeou-se, também, de inúmeros homens e mulheres que, “conscientes do perigo que corriam e vencendo o medo, com coragem e generosidade, abriram as suas casas, deram guarida, serviram de refúgio aos perseguidos, transportaram nos seus carros e apoiaram de variadíssimas formas os militantes clandestinos e o seu partido, o Partido Comunista Português” [p. 171].

É destes Homens e Mulheres, “pessoas desconhecidas do grande público”, “gente modesta”, “sem esperarem reconhecimento”, “louros nem glórias” [p. 17], que Margarida Tengarrinha fala em Memórias de uma falsificadora: a luta clandestina pela liberdade em Portugal [Edições Colibri, 2018]. E se “não há futuro sem memória”, como nota o historiador Manuel Loff no Prefácio à obra, as páginas de Margarida Tengarrinha constituem um importantíssimo repositório de factos e nomes, daqueles que (ainda) não estão gravados na História, mas “cuja acção foi fundamental no derrubamento do fascismo” [p. 14].

Margarida Tengarrinha expõe a militância antifascista, as consequências no curso inacabado, o impedimento de continuar a leccionar desenho, a interrupção de uma carreira nas artes, a passagem da vida cultural e associativa intensa à adaptação às exigentes condições da clandestinidade, a vida quotidiana em cada casa, a redacção do jornal Avante!, sempre em território nacional, a ligação às tipografias, as sociabilidades políticas e familiares, nomeadamente com as cunhadas Maria Adelaide, Maria Emília e Maria Sofia Dias Coelho e o cunhado Carlos Aboim Inglez), a luta pelos direitos das mulheres e das crianças, alicerçada no convívio com Maria Lamas, ao mesmo tempo que dá a conhecer o temerário desempenho, em conjunto com o companheiro José Dias Coelho, na falsificação de documentos de identificação essenciais para a sobrevivência de qualquer clandestino, e a transformação do órgão “Três Páginas” em “A Voz das Camaradas das Casas do Partido”. Posteriormente, o casal ficará encarregue da preservação, em fotogramas, do arquivo e documentação do Partido Comunista e, a partir deste, da escrita do livro (Crónicas d’) A Resistência em Portugal (1961). 




A Autora descreve a passagem de testemunho da “oficina de falsificação”, ao fim de seis anos, para o engenheiro Júlio da Conceição Silva Martins, barbaramente torturado e um dos obreiros da Reforma Agrária, e da mulher Natália David e, depois daquela ter sido descoberta pela PIDE, o recomeçar com Américo Leal, sendo que Margarida Tengarrinha, a quem tinham acabado de assassinar o marido, era a única com conhecimentos técnicos para montar uma outra, o que fez antes de partir para um exílio de seis anos em Moscovo (1962-1964) e Bucareste (1964-1968). 

Para além de episódios vividos com dirigentes históricos comunistas, como Álvaro Cunhal, Aurélio Santos, Francisco Miguel (inesquecível a parte em que este ensina a filha Guida a “fugir” do seu parque de grades de madeira), Joaquim Pires Jorge, José Vitoriano, Júlio Martins, Manuel Rodrigues da Silva, Maria da Piedade Morgadinho ou Sérgio Vilarigues, talvez o contributo mais relevante para a historiografia da resistência seja precisamente a visibilidade que dá e a “admiração, amizade e gratidão” [p. 17] que presta a muitos dos quase anónimos que estiveram, em cada lugar e no momento certo, (sempre) ao seu lado e do colectivo partidário no combate antifascista.

Para que não sejam esquecidos, perpassam pelas Memórias de uma falsificadora, entre muitos outros, o casal de operários agrícolas do Couço Maria Gracinda e Joaquim Almas Nunes, este a trabalhar na construção civil do Porto, em cuja casa, na aldeia de Fontelos, Margarida Tengarrinha viveu e trabalhou na redacção e arquivo do Avante! entre 1968 e 1974; os tipógrafos do Porto, Maria Fernanda Silva e Carlos Pires (recentemente falecido), e os de Lisboa, Maria Júlia e Raúl Costa; os médicos, médicas e parteiras/enfermeiras que ajudaram as parturientes clandestinas (Cesina Bermudes, Ferreira Vicente, Lúcia Terlô, Maria da Purificação Araújo, Olívia Vasconcelos, Pedro Monjardino); Maria Helena Magro, companheira de Joaquim Pires Jorge, faleceu no hospital de uma gravidez de alto risco (Dezembro de 1956) e com quem mantivera troca de correspondência, apesar de não se terem conhecido pessoalmente; o casal Palmira Castro e Fernando Sampaio e Castro, cuja casa, em Leça do Balio, era um ponto de apoio seguro; o casal Leonor Oliveira e António Alfredo Paiva Nunes que a receberam quando teve de abandonar repentina a casa, na sequência do assassinato do companheiro; e os sempre pouco falados/esquecidos/ignorados/silenciados pais, mães e avós dos clandestinos e presos políticos.

Como refere Margarida Tengarrinha, aqueles “nunca estiveram presos, mas ninguém como eles conheceu todos os caminhos que levavam aos cárceres políticos, desde o Aljube e Caxias à prisão da PIDE na Rua do Heroísmo no Porto, da Fortaleza de Peniche até ao longínquo Tarrafal” [p. 161]. Não estiveram presos e não foram torturados, mas passaram pelos mesmos constrangimentos ditatoriais ao apoiarem os familiares detidos e torturados. 


A Autora identifica o casal Herculana de Carvalho, “uma verdadeira mãe dos presos do Tarrafal” [p. 162], e Luís Alves de Carvalho, autor das fotografias únicas dos presos do Tarrafal e das campos dos mortos aquando da sua deslocação ao Campo de Concentração para verem o filho, Guilherme da Costa Carvalho; de Juliana Augusta Dias Coelho e de Alfredo Coelho, pais de José Dias Coelho [que o meu pai conheceu em Castelo Branco nos tempos de estudante do Liceu, por ser colega e amigo de Alberto e de Fernando, sendo José Dias Coelho ainda “um garoto de calções”]; Flora Magro, “talvez a mulher portuguesa que durante mais tempo visitou incansavelmente as cadeias políticas” [p. 166], pois teve presos, em simultâneo ou em tempos diferentes, o filho, José Magro, a nora, Aida Magro e genro, Pires Jorge, tendo criado as netas Manuela e Clara; Maria Rodrigues Pato, que viu serem detidos e torturados três filhos (um deles, Carlos Pato, também assassinado pela PIDE), uma nora, um neto e um sobrinho; Manuel José da Costa, pai de Carlos Costa, e Avelino Costa e Maria da Conceição Gomes da Costa, seus tios. Sem esquecer a generosidade e solidariedade para com os presos e suas famílias das pintoras Maria Clementina Carneiro de Moura e Maria Keil e da médica Maria Luísa Almeida. 

Uma vida clandestina onde Margarida Tengarrinha teve de “aprender a saborear a felicidade possível” [p. 43], dilacerada pela morte da mãe, Teresa Marques do Carmo Mendes Tengarrinha; a separação da filha mais velha, “terrível para todas nós”, “pior do que a prisão, pior do que as torturas” [p. 53]; e, por fim, o brutal assassinato de José Dias Coelho pela PIDE em Dezembro de 1961, com apenas 38 anos, sabendo do desenlace quando já tinha sido enterrado.

Memórias de uma Resistente comunista e da Resistência Antifascista ilustradas por vasta documentação iconográfica, sobretudo gravuras da Autora, algumas ainda erroneamente atribuídas a José Dias Coelho, e que constitui, também, uma belíssima homenagem ao seu companheiro e às duas filhas, Teresa e Guida, procurando, assim, “fugir à corrupção da morte e ao esquecimento de si próprio e daqueles que conheceu, amou e admirou” [p. 176].



[João Esteves]

segunda-feira, 5 de junho de 2017

[1605.] LAURA LOPES [I]

* FOLHAS SOLTAS DE UMA VIDA. MEMÓRIAS DE UMA MULHER DO SÉCULO XX || 2017 *

[Edições Colibri || 2017]

Livro de memórias, de histórias e de História da autoria de Laura Lopes, "a rapariga dos cabelos ruivos", nascida em 1923, numa família operária.

História e histórias de uma vida militante de décadas, Laura Lopes começa por relembrar a Lisboa dos desfavorecidos e dos operários nas décadas de 20 e 30 e o quão difícil era para uma rapariga oriunda das classes trabalhadoras construir um percurso escolar, sendo vítima de "discriminação social" ao frequentar a escola primária da Câmara e, depois, no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, onde lhe foi retirada a isenção de propinas a que tinha direito por opinar contra a guerra e em defesa da paz. Tinha, então, onze anos!

Lutadora e persistente, trabalhou como peleira na Rua do Carmo e, depois, numa companhia de seguros inglesa para prosseguir os estudos, tendo frequentado à noite a Escola Comercial Patrício Prazeres e, em 1948, entrou na Faculdade de Direito onde talvez fosse "a única aluna proveniente da classe operária". Aí, por intermédio de Ovídio Martins, antifascista e poeta caboverdeano, iniciou a luta de décadas contra o regime fascista e se tornou numa empenhada lutadora pela Paz. 

Aderiu ao MUD-Juvenil, tornou-se, em 1949, militante clandestina do Partido Comunista, participou nas principais iniciativas, nacionais e internacionais, em defesa da Paz mundial, esteve na constituição do movimento Democrático das Mulheres e, por este seu relato, perpassam episódios das muitas vidas com que se foi cruzando:  Alcina Bastos, Ângelo Caldeira Rodrigues, Ângelo Veloso, Belmira Cruz, Blanqui Teixeira, Carlos Aboim Inglês, Carlos Brito, Carlos Costa, através de quem conheceu Maria Machado, então a viver num pequeno quarto da Maguidal, "uma alfaiataria de antifascistas situada num 3.º andar da Rua da Palma", Duarte Vidal, Francisco Martins Rodrigues, Graça Mexia, Guilherme da Costa Carvalho, Helena Neves, Humberto Soeiro, Ilídio Esteves, Isabel Pato, João Pulido Valente, José Dias Coelho,  Lino Lima, Manuel Pedro, Manuela Bernardino, Maria Barreira, Maria das Dores Cabrita, Maria Isabel Aboim Inglês, Maria Lamas, Maria Teixeira, Maria Teresa Horta, Olívia Maria, Ovídio Martins, Rosalina Pinho, Ruy Luís  Gomes, Silas Cerqueira, Vasco Cabral, Virgínia Moura, os gémeos Eugénio e Manuel Ruivo... entre muitos outros nomes, não se coibindo de tecer juízos críticos sobre alguns destes companheiros de percurso e de vida.

De Olívia Maria, "presa mais de oito anos e seis anos na clandestinidade" e com quem passou muitos serões na Graça, estando o marido [José Carlos] a cumprir pesada pena de prisão, dá uma descrição pormenorizada devido ao registo, então feito, da sua história em dez folhas de bloco escritas de ambos os lados e de que Laura Lopes se socorreu para a descrever neste livro.

De Alcina Bastos "mulher vertical, antifascista desde sempre", nome pouco valorizado e reconhecido, lembra a "mulher valorosa (...), simples, modesta e de uma enorme integridade moral e verticalidade nas suas atitudes, na sua maneira de estar na vida" e que "nunca vergou a cabeça perante nada nem ninguém, em circunstâncias penosas da sua sua não pactuou com o fascismo, nunca recebeu benesses, sempre as recusou": "uma voz sempre a soar na ocasião necessária - mas sem alardes."

De Guilherme da Costa Carvalho, transcreve o postal de 18/07/1972, com carimbo de Paris, que este lhe mandou a  pedir para informar o cunhado Ilídio Esteves que "tudo me tem corrido bem", "que tenho pensado nele com o afecto e o respeito que mutuamente nos une, que não o esqueço", embora refira que, quanto ao seu estado de saúde, "o mal é mais extenso do que supunha pois são os dois pulmões que estão igualmente atingidos, e eu pensava ser só o direito. Tenhamos paciência."

Do seu percurso de Advogada, sobressai as intervenções no âmbito Direito de Família, Direito Criminal e de defesa de presos políticos, sendo que "os contactos com as polícias eram desgastantes [...] exigindo serenidade, espírito de observação, rapidez de reflexos mentais, memorização, domínio total sobre si próprio". Participou em Novembro de 1972, no 1.º Congresso Nacional dos Advogados, e manteve colaboração na imprensa, com textos jurídicos: assinou, como Dra. Luz Pinheiro, a rubrica "A Mulher e o Direito" no Jornal Magazine da Mulher, dirigido por Lília da Fonseca; e manteve na revista Modas e Bordados e, posteriormente, na revista Mulheres, a secção "A mulher e a lei", com alguns percalços nestas duas últimas publicações. Colaborou ainda no Diário de Lisboa e no Notícias da Amadora.

Mas Laura Lopes foi também professora, tendo sido afastada do ensino por motivos políticos em 1966, quando leccionava na Escola Comercial e Industrial de Emídio Navarro. Reintegrada no ensino depois de 1974, após um processo atribulado, acabaria por se aposentar enquanto professora, aos 70 anos.

No entanto, e como não podia deixar de ser, parte substancial do livro é dedicado à sua intervenção nas organizações, nacionais e internacionais, em defesa da Paz, disso dando pormenorizado relato baseado em avultada documentação. Militante convicta da Paz, a sua caminhada iniciou-se em 9 de Abril de 1949 quando, numa iniciativa do MUD Juvenil, se decidiu colocar junto ao Monumento dos Mortos da Grande Guerra um pequeno cartaz com a frase "A Juventude luta pela Paz": Laura Lopes foi a escolhida para representar a Faculdade de Direito, tendo sido a única a concretizar o decidido entre os jovens de todas as universidades.

Depois, em 1950, interveio na recolha de assinaturas a favor do Apelo de Estocolmo; representou o Portugal antifascista nas reuniões internacionais da Paz, com destaque para o Congresso dos Povos para a Paz, realizado em Dezembro de 1952, em Viena, onde participou ao lado de Manuel Valadares e de Vasco Cabral, e esteve na fundação do Conselho Português para a Paz e Cooperação, este constituído já depois de 1974.

Através dos movimentos da e pela Paz, é dada atenção, até com alguma minúcia, ao percurso de Maria Lamas, e a Manuel Valadares, a Vasco Cabral, a Silas Cerqueira e a Vasco de Magalhães Vilhena, entre outros membros de delegações portuguesas a reuniões internacionais.

Laura Lopes, que nunca teve televisão, deixa-nos um testemunho que não é neutro, nem isso ela pretende, que merece ser lido enquanto relato de vida de uma mulher que, desde muito nova, se assumiu como cidadã do seu país e do mundo e enquanto documento histórico de parte do século XX, sobretudo da sua segunda metade.