[Cipriano Dourado]

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[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

[2618.] ILSE LIEBLICH LOSA [II] || POEMA PARA MEU IRMÃO (1951)

 * ILSE LIEBLICH LOSA *

[20/03/1913 - 06/01/2006]

[Ilse Losa]

"Pensava em meu irmão" 

(1951)

Ilse Lieblich Losa nunca abdicou da sua condição de cidadã atenta e interventiva, quer na Alemanha nazi, na Inglaterra antissemita do início da década de 30 ou no Portugal salazarista, salazarento e fascista.  

Tomou, sem subterfúgios, partido em sociedades silenciadas, acarretando dissabores e enfrentando temores que não podem, nem devem, ser desvalorizados na contextualização global da sua obra.

Obrigada ao exílio, com apenas 21 anos acabados de fazer, desembarcou no Porto em Março de 1934, aí casou, em 1935, com o arquiteto Arménio Taveira Losa [Braga, 28/10/1908 - Porto, 01/07/1988] e não mais deixou de viver naquela cidade.

Podia ter-se resguardado quanto à exposição pública, cívica e política, tantas eram as experiências terríficas vivenciadas na sua Alemanha. Embora não deixasse de ser uma “exilada” ou uma “refugiada”, juntamente com o marido, associou-se à luta contra a Ditadura e foi rigorosamente vigiada, durante quatro décadas, pela PVDE (1933-1945), pela PIDE (1945-1969) e pela DGS (1969-1974).

Em 1939, o irmão Ernst, em fuga da Itália fascista, chegou a estar encarcerado cerca de quinze meses por, a partir de 1938, o governo português permitir a permanência dos refugiados por, apenas, três meses. Caso nesse espaço de tempo não obtivessem visto de saída, "eram expulsos ou detidos e, a partir de 1942, concentrados em Caldas da Rainha".

Ernst Lieblich, apenas um ano mais novo que a irmã, foi preso uma primeira vez em 18 de novembro, para averiguações, passando pela 1.ª Esquadra e Aljube; libertado em 7 de fevereiro de 1940, seria preso uma segunda vez, em 8 de março, “por ter sido notificado a abandonar o País e não o ter feito”, transitando, até 10 de fevereiro de 1941, entre a 1.ª Esquadra, Caxias e Aljube, até obter um visto de entrada nos Estados Unidos da América.

Talvez por isso, Ilse Losa tenha escrito o quase desconhecido poema “Pensava em meu irmão”, incluído em Grades Brancas, livro publicado em 1951, tendo por ilustrador Júlio Pomar, e que nunca quis reeditar:

«Quando a luz tímida anunciava o novo dia, pensava em meu irmão.

Imaginava-o a olhar o nascer do sol através do postigo gradeado.

Parecia-me vê-lo estremecer ao lembrar-se do tormento que o esperava.

E eu sabia que os seus olhos escuros estavam cheios de

tristeza e de saudade.

 

Quando à hora do almoço me juntava aos meus na nossa casa, 

pensava em meu irmão. Imaginava-o dobrado sobre a tigela grossa, 

comendo o magro rancho sem gosto. Parecia-me ouvir o berro brutal

do guarda para que ele se apressasse. E eu sabia que as suas mãos 

largas se fechavam num gesto de revolta.

 

Quando à tardinha a chama da lareira nos aquecia amigavelmente,

pensava em meu irmão. Imaginava-o arrepiado de frio na cela 

sombria e gelada. Parecia-me ver o seu rosto pálido, as mãos que

o ar áspero e cortante tornara rígidas. E eu sabia que cerrava os

dentes para não gritar o seu ódio surdo.

 

Quando na noite negra e triste estava estendido no leito, pensava

em meu irmão. Imaginava-o na tábua húmida e dura, que não 

dava descanso ao seu corpo dorido. Parecia-me que o meu quarto se

enchia dos gemidos abafados nas mãos regeladas. E eu sabia que as

suas lágrimas quentes caíam amargamente como as minhas.

 

E, pela noite lúgubre, comunicava-lhe: «Sê forte, meu irmão! Não

tarda que as nossas mãos se unam de novo! Não tarde que o sol se

levante também para ti e que as tuas lágrimas se acabem. Hás-de

viver, irmão!»

 

Os meus pensamentos, penetrando a noite escura, alcançavam

meu irmão; fechavam-lhe os olhos ardentes como uma mão subtil

e fresca. E então o sonho, com as imagens de tempos idos, envolvia

no seu manto caridoso, por umas curtas horas, meu pobre irmão.»

[Ilse Losa, Grades Brancas (poemas em prosa). 1951. Lisboa: Centro Bibliográfico – Cancioneiro Geral, pp. 23-25]

Manteve, sempre, intensa e arriscada participação cívica, sozinha ou com Arménio Losa, enfileirando, a partir dos anos 40, nos movimentos de oposição ao Estado Novo, nome com que a Ditadura se baptizou a partir de 1933, constando, em 1970, no grupo fundador da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP).

[João Esteves]

quarta-feira, 4 de março de 2020

[2299.] ILSE LOSA || À FLOR DO TEMPO (CRÓNICAS) - 1997

* ILSE LOSA || À FLOR DO TEMPO (CRÓNICAS) *

Edições Afrontamento ||1997

Posfácio: Américo Oliveira Santos





[Ilse Losa || À Flor do Tempo || 1997]

terça-feira, 3 de março de 2020

[2298.] ILSE LOSA || ANA ISABEL MARQUES - 2014

* AS TRADUÇÕES DE ILSE LOSA NO PERÍODO DO ESTADO NOVO. MEDIAÇÃO CULTURAL E PROJECÇÃO IDENTITÁRIA *

ANA ISABEL MARQUES 

MinervaCoimbra || Centro de Investigação em Estudos Germanísticos

Coimbra || 2014






[Ana Isabel Marques || As traduções de Ilse Losa no período do Estado novo. Mediação cultural e projecção identitária || MinervaCoimbra - Centro de Investigação em Estudos Germanísticos || 2014]

domingo, 1 de março de 2020

[2297.] ILSE LOSA || CORRESPONDÊNCIA 1948 - 1999

* ILSE LOSA: ESTREITANDO LAÇOS. CORRESPONDÊNCIA COM OS PARES LUSÓFONOS (1948- 1999) *

Organizadora: Karina Marques

Capa: Retrato de Ilse Losa por Júlio Pomar

Edições Afrontamento || Março de 2018

«398 cartas, cartões e documentos anexos, escritos em português, cobrindo um período de mais de meio século (1948 - 1999)» || «74 intelectuais constituem o conjunto dos seus correspondentes principais» [in Apresentação, Karina Marques]



[Ilse Losa: estreitando laços. correspondência com os pares lusófonos (194-1999) || Edições Afrontamento || 2018]

terça-feira, 17 de junho de 2014

[0667.] ILSE LOSA [I] || 1913 - 2006

* ILSE LIEBLICH LOSA * 
[20/03/1913 - 06/01/2006]

[20/03/1913 - 06/01/2006]
Escritora. 

Filha de Josef Lieblich (f. 1930) e de  Hedwig Hirsch (f. 1936), nasceu em Melle-Buer, Osnabrück, e faleceu no Porto a 6 de Janeiro de 2006, com 92 anos de idade. 

Frequentou o liceu em Osnabrück e Hildesheim, um instituto comercial em Hanôver e em 1930, ano do falecimento do pai, partiu para Inglaterra, onde tomou conta de crianças. 

Regressou à Alemanha, mas devido à origem judaica e às perseguições nazis que recaíam sobre si e a família, estando prestes a ser detida em virtude de críticas a Hitler, abandonou-a, situação recriada na obra O mundo em que vivi

Em Março de 1934, com vinte e um anos, refugiou-se em Portugal, na cidade do Porto, onde o irmão mais velho, Fritz Lieblich, já residia. 

Casou, no ano seguinte, com o arquitecto Arménio Taveira Losa [1908-1988], adquirindo a nacionalidade portuguesa. Não mais deixou de viver no Porto até morrer. 

Enquanto escritora, recebeu em 1984 o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens pelo conjunto da obra. 

Colaborou em diversos jornais e revistas – Colóquio/Letras, O Comércio do Porto, O Diabo, Diário de Notícias, Gazeta Musical e de Todas as Artes, Jornal de Letras, Jornal de Notícias, Portucale, Público (1990-1992), Seara Nova, Vértice –, sendo-lhe atribuído, em 1998, o Grande Prémio da Crónica pela Associação Portuguesa de Escritores/Câmara Municipal de Beja pela obra À flor do tempo. 

Traduziu para português escritores e autores de língua alemã, como Adolf Himmel, Anna Seghers, Anne Frank, Bertholt Brecht, Erich Kastner e Max Frisch e para alemão  autores nacionais. 

Com Óscar Lopes [02.10.1917-22.03.2013], um dos primeiros estudiosos a chamar a atenção para a relevância da sua primeira obra, organizou uma antologia da moderna lírica portuguesa (Berlim, 1969). 

Para além da sua faceta de escritora, Ilse Losa manteve com o marido relevante participação cívica, enfileirando, a partir dos anos 40, nos movimentos de oposição ao salazarismo. 

Como refere Ana Isabel Marques, tal acarretou vigilância policial regular pela PIDE/DGS, a qual não pôde “deixar de se reflectir na sua actividade literária, uma vez que dificilmente esta estaria imune aos mecanismos de autocensura” [Ana Isabel Marques, As traduções de Ilse Losa no período do Estado Novo: mediação cultural e projecção identitária, Tese de Doutoramento em Línguas e Literaturas Modernas, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2009, p. 4]. 

Finda a II Guerra Mundial, integrou a Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, com o número de sócia n.º 243, onde foi 1.ª Vogal da Direcção de 1947-1948, presidida por Maria Branca Lemos, e participou em diversas actividades associativas [Lúcia Serralheiro, Mulheres em Grupo Contra a Corrente, Evolua Edições, 2011]. 

Proferiu pequenas palestras dirigidas às sócias, versando sobre “Impressões de uma viagem a Inglaterra”, “Aspectos da vida da Alemanha entre as duas guerras” e “Ornamentação do lar” [Lúcia Serralheiro, p. 121]. 

Também colaborou no Boletim da AFPP com vários textos, nomeadamente “O primeiro passeio”, extracto do romance Eclipse, ainda não editado, e os seus escritos mereceram igualmente menção: Matilde Rosa Araújo publicou uma recensão ao livro O Mundo em que Vivi e foi feita referência à edição, em 1951, do livro de poesias Grades Brancas

Nas três décadas seguintes, continuou associada aos grupos oposicionistas da cidade do Porto e destacou-se no âmbito da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos [Ana Isabel Marques, 2009, pp. 76-87]. Fez parte da direcção e subscreveu diversos documentos em defesa das condições dos presos e exigindo a sua libertação [CNSPP, Presos Políticos – Documentos 1970-1971]. 

Salientem-se os dois exaustivos trabalhos académicos que Ana Isabel Marques dedicou a Ilse Losa e que importa serem persperscrutados, não só pelas muitas e inéditas informações contidas e reconstrução biográfica, como por proporcionarem um novo olhar sobre a sua obra, libertando-a da quase exclusiva, e muito redutora, associação à literatura para os mais novos: Paisagens da Memória - Identidade e Alteridade na Escrita de Ilse Losa e As traduções de Ilse Losa no período do Estado Novo: mediação cultural e projecção identitária.  

[J. E., "Ilse Lieblich Losa", Feminae. Dicionário Contemporâneo, Lisboa, CIG, 2013]

domingo, 13 de abril de 2014

[0585.] FEMINAE [XXIII] || LETRA I

* FEMINAE || I *


0420. Ida Mary Knatchbull Kingsbury 
0421. Ilda Cardoso
0422. Ilda Ferreira 
0423. Ilda Silva
0424. Ilda Stichini
0425. Ilídia Adelaide Duarte Ribeiro 
0426. Ilse Lieblich Losa 
Ilse Losa - v. Ilse Lieblich Losa
0427. Imagens da Mulher na Literatura Portuguesa Oitocentista de Almeida Garrett e Eça de Queirós
0428. Imagens de mulheres nos manuais escolares de História
0429. Inês da Conceição Conde
0430. Inês Maria de Azevedo e Silva
0431. Inez Ernestine Johnston
0432. Infanta D. Isabel Maria
0433. Instituto Monsenhor Airosa
Institutos Secundários Femininos - v. Liceus Secundários Femininos em Portugal (1888-1906)
International Home - v. Lar Internacional de Lisboa
Intervenção Feminina - v. Associações de Mulheres nas décadas de 70
e 80 do século XX
0434. Irene Bártolo Russell
Irene de Vasconcelos - v. Irene dos Anjos Brito de Vasconcelos
0435. Irene dos Anjos Brito de Vasconcelos
0436. Irene Gouveia
Irmã Lúcia - v. Lúcia de Jesus dos Santos
Isabel Berardi - v. Maria Isabel de Oliveira Berardi
Isabel de Oliveira - v. Maria Isabel da Costa Oliveira
0437. Isabel Leite 
Isabel Maria da Conceição Joana Gualberta Ana Fran-cisca de Assis Xavier de Paula d’Alcântara Antónia Rafaela Micaela Gabriela Joaquina Gonzaga de Bragança e Borbón - v. Infanta D. Isabel Maria
0438. Isabel Marques
Isabel Pimentel - v. Maria Isabel Cortez Pinto Pimentel
0439. Isabel Rogali
Isabel Taínha - v. Maria Isabel da Costa Oliveira
0440. Isaura Ferreira
0441. Isaura Pena
0442. Isaura Rocha
0443. Isménia dos Santos 
0444. Ivone Conceição Dias Lourenço
0445. Isolina Coelho da Silva
Ivone Silva - v. Maria Ivone Silva Nunes