[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

domingo, 21 de fevereiro de 2021

[2508.] FEMINISMO || O REBATE - 25/11/1927

 * FEMINISMO *

O REBATE || 25/11/1927 || "FEMINISMO"

[O Rebate || 25/11/1927 || p. 1, col. 1]

[João Esteves]

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

[2487.] FEMINISMO || NELLY ROUSSEL - 18/05/1906

 * FEMINISMO *

NELLY ROUSSEL || 18/05/1906

[Nelly Roussel || 05/01/1878 - 18/12/1922]

No dia em que se realiza na Sociedade de Geografia de Lisboa a sessão solene de apresentação da Secção Feminista da Liga Portuguesa da Paz, o jornal Vanguarda publica, na 1.ª página, a opinião da livre-pensadora, feminista e anarquista francesa Nelly Roussel [1878 - 1922] sobre o que entendia por "Feminismo".

[Vanguarda || 18 de Maio de 1906]

[João Esteves]

[2486.] FEMINISMO || FERNÃO BOTTO MACHADO - 18/05/1906

 * FEMINISMO *

FERNÃO BOTTO MACHADO || 18/05/1906

[Fernão Botto Machado || Álbum Republicano || 1908]

No dia em que se realiza na Sociedade de Geografia de Lisboa a sessão solene de apresentação da Secção Feminista da Liga Portuguesa da Paz, o jornal Vanguarda publica, na 1.ª página, a opinião de Fernão Botto Machado sobre o que entende por "Feminismo".

[Vanguarda || 18 de Maio de 1906]

[João Esteves]

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

[2485.] CONGRESSO FEMINISTA DE COPENHAGUE || "JORNAL DA MULHER" - 25/08/1906

* CONGRESSO FEMINISTA DE COPENHAGUE *

"JORNAL DA MULHER" || 25/08/1906

O “Jornal da Mulher” [O Mundo, p. 4, cols. 1-2] pronuncia-se sobre o Congresso de Copenhague, organizado pela International Woman Suffrage Alliance e presidido por Carrie Chapman-Catt, constatando que os «relatórios oficiais do escritório da Aliança e das Sociedades filiais mostram-nos o progresso que foi feito nos últimos tempos, progresso imenso quando se compara com o que foi possível fazer outrora, mas que deixa ainda o ideal feminista longe do fim que visa alcançar.» Relembra também a passagem por Lisboa de Madame Gabrielle Alphen-Salvador [1856 - 1920]: 

«A Associação internacional do Sufrágio das Mulheres, realizou um congresso em Copenhague, do dia 6 a 11 de Agosto, presidido por Carrie Chapman Catt. // Muitos países se esperava que se fizessem representar neste congresso. A América, a Inglaterra, a Alemanha, a Austrália, o Canadá, a Finlândia, a Holanda, a Hungria, a Itália, a Suíça, a Noruega, a Suécia, a Rússia, etc., enviaram delegados para pedirem em nome de todas as mulheres o direito de voto. // A «Aliança» publicou já um programa provisório que nos permite avaliar a importância das questões que deviam ter sido postas na ordem do dia. // Os relatórios oficiais do escritório da Aliança e das Sociedades filiais mostram-nos o progresso que foi feito nos últimos tempos, progresso imenso quando se compara com o que foi possível fazer outrora, mas que deixa ainda o ideal feminista longe do fim que visa alcançar. // Para conseguir esse «desideratum» é necessário que os esforços de todas as mulheres se liguem na mesma comunhão de princípios. // A Aliança exercerá certamente uma grande influência, porque não é possível que tantas mulheres notáveis, agrupadas para obter um direito que é indiscutivelmente justo, não impressionem em seu favor todos os que não estão irrevogavelmente cegos pelos perniciosos preconceitos do passado. // O movimento feminista de França enviou a Copenhague uma delegação composta de madame Vincent, madame Deflou, madame Maria Martin e madame Bertou.»

 [O Mundo, 25/08/1906, p. 4, cols. 1-2]

[O Mundo || 25/08/1906]

[João Esteves]

[2483.] POLÉMICA MARIA VELEDA / VIRGÍNIA QUARESMA [IV] || 10/08/1906

 * POLÉMICA MARIA VELEDA / VIRGÍNIA QUARESMA, A PROPÓSITO DO "JORNAL DA MULHER" *

MARIA VELEDA || 10/08/1906

Maria Veleda encerra a polémica com Virgínia Quaresma através de uma “Carta aberta” dirigida ao director da Vanguarda

«Carta aberta

Vejo com desprazer que a ex.ma sr.ª D. Virgínia Quaresma se obstina em hostilizar-me. // Entre outras coisas, diz sua excelência, “que não sei discutir”... É possível. Pelo menos, com a sr.ª D. Virgínia Quaresma não sei fazê-lo, porque acho deprimente, para nós ambas, que nos digladiemos com epítetos injuriosos, como aqueles com que sua excelência me tem brindado, e que a eu entendo não dever responder.

Que sei discutir, demonstrei-o, reptando a sr.ª D. Virgínia Quaresma a provar como e quando tivesse eu agredido a Liga Portuguesa da paz. Mas, a sr.ª D. Virgínia, que me apoda de “comodista” entendeu que era mais “cómodo” para si, injuriar-me e não levantar a luva que lhe lancei.

Lamento que as réplicas de sua excelência, sigam sempre, tão de espaço, os meus artigos modestíssimos. No entanto, se a opinião pública quiser julgar uma causa tão frívola, decerto me não condenará – porque em toda esta deplorável questiúncula nunca desci ao doesto, à insídia nem à calúnia.

Se sua excelência esperava que eu continuasse a discutir o ‘Jornal da Mulher’, enganou-se. Em primeiro lugar – repito o que já afirmei noutro artigo – eu nunca pretendi hostilizar aquela secção do ‘Mundo’ nem a sua directora. Fez umas apreciações, que, parece, foram descabidas. Não mudei de opinião; mas, entendo, que não devo insistir, desde que a minha desaprovação levanta tamanha celeuma e provoca tanta inimizade.

Tudo quanto não é útil é inútil; e tudo quanto é inútil deve banir-se. Assim, prefiro retirar-me da arena vencida, mas não convencida. E – vencida – porque não sei combater com armas desiguais – porque não quero nem sei injuriar.

Posto isto, resta-me agradecer a vossa excelência, ex.mo sr. Director da ‘Vanguarda’, a sua generosidade, mais uma vez evidenciada, consentindo nas colunas do seu apreciável jornal, polémicas estranhas à sublime causa por que vossa excelência tão nobremente se devota. É quase um crime de leso-patriotismo, isto de entreter-se alguém, na imprensa, com discussões estéreis e desvaliosas. Disso me penitencio, pedindo a vossa excelência mil desculpas, com a afirmação do meu perdurável reconhecimento.

Com ilimitada consideração – de v. ex.ª

Maria Veleda.» 

[Vanguarda, 10/08/1906]

[Vanguarda || 10/08/1906]

[João Esteves]

[2482.] FEMINISMO || "JORNAL DA MULHER" - 08/08/1906

 * FEMINISMO *

"JORNAL DA MULHER" || 08/08/1906

Texto do “Jornal da Mulher” [O Mundo] sobre “Feminismo - Os direitos da mulher”:

«Feminismo - Os direitos da mulher

Já tivemos ensejo de provar, com dados históricos, num artigo feminista que recentemente publicámos, que o feminismo tem acompanhado, intimamente, todos os grandes impulsos de evolução social, e que nunca se pensa numa reivindicação de direitos democráticos que não se atenda à grave questão dos direitos e interesses da mulher.

O que se infere, portanto, logicamente disto? Que o feminismo, tal como deve ser compreendido e tratado, é um produto natural da civilização, das altas aspirações intelectuais e morais que a humanidade lentamente se esforça por concretizar e que a sua vitalidade, portanto, obedecendo a leis orgânicas, há-de acabar por vir a ser uma verdade evidente para todos os espíritos e uma necessidade eficaz para todos os meios sociais.

A França na nova câmara que organizou há dias, impôs-se uma grande obra democrática e social e, imediatamente, como parte integrante no seu programa, assim concisamente expresso nesta divisa, se alvitrou o lugar importante que nele devia ter a defesa dos direitos da mulher.

Foram os próprios deputados do actual governo que vieram para a imprensa sustentá-la.

Mostraram, energicamente, o direito que lhe assiste em dispor o seu salário, de forma que não continue a dizer-se, hoje, como Stuart Mill o proclamou cheio de indignação: “O casamento é presentemente a única escravatura reconhecida pela lei”. Discutiram, com entusiasmo, a sua situação económica e social, provando o direito e a necessidade que tem em se indicar e angariar meios de subsistência, em condições similares às do homem.

Declaram que é uma honra para a república democrática francesa interessar-se e defender os problemas feministas, como merecem.

E o “Grupo parlamentar de defesa dos direitos da mulher” termina por dizer: “Seremos felizes se não se puder continuar a dizer que os homens fazem as leis unicamente para si. Em democracia é preciso que se façam para todos, sobretudo, para vós, minhas senhoras, que há tanto tempo estais a obedecer e a sofrer”.

São estas as palavras proferidas pelos membros dum governo que se diz democrático, liberal e justo. Poderíamos agora perguntar, oportunamente, em nome da liberdade, da democracia e da justiça que o novo governo português traça, em caracteres berrantes, nos seus cartazes de recomendação, se já alguma vez pensou em estudar e defender a grave e desgraçada situação da mulher portuguesa?

Não pensou nem se tem lembrado dela no seu programa e o motivo é simples: - não pode contar com o seu concurso para os actos eleitorais e, portanto, seria supérfluo o trabalho de a deslumbrar com um engodo...». 

[O Mundo, 08/08/1906]

[O Mundo || 08/08/1906]

[João Esteves]

[2478.] FEMINISMO || "JORNAL DA MULHER" - 04/07/1906

 * FEMINISMO *

"JORNAL DA MULHER" || 04/07/1906

O “Jornal da Mulher” escreve sobre “O feminismo na Inglaterra e na França” [O Mundo, 04/07/1906], constatando que as «aspirações da mulher portuguesa na esfera política são ainda completamente desconhecidas ou porque o receio de serem ridicularizadas lhas sufoca ou, ainda, porque a educação atrofiada em ideias e em conhecimentos que vulgarmente lhe dão, não permite que ela possa ambicionar mais da sociedade em que vive do que ser um instrumento de prazer ou um objecto de luxo para satisfazer a vaidade do homem.»

«O feminismo na Inglaterra e na França

As aspirações da mulher portuguesa na esfera política são ainda completamente desconhecidas ou porque o receio de serem ridicularizadas lhas sufoca ou, ainda, porque a educação atrofiada em ideias e em conhecimentos que vulgarmente lhe dão, não permite que ela possa ambicionar mais da sociedade em que vive do que ser um instrumento de prazer ou um objecto de luxo para satisfazer a vaidade do homem.

Sempre, portanto, que tivermos de falar do movimento feminista na política, teremos de fazer uma agradável digressão por países em que o engrandecimento e o prestígio intelectual estão em condições próprias de a mulher poder pensar alto, de licitamente proclamar a sua capacidade e os seus direitos e de abraçar o Ideal de altos destinos sociais.

Na actualidade dois países de notável importância na civilização europeia estão tratando, com grande interesse e entusiasmo, das reivindicações políticas da mulher. Referimo-nos à Inglaterra e à França, tão agitadas ultimamente com  manifestações feministas.

[...].»

 [O Mundo, 04/07/1906]

[O Mundo || 04/07/1906]

[João Esteves]

[2477.] FEMINISMO || VANGUARDA - 24/06/1906

 * FEMINISMO *

VANGUARDA || 24/06/1906

[Vanguarda || 24/06/1906]

domingo, 31 de janeiro de 2021

[2474.] MARIA OLGA DE MORAIS SARMENTO DA SILVEIRA [IV] || 22/06/1906

 * MARIA OLGA DE MORAIS SARMENTO DA SILVEIRA *

[Maria Olga de Morais Sarmento da Silveira]

O jornal Vanguarda de 22 de Junho de 1906 dá destaque de 1.ª página à edição da conferência de Olga de Morais Sarmento, intitulada o Problema Feminista, proferida no dia 18 de Maio de 1906, aquando da sessão solene de apresentação da Secção Feminista da Liga Portuguesa da Paz. 

[Vanguarda || 22 de Junho de 1906]

[João Esteves]

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

[1175.] FEMINISMO || "JORNAL DA MULHER" - 07/07/1906

* FEMINISMO *

"JORNAL DA MULHER" || 07/07/1906

O “Jornal da Mulher” [O Mundo], de 7 de Julho de 1906 continua a pronunciar-se sobre o “Feminismo”:

«Feminismo

I
Por uma dessas aberrações do entendimento dos homens nunca se pensou até agora em preparar as mulheres para o seu mister de mães de família.

A maior parte dos homens entendem que toda a mulher medianamente inteligente sabe, como por instinto, executar facilmente os trabalhos do lar doméstico e que portanto não é preciso ensinar-lhos.

É um grande erro. O governo da casa carece de ensino, como qualquer outra coisa. Além disso os espíritos reflectidos sabem que nada se aprende sem esforço e sem método.

Algumas pessoas, é verdade, têm por si próprias chegado a possuir uma certa habilidade nos trabalhos domésticos, mas, para conseguirem isso, quanto tempo perdido, quantas dificuldades vencidas.!

É de um grande alcance social a questão culinária. 

Se é verdade que a questão social é, antes de tudo, uma questão de estômago, está claro que há dias aqui fizemos, pedindo para a mulher que trabalha um salário normal e remunerador, é unicamente um dos pólos magnéticos da questão. O outro pólo consiste na ciência e arte de utilizar o salário.

Para o homem a dificuldade de ganhar a vida deveria encontrar o seu contrapeso na habilidade da mulher em empregar os recursos com acerto, método e economia.

Seria de uma grande vantagem para a sociedade que os serviços de administração e de intendência fossem reservados à mulher, mas com a condição de lhos retribuírem.

Umas das reformas mais justas e que deveriam ser introduzidas nos costumes e nas leis, seria o princípio da remuneração dos serviços domésticos. As nossas estatísticas oficiais estabelecem hoje, em toda a parte, que um terço do mundo operário se compõe de mulheres. Ora deveriam mais que dobrar esse número. Não cometem os homens uma grande injustiça para com o sexo feminino, considerando inocupados os milhões de mulheres absorvidas pelos trabalhos domésticos? Os cuidados caseiros e a educação dos filhos são funções indispensáveis à ordem social e requerem um trabalho sério e esforços persistentes. Todo o trabalho merece salário. Quando as nossas criadas recebem um ordenado remunerador, pelo contrário, a esposa, a dona da casa, que trata o homem, cuida do lar, gera, amamenta e educa os filhos, não recebe retribuição algum em troca de todos esses inapreciáveis serviços! A solução consistiria em fundar a união conjugal, no ponto de vista dos interesses materiais, sobre as mesmas bases que as nossas sociedades comerciais e em estabelecer uma liquidação periódica do excedente disponível dos recursos. Esse excedente seria dividido entre os esposos em partes iguais, ou em quotas partes, cujo quantum respectivo seria fixado nas convenções matrimoniais.

(Continua).» 


[O Mundo || 7 de Julho de 1906]

[João Esteves]

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

[1163.] FEMINISMO || "JORNAL DA MULHER" - 06/07/1906

* FEMINISMO * 

"JORNAL DA MULHER" || 06/07/1906

Texto do “Jornal da Mulher” [O Mundo] acerca do “Feminismo”:

«Feminismo

Porque não se haveria de dar às mulheres uma instrução geral, exactamente igual à que recebem os homens? // A mulher, como membro da humanidade, tem o direito de adquirir os conhecimentos científicos que a habilitem a cumprir os seus deveres humanos. Para que servem essas distinções vãs e arbitrárias, entre a instrução que é dada aos homens e a que tão parcamente é reservada às mulheres. Pode também ser aplicado à mulher o axioma de Terêncio: nada do que é humano pode, em virtude de velhos preconceitos, ser-lhe estranho. Mas ao lado da instrução geral, será necessário criar uma educação feminina especial com um duplo objectivo: a aprendizagem profissional em vista do ganha-pão e a aprendizagem caseira em vista da família. Trata-se de desenvolver a habilidade, os talentos das nossas filhas para que elas possam seguir uma carreira honrosa e remunerada, visto que milhões de mulheres se vêem obrigadas a trabalhar para viver.

Enfim, devemos pensar em preparar seriamente todas as mulheres para a sua missão familiar, porque nas diferentes classes da sociedade toda a mulher tem as maiores probabilidades de vir a ser esposa e mãe.

Aqui se concentra o problema feminista traduzindo-se na conciliação destes dois princípios: o reconhecimento da liberdade do trabalho para todas as mulheres e o cumprimento dos deveres domésticos que são impostos à maior parte delas.

Certa escola social pretende que, a título de beneficiar o lar doméstico se recuse à mulher o direito ao trabalho. Bonita moral que sob o pretexto de restituir as mulheres à família, poderia atirá-las à miséria e à perdição.

Não o esqueçamos nunca, a vida social e mesmo a natureza criaram uma estratificação de interesses, de necessidades e de funções. Já antes de ser esposa e mãe a mulher é um ser humano com individualidade própria. Como todo o ser físico, ela sente a necessidade da conservação, a primeira e a mais imperiosa das necessidades.

O interesse social exige que a mulher seja educada de modo que possa, pelo seu trabalho, obter os recursos necessários à vida. Na realidade é bem triste para a inteligência humana, que no estado actual da nossa civilização, haja homens que contestem um princípio de uma tão elementar justiça.

O trabalho das mulheres, longe de ser incompatível com os interesses domésticos, concilia-se pelo contrário com eles, porque é para a mulher uma fonte de dignidade, e para todos os lares um elemento de força moral e uma poderosa garantia de segurança.

Além disso, há causas múltiplas, factores de uma inevitável evolução social, que impuseram às mulheres a fatal necessidade do trabalho. O industrialismo com as suas forças motoras, suas máquinas e seus capitais absorvem as indústrias domésticas do passado. Por outro lado a educação dos filhos deixou de ser nas famílias uma ocupação absorvente. Com o alargamento e socialização do serviço de ensino diminuiu a importância e o peso das responsabilidades maternais. Enfim, a estatística prova que nas sociedades condenadas há milhões de mulheres condenadas ao celibato.

Esses milhões de mulheres excluídas da vida conjugal e privadas para todo o sempre do que se costuma chamar o apoio do homem, devem ter o direito de, pelo seu trabalho, prover às necessidades da vida.

Mostra-nos a estatística, com o rigor dos algarismos que nos países civilizados a parte da actividade feminina na produção representa um terço da mão de obra total. Donde se vê a utilidade de tornar a mulher independente e apta a obter pelo trabalho os meios de subsistência. O que não obsta a que todas as mulheres devam ser iniciadas na ciência do governo doméstico. Enquanto cursam a escola, nenhuma mulher pode prever se o futuro lhe reserva os encargos do lar ou se pelo contrário lhe virá a impor os deveres do trabalho fora de casa.» 


[O Mundo || 06/07/1906]

[João Esteves]

domingo, 8 de novembro de 2015

[1159.] FEMINISMO || "JORNAL DA MULHER" - 30/06/1906

* FEMINISMO *

"JORNAL DA MULHER" || 30/06/1906 


O “Jornal da Mulher” [O Mundo], de 30 de Junho de 1906, tece novas considerações sobre o feminismo:

«Feminismo

Pelos fins do século XIX produziu-se em toda a parte um movimento prodigioso em favor da igualdade dos sexos. Falava-se com razão em alargar o campo de actividade e aumentar a esfera de influência do sexo feminino, com razão também os reformadores procuraram cultivar a inteligência e as faculdades femininas por uma educação mais séria, despida dos preconceitos e das frivolidades do passado.

Nas incertezas e arrebatamentos dessas lutas novas, alguns feministas e seus adversários deixaram-se arrastar a lastimáveis exageros. Mulheres houve que pregaram a guerra dos sexos e pretenderam a libertação plena de toda a influência masculina, sonhando não sei que aberração da natureza, em virtude da qual a mulher, independente e livre, dispensaria a sua solidariedade com o homem no complicado problema da actividade social.

Logo os homens responderam por uma formal oposição: para eles o ideal era manter a ordem de coisas estabelecidas e a actividade do sexo feminino deveria ficar reduzida à preocupação dos trabalhos caseiros. Nem uns nem outros tinham razão, porque a solução deste problema social tem de ser, como sempre, conciliatória e intermédia.

É um grande erro, com efeito, o quererem pôr em oposição os interesses da mulher e os do homem, ou mesmo procurar separá-los. Longe de estar em oposição ligam-se estreitamente esses interesses, ainda que aparentemente distintos. Sem dúvida, cada ser humano, mulher ou homem, deve ser considerado como uma entidade, com o seu valor próprio e a sua dignidade integral. A mulher que, pelo mesmo título que o homem, é um ser humano, consciente e livre, possui  por natureza os atributos da personalidade. // Mas o ser humano não é uma entidade isolada, é também e sobretudo um ser sociável. Ora a ordem natural e social tem por unidade e base o par humano, a harmonia dos sexos, condição essencial da persistência das sociedades, pela transmissão da vida individual. E assim é que a família monogâmica logrou realizar sobre a terra o mais nobre ideal dos interesses e dos afectos, na esfera da afectividade humana a família avulta como unidade e trindade social indispensável, formada pela união e solidariedade de três entes: o homem ou pai, a mulher ou mãe e a criança, o filho, que ambos têm de educar para a perpetuação da sociedade.

Daí o absurdo de querer separar os interesses das duas fracções da humanidade, em vez de mais e melhor para aproximá-los para os fundir no bem geral. Esse erro tem uma causa inicial que subsiste e se tem perpetuado no decorrer dos séculos. Os preconceitos do homem levaram-no a educar cada sexo, tendo em mira o exclusivo interesse masculino, quando a natureza e as tendências da sociedade exigem que os dois sexos, por terem na vida um fim e um ideal comuns, sejam desde a infância educados juntamente, um para o outro e um pelo o outro, visando sempre a utilidade geral e a perfectibilidade social.

A educação da mulher deve ser apropriada e adequada aos fins diversos que as condições sociais e as circunstâncias da vida lhe podem destinar.

Os educadores deveriam sempre considerar a mulher sob estes três aspectos: - ela é um ente humano; irmã e companheira do homem, na actividade social pode ser uma artista, uma operária; e na maioria dos casos está destinada a ser esposa e mãe. Todos os programas de educação feminina deveriam por conseguinte ser concebidos inspirando-se nesta trilogia.»

[O Mundo, 30/06/1906] 


[O Mundo || 30/06/1906]

[João Esteves]

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

[1152.] FEMINISMO || JORNAL DA MULHER - 26/06/1906

* "JORNAL DA MULHER" || 26/06/1906 *

O “Jornal da Mulher”, de 26 de Junho de 1906, continuou a tecer considerações sobre o feminismo:

«Feminismo
II

A actividade comercial, industrial e artística da mulher desenvolveu-se consideravelmente nestes últimos dez anos.

As professoras de música, de pintura, etc., aumentam de ano para ano em toda a parte.

Mas se o número das mulheres que trabalham aumenta, o seu salário não segue a mesma progressão: o salário da mulher ainda que tenha aumentado notavelmente, é muito inferior ao do homem.

Visto que a mulher tem de procurar trabalho quando é insuficiente o ganho do marido, este deveria compreender que é de seu interesse que a mulher, para um trabalho igual ao dele, tenha igual salário. Não deveria criar-lhe dificuldades. Pelo contrário.

Um degrau mais acima na sociedade, por exemplo, nos empregados do comércio e do Estado, a desigualdade é a mesma. Porquê? Por que é que o homem não defende a mulher?

Um outro ponto sobre o qual é preciso ainda insistir, é o seguinte: as mulheres raras vezes atingem posições elevadas, mas isso é sempre devido à má vontade dos homens.

São em grande número as mulheres que desenvolvem actividade comercial ou industrial; mas infelizmente só o fazem nos empregos inferiores.

Não nos parece que seja exagerada a pretensão da mulher a um salário igual ao do homem para um trabalho igual ao dele.

Visto como as mulheres são capazes de desempenhar diversos empregos conforme lhe permitirem as suas faculdades, porque motivo há-de o homem impedi-las de ocupar esses empregos?

Nobilitar a mulher admitindo-a a um trabalho maior e mais perfeito do que aquele que actualmente desempenha, deveria ser uma das grandes aspirações da actual sociedade, de que a mulher representa a parte mais numerosa, mas não a mais feliz.»

 [O Mundo, 26/06/1906] 

[O Mundo || 26/06/1906]

[João Esteves]

[1151.] JORNAL DA MULHER [I] || SECÇÃO DO JORNAL "O MUNDO" - 25/06/1906

* JORNAL DA MULHER * 

25/06/1906

Dirigida pela escritora Albertina de Sousa Paraíso [11/01/1864 - 25/02/1954], inicia-se no diário republicano O Mundo, de 25 de Junho de 1906, a publicação da secção “Jornal da Mulher”, «uma publicação singela e concisa, sem artifícios de forma ou racionalismos metafísicos e que ponha o elemento feminino ao corrente de tudo o que verdadeiramente lhe pode interessar, tanto no seu viver íntimo, no seu santuário doméstico como nas suas relações com o mundo e com a sociedade». A finalidade é «prestar um grande serviço às nossas leitoras, fornecendo-lhes notícias e impressões do movimento das ciências, das letras, da arte e da política, principalmente aquelas em que possamos atribuir à mulher uma parcela de influência e um brado de triunfo» [“Jornal da Mulher”, O Mundo].

Esclarecem-se os objectivos da secção e o feminismo é o primeiro tema abordado:

«Jornal da Mulher
É quase absolutamente desconhecida entre nós a ideia do jornalismo feminino. Em todos os nossos jornais as secções multiplicam-se dia a dia, os alvitres de sensação tendem a tomar proporções assombrosas, toda a nossa imprensa de hoje disputa, finalmente, o direito de ocupar no espírito do público uma supremacia incontestável de interesse e de valor, e, contudo, mantém-se estranha a esse movimento para o qual convergem no estrangeiro um número incalculável de valiosos e simpáticos impulsos – o Jornal da Mulher.

O que vem a ser o Jornal da Mulher? Não será, sem dúvida, necessária uma explicação transcendente e demorada para que os leitores do Mundo o fiquem conhecendo. O Jornal da Mulher, tal como o compreendemos e deve ser compreendido, é uma publicação singela e concisa, sem artifícios de forma ou racionalismos metafísicos e que ponha o elemento feminino ao corrente de tudo o que verdadeiramente lhe pode interessar, tanto no seu viver íntimo, no seu santuário doméstico como nas suas relações com o mundo e com a sociedade.

Pretendemos, assim, prestar um grande serviço às nossas leitoras, fornecendo-lhes notícias e impressões do movimento das ciências, das letras, da arte e da política, principalmente aquelas em que possamos atribuir à mulher uma parcela de influência e um brado de triunfo. Restrito, como é o nosso meio, sob o ponto de vista da evolução social feminina, não poderá ele também ser a maior parte das vezes, o campo deste trabalho diário. Transportar-nos-emos ao estrangeiro, em espírito e em coração, acompanhando, por meio das principais revistas de diferentes nacionalidades, tudo o que, dentro deste domínio, merecer registo.

Mas o nosso programa não se limitará a este âmbito excessivamente feminista para o nosso meio.

No empenho de a todas as mulheres portuguesas poder interessar esta secção, pomos a nossa pena ao serviço das exigências das mais caprichosas, informando-as de assuntos de modas, de regras de savoir vivre, de todos esses pequenos cambiantes, enfim, que constituem o grande tom das sociedades mundanas.

Desejando dar também à ménagère uma carinhosa prova de interesse, falaremos, neste intuito, alternadamente de economia doméstica, de higiene, inseriremos receitas úteis, colocando assim a dona de casa numa atmosfera familiar e amorável.

Na impossibilidade de darmos ao Jornal da Mulher, na sua missão diária, todo o incremento que um tão vasto programa deveria impor, restringiremos todos os assuntos que tratarmos a uma síntese breve e clara, acolhendo, porém, carinhosamente, todos os pedidos de consulta ou de informação que nos sejam dirigidos, e desenvolvendo, em números subsequentes, qualquer assunto que tenha deixado uma impressão mais grata e duradoira. Assim, também receberemos com prazer toda a colaboração feminina de valor que nos seja enviada para esta secção por senhoras; ainda nesta cláusula O Mundo vem obedecer ao amor que o liga ao feminismo português, facultando-lhe, deste modo, a sua entrada e indispensável cooperação nas lides jornalísticas.

Ao encetarmos hoje esta nova secção, esperamos que, assim orientada, não deixará de merecer os aplausos de todos os que têm até hoje dispensado a este jornal, testemunhos inequívocos de confiança e de apreço.

Feminismo
I
Entre nós, a opinião da inferioridade da mulher prevalece ainda, e bem poucas pessoas admitem que uma mulher possa ser a igual do homem. Para a grande maioria das opiniões, a mulher fica e deve ficar confinada no seu papel de dona de casa.

Felizmente existe sempre, em grande maioria, a mulher que dirige habilmente a sua casa, humilde ou rica, e que é a educadora exemplar dos seus filhos; mas muitas vezes a mulher vê-se obrigada a sair de casa para ganhar a sua subsistência.

Quando, como tantas vezes sucede nos meios operários, a mulher fica viúva, com filhos, é-lhe forçoso abandonar o lar para poder educar e sustentar os filhos queridos. Daí veio a necessidade, para a mulher, de entrar nas oficinas, nas fábricas, isto é, na vida económica propriamente dita.

Essa entrada da mulher na vida actual exterior não deixa de ter os seus inconvenientes. Os casamentos e os nascimentos diminuem em razão directa das ocupações da mulher fora de casa; as estatísticas mais duma vez evidenciaram esse desastroso facto.

Mas, por outro lado, a elevação da mulher e a instrução que recebe agora, não deixam de ser úteis ao bem geral.

Não era Platão que pedia que as mulheres fossem educadas da mesma maneira que os homens?

*
Visto que a mulher se vê tantas vezes na imperiosa necessidade de prover à sua subsistência, é preciso que trabalhe. «Case», dir-nos-ão... É fácil dizer, mas para chegar a esse resultado é preciso que o homem e a mulher estejam de acordo, quando mais não seja uma vez.

Ora a grande dificuldade do problema é encontrar marido, porque, em vista das exigências da vida actual, o homem, se tem posição social, inquire do dote, se é operário, do ganho ou do ofício da mulher.

Portanto as que não têm nem dote nem ofício estariam condenadas a morrer de fome. Além disso, não falando senão da Europa, a população feminina é muito superior à população masculina, de onde resulta que muitas mulheres se acham fatalmente na impossibilidade absoluta de criar família. Contudo é preciso viver e para o conseguir, ganhar dinheiro, ganhar a vida. 

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Cultivado há muito menos tempo que o do homem, o cérebro da mulher é muito mais novo que o do homem. Apesar disso – ou talvez por isso mesmo – logo que a mulher receba uma instrução semelhante à do homem, é-lhe superior como compreensão.

Tomemos como exemplo as jovens americanas.

Há vinte e oito anos que certos colégios americanos dão igual instrução aos rapazes e às raparigas.

Pois em todos os exames as raparigas distinguem-se mais que os rapazes. – Sim, dizem os adversários do feminismo, mas essa preponderância não persiste depois do colégio. Até hoje as mulheres não deram nem um Shakespeare, nem um Newton, nem um Laplace, um Edison, um Mozart, um Rafael, um grande orador, nada enfim.

Em primeiro lugar este argumento não é um argumento, visto que as mulheres só agora entraram nesse caminho.

Além disso não se pode negar que um número relativamente considerável de mulheres tem brilhado em diversos géneros de superioridade.

Seria inútil citar nomes que estão em todas as bocas e esses nomes para brilharem, tiveram de vencer muito maiores dificuldades, sendo femininos, do que se fossem masculinos.

E depois é preciso não esquecer que durante todos os séculos decorridos não se tinha pedido às mulheres que brilhassem intelectualmente, mas pelo contrário que se escondessem.

Há pouco tempo que lhes é dada instrução completa; serão precisas algumas gerações sucessivas para que essa instrução possa frutificar.

No entanto a lista das mulheres dotadas de um génio superior e tendo dado provas efectivas do seu valor pessoal é já longa e tanto mais significativa quanto elas conquistaram a sua celebridade em condições muito desfavoráveis.»

[O Mundo, 25/06/1906] 

 
[O Mundo || 25/06/1906]

[João Esteves]
[alterado em 14/09/2022]