[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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domingo, 17 de abril de 2016

[1437] MANUEL DE AZEVEDO [I] || 1916 - 1984

* MANUEL RODRIGUES MONTEIRO DE AZEVEDO *
[1916 - 06/07/1984]

[Diário de Lisboa || 6 de Julho de 1984]

Devido à conservação do precioso manuscrito de Irene Castro e ao estudo pioneiro de Lúcia Serralheiro Mulheres em grupo contra a corrente, é possível elencar centenas de sócias e, pelo menos, dezenas de apoiantes masculinos da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, reconstruindo algumas daquelas redes que a sustentaram e tanto dinamismo lhe deram.

Entre aquelas está Maria Natália Maia (sócia n.º 250) e, entre estes, encontra-se o marido, o jornalista e militante comunista Manuel de Azevedo, nome que, mesmo tardiamente, merecia outro reconhecimento enquanto profissional, homem de cultura, cinéfilo e antifascista militante desde os anos 30 até 1974, sendo um dos primeiros nomes a constar do Registo Geral de Presos da Polícia Política. Em virtude das detenções, em 1935 para averiguações, a 16 de Fevereiro, “o jornalista é preso por esta polícia […] por propaganda subversiva e entregue no T.M.E. que o condenou a 500$00 de multa e perda de direitos políticos por 5 anos”. Restituído à liberdade a 25 de Abril de 1935 [Documento da PVDE, Processo 1018/35].

Quanto mais se esmiuça a Delegação do Porto da AFPP, mais é perceptível a relevância da sua componente política enquanto organização antifascista, envolvendo mulheres e homens, muitos destes familiares daquelas.

Para que não se extraviem, vão-se deixando aqui apontamentos que integram posterior estudo, sendo agora de destacar Manuel de Azevedo no ano do centenário do seu nascimento.

* MANUEL DE AZEVEDO * 

Jornalista (O Século, Norte Desportivo, O Primeiro de Janeiro, Diário de Lisboa), ativista cultural e associativo (AJHLP, Sindicato dos Jornalistas, Cineclube do Porto), antifascista, comunista e militante do MUD e MND. 

Filho de Georgina Tedim Monteiro [20/11/1879 - 15/04/1925] e de Manuel José Rodrigues [1865 - 1924] e irmão de Elmina Rodrigues Monteiro Tedim [1914 - 1997], Manuel de Azevedo nasce em Folhadela, Vila Real, em 1916 e, cedo, parte para o Porto. 

Manuel de Azevedo frequenta a seção de Ciências no Liceu Rodrigues de Freitas e Liceu Alexandre Herculano, onde cedo se envolveu com as causas políticas e culturais, a par de um grupo de amigos que o irão acompanhar ao longo da vida e de vários dos projectos que integra, como Carlos Espaín, Carlos Barroso, Lobão Vital, Dilermano Marinho e José Soares Lopes, etc.

Ingressa, no ano lectivo de 1935-1936, na Faculdade de Ciências, da Universidade do Porto e, em virtude do seu envolvimento no projecto Sol Nascente, Quinzenário de Ciência, Arte e Crítica (1937-1940), pede transferência, em 1938-1939, para a Faculdade de Ciências de Coimbra.

Com 19 anos, em 16 de Fevereiro de 1935, “por ter sido apanhado a pintar inscrições contra o fascismo nas paredes” [Ana Aranha e Carlos Ademar, No limite da dor], é detido juntamente com Carlos Espaín. 

Em 1937, esteve na fundação da revista Sol Nascente onde colabora em todas as fases da sua produção, com artigos, gravuras, paginação e coordenação da revista, desde o nº 1, de 30 de Janeiro de 1937 a 15 de Abril de 1940. 

Durante grande parte da vida do periódico, a sede da redação e da administração funciona na sua casa de família, na Rua do Bonjardim, nº 629, Porto. Manuel de Azevedo parte para Coimbra (1938-1939) quando a sede da Sol Nascente se transfere para essa cidade. 

[Manuel de Azevedo || 1938]

[in Luís Crespo de Andrade, Sol Nascente, Campo das Letras, 2007]

Em Coimbra ocorre nova detenção, enquanto residia na Couraça de Lisboa, n º38, num quarto partilhado por Jorge Mendonça Torres, morada esta que funcionava, na prática, como redacção, administração e distribuição da revista. A detenção acontece em 25 de maio de 1939, sob a acusação de os “arguidos professarem ideias comunistas, informação esta colhida pela Inspecção desta Polícia em Coimbra, onde se encontram a estudar. Não se provou no decorrer das averiguações terem feito propaganda, mantido ligações ou desenvolverem qualquer atividade revolucionária, motivo porque foi ordenada a sua liberdade condicional” [da acusação da Polícia Política].

De regresso ao Porto, continua a atividade política clandestina associada ao Partido Comunista, sendo companheiro de muitas lutas de António Lobão Vital e de Virgínia Moura, esta última que o refere inúmeras vezes no seu livro Mulher de Abril [Edições Avante!, 1996]. Casa com Maria Natália Maia, sendo ambos ativistas da Delegação da Associação Feminina Portuguesa para a Paz: a mulher como sócia e Manuel de Azevedo como sócio auxiliar, tal como o cunhado João Arnaldo Rodrigues da Fonseca Maia [24/12/1916 - 03/07/1987], também jornalista e comunista. 

Apaixonado pelo cinema, participa no filme Aniki-Bobó [1942] de Manoel de Oliveira, evidenciando-se, nas décadas de 40 e 50, no movimento cineclubista, juntamente com Henrique Alves Costa. Fez parte da Direcção do CPC-CCP e participa em Setembro de 1947, enquanto representante dos Cineclubes Portugueses, no I Congresso Internacional dos Cineclubes, em Cannes, para a formação da Federação Internacional dos Cineclubes.

Em 1949, Manuel de Azevedo colabora ativamente na campanha presidencial de Norton de Matos (MND). Nesse mesmo ano, aquando da prisão de Álvaro Cunhal no Luso e da sua transferência para a prisão da Rua do Heroísmo, no Porto, Manuel de Azevedo integra o grupo dos quatro responsáveis, com António Lobão Vital [1911-1978], Osvaldo Santos Silva [1913-1951], outro sócio auxiliar da AFPP, e Virgínia Moura [1915-1998], pela publicação do anúncio de 30 de março n'O Primeiro de Janeiro, onde se publicita a detenção do principal dirigente comunista, evitando possíveis consequências mais graves para o detido. A informação da prisão do dirigente comunista fora dada através de Elisa Amado ao visitar o marido, Armando Bacelar, detido na mesma prisão. 

A tenacidade e coragem de Manuel de Azevedo, então jornalista de O Primeiro de Janeiro, continua nas campanhas presidenciais de Ruy Luís Gomes (1951), de Humberto Delgado (1958) e de Arlindo Vicente (1958). Em 1958, dá voz no Rádio Clube Português à campanha eleitoral de Arlindo Vicente, de que era um dos proponentes [República, 03/05/58] e é um dos que aguardou a sua chegada na Estação de São Bento, no Porto,  em 20 de Maio. 

Associa-se, ainda, a todas as iniciativas da Oposição à Ditadura, nomeadamente participando nas diversas celebrações do 31 de Janeiro e do 5 de Outubro. 

Estando há 17 anos como repórter em O Primeiro de Janeiro, Porto, sem progressão na carreira e com Maria Natália Maia desterrada por motivos políticos para a província, enquanto funcionária dos CTT (Torres Novas, Mealhada, Póvoa do Varzim e Lisboa, em 1961), rumam a Lisboa, como forma de reunir a família: Cesaltina Maia (sogra), Maria Natália Maia (mulher), Maria Georgina Maia de Azevedo (filha) e Maria Manuela Maia de Azevedo (filha). Manuel de Azevedo passa a integrar a redacção do Diário de Lisboa, jornal onde trabalha até à sua morte, em 1984. 

Na sequência da prisão da sua filha Maria Georgina pela PIDE, em 25 de Novembro de 1964, e do sofrimento físico e psicológico que lhe foi infligido, Manuel de Azevedo escreve uma carta, datada de 7 de dezembro, ao ministro do Interior, Santos Júnior, a denunciar a situação porque estava a passar a menor e a exigir, “como pai e como cidadão”, “que terminem tais práticas sobre a minha filha e sobre outros jovens que porventura estejam a sofrer o mesmo, pois elas são, não só contrárias às leis portuguesas, como à consciência de todos os homens bem formados do mundo inteiro. Solicito a V. Ex.ª providências imediatas, como é de justiça.” [Ana Aranha e Carlos Ademar, No limite da dor, 2014, Depoimento de Maria Georgina Maia de Azevedo]. 

Através desta acção de cidadania e empenho do pai e cidadão Manuel de Azevedo, que consegue mobilizar solidariedades nacionais e internacionais, em resultado do prestígio de que gozava, beneficia a filha bem como outros detidos. 

Manuel de Azevedo continua, até à queda do regime, em 25 de Abril de 1974, a mesma incessante luta. 

[1977 || Fotografia retirada, com a devida vénia do Blogue Antifascista da Resistência || Da esquerda para a direita: 1º - Luís Sttau Monteiro; 2º - Eugénio Alves; 3º - Pedro Alvim; 4º - Manuel Anta; 5º - Augusto Vilela; 6º - Fernando Assis Pacheco; 7º - Fernando Piteira Santos; 8º- Manuel Azevedo; 9º- José Cardoso Pires; 10º - António P. Ruella Ramos]

Após a revolução, milita no MDP/CDE e desempenha várias funções no âmbito do Conselho da Imprensa e do Sindicato dos Jornalistas. Mantêm-se, até falecer, aos 67 anos, a 6 de Julho de 1984, destacado e respeitado jornalista do Diário de Lisboa. 


O seu desaparecimento, vítima de um acidente cardiovascular, motivou o sugestivo título de primeira página “Morreu-nos o Manuel de Azevedo” [Diário de Lisboa, 06/07/1984]. O Diário de Lisboa e familiares recebem mensagens de pêsames de inúmeros amigos, de leitores, de agremiações, dos partidos políticos [MDP/CDE, Partido Comunista, Partido Socialista], dos órgãos de soberania, e dos colegas de profissão e a evocação sentida e contristada de muitos camaradas da luta antifascista.

Fernando Piteira Santos, intitulou “Uma geração que esteve na Resistência” a sua seção “Política de A a Z”, destacando o papel histórico, e muito pouco (re)conhecido, mesmo entre os amigos, de Manuel de Azevedo: “Muito jovem Manuel de Azevedo se definiu, escolheu um campo, um território de resistência, de sonho, de liberdade. Nele viveu. Quaisquer outros méritos do homem são menores, ou acessórios, perante este exemplo de fidelidade a si próprio. Foi a sua uma vida de resistência e de persistência, na qual a atividade profissional, o exercício da crítica no domínio do cinema, o jornalismo cultural e de intervenção, a militância associativa, sindical e cívica, se integram como componentes da unidade de um caráter e de uma conduta moral e social.” E o diretor-adjunto do jornal concluí a sua coluna reafirmando que “foi um constante sonhador de uma pátria popular. Era um democrata, o Manuel de Azevedo. Foi um resistente antifascista. Foi um homem para quem Abril chegou tarde e foi uma esperança” [Fernando Piteira Santos, DL, 09/07/1984]. 

João Honrado [1929-2013], militante comunista que conheceu a clandestinidade e a prisão, escreveu, no mesmo diário, que Manuel de Azevedo “mitigou-nos a fome muitos dias. Deu-nos o pão e o agasalho da sua casa no Porto e em Lisboa. Emprestou à Resistência mais força. Nunca nos fechou a porta. Sejamos mais diretos: abrir a porta a clandestinos, referenciados ou não pela Polícia, não muitos o fizeram com a coragem de Manuel de Azevedo. […] Nas melhores e piores horas do percurso manteve uma inalterável boa disposição de combatente. […] Nunca vimos Manuel de Azevedo adiantar-se para situações pessoais de destaque. […] Parecia vaidoso mas era modesto. Legitimamente orgulhoso, isso é verdade. Apontem-lhes defeitos, está certo. Olhem amigos: não lhe podem (lá isso não) referir nódoa de caráter pessoal e de natureza política. Nós não lhas conhecemos. A nossa lidação foi com um homem digno – e por isso não esqueceremos (cívica e politicamente) Manuel de Azevedo” [João Honrado, “Também por Manuel de Azevedo”, DL, 12/07/1984].

Armando Bacelar, que com ele tanto conviveu e lutou no Porto, lembrou que “o jornalista que foi a enterrar na tarde dum dia brumoso deste mês de julho foi figura destacada dos movimentos cultural e político progressistas iniciados na juventude académica na segunda metade da década de trinta deste século e que depois se prolongou” [Armando Bacelar, “Manuel de Azevedo”, DL, 19/07/1984]; Luís Francisco Rebello reforçou ideia de que “sem alardes nem hesitações, a causa da Liberdade e a defesa da Cultura democrática (a única verdadeira) encontrou sempre nele um combatente denodado, e pagou com pesados sacrifícios o preço da sua dedicação a essa causa. A sua vida e o seu companheirismo ficam como um exemplo que não pode ser esquecido” [“Uma carta de Luiz Francisco Rebello”, DL, 19/07/1984].


[João Esteves]

Este texto foi revisto e alterado em 12 de Maio de 2016, devido à amável e preciosa colaboração de Maria Georgina Maia de Azevedo, filha de Manuel de Azevedo. Assim, eliminaram-se incorreções e foram introduzidas novas informações. 

Nota 1: 
Tive a sorte e o privilégio de ler muitos dos textos de Manuel de Azevedo no Diário de Lisboa, bem como de muitos outros jornalistas e escribas de excelência que, mesmo nas adversidades, sabiam-no ser e, por imperativos de consciência, de profissionalismo e de cidadania, repudiavam a submissão aos interesses de poderes políticos e económicos. Eram jornalistas de referência num tempo em que não havia a presunção dos auto-intitulados jornais de referência. Agora, parece que temos "jornais de referência" sem "jornalistas de referência" e sem leitores!

Nota 2: 
No centenário de Manuel de Azevedo, solicita-se a colaboração de todos os que com ele conviveram, partilharam a profissão ou cruzaram-se em momentos da luta antifascista: 
"Celebra o centenário do nascimento do Jornalista e Homem da Cultura, Manuel de Azevedo (06.08.1916), como exercício de memória e cidadania, vivificando o seu retrato e histórias que nos sejam comuns, através do:

https://www.facebook.com/Manuel-de-Azevedo-972616922853936/ ou azevedogeorgina@gmail.com."

terça-feira, 4 de agosto de 2015

[1050.] VIRGÍNIA FARIA DE MOURA [I] || 1915 - 1998

* NASCIDA HÁ CEM ANOS *

[19/07/1915 - 19/04/1998]

Engenheira Civil, a primeira no país. 

Nasceu em São Martinho do Conde, concelho de Guimarães, a 19 de julho de 1915, filha de mãe solteira, professora do ensino primário que teve de enfrentar a reação desfavorável da família e criar sozinha a criança, e faleceu no Porto a 19 de abril de 1998, com 82 anos de idade. 

O pai, militar muito mais velho do que a mãe, partiu para a Primeira Guerra pouco depois, mantendo com a filha uma relação esporádica, embora a tenha perfilhado. 

Viveu, até aos 14 anos, na terra natal, onde a mãe lecionava crianças durante o dia e ensinava os pais à noite. Estudou no liceu de Guimarães do 1º ao 4º ano e, no final dos anos 20, com a transferência daquela para Vila do Conde, passou a frequentar o liceu da Póvoa de Varzim onde, em 1931, se estreou politicamente ao participar numa greve de solidariedade com os estudantes da Faculdade de Medicina do Porto devido ao assassinato do estudante João Martins Branco (Abril). 

Mudou-se para o liceu feminino do Porto, cidade onde conheceu António Lobão Vital [1911-1978], estudante liceal que a influenciou nas leituras, e ingressou na Faculdade de Engenharia, sendo a primeira mulher a licenciar-se em engenharia civil, área onde exerceu a atividade profissional. 

Cursou ainda Matemática e chegou a frequentar a Faculdade de Letras de Coimbra. 

Aderiu, com 18 anos, ao Partido Comunista Português e nesse ano de 1933 participou na secção portuguesa do Socorro Vermelho Internacional, organização de ajuda aos presos políticos portugueses e espanhóis. 

Virgínia Moura tornou-se uma das militantes comunistas, a par de Luísa [1898-1966] e Aida Paulo [1918-1993], com atividade continua e duradoura iniciada ainda antes da reorganização do PCP em 1940-1941, centrando-a na cidade do Porto onde vivia. 

Casou ainda estudante, em 1935, com o arquiteto António Lobão Vital, também destacado militante comunista nortenho, manteve-se organizada sob orientações de Fernando Correia, Manuel de Azevedo ou Joaquim Pires Jorge [1907-1984], e coube-lhe importante papel nos movimentos unitários no norte em que o Partido Comunista tinha responsabilidades: Movimento Nacional de Unidade Antifascista (MUNAF), Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde integrou a Comissão Distrital, Movimento Nacional Democrático (MND), Comissão Nacional para a Defesa da Paz (CNDP), sendo ainda a sócia nº 95 da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, com residência na Rua Santa Helena, 115. 

Foi em sua casa que funcionou a comissão diretiva inicial do periódico Sol Nascente [1937-1940], onde utilizou o pseudónimo Maria Selma, e colaborou nos anos 40 e 50, com o mesmo pseudónimo, nos periódicos O Trabalho, O Diabo, Pensamento e Ecos do Sul. 

Escreveu, nos anos 40, “Carta a uma mulher moderna”, apelando à participação da mulher na sua própria emancipação. 

Envolveu-se na candidatura de Norton de Matos [1867-1955] à Presidência da República [1949], sendo um dos elos entre o PCP e aquele, e discursou no comício realizado na Fonte da Moura, Porto, a 23 de janeiro de 1949. 

Aquando da prisão, em Março desse ano, de Álvaro Cunhal [1913-2005], Militão Bessa Ribeiro [1896-1950] e Sofia de Oliveira Ferreira [1922-2010] na casa clandestina do Luso e transferência dos presos para a sede da PIDE Porto, foi o seu grupo que tornou público, incluindo mediante anúncio publicado no jornal Primeiro de Janeiro, essas detenções, evitando o risco de “desaparecerem” sem rasto devido à relevância dos primeiros dois nomes. 

Com Ruy Luís Gomes [1905-1984] e outros nomes oposicionistas nortenhos, impulsionou a formação, em abril de 1949, da estrutura política unitária do Movimento Nacional Democrático, de forte influência comunista, integrando a Comissão Central e a Comissão Distrital do Porto, na sequência do qual seria presa a 17 de dezembro. 

Recolheu ao Forte de Caxias, onde conviveu na mesma cela com Cecília Simões Areosa Feio [1921-1980], Georgette de Oliveira Ferreira [n. 1925] e Maria Lamas [1893-1983], tendo as vendedeiras do Mercado do Bolhão parado a venda e manifestado-se contra a sua detenção. 

Libertada com as outras detidas, à exceção de Georgette Ferreira, na véspera de Natal, mediante elevada fiança cuja quantia se obteve mediante redes de solidariedade. 

Juntamente com Ruy Luís Gomes, discursou no funeral de Militão Ribeiro, enterrado em Murça na sequência da morte a 3 de janeiro de 1950 quando detido na Penitenciária de Lisboa. 

Presa novamente no Porto a 19 de janeiro e a 12 Abril de 1950. 

No ano seguinte, aquando da candidatura de Ruy Luís Gomes à presidência da República, envolveu-se, mais uma vez, numa campanha eleitoral, tendo ficado para a história a forma como discursou e foi agredida, juntamente com o candidato, Albertino de Macedo [1910-1997], José Cardoso Morgado [1921-2003], Lino Lima [1917-1999] e Lobão Vital, pela PSP após o comício realizado em Rio Tinto, Porto, a 3 de julho de 1951. 

Nova prisão na mesma cidade a 5 de fevereiro de 1952 e enviada para o Forte de Caxias. 

Detida em Peniche a 19 de novembro desse ano, recolheu a Caxias. 

Em 1953, aquando do Congresso da União Internacional dos Arquitetos realizado em Lisboa, participou ativamente nos debates, preocupando-se com a temática da colaboração entre arquitetos e engenheiros. 

Tornou a ser presa, no Porto, a 26 de dezembro. 

Participou, em março de 1954, na V Reunião Ampliada do Comité Central do PCP e foi novamente presa no Porto a 19 de agosto de 1954. 

Presa no Porto a 16 de agosto de 1956, com Albertino Macedo, José Morgado, Lobão Vital e Ruy Luís Gomes, enquanto dirigente do MND. 

No ano seguinte, durante o V Congresso do PCP realizado numa casa em S. João do Estoril, foi eleita para o Comité Central, apesar de ser um quadro que estava na legalidade e sempre se manteve nessa situação. 

Nas eleições presidenciais de 1958, não perfilhou qualquer simpatia pela hipótese de Cunha Leal [1888-1970] e postou-se ao lado da candidatura de Humberto Delgado [1906-1965], em detrimento da de Arlindo Vicente [1906-1977]. 

Presa no Porto a 28 de abril de 1962. 

Participou nos três congressos da Oposição Democrática de Aveiro, realizados em 1957, 1969 e 1973 e integrou a lista do círculo do Porto da Comissão Democrática Eleitoral candidata às eleições para a Assembleia Nacional de 1969, voltando a colaborar na campanha eleitoral de 1973. 

Apresentou em 1969, com o marido, uma comunicação ao II Congresso Republicano de Aveiro sobre “Casas dos trabalhadores nos centros urbanos”. 

Entre 1949 e 1974, foi presa por 16 vezes, totalizando 6 anos nas prisões do regime. 

Usou o pseudónimo “Xavier”. 

Devido à sua postura política, nunca foi admitida na função pública, o mesmo acontecendo com o marido. 

Após a data de 25 de Abril de 1974, foi distinguida com a Ordem da Liberdade [01/10/1985] e recebeu a medalha de Honra da Cidade do Porto e do Movimento Democrático de Mulheres. 

No dia do seu 80º aniversário, o Partido Comunista Português prestou-lhe homenagem no Palácio de Cristal tendo, nessa ocasião, sido lançado o livro Virgínia Moura mulher de Abril. Álbum de Memórias. 

[Edições Avante!, 1996]

Faleceu no Porto a 19 de Abril de 1998, com 82 anos de idade. 

Teixeira de Pascoaes [1877-1952] definiu-a como “uma força da natureza”.