[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]
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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

[2594.] MARIA BARREIRA || 1914-2010

 * MARIA BARREIRA *

[1914 - 2010]

Artista plástica e professora, Maria Barreira integrou o Movimento de Unidade Democrática e a Associação Feminina Portuguesa para a Paz, tendo sido afastada do ensino oficial devido ao seu posicionamento antifascista.

Reprodução comprada numa sessão política nocturna muito acalorada realizada, talvez, em Junho/Julho de 1974, no Liceu D. Leonor.


[João Esteves]

domingo, 14 de março de 2021

[2526.] MOISÉS FERREIRA LAMARÃO [I] || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO

 * MOISÉS FERREIRA LAMARÃO *

[23/12/1911 - 14/06/1979]

[Moisés Ferreira Lamarão || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-43-NT-89034 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Maria José de Oliveira e de Manuel Ferreira Lamarão, Moisés Lamarão Ferreira Lamarão nasceu em 23/12/1911, em Ovar. 

Com ligações ao Partido Comunista desde 1929, foi preso pela primeira vez em 1936, sendo entregue pela Polícia de Investigação Criminal de Lisboa à Secção Política e Social da PVDE em 1 de Abril. Identificado, então, como marítimo, tinha na sua posse selos de cotização da Comissão Intersindical (CIS) e "uma  Agenda com desenhos de carácter comunista", vindo a ser também acusado de vender jornais clandestinos de propaganda comunista (Processo 1830/SPS - Processo 698/36). 

Nos seis meses seguintes, passou pela 1.ª esquadra (01/04/1936, 17/06/1936), Aljube (04704/1936, 02/05/1936), outra esquadra (01/05/1936), Peniche (28/707/1936) e Caxias (14/10/1936), antes de ser deportado para Angra do Heroísmo em 17/10/1936, onde foi julgado pelo TME em 28/05/1937 e condenado na pena de dezoito meses de prisão correccional (Processo 75/936 do TME).

Por ter sido indultado em 23/12/1938, regressou dos Açores e apresentou-se na PVDE em 06/01/1939, saindo em liberdade.

[Moisés Ferreira Lamarão || 08/12/1943 || ANTT || RGP/2848 || PT-TT-PIDE-E-010-15-2848]

Já funcionário da Câmara Municipal de Ovar, foi o responsável, em 1940, pela organização do 1.º Comité Local do Partido Comunista. 

Em 07/12/1943, quando estava hospitalizado, foi preso em Ovar pela Delegação do Porto da PVDE (Processo 1040/43). Julgado pelo TME em 24/01/1945 e condenado em 36 meses de prisão correccional, foi entregue na Cadeia da Comarca de Ovar em 29/03/1945 para cumprimento da restante pena.

Activista do Movimento de Unidade Democrática, organizou, em 1946, o 2.º Comité Local de Ovar, vindo a ser preso em Abril de 1947.

[Moisés Lamarão em 1975, durante a campanha eleitoral para a Assembleia Constituinte || Sessão em Ovar || Fotografia disponibilizada por Vasco Paiva que se encontra à sua direita (esquerda, quando se olha de frente)]

Manteve sempre actividade política e, depois de Abril de 1974, continuou associado à militância do Partido Comunista em Ovar.

[Moisés Lamarão || in Alberto de Sousa Lamy, Dicionário da História de Ovar]

Moisés Lamarão faleceu em 14 de Junho de 1979, com 67 anos de idade.

[João Esteves]

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

[1904.] ARTUR AUGUSTO DA SILVA [I]

* ARTUR AUGUSTO DA SILVA *
[14/10/1912 - 11/07/1983]


Advogado, escritor e jornalista, Artur Augusto da Silva nasceu na Ilha da Brava, Cabo Verde, em 14 de Outubro de 1912 e faleceu em Bissau em 11 de Julho de 1983.

Viveu na Guiné até aos 8 anos, estudou no Liceu Camões, onde conheceu Álvaro Cunhal e, em 1932, reencontrou-o na Faculdade de Direito de Lisboa. 

Começou muito novo a escrever em revistas, tendo sido director da revista Momento, conviveu com Fernando Pessoa, que lhe dedicou o livro Mensagem, publicou, em 1936, a revista Cartaz, juntamente com Thomaz de Mello, e colaborou na revista cabo-verdiana Claridade, entre muitas outras actividades literárias e culturais.

Licenciou-se em 1938, partiu para Angola no ano seguinte e, entre 1941 e 1949, exerceu a advocacia em Lisboa, Alcobaça e Porto de Mós. 

Participou, em 1945, no Movimento de Unidade Democrática e, em 1949, envolveu-se na campanha presidencial de Norton de Matos. Na iminência de ser preso, devido às suas actividades políticas, constando o seu nome como suspeito de pertencer ao Partido Comunista, partiu para a Guiné nesse mesmo ano, onde foi advogado e se tornou amigo de Amílcar Cabral.

Na Guiné, foi um reconhecido defensor de presos políticos, participando em 61 julgamentos de guineenses acusados de sedição.
  
Preso em 1966 no Aeroporto de Lisboa, foi impedido de regressar à Guiné, o que só sucedeu em 1976, após a independência, quando o Presidente Luís Cabral o convidou para juiz do Supremo Tribunal de Justiça. Também leccionou Direito Consuetudinário na Escola de Direito de Bissau.

[Diário de Lisboa || 27 de Maio de 1980]

Casado com Clara Schwarz, com quem teve dois filhos, escreveu poesia, romance e ensaios.

Em 1980, Daniel Reis publicou no Diário de Lisboa uma crónica sobre Artur Augusto da Silva, então com 68 anos, a propósito de "Os portugueses da Guiné". Nela, o advogado refere que também defendeu presos políticos em Portugal, nomeadamente João Faria Borda, e que esteve cerca de cinco meses preso quando detido pela PIDE em 1966 [26/08 a 28/12/1966], ficando com residência fixa em Lisboa até ao 25 de Abril de 1974.

[Diário de Lisboa || 27 de Maio de 1980]

[João Esteves]

quarta-feira, 21 de março de 2018

[1773.] FRANCISCO SILVÉRIO MATEUS [I]

* FRANCISCO SILVÉRIO MATEUS || PARTICIPAÇÃO NO 18 DE JANEIRO DE 1934 || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO (1934 - 1936) E, DEPOIS, PARA O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL (1936 - 1949) *

Militante comunista desde o início da década de 1930, Francisco Silvério Mateus teve intervenção directa nos acontecimentos de 18 de Janeiro de 1934, em Lisboa. Preso e condenado a 12 anos, só saiu em liberdade condicional após mais de quinze anos e meio de cativeiro, treze deles no Tarrafal.

Como muitos outros nomes, desconhece-se o seu percurso político para além do que consta dos registos policiais, os quais devem sempre ser analisados com as devidas precauções e interrogações.

[Francisco Silvério Mateus || 1934 || ANTT || RGP/70]

Filho de Maria da Conceição e de Silvério Mateus, Francisco Silvério Mateus nasceu em 27 de Janeiro de 1903, em Vila Franca de Xira.

Pedreiro, com residência em Lisboa, na Vila Ferreira - Calhariz, terá aderido no início da década de 30 ao Partido Comunista por intermédio de Agostinho dos Reis, nome que, no entanto, nunca foi detido nem consta de outra documentação.

Por indicação de Agostinho dos Reis, organizou uma Célula na zona de Benfica, de que seria o Secretário, composta por Joaquim Bacalhau [?] e Mário de Almeida Pinto [RGP/282]. 

Decorridos cerca de dois anos, talvez em 1933, terão entrado para aquela Célula Américo da Silva [RGP/540], Américo Fernandes [RGP/34] e José Ramalho [RGP/329]. 

Segundo o seu Cadastro Político [ANTT, Cadastro 5193], Francisco Silvério procedeu, por indicação de Agostinho dos Reis, à organização do Comité de Zona Nº 3 do Partido Comunista, integrando-o os nomes acima referenciados.

Além de controlar a Célula Nº 3, composta por Carlos José Esteves [RGP/314] e Joaquim Bacalhau, Francisco Silvério Mateus assegurava a ligação daquele Comité de Zona ao Comité Regional de Lisboa do Partido Comunista.

[Francisco Silvério Mateus || 1934 || ANTT || RGP/70]

No âmbito das actividades do Comité de Zona Nº 3, por indicação de Agostinho dos Reis, Francisco Silvério Mateus interveio nos preparativos da Greve Geral de 18 de Janeiro de 1934, juntamente com Américo Fernandes e Joaquim Bacalhau, cabendo-lhes actuar junto às portas das fábricas de Benfica e inutilizar a rede eléctrica, entre outras acções locais. 

No dia 18, reuniu-se com Américo Fernandes, Joaquim Bacalhau, José Pires, José Ramalho e Renato Duarte Simões [RGP/5660], entre outros, de forma a executarem um atentado contra a locomotiva de comboio que, à meia-noite, costumava passar pela Estação de Benfica. No entanto, só Francisco Silvério Mateus e Américo Fernandes estiveram envolvidos no lançamento de duas bombas [Processo 1075/SPS].

Preso em 24 de Fevereiro de 1934 e julgado em 14 de Agosto, foi condenado a doze anos de degredo, com prisão, multa de vinte mil escudos, ficando à disposição do Governo [Processos 153/934 e 162/934, do Tribunal Militar Especial].

Apesar do recurso interposto, o mesmo Tribunal, reunido em 1 de Setembro, manteve a sentença. 

Francisco Silvério Marques embarcou para Angra do Heroísmo em 23 de Setembro de  1934 e dois anos depois, em 23 de Outubro de 1936, integrou a primeira leva de presos políticos enviados para o Campo de Concentração do Tarrafal. 

[Presos no Tarrafal - Década de 40 || Francisco Silvério Mateus está na 3.ª Fila, com casaco e gravata Fotografia retirada de Antifascistas da Resistência] 

Em 1945, subscreveu a exposição dirigida por presos políticos no Tarrafal à Comissão Executiva do Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde se saúda e apoia as resoluções tomadas na sessão de Outubro de 1945. Subscreveram-na ainda, António Batista, António Gato Pinto, António Franco Trindade, António Gonçalves Coimbra, Armindo Guimarães, Constantino, Eurico Martines Pires, Jaime Tiago, João Maria, Joaquim Pedro e Tomás Marreiros [Casa Comum/Fundação Mário Soares]. 

Posto à disposição do Ministério da Justiça em 31 de Dezembro de 1945, o Tribunal de Execução das Penas só lhe concedeu a liberdade condicional em finais de 1949, com as seguintes condições: "fixação de residência na Colónia de Cabo Verde, sem prejuízo da vinda à Metrópole, mediante autorização"; "não frequentar meios ou locais, especialmente procurados por indivíduos suspeitos"; "não acompanhar com pessoas de má conduta, designadamente antigos companheiros, que tenham estado ligados a quaisquer actividades subversivas"; e "aceitar a protecção e indicações de uma instituição de Patronato ou de pessoa encarregada de a exercer".

[Francisco Silvério Mateus || 1934 || ANTT || RGP/70]

Saiu em liberdade condicional, por três anos, em 23 de Dezembro de 1949, ao fim de quase dezasseis anos de prisão e depois ter ter já cumprido a pena a que fora condenado.

Regressou em 13 de Fevereiro de 1950 e só obteve a liberdade definitiva em 13 de Dezembro de 1952, passando a residir na Travessa da Pereira, 11, 3.º dto - Lisboa.

Fontes: 
ANTT, Cadastro Político 5193 [PT-TT-PIDE-E-001-CX09_m0715, m0715a, m0715b, m0715c].
ANTT, Registo Geral de Presos / 70 [Francisco Silvério Mateus / PT-TT-PIDE-E-10-1-70_c0154].
ANTT, Fotografia de Francisco Silvério Mateus / 2419 / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904_m0006].


[João Esteves]

sábado, 27 de janeiro de 2018

[1710.] ANTÓNIO FRANCO TRINDADE [I] || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO E TARRAFAL

* ANTÓNIO FRANCO TRINDADE || DEPORTADO PARA ANGRA DO HEROÍSMO E PARA O TARRAFAL || 18 ANOS CONSECUTIVOS DE PRISÃO *

Militante do Partido Comunista no início de década de 1930, António Franco Trindade foi um dos resistentes à Ditadura Militar e ao Estado Novo que mais anos esteve preso: de 24 de Abril de 1932 a 30 de Maio de 1950.

[António Franco Trindade || ANTT || RGP/4 || PT-TT-PIDE-E-010-1-4]

Filho de Maria de Jesus Costa da Trindade e de Prudêncio Franco da Trindade, António Franco da Trindade era natural da Ericeira, concelho de Mafra, onde nasceu em 1906.

Litógrafo da Casa da Moeda, com residência na Avenida Almirante Reis, 35 - R/C, integrou o Comité de Zona N.º 1 do Partido Comunista. Filiado nº 132 da Célula 19, foi seu Secretário, tendo ainda a cargo o controlo da Célula 18.

Esteve envolvido nos preparativos da jornada de luta preparada para o dia 29 de Fevereiro de 1932 e que implicava o recurso a bombas, a qual acabou por não se realizar devido à prisão dalguns dos implicados.

De seguida, com Álvaro Augusto Ferreira e Manuel Francisco da Silva ("O Manuel Pedreiro" que faleceu em 24 de Agosto de 1941, quando detido na Fortaleza de Angra do Heroísmo), fez parte do núcleo responsável pela preparação de acções durante o 1.º de Maio, com recurso ao uso das bombas não utilizadas anteriormente. Jaime Tiago e Manuel Alpedrinha também acompanharam os preparativos. 

[António Franco Trindade || ANTT || RGP/4 || PT-TT-PIDE-E-010-1-4]

No dia 24 de Abril de 1932, quando o grupo experimentava o material na Serra de Monsanto e se treinava sob a instrução de Manuel Francisco da Silva, a PSP e a Polícia Especial do Ministério do Interior intervieram e prenderam alguns dos presentes, entre eles António Franco Trindade, Abel Augusto Gomes de Abreu (gráfico da Casa da Moeda), Álvaro Augusto Ferreira, Carlos Luís Correia Matoso (estudante de Agronomia), Eduardo Valente Neto (marítimo), João Lopes Dinis (canteiro, faleceu no Tarrafal em 12/12/1941), Manuel Francisco da Silva (pedreiro) e Silvino Fernandes Costa (ajudante de farmácia). Outros, conseguiram fugir.

Do Cadastro Político de António Franco da Trindade, consultado na Torre do Tombo, consta que ele "é elemento duma actividade extraordinária e perigosíssimo pela acção revolucionária desenvolvida, sendo de notar que, como funcionário do Estado, não hesitou em sacrificar o seu lugar aos manejos revolucionários em que se envolveu" [Cadastro 5992].

Fez parte da leva de 143 presos políticos que, em 19 de Novembro de 1933, embarcou no vapor Quanza, fundeado a cerca de 500 metros da praia sul de Peniche, com destino à Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, onde chegou a 22.

Julgado, em 24 de Agosto de 1934, pela Secção dos Açores do Tribunal Militar Especial, foi condenado, tal como muitos dos seus camaradas, a 14 anos de degredo e à multa de vinte mil escudos.


[António Franco Trindade || ANTT || RGP/4 || PT-TT-PIDE-E-010-1-4]
Embora tenha interposto recurso, a sentença foi confirmada em 30 de Agosto e, em 23 de Outubro de 1936, integrou a primeira leva de presos políticos que seguiu para o Campo de Concentração do Tarrafal.

Aí, integrou a Organização Comunista Prisional do Tarrafal (OCPT) e, na sequência de divergências no seu seio, formou, com Álvaro Duque da Fonseca, Boaventura Gonçalves, Fernando Macedo, Fernando Quirino, Jaime Tiago, José de Sousa, Leonilde Felizardo e Virgílio de Sousa o Grupo dos Comunistas Afastados, sendo todos expulsos do Partido Comunista em 1943 [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal - Uma Biografia Política, Vol. I, 1999]. 

Em 1945, subscreveu a exposição dirigida por presos políticos no Tarrafal à Comissão Executiva do Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde se saúda e apoia as resoluções tomadas na sessão de Outubro de 1945. Subscreveram-na ainda, António Batista, António Gato Pinto, António Gonçalves Coimbra, Armindo Guimarães, Constantino, Eurico Martins Pires, Francisco Silvério Mateus, Jaime Tiago, João Maria, Joaquim Pedro e  Tomás Marreiros [Casa Comum/Fundação Mário Soares]. 

António Franco Trindade só foi libertado (liberdade condicional) do Tarrafal em 30 de Maio de 1950. A liberdade definitiva só se deu em 2 de Junho de 1953, passando a residir na Rua António Pedro, 54, 1.º - Lisboa.

Dos 18 anos que esteve preso, três foram passados na Fortaleza de São João Baptista, Açores, e catorze no Tarrafal, Cabo Verde.

Fontes: ANTT, Cadastro Político 5992; RGP/4.

[João Esteves]
[Revisto em 25/11/2021]

domingo, 31 de janeiro de 2016

[1328.] EMÍLIA DIONÍSIA FERREIRA DOS SANTOS SILVA VERDIAL [I] || REPUBLICANA, FEMINISTA E ANTIFASCISTA

* EMÍLIA SANTOS SILVA [VERDIAL] *

REPUBLICANA, FEMINISTA E ANTIFASCISTA || PORTO

[Emília Santos Silva || A Pátria || 14/02/1911 || in Fina d'Armada, As mulheres na implantação da República || 2010]

Professora primária, republicana e democrata portuense. 

Filha de Ana Teixeira [f. 01/06/1894] e de Dionísio Ferreira dos Santos Silva [1853-1920], comerciante de chapelaria, proprietário de jornais e um dos envolvidos na revolução republicana de 31 de Janeiro de 1891, tendo sido detido no Aljube do Porto e enviado para bordo do paquete Moçambique, onde seria julgado em Conselho de Guerra e absolvido.

Irmã do médico republicano Eduardo Ferreira dos Santos Silva [18/03/1879 - 14/09/1960] e de mais três professoras [Elvira, Etelvina e Evangelina], sendo que todos os nomes começavam pela letra E. 

Emília Santos Silva casou com o oposicionista ao Estado Novo Mem Tinoco Verdial [n. 03/12/1887], engenheiro industrial e professor nos Institutos Industriais de Lisboa e Porto e Instituto Comercial do Porto, deputado pelo Partido Democrático entre 1919 e 1921 e, posteriormente, activista do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Também o sogro de Emília Santos Silva, o ator Miguel Henriques Verdial [1849-1922, bisavô de Sérgio Godinho], era outro dos revolucionários do 31 de Janeiro, tendo sido degredado para África.

Oriunda de uma família portuense conhecida pelo republicanismo e combate antisalazarista, a sua intervenção cívica prolongou-se por décadas. 

Enquanto professora no Clube Republicano Rodrigues de Freitas, no Porto, foi, durante a Monarquia, a primeira oradora republicana daquela cidade [Fina d’Armada].

Em carta enviada ao irmão, datada de 3 de Janeiro de 1910, propõe-se discutir, «ou antes debiquemos um pouco sobre feminismo», assumindo-se como intransigente defensora dos direitos das mulheres em igualdade com os dos homens, pois não reconhecia às mulheres direitos diferentes dos daqueles. Nessa significativa missiva, rebate ponto por ponto a opinião de Eduardo Santos Silva de que «a mulher deve pugnar pelos seus direitos e não pelos mesmos direitos do homem, porquanto ela não é igual a ele», concluindo que a «Humanidade tanto se compõe de homens como de mulheres e não pode haver duas liberdades diferentes e antagónicas, uma para cada sexo. E é por isso, caro Eduardo, que eu queria - e por que não? - ver a mulher associada a todos os ramos da atividade humana.» [in Gaspar Martins Pereira, Eduardo Santos Silva. Cidadão do Porto (1879-1960), Campo das Letras, 2002].

Em Fevereiro de 1911, foi nomeada professora da Escola Normal do Porto.


[Diário do Governo || 44 || 23 de Fevereiro de 1911]

Pertenceu, tal como a cunhada, a actiz Alda Henriques Verdial [Godinho] [15/05/1889 - 26/01/1964], avó de Sérgio Godinho, e outros familiares ao Núcleo Feminino de Assistência Infantil, criado em 30 de Agosto de 1916 no âmbito da Junta Patriótica do Norte, e foi subscritora permanente da Casa dos Filhos dos Soldados, destinada a acolher e educar os órfãos de guerra. 

Nos anos 40, era directora da Escola Primária da Fábrica de Têxteis de Pinto de Azevedo, na Areosa.

Mãe de seis filhos, um dos quais Rolando dos Santos Silva Henrique Verdial [n. 22/05/1924] com responsabilidades clandestinas no Partido Comunista Português. 

Emília Santos Silva Verdial foi vítima das perseguições à família durante a ditadura do Estado Novo e faleceu em 7 de Outubro de 1960, no regresso de uma visita ao filho, então preso em Caxias. 

Segundo o jornal Avante!, de Novembro de 1960, o seu desaparecimento foi acelerado pela forma desumana e humilhante como a PIDE a tratou, não atendendo sequer à sua idade avançada: começou por impedir a visita do dia 6 de Outubro pelo facto de Emília e Mem Verdial, vindos do Porto, terem chegado minutos depois da hora regulamentar; no dia seguinte concederam-na, mas não foi permitida aos pais que se aproximassem do preso, o beijassem e abraçassem; e o desenlace fatal deu-se no regresso a casa, chegando já sem vida à sua residência. 

O sucedido serviu para o Avante! alertar para a forma como o regime ditatorial tratava os familiares e presos desde sempre, assinalando que «milhares de pessoas, numa significativa manifestação de dor e de repulsa, incorporaram-se no funeral de D. Emília Verdial, uma Mãe portuguesa como tantas e tantas outras, vítimas do ódio do ditador fascista ao longo destes 34 anos» [“D. Emília Verdial morta em consequência das perseguições às famílias dos presos”, Avante!, n.º 295, Novembro de 1960]. 

Emília Dionísia Ferreira dos Santos Silva faleceu menos de dois meses depois do desaparecimento do irmão Eduardo, falecido a 14 de Setembro de 1960.

Em 1962, aquando da evocação em ditadura do dia 8 de Março no Porto, entre as iniciativas constava o apelo «para que se cobrissem de flores as campas de Herculana de Carvalho [1900-1952] e Emília Verdial, mães dos dirigentes comunistas Guilherme da Costa Carvalho e Henrique Nuno Verdial» [Manuel Tavares, Feminismos. Percursos e Desafios (1947-2007), Texto Editores, 2010, p. 136].

Apesar da intervenção pública de Emília Santos Silva e, provavelmente de uma ou outra irmã, a atenção tem recaído unicamente sobre o progenitor e descendentes masculinos.

NOTA: No seu livro Republicanas quase desconhecidas [Temas e Debates, 2011], Fina d'Armada insere uma fotografia do casal Alda Verdial/Francisco Magalhães Godinho, cunhados de Emília Santos Silva Verdial [p. 97].  

[João Esteves]
[actualizado em 16 de Abril de 2017]

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

[1323.] CÉLIA PESTANA OLIVEIRA [IV]

* O CENTRO ESCOLAR REPUBLICANO ALMIRANTE REIS (CERAR) - SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA || 2011 *

[Fonte da Palavra || 2011]

Trata-se, cem anos depois, da reconstituição possível da edificação, apogeu e declínio do Centro Escolar Republicano Almirante Reis, numa luta persistente e profícua contra a deterioração de muitas das fontes – documentais, materiais e humanas – e a inexistência de um arquivo organizado. 

Por ser um trabalho pioneiro, a investigação de Célia Pestana funciona, simultaneamente, como um estudo de caso e propõe, implicitamente, uma metodologia exequível em futuras abordagens de outros grémios, pois muitos existiram disseminados pelo país e a merecerem urgentemente idênticos estudos. 

Além do mais, dá visibilidade merecido aos “dois esteios do Centro” durante décadas – António Lomelino e Armando Castanheira – que exerceram a cidadania no quotidiano, sendo naquele Centro que teve lugar, a 8 de Outubro de 1945, a importantíssima reunião fundadora do Movimento de Unidade Democrática e, por isso, foi-lhe atribuído em 1987 o Título de Membro Honorário da Ordem da Liberdade. 

É mais uma obra a acrescentar à pujante bibliografia publicada aquando das comemorações do centenário da República, tornando-se de leitura e consulta obrigatórias por conter uma abordagem diferenciada de um dos pilares mais duradouros do republicanismo e da República: os Centros Escolares Republicanos.




[Faces de Eva || 28 || 2012]

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

[1298.] EMA QUINTAS ALVES [I]

* EMA ZAIRA QUINTAS ALVES *
[1915 - 1993]

[Diário de Lisboa || 28/01/1949]

Professora, pedagoga, seareira e consequente oposicionista à ditadura do Estado Novo. 

Filha de António Quintas Alves, nasceu em 12 de Fevereiro de 1915, em Torres Vedras, e faleceu em 1993, com 78 anos. 

Licenciou-se, em 1938, em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e frequentou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, no início da década de 40, o Curso de Bibliotecário-Arquivista e o Curso de Ciências Pedagógicas.

Iniciou a carreira docente em Setúbal, no Liceu de Bocage (1938/1939), lecionou na Escola Secundária de Torres Vedras, no Externato Marquesa de Alorna, em Lisboa, e, a partir do ano letivo 1942/1943, na École Française de Lisbonne, atual Lycée Français Charles Lepierre.

Neste Liceu marcou, no final da década de 40, a jovem Luísa Ducla Soares que, em 2010, lembrou que lhe deu "muita força para continuar a escrever" e "foi a pessoa que mais contribuiu para que eu tivesse confiança em mim do ponto de vista da escrita. Nós às vezes esquecemos – eu também esqueci – aquilo que os professores fazem por nós. Alguns fazem barbaridades, é uma verdade, mas há outros que descobrem em nós, melhor do que a própria família, as potencialidades que temos, e que são capazes de apostar numa criança. Isso tem muita importância; julgo que isso me aconteceu e nunca agradeci a quem o fez, a Dra. Ema Quintas Alves, que era aliás uma seareira (colaborava com uma revista literária chamada Seara Nova), uma pessoa notável [...] uma estudiosa e, como digo, uma pessoa muito ligada a diversos temas intelectuais e também à literatura infantil". 

Foi autora da obra pioneira Pequenas bibliotecas: como as organizar modernamente e como utilizá-las (1946), inserida na Biblioteca Cosmos dirigida por Bento de Jesus Caraça, em resultado da sua experiência enquanto bibliotecária da Biblioteca Municipal de Lisboa (1945 e 1946). 


Traduziu, para a mesma colecção, o livro de M. Iline, 100000 porquês: uma viagem à roda da casa (1948) e dirigiu, nos anos 60, a Colecção Cosmos Juvenil. 

A par da intervenção pedagógica e empenhamento de uma vida na criação de condições para a implementação de literatura para a infância e juventude, tendo visitado, em diversos países da Europa, estabelecimentos de ensino, museus pedagógicos e bibliotecas e participado em estágios e colóquios, manteve, desde os tempos de estudante, actividade de oposição ao salazarismo.

[Diário de Lisboa || 28/01/1949]

Assinou, em 1945, as listas para a constituição do Movimento de Unidade Democrática (MUD) [Alberto Vilaça, Para a História Remota do PCP em Coimbra. 1921-1946, Lisboa, Edições Avante!, 1997]; apoiou a candidatura de Norton de Matos a Presidente da República, cabendo-lhe a leitura da mensagem de Isabel Aboim Inglês na sessão realizado na Voz do Operário no dia 29 de Janeiro de 1949; fez parte da Comissão Central do Movimento Nacional Democrático Feminino (MNDF), juntamente com Maria Lamas, Maria Isabel Aboim Inglês, Cesina Bermudes e Manuela Porto; integrou a Comissão Nacional do 3.º Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro entre 4 e 8 de Abril de 1973. 

Colaborou nas revistas Labor, Os Nossos Filhos, dirigida por Maria Lúcia Vassalo Namorado [Ana Maria Pires Pessoa, A Educação das Mães e das Crianças no Estado Novo: a proposta de Maria Lúcia vassalo Namorado, texto policopiado, Tese de Doutoramento em Ciências de Educação, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, 2005, 2 Vols]; Seara Nova [“Sobre o ensino da língua pátria”, nº 1490, 1969, pp. 413-414, “O ensino da língua no contexto social”, nº 1494, 1970, pp. 128-130]; e Vértice [“As modernas bibliotecas de crianças”, 1953]. 

Na década de 1980, integrou o grupo de docentes do Liceu Francês que lutou contra a extinção da sua Seção Portuguesa. 

Doou a importante biblioteca particular e outra documentação à Biblioteca Municipal de Torres Vedras.

Foi inserida uma pequena biografia em Feminae. Dicionário Contemporâneo [CIG, 2013], encontrando-se o texto mais completo e pormenorizado sobre a vida e obra de Ema Quinta Alves no Portal da Educação da Câmara Municipal de Torres Vedras.

[João Esteves]

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

[1194.] ETELVINA LOPES DE ALMEIDA [IV] || 1916 - 2004

* ETELVINA LOPES DE ALMEIDA *
[Serpa, 17/03/1916 – Tábua, 30/04/2004]


[Fontanelas]

O nome de Etelvina Lopes de Almeida merece atenção não só pelo percurso profissional e enquanto escritora, mas também enquanto lutadora pelos direitos das mulheres, oposicionista à Ditadura e construtora de um país livre, nunca, mesmo em tempos difíceis, sombrios e adversos, deixando de intervir enquanto cidadã.

Nascida em 1916, em Serpa, filha de dois professores primários, fez a instrução primária em Idanha-a-Nova e, depois de um percurso atribulado, a família fixou-se em Lisboa, tendo então frequentado o Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho e um colégio interno, em Queluz. 

Naquele Liceu foi aluna de Olímpia Perry Vidal Pereira Bastos - filha do republicano e militar João Pereira Bastos - que tinha sido ativista, quando estudante, da Associação de Propaganda Feminista e que militou, na década de 40, no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas [integrou, entre 1940 e 1943, a Secção de Literatura, com as ativistas Leontina Hogan, Maria da Luz Albuquerque, Maria da Luz de Deus, Maria Lamas e Teresa Leitão de Barros]. 

Afirmou-se profissionalmente na Rádio Renascença e, seguidamente, na Emissora Nacional, onde foi afastada por motivos políticos, tendo ainda sido chefe de redação da revista Modas & Bordados, onde colaborou e trabalhou com Maria Lamas.

Enquanto mulher atenta aos problemas e dificuldades das outras mulheres, aderiu, em 1945, ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido por Maria Lamas e onde Sara Beirão tinha tido igualmente um papel relevante.

Assistiu a várias reuniões, disso dando conta as respetivas atas, esteve representada com O tontinho da esquina na Exposição Livros Escritos por Mulheres, iniciativa do Conselho realizada na Sociedade Nacional de Belas Artes em Janeiro de 1947, e participou nas conferências então realizadas, juntamente com Maria Lamas, Fernanda Tasso de Figueiredo, Maria Palmira Tito de Morais, Maria Helena Lucas, Alice Maia Magalhães, Maria Alda Nogueira, Joana Campino Miguel, Carmen Dolores, Manuela Porto, Maria da Luz Espírito Santo, Maria Valentina de Sousa, Maria Teresa Ana de Neves, Benvinda Caires e Amália Neves.

No dia 8 de Janeiro, Etelvina Lopes de Almeida e Carmen Dolores leram textos e declamaram poemas de várias autoras, cujos perfis foram esboçados por Joana Campina Miguel.

Terá militado também na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, ambas agremiações encerradas e proibidas pela Ditadura.

A sua consciência política levou-a a enfrentar publicamente essa mesma Ditadura: aderiu, em 1945, ao MUD – Movimento de Unidade Democrática; subscreveu, em 1948, um documento a solicitar o fim da censura e a libertação dos presos políticos, sendo, por isso mesmo, afastada da Emissora Nacional no ano seguinte; participou nas campanhas de Norton de Matos e do general Humberto Delgado; e, em 1962, denunciou a Guerra de África, sendo, então, demitida da revista Modas & Bordados.

Foi ainda, segundo Maria Antónia Fiadeiro, uma mulher generosa, solidária e amável, nomeadamente aquando da prisão de Stella Piteira Santos em 1961.

Se a adesão ao associativismo feminino e as iniciativas contra a Ditadura já bastariam para que o nome de Etelvina Lopes de Almeida ficasse registado na História, em 1969 integrou o grupo restrito de mulheres que fizeram parte das listas da oposição candidatas à Assembleia Nacional.

Depois de Lília da Fonseca ter sido o primeiro nome feminino a integrá-las em 1957, Etelvina Lopes de Almeida fez parte, juntamente com Joana de Barros e Sophia de Mello Breyner Andresen, das listas da CEUD dinamizadas por Mário Soares, colaborando e discursando em inúmeras iniciativas que os jornais República e Diário de Lisboa destacaram.

Na Fundação Mário Soares há várias fotografias dessa época e em que é percetível a presença de Etelvina Lopes de Almeida.

Tinha então 53 anos e era, a seguir a Raúl Rego, a candidata mais velha pelo círculo de Lisboa.

Em todo o país, foram apenas 11 as mulheres candidatas pela Oposição, sendo somente 25 as que integraram as suas listas entre 1945 e 1974.

O 25 de Abril de 1974 apanhou-a com 58 anos feitos, tendo Etelvina Lopes de Almeida continuado a revelar-se uma cidadã empenhada, interveniente e militante.

Foi reintegrada na Rádio em 26 de Julho de 1974, passou a chefiar, em 1975, o departamento da RDP Internacional e aderiu ao Partido Socialista, tendo sido uma das primeiras mulheres a ser eleita deputada para a Assembleia Constituinte de 1975 (cerca de 9% de mulheres) e, nas eleições subsequentes, para a Assembleia da República, sempre pelo distrito de Évora.

Numa intervenção feita na Assembleia Constituinte afirmou que a sua vida de antifascista começou aos 16 anos, «visitanto presos nas cadeias», tendo a sua mãe sido professora de Francisco Miguel e outros comunistas eleitos deputados «fizeram antifascismo dentro da minha casa com o meu pai» [fotocópia do Diário da Assembleia Constituinte cedida pela Dr.ª Edite Estrela].

Em 1993, presidiu em Estrasburgo a uma sessão do parlamento Europeu para idosos, de que resultou a Carta Europeia para os Idosos.

Revelou-se igualmente como escritora, tendo o conto Maria Verdade, editado em 1952, sido muito bem acolhido pela crítica e estado na origem de uma peça de teatro representada no Teatro de S. Luís.


Escreveu, ainda, Bia Calatroia, «a história de uma mulher sofrida, igual a tantas outras» centrada no Alentejo (1948), Histórias que o mundo conta, bem como o conhecido ABC da Culinária, apreendido pela PIDE na grande confiscação feita nos armazéns da editora Europa-América.


Enquanto escritora, integrou, em 1959, a direção da Sociedade Portuguesa de Escritores presidida por Jaime Cortesão.

Em 1995, foi agraciada pelo Presidente da República Mário Soares com a Comenda da Ordem de Mérito

Fez parte da Associação das Mulheres Socialistas, que a homenageou em 1994, e manteve a mesma militância política até ao fim, tendo dedicado os últimos anos de vida à Fundação Sara Beirão – António Costa Carvalho, em Tábua, instituição fundada por si e pelo amigo e correligionário Igrejas Caeiro. 

Diga-se, num aparte, que Sara Beirão foi uma das militantes da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas em Tábua, ainda antes da implantação da República, e integrou a direção do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas nos anos 30 e 40.

Em 2001, três anos antes do seu desaparecimento físico, Etelvina Lopes de Almeida declarou num autorretrato feito para a revista Faces de Eva que «Não lamento nada do que me aconteceu. Quero que se saiba que não trocava a minha vida por nada».

Faleceu em 2004, a 30 de Abril, em Tábua, 20 anos depois de se ter aposentado da RDP.

[João Esteves ||
19 de Novembro de 2015]

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

[1071.] MARIA IRENE COELHO CORTESÃO ABREU [I] || 1924 - 2010

* IRENE CORTESÃO *
[1924 - 2010]


Professora. 

Nasceu na freguesia de Cedofeita, Porto, a 23 de fevereiro de 1924, filha de Elvira Peixoto Coelho Cortesão Abreu [1890-1982], que tinha a instrução primária, e de Camilo Zuzarte Cortesão Abreu [17/06/1890 – 22/02/1966], que chegou a estudar na Faculdade de Letras e abandonou-a por se envolver em questões políticas. 

O avô materno era proprietário de fábricas em Vila do Conde; a mãe era prima de Leonardo Coimbra; e o pai era primo direito de Jaime Cortesão, tendo Irene Cortesão casado com o filho deste, o médico António Augusto Zuzarte Cortesão [1916-1995], e de Maria Ester Zuzarte Cortesão [24/06/1882 – 12/03/1914] que, em 20 de Novembro de 1910, presidiu à sessão fundadora do Núcleo de Cantanhede da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e foi eleita sua Secretária. 

Oriunda de uma família com intenso envolvimento político republicano e, posteriormente, oposicionista, tendo o pai participado nas primeiras revoltas contra a Ditadura Militar, andou fugido, foi deportado para S. Tomé e Príncipe, viveu em Espanha e, finalmente, exilou-se no Brasil onde faleceu, a mãe desempenhou papel crucial na sua formação, transmissão de valores, educação e estabilidade. 

Irene Cortesão, tal como a irmã Elvira, fez em casa a instrução primária com professoras particulares, estudou no Liceu Carolina Michaëlis por decisão da mãe, onde sofreu algumas contrariedades por não ser baptizada e não ter aderido à Mocidade Portuguesa Feminina e foi aluna de Natércia Freitas Guimarães da Silva [Medina] [1914-1963], professora efectiva de Biologia e futura activista da AFPP (sócia nº 193). Licenciou-se em Ciências Biológicas na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. 

Na década de 40, juntamente com a irmã Maria Elvira Coelho Cortesão Abreu [25/03/1921 – Dezembro de 2011], integrou o grupo fundador da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde era a sócia nº 124 segundo apontamentos de Irene Castro, tendo a irmã mais nova, Maria Luísa Coelho Zuzarte Cortesão [n. 1932] pertencido à mesma agremiação. 

O marido consta do rol de sócios auxiliares da AFPP/Porto, onde era o sócio nº 135, foi por duas vezes preso [1935, 1958], ambos pertenceram ao MUD, sendo muitas vezes em casa das irmãs Cortesão que se reunia a sua Comissão Feminina, e participaram na campanha presidencial de Norton de Matos em 1949. 

Enquanto activista da AFPP, Irene Cortesão participou regularmente nas suas iniciativas e reuniões, tendo sido entrevistada por Lúcia Serralheiro em 8 de Abril de 2002 sobre essa militância [Mulheres em grupo contra a corrente, Edições Evolua, 2011]. 

O percurso profissional enquanto professora foi afectado por pertencer a uma família oposicionista. Segundo relato de Vanda Gorjão, que entrevistou Irene Cortesão em 21 de Fevereiro de 1999, então com 74 anos, “começou a dar aulas no Colégio Araújo Lima, «um colégio de gente que, em princípio, era de esquerda». Quando precisou de legalizar a sua situação, o Ministério da Educação recusou-lhe o diploma de ensino particular. Sem conseguir colocação em nenhum estabelecimento de ensino, ficou dois anos em casa, dando lições particulares e escrevendo sebentas à máquina. Um período que recorda como muito difícil: «fui uma aluna bem classificada, todas as minhas colegas ocuparam lugares na Faculdade e eu fiquei em casa. Foi muito duro. [...] Senti imenso que estava a ser realmente penalizada»”. Por fim, devido “a intervenção de um parente e da família de uma ex-aluna, movendo influências, permitiram-lhe obter o diploma do Ministério, quando o mesmo já lhe tinha sido recusado antes. «Pude então dar aulas. Não continuei no Colégio [porque] tinha um ambiente pouco do meu agrado: eram meninas bem. Gostei muito mais de passar para o ciclo preparatório»” [Vanda Gorjão, Mulheres em tempos sombrios. Oposição feminina ao Estado Novo]. 

Após a data de 25 de Abril de 1974, foi autora de programas e manuais escolares e, segundo Lúcia Serralheiro, foi pioneira na escrita de um manual de educação sexual. 

Sócia nº 1635 da Associação de Solidariedade Social dos Professores. 

A Câmara Municipal do Porto, presidida por Fernando Cabral, atribuiu-lhe a Medalha de Mérito em 15 de Junho de 1989. 

[João Esteves]