[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

[1054.] MARIA ARMANDA GONÇALVES TELES [I] || 1931- 2009

* MARIA ARMANDA GONÇALVES TELES *
[25/11/1931 - 04/06/2009]


Filha de Américo Simões Teles [1893-1989], funcionário dos correios e fundador do Museu Marítimo e Regional de Ílhavo e de Leontina Berta Pontes Gonçalves [f. 1979], também funcionária dos correios.

Maria Armanda Gonçalves Teles nasceu em 25 de Novembro de 1931, na Senhora da Hora, Matosinhos, mas foi registada em Campanhã, Porto, cidade onde viveu, exerceu a actividade profissional, desenvolveu a militância política e faleceu em 4 de Junho de 2009, com 77 anos de idade. 

Casou, em 8 de Março de 1952, com Hernâni Alfredo Ramalho e Silva [10/01/1927-1999] que conhecera no MUD Juvenil. 

[Maria Armanda Teles || Retrato de Júlio Pomar in FNM || Década de 1950]

Iniciou a militância antifascista muito nova, ainda na década de 40: em 1947, com 16 anos, incorporou-se no funeral de Abel Salazar; dois anos depois, em 1949, participou na campanha eleitoral do general Norton de Matos, nomeadamente no comício na Fonte da Moura, em Aldoar; pertenceu ao MUD Juvenil; integrou com a irmã, Maria Ondina Gonçalves Teles, a Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde era a sócia n.º 355, com residência na Rua Formosa, 165, 3.º, tendo-se envolvido, em 1950, nas conferências para a Paz de Teixeira de Pascoaes, no âmbito das comemorações do XV aniversário da AFPP no Porto; em 1951, esteve no comício de apoio à candidatura presidencial de Ruy Luís Gomes; interveio na campanha de Humberto Delgado, em 1958; associou-se, em 1969, à homenagem prestada a Mário Sacramento; participou no III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro; colaborou, em 1973, na homenagem ao Dr. Arnaldo Mesquita, advogado e defensor dos presos políticos e, quatro dias antes do 25 de Abril de 1974, no jantar de homenagem a Óscar Lopes

[Maria Armanda Teles || 1958 || Fotografia in FNM]

Apoiou as sucessivas comemorações do 1.º de Maio, 5 de Outubro e 31 de Janeiro e militou no Partido Comunista, tal como o marido, várias vezes preso (1950, 1953 e 1955) e torturado. 

O marido também foi ativista da AFPP, sendo o sócio (auxiliar) nº 248. 

No âmbito da militância comunista, fez entrega de jornais e de outra propaganda, acompanhou o marido em muitas das suas atividades clandestinas e contribuiu para o disfarce dos encontros simulando piqueniques ou convívios entre amigos e filhos, nomeadamente em praias e pinhais. 

Em 1950, ainda menor e quando da primeira prisão de Hernâni Silva, foi sujeita a interrogatórios intimidatórios na Subdirectoria do Porto, na Rua do Heroísmo, acusada de distribuir propaganda subversiva. 

Durante as prisões de Hernâni Silva, Maria Armanda esteve sempre presente e apoiou-o em tudo que lhe era possível: visitas, correspondência, encomendas, transmissão de mensagens e denunciando os maus-tratos na prisão, não havendo, durante os cinco anos de reclusão, “um dia em que não se correspondesse com o marido, mesmo que as cartas fossem censuradas ou não chegassem ao destinatário”. 

Nunca deixou de ser vigiada, seguida e intimidada pela PIDE, sofrendo a sua habitação várias visitas repentinas da polícia política e, “posteriormente, numa fase de actividade política mais discreta, Hernâni, com a colaboração de Maria Armanda, cumpriu tarefas de apoio, ligação e alojamento a funcionários clandestinos do seu partido”. 

Entretanto, Maria Armanda Gonçalves Teles concluiu os cursos de línguas dos Institutos de francês, inglês e italiano, frequentou, em 1954, os cursos de Radioterapia e de Técnica de Radiologia, que fez em simultâneo no Hospital Geral de Santo António, no Porto e, em 1956, concorreu a uma vaga e ficou colocada, primeiro no serviço de Radioterapia e, mais tarde, no serviço de Radiologia, tendo integrado a sua gestão a seguir ao 25 de Abril de 1974. 

Após esta data, manteve a mesma intervenção política e cívica: integrou o Sector Intelectual do Partido Comunista; fez parte do Movimento Democrático de Mulheres; integrou o núcleo do Porto da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP); interveio na comissão promotora da homenagem a Irene Castro em 11 de Outubro de 1992, assim como na comissão que promoveu a 8 de Março, durante dois anos, a homenagem de saudade Irene Castro, Amélia Cal Brandão e Herculana de Carvalho, todas sócias da AFPP da Delegação do Porto. 

Ajudou a criar e organizar com Maria Alcina Gomes, casada com o advogado Arnaldo Mesquita, companheiro de prisão do marido, o Sindicato dos Técnicos Paramédicos que abrangia todos os técnicos de Saúde, tendo sido a sócia n.º 5, delegada sindical e pertencido à Direção e Conselho Fiscal. 

O marido faleceu em 1999 e as duas irmãs, Armanda e Ondina Gonçalves Teles, faleceram ambas em 2009. Prima de Maria Berta Gomes, com quem participou em várias iniciativas do MUD Juvenil e que casaria com Júlio Pomar. O casal teve quatro filhos [Sílvia, Paulo, Sónia e Cláudia], tendo a primeira morrido com um ano de idade. 

A filha Sónia escreveu detalhada entrada biográfica da mãe para Feminae. Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013]. 

[João Esteves]

terça-feira, 4 de agosto de 2015

[1050.] VIRGÍNIA FARIA DE MOURA [I] || 1915 - 1998

* NASCIDA HÁ CEM ANOS *

[19/07/1915 - 19/04/1998]

Engenheira Civil, a primeira no país. 

Nasceu em São Martinho do Conde, concelho de Guimarães, a 19 de julho de 1915, filha de mãe solteira, professora do ensino primário que teve de enfrentar a reação desfavorável da família e criar sozinha a criança, e faleceu no Porto a 19 de abril de 1998, com 82 anos de idade. 

O pai, militar muito mais velho do que a mãe, partiu para a Primeira Guerra pouco depois, mantendo com a filha uma relação esporádica, embora a tenha perfilhado. 

Viveu, até aos 14 anos, na terra natal, onde a mãe lecionava crianças durante o dia e ensinava os pais à noite. Estudou no liceu de Guimarães do 1º ao 4º ano e, no final dos anos 20, com a transferência daquela para Vila do Conde, passou a frequentar o liceu da Póvoa de Varzim onde, em 1931, se estreou politicamente ao participar numa greve de solidariedade com os estudantes da Faculdade de Medicina do Porto devido ao assassinato do estudante João Martins Branco (Abril). 

Mudou-se para o liceu feminino do Porto, cidade onde conheceu António Lobão Vital [1911-1978], estudante liceal que a influenciou nas leituras, e ingressou na Faculdade de Engenharia, sendo a primeira mulher a licenciar-se em engenharia civil, área onde exerceu a atividade profissional. 

Cursou ainda Matemática e chegou a frequentar a Faculdade de Letras de Coimbra. 

Aderiu, com 18 anos, ao Partido Comunista Português e nesse ano de 1933 participou na secção portuguesa do Socorro Vermelho Internacional, organização de ajuda aos presos políticos portugueses e espanhóis. 

Virgínia Moura tornou-se uma das militantes comunistas, a par de Luísa [1898-1966] e Aida Paulo [1918-1993], com atividade continua e duradoura iniciada ainda antes da reorganização do PCP em 1940-1941, centrando-a na cidade do Porto onde vivia. 

Casou ainda estudante, em 1935, com o arquiteto António Lobão Vital, também destacado militante comunista nortenho, manteve-se organizada sob orientações de Fernando Correia, Manuel de Azevedo ou Joaquim Pires Jorge [1907-1984], e coube-lhe importante papel nos movimentos unitários no norte em que o Partido Comunista tinha responsabilidades: Movimento Nacional de Unidade Antifascista (MUNAF), Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde integrou a Comissão Distrital, Movimento Nacional Democrático (MND), Comissão Nacional para a Defesa da Paz (CNDP), sendo ainda a sócia nº 95 da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, com residência na Rua Santa Helena, 115. 

Foi em sua casa que funcionou a comissão diretiva inicial do periódico Sol Nascente [1937-1940], onde utilizou o pseudónimo Maria Selma, e colaborou nos anos 40 e 50, com o mesmo pseudónimo, nos periódicos O Trabalho, O Diabo, Pensamento e Ecos do Sul

Escreveu, nos anos 40, “Carta a uma mulher moderna”, apelando à participação da mulher na sua própria emancipação. 

Envolveu-se na candidatura de Norton de Matos [1867-1955] à Presidência da República [1949], sendo um dos elos entre o PCP e aquele, e discursou no comício realizado na Fonte da Moura, Porto, a 23 de janeiro de 1949. 

Aquando da prisão, em Março desse ano, de Álvaro Cunhal [1913-2005], Militão Bessa Ribeiro [1896-1950] e Sofia de Oliveira Ferreira [1922-2010] na casa clandestina do Luso e transferência dos presos para a sede da PIDE Porto, foi o seu grupo que tornou público, incluindo mediante anúncio publicado no jornal Primeiro de Janeiro, essas detenções, evitando o risco de “desaparecerem” sem rasto devido à relevância dos primeiros dois nomes. 

Com Ruy Luís Gomes [1905-1984] e outros nomes oposicionistas nortenhos, impulsionou a formação, em abril de 1949, da estrutura política unitária do Movimento Nacional Democrático, de forte influência comunista, integrando a Comissão Central e a Comissão Distrital do Porto, na sequência do qual seria presa a 17 de dezembro. 

Recolheu ao Forte de Caxias, onde conviveu na mesma cela com Cecília Simões Areosa Feio [1921-1980], Georgette de Oliveira Ferreira [n. 1925] e Maria Lamas [1893-1983], tendo as vendedeiras do Mercado do Bolhão parado a venda e manifestado-se contra a sua detenção. 

Libertada com as outras detidas, à exceção de Georgette Ferreira, na véspera de Natal, mediante elevada fiança cuja quantia se obteve mediante redes de solidariedade. 

Juntamente com Ruy Luís Gomes, discursou no funeral de Militão Ribeiro, enterrado em Murça na sequência da morte a 3 de janeiro de 1950 quando detido na Penitenciária de Lisboa. 

Presa novamente no Porto a 19 de janeiro e a 12 Abril de 1950. 

No ano seguinte, aquando da candidatura de Ruy Luís Gomes à presidência da República, envolveu-se, mais uma vez, numa campanha eleitoral, tendo ficado para a história a forma como discursou e foi agredida, juntamente com o candidato, Albertino de Macedo [1910-1997], José Cardoso Morgado [1921-2003], Lino Lima [1917-1999] e Lobão Vital, pela PSP após o comício realizado em Rio Tinto, Porto, a 3 de julho de 1951. 

Nova prisão na mesma cidade a 5 de fevereiro de 1952 e enviada para o Forte de Caxias. 

Detida em Peniche a 19 de novembro desse ano, recolheu a Caxias. 

Em 1953, aquando do Congresso da União Internacional dos Arquitetos realizado em Lisboa, participou ativamente nos debates, preocupando-se com a temática da colaboração entre arquitetos e engenheiros. 

Tornou a ser presa, no Porto, a 26 de dezembro. 

Participou, em março de 1954, na V Reunião Ampliada do Comité Central do PCP e foi novamente presa no Porto a 19 de agosto de 1954. 

Presa no Porto a 16 de agosto de 1956, com Albertino Macedo, José Morgado, Lobão Vital e Ruy Luís Gomes, enquanto dirigente do MND. 

No ano seguinte, durante o V Congresso do PCP realizado numa casa em S. João do Estoril, foi eleita para o Comité Central, apesar de ser um quadro que estava na legalidade e sempre se manteve nessa situação. 

Nas eleições presidenciais de 1958, não perfilhou qualquer simpatia pela hipótese de Cunha Leal [1888-1970] e postou-se ao lado da candidatura de Humberto Delgado [1906-1965], em detrimento da de Arlindo Vicente [1906-1977]. 

Presa no Porto a 28 de abril de 1962. 

Participou nos três congressos da Oposição Democrática de Aveiro, realizados em 1957, 1969 e 1973 e integrou a lista do círculo do Porto da Comissão Democrática Eleitoral candidata às eleições para a Assembleia Nacional de 1969, voltando a colaborar na campanha eleitoral de 1973. 

Apresentou em 1969, com o marido, uma comunicação ao II Congresso Republicano de Aveiro sobre “Casas dos trabalhadores nos centros urbanos”. 

Entre 1949 e 1974, foi presa por 16 vezes, totalizando 6 anos nas prisões do regime. 

Usou o pseudónimo “Xavier”. 

Devido à sua postura política, nunca foi admitida na função pública, o mesmo acontecendo com o marido. 

Após a data de 25 de Abril de 1974, foi distinguida com a Ordem da Liberdade [01/10/1985] e recebeu a medalha de Honra da Cidade do Porto e do Movimento Democrático de Mulheres. 

No dia do seu 80º aniversário, o Partido Comunista Português prestou-lhe homenagem no Palácio de Cristal tendo, nessa ocasião, sido lançado o livro Virgínia Moura mulher de Abril. Álbum de Memórias

[Edições Avante!, 1996]

Faleceu no Porto a 19 de Abril de 1998, com 82 anos de idade. 

Teixeira de Pascoaes [1877-1952] definiu-a como “uma força da natureza”. 

domingo, 2 de agosto de 2015

[1047.] ANTÓNIO BORGES COELHO] [II] || ENTREVISTA DE CÉSAR AVÔ


* ENTREVISTA DE CÉSAR AVÔ A BORGES COELHO PUBLICADA NO JORNAL SOL EM 1 DE JULHO DE 2015 *

«Aos 86 anos, o historiador lança o quinto volume da sua História de Portugal - Os Filipes e trabalha já no próximo. Desculpa para ouvirmos um vulto da Cultura falar não só sobre a História de Portugal, mas também da sua, da descoberta de Marx em Murça através de um pedreiro à prisão em Peniche, da primeira experiência nos jornais à entrada na Faculdade de Letras, dez anos depois de Raízes da Expansão Portuguesa ter feito furor e sido censurado.

Em Os Filipes há algum dado que tenha destapado?
Tem uma estrutura bastante diversificada e que partiu dos factos, uns mais conhecidos, outros menos, uns propositadamente esquecidos e fundamentais que ficaram no limbo e agora foram postos em relevo. Por exemplo, a resistência dos Açores aos Filipes durante três anos é conhecida, mas praticamente poucos portugueses, excepto os açorianos, terão consciência disso. Foi uma resistência terrível. Também não sendo uma novidade, subestima-se o que foi a repressão em Lisboa e o assalto espectacular à capital pelo exército do duque de Alba e pela esquadra do marquês de Santa Cruz. E fala-se na monarquia dual, mas não era nada, era o projecto da monarquia católica universal. É evidente que o elemento que sustentava essa guerra era o ouro e a prata produzidos na América espanhola. Há livros fundamentais e a História de Portugal dirigida por Damião Peres em 1940 tem grandes colaboradores e está em muitos aspectos inteiramente válida hoje.

Pensava que era datada, típica do Estado Novo.
É uma visão nacionalista, mas tem alguns autores que não perderam a actualidade na História política. Nos últimos anos tem havido uma subestimação da História Política. Nenhum autor, sobretudo isolado, pode abarcar toda a vastíssima informação que houve no passado. Também não é necessário lê-la toda, mas a mais significativa. Não é por deitar pedras daqui da janela que provo a lei da atracção universal. Já está provada. Não se pode é ignorar a História Política. Os homens fazem a História e herdam um passado. Foi assim e não assado porque intervieram, quer colectivamente, quer individualmente. O historiador tem de estar envolvido na política, não pode estar a sachar cebolas e se não acompanha o movimento colectivo não compreende os documentos que lhe aparecem à frente.

Voltando ao livro, há pormenores muito interessantes, como os falsos sebastiões.
É curioso e mostra como aquilo que alguns autores falaram da identidade hispânica e que se davam todos muito bem, ao nível popular, caramba, houve uma reacção que atingiu proporções… Oliveira Martins exagerou ao dizer que Portugal acordou com as bofetadas da França e de Inglaterra. Houve apoios e interesses dos ingleses e dos franceses, mas houve participação popular.

O livro demonstra muitas mudanças de posição.
Não é só hoje. Se hoje fizermos um retrato dos políticos no 25 de Abril e agora há mudanças do arco-da-velha.

Cita muito uma fonte, Pero Roiz Soares, que tem um estilo muito romanceado. É totalmente crível?
A literatura não é inimiga da História. Fernão Lopes, João de Barros ou Alexandre Herculano são grandes escritores. A História não é uma linguagem matemática. Utilizo esta fonte que tem sido completamente ignorada, mas ela é confirmada por uma série de outras fontes. Ele faz um relato fantástico sobretudo de Lisboa num período determinante para a História dos Filipes. 

Qual foi o grande erro da dinastia filipina? Não transformar Lisboa na capital do reino?
Isso é entrar muito nos 'ses'. Um dos 'ses' fundamentais é que a grande burguesia foi expropriada. Quem são as principais vítimas da Inquisição? A grande burguesia portuguesa e a que emigrou para Espanha e outros locais e à qual não lhe era permitida o desenvolvimento. Os que se mantiveram cá punham os capitais nos inimigos de Espanha. O grande problema é a derrota do projecto filipino, no final da Guerra dos Trinta Anos, com o Tratado de Vestfália que é a vitória da Europa do Norte, e a derrota do Papado e da monarquia habsburga. Isso de a capital ser Lisboa, especula-se, é uma coisa tradicional. Se tivesse acontecido seria mais difícil a Restauração, indiscutivelmente.

Disse que a História política é subestimada. Revê-se na corrente de Fernand Braudel?
Foi uma grande corrente. Eu fui sempre muito individualista. Se for ver as minhas referências vai ler que me põem sempre como marxista e nem sequer sabem o que li. Tive muita honra e muito orgulho em ler Marx, mas li muitos outros filósofos e muitos outros contemporâneos. A História não se faz através da ideologia, faz-se a partir dos factos e há ferramentas que são específicas da História. Pode-se dizer que Marx me influenciou no sentido de olhar para as pessoas? Sim, e todo o mundo contemporâneo. Há um autor contemporâneo por quem tenho uma admiração especial, o Eric Hobsbawm, que tem uma obra fantástica, A Era dos Extremos, e que é uma época mais difícil trabalhar, que é a época contemporânea. Agora menos, mas durante anos tinha sempre um livro de filosofia à cabeceira. Podia ser de um pré-socrático, podia ser dos dois filósofos que mais estudei na minha vida, Espinosa e Leibniz. Marx influenciou-me na minha vida política, o que não quer dizer que só falo depois de pedir opinião ao Marx. 

Revê-se hoje em Marx?
Considero um livro como o primeiro volume de O Capital uma obra admirável. Para achar que tem razão em tudo? Não pode ser esse o espírito de leitura, que é a leitura crítica. Se me perguntar pelo Manifesto Comunista, está actual? Há coisas que estão actuais, outras não. O tempo amarelece as folhas.

Poria a pergunta de outra forma. Revê-se na aplicação do marxismo na política?
Isto vai escandalizar os meus amigos: a aplicação do marxismo é a introdução de um certo espírito religioso na política. Aceito que na política haja certos autores como modelos. Mas não vou pedir licença ao autor tal para aprovar uma certa lei. Temos de partir da realidade viva e temos instrumentos de pensamento e aí entra Marx e entram outros autores. E entra tudo o que foi o final do século XIX e o século XX. E quando entra tudo, meus amigos, temos de deitar a mão à cabeça e confessar que correu de uma forma… enfim, não quero mais falar sobre isso.

Quando é que Marx entrou na sua vida?
Muito cedo, tinha eu uns 17 anos, em Trás-os-Montes. 

Não devia ser um autor muito lido em Murça.
Saí do seminário convencido de que ia para o Inferno, mas a achar que antes isso do que continuar ali. Acabei por ser expulso. Saí quase com dificuldade em falar com as pessoas. Depois tornei-me muito amigo de um sobrinho do Militão Ribeiro, um grande militante comunista, e um mártir do fascismo, a expressão que lhe cabe é essa. E foi através de um pedreiro que li o Manifesto Comunista, numa tradução espanhola. Tinha escondido numa lata do quintal várias obras e disse-me: 'Ó senhor Toninho, leia que vai gostar'. E de facto gostei, é um texto político fantástico.

Saiu do seminário porquê?
Sentia-me enclausurado. Disseram-me que perdi a vocação e que esse pecado, segundo o confessor, era imperdoável. O que até nem é correcto do ponto de vista religioso, porque todo o pecado é perdoável. Os nossos Descobrimentos foram fertilíssimos em pecados perdoáveis. Não sei se a consciência tinha aguentado tanto pecado mundo fora (risos).

Esteve lá quantos anos?
Cinco. Saí quando terminou a guerra, 1945. No quinto ano não estudei e escrevi uma História da Literatura Grega e Latina e queria ir embora. Estava a pensar fugir, mas acabei expulso.

Como vem parar a Lisboa?
Concorri a Direito e vim fazer o exame de admissão. Foi com o pretexto de que vinha estudar, mas já na altura tinha ideias revolucionárias, e a família não queria que viesse. Cheguei a Lisboa e não tinha dinheiro. Tive o apoio de estudantes de Medicina, que me matavam a fome e vivi no quarto de um conterrâneo. Só três meses depois consegui arranjar emprego. 

Lisboa abriu-lhe os horizontes.
As eleições presidenciais e a faculdade também abriram… Entrei no MUD Juvenil.

Quem era a sua referência na altura?
O Carlos Aboim Inglez, que era meu colega de ano e de curso, e que me introduziu no MUD Juvenil. E um médico radiologista, que ainda hoje é vivo, que me matriculou em Histórico-Filosóficas porque desisti de Direito. Fiz o primeiro ano, depois vivi como membro do MUD Juvenil como quadro clandestino até ser chamado para funcionário do Partido Comunista durante meio ano.

Preferiu Lisboa a Coimbra, porquê?
Na minha terra não andavam na universidade sequer dez pessoas. Andava o meu irmão que era filho de uma lojista e de um guarda-fios, e depois havia os filhos dos senhores agrários e grandes comerciantes. Iam geralmente para Coimbra, para as estúrdias, era isso que atraía. Lisboa abria a porta para o mundo. E eu já tinha vivido em Lisboa durante dois anos. Os meus pais fixaram-se entre o largo do cemitério do Alto de São João e a Graça. A minha mãe abriu uma espécie de mercearia e o meu pai trabalhava como guarda-fios.

Por que voltaram para Murça?
A minha mãe tinha pequenas propriedades e havia diferenças no casal por causa disso. E o meu pai conseguiu ser colocado em Murça. Já antes tinha ajudado na construção das linhas da zona de Aveiro. O meu irmão mais velho foi gerado nessa linha (risos). A minha mãe voltou à terra e ficou muito conservadora, muito católica apostólica romana. Só no fim da vida é que ficou cheia de dúvidas.

E quanto a si, é crente?
Não. Houve coisas muito positivas na Igreja portuguesa e outras extremamente negativas. Respeito muito os homens da Igreja actual e ex-colegas meus. Por outro lado, em relação ao destino do homem, tenho a noção clara de que somos bocadinhos de nada no universo. A mitologia das religiões intelectualmente não me diz nada. Percebo, mas estou perto do Espinosa, quando escreveu que são instrumentos teórico-práticos de obediência. Sem ritual não há religião, não há crença. Eu mantenho algumas coisas. Às vezes gosto de cantar o cantochão. Gosto, é belo, acalma-me. Tive uma batalha muito grande para me libertar, tive conflitos e problemas gravíssimos na minha vida, mas esse não aflora.

É ateu?
Se lhe dermos o significado do Deus das religiões positivas, nesse sentido sou ateu. Tenho ternura por Jesus Cristo. Tive este sentimento ao longo da vida, gosto dos Salmos, não propriamente da História do povo de Israel. Agnóstico também não sou, porque significa que sobre este tema tenho dúvidas e se calhar o Deus de Israel existe e vai julgar-me. Essa conversa não é para mim. Há pessoas que têm necessidade de acreditar nos símbolos, etc., eu compreendo, tudo bem. Mas foram utilizados para fins nada brilhantes, como é o caso da Nossa Senhora de Fátima. Não brinquem comigo, vão lá com os três pastorinhos.

Acha que foi uma fraude?
Está provado pela documentação. Mas dirão: a razão não chega, a crença nasce do sentimento. No meu tempo houve uma segunda Nossa Sra. de Fátima em Trás-os-Montes. Não eram três pastorinhos, mas uma pessoa que tinha as chagas de Cristo. Um dia juntaram-se 50 mil pessoas e viram o sol a mudar de cor. Só que era gente a mais, uma concorrência muito grande para Fátima. E a senhora veio para a penitenciária de Coimbra. Esteve lá uma semana e continuou com as chagas. Proibiram as freiras de visitá-la, não chegou o nitrato de prata e as chagas acabaram. O padre e o médico seu irmão estavam na base de tudo isso.

Voltando atrás. Quem era o seu controleiro no MUD juvenil?
Era o Dias Lourenço, foi o homem da mais audaciosa fuga de Peniche. E tive um outro, Guilherme de Carvalho, que esteve no Tarrafal, era filho de um banqueiro e é sogro de outro banqueiro, o Pina Moura.

Esteve preso na mesma altura que Álvaro Cunhal?
Estive dois anos com o Cunhal em Peniche. 

Foi logo para lá quando foi preso?
Não. Fui preso em Janeiro de 56 e estive meio ano nas celas do Aljube. Depois fui para Caxias, e daí fui levado em Dezembro para o Porto, onde fui julgado no processo do MUD Juvenil. O processo demorou cerca de sete meses, com sessões de manhã, à tarde, e algumas à noite, com 52 réus jovens e dois adultos, que eram o Óscar Lopes e um advogado. Fui condenado a dois anos e nove meses.

Peniche era a mais dura das prisões?
Claro que era. Era um regime celular, cada um na sua cela. Havia quatro faxinas diárias, limpeza, varrer, lavar a loiça e por vezes descascar a batata. Quando não havia castigo uma hora de recreio e havia uma hora à tarde, no refeitório, em que podíamos escrever à família, ler e fazer perguntas por intermédio do guarda: 'Ó senhor guarda, posso perguntar?'. Era este o regime que melhorou ligeiramente pouco antes da fuga. Houve um grande movimento internacional e uma visita de personalidades estrangeiras à prisão. Então deixaram entrar um gira-discos e as perguntas tornaram-se mais simples, mas de resto tudo na mesma.

Conversava com Álvaro Cunhal?
Cifrado. Tínhamos uma linguagem própria. Havia determinadas palavras que não eram as autênticas. No recreio o guarda estava sempre no meio e dizia 'Fale mais alto que eu também quero ouvir'. Mas nós tínhamos a voz treinada e a voz ia até determinado sítio. De vez em quando ia qualquer coisa para o alimentar. E havia contacto com o exterior. A fuga foi organizada no interior e no exterior. Foi uma fuga espectacular.

Teve hipótese de fugir?
Tive. Não quis porque nessa altura continuava no partido mas queria levar a vida que levei depois, isto é, queria escrever, etc. Depois da fuga foi muito difícil, fui parar ao Aljube e à estátua. Represálias. Foi um trauma muito grande na minha vida. Quando saí, mais tarde, estava em liberdade mas sentia uma mágoa pelos outros que lá estavam presos. Os laços que se criam com os companheiros da prisão são indestrutíveis.

Quando é que saiu da prisão?
Em Maio de 62, em plena luta académica.

Entretanto casara-se na prisão.
A minha mulher, Isaura Silva, esteve quatro anos presa. Não era comunista, era do MUD Juvenil, estava envolvida na luta das enfermeiras, pelo casamento das enfermeiras. Estava proibida de me visitar porque não era minha parente. Mas houve uma luta para nos casarmos e acabou por ser autorizado. Aí vai a noiva no carro com o filho do Monjardino, que era o patrão dela na maternidade, e com as testemunhas. As minhas eram a Maria Amélia Padez, uma antifascista casada com um polaco que ajudou muitos portugueses a emigrar para Paris; o Alexandre O'Neill; e os meus cunhados que eram os padrinhos da noiva. O meu sogro fez um escândalo porque eu estava de um lado da mesa e a noiva do outro. Lá ficámos ao lado um do outro e ao fim de uma hora tudo acabou.

A comida era a da prisão?
Não, os meus sogros levaram e também vinho. Nós podíamos beber vinho uma vez por ano, no Natal, uma canequinha.

Como conheceu o O'Neill?
No MUD Juvenil. Fui um dos homens de contacto dele. E foi uma das casas onde dormi. Andei dois anos sem salário nem residência fixa. Com ele discutia poesia. Tínhamos longas discussões e chegou a propor-me fazer poemas em conjunto. 

Para as novas gerações a luta da sua mulher é algo de fantástico.
As enfermeiras e telefonistas não se podiam casar, é uma coisa incrível. As pessoas não têm ideia do que era o fascismo e há muita gente que acha que era bom, que havia autoridade.

Como foi quando saiu da prisão?
Tive à volta de 30 empregos. O essencial foi tradutor e explicador de História e Filosofia e fundador d'A Capital. Saí ao cabo de dois anos. Eu estava em liberdade condicional e queriam que eu fosse para a Rodésia cobrir a guerra colonial, e eu recusei. Depois mandaram-me a Peniche cobrir uma visita do Américo Tomás, a guarda de honra eram os guardas prisionais. Quando cheguei à redacção anunciei que me ia embora.

Como é que o tratam? Por professor?
Muita gente trata-me por professor. Estive como professor universitário durante 24 anos na Faculdade de Letras. E no período mais polémico, mais vivo e mais criador da alteração das estruturas, de reformas efectivas, com os estudantes e professores a terem um papel fundamental. 

Foi um tempo apaixonante.
Apaixonante. Hoje até me dá alguma tristeza entrar nos corredores da universidade e vê-los quase desertos. Naqueles tempos estavam sempre cheios de gente. E não era só a namorar. Não havia gabinetes, o meu gabinete foram os corredores ou uma sala ad-hoc. A investigação era feita em casa. 

Vivia em Lisboa?
Sim, mas coincidiu com o 25 de Abril vir para aqui (Parede). Fui um desalojado do 25 de Abril. A minha casa era de um cunhado meu que estava no exílio e voltou, pelo que vim para a minha casa de férias.

Havia muita discussão na faculdade?
Muita tensão. Mas isso fez parte e era gratificante.

Na altura tudo se punha em causa.
Exactamente. Vou dar-lhe um exemplo, sobre um seminário criado em 1974 sobre o infante D. Henrique. Caiu-me por acaso em cima e eu cheguei à universidade com a fama de ser o diabo vermelho. Quando entrei na sala do seminário verifiquei que os alunos olharam para mim com o ar de 'só nos faltava aparecer este'. Limitei-me a dizer: 'Em relação às vossas opiniões não tenho nada com isso. A única coisa que vocês têm de fazer é basearem-se sempre em documentação e depois têm as opiniões que quiserem'. Sei que passados aí dois meses estavam muito mais exaltados do que eu no mundo social e político. Não que eu fosse discutir política para a aula, na aula discutia as matérias. Para mim foi importantíssimo porque aprofundei conhecimentos e voltei-me para o ensino sempre com a intenção de indagar, de ir ao fundo, de não ficar pelo que disseram todos até à data, mas sim encontrar coisas novas, com base na documentação, e levar os alunos a interessarem-se pela investigação.

Como eram as suas aulas?
Geralmente tinham uma introdução e depois havia um debate sobre a matéria. Havia efectivamente intervenção dos alunos. Eram aulas extremamente vivas.

De certo modo era uma novidade.
Era. No meu tempo, os professores debitavam, os alunos tiravam notas, faziam uma sebenta e empinava-se. Comigo havia uma bibliografia mínima e para avaliação havia um trabalho que podia ser individual ou de grupo. 

A sua tese de doutoramento foi sobre a Inquisição de Évora. Porquê?
Começou por uma tentativa de mostrar como o pensamento moderno tinha a ver com a crise de cristãos-novos e cristãos-velhos e a emigração europeia a ela ligada. Tinha como centro a obra de Espinosa e o envolvimento dos cristãos-novos portugueses em Amesterdão. À medida que avancei à procura dos familiares de Espinosa levou-me a entrar a fundo na Inquisição de Évora. Alguns alunos meus fizeram o inventário dos processos da Inquisição de Évora até um determinado período e eu trabalhei sobre isso durante quase nove anos. Julgo não se ficar apenas pelo tribunal mas tenta verificar e qualificar as vítimas e dar ideia do que foi o imenso sofrimento das vítimas e do que isso significou para a cultura e para a História portuguesa e de que ainda hoje temos os restos em cima de nós. 

Que restos são esses?
É o espírito da denúncia: o tribunal vivia da denúncia, o pensamento estava continuamente em análise, os próprios pensamentos secretos estavam sob alvo da pesquisa da Inquisição. Dizia-se antes que a Inquisição nos livrou das guerras da religião. E o que ela nos trouxe? Queimaram em praça pública três mil desgraçados, muitos deles inocentes. Isto é diabólico e nós como povo ainda não tomámos consciência do que foi. Nem a Igreja, que foi a principal responsável.

A Inquisição foi um dos factos mais tenebrosos da História de Portugal?
Em certo sentido foi o pior, porque se manteve quase durante três séculos. Ao nível criador é terrível. Não é um acidente como o terramoto de 1755 ou a guerra da Restauração, que foi muitíssimo violenta. A Idade Média foi muito dura mas pôs a região portuguesa e de certo modo a Península Ibérica num grande desenvolvimento, para os parâmetros da época. Foi uma época extremamente criadora, foi essa geração de Aljubarrota que lançou Portugal na expansão. 

Estava a dizer que ficou nos portugueses o espírito da denúncia. E que mais marcas?
O medo. 

Os portugueses continuam com medo?
Ainda há muito medo. A prova disso é que os movimentos cívicos em Portugal têm pouca força. A situação social actual, com desemprego em massa, cria um medo terrível. Esta é a situação real no inconsciente colectivo, sobretudo nas zonas mais conservadoras.

Tendo em conta que estudou a presença árabe no nosso território, surpreende-o a barbárie do Estado Islâmico?
Se regressarmos à Idade Média, há um islão criador, no sentido em que vai buscar o passado greco-romano, e que conservou algumas obras fundamentais. E do lado cristão, vamos à Restauração, e como era castigada uma conjura? Pescoço fora, forca de cabeça para baixo ou de cabeça para cima, arrastados depois de mortos pelas ruas e partidos aos bocados. Toda a prática do medo é bárbara, miserável é o termo, e o equivalente quando destroem a memória da humanidade. Na verdade o Ocidente tem também muita culpa no cartório. A exploração das matérias-primas com a conivência de pequenas dinastias e de ditaduras terríveis. O que não quer dizer que devemos ficar parados a olhar.

Também pelo facto de muitos desses combatentes serem ocidentais.
Porque é que na Europa tantos jovens se deixam atrair, embora muitos enganosamente, para a aventura? O número de jovens que nos países desenvolvidos não se acham realizados é extremamente preocupante.» 


quinta-feira, 30 de julho de 2015

[1045.] MARIA FERNANDA CORTE REAL GRAÇA E SILVA [III]


A reconstrução de biografias de ativistas é um ofício inacabável e quando se trata de nomes silenciados pelo tempo a tarefa revela-se difícil e morosa.

Retoma-se novamente o esboço biográfico da "abrantina" Maria Fernanda Corte Real Graça e Silva, nome que o Blogue Cidadãos Por Abrantes deu o devido relevo, subentendendo-se que muito mais haveria a dizer. Tornou-se agora possível colmatar algumas lacunas a partir do livro Mulheres Contra a Ditadura, de Cecília Honório [Bertrand, 2014]. Muito continua por dizer, sobretudo na parte referente ao período posterior ao 25 de Abril de 1974.

Filha de Emília de Mascarenhas Corte Real Graça e Silva, com raízes numa família abastada, monárquica e conservadora do Algarve, e do republicano Henrique Augusto da Silva, advogado e conservador do Registo Civil de Beja, nasceu em Setúbal a 1 de Outubro de 1925. 

Frequentou o Colégio do Sagrado Coração de Jesus entre a 1ª classe e o 3º ano, quando passou para um liceu estatal, e cursou Direito na Universidade de Lisboa. 

Começou cedo a sua militância política, a que não terá sido alheia o republicanismo e antisalazarismo do pai, bem como a perseguição a este movida pelas autoridades do Estado Novo por ter assinado as listas do Movimento de Unidade Democrática e o convívio com oposicionistas comunistas. 

Na Faculdade, fez parte do MUNAF, a convite de um colega de Direito; em 1945, com 19 anos, associou-se ao numeroso grupo de estudantes que aderiu ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, "com o cartão n.º 416" [Cecília Honório]; no ano seguinte, integrou a Comissão Central do MUD Juvenil com, entre outros, António Abreu, Francisco Salgado Zenha, Júlio Pomar, Mário Sacramento, Mário Soares, Octávio Pato e Rui Grácio, sendo a única mulher; e conheceu o futuro marido, Orlando Rodrigues Bento Pereira, estudante do 2.º ano e dirigente estudantil ligado ao Partido Comunista. 

Data de então a sua adesão a este, fazendo-se a intervenção no âmbito daquela organização juvenil, onde foi a única mulher a ter lugar na primeira direcção composta por dez homens, tendo-se evidenciado enquanto "organizadora por excelência" e como oradora, discursando em diversas sessões do MUD e do MUD Juvenil. 

Vigiada desde 1946 pela PIDE, tanto politicamente como na vida privada, foi presa enquanto dirigente do MUD Juvenil por duas vezes: a primeira ocorreu em Évora, juntamente com Júlio Pomar, a 27 de Abril de 1947, sendo libertada quatro meses depois, não podendo então concluir o curso. Por sua vez, Orlando Pereira seria preso dois dias depois, a 29 de Abril, e libertado a 14 de Agosto de 1947. 

A segunda prisão deu-se quando já era funcionária do Partido Comunista, sendo detida em Beja em 24 de Abril de 1948: recolheu mais uma vez ao Reduto Norte do Forte de Caxias e saiu em liberdade condicional passados três meses, em 29 de Julho, por a sua saúde inspirar cuidados. O seu advogado era Manuel João da Palma Carlos.

Em 1949, apoiou ativamente a campanha presidencial de Norton de Matos e foi julgada inicialmente pelo Tribunal Plenário de Lisboa em 15 de Março, sendo condenada a 40 dias de prisão correccional e suspensão de todos os direitos políticos por três anos. No entanto, a sentença seria agravada para 100 dias de prisão correccional, por acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 19 de Julho de 1950. 

Casou neste ano e a partir de 1951 a militância foi-se desvanecendo em resultado de passar a residir com a família em Abrantes, para onde o marido fora tomar conta de um escritório de um advogado amigo.

No entanto, em 1958 interveio na candidatura de Arlindo Vicente, tendo discursado em 18 de Fevereiro numa sessão em Alpiarça; em 1961, o marido foi candidato às eleições por Santarém pela Oposição Democrática; e Maria Fernanda voltou a participar ativamente na campanha eleitoral de 1969, sendo oradora no comício realizado pela CDE em Santarém a 4 de Outubro de 1969. Neste mesmo ano, "declarava o seu apoio à luta dos estudantes" [Cecília Honório] de Coimbra.

A vigilância da PIDE/DGS manteve-se, pelo menos, até 1972, sendo que, segundo nota de Cecília Honório, "em 20 de Abril de 1972 regista-se o envio de duas fotos ao Posto de Santarém e identifica-se o seu filho, Orlando Rodolfo" [CH, Mulheres Contra a Ditadura]. 

Na sequência da revolução de Abril de 1974 e da nomeação do marido como notário, partiu para Lisboa. Só então concluiu o curso, tantas vezes adiado ora por questões políticas, ora pelo nascimento dos filhos. 

Na capital, retomou as ligações partidárias, leccionou no Liceu Passos Manuel a disciplina de Introdução à Política e exerceu, por escasso tempo, a advocacia num escritório particular. 

O quarto volume de Presos Políticos no Regime Fascista insere cópia da sua “Biografia Prisional”, incluindo as três habituais fotografias enquanto presa política. 

Vanda Gorjão entrevistou-a para o seu trabalho Mulheres em tempos sombrios. Oposição feminina ao Estado Novo, citando-a com frequência. Trata-se, aliás, de uma obra imprescindível para compreender o percurso pessoal, político e profissional de Maria Fernanda Silva, bem como das mulheres oposicionistas da mesma geração. 

Mais recentemente, em 2014, Cecília Honório dedicou-lhe um capítulo na obra Mulheres Contra a Ditadura, intitulado "Maria Fernanda Corte Real Graça e Silva e a primeira Comissão Central do MUDJ".

[João Esteves]

[1044.] RIA FORMOSA [IV]






quarta-feira, 29 de julho de 2015

[1043.] JOÃO GOMES JÚNIOR [III]

 [1872-1957/8]
 
[João Gomes Júnior, já octogenário no quintal da sua residência em Coimbra]

Filho de Guilhermina dos Prazeres e de João Gomes, nasceu em Coimbra em 9 de Novembro de 1872.

Industrial e serralheiro de reconhecida arte, foi activista do Partido Republicano de Coimbra - Comissão Paroquial da Freguesia de Santa Cruz, onde era em 1910 o respectivo Secretário. 

Aquando do triunfo da Ditadura Militar, enfileirou a oposição ativa republicana e sofreu duras consequências políticas e económicas.

Imprimiu e distribuiu clandestinamente nos anos 30, no armazém que detinha na Rua da Sofia, números do jornal A Verdade, afecto a Afonso Costa, e na sequência dessas actividades andou fugido à Polícia Política, bem como vários filhos, foi preso, condenado e os bens apreendidos.

Depois de ter conseguido andar fugido à polícia política durante muitos meses, escondendo-se onde podia na zona da Figueira da Foz, Lares e Coimbra, foi finalmente preso em Coimbra em 29 de Agosto de 1936, quando tinha 63 anos de idade.

Transferido para o Aljube em 26 de Setembro de 1936, foi deportado já sexagenário para a Fortaleza de Angra do Heroísmo em 17 de Outubro do mesmo ano.

Regressou em 8 de Novembro de 1937, tendo sido então restituído à liberdade [TT, RGP, Livro 22, R. 4058; PIDE/DGS, SC, PC 1184/36 NT 4448].


Pai de José Gomes dos Santos [19/03/1899-03/04/1991], antifascista muito conhecido em Coimbra que também passou pelo Aljube, Peniche e Fortaleza de Angra do Heroísmo, e de Mário Gomes dos Santos, preso no Aljube do Porto em 1934 e que não manteve posterior militância oposicionista; e avô de Lucinda Mariana Gomes Franco [01/11/1923-10/01/2012].