[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

[1983.] JOSÉ DIAS COELHO [X] || POEMA DE CARLOS ABOIM INGLEZ (1962)

* "NA MORTE DO ZÉ"
POEMA DE CARLOS ABOIM INGLEZ
[05/01/1930 - 13/02/2002]

Escrito de 1962, quando estava preso em Peniche e teve conhecimento do assassinato do Cunhado e Camarada José Dias Coelho


[Soma Pouca || Edições Avante! || 2003]

[1982.] JOSÉ DIAS COELHO [IX] || INTERVENÇÃO DE JOSÉ CARDOSO PIRES EM 19 DE JUNHO DE 1974

* JOSÉ CARDOSO PIRES SOBRE JOSÉ DIAS COELHO *

Prá frente, meu coração
José Cardoso Pires

Excertos da intervenção de José Cardoso Pires na homenagem a José Dias Coelho, na Sociedade Nacional de Belas Artes, a 19 de Junho de 1974


[1981.] JOSÉ DIAS COELHO [VIII] || AUTO-RETRATO

* JOSÉ DIAS COELHO || ASSASSINADO PELA PIDE HÁ 57 ANOS *
[19/06/1923 - 19/12/1961]

[Auto-retrato [Agosto de 1952] || Museu do Neo-Realismo]

in Catálogo da Exposição "O desenho na obra de José Dias Coelho" || MNR, 2008 

Curadoria: David Santos | Luísa Duarte Santos


[CM de Vila Fanca de Xira | Museu do Neo-Realismo || 2008]

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

[1980.] FERNANDO BIANCARD RAPOSO [I] ANARQUISTA

* FERNANDO BIANCARD RAPOSO *
[1912 - ]

Preso em 1932, por estar a ler «jornais de carácter avançado», e em 1934, por distribuir e vender A Batalha

[Fernando Biancard Raposo || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Filho de Lucinda Biancard Raposo e de Francisco Campos Raposo, Fernando Biancard Raposo terá nascido em 1912, em Lisboa

Empregado do comércio, residia no Beco do Funileiro - 9.

Preso no Jardim da Praça da Armada pela Polícia de Segurança Pública e entregue, em 24 de Outubro de 1932, à Polícia de Defesa Política e Social, sendo libertado neste mesmo dia [Processo 548].

Detido juntamente com Edmundo Almeida Barros, José dos Santos Ferreira e Mário Biancard Raposo, «quando ali se encontravam reunidos lendo jornais de carácter avançado» [ANTT, Cadastro Político 4945].

[Fernando Biancard Raposo || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Dois anos depois, em 1 de Junho de 1934, «foi preso por ser simpatizante anarquista», manter ligações com José Severino de Melo Bandeira, de quem recebeu «vários manifestos de carácter anarquista, dos quais fez distribuição» e ter-se mobilizado para participar na Greve Geral Revolucionária de 18 de Janeiro, concentrando-se, com outros, na Rua Ferreira Borges.

Fracassado aquele movimento, aceitou a incumbência de José Severino de Melo Bandeira para distribuir o jornal A Batalha, tendo vendido 70 exemplares do N.º 1 e 40 do N.º 2 [Processo 1237/SPS].

[Fernando Biancard Raposo || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-4-NT-8904 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Entrou no Aljube em 19 de Fevereiro de 1935.

Julgado pelo Tribunal Militar Especial de 23 de Março de 1935, foi condenado a 180 dias de prisão correccional e perda de direitos políticos por cinco anos [Processo 218/934, do TME].

[Fernando Biancard Raposo || ANTT || RGP/321 || PT-TT-PIDE-E-010-2-321_m0249]

Por já ter terminado a pena, saiu em liberdade em 30 de Março de 1935.

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Registo Geral de Presos / 321 [Fernando Biancard Raposo / PT-TT-PIDE-E-010-2-321_m0249].
ANTT, Cadastro Político 4945 [Fernando Biancard Raposo / PT-TT-PIDE-E-001-CX09_m0148, m0148a].

[João Esteves]

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

[1979.] JOSÉ RAMOS VARGAS [I] || DAS PRISÕES NO TEMPO DA 1.ª REPÚBLICA AO TARRAFAL

* JOSÉ RAMOS VARGAS ou JOSÉ CÂNDIDO VARGAS JÚNIOR ou JOSÉ DA CONCEIÇÃO ALVES JÚNIOR ou JOSÉ DA CONCEIÇÃO VARGAS JÚNIOR ou JOSÉ VARGAS JÚNIOR || "O CAVALARIA 7" *

O percurso de José Ramos Vargas, "O Cavalaria 7", é atípico em relação ao dos outros presos políticos. 

Várias vezes detido por crimes de delito comum durante a 1.ª República, foi deportado para a Guiné por estar envolvido no atentado a Ferreira do Amaral em Maio de 1925 e, durante a Ditadura Militar, esteve preso em Peniche, foi enviado para a Fortaleza de São João Baptista e acabou no Tarrafal, de onde só foi libertado em 3 de Novembro de 1945. 

Ficou a residir em Cabo Verde.

[José Ramos Vargas || Fotografia de 02/03/1919 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Estivador e marítimo, José Ramos Vargas terá nascido em 1899, em Lisboa, variando os nomes e apelidos da sua filiação consoante os documentos consultados [ANTT, Cadastro Político 4799 e RGP/88].

Entre 26 de Fevereiro de 1919 e 15 de Setembro de 1924, foi preso por onze vezes, por suspeitas de "furto", "roubo", "vadiagem", "arrombamento" e "conto do vigário". Geralmente libertado ao fim de escassos dias, a pena maior que cumpriu foi entre 6 de Fevereiro de 1921 e 5 de Outubro de 1923, tendo o seu processo sido remetido ao Tribunal de Defesa Social. 

[José Ramos Vargas || Fotografia de 02/03/1919 || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Acusado de pertencer à Legião Vermelha, em 25 de Maio de 1925 «foi preso por tomar parte no atentado contra o Ex.mº Senhor Comandante Ferreira do Amaral (Processo N.º 2761)» e, em 29 de Maio, «seguiu a bordo do vapor "Carvalho de Araújo" para a Guiné, por ordem do Governo»  [ANTT, Cadastro Político 4799].

[José Ramos Vargas || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Ter-se-á evadido das Colónias e, em 6 de Outubro de 1933, foi novamente preso em Lisboa «por  suspeita de andar ligado com elementos agitadores». 

Devido à sua «recente actividade revolucionária» [Processo 813], em 19 de Novembro  de 1933 embarcou em Peniche com destino à Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo.

[José Ramos Vargas || ANTT || ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903 || "Imagem cedida pelo ANTT"]

Dois anos depois, em Agosto de 1935, requereu ao Governo que lhe fosse fixada residência em Cabo Verde, «sem dispêndio para a Fazenda Nacional», o que foi recusado pela Secção Política e Social da PVDE, com o argumento de que «o requerente é "O Cavalaria 7", célebre membro da Legião Vermelha. Não tem recursos para viver fora das alfurjas e é um dos espectros de vulto no capítulo do crime, sob pretexto de causa social» [ANTT, Cadastro Político 4799].

Dando seguimento à decisão da PVDE, o Ministro do Interior, em despacho de 16 de Agosto de 1935, indeferiu o recurso de José Ramos Vargas.

[José Ramos Vargas || ANTT || RGP/88]

Em 23 de Agosto de 1936, integrou a primeira leva de presos que foi enviada para o Campo de Concentração do Tarrafal, de onde só seria libertado em 3 de Novembro de 1945.

Ficou, então, a residir em Cabo Verde.

[José Ramos Vargas || ANTT || RGP/88]

NOTA: Atenção ao uso indevido das imagens sem a devida autorização do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Fontes:
ANTT, Registo Geral de Presos / 88 [José Ramos Vargas / PT-TT-PIDE-E-010-1-88_m0182]
ANTT, Cadastro Político 4799 [José Ramos Vargas / PT-TT-PIDE-E-001-CX12_m0626, m0626a, m0626b].
ANTT, Livro de Cadastrados - 1, Fotografia 40  [José Cândido Vargas Júnior / ca-PT-TT-PIDE-Policias-Anteriores-1-NT-8902_m0007].
ANTT, Livro de Cadastrados - 3, Fotografias 2025 [José Ramos Vargas / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903_m0031] e 2031 [José Ramos Vargas / ca-PT-TT-PVDE-Policias-Anteriores-3-NT-8903_m0031].

[João Esteves]

[1978.] JAIME CORTESÃO [II] - RAUL PROENÇA [I] || CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO DO CENTENÁRIO

* JAIME CORTESÃO | RAUL PROENÇA *
[1884 - 1960] [1884 - 1941]

CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO COMEMORATIVA DO PRIMEIRO CENTENÁRIO (1884 - 1984)

Biblioteca Nacional || 1985





[Biblioteca Nacional || 1985]

domingo, 16 de dezembro de 2018

[1977.] JOSÉ BORREGO [II] || COMISSÃO CENTRAL DO MUD-JUVENIL

* JOSÉ MARIA SOARES BORREGO *
[27/03/1918 - ]

[José Borrego || Fotografia de 14/04/1947 || ANTT || RGP/17439]

Quarto filho de Maria José Soares Borrego e de José Maria Borrego Júnior, José Maria Soares Borrego nasceu em 27 de Março de 1918, em Castelo Branco, onde o pai se encontrava com escrivão de direito.

O pai, «militante e propagandista do Partido Democrático de Afonso Costa» e que, quando jovem escrivão de direito em Figueira de Castelo Rodrigo e em Castelo Branco, tinha sido «proprietário, director, redactor e repórter de jornais progressistas e até mesmo proprietário de tipografias várias vezes "empastelada" pelos reaccionários, que o ameaçavam e atacaram várias vezes à paulada, a soco e a tiro», era um democrata e opositor à Ditadura Militar, muito contribuindo para a formação  humana e política dos cinco filhos.

Com oito anos, estando a família já a residir no Porto, José Borrego assistiu à Revolta de 3 de Fevereiro de 1927 contra a Ditadura Militar, disso dando conta num texto que publicou em 1982, na revista História [n.º 40, Fevereiro], intitulado "Fevereiro de 1927: crónica de uma revolta falhada".

[História || Nº 40 || Fevereiro de 1982]

Esses cinco dias intensamente vividos, constituíram uma lição «que nos deixaria marcas que não mais se apagariam».

Em 1936, com dezoito anos, entrou na Escola de Belas-Artes do Porto, onde se evidenciou como activista estudantil. 

Em 4 de Dezembro de 1939, juntamente com os colegas Amândio da Silva, Celestino de Castro, Fernando Monteiro, Francisco Valente, Hernâni Moreira, Joaquim Bento de Almeida, Maria Margarida Soares e Nadir Afonso, assinou a carta enviada ao Ministro da Educação a solicitar autorização para, ao abrigo do decreto regulamentar 21.566 de 6 de Agosto de 1932, fundar a Associação Académica de Belas-Artes do Porto [Gonçalo Esteves de Oliveira do Canto Moniz, O Ensino Moderno da Arquitectura. A Reforma de 57 e as Escolas de Belas-Artes em Portugal (1931-69), Dissertação de Doutoramento em Arquitectura, Coimbra, 2011, Vol. I].

Em 30 de Julho de 1943, segundo Gonçalo Canto Moniz, José Borrego integrou o grupo de 54 estudantes que enviou uma carta ao director da EBAP a apelar à permanência de Carlos Ramos como docente daquela instituição. Entre os subscritores constava, também, o nome de Lobão Vital, cuja amizade se manteve até ao fim.

Em 1946, integrava o denominado “Grupo de Estudantes de Belas-Artes do Porto" que editava um Boletim, promovia actividades e conseguiu, ainda, «implementar o funcionamento de assembleias-gerais de alunos, como espaço de discussão sobre as actividades do grupo e sobre o funcionamento da escola». O Conselho Escolar da EBAP interditou-o e, em 1 de Junho, foi aplicada a vários alunos, entre os quais José Borrego, uma suspensão por 90 dias [Gonçalo Canto Moniz].

Nesse mesmo ano, fez parte da Comissão Central do MUD - Juvenil, juntamente com António Abreu, Francisco Salgado Zenha, Júlio Pomar, Maria Fernanda Silva, Mário Sacramento, Mário Soares, Nuno Fidelino de Figueiredo, Octávio Pato, Óscar Reis e Rui Grácio [apenas Nuno Fidelino de Figueiredo e Rui Grácio não eram membros do Partido Comunista].

No ano seguinte, em 13 de Abril de 1947, foi preso pela PIDE,  saindo em liberdade em 27 de Agosto, tendo o MUD - Juvenil distribuído um panfleto a apelar à sua libertação e de Francisco Salgado Zenha, Augusto Aragão, Almor Viegas Pires, Eugénio de Almeida e outros jovens democratas de todo o país presos à ordem da PIDE [Fundo Alberto Pedroso / Fundação Mário Soares].

Já casado com Júlia Borrego e referenciado como "profissional de arquitectura", foi julgado pelo Tribunal Plenário de 15 de Março de 1949 e condenado em 100 dias de prisão correccional, tendo a sentença sido confirmada por acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 19 de Julho de 1950 [Processo 575/47; anteriormente, já lhe tinha sido aberto o Processo 1659/SR]. 

José Borrego foi, ainda, Sócio Auxiliar da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, a que pertencia a sua mulher.

Em 1951, apoiou a candidatura presidencial de Ruy Luís Gomes subscrita pelo Movimento Nacional Democrático e, aquando do comício realizado em Rio Tinto, no Cine Vitória, foi um dos muitos presentes agredido pela polícia, tendo de se deslocar ao Hospital de Santo António devido a contusões diversas no dorso e pernas [José da Silva, Memórias de um operário, 2.º volume, 1971].


[José da Silva || Memórias de um operário || 1971]

A partir do início da década de 1950, José Borrego aparece associado às actividades do ODAM - Organização em Defesa de uma Arquitectura Moderna / Organização dos Arquitectos Modernos e, entre as suas traduções, consta o livro Manière de Penser l'Urbanisme, de Le Corbusier [Maneira de Pensar o Urbanismo, Publicações Europa-América, 1969].

Só em 1978, 42 anos depois de ter entrado na Escola de Belas-Artes do Porto, é que José Borrego recebeu o respectivo diploma. 

A par da sua intervenção enquanto arquitecto, trabalhando no Porto e em Lisboa, José Borrego foi um dos mais dinâmicos membros do cineclubismo, assumindo diversos cargos no Cineclube Imagem e no Cineclube do Porto.

[João Esteves]

[1976.] AMÍLCAR CABRAL [VIII] || TEXTOS POLÍTICOS

* AMÍLCAR CABRAL *
[1924 - 1973]

TEXTOS POLÍTICOS

Edição Henrique A. Carneiro || Julho de 1974




[Edição Henrique A. Carneiro || Julho de 1974]

[1975.] VITORINO MAGALHÃES GODINHO [I] || UM RUMO PARA A EDUCAÇÃO

* VITORINO MAGALHÃES GODINHO *
[1918 - 2011]

UM RUMO PARA A EDUCAÇÃO

Editorial República || 1974



[Editorial República || 1974]

[1974.]

[16 de Dezembro de 2016]

[1973.] MARGARITA IBÁÑEZ TARÍN [II] || JAIME CORTESÃO, LOS BUDAS Y EL ESCÁNDALO DEL CASO TURQUESA EN LA II REPÚBLICA

* MARGARITA IBÁÑEZ TARÍN *
[Doctora en Historia Contemporánea (Universidad de Valencia). Profesora de Geografía e Historia en el IES Abastos de Valencia. Especialista en la represión franquista y el exilio del profesorado de secundaria]



in 

sábado, 15 de dezembro de 2018

[1972.] JOSÉ BORREGO [I] || A REVOLTA DE 3 DE FEVEREIRO DE 1927, NO PORTO

* JOSÉ BORREGO *
[27/03/1918 - ]



No N.º 40 da revista História, de Fevereiro de 1982, o arquitecto José Borrego descreve o ambiente e episódios da Revolta contra a Ditadura Militar que eclodiu no Porto em 3 de Fevereiro de 1927.

Tinha, então, quase 9 anos, mas o que presenciou, tanto individualmente, como no seio da família ou entre amigos e colegas do Liceu Alexandre Herculano, ficou-lhe para sempre na Memória e fortaleceu o seu trajecto político posterior de resistente antifascista. 


Nesse escrito, insuficientemente conhecido, José Borrego remete-nos para esse longínquo dia 3 de Fevereiro de 1927, quando se encontrava no Liceu, para onde entrara em Outubro de 1926 e cujo Reitor era o republicano Rodrigues Fontinha, e as aulas foram abruptamente interrompidas em virtude de haver "uma revolução".

O pai, José Maria Borrego Júnior, "muito alto, quase dois metros, magro, de fato cinzento quase preto, com o chapéu de abas ligeiramente reviradas para cima, o bigode alourado e sobrancelhas bastas que lhe acentuavam o ar assustador", foi buscá-lo ao estabelecimento escolar, bem como a dois outros irmãos mais velhos, dizendo-lhe que "Desta vez é a sério, ou eles ou nós! Mas deixa lá, tu não percebes isto. É preciso restaurar a República!».

Entrincheirado em casa, localizada na Rua de Santos Pousada, descreve o evoluir do conflito entre os revoltosos e as tropas afectas à Ditadura e os temores por que a família passa, claramente contra o regime saído do 28 de Maio de 1926.

[...]

Dava-se o apoio possível aos revoltosos:


 Ao mesmo tempo que José Borrego descreve a evolução do conflito a favor das forças da Ditadura, evoca os ensinamentos políticos que ele e os irmãos sempre receberam do pai: 

«Todos nós, desde muito novos, ouvíamos o nosso pai fazer uma constante exaltação da ideia republicana e democrática, avançando constantemente uma definição socialista que para sempre nos marcara.»

«Falava-nos dos seus tempos de militante e propagandista do Partido Democrático de Afonso Costa e de como se vira envolvido em violentas lutas contra monárquicos e os reaccionários, quando jovem escrivão de direito na vila beiroa de Figueira de Castelo Rodrigo, depois já em Castelo Branco - num e noutro sítio, proprietário, director, redactor e repórter de jornais progressistas e até mesmo proprietário de tipografias várias vezes "empastelada" pelos reaccionários, que o ameaçavam e atacaram várias vezes à paulada, a soco e a tiro.»

«Descrevia-nos, com pormenores cheios de minúcia, a revolução russa de 1917, falava-nos dos anarquistas ibéricos e dos russos e prenunciava-nos um mundo em que um dia as pessoas teriam todas iguais direitos e deveres, em liberdade e a caminho da abundância e da cultura.»

«Marcara-nos bem com a ideia de que todo o homem tem o direito a uma casa, à alimentação, à saúde e à instrução.»

«Criara-nos o asco às polícias políticas, desde a Inquisição - de que nos contara os horrores -, de Pina Manique, das "Secretas" da monarquia e das ditaduras "republicanas", e fizera-nos ver em que quadro de tirania se estava já a viver e no que se criaria se a revolta fosse perdida.»

«Cultivava em nós o sentido profundo da independência nacional e o da função pública como uma dádiva ao País.»

«E fazia com que não nos esquecêssemos, para o resto das nossas vidas, de que os principais líderes democráticos tinham morrido pobres como sempre tinham sido ou depois de esgotarem as suas fortunas ao serviço do País.»

Esses cinco dias vividos por José Borrego, «que parecia demorarem anos», constituíram uma lição «que nos deixaria marcas que não mais se apagariam».

Fracassada a Revolta de Fevereiro de 1927, triunfou a repressão, as torturas, os fuzilamentos:




Três ou quatro anos depois, José Borrego andava a vender selos do Socorro Vermelho e viria a pertencer ao Partido Comunista Português. 

[José Maria Soares Borrego || Fotografia de 14/04/1947 || ANTT || RGP/17439]

Na década seguinte, em Julho de 1946, integraria a Comissão Central do MUD - Juvenil, sendo preso em 1947, ao mesmo tempo que era um dos apoiantes masculinos da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz. 

[João Esteves]