[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

domingo, 5 de janeiro de 2020

[2242.] ANTÓNIO GERVÁSIO [I] || PRESO EM 1947, 1960 E 1971

* ANTÓNIO JOAQUIM GERVÁSIO *
[N. 25/02/1927]

Filho de uma família pobre, militante do Partido Comunista desde 1945, preso três vezes (1947, 1960 e 1971), espancado em tribunal e barbaramente torturado pela PIDE, sofrendo a tortura do sono durante cerca de 400 horas aquando da última prisão, em 1971, António Gervásio foi um principais activistas da reivindicação das oito horas de trabalho para os operários agrícolas do Sul, conquista histórica alcançada em 1962, e um dos obreiros da Reforma Agrária após Abril de 1974.

[António Gervásio || 1947 [?] || in Histórias da Clandestinidade || Edições Avante!, 2016]

Filho mais velho de Josefa Maria Vedoria e de Francisco José Gervásio, um casal muito pobre de assalariados agrícolas com oito filhos, António Joaquim Gervásio nasceu em 25 de Fevereiro de 1927, em Montemor-o-Novo, no Monte da Regadia [a ficha prisional indica como data de nascimento 10 de Março].

Não frequentou a Escola e só aos 14 anos, quando já trabalhava, pôde aprender a ler. Em 1945, mal feitos os 18 anos, aderiu ao Partido Comunista por intermédio de José Adelino dos Santos, assassinado anos mais tarde, em 23 de Junho de 1958, pela GNR. Começou por distribuir o Avante! e a destacar-se nas comissões de unidade criadas nas praças de jorna.

Preso, pela primeira vez, na noite de 14 de Junho de 1947, ano em que começava a estar muito activo na reivindicação das 8 horas para os operários agrícolas, «por aliciamento às greves rurais». Na sequência de uma greve às ceifas, reivindicando-se 30 escudos diários para os homens e 20 para as mulheres, António Gervásio, que integrava os comités de greve e preparava-se para participar num plenário / reunião alargada de ceifeiros, perto da Torre da Gadanha, seria detido pela GNR. Foram presos os primeiros dez trabalhadores a chegar e levados para o posto de Montemor. Interrogado pela Guarda e, depois, pela PIDE, todo o grupo foi levado para Caxias, onde ficou cerca de cinco meses, desde 17 de Junho a 20 de Novembro: António Jacinto Patrão; António Joaquim Gervásio; António Vicente Calção; Custódio Joaquim Sequeira; Ernesto Joaquim Gomes; Jacinto Joaquim Vidigal; José Cabecinha; José Manuel Roque; Luís José Patrão.

Condenado, em 10 de Novembro de 1947, juntamente com os restantes companheiros, a cinco meses de prisão pelo Tribunal Plenário da Boa-Hora, António Gervásio saiu em liberdade em 20 de Novembro por a pena já estar cumprida.

Chamado para a inspecção militar quando estava preso, iniciou, no ano seguinte, o cumprimento dos 16 meses do serviço militar, assentando praça no Quartel de Infantaria 16, em Évora, tendo continuando com as ligações partidárias. Apesar de não ser o seu intento inicial, regressou a Montemor-o-Novo e, na sequência da ofensiva pidesca na zona, com a prisão de dezenas de militantes comunistas, António Gervásio destacou-se na reorganização partidária local.

[António Gervásio || Histórias da Clandestinidade || Edições Avante! || 2016]

Tornou-se funcionário do Partido Comunista e entrou na clandestinidade em 1952, juntamente com a mulher, Maria Lourença Calção Cabecinha [n. 1933], e o filho recém-nascido, tendo sido convencido a vencer a natural indecisão, depois de dois anos de muita reflexão, pelos dirigentes comunistas Américo Leal e Octávio Pato.

Utilizou, durante os 22 anos de clandestinidade, o mesmo pseudónimo: Lemos. Os primeiros tempos da clandestinidade foram vividos em casas diferentes de Évora, passando, depois, por casas de muitas outras localidades a Sul do Tejo. Participou, então, na organização das lutas do proletariado agrícola e desfiles contra os períodos longos de desemprego, além tarefas de ligação ao MUD Juvenil.

Depois de ter funções partidárias nos distritos de Évora e Portalegre, passou, com alguma preocupação, para o de Beja, onde viria a ser preso pela PIDE em 8 de Agosto de 1960, aquando da terceira deslocação à cidade.

[António Gervásio || 09/08/1960 || ANTT || RGP/17678 || PT-TT-PIDE-E-010-89-17678]

Levado para a sede local da PIDE, seria nesse mesmo dia transportado para a António Maria Cardoso, «onde será barbaramente interrogado, sujeito a espancamentos, 'estátua' e tortura do sono» [Luís Godinho, O Alentejo e a Luta Clandestina: António Gervásio um Militante Comunista, Edições Colibri, 2019, p. 56]. Torturado pela primeira vez, não prestou quaisquer declarações e ficou no Aljube cerca cinco meses e meio incomunicável, em isolamento total. Voltou a ser barbaramente torturado na sede da PIDE e devolvido ao Aljube sem «ser capaz de me manter em pé» [p. 61], sendo transferido para Caxias em 31 de Janeiro de 1961.

Aquando do julgamento no Tribunal da Boa Hora, em 4 de Maio, usou da palavra para denunciar as torturas que lhe tinham sido infligidas, sendo ali mesmo espancado.

Condenado a três anos e meio de prisão maior, mais medida de segurança de internamento indeterminado, de seis meses a três anos, prorrogável, regressou a Caxias ensanguentado e com equimoses.

Em 4 de Dezembro de 1961, integrou o grupo de oito dirigentes do Partido Comunista que fugiram de Caxias no Chrysler blindado oferecido por Hitler a Salazar, conduzido por António Tereso: António Gervásio, Domingos Abrantes, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Ilídio Esteves, José Magro e Rolando Verdial.

António Gervásio retomou, novamente, a clandestinidade, instalando-se no Barreiro. 

Desde 1957 que era um dos activistas na luta pela conquista das oito horas nos campos do Sul, retomando-a após a fuga, com reuniões minuciosamente preparadas, decisões amplamente discutidas entre os operários agrícolas das mais diversas localidades e conseguindo abranger os ranchos vindos de fora, greves, manifestações e protestos. Esta reivindicação, muito antiga, recomeçou a ganhar forma naquele ano e culminou nas greves marcadas para o 1.º de Maio de 1962 e a subsequente vitória do fim do trabalho de sol a sol: «Era a primeira vez na história que os trabalhadores agrícolas saíam de casa com sol e regressavam com sol. [...] tinham deixado de ser bichos da noite.» [Luís Godinho, p. 96].

[Maria Lourença Calção Cabecinha || in Teresa Fonseca, A Memória das Mulheres. Montemor-o-Novo em tempo de ditadura || Edições Colibri, 2007]

Na sequência do sucesso das lutas em que se envolvera, passou, em 1963, a pertencer ao Comité Central do Partido Comunista. Com documentação falsa, saiu de Portugal pela zona de Chaves e fez um curso de formação política na União Soviética, país onde permaneceu cerca de um ano. Quando de regresso ao país, soube que a sua mulher fora presa, assim permanecendo por quase cinco anos e meio: de 12 de Abril de 1964 a 12 de Setembro de 1969.

A viver em Lisboa e com responsabilidades na estrutura partidária no Ribatejo e Oeste, a terceira prisão de António Gervásio aconteceu em 31 de Julho de 1971, na Marinha Grande, vítima de dois militantes do Comité Local que tinham passado a colaborar com a PIDE quando presos.

[António Gervásio || 03/08/1971 || ANTT || RGP/17678 || PT-TT-PIDE-E-010-89-17678]

Levado para o Reduto Sul de Caxias, onde a PIDE já realizava as suas torturas, foi submetido à tortura do sono durante 18 dias e 18 noites. Em 10 de Dezembro de 1971 foi transferido para Peniche. 


[António Gervásio || 03/08/1971 || ANTT || RGP/17678 || PT-TT-PIDE-E-010-89-17678]

Julgado pelo Tribunal Plenário de Lisboa em 22 de Fevereiro de 1972, seria condenado na pena global de 11 anos e 8 meses e medida de segurança de seis meses a três anos, prorrogável. 

[António Gervásio a sair de Peniche || 27/04/1974 || Fotografia de Ezequiel Santos]

Na sequência do 25 de Abril de 1974, os 36 presos do Forte de Peniche começaram a ser libertados às duas horas e trinta minutos da madrugada de 27, contando-se, entre eles, António Gervásio, então com 47 anos. É o recomeço de outras lutas, em liberdade, destacando-se na implementação e defesa da Reforma Agrária, uma reivindicação política antiga do Partido Comunista e uma aspiração dos trabalhadores agrícolas que nada tinham: «a terra a quem a trabalha».

Fontes:
ANTT, Registo Geral de Preso 17678 [António Joaquim Gervásio /  PT-TT-PIDE-E-010-89-17678].

António Gervásio, Histórias da Clandestinidade, Edições Avante!, 2016.

Luís Godinho, O Alentejo e a Luta Clandestina: António Gervásio um Militante Comunista, Edições Colibri, 2019.

[João Esteves]

sábado, 4 de janeiro de 2020

[2241.] A FUGA DE CAXIAS [I] || 4 DE DEZEMBRO DE 1961

* A FUGA DE CAXIAS || 1961 *

Em 4 de Dezembro de 1961, oito dirigentes do Partido Comunista fugiram de Caxias no Chrysler blindado oferecido por Hitler a Salazar, conduzido por António Tereso: António Gervásio, Domingos Abrantes, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Ilídio Esteves, José Magro e Rolando Verdial.

No dia 6, o Diário de Lisboa inseriu na primeira página uma pequena Nota do Dia, intitulada "O Segredo de Polichinelo".


[Diário de Lisboa || 6 de Dezembro de 1961]

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

[2240.] A FUGA DE PENICHE || 3 DE JANEIRO DE 1960

* A FUGA DE PENICHE || 1960 *

Em 3 de Janeiro de 1960, fugiram do Forte de Peniche dez dirigentes do Partido Comunista: Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério de Carvalho.

No dia 7, o Diário de Lisboa inseria, na primeira página, uma pequena notícia relativa à fuga desses presos: 


[Diário de Lisboa || 7 de Janeiro de 1960]

[João Esteves]

[2239.] NARCISO ALVES XAVIER [I] || PRESO EM 1932 (SVI) E 1934 (GREVE GERAL)

* NARCISO ALVES XAVIER *
[1900 - ?]

Filho de Maria Augusta Baptista, Narciso Alves Xavier terá nascido em 1900, em Lisboa.

Empregado no comércio em Coimbra, foi preso nessa cidade em 15 de Fevereiro de 1932, acusado de ser simpatizante comunista e estar filiado no Núcleo Regional do Socorro Vermelho Internacional, a que aderiu por intermédio de José Augusto Frutuoso [Processo 308]. Ficou em liberdade condicional.

Narciso Alves Xavier foi novamente preso em 9 de Fevereiro de 1934, também em Coimbra, por estar «implicado nos acontecimentos revolucionários de 18 de Janeiro» [Processo 1011-C].

Foi libertado em 31 de Maio de 1934 por ter sido despronunciado pelo Tribunal Militar Especial.

Fonte:
ANTT, Cadastro Político 4716 [Polícia de Defesa Política e Social, Narciso Alves Xavier / PT-TT-PIDE-E-001-CX14_m0602].

[João Esteves]

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

[2238.] MILITÃO BESSA RIBEIRO [I] || DIRIGENTE COMUNISTA NAS DÉCADAS DE 30 E 40, ASSASSINADO NA PENITENCIÁRIA DE LISBOA (1950)

* MILITÃO BESSA RIBEIRO *
[13/08/1896 - 02/01/1950]

Quando Militão Ribeiro faleceu na Penitenciária de Lisboa aos 54 anos, tinha já uma longa vida de militância comunista, primeiro no Brasil e, depois, em Portugal, tenho desempenhado cargos dirigentes nos dois países e conhecido as prisões do Aljube do Porto, Peniche, Fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, Aljube de Lisboa e, por duas vezes, o Campo de Concentração do Tarrafal.

[Militão Bessa Ribeiro || 13/07/1934 || ANTT || RGP/420 || PT-TT-PIDE-E-010-3-420]

Filho de Bárbara de Jesus e de Francisco Bessa Ribeiro, agricultores, Militão Bessa Ribeiro nasceu em 13 de Agosto de 1896, na Freguesia e Concelho de Murça - Vila Real.

Emigrou para o Brasil aos 13 anos e aí permaneceu até ser considerado "indesejável" pela Ditadura de Getúlio Vargas, por militar no Partido Comunista do Brasil ainda antes de Luís Carlos Prestes se tornar seu militante e dirigente, trabalhando como marçano e, depois, operário têxtil.

Expulso daquele território no início dos anos 30, viajou amarrado no porão do navio que o transportou, com a indicação de ser entregue à polícia portuguesa no porto de Leixões. No entanto, com o auxílio de um marítimo, conseguiu fugir quando o barco aportou em Lisboa, refugiou-se na sua terra, onde deixou marcas políticas e culturais, e passou a militar no Partido Comunista Português

Quando alfaiate em Murça, de onde era natural, Mário José de Barros conviveu na década de 30 com Militão Ribeiro, nascido na mesma terra. Influenciado pelas suas ideias, Mário José de Barros foi preso em 1935 por propaganda contra a Ditadura Fascista e reencontrou-o no Aljube e em Peniche.

Desse duplo convívio com Militão Ribeiro, Mário José de Barros terá recebido vários livros que fez circular clandestinamente naquela localidade durante as décadas de 30 e de 40, sendo provavelmente através deste que o historiador António Borges Coelho, expulso do Seminário em Maio de 1945 e de regresso a Murça, de onde também era natural, terá tomado contacto com Carlos Marx, de Max Beer, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed, ou O Estado e a Revolução, de Lenine

[Militão Bessa Ribeiro || 13/07/1934 || ANTT || RGP/420 || PT-TT-PIDE-E-010-3-420]

Em 13 de Julho de 1934 foi preso no Porto, acusado de pertencer ao Socorro Vermelho Internacional, agremiação a que tinha aderido por intermédio de Lino Teixeira Pinto: nesse âmbito, trabalhou com Antero Moreira [Processo 334/Delegação do Porto]. 

Julgado no Tribunal Militar Especial em 6 de Abril de 1935, foi condenado a 12 meses de prisão e, em 20 de Abril, seguiu do Aljube do Porto para Peniche.

Acusado de insubordinação, e quando estava prestes a cumprir a pena a que fora condenado, Militão Ribeiro embarcou, em 8 de de Junho de 1935, com destino à Fortaleza de S. João Baptista - Angra do Heroísmo e, em 29 de Outubro de 1936, integrou a leva de presos políticos que inaugurou o Campo de Concentração do Tarrafal.

Regressou de Cabo Verde em 15 de Julho de 1940 e participou na reorganização do Partido Comunista, integrando o seu primeiro secretariado, juntamente com Júlio Fogaça e Manuel Guedes.

[Militão Bessa Ribeiro || 15/07/1940 || ANTT || RGP/420 || PT-TT-PIDE-E-010-3-420]

Novamente preso em 22 de Novembro de 1942, ficou detido no Aljube de Lisboa, só sendo julgado pelo Tribunal Militar Especial em 5 de Abril de 1944. 

Condenado a 4 anos de prisão, embarcou, em 26 de Julho, para o Campo de Concentração do Tarrafal. Abrangido pela amnistia de Agosto de 1945, foi libertado em 16 de Novembro e feita a sua apresentação à Polícia, em Lisboa, em 6 de Dezembro.

Regressou à militância activa, integrando, com Álvaro Cunhal, José Gregório e Manuel Guedes, o Secretariado do Partido Comunista. Participou, em Novembro de 1946, no II Congresso Ilegal, tendo sido eleito para o Comité Central e respectivo Secretariado.

[Militão Bessa Ribeiro || 1949 || ANTT || RGP/420 || PT-TT-PIDE-E-010-3-420]

A terceira, e fatal, prisão aconteceu em 25 de Março de 1949, no Luso. A casa clandestina de Macinhata do Vouga - Sever do Vouga, onde vivia com Luísa Rodrigues, fora detectada e a sua companheira presa em 10 de Fevereiro, tendo Militão Ribeiro conseguido escapar e, perseguido, refugiado-se na casa do Luso habitada por Álvaro Cunhal e Sofia Ferreira.

[Militão Bessa Ribeiro || ANTT || RGP/420 || PT-TT-PIDE-E-010-3-420]

Levado para o Porto, onde já se encontrava detida Luísa Rodrigues, Militão Ribeiro passou para a Penitenciária de Lisboa em 10 de Maio. 

Aí faleceria em 2 de Janeiro de 1950, depois de enorme sofrimento  físico e psíquico, acusando, através de testemunhos orais e em missivas escritas, a PIDE de ter negligenciado os cuidados médicos e envenenado os alimentos que lhe eram dados, com o propósito de o assassinar.

[Cadáver de Militão Bessa Ribeiro]

Quando morreu, Militão Ribeiro pesava 32 quilos!

O funeral realizou-se em 12 de Janeiro de 1950, seguindo o corpo directamente do Instituto de Medicina Legal para Murça. Estiveram presentes centenas de pessoas, tendo Ruy Luís Gomes discursado junto à sua campa.

José Luís Borges Coelho, em testemunho publicado em O Mundo que vivi ["Os socos "contra o medo" no funeral de Militão Ribeiro", Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 2019], evoca a emotividade dessa cerimónia fúnebre.

NOTA: Agradeço, pela enorme relevância da investigação inédita, a preciosa informação de Jorge Rezende do artigo por ele publicado na revista Vértice sobre os anos de Militão Ribeiro no Brasil e cuja referência bibliográfica se encontra em https://www.researchgate.net/publication/374000490_Militao_de_Bessa_Ribeiro_Os_anos_do_Brasil : "Factos pouco conhecidos da vida de Militão de Bessa Ribeiro, desde o seu nascimento, em 1896, até ao seu julgamento, em 1935, são o tema deste artigo. Emigrante no Brasil desde muito jovem, operário tecelão, futebolista e dirigente desportivo, sindicalista e dirigente sindical, comunista e dirigente do Partido Comunista do Brasil são facetas deste homem notável, bem-parecido e jovial, um revolucionário cuja vida foi tão bela como trágica."


[João Esteves]

[2237.] NARCISO FERREIRA JORGE [I] || DEPORTADO PARA TIMOR (1931)

* NARCISO FERREIRA JORGE *
[1891 - ?]

DEPORTADO PARA TIMOR POR TER PARTICIPADO NA REVOLTA DE 26 DE AGOSTO DE 1931

[Navio "Pedro Gomes" que, em 2 de Setembro de 1931, transportou 358 deportados políticos para Timor]

Filho de Eufémia Ferreira e de José Maria Ferreira Jorge, Narciso Ferreira Jorge terá nascido em 1891, na Figueira da Foz.

Carpinteiro, foi preso uma primeira vez em 23 de Abril de 1928, «por tentar ocultar bombas nuns buracos que para isso fez» [Processo 3664], tendo sido libertado em 8 de Maio.

Quando residia na Rua Tomás da Anunciação - Vila Bonito, foi novamente preso em 26 de Agosto de 1931, «acusado de ter tomado parte no movimento revolucionário deste dia» contra a Ditadura [Processo 192].

Preso por um aspirante a oficial da Escola Militar, que o conduziu ao Batalhão de Caçadores 5, foi entregue à Polícia Política e deportado uma semana depois para Timor.

Em 2 de Setembro de 1931, Narciso Ferreira Jorge integrou o grupo de 358 deportados políticos que embarcou no navio "Pedro Gomes". Nele, seguiam os principais chefes militares da revolta de 26 de Agosto, tendo o barco navegado pelo Mar Mediterrâneo, atravessado o Canal do Suez e chegado a Dili em 16 de Outubro, sem fazer qualquer escala nas colónias portuguesas.

Abrangido pela amnistia de 5 de Dezembro de 1932, Narciso Ferreira Jorge foi autorizado a regressar à metrópole, tendo desembarcado em Lisboa em 9 de Junho de 1933.

Apresentou-se à Polícia Política em 12 de Junho, indo residir para a Rua de Campo de Ourique, Pátio do Luso - Barraca N.º 1.

Fonte:
ANTT, Cadastro Político 3193 [Narciso Ferreira Jorge / PT-TT-PIDE-E-001-CX14_m0607].

[João Esteves]

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

[2236.] JOSÉ ARTUR DOS SANTOS CARDOSO [I] || ASSALTO AO QUARTEL DE BEJA - 1962

* JOSÉ ARTUR DOS SANTOS CARDOSO *
[10/12/1932 - 19/07/1982]

[José Artur dos Santos Cardoso || 03/08/1965 || ANTT || RGP/25049 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

O esboço biográfico de José Artur dos Santos Cardoso, preso por ter participado, na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, no Assalto ao Quartel de Beja, só foi possível a partir do rigoroso livro José António Cabrita A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça [Câmara Municipal de Palmela, 2017], sendo que as informações apresentadas e documentação referida têm por suporte aquela obra.

[José António Cabrita || 2017 || Câmara Municipal de Palmela]

Filho de Jesuína dos Santos e de Artur dos Santos Cardoso, José Artur dos Santos Cardoso nasceu na Moita em 10 de Dezembro de 1932.

Pintor, integrava os quadros do Barreiro da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses - CP.

A viver em Pinhal Novo aquando do Golpe de Beja, integrou o «comando Serra» [p. 95], teve «lugar de certo destaque nas acções de planeamento e de recrutamento» e foi em sua casa que ocorreram reuniões conspirativas, tendo aí pernoitado algumas vezes o amigo Manuel Serra.

[José Artur dos Santos Cardoso || 03/08/1965 || ANTT || RGP/25049 || in José António CabritaA PIDE em Pinhal Novo]

Implicado nas três tentativas de assalto ao quartel de Beja, seria preso pela PIDE em 30 de Março de 1962 e, pelo menos, interrogado em 3 e 7 de Abril. Permaneceu no Aljube cerca de uma semana e, em 6 de Abril, seguiu para Caxias, só sendo julgado em 29 de Julho de 1964. Condenado a 2 anos anos e um mês, passou para o Forte de Peniche em 25 de Setembro. 

[José Artur dos Santos Cardoso || 03/08/1965 || ANTT || RGP/25049 || in José António CabritaA PIDE em Pinhal Novo]

José Artur dos Santos Cardoso só saiu em liberdade vigiada em 31 de Julho de 1965, obtendo liberdade definitiva em 28 de Janeiro de 1971.

Faleceu em 19 de Julho de 1982, com 49 anos.

Fonte:
José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça, Câmara Municipal de Palmela, 2017, pp. 95-108.

[João Esteves]

[2235.] JOSÉ FERREIRA DA SILVA [I] || ASSALTO AO QUARTEL DE BEJA - 1962

* JOSÉ FERREIRA DA SILVA *
[29/09/1933 - 15/04/1986]

Este esboço biográfico de José Ferreira da Silva, preso por ter participado, na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, no Assalto ao Quartel de Beja, só foi possível a partir do rigoroso livro José António Cabrita A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça [Câmara Municipal de Palmela, 2017], sendo que as informações apresentadas e documentação referida têm por suporte aquela obra.

[José Ferreira da Silva || 13/03/1965 || ANTT || RGP/25059 || in José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo]

Filho de Inês Soares Ferreira da Silva e de João Ferreira da Silva Júnior, José Ferreira da Silva nasceu na Guiné, em 29 de Setembro de 1933, onde o pai trabalhava como agricultor.

[José António Cabrita || 2017 || Câmara Municipal de Palmela]

A família fixou-se em Pinhal Novo, tendo a mãe trabalhado no consultório do médico Manuel Veríssimo da Silva, também ele preso pela PIDE na sequência dos acontecimentos de 1 de Janeiro de 1952.

Ainda não tinha 15 anos quando foi admitido nas oficinas do Barreiro da CP como aprendiz eventual. Quase a completar os 22 anos, quando cumpria o serviço militar no Batalhão de Sapadores de Caminhos-de-ferro, concluiu o Ensino Primário Elementar (Agosto de 1955).

Regressado à CP, foi despedido em 3 de Junho de 1958, acusado de se ter ausentado sem motivo.

Desempregado, foi aliciado, pelo amigo José Artur dos Santos Cardoso, para participar no assalto ao quartel de Beja no último dia do ano de 1961.

Conheceu, nesse mesmo dia, Manuel Serra, Edmundo Pedro e Gualter Basílio, tendo partido num carro para Beja juntamente com os dois últimos e João Manuel da Silva Martins, primo de José Artur.

Durante o tiroteio ocorrido durante o assalto, fugiu do quartel com outros e encontrou uma furgoneta onde já estavam Amadeu Gonçalves de Almeida Ferrão, António Vieira Franco e outro indivíduo, todos implicados no caso. Sem ninguém que lhes prestasse apoio no Algarve, o grupo dirigiu-se para Beja e, perante o fracasso da acção, todos regressaram a casa, tendo José Ferreira da Silva saído em Setúbal e apanhado o comboio para Pinhal Novo.

[José Ferreira da Silva || 13/03/1965 || ANTT || RGP/25059 || in José António CabritaA PIDE em Pinhal Novo]

Preso em 11 de Abril de 1962, metido nos curros do Aljube e interrogado, em 3 de Maio por Álvaro Pereira de Carvalho e Sílvio Mortágua, foi levado para Caxias no dia 4.

[José Ferreira da Silva || 13/03/1965 || ANTT || RGP/25059 || in José António CabritaA PIDE em Pinhal Novo]

Em 25 de Maio, foi posto à ordem do Tribunal Militar Territorial de Lisboa, sendo julgado só no ano seguinte, em 29 de Julho.

Casou na prisão de Caxias,  em 3 de Dezembro de 1963, com Palmira da Silva Reis Neto, com quem já vivia.

Julgado em 29 de Julho de 1964, tendo por advogado Eduardo Fernandes, foi condenado a dois anos de prisão maior, suspensão de direitos políticos por 15 anos e medida de segurança de liberdade vigiada durante 2 anos. Saiu em liberdade condicional em 12 de Março de 1965, por decisão do 2.º Juízo Criminal de Lisboa A liberdade definitiva só chegaria em 25 de Maio de 1970.

Segundo testemunho de sua mulher a José António Cabrita, «ele não sabia ao que ia» tendo sofrido muito na prisão: «não o deixavam dormir e que o metiam numa sala com água a cair» [p. 115].

Libertado, trabalhou em Torres Vedras, na Fábrica Hipólito e, depois, no Hotel da Ericeira. Após 25 de Abril de 1974, o casal regressou ao Pinhal Novo, trabalhando na Setenave.

Faleceu aos 52 anos, em 15 de Abril de 1986, no Hospital de S. José.

Fonte:
José António Cabrita, A PIDE em Pinhal Novo. Para que a memória não esmoreça, Câmara Municipal de Palmela, 2017, pp. 109-117.

[João Esteves]

[2234.] O ASSALTO AO QUARTEL DE BEJA [I] || MANUEL DE MELO GARRIDO [I]

* MANUEL DE MELO GARRIDO *
[11/06/1915 - 10/03/1989]

O assalto ao Quartel de Beja (na primeira madrugada de 1962) || A reportagem que faltava escrever

Edição do Autor || Outubro de 1982

Jornalista do Diário do Alentejo, onde foi repórter, redactor, chefe de redacção e director, Manuel de Melo Garrido [1915 - 1989] escreveu, antes e depois de Abril de 1974, sobre O assalto ao quartel de Beja, ocorrido na madrugada do primeiro dia do ano de 1962.

Vinte anos depois dessa tentativa fracassada de pôr termo à Ditadura, Manuel de Melo Garrido publicou este livro, ampliando as reportagens anteriormente realizadas para o Diário do Alentejo, nomeadamente as datadas de início de 1975.

[Manuel de Melo Garrido || Edição do Autor || 1982]

[João Esteves]

domingo, 29 de dezembro de 2019

[2233.] NARCISO LUÍS MACHADO GUIMARÃES [I] || PRESO EM 1931, 1936 E 1937

* NARCISO LUÍS MACHADO GUIMARÃES *
[05/06/1908 - 1969]

Filho mais novo de Elzira Dantas Machado [1865 - 1942] e de Bernardino Machado [1851 - 1944], Narciso Machado foi preso em 1931, em 1936 e em 1937, quando era estudante de Direito. Conheceu os calabouços da Penitenciária de Lisboa [1931], de Peniche [1936] e do Aljube [1937].

[Narciso Luís Machado Guimarães || ANTT || RGP/4336 || PT-TT-PIDE-E-010-22-4336]

Filho do Presidente da República deposto pelo Golpe Militar de 28 de Maio de 1926, Narciso Machado nasceu em 5 de Junho de 1908, em Lisboa.

Em 28 de Abril de 1931, quando era quintanista de Direito, participou no grande movimento estudantil desencadeado nesse final de mês contra a Ditadura, abrangendo as Academias do Porto, Coimbra e Lisboa.

Segundo o primeiro dos seus dois Cadastros Políticos [ANTT, Cadastro Político 3070; Processo s/n.º], residia na Cruz Quebrada, no Castelo de Santa Catarina, foi detido por ser «um dos instigadores à greve projectada para o dia 1.º de Maio» e levado para a Penitenciária de Lisboa, saindo em liberdade no dia 7 de Maio.

[Narciso Luís Machado Guimarães || ANTT || RGP/4336 || PT-TT-PIDE-E-010-22-4336]

Em 4 de Setembro de 1936, quando vivia na Rua Gomes Freire - 189, Narciso Luís Machado Guimarães foi preso pela PSP e entregue, em 14 do mesmo mês, à Secção Política e Social da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado por, juntamente com o irmão Bento Luís Machado Guimarães [1903 - 1976] e outros «por terem andado num automóvel de praça por várias artérias desta cidade, dando vivas ao comunismo» [ANTT, Cadastro Político 6095; Processo 2021].

[Narciso Luís Machado Guimarães || ANTT || RGP/4336 || PT-TT-PIDE-E-010-22-4336]

Detido na 1.ª Esquadra e transferido para a Fortaleza Militar de Peniche em 18 de Setembro, saiu em liberdade em 4 de Dezembro.

Detido pela terceira vez pelo Comando da PSP de Lisboa, Narciso Machado entrou na Secção Política e Social da PVDE em 31 de Janeiro de 1937, recolheu à 1.ª Esquadra e seguiu para o Aljube em 2 de Fevereiro e aí permaneceu até 31 de Maio.

Fontes:
ANTT, Cadastro Político 3070 [Narciso Machado / PT-TT-PIDE-E-001-CX14_m0610].

ANTT, Cadastro Político 6095 [Narciso Luís Machado Guimarães / PT-TT-PIDE-E-001-CX14_m0609].

ANTT, Registo Geral de Presos 4336 [Narciso Luís Machado Guimarães / PT-TT-PIDE-E-010-22-4336].

[João Esteves]

sábado, 21 de dezembro de 2019

[2229.] ALBANO DA ROCHA PATO [II] || BALADAS DE COIMBRA - JOSÉ AFONSO (1962)

* ROCHA PATO *
[1923 - 1983]

Produtor e autor da fotografia da capa e do texto do disco Baladas de Coimbra (1962), de José Afonso



[João Esteves]

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

[2228.] ALBANO DA ROCHA PATO [I] || UMA LUZ NO MAR (2019)

* ROCHA PATO *
[1923 - 1983]

UMA LUZ NO MAR

 Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto || Novembro de 2019


Jornalista, fotógrafo prestigiado e premiado, produtor dos três primeiros discos de baladas de José Afonso e responsável pelas suas capas, Albano da Rocha Pato [25/09/1923 - 01/04/1983], nome indissociável da vida jornalística e cultural coimbrã, deixou, também, pequenos contos destinados à transmissão radiofónica e que a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da qual foi sócio até à sua morte, agora publicou, com texto introdutório de Júlio Roldão («Ouvindo "Uma Luz no Mar"»).

Oriundos de famílias republicanas, militantemente opositoras à Ditadura e conhecendo exílios e prisões políticas, foi através do convívio do meu avô com Rocha Pato na livraria de Coimbra de O Primeiro Janeiro, onde Carneiro Franco trabalhava, que os discos de José Afonso da primeira metade da década de 1960 - Baladas de Coimbra (1962, 1963) e Baladas e Canções (1964) - chegaram a casa dos meus pais, já em Lisboa, e passaram a integrar a formação musical e política dos mais novos.

Obrigado à Manuela Espírito Santo por mais esta leitura!


[João Esteves]

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

[2227.] CADERNOS DE CULTURA DEMOCRÁTICA [I] || COMÍCIO DE 22 DE OUTUBRO DE 1969

* COMISSÃO DEMOCRÁTICA DO PORTO || COMÍCIO DE 22 DE OUTUBRO DE 1969 *


INTERVENÇÕES DE: 
Alberto Teixeira de Sousa
Armando Bacelar
Armando Cotta
Armando de Castro
Joaquim Felgueiras
João Maia
Óscar Lopes
Papiniano Carlos
Virgínia Moura